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quinta-feira, 19 de abril de 2012

Paixão 1


[Man with a Newspaper (Chevalier X), 1911 - 1914 : André Derain]






Esta manhã um jornal desportivo espanhol titula que ‘o futebol atraiçoou o Barcelona’. Eu não vi o Chelsea – Barcelona mas constou-me que a superioridade dos catalães foi arrasadora. No entanto, estou em total desacordo com o jornalista responsável pela frase que transcrevo. Porque se houve coisa que ontem aconteceu em Londres foi futebol. Até porque o futebol é uma das maiores paixões do homem. E por muito apaixonado que o homem esteja, por melhor que seja o momento dessa paixão, se a espaços existir no jogo um travo de amargura nada saberá melhor que o regresso às vitórias.  


Paixão 2


[Summer Interior, 1909 - Edward Hopper]


Ainda assim, o adepto de futebol dificilmente se conforma com a derrota do seu clube sobretudo se este tiver merecido a vitória. Provavelmente terá a mesma sensação que aquele homem que acabou de perder a mulher amada. Que lhe importa a ele se nos apressarmos a tentar animá-lo dizendo-lhe que o amor tem destas coisas, que há mais mulheres no mundo, blá, blá?... Nada, rigorosamente nada, aquela derrota já ninguém lha tira.



segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Moratória


[Auto-retrato, Lucian Freud]



 

Um conhecido vosso com o qual eu próprio vou mantendo uma amizade umas vezes próxima outras nem tanto, faz hoje anos. Resignado com a dívida que tem com o tempo voraz e implacável, vai pedindo moratórias.



quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

A pergunta


M., dez anos de idade, um sorriso feliz desenhado num rosto de menina. Olhara-me atentamente, fixara o seu olhar em mim, investigou para lá do que via e fez a pergunta incómoda: ‘já alguma vez mentiste?’ Lembro-me de ficar sem pinga de sangue, de hesitar. Mas não, se já alguma vez mentira não era aquela a altura para repetir o meu constrangedor delito. Respondi-lhe com o meu melhor sorriso em tão difíceis circunstâncias. ‘Já, já menti.’ Ela não acreditou em mim e riu-se com vontade tendo voltado para o seu mundo povoado de inocência. Percebi então que lhe dissera a verdade parecendo que mentia. Ainda hoje me sinto mal por isso.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Votos para 2012



Em 2011 pouco ou nada do que eu esperava viesse a acontecer aconteceu de facto. E esses são os meus votos para 2012: que pouco ou nada do que eu perspectivo aconteça realmente.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Vermelho directo



Ele pediu-lhe para ela dar dez cartões vermelhos no blogue. Mas ela apenas deu nove. Guardou o décimo no bolso já que fazia questão de lho dar pessoalmente.


Don't Give Up

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Feliz Natal






FNAC do CC Vasco da Gama, Lisboa, hoje, cerca das dez e trinta da noite. Uma criança de pouco mais de 7, 8 anos corre. De repente, ouve-se um pequeno estrondo e vê-se um telemóvel vermelho a cair ao chão. A criança, ainda sem reparar que foi o seu aparelho que se desmontou com o aparato da queda no chão da loja, olha em desespero para o pai e balbucia um ‘não fui eu’ amedrontado. Mas de repente fica lavada em lágrimas ao perceber o óbvio. Então, o pai ajoelha-se, puxa a criança contra si e abraça-a com um braço enquanto estica o outro para apanhar o telemóvel. Educar também é isto: saber perdoar e saber cuidar. Feliz Natal!


segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O predestinado


Chamam-lhe louco e ele responde que não, que é simplesmente um optimista. Há dias, apesar dos seus quarenta e picos, convenceu um amigo a pagar-lhe uma mariscada se conseguisse fazer uma série de seis ‘cavalinhos’ com a velhinha Yamaha que tinha sido do pai. Escolheu a marginal para o feito e partiu a perna esquerda em três lados. Por vezes um pouquinho de pessimismo pode ser uma virtude e fazer bem à saúde.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Promoções



Hoje esqueci-me do telemóvel durante um par de horas e ao chegar junto dele tinha na caixa de mensagens uma boa meia dúzia de SMS de lojas a incitarem-me a aderir às promoções dos seus produtos. Nunca gostei de promoções. E não hei-de esquecer um episódio que me aconteceu em miúdo quando comprei muito barato no supermercado uma telefonia que descobri depois vir pré-sintonizada numa rádio alemã. Naquela altura achei piada ao sotaque dos locutores mas não percebia peva do que diziam. Para agravar a coisa, a música que tocava no aparelho provocava-me um formigueiro estranho nos ouvidos. Percebi então que bem tinha feito a loja em livrar-se de tamanho bluff. O pior mesmo foi quando troquei o rádio por uma barra de chocolate com o filho do alfaiate e ganhei com isso uma enorme dor de dentes. Conclusão, parem lá com as SMS porque se mais não for as promoções são muito beras para os dentes.


sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Capa de revista






O casting foi duro, no final éramos apenas nós dois. E eu nada pude fazer contra o facto de não ser americano e ele sim.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

A cor da camisola



Esta tarde parei o carro na área de serviço da Mealhada, sentido sul-norte, no intuito de tomar um café e beber uma água. Quando me sentei na esplanada, um miúdo dirigiu-se a mim com a camisola do FC Porto vestida e, perante a minha estupefacção, disparou-me a pergunta. Sabes por que é que as pessoas quando morrem ficam de olhos abertos? Incrédulo com a questão, olhei para os lados à procura da ajuda dos pais do rapaz mas estes estavam sabe-se lá onde. Lembrei-me do jogo desta noite do FC Porto e tentei desarmá-lo dizendo que era adepto do Zenit. Pouco afectado com a revelação, insistiu. Não sabes? Então responde. Em último recurso, quase gritei: sou do Benfica! O miúdo olhou para mim de soslaio, deu meia volta e desapareceu algures no interior do restaurante.


domingo, 4 de dezembro de 2011

A melancolia tem um rosto

[Foto do site 'Touch me, Touch me']





E é feminino. Passeava-se esta tarde na Fnac do Chiado, trazia numa das mãos um filme de Clint Eastwood e na outra segurava o Samsung Galaxy SII negro encostado à orelha esquerda enquanto falava ao telemóvel. Depois desligou o aparelho e, provocada pela minha curiosidade, olhou-me nos olhos, baixou o olhar, deu meia-volta e dirigiu-se para a zona das caixas. Não tive mais notícias dela.





Sócrates, o doutor

[Sócrates com a camisola da Selecção do Brasil]




O doutor morreu

Eu era ainda um miúdo mas lembro-me bem que naquela noite o Café Central estava repleto. Estávamos em 1982 e o fumo do tabaco batia contra o tecto escurecido e quase tornava invisível o ecrã da televisão estrategicamente colocado num dos cantos da sala. O barulho ensurdecedor das conversas exultantes nas mesas terminou assim que o homem de preto apitou para que Brasil e União Soviética fizessem rodar a bola na quente Sevilha em jogo para o Mundial de Futebol Espanha82. Os soviéticos, possuidores de uma equipa sólida, começaram a ganhar o jogo até que, já na 2ª parte, Sócrates recebe a bola de um ressalto à entrada da área, finta dois adversários e remata forte sem que Dasaev conseguisse impedir que a bola entrasse no canto superior direito da sua baliza apesar de se ter esticado até ao limite. E na sua corrida para a glória, a algazarra de júbilo que vinha das bancadas deve ter soado longínqua a Sócrates. O Brasil acabaria por vencer esse jogo.
Do alto do seu metro e noventa e um, capitão da selecção, Sócrates era um jogador elegante e dono de um passe milimétrico. Licenciado em medicina, era conhecido pelo Doutor. Mas as suas actividades sociais estendiam-se até à política lutando pelos direitos dos jogadores de futebol e até contra o regime brasileiro de então. Jogou ainda no Mundial do México, mas, para mim, a grande selecção de que fez parte foi mesmo a do Mundial de Espanha, eliminada muito cedo por uma Itália de futebol calculista em contraponto ao melhor futebol do mundo exibido pelo Brasil de então. Mas a vida não é feita do bonito jogo de régua e esquadro de Sócrates e o ser humano nem sempre procura o melhor refúgio para se libertar. E Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, o doutor, morreu hoje vítima de uma infecção intestinal a que certamente a sua conhecida dependência do álcool não será alheia. Sócrates viveu com quantas forças tinha e talvez julgasse correr no tapete verde do relvado disposto a acabar rapidamente com um jogo que já não se julgava capaz de vencer. Que descanse em paz.



sábado, 3 de dezembro de 2011

Assim como assim...




…apanho o 727.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Do amor & etc.

[A modelo fotográfico Iga A., gosto de a ver trabalhar]





Ontem almocei com um colega de trabalho na Golegã no restaurante ‘Lusitanus’ que aconselho porque tem uma boa cozinha, é agradável e dá para a praça onde se celebra de forma singular a arte equestre. Ao nosso lado, numa mesa próxima, uma mulher lindíssima parecida com a modelo Iga A. mas que aparentemente é professora e dá aulas naquela vila ribatejana, revelava-se perdida de amores por um homem bem mais velho, barba e cabelos brancos perante o espanto e [digo eu] a inveja do meu parceiro de refeição. E de repente passaram defronte de mim todas aquelas séries da Fox, AXN e outros canais, as telenovelas das oito e outros modelos de perfeição, filmes com modelos jovens, eles e elas rijos de carnes, eles e elas de corpos tonificados, mulheres geneticamente modificadas e não pude deixar de pensar que a vida não é o que nos enfiam olhos dentro, que a fasquia não pode ser colocada tão alta e que é preciso que aprendamos a gostar das pessoas que somos, tal como somos e não como nos querem convencer que deveríamos ser. E nem sequer perdi tempo a apaziguar o ar incrédulo de quem almoçava comigo dizendo-lhe o óbvio, que o que ele via ali ao seu lado não era mais que amor, que o amor. Ou a vida tal como ela deve ser vivida, sem artificialismos nem recurso à ficção. No meu silêncio, recordei-me apenas de uma citação que li algures por aí do filme «Control», de Anton Corbijn, quando a amante de Ian Curtis resvala levemente da cama ainda quente pelo calor transpirado do amor, se vira para Curtis com toda a ternura do mundo e lhe diz como ele é deprimente. E diz-lho como se lhe fizesse a mais bela declaração de amor de que há memória. É mesmo isso, o amor tem muitas mais possibilidades que as nossas cabecinhas limitadas podem prever.



terça-feira, 29 de novembro de 2011

A dança dos corpos




O Sol ainda brilha por entre os estores gastos pelo ir e devir de uma vida de altos e baixos. Mas na sala há uma luz forte acesa sobre ambos. Ele está uma pilha de nervos como se fosse a sua primeira vez. Deitado de barriga para cima espera impacientemente por ela e quando ela chega junto dele toca-lhe ao de leve nos lábios. O homem entreabre a boca, não contém o impulso que leva a que as suas pernas rocem as dela, Junto à cintura, já perto da barriga. A mulher move-se um pouco, procura uma posição melhor, mais confortável. Mantém-se nas mesmas posições por momentos com leves oscilações dos corpos. De repente ela quase grita, ouve-se um bramido de júbilo e ele olha-a aliviado. Nas mãos da dentista pode então observar-se já muito cariado o segundo pré-molar superior que ela acabara de extrair ao homem.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Heróis do povo

[John Dillinger por Johnny Depp no filme «Public Enemies»]




É tido como factual que um dos maiores ‘gangsters’ de sempre da América, John Dillinger, defendia que ‘importante não é saber de onde vimos mas sim para onde vamos’. Dillinger morreria numa cilada que lhe foi montada numa ida ao cinema. E já que morreu com um tiro nas costas, o ladrão que o povo amava nunca terá chegado a saber onde terminou a sua caminhada final. É por estas e por outras que se deveria reescrever a história. Um homem assim merecia enfrentar a morte de frente.



quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Castelos de cartas






Dizer que o cinema é o retrato fiel da vida, no caso desta crise económica mundial não passa de um lugar-comum mais gasto que o saldo dos cartões de crédito da generalidade dos portugueses. E quando o especulador Gordon Gekko, no filme «Wall Street», apresentava cada novo negócio como mais vantajoso que o anterior, se deslocava de limusina para as salas de reuniões de escritórios onde reinava a opulência, se usava de truques baixos e, de ego inchado, se ria das suas conquistas e se declarava a si mesmo um vencedor, ninguém deu importância à suspeita de que a maioria se regia pela mesma bitola no topo do mundo. E nós, meros peões neste jogo de artimanhas e enganos, cá em baixo. Provincianos, somos uns provincianos.

domingo, 13 de novembro de 2011

Marisa Monte


[Marisa Monte]






Numa das suas muitas canções de amor, a brasileira Marisa Monte murmura a certa altura que ‘seria bom, quatro paredes, eu, você e Deus.’ E eu a isto só tenho a dizer duas coisas. Primeira, perguntar por que carga de água clama a Marisa Monte por Deus numa situação como a que sugere, e, segunda, lembrar a mim mesmo que a Marisa Monte me foi um dia apresentada [a sua música, para que conste] por uma das mulheres mais fantásticas que tive a felicidade de conhecer. Para mim é mais que isso, para vocês este texto  fica apenas como um mero registo biográfico.