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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Os que perdendo vencem


[Foto de José Boldt]




As roupas largas já muito gastas, rotas, um par de botas, uma castanha e outra preta, o fardo de caixas de papelão cuidadosamente desmanchadas mas de um peso incomportável para o seu corpo débil, para a força que lhe faltava. O olhar cabisbaixo quase em tom de súplica, o rosto de barba comprida e rala, as rugas em redor dos olhos já sem brilho, já sem sombra do sonho...
Há uma época, a da nossa juventude, em que todos temos um ou mais sonhos. Há uma outra época em que vivemos a busca desses sonhos. Desses tempos hão-de sobrar os vencedores e os vencidos mas também aqueles que se limitam a sobreviver. Mas também há aqueloutros que não fazendo parte da estirpe dos vencedores se recusam à simples sobrevivência e vivem à espera numa espécie de resignação desolada e de negação da sua existência por cá. Ou, dito por outras palavras, é como se quisessem dizer aos outros que deixem, que se deixem estar, por esta perderam, fica para a próxima, fica para uma outra vez.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Homens bons





[Dalai Lama versus Mr. Chance]

 


O Dalai Lama lidera uma lista das personagens mais influentes do mundo. Sorrio e relembro a espantosa tranquilidade que me invadiu aquando de uma entrevista que o líder espiritual tibetano deu a um canal de televisão. Não sei porquê, mas o Dalai Lama faz-me lembrar uma personagem mítica do cinema, Mr. Chance. Este, um simples jardineiro cujo mundo se resumia à televisão e à mansão em que trabalhou durante anos e que repentinamente se vê enredado numa teia política em que é visto como o homem das novas e revolucionárias ideias que irão metamorfosear o mundo para bem melhor. Brilhantemente protagonizado por Peter Sellers  - o filme é «Bem-vindo, Mr. Chance» (1979) -  há na confusão criada e na peculiar personagem de Mr. Chance uma sabedoria inocente que o Dalai Lama parece muitas vezes encarnar dado o seu franco sentido de humor e a admirável humildade com que se dá aos outros. Como no visionamento do filme e sempre que ouço o Dalai Lama, há momentos em que quase sou obrigado a conter a emoção. E salvaguardadas as devidas distâncias, o mundo precisava de mais gente assim. De mais homens como o Dalai Lama e como Mr. Chance.
 
 
 

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Os políticos que se rejeitam como políticos




Por que será que alguns políticos teimam em dizer mal dos políticos como se ao afirmarem-no não estivessem a fazer política e eles mesmos não fossem parte integrante da classe? Por outro lado, que leva a que outros políticos cuja estratégia anterior levou ao seu próprio enterro público mas que renascem das cinzas a cada novo escrutínio insistam em se afirmar portadores de planos novos e fundamentais que irão fazer do nosso um mundo melhor como se já antes não o tivessem tornado bem pior? Se o primeiro caso me intriga, neste segundo caso recordo-me sempre da velha história do vivo que só o era porque alguém se esquecera de o avisar da sua morte.


sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Quotidiano comum

[«O Quotidiano Incomum», foto de Lucie & Simon]





Semana estranha, esta. No Brasil, centenas de pessoas morreram devido à intempérie, na Austrália também o dilúvio causou estragos e destruiu vidas. Por cá, um presidente candidato a presidente cede à pressão e mostra uma faceta irada e pouco condizente com a postura que um cargo de tão alto nível necessita. Entretanto, um poeta esforça-se na prosa com que pretende influenciar o eleitorado e um humanista, médico, luta contra a debilidade de um sistema que se sobrepõe a si mesmo e poucas ou nenhumas oportunidades dá a quem não tenha seguido bem sentado na carreira da política. A abalar o país, no entanto, segue ao leme deste navio mediático o cruel assassinato de um jornalista que se fez à custa de mexericos e de achincalhar a vida alheia e do seu alegado assassino, um jovem modelo que parece ter-se rendido ao desejo de fama e fortuna fáceis aparentemente embrulhado na sua própria confusão quanto às suas orientações sexuais. Felizmente que temos Mourinho a acumular troféus numa demonstração de competência tal que até lhe permite ser quem é ainda que por vezes as suas atitudes choquem os mais sensíveis. Mas, sobretudo, é bom saber que existe vida para além daquela que nos chega de fora ainda que as notícias sejam apenas de dentro. E motivação maior não existe para nos dedicarmos a nós e aos que nos estão próximos já que os outros, os tais, os de sempre, já o eram mas estão agora cada vez mais desinteressantes.


terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Lisboa




[Gaivota] 






Lisboa. Uma voz linda de mulher ouve-se ao longe enquanto canta rogando que uma gaivota lhe traga o céu de Lisboa. E Lisboa está ali, está aqui, está lá, permanece um coração perfeito no desenho que fazemos da cidade grande e cosmopolita que é. Nas suas ruas antigas, menos antigas, modernas, mais modernas, os olhares entrecruzam-se saltando de laje em laje, saltitando algures nas lajes feridas pelo passar do tempo. E também eu vou perscrutando aqui e além pelo interior da penumbra, pela noite que se aproxima.

Mas Lisboa não esmorece nem cai no mar como canta a voz feminina. Permanece, isso sim, soberba nas suas avenidas, nas praças de sempre pisadas pelos pés velozes dos vendedores de bugigangas que interpelam os turistas. Que lhes sorriem, que lhes falam enquanto aqueles lhes põem uma mão sobre o ombro, lhes suplicam, imploram. Nas igrejas as vendedoras. À porta, numa dessas igrejas antigas, tão antigas como as ruas, as praças, a vendedora sem pernas oferece aos crentes ou somente curiosos os seus ramos de flores viçosas. Violetas, são violetas, quase grita.

Paguei o café e ausentei-me da esplanada, deixei a mesa vazia, a chávena branca vazia, o guardanapo gasto, as cadeiras desalinhadas, o rasto dos meus lábios na chávena branca, o casal ao lado de mãos dadas, as mãos dadas num aperto caloroso, o homem de ar aristocrático que folheava o jornal fingindo ler as notícias, os seus olhos perdidos na beleza e na juventude das mulheres em reboliço, rua acima, rua abaixo. Lá fica também o empregado de laço negro ao pescoço. E Pessoa, Pessoa o poeta da cidade, Pessoa impávido e sereno na sua representação em ferro, em bronze, não sei bem.

Desci a Rua Garrett em direcção à Rua do Carmo e a mulher mantém-se a cantar. E não, também eu não sei, nunca soube aliás, porque tem Lisboa este tom magoado, porque nela cantam o fado sob o céu como numa asa que não voa. Voz de homem, sumida, lamentosa, responde-lhe ainda a cantar. Diz-lhe que é Lisboa, que Lisboa vive num rosário de penas onde reina a saudade. E chegado já ao Rossio, fico sem saber o que fazer num caso como o que está a acontecer, como o meu, como o teu, como o dela. Ela Lisboa.  E como o homem que canta a chorar baixinho, talvez não me reste mais que pedir aos céus, a mim, a ti e a Deus. Mas não, não foi Deus. Fomos nós homens, foram vocês mulheres, és tu mulher linda, tu que és a saudade, o brilho no olhar. E embrenhei-me na cidade por entre caras conhecidas, desconhecidas, ruas, praças, avenidas, umas modernas e outras antigas. Por Lisboa.





segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

O nosso mundo

[Foto de Bill Brandt]



A crise financeira deitou a economia no divã e esta teima em não sair do coma profundo em que mergulhou. A depressão atingiu primeiramente a América mas rapidamente se alastrou pelo mundo fora e Portugal, como pátria do fado, não escapou à triste sina. Os bancos, habituados a pagar fortunas vergonhosas aos seus altos quadros e, numa ironia cruel, a viverem acima das suas possibilidades, deixaram de ter dinheiro para fomentar as linhas de crédito com que engenhosamente as empresas iam mascarando os problemas de anos e anos de péssimas gestões. Os discursos endureceram, gerou-se o medo e antes de debelar a recessão económica o mundo vai ter que curar a fraqueza psicológica de que padece e que o impede de reagir. E às vezes é preciso tão pouco para encontrar uma saída para a clausura onde nos encontramos. Eu sei que é duro dizê-lo, lê-lo, até pensá-lo, mas enquanto não é dado o passo para que esse pouco se concretize os sentimentos que mais transparecem são de amargura, decepção, incompetência e muita incerteza. E o mundo ameaça tornar-se num lugar triste para se viver.

 
Feliz 2011.


terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Instantâneos, Quatro - Viver



É tão bom sentir que somos parte integrante e activa desta vida a fervilhar.

Instantâneos, Três - Domingo

No Domingo vai casar-se um rapaz. É de boas famílias, tirou o curso de Engenheiro Técnico, já trabalha, a noiva pesa 57 quilos, tem cabelos pretos e carta de condução categoria B. Não lembro o nome do pai dela, a mãe dele é Justina, a mãe dela cabeleireira e esteticista, o futuro sogro dela é agente de seguros, está estabelecido por conta própria, tem somente uma hipoteca sobre o edifício onde montou escritório. Para o casamento convidaram 43 pessoas mas há um casal, que mora em Borba, que não pode vir porque o marido é bombeiro e está de serviço e a mulher é costureira e tem uma encomenda de cortinados para concluir antes do fim-de-semana terminar. A rapariga vai de branco, ele de preto e laço cinzento na camisa branca. Os pais de ambos sentem-se muito felizes e anseiam por netos.

Instantâneos, Dois - Hoje

Hoje alguém me disse que se fosse um filme seria «Disponível Para Amar», ou, no título em inglês, «In The Mood For Love». Hoje vesti um fato cinzento claro, uma camisa azul, uma gravata bordeaux, uns sapatos e um cinto pretos, almocei numa área de serviço de auto-estrada um panado a saber a couro velho e um sumo natural de laranja, paguei nove euros, senti-me pouco à vontade no fato que vesti, fiz duas centenas de quilómetros de automóvel e não recordo a paisagem. Hoje se eu fosse um filme seria «Eyes Wide Shut», ou, no título português, «De Olhos Bem Fechados».

Instantâneos, Um - Ontem



Ontem o frio não diminuiu de intensidade mas o David esteve melhor da asma. Nos jornais as presidenciais perderam importância e já não se falou tanto na crise provocada pela neve nos aeroportos. Um BMW série 5 leva 80 euros de gasóleo e os bilhetes dos transportes públicos vão aumentar. O João foi ao hospital para visitar um tio e deparou com ele embrulhado num lençol, telefonou para a família e deu-se início aos preparativos para o funeral. Antes tinha que se realizar a autópsia e o ar condicionado na sala de espera do hospital estava avariado. No Pacífico um explorador do fundo dos mares voltou à superfície atulhado de riquezas, sofreu uma arritmia cardíaca forte e porque não conseguiu rapidamente transporte para a clínica mais próxima morreu da espera.


domingo, 19 de dezembro de 2010

A aprendizagem

["Empress Wu", ilustração de George Barr]



 
Conheço-os a ambos. Ele é um homem de quase quarenta anos, aparência de rapaz e uma quase inacreditável ingenuidade. Ela é uma mulher um pouco mais jovem, e jovial, linda, sorridente, sedutora. Quando ela chega o homem-rapaz parece renascer da melancolia com que se dirige para a passadeira ou para o tapete dos abdominais. Ela fala-lhe sorridente, coloca-se a seu lado e deixa que ele continue a apaixonar-se por ela sabendo que nunca o irá amar ou sequer deixar que a relação entre ambos ultrapasse a zona das máquinas ou até o estúdio de Power Jump. Acredito que ela goste dele mas não do modo que ele desejaria. Às vezes passo pelos dois e dou por mim a desejar que ela não gostasse daquele homem bom como gosta já que acabará por fazê-lo sofrer. Mas os homens também saem reforçados nas derrotas. Mesmo naquelas que foram desde logo anunciadas.

 

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A homilia

[Folles Amours, montagem fotográfica de Lucien Clergue, o 'poeta da fotografia']






Em «A Dúvida» [filme de 2008], numa das suas fantásticas homilias o padre Flynn [Philip Seymour Hoffman] conta a história de uma mulher que tendo lançado um boato desprezível sobre alguém acaba por se arrepender e busca o perdão junto do padre seu confessor. O padre não lhe concede de imediato o perdão e instiga-a a subir ao telhado da casa onde habita com uma almofada de penas numa mão e uma faca na outra com o objectivo de rasgar o travesseiro ao vento. Quando a mulher regressa ao confessionário e lhe dá conta da missão cumprida, o padre não a perdoa desde logo optando por perguntar o que lhe restou do gesto. Uma imensidão de penas, responde-lhe pesarosamente a pecadora. E perante a nova missão de que o padre a encarrega, a de voltar ao local e apanhar todas as penas, a desconsolada mulher responde-lhe que isso é impraticável já que estas se espalharam de tal modo que não é de todo possível reverter o mal feito.
Hoje lembrei-me do padre Flynn e da sua homilia. Porque os fins não justificam os meios e a intolerância, a incapacidade de perdoar e, por que não dizê-lo, a maldade não podem nunca sobreviver a coberto da sensação de impunidade reinante numa sociedade que há muito perdeu a noção do bom senso.






O que ficou por dizer

[A actriz Rachel Weisz]




Foram muitas, tantas as noites em que um homem e uma mulher fizeram amor numa cama de quarto de hotel. Ela, silenciosa, deixava que as suas mãos lhe vincassem a pele com toda a força do prazer que experimentava no seu corpo encaixado no dele. O homem apercebia-se invariavelmente do momento em que o corpo dela estremecia de êxtase colado ao seu. Com desejo mas ainda mais ternura levava algum tempo até que fizesse resvalar o seu corpo trémulo imobilizando-se arfante ao lado do dela na cama de lençóis brancos e transpirados. Beijavam-se uma e outra vez sem que pronunciassem uma única palavra. Naqueles momentos as palavras eram-lhes dispensáveis, traiçoeiras. Talvez por isso lhes tenha ficado tanto por dizer.



quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A dor de sentir




 [Suicídio, de Edouard Manet - 1877]





Do livro «Gente Feliz com Lágrimas» [1988], de João de Melo, salta-me à vista este pequeno excerto. “Nos olhos dela, perdura ainda uma solidão compassiva e extenuada, dessas que a vida não consegue explicar. O hábito de ser triste culpabiliza nela a própria ideia de felicidade. Tal como nós, não sabe ser feliz sem lágrimas, nem rir sem o remorso da alegria, e isso vê-se-lhe nos olhos.”

Sorrio. Lembro-me de Camilo Castelo Branco, de si próprio e do seu «Amor de Perdição» [1862], de Van Gogh, do Shakespeare de «Romeu e Julieta» [1595], de Virginia Woolf, de Ernest Hemingway, Kurt Cobain e tantos, tantos outros e detenho-me apenas a tentar interpretar um sentimento voraz que de tão intenso se transforma em apetite que somente o trágico sabor da vida pode saciar.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Elas & Nós

[A actriz francesa Emmanuelle Béart]






A citação vem no jornal Público e pertence ao actor e dramaturgo francês Marcel Achard (1899 – 1974): ‘As mulheres gostam dos homens silenciosos porque acreditam que eles estão a ouvi-las’. Mas essa é a grande culpa do homem. Porque enquanto as mulheres falam nós vamos observando os gestos delicados que fazem com as mãos, os lábios avermelhados do sangue que lhes aquece o corpo em suave sintonia com aquilo que certamente dizem, o sorriso entusiasta perante o nosso olhar atento mas absorto, e, no final, se tivermos sorte, ainda recebemos um abraço. E se mais sorte tivermos, um beijo caloroso. E quando elas nos perguntam o que pensamos dos largos minutos em que falaram arrebatadas pelo valor do discurso, nós que nada ouvimos embora estivéssemos deliciados na atenção que lhes dedicámos, respondemos apenas que nada mais há a acrescentar a tamanha lucidez e eloquência. E recebemos de novo um abraço, este merecido, e, com um pouco de sorte, novo beijo ainda mais quente que o anterior. Mas lá bem no fundo, nós sabemos que elas estão perfeitamente cientes do que se passa nestes momentos e percebem que na nossa fraqueza perante os seus encantos reside o seu triunfo. E para nós, homens, fica reservada a vitória moral.




domingo, 14 de novembro de 2010

O cansaço dos dias

[Pintura de Andrew Wyeth]




Sentia-se demasiado cansado naquele dia. Era tarde e a noite caíra sorrateiramente sobre a cidade, o demasiado calor para a época  anunciava a tempestade e o vento forte fazia estremecer a sombra das árvores numa dança estranha no negrume do pavimento. Deixou-se ficar sentado na noite a ouvir o silêncio poético que antecipava a intempérie. Enquanto escutava, adormeceu. E sonhou. Uma mulher sorriu-lhe no sonho. Estava linda no seu sorriso, aquela mulher. Um cão latiu ao longe, os travões de um carro que parara no semáforo a pouco mais de cem metros de si chiaram, a noite já então fizera esquecer completamente o dia, acordou. A mulher já lá não estava, desvanecera-se no acordar dele. Entretanto, na esquina da rua uma velhinha que há muito enlouquecera pôs-se a cantar.


quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Da vida


[«Storytime», ilustração de George Barr]



Nos contos de fadas não há lugar para surpresas desagradáveis e tudo acontece ordenadamente até ao também harmonioso final. De certo modo, se a nossa vida decorresse como nas histórias de infância teríamos a felicidade garantida. Mas como a perfeição não existe, essa seria uma felicidade cozinhada em lume brando onde não há lugar para a ansiedade pelo tempo que se espera, para o desaire ou para a conquista, para o ardor, para a paixão. Assim sendo, deixemos as fadas no seu mundo e aceitemos as vibrações que a vida nos transmite mesmo que por vezes tenhamos que rebobinar as nossas emoções e obrigar-nos a que tudo volte ao seu início.


segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Crónicas de amor e ódio


[A modelo fotográfico Iga A. - Gosto de a ver trabalhar]



Tenho pouco tempo para me deixar ficar em puro estado de indolência. Estes raros mas muito agradáveis momentos de inércia normalmente dão-se entre as onze, onze e picos da noite e prolongam-se até por volta da uma, uma e trinta da manhã. Mantenho convicta e orgulhosamente a televisão desligada a não ser que a modelo fotográfico Iga A. se apresente ao serviço num qualquer desses canais por cabo. Por via disso, é nas páginas da Internet que a minha vigilância se vai perdendo numa sonolência que me leva à cama e ao dia seguinte num upgrade de força e motivação que me faz encarar a vida com um renovado sorriso de esperança na espécie humana, na preservação da flora, na pujante vida animal, num Benfica novamente dominador ou até em ti mulher bonita que me lês algures em Mountain View, Califórnia, e inundas os gráficos do ‘Sitemeter’ aqui da casa. E nas várias leituras que faço, choca-me como alguns homens e mulheres, sobretudo elas, se entretêm a destruir a gloriosa memória de amores que se desvaneceram mas que num tempo definido das suas vidas os fizeram rejubilar, sonhar, viver. O amor não o merece por muito que as pessoas mudem. E um dia haverá em que todos iremos olhar para os dias então longínquos em que viajámos nos braços da paixão para constatarmos que valeu a pena. E é bom que celebremos a alegria mesmo que agora, como eu dizia, se perceba que para alguns a tristeza ande tão próxima da raiva.

domingo, 31 de outubro de 2010

Ancorar o Tempo

[Turkey Pond, 1944 - Andrew Wyeth]
 


Suponho que não aconteça apenas comigo. Em alturas de menor optimismo e mesmo de alguma necessidade de introspecção, é nas minhas memórias de menino que habitualmente encosto o pensamento e repouso a alma. Sentado num cadeirão de vime que possuo numa das varandas cá de casa, hoje foi um desses dias. E enquanto o calor continuou a subir até tornar o ar pouco menos que respirável, retrocedi mentalmente anos atrás. Viajei até casa dos meus avós, onde passei grande parte da minha infância.

Finais de Setembro, primeiras semanas de Outubro. Esta era a altura em que, depois de colhidas as uvas, o trabalho se desenvolvia na adega da quinta. Ao final do dia, depois de se despedir do pessoal que o ajudava, tal como eu faço amiúde também o meu avô aproveitava para se sentar num enorme cadeirão. Atirava com o chapéu para cima de um mesa de pinho envernizado e recostava-se enquanto limpava com um lenço o suor que lhe molhava a testa. Depois deitava um pouco de água fresca num copo e bebia. Mas, apesar de se lhe perceber a sede que lhe secava a boca, fazia-o muito lentamente, como se saboreasse deliciado a frescura que o líquido frio lhe proporcionava. Cansado, adormecia durante alguns minutos. Acordava apenas ao toque suave da mão da minha avó, fazendo-o estremecer um pouco no cadeirão, ou ao som de um velho relógio de carvalho pendurado algures numa das paredes que suportavam o telheiro onde se protegia do Sol ainda quente àquela hora do dia. Através do velho mostrador, de vidro já bastante baço, podia observar-se os algarismos negros e os ponteiros com um balancim de entremeio a assinalar as horas com razoável sonoridade.

Naquela altura, como hoje, só me ocorria correr para o relógio e pará-lo. Talvez assim pudesse ancorar o tempo.