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terça-feira, 16 de novembro de 2010

O exímio fantasista




Invariavelmente pitoresco e sedutoramente colorido, busca referências do passado no sótão das suas memórias, descreve fervores políticos e gentes bizarras, é interventivo socialmente, revela os apelos da sexualidade e tão depressa flutua numa doce áurea de romantismo como imediatamente resvala para a obscenidade.





Sim, seria deveras reconfortante que o parágrafo acima descrevesse a minha ziguezagueante actividade aqui na casa. Mas não, é de Fellini e do seu incontornável «Amarcord» (1973) que falo.

 
 




quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Herói sem Estrela



Julgo que tinha acabado de chegar à idade adulta quando tive a feliz oportunidade de assistir em sessão privada a «O Comboio Apitou Três Vezes». Desde então, uma cena do filme – um western com uma carga psicológica profunda e de certo modo em rompimento com os cânones de então do género – ficou-me retida na mente através do profundo respeito que senti pelo Xerife Will Kane.



Kane é o Xerife da cidade de Hadleyville. São 10.30 da manhã e no comboio prestes a chegar à cidade viaja um fora-da-lei anteriormente condenado à prisão através da sua acção de agente da autoridade. Enquanto os figurões do pequeno burgo e restante população se acobardam e abandonam o local, um irmão e dois cúmplices já aguardam na estação pela chegada do bandido sedento de vingança. Só, tremendamente só, Kane desobedece aos apelos até da própria mulher e decide enfrentar o perigo. Ás 12.15 horas já tudo acabou tendo conseguido derrotar os marginais. À vista da cidade que acorre a si para o felicitar, Kane, impassível, silencioso, retira do peito a estrela de Xerife e atira-a ao chão com sintomática indiferença renunciando ao cargo. E é este o momento chave do filme, a cena invejável para a qual é necessária uma coragem digna de um ser humano grandioso, o gesto que persiste em me invadir o subconsciente.



Naquele momento, ao atirar a estrela de Xerife ao chão e renegar o estatuto de herói, Kane demonstra toda a solidão de um homem a viver acima das suas forças em nome de um colectivo cobarde e oportunista que o não merece. O que Kane faz, no fundo, é retomar o seu papel na sociedade assumindo a fragilidade do ser humano incapaz de continuar a cumprir uma tarefa que o desgasta a si e que se revela apreciável apenas ao olhar alheio. Na altura vi o gesto de Will Kane como algo de exultante que me agitou ideais e fez rever preconceitos. Mas hoje, tantos anos passados sobre a primeira visão do filme, penso na personagem protagonizada por um Gary Cooper admirável e sinto-me pequeno perante a grandeza da sua atitude. Para agravar ainda mais a questão, observo como cada vez mais ridícula uma sociedade – a actual – onde este tipo de homens não tem lugar. O destaque de hoje, sabemo-lo bem, vai inteirinho para uma bem definida classe de vencedores.

domingo, 31 de outubro de 2010

Cinema choque





Cinema Choque





O melhor do cinema europeu sempre esteve, e estará, na forma como intervém na sociedade sem no entanto, no meu entender, poder ser redutora e objectivamente apelidado de um cinema de causas. Não raras são as vezes em que um cinema com estes sintomas de subversão da realidade e dramatização quase caricatural dos factos no propósito de deixar aos outros margem para escolha de uma verdade, se torna de tal modo exigente que o que julgamos ver está muito longe daquilo que nos é dado ver.



Em «O Juiz e o Assassino» (1976) um desaire amoroso vai fazer de um antigo sargento de infantaria um ser perdido, de mentalidade simplória, que vagabundeia entre aldeias violando pastores e pastoras. Será julgado e condenado e o próprio Juiz que lhe dita a sentença irá sodomizar a sua companheira. Claro que o realizador francês Bernand Tavernier seguiu de perto um caso verídico ocorrido nos finais do Séc. XIX. Mas executa de tal forma uma manipulação de dados à sua maneira que é notório o seu menor interesse nos factos em si em detrimento da matéria que gerará a discussão. E mesmo que esta matéria choque os espíritos mais sensíveis é imperioso que os pensadores das imagens continuem a executar o seu trabalho

O Estranho Caso de Benjamin Button







Quando assisti ao filme «O Estranho Caso de Benjamin Button», confesso que ainda não tinha lido o livro de Francis Scott Fitzgerald, adaptado por David Fincher ao cinema. E arrisco dizer que ainda bem, pois a minha reacção ao trabalho de Fincher teria sido bem menos entusiástica. Na verdade, há em «O Estranho Caso de Benjamin Button» uma diferença clara e fundamental entre a literatura e o cinema. Isto porque a escrita se socorre da história insólita de um homem que nasce velho até desaparecer como bebé para ilustrar a fragilidade do amor e das paixões, que, por maiores que possam um dia ter sido, chegam a desaparecer de forma trágica se não apenas para um de modo igual para os dois elementos do par amoroso. Já o filme fica preso à disparidade temporal entre os dois amantes como se o desencontro amoroso passasse apenas por aí. E esta não é uma diferença pouco importante. Trata-se de uma questão de verosimilhança com a realidade já que acreditamos piamente naquilo que Fitzgerald nos quer transmitir, enquanto a ideia negativa de ficção está irremediavelmente presente na realização de David Fincher. Isto pese toda a carga emocional que o filme possa despejar em nós

O Cinema na Abordagem aos Homens e Mulheres Portadores de Algum Tipo de Deficiência





Ao reflectir um pouco sobre a questão, chego à conclusão que o cinema abandonou ligeiramente as histórias sobre pessoas com deficiências físicas ou mentais em busca do seu lugar na sociedade. Talvez porque hoje por hoje haja também por parte do cinema um esforço de integração dessas pessoas na referida sociedade evitando tratá-las de forma diferente, ou, então, por questões ligadas ao próprio cinema como o será o facto do chamado overacting estar um pouco fora de moda. E filmes do género são propensos a uma abordagem algo excessiva por parte dos actores.



De tal modo assim é que, puxando pela memória, quase tem que se retroceder até Encontro de Irmãos (com Tom Cruise e Dustin Hoffman) ou mesmo Forrest Gump (Tom Hanks) para encontrarmos cinema centrado nessa temática. O também conhecido I Am Sam – A Força do Amor (Sean Penn) é mesmo um dos exemplos mais recentes que se consegue encontrar.



Ainda assim, A. I. – Inteligência Artificial (de Spielberg) é um filme futurista que se pode enquadrar no género. Nele temos um menino, que é afinal um robô, em busca de se tornar igual aos outros meninos, em busca do amor de mãe. Tal como Pinóquio buscava o amor de pai. Em Spider (de Cronenberg) temos alguém acabado de sair de um hospital psiquiátrico atormentado por uma infância dramática. Mas talvez este seja um filme demasiado complexo para um público ainda bastante jovem. Já Vida Interrompida (com Angelina Jolie e Winnona Ryder) parece retratar uma história interessante e motivadora para o público em causa. O argumento desenvolve-se numa instituição psiquiátrica um pouco ao jeito do clássico Voando Sobre um Ninho de Cucos (Jack Nicholson) mas actualizado nos cenários e adaptado a um universo feminino.



A Estação (ninguém conhecido) é cinema alternativo que conta a vida de um anão a querer fazer vingar a tese de que os homens não se medem aos palmos e Uma Mente Brilhante (com Russel Crowe) é popular e bastante pertinente até porque foi baseado numa história de vida verídica. Há ainda um filme comovente, O Grande Peixe (do genial Tim Burton), que nos narra a odisseia de um homem considerado louco mas talvez mentalmente bem mais são que os designados de saudáveis. Em À Espera de Um Milagre (com Tom Hanks e do Frank Darabont) um negro grande fisicamente mas com mente de criança mostra quão tortuosos podem ser os caminhos da justiça e que há razões que a própria razão se recusa a explicar. E, depois, temos ainda o colorido Nemo, aquele peixinho famoso que tinha uma barbatana deficiente mas que teimou em mostrar ao pai a sua auto-suficiência.



Relembre-se ainda o filme da vida de muito boa gente, Eduardo Mãos de Tesoura (saído igualmente da genialidade de Tim Burton), o muito bom O Meu Pé Esquerdo (com o excelente Daniel Day-Lewis) na história de um tetraplégico a comunicar com o pé, Filhos de um Deus Menor (com William Hurt) no registo surdo-mudo de uma mulher apaixonada e, por último, Kids (de Larry Clarke) que relata a inconsciência louca de uma juventude irreverente e suicida.

A Crítica e o Confronto de Ideias



Tempo houve em que era meu costume aconselhar os filmes de que gostava a todos os meus amigos e conhecidos. Mas com o ganho de maturidade, vamos percebendo que os diferentes percursos de vida, as experiências distintas, questões sociais, morais, ideológicas e a própria formação pedagógica de cada um e outros pormenores de carácter definidores da individualidade são quem determina o gozo que se tem a ver um determinado filme. Isto pese continuar a existir bom e mau cinema, independentemente do que se afirma atrás, e filmes há em que a dissonância de opiniões é grande e da polémica que se gera não se possa afirmar que este ou aquele é dono da razão. Tem tudo a ver, para além do já afirmado, com opções por diferentes tipos de propostas de cinema. Uns, opções de estética e conteúdo mais radicais, outros, por ventura mais consensuais, de sensibilidade mais abrangente.



Daí que continue a fazer sempre esta pergunta: por que é que ainda há tanta gente a ficar ofendida porque A disse mal do filme que B adorou?

Acredito que a troca de argumentos ou, dito de outra forma, o debate de opiniões, é sempre positiva. E muitas vezes, algumas delas até de modo muito improvável, somos confrontados com uma visão oposta que nos leva a questionar os fundamentos que nos levaram a formar a nossa própria opinião. A crítica, seja ela de livros, de pintura, de cinema, etc., é sempre positiva. Desde que realizada de forma honesta e bem fundamentada. E há que não esquecer que o alvo da crítica é sempre o objecto artístico e não o leitor. Quer isto dizer que quem opina pretende ser justo com o filme, no caso do cinema, e não, nem poderia, (somente) agradar a quem o lê.

Relembrando o Calor da Discussão – Dogville

O Polémico Realizador Dinamarquês Lars von Trier

No meu regresso à cidade, olho o Cartaz de Cinema e constato que «Dogville» (2003), filme tido, por muitos, como obra maior na filmografia do cineasta dinamarquês Lars von Trier, se encontra em cena num Ciclo Especial de Cinema a decorrer algures no nosso país. O acaso leva-me a recordar como foi atacada, na altura, a minha clara rejeição do cinema que se observa em “Dogville”. Quer através de desagradáveis e-mails que recebi, quer em fóruns de cinema.



Não há que evitá-lo e acontece amiúde. Determinado filme vira objecto de culto para muitos quando se trata de matéria de repulsa (não, não exagero na expressão) para outros. Isto, pese a separação que deve ser feita entre o virtuosismo técnico de que Lars von Trier neste filme mais uma vez prova ser detentor (o que não nego, nem poderia) e o já recorrente em si (recorrente ou obsessivo?) tema de fundo que caracteriza o filme: a sua visão trágica, diria mesmo azeda, da essência humana. Não contente com isso, o cineasta dinamarquês ambientou essa sua doentia percepção do homem aos EUA numa época difícil para o seu povo (o 11 de Setembro de 2001 ainda estava bem fresco nas nossas memórias). A mim pareceu-me que von Trier não só destapara a ferida como se lançara sobre ela disposto a remexê-la, a causar dor. E isso, confesso, desagradou-me sobremaneira sabendo eu que nessa intenção nada havia de ingénuo.



Mas não foi só. É que curioso foi igualmente perceber que o tão exaltado brilhantismo da sua abordagem formal ao filme, que chegou a ser apelidada de cinema do futuro, assenta numa ‘mise en scène’ que tem tudo a ver com o teatro e quase nada com o cinema. Assim, o espectador é convidado a efectuar uma viagem que cinematograficamente o não leva a parte alguma e de toda a desintegração de valores a que assistimos sobressai apenas um egocêntrico Lars von Trier como figura máxima desse existencialismo negativista.



Apesar de tudo, «Dogville» não é um filme para se odiar. Nicole Kidman – sobretudo ela, Ben Gazzara e companhia acabaram por retirar, com as suas estupendas interpretações, mais esse pequeno prazer ao controverso realizador que viu gorada a sua subjacente provocaçãozinha. Afinal, prova-se que ao contrário do provérbio também há bens que vêm por mal.





[Esclareça-se que nada me move contra o senhor; Ondas de Paixão (1996) do mesmo Lars von Trier, até faz parte do lote dos meus filmes preferidos.]

Dos Mistérios da Vida, Os Insondáveis e Maquiavélicos Desígnios da Mente






AINDA A REALIDADE VERSUS FICÇÃO





No texto anterior, falava-se textualmente em como não raras vezes a realidade pode ultrapassar a ficção na suposta improbabilidade dos factos. Ou, dito de outro modo, em como determinados acontecimentos de tão chocantes, de tão surpreendentes, dificilmente poderiam sair da imaginação do ficcionista. Assim, talvez valha a pena esticar um pouco mais a manta da questão.





OS INDESCRÍTIVEIS FACTOS



Durante o ano de 1993, desde França para o mundo, a notícia causou estupefacção e incredulidade ao relatar os pormenores sórdidos da inacreditável história de vida (e de morte) de Jean-Claude Romand. Em traços gerais, um homem tornara-se refém da sua própria essência dominada pela cobardia quando após mentir durante 18 longos anos à sua família e amigos não aguentou mais o pesado fardo do embuste em que vivia e, incapaz de lhes confessar a cruel verdade, acabou por assassinar os filhos, a mulher e os pais.



Tudo começara nos tempos da universidade. Aí, enquanto estudante de medicina, Romand cometera um erro grave e não mais terminaria a licenciatura. Escondida a dura verdade de todos quantos o rodeavam, tornou-se então para os que o circundavam no pai extremoso, no marido atento e carinhoso, no médico com um importante cargo de investigador na ONU. Entretanto, (sobre)vivia de esquemas e falsidades, refugiava-se em hotéis de beira de estrada, parques de estacionamento, áreas de serviço e embrenhava-se no interior dos densos bosques existentes entre a Suiça e a França. Romand tornara-se prisioneiro da sua própria incapacidade de lidar com a verdade, tornara-se um cobarde miserável. Um homem fraco que não se coibia de se travestir de herói à escala familiar.





O ADVERSÁRIO (2002), de Nicole Garcia com Daniel Auteil






O EMPREGO DO TEMPO (2001), de Laurent Cantet com Aurélien Recoing






O CINEMA



Por duas vezes o cinema se debruçou sobre este caso recheado de sofrimento e malvadez. Em 2001, Laurent Cantet explorou as cambiantes psicossociais do acontecido focadas no mundo do trabalho. O filme intitula-se «O Emprego do Tempo» e tornou-se num belíssimo e interessante ensaio filosófico sobre a questão. Já em 2002, Nicole Garcia atreveu-se a narrar quase fidedignamente os trágicos acontecimentos em «O Adversário», um filme que se assemelha a uma espécie de poesia do desespero. E cada um do seu modo, os dois filmes exploraram a dolorosa realidade com uma sensibilidade notável descodificando a quem os assistiu o incompreensível e tresloucado acto de Romand. Sem perdão, contudo.



As gripes também têm destas coisas





Uma gripe é sempre uma coisa arreliadora. Mais que não seja, porque normalmente traz consigo a febre e nos obriga a ficar em casa. Mas pode igualmente ser um pretexto para revermos alguns daqueles filmes de que gostámos muito mas por uma ou outra razão ficaram esquecidos na prateleira dos DVD’s. Em tempos, alguém me pediu uma pequena lista onde constassem algumas incursões do cinema às chamadas ‘crises de idade’. Ou, pelo menos, àquele tempo em que um determinado acontecimento faz com que as pessoas que o vivem resolvam alterar algo nas suas vidas. E como uma gripe pode também ser motivo para voltar a escrever num blogue meio abandonado, aqui fica parte dessa lista. Pelo menos aqueles filmes que revi nestes três dias que já levo de molho. Embora vocês pouco ou nada tenham feito para que vos mande para cima com a minha vida entediante.







As Confissões de Schmidt – É um filme irónico sobre um homem que acaba de se reformar e vê a sua vida entrar num vazio completo. Entretanto, a mulher morre repentinamente e ele, aproveitando ter ficado só, procura refazer a vida, debate-se contra aquilo que a sociedade lhe reserva e, de peripécia em peripécia, acaba por perceber que todas as idades têm o seu encanto.







Íris – É o final da vida dramático de uma mulher brilhante no seu tempo, uma escritora reputada e admirada. Agora, com a doença de Alzheimer a afectá-la, tudo muda e percebe-se a importância de um percurso a dois e de sabermos que não acabamos sozinhos. E de perceber como funcionam as coisas debaixo deste panorama algo aflitivo apesar  da atenuante que frisei de termos alguém ao nosso lado.









O Gosto dos Outros – É um filme francês muito interessante que esteve quase um ano em exibição no Nimas (Lisboa, para quem é de fora). Retrata a crise de meia-idade de um empresário cansado da mulher e apaixonado por uma actriz. A dificuldade que tem em aceitar-se como é ao caminhar para os 50 anos é um dos pontos altos do filme.







Uma Casa, Uma Vida – Um homem, um arquitecto, alguém que levou a vida sem muitas preocupações, descobre, ao passar dos 40 anos, que está a morrer de uma doença terminal. Procura reencontrar-se com o filho e o choque de gerações é evidente e fulcral na trama.







Uma História Simples – Um dos mais comoventes filmes a que assisti. Um homem velho sabe que o seu irmão, com quem está de relações cortadas, está doente. Sabendo que não terá muito mais oportunidades para o rever enceta uma viagem de mais de 400 quilómetros de um estado ao outro viajando num simples cortador de relva adaptado. A obstinação do amor fraternal.








As Invasões Bárbaras – Trata-se de uma película que junta um grupo de amigos anteriormente rebeldes socialmente mas, agora, já passados 16 anos sobre a última vez em que se tinham encontrado. Ter-se-ão instalado e deixado de parte a rebeldia em troca do bem-estar social? De que forma estarão a ultrapassar a crise da meia-idade? E o aproximar da morte, aceitá-lo-ão de bom grado e de modo pacífico?