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domingo, 31 de outubro de 2010

Robin Hood






O herói antes de o ser


Pergunta: quem foi Robin Longstride? Resposta: foi Robin Hood, o justiceiro da floresta de Sherwood que infernizava a vida ao Xerife de Nottingham e irritava o Príncipe John. Diga-se também que Robin Longstride é o filho único de um pedreiro que afinal foi filósofo sentenciado à morte por incitar os pobres e fracos a lutarem e a não desistirem dos seus direitos e sonhos. Mas convém ainda acrescentar, como ajuda suplementar para melhor percepção do fenómeno, que este acaba por ser unicamente o Robin Hood do realizador Ridley Scott, um Robin Hood que surge como simples arqueiro ao serviço de Ricardo Coração de Leão, rei de Inglaterra. Para clarificar ainda mais as coisas, é bom que se diga que estamos afinal a conhecer o homem por detrás da lenda. E que Longstride, um plebeu, por obra e graça do destino acaba por se travestir de fidalgo e ser ele a entregar à rainha mãe a espada de Ricardo I como prova da sua morte ocorrida no cerco a um castelo em terras de França.

As más notícias não acabam por aqui já que é minha convicção que parte de leão do semi-fracasso que constitui este «Robin Hood» se dá exactamente pelo exposto anteriormente. Ou seja, porque é bem provável que o espectador vá em busca do ‘seu’ Robin dos Bosques e se depare com um herói muito diferente daquele que conhece. Diferente da lenda e pouco de acordo com os factos históricos, embora esta seja uma questão lateral de somenos importância. E mesmo que quisesse ser benevolente com o filme já que este até tem bem delineados o herói, pela sua coragem e pelo seu carácter, e os vilões não faltando a donzela por quem o protagonista se irá apaixonar, a realização de Ridley Scott revela-se de tal modo convencional que até como simples entretenimento as suas mais de duas horas de duração acabam por fazer diluir um pouco essa importante dimensão do cinema. E o aborrecimento só não é geral graças a um excelente leque de actores, desde Russell Crowe a Max von Sydow passando por Cate Blanchett, e a uma bem urdida teia de conspirações que levam à acção e intriga.

De facto, «Robin Hood» não acrescenta nada de novo ao cinema e é mesmo muito parecido com «Gladiator» (2000). Mas isto numa escala bastante inferior até porque no filme em que Russell Crowe arrebatou o Oscar de Melhor Actor existia um vilão de peso a desequilibrar a balança a seu favor: Joaquin Phoenix. E perante o academismo do trabalho de Ridley Scott, custa a acreditar que em 1982 este mesmo homem tenha realizado um dos títulos fulcrais do cinema de ficção científica: «Blade Runner». Assim, «Robin Hood» perde-se na sua ambição reduzindo-se a um mero produto do cinema comercial de expressão menor. E para sermos justos há que perceber que nem sequer faz qualquer sentido tecer comparações com Errol Flynn e Olivia de Havilland em «The Adventures of Robin Hood» (1938), de Michael Curtiz e William Keighley, esse sim, um Robin dos Bosques de acordo com a lenda e com aquilo que se espera do grande cinema.


«Robin Hood», de Ridley Scott, com Russell Crowe, Cate Blanchet e Max von Sydow

 

















O Sexo e A cidade 2




Ensaio sobre a frivolidade


Para quem tenha visto o primeiro filme, «O Sexo e A cidade 2» não passa de uma repetição exaustiva de esquemas mas que agora surgem banais e sem pinga de inteligência criativa. E a sensação resulta pior para quem tenha visto alguns episódios da série televisiva que deu origem aos filmes, já que nesse caso «Sex and the City 2» não passa do estender de uma longa passadeira de frivolidades e humor fácil. Mais grave ainda, é perceber em como a ânsia mercantilista pode assassinar – e o termo assassinar é tudo menos exagerado - o que foi uma ideia inicial extremamente válida e fresca: elaborar um retrato livre e desinibido da mulher moderna, urbana e independente.

De facto, toda a causticidade e genialidade da série que o primeiro filme recuperava um pouco para o cinema perdeu-se nesta sequela. E a prova disso mesmo é constatar que as amigas Carrie (Sarah Jessica Parker), Charlotte (Kristin Davis), Miranda (Cynthia Nixon) e Samantha (Kim Catrall) são hoje caricaturas baratas de si mesmas numa vida anterior e que até o ‘glamour’ que milhões de mulheres procuram nas suas personagens se transformou em algo tosco e desenxabido. Não o mereciam a série televisiva, as admiráveis personagens que esta criou e muito menos os milhões de fãs que certamente se sentirão um pouco frustrados com o que viram neste filme. Não servirá de factor atenuante para os fãs, mas fácil será de concluir que para quem não seja adepto de «O Sexo e a Cidade» o filme não passa de um enorme bocejo muito mal disfarçado com uma ou outra gargalhada fácil aqui e acoli. Quanto aos primeiros, temo que em resultado das justificadas expectativas com que foram ver o filme possam ter saído da sala de cinema com uma certa sensação de fraude a pairar-lhe sobre a mente.


«Sex and the City 2», de Michael Patrick King, com Sarah Jessica Parker, Kim Cattrall, Kristin Davis e Cynthia Nixon




















9








Às portas do Inferno

No ocaso da vida, um cientista cria nove bonequinhos tecnologicamente movidos e envoltos numa pele feita de um tecido rude. Na sua quase inacreditável expressividade e inocência, esses bonequinhos são o único rasto com vida da passagem do homem pela Terra. Num futuro indefinido e apocalíptico reina a desolação e as máquinas, suprema e terrível criação do ser humano, continuam a sua destruição sendo que o alvo principal é agora o pequeno grupo de bonequinhos de serapilheira liderados pelo 9. Visualmente espantoso mas carente de um argumento sólido que desse outro impacto às preocupações sobre o carácter destrutivo da ambição humana, assim acontece «9», o filme.

«9» começou por ser uma curta-metragem de animação nomeada aos Óscares há um par de anos. Com o apoio do genial Tim Burton, o realizador Shane Acker conseguiu convencer os estúdios a produzirem uma longa-metragem suportada no mesmo material. E se a indústria do cinema de animação dá dois passos à frente em termos formais e de matéria-prima para a sua execução, a verdade é que enquanto unidade fílmica, «9» resulta contraditório. Trabalhando a decadência do ser humano enquanto espécie, nas referências aos nazis e ao carácter dogmático da religião parecem residir os alvos principais da fúria da realização. No entanto, a narrativa revela-se demasiado metafórica apesar da simplicidade das suposições a que obriga o espectador.

Mas é pena. Isto porque «9», feito de máquinas e bonecos de trapo, é um dos filmes mais humanos que vi nos últimos tempos. E em momento algum esquece que para se criar algo de bom tal terá que ser feito com… alma. E eu concordo em absoluto. É na alma de cada um que reside o maior poder. O resto resume-se unicamente a convenções e grilhetas que o homem inventou para se proteger na sua debilidade. Mas tal como as máquinas em «9», que se rebelaram contra o homem, também o sistema já não o serve. Oprime-o.



«9», de Shane Acker, com Elijah Wood, Christopher Plummer, outros





Greenberg







Crónica indie de uma ida febril ao cinema


Suponho que ir ao cinema quando se está a meio de uma gripe não seja bom para quem vai e muito menos para a apreciação do filme. Mas como sou avesso a ficar de ‘molho’ desde que me consiga arrastar de casa, arrastado lá fui. «Greenberg», de Noah Baumbach, é um produto típico do chamado cinema independente norte-americano e tem tudo aquilo que à partida se espera deste género de cinema. Pessoas de alguma forma estranhas, relações problemáticas e gente feia. Para além disso, Greenberg é corporizado por um Ben Stiller de tal maneira esquelético que impressiona pela sua magreza.

Stiller é Greenberg, um homem já entrado nos quarenta anos mas que parece nunca ter saído dos vinte. Saiu, isso sim, de um manicómio (vá lá, desculpem, diz-se hospital psiquiátrico) e desde Nova Iorque viaja até Los Angeles onde vai passar uns dias a casa do irmão, este de bem com a vida a fazer na altura uma viagem com a família até ao Vietname. Greenberg é um tipo neurótico e egocêntrico que não consegue passar mais de cinco minutos com alguém sem conseguir arranjar um conflito. Ora isto para quem vem de visita a antigos amigos e acaba por se relacionar com a empregada do irmão não é lá muito saudável. E entre gente que bebe como se não houvesse amanhã, barriguda e profundamente desmazelada com o seu aspecto meio ‘hippie’ e um bonito cão a sofrer de uma doença sofisticada, sem que pouco ou nada aconteça lá se vai fazendo o filme de Baumbach, ele que tem no seu currículo «A Lula e a Baleia»(2005) e «Margot e o Casamento»(2007).

Se esta fosse uma normal crítica de cinema, claro que seria de bom tom evocar o cinema europeu como referência de «Greenberg», nomeadamente Eric Rohmer, mas a verdade é que uma das coisas boas da febre é permitir esta leveza na hora de comentar um filme. Que, diga-se em abono da verdade, pouco ou nada acrescenta às vidas de cada um e como momento cultural ou de simples entretenimento também não possui méritos por aí além. Ou seja, admito que «Greenberg» seja muito para fãs do cinema independente norte-americano mas ainda assim não deixa de ser mais do mesmo. Apesar de tudo, vou tentar rever o filme quando sair em DVD já sem febre e com uma bebida e uns aperitivos a acompanhar.




Greenberg, de Noah Baumbach, com Ben Stiller



Dorian Gray











O retrato tremido de Dorian Gray







 


Mesmo sendo pouco conseguidos, há filmes que podem valer a pena. Não só porque levantam questões importantes e intemporais sobre a natureza humana e até relativamente às opções de vida que cada um toma, mas também porque relembram grandes obras da literatura de sempre. Não é, no entanto, o caso de «Dorian Gray», do britânico Oliver Parker. E não o é porque se trata de um mau produto, de um produto de consumo imediato que de modo algum faz justiça à obra «O Retrato de Dorian Gray», de Oscar Wilde. As razões são várias e prendem-se desde logo com questões técnicas como o desajustado aparato da montagem e uma fotografia pomposa que se baralha na fidelidade estética ao romance ao pretender imprimir ao filme uma áurea de terror gótico. Outra das razões tem a ver com a infelicidade do ‘casting’ quanto ao actor que veste a pele de Dorian Gray. Apesar disso, e como se essas não fossem por si razões suficientes para o fracasso, o que falha sobretudo é a ineficácia na exploração da inquietude e dos tormentos por que a personagem principal irá passar depois da sua longa caminhada até à total decadência moral em busca do prazer sem limites. Como já falhara antes na amostragem da adulteração da personalidade de um jovem cândido e ingénuo alcançada através das ideias perversas de quem joga com a vida dos outros.


 


A história é conhecida, Dorian Gray (Ben Barnes), um jovem aristocrata, chega a Londres depois da morte do avô e conhece o pintor Basil Hallward (Ben Chaplin) que imediatamente se sente seduzido pela beleza singular do rapaz. Basil não só cria a sua maior obra ao pintar o retrato de Dorian como apresenta este a Lord Henry Wotton, um fidalgo cínico que o alicia para a sua visão do mundo onde apenas o que importa é o prazer. A par, como forma de pressão sobre o jovem, vai enfatizando o carácter efémero da maior virtude de Dorian Gray: a sua beleza física. Em contraposição, o pintor Basil age de modo paternalista com Gray pese toda a carga erótica e de desejo que este desperta em si. E enquanto Wotton corrompe definitivamente a personalidade do rapaz transformando-o num libertino perverso sem sentimentos que não sejam os da satisfação dos seus próprios prazeres, este mantém-se estranhamente jovem. E é no retrato do quadro pintado por Basil que se vai sulcando toda a dor que Dorian Gray vai semeando à sua passagem.


 


A melhor forma que Parker arranjou para retratar o desregramento e libertinagem em que Dorian Gray caiu foi a insistência em caricatas cenas de orgia. E quando o eterno jovem resolve dar um novo curso à sua vida, a inquietude que o atormenta é mostrada de forma muito redutora em rápidos ‘flasbacks’ dos seus mais infames actos anteriores. Infelizmente, o actor que corporiza Dorian Gray limita-se a cumprir uma missão sem rasgo e sem a capacidade de atribuir espessura dramática à personagem. Assim, cabe a Colin Firth pegar nas rédeas do filme conseguindo transmitir-lhe alguma carga psicológica sobre um dos mais recorrentes temas de reflexão do homem através das suas diferentes formas de arte: o da eterna juventude. Por outro lado, é à sua personagem que cabe a maior crítica ao espírito hedonista da época vitoriana. Mas até nas maiores reflexões o que fica é a esmagadora conclusão sobre a vida por mais simples que esta possa revelar-se: é que a existir para alguém, a imortalidade não é mais que uma condenação ao degredo se não houver quem acompanhe essa pessoa na sua existência. E no amor.



Filme prescindível.



Um Lugar Para Viver










O sentido da Vida



Sejamos honestos, Sam Mendes não é propriamente um estudante de cinema a apresentar uma tese de licenciatura e o estatuto que granjeou como realizador de cinema não lhe permite o relaxamento criativo que se observa neste dificilmente classificável «Um Lugar para Viver». Mendes, que ganhou primeiramente fama no teatro, mais propriamente no West End londrino, especializou-se no cinema como cronista de uma certa desolação quotidiana tal como o atestam «American Beauty» (1999), com o qual ganhou o Oscar, e o mais recente «Revolutionary Road» (2008). Daí que não seja de estranhar que aborde novamente uma temática ligada a famílias disfuncionais e casais em busca do sentido da vida. Mas se como comédia o filme perde importância em termos de intervenção psicossocial dadas as personagens demasiado caricaturais, como melodrama vive de situações inverosímeis e rebuscadas numa tentativa fútil de validar os dilemas do casal central da trama.



A própria premissa de que o filme parte é desde logo um pouco patética. Um casal de trintões descobre que vai ter um filho e aos seis meses da gravidez de Verona (uma excelente Maya Rudolph) vem também a saber que os pais de Burt (John Krasinski também em bom nível) vão partir para a Europa deixando-os a sós no Colorado onde viviam lado a lado. A partir daqui, Burt e Verona resolvem iniciar uma viagem por quase toda a América do Norte em busca de amigos e familiares que possam servir-lhes de farol para uma vida nova com a filha que está para nascer. E a intenção é mudarem-se definitivamente para junto dos eleitos. A ideia já por si soa um pouco a disparatada, mas olhando a imaturidade e pouca preparação dos dois trintões perdoa-se o que em condições normais seria de todo improvável. O problema é que nas visitas que fazem em locais tão distantes como o Canadá ou a Flórida, os dois só vão encontrar famílias desestruturadas, ‘hippies’ aburguesados e completamente descompensados intelectual e emocionalmente e até um casal que durante o dia adopta crianças como quem muda de camisa e à noite frequenta bares de ‘striptease’. E é claro que na sua quase infantilidade Burt e Verona saem a ganhar e acabam por descobrir o já referido sentido da vida. Pena é que não haja no filme uma única pessoa de comportamento social minimamente aceitável.



Enquanto brincou aos filmes em «Um Lugar para Viver», Sam Mendes gozou de liberdade criativa e até se integrou num mundo que nunca foi o seu, o do cinema independente. Deu ainda um toque intimista à sua realização e misturou num casal alguma ingenuidade com amor confrontando-o com figuras ainda mais excêntricas e outras completamente doidas. Não conseguiu no entanto evitar alguma falha de ritmo da acção que se deve a uma estrutura dramática desconexa já que muitas das cenas quase parecem curtas metragens diferentes entre si. Apesar disso, e do facto de haver pouca verdade neste seu filme, no deve e haver final observamos um ‘road movie’ bastante agradável de se ver e hilariante a espaços que não deve deixar de ser aconselhado a quem gosta de filmes… no cinema. Isto porque «Away We Go» tem bons actores e respeita uma linguagem cinematográfica que a televisão não tem capacidade para transmitir. Quanto a Sam Mendes, que venha o novo James Bond, próximo projecto do realizador. Um filme que vem mesmo a calhar, já que nas histórias do espião ao serviço de sua Majestade abundam as mulheres bonitas e Mendes acabou de se separar de Kate Winslet. A ver vamos se Rachel Weisz não volta para os braços do compatriota.



«Away We Go», de Sam Mendes, com John Krasinski e Maya Rudolph

Green Zone






A Farsa


Antes daquilo que vá aqui dizer logo a seguir, devo confessar que me apetece muito pouco escrever uma crítica convencional sobre «Green Zone: Combate Pela Verdade». A razão é simples, é que o mais recente filme de Paul Greengrass colocou-me de novo frente a frente com todos aqueles motivos que me fizeram um cinéfilo inveterado, compulsivo ou, se preferirem, um tolinho dos filmes. E isso faz-me desejar libertar somente a alma. Ou tudo aquilo que por ela passa neste momento.




Através de uma banda sonora extraordinariamente adequada à história, de uma montagem vertiginosa que me fez ficar agarrado à cadeira da sala de cinema do primeiro ao último segundo, com este seu filme o realizador britânico Paul Greengrass não só provocou em mim um turbilhão de emoções como ainda me fez recordar que a manipulação da informação tanto pode destruir a vida de uma só pessoa como provocar uma guerra lançando milhões de seres humanos no desespero e no caos. Repito, bem lá no fundo eu tinha a certeza que gostar de cinema só poderia ser algo de muito bom e libertador. E ao sair da sala de cinema há poucas horas atrás – escrevo este texto às primeiras horas da madrugada de Domingo - só não gritei bem alto o meu júbilo por pudor. Mas não se pense que em mim só havia alegria. Havia euforia, sim, mas também raiva e desespero. E só um grande filme como «Green Zone» indubitavelmente é poderia levar-me a esta miscelânea de sensações e à quase perda de controlo sobre mim mesmo.



Todos sabemos que os aliados, com os EUA à cabeça, invadiram o Iraque sob o pretexto de que o exército iraquiano tinha na sua posse poderosas armas químicas de destruição massiva. Hoje sabemos também que nunca foram encontrados esses famosos arsenais nos desertos daquele país do médio oriente. Mas é na tentativa de encontrar esse armamento que em 2003, poucas semanas após a invasão do Iraque, o Sargento-chefe Roy Miller (Matt Damon) e a sua equipa são enviados para o Iraque. Depois de várias informações tidas como seguras se revelarem totalmente falsas, Miller não só começa a desconfiar que algo ali não bate certo como se apercebe de alguma sabotagem com vista a inviabilizar o seu trabalho. Pela história passeiam-se ainda Clark Poudstone (Greg Kinnear), um alto funcionário norte americano que se revela um facínora e um impiedoso manipulador, Martin Brown (Brendan Gleeson), um agente da CIA recto e de bons instintos, e ainda Lawrie Dayne (Amy Ryan), uma jornalista demasiado ingénua e muito influenciável por fontes que não questiona.



Como pode facilmente perceber-se, baseado no livro de Rajiv Chandrasekaran e com guião de um dos mais importantes argumentistas de Hollywood, Brian Helgeland (ele que trabalha regularmente com Clint Eastwood e escreveu o argumento para «Robin Wood», de Ridley Scott, fita ainda por estrear), o filme explora a autêntica farsa que americanos e ingleses montaram como desculpa para invadirem o Iraque e deporem Saddam Hussein. Daí que muito mais que um filme de guerra, «Green Zone» é um ‘thriller’ que tem como pano de fundo a guerra no Iraque. Uma guerra que ainda hoje, sete anos depois da invasão, se prolonga. De câmara na mão, o que ajuda à acção trepidante a que assistimos, Greengrass dirige não só uma fabulosa equipa de actores como até o espectáculo pirotécnico que idealizou resultou numa impressionante beleza estética. Se é que se pode afirmar algo do género quando olhamos uma cidade a ser destruída pelas bombas inclementes que matam tudo o que mexe em seu redor sem diferenciar culpados ou inocentes. E se há verdades que doem, esta que o filme sugere, embora não possa ser considerada uma verdade total porque faltam elementos que provem o embuste, dói exactamente por isso mesmo: dói porque dificilmente serão julgados e condenados os grandes culpados da morte de milhares e milhares de cidadãos iraquianos e muitos militares do lado dos aliados.



Termino este texto voltando ao seu princípio porque é por filmes como este «Green Zone» que ao longo dos anos me tornei um apaixonado por cinema. Isto, pese o grande objectivo de Paul Greengrass ao realizá-lo, suponho, comigo não tenha funcionado. Isto é, não senti que tenha resultado como catarse para a culpa que a humanidade deve necessariamente sentir sempre que inventa uma guerra onde morrem tantos de nós. Ainda assim, o filme valeu e de que maneira como grande momento de cinema. Um filme, aliás, que ninguém deve perder. E não sendo meu hábito fazê-lo, não resisto neste caso à óbvia comparação com «The Hurt Locker». Sendo um filme de guerra que tem igualmente como cenário o Iraque e tendo sido vencedor de uns quantos Óscares, o filme de Kathryn Bigelow não passa de uma brincadeira de meninos confrontado com «Green Zone». Denso, interventivo, vertiginoso, esteticamente irrepreensível, brilhantemente protagonizado e fundamental é assim este imperdível «Green Zone: Combate Pela Verdade».

«Green Zone», de Paul Greengrass, com Matt Damon, Brendan Gleeson, Greg Kinnear e Amy Ryan


Fora de Controlo












Um cidadão exemplar



Oito anos depois, o actor que se celebrizou como Mad Max e posteriormente teve uma carreira plena no cinema desde produtor a realizador, regressa finalmente aos filmes. Neste seu retorno à interpretação, Mel Gibson surge de um modo como se dispensasse qualquer tipo de maquilhagem ao fazer de Tom Craven, um detective da brigada de homicídios que vê morrer a filha num disparo que de início julgou ser direccionado a si. A partir daqui, o detective parte para uma investigação onde parece procurar as mais diversas razões para não prosseguir vivendo. E com o desenrolar das pesquisas que faz, acabará por descobrir aquilo que jamais suspeitava e encontrar o que tão incessantemente procurava.



«Edge of Darkness» é a adaptação de uma mini-série britânica datada de 1985. E apesar do filme cumprir com o objectivo primordial do cinema, o entretenimento do espectador, a verdade é que não lhe acrescenta quase nada e se perde no confronto com as actuais séries televisivas já que não consegue adoptar uma linguagem cinematográfica própria. A começar porque não existe no filme um verdadeiro esquema narrativo. Que quer isto dizer? Significa que as diversas personagens vivem em função do desenvolvimento da trama e nunca se percebe de onde vêm e aquilo que as motiva para além das ocorrências da acção. E isso pesa no final do filme já que o espectador corre o risco de sair da sala com uma forte sensação de que tudo o que viu lhe soube a muito pouco. Se concluirmos ainda que o final do filme se torna óbvio pelas evidências que o antecedem, então estamos conversados quanto a um inexistente interesse superlativo deste «Fora de Controlo».



Ainda assim, há na história que se conta uma aura de tristeza e de contestação aos meios obscuros de que o poder se usa para levar em frente projectos que certamente a opinião pública condenaria caso deles tivesse conhecimento. E esses méritos devem ser reconhecidos. A somar a isto, para além das presenças pujantes de Danny Huston e Ray Winstone, dois secundários de luxo, passeia-se pelo filme um detective possuidor de irrepreensíveis códigos morais e de conduta protagonizado por um Mel Gibson esquecido de si para poder chegar ao coração dos espectadores. Tom Craven (Gibson) não é nenhum herói nem um polícia especialmente brilhante. É apenas um profissional competente e honesto que acredita em princípios basilares num mundo onde cada vez mais só são admitidos os muito maus e os muito bons. Um mundo sem espaço para aquelas pessoas que sobrevivem num espaço intermédio e apenas querem levar uma existência digna no cumprimento dos seus deveres. E de certo modo o filme homenageia estes ilustres anónimos acabando por ser esse o seu maior trunfo.



«Edge of Darkness», de Martin Campbell, com Mel Gibson, Bojana Bokakovic, Danny Huston e Ray Winstone


Lembra-te de Mim










Rebelde sem causa



Em 1991 Ally (Emilie de Ravin), ainda criança, vê a sua mãe ser assassinada numa estação de metro na cidade de Nova Iorque. Dez anos depois Ally, já crescida, irá cruzar-se com um jovem introspectivo, amargurado pelo suicídio do irmão e desolado pela pouca atenção que Charles (Pierce Brosnan ao seu estilo mais formal), o pai, concede à sua pequena irmã, ela que tem problemas de adaptação à escola e aos colegas. Esse jovem é Tyler (Robert Pattinson), ele que já antes tivera um encontro imediato com outro pai, este o de Ally, que é um polícia algo violento e obsessivo protagonizado por Chris Cooper. Tyler tem evidentes tendências depressivas mas não deixando por esse motivo de ser a âncora numa família destroçada pela tragédia. Isto porque também a mãe (uma desaproveitada Lena Olin) parece meio perdida num conflito interior que é transversal a todos naquela família.



A partir destes factos, o filme gira todo ele em torno da desagregação quer da família da bonita Ally ou do dolorido Tyler e da paixão que vai unir os dois jovens. Contra tudo e contra todos, até contra os próprios. O argumento, que foi idealizado com precisão quase matemática, filma de modo obsessivo o rosto angustiado da estrela do momento saída dos filmes de vampiros e, numa predilecção constante pelo drama, transporta o espectador para dentro de cemitérios onde os vivos choram os mortos e para o interior cosmopolita de uma Nova Iorque de postal ilustrado onde abundam os tradicionais táxis amarelos, os bares de culto e os restaurantes de luxo que mais não servem como cenário para novas desgraças e mais razões para fabricar um forte sentimento de nostalgia. Nesta espécie de fábula urbana, fácil será de perceber que a pouca profundidade do drama que se pretende e o ‘déjà vu’ presente ao longo de todo o filme pouco importam no seu objectivo principal: fazer render o peixe. Um peixe chamado Robert Pattinson à venda junto de um público feminino sedento de imagens do seu ídolo.



E se em termos críticos seria quase um sacrilégio admiti-lo, a verdade é que em questões de sensibilidade pelo que são as necessidades de um público de determinada idade desejoso de se idealizar no romance de um dos seus ícones é justo dizer que o cinema também se faz desta cepa. Se é bom ou mau cinema, neste caso pouco importará a quem não consegue suster as lágrimas perante o drama pungente e sai da sala a suspirar pelo jovem sedutor ou pela linda mulher em cujos corpos e almas se reviram durante cerca de duas horas. E se as coisas se passam deste modo, de que vale teorizar sobre a banalização de um género cinematográfico, o drama, que tem tantos e bons exemplos de qualidade em oposição a este «Lembra-te de mim»? Nada, absolutamente nada. Daí que, jovens adolescentes ou outros fãs de Pattinson ou deste modelo de cinema em registo sentimental, corram para as salas de cinema onde o filme está a ser projectado e deliciem-se com os vossos ídolos. Chorem, riam, emocionem-se e vibrem. Numa palavra, sintam, pois é para isso mesmo que também serve o cinema.



Para finalizar, não abdico de passar um louvor e lavrar um protesto. O aplauso vai para a pequenina Ruby Jerins, ela que é a irmãzinha desadaptada e talentosa, que se revela uma doçura de menina na exposição de um drama pessoal que não é tão invulgar assim. E a assobiadela, monumental, diga-se, vai para o final do filme disparatadamente panfletário a tentar uma seriedade descabida naquele que é afinal um romance de consumo modelarmente direccionado. Não havia necessidade.





«Remember Me», de Allen Coulter, com Robert Pattinson, Emilie de Ravin, Ruby Jerins, Pierce Brosnan, Chris Cooper e Lena Olin

Parnassus – O Homem Que Queria Enganar o Diabo








Deus e o Diabo numa terra sem Sol



Duvido que me consiga fazer entender, mas desde sempre achei que certos aspectos de imperfeição criam um poder de sedução enorme sobre algo ou alguém. Sobretudo quando essa imperfeição surge de uma sinceridade absoluta, de uma ingenuidade bondosa de quem se assume tal como é rejeitando maquilhagens de estilo, forma ou personalidade. «Parnassus – O Homem Que Queria Enganar o Diabo» é feito desta massa e Terry Gilliam, o ex Monty Python, é um realizador cujos filmes são erigidos sobre uma cinematografia arriscada e invariavelmente à beira do precipício. Não será pois de estranhar que passados vinte a trinta minutos de fita, a sensação que sentia crescer em mim com mais força era a de estar na presença de um filme confuso e muito desarrumado. E desse modo, como espectador também eu me senti à beira do abismo.



«The Imaginarium of Doctor Parnassus», título original do filme, marca também a derradeira participação do malogrado actor Heath Ledger no cinema, ele que morreria de overdose de medicamentos durante as filmagens. Curiosamente, tendo o argumento sido reescrito, o facto permitiu as participações nas filmagens de actores de renome como Johnny Depp (simplesmente brilhante), Jude Law e Colin Farrell. Nos papéis de substituição de Ledger, os três acabam por funcionar como alter-egos de Tony (a personagem defendida por Heath Ledger).



Relativamente à trama, ela parte de uma pacto que o mágico Dr. Parnassus (um Christopher Plummer em muito bom nível) faz com o Diabo (Tom Waits): em troca da imortalidade, Parnassus promete doar ao Diabo a alma do seu primeiro descendente logo que este complete dezasseis anos. E enquanto percorre as ruas de Londres numa carroça a vender a sua magia, Parnassus vai socorrer-se de Tony para tentar salvar a sua filha Valentina a poucos dias de completar a idade que a fará propriedade do Diabo. Valentina que é corporizada por Lily Cole, uma actriz de invulgar e estranha beleza.



Enquanto os clientes de Parnassus vão entrando pelo interior de um espelho mágico podendo aí viver a experiência mais sombria ou os prazeres mais simples, tudo fruto da imaginação dos próprios proporcionada pelo milenar Parnassus, Terry Gilliam caminha sobre o arame num delírio narrativo que chega a ser divertido mas cuja maior característica se alicerça num nítido desequilíbrio formal e de conteúdo. E nesta imperfeição fica a ganhar o mundo que está do lado de cá do espelho apesar das imagens soturnas de uma Londres marginal e nebulosa. No fundo, e no meio de tanto artifício visual, tudo resulta bem simples e mais não se pretende que discorrer sobre o bem e o mal, o real e o imaginado e o verdadeiro e o falso tal como se informa na sinopse promocional do filme. Mas as grandes ideias de Gilliam perdem-se na sua incapacidade de as dotar de riqueza e lucidez narrativas. No entanto, como referi no início a boa vontade e a humildade de querer fazer bom cinema são tão evidentes que o filme acaba por exercer um fascínio sobre nós que em boa verdade não teria só por si. E assim, cada vez mais me convenço que em cada homem louco há um homem bom. Mas é claro que nesta minha convicção falo também por mim.















«The Imaginarium of Doctor Parnassus», de Terry Gilliam, com Christopher Plummer, Heath Ledger, Tom Waits, Lily Cole, Johnny Depp, Colin Farrel e Jude Law


Uma Outra Educação








A educação de Lynn

Jenny (Carey Mulligan) é uma jovem e talentosa estudante que vive com os pais nos subúrbios de Londres. A família, gente medíocre e conservadora, sonha com um curso de literatura para a filha na famosa universidade de Oxford. Já Jenny, aparentemente mais madura que as suas colegas num também ele ultra-conservador colégio feminino, fantasia com a cosmopolita Paris e com uma existência completamente diferente da vida aborrecida que leva. Para ela, a vida teria certamente outro sabor a ouvir as canções de Juliette Greco, a fumar cigarros russos e com a ida regular a jantares em clubes restritos. Neste entretanto, surge David (Peter Sarsgaard) na vida de Jenny, um homem mais velho e sedutor que parece assumir-se como o meio mais rápido para Jenny atingir o que afinal parece unicamente desejar de Oxford.



O filme segue de perto as memórias escritas da jornalista inglesa Lynn Barber. Realizado pela dinamarquesa Lone Scherfig («Italiano para Principiantes», 2000) a narrativa assume conceptualmente uma espécie de pacto com a Inglaterra do pós guerra, já que se mostra cinzenta e convencional. E lamentavelmente, como se se tratasse de um pouco ambicioso espectador acabado de aterrar numa sala de cinema a ver o mundo a preto e branco, a realização depressa encontra um réu para um ‘crime’, note-se, onde apesar da sua juventude a seduzida o é através de carros luxuosos, prendas caras, viagens e toda uma vida de sumptuosidade. Apesar disso, e não esquecendo a peculiar dimensão moral do sedutor, David nunca se mostra um homem pervertido numa redutora busca de sexo parecendo verdadeiramente interessado no amor de Jenny e na sua enriquecedora companhia. E num filme que chega até nós recheado de expectativas e apontado como um dos dez melhores filmes candidatos aos Óscares, imagine-se o quão fascinante seria se a realização explorasse este filão ligado a gente diferente que quer e ama de modo marginal àquilo que a sociedade e a moral impõem.



Mas não e «An Education», no seu título original, teoriza vagamente sobre a educação que a vida acaba por dar a quem tem a coragem - ou a insensatez, como defende o filme - de a seguir fugindo aos cânones normais. Mas, mais uma vez sem surpresas, Oxford acaba por vencer numa vitória demasiado cruel sobre um amor amoral, é certo, mas um amor. E cruel porque quase no final da fita, Jenny, já universitária em Oxford e ultrapassada a ‘irritação David’, acaba por revelar que regressou a Paris como se fosse a primeira vez e com um namorado da sua idade. Olha que bem e que sorte a dela. Supõe-se que aquilo que o filme quer dizer é que Jenny já nem sequer recorda David, o homem que a fez feliz durante algum tempo sem a obrigar a nada e com a bênção da família, a ‘teve’ pela primeira vez e a apresentou à vida que sonhava. Mas não, nada mais falso, já que o filme mente descaradamente. Porque se o cinema é vida e se neste caso retrata as memórias de alguém, da jornalista inglesa Lynn Barber como já referi atrás, é bom que se faça a pergunta fundamental: afinal o que relembra Lynn nas suas memórias? Simples, a sua vida com o infame David. Tudo o resto que viveu, supõe-se, é tão saudável e tão normal que ninguém para além de si e dos que partilham a sua vida quer saber. Curioso, não?



Ainda assim, estamos na presença de um filme agradável mas onde convém ler para além da mensagem subjacente. Destaque para a interpretação muito deliciosa de Carey Mulligan, toda ela de uma naturalidade e fogosidade espantosas que fazem de Jenny o centro da acção num filme recheado de personagens riquíssimas na amostragem dos clichés sociais e familiares de uma Inglaterra dos anos sessenta sem gosto pela vida. Também grande está Alfred Molina, o pai, no desenho de um homem mesquinho que transporta para a filha o sonho de uma vida que não viveu. Mas que rapidamente se dispõe a alienar uma aparentemente sólida ideia de educação à vista do luxo e de uma dimensão social para a qual nunca teve a menor capacidade para se integrar.



Resumindo, «Uma Outra Educação» é um pequeno filme que se agiganta na forma como permite ao espectador meditar sobre a vida através dos revezes amorosos de uma jovem adolescente. Ainda que, por vezes, se chegue a conclusões que dificilmente serão aquelas que esperaríamos comodamente sentados no sofá da sala de cinema.







«An Education», de Lone Scherfig, com Carey Mulligan, Peter Sarsgaard, Alfred Molina, outros


Visto do Céu












O inferno na terra



Que dizer de um filme recheado de boas intenções e que admitimos ir tocar emocionalmente a esmagadora maioria dos espectadores dada a sua temática dolorosa mas que acreditamos ser uma obra falhada dados os seus desequilíbrio e despropositada grandiloquência? Provavelmente o melhor seria remetermo-nos ao silêncio. Isto porque ninguém quer – eu pelo menos não o pretendo – tocar amargamente o âmago de quem ler palavras menos amáveis para com um filme que nos fala de uma menina cruel e precocemente expulsa desta vida, ficando algures num território descrito como geograficamente situado entre a vida e a morte. Mas porque discordo totalmente da abordagem de Peter Jackson (realizador da fabulosa trilogia de «O Senhor dos Anéis») a um caso de vida (e morte) tão visceralmente cortante, arrisco mesmo magoar quem tenha visto e se tenha particularmente comovido com «The Lovely Bones», no seu título original.



Susie Salmon (Saoirse Ronan) é uma adolescente de catorze anos feliz e apaixonada pela vida e por um colega de escola. Vivendo no seio de uma família feliz composta pelo pai (Mark Wahlberg), pela mãe (Rachel Weisz) e por um pequeno irmão e uma irmã, Susie está longe de adivinhar que vive paredes meias com um perigoso pedófilo. Atraída pela curiosidade natural de uma menina ingénua e de boa índole, Susie acaba violentada e barbaramente assassinada por George Harvey (Stanley Tucci), um seu vizinho. Incapaz de seguir definitivamente para o céu, Susie observa a meio caminho entre a morte e a vida a incapacidade da sua família em superar a dor de tão difícil perda.



O filme adapta o livro homónimo de Alice Sebold, ‘best seller’ mundial. No entanto, a magnificência visual e plástica pretendida pela realização resulta numa superficialidade aviltante que apenas visa explorar do pior modo a dor de quem, sentado numa cadeira da sala de cinema, observa a tragédia da família Bones. E o que poderia ter sido um ensaio sobre os mistérios que encerram a vida para lá da morte, acaba por se tornar num exercício patético e inverosímil sobre uma família devastada e incapaz de ultrapassar a mágoa para poder prosseguir o seu caminho.



Ainda assim, na abordagem psicológica ao assassinato, e ao assassino, o filme mostra um cuidado que não teve na questão familiar e da já referida enigmática condição de Susie. Para isso muito contribuiu a portentosa interpretação de Stanley Tucci, o psicopata, ele sim a mostrar-nos como o perigo pode morar ao nosso lado sem que dele suspeitemos. E esta acaba por ser a prova final do enorme desequilíbrio de um filme onde a tragédia de uma família duramente traumatizada acaba por ser secundarizada pela assustadora normalidade de um homem profundamente doente e desumanizado. É também isto que eu não posso perdoar a Peter Jackson. Assim como à ideia subjacente da sua realização de que perante um drama como o que se assiste ao homem apenas resta coração como se devêssemos menorizar a razão. E eu não acredito nesta teoria.







«The Lovely Bones», de Peter Jackson, com Saoirse Ronan, Mark Wahlberg, Rachel Weisz, Susan Sarandon e Stanley Tucci



Alíce no País das Maravilhas





Do outro lado do espelho



Escrita por Lewis Carrol, «As Aventuras de Alice no País das Maravilhas» possui mais de duas dezenas de adaptações ao cinema. Chegou agora a vez de Tim Burton. Este, pegou em «As Aventuras de Alice no País das Maravilhas», adicionou-lhe «Alice do Outro Lado do Espelho» e fez um filme não se limitando a sonorizar as histórias e dotá-las de imagens em movimento. Isto porque «Alice in Wonderland», de Tim Burton, é a visão muito particular do peculiar e genial realizador sobre as obras de Lewis Carrol já de si repletas de simbolismos, paradoxos e mensagens subliminares. E se a história de Alice pertence ao imaginário infantil é inegável que o realizador norte-americano se dirige muito mais a graúdos que a miúdos sem no entanto deixar ninguém de fora do seu trabalho de composição. Um trabalho que é todo ele um saudável elogio à loucura. O que acaba até por ser recorrente na obra do cineasta de «Eduardo Mãos de Tesoura» (1990), «Marte Ataca» (1996), «O Cavaleiro sem Cabeça» (1999) e «O Grande Peixe» (2003) para só citar algumas das suas obras.

Alice (Mia Wasikowska) tem agora 19 anos de idade e regressa à terra onde esteve enquanto criança. Lá, ela vai reencontrar os seus velhos amigos: o Coelho Branco (Michael Sheen), Tweedledee e Tweedledum (Matt Lucas), a Lagarta Absolem (Alan Rickman), o Gato Cheshire (Stephen Fry) e o excêntrico e devoto Chapeleiro Louco (Johnny Depp). No entanto, a felicidade é então algo inexistente por aquelas bandas já que a Rainha Vermelha (Helena Bonham Carter) se apoderou do trono pela violência e à Rainha Branca (Anne Hathaway) e todos os seus anteriores amigos resta esperar que Alice possa devolver as maravilhas àquele país recheado de personagens fantásticas.

Durante quase duas horas, através das imagens em 3D, o espectador vive por dentro uma história fantástica sobre a busca que alguém efectua na tentativa de empreender o rumo certo para a sua vida. Um dos grandes desafios da realização de Burton prende-se precisamente com esse aspecto particular: o de saber até que ponto cada um de nós percebe ou não o que realmente importa nas nossas vidas através do paralelismo com o filme. Será que interessa perceber o que têm em comum um corvo e uma secretária ou será muito mais definitivo para a nossa existência determos em nós o talento capaz de não deixar que os laços importantes se quebrem ainda que cada um tenha que seguir rumos diferentes para as suas vidas? A par das sempre importantes questões filosóficas, o filme possui uma admirável qualidade artística e é de uma beleza visual cativante. É ainda de realçar que a animação em 3D está no filme ao serviço da história e não o contrário. E num filme recheado de grandes intérpretes do cinema actual, Helena Bonham Carter é talvez aquela que mais se destaca na ambiguidade de desejar o amor dos outros mas, por insegurança, acabar por optar pela política do medo. Já Johnny Depp, actor ‘fetiche’ de Burton, joga em casa dividido entre a mais completa insanidade e a emoção de dar corpo a um ser aparentemente seguro de si mas a espaços desprotegido e interrogativo sobre o meio que o rodeia.

Resumindo, «Alice no País das Maravilhas», de Tim Burton, apresenta-nos um mundo onde o sonho vira pesadelo e representa uma excelente oportunidade para alguns adultos recuperarem para si a criança que foram um dia. E, quem sabe, perceber se o caminho seguido por cada um está de acordo com os seus sonhos de menino. E não sendo segredo para ninguém, resulta curioso verificar como de um mundo aparentemente recheado de loucura se pode extrair tanto de positivo. E de belo para os olhos e para a alma.











«Alice in Wonderland», de Tim Burton, com Mia Wasikowska, Johnny Depp, Helena Bonham Carter e Anne Hathaway

Shutter Island












A barca do inferno



Até que ponto a loucura não serve de escudo ao ser humano como defesa contra a dor mais atroz? E se recuperada a lucidez de que força, ou forças, precisa o homem para sobreviver às inquietantes memórias que o levaram a perder a sanidade mental? E mesmo que tenha essa capacidade quererá este continuar a vida carregando às costas um fardo tão pesado? Esta e outras questões são-nos sugeridas por «Shutter Island», um ‘thriller’ de terror psicológico baseado na obra homónima de Dennis Lehane. «Shutter Island» que representa igualmente mais uma claustrofóbica descida do cinema aos infernos da mente humana. Neste caso, através de um argumento tão labiríntico como labiríntica pode revelar-se a própria mente. E para aqueles espectadores que entrados na sala de cinema se esquecem do mundo lá fora e vivem de modo particularmente sensível a vida das personagens que desfilam na tela, temo que o mais recente filme de Martin Scorsese lhes proporcione hora e meia de profundo sofrimento. De muito bom cinema, que não restem dúvidas, mas em igual medida de um doloroso pesar. Porque a tensão crescente no drama da vida de Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio) possui componentes próprios da mais aflitiva mágoa.



Teddy Daniels é um Agente da Polícia Federal em missão na prisão psiquiátrica de Shutter Island. Acompanhado do colega Chuck Aule (Mark Ruffalo), Daniels é também ele um homem atormentado pelo trágico desaparecimento da mulher. E a busca da verdade sobre os acontecimentos que rodearam a sua morte assim como o enigmático sumiço do piromaníaco assassino Laeddis, são os motivos reais por detrás da presença de Daniels na muito rochosa ilha. Ele que ali se desloca em missão oficial alegadamente na tentativa de investigar a fuga de uma das mais assustadoras criaturas presas no sombrio estabelecimento para tratamento psiquiátrico. Sobre este abundam igualmente os rumores sobre actos ilegais de investigações à mente humana e outras experiências cirúrgicas que visam mudar a atitude dos criminosos. E o comportamento do Dr. Cawley (Ben Kingsley), director clínico do estabelecimento, e dos elementos da guarda prisional parece atestar as desconfianças do Agente Federal.



Mas no que concerne a uma mente humana transtornada todas as possibilidades são de equacionar. E nem sempre aquilo que parece é. O filme, herdeiro do cinema clássico, apresenta uma estrutura conceptual irrepreensível que o leva a uma extrema eficácia na espiral de tensão que adopta. E a determinado momento todos se interrogam. As personagens sobre o seu verdadeiro papel no drama e o espectador que começa então a perceber que algo de verdadeiramente grandioso está para lhe ser revelado. À altura, vivem-se os anos 50 ainda na sombra de Auschwitz e da barbárie nazi sendo que, curiosamente ou talvez não, a chegada a Shutter Island só pode ser efectuada por ‘ferry’, o que aponta para a mitologia grega.



E num filme, mais um, de doloroso testemunho por parte do espectador da ambiência opressiva e, mais para o final, da descoberta do quão desordenada pode ficar a mente humana como resultado de um trauma profundo, emerge a excelente interpretação de Leonardo DiCaprio, ele que para muitos continua a ter que provar a sua enorme capacidade para a representação em cada novo filme que faz. DiCaprio que é muito bem coadjuvado por Mark Ruffalo, Ben Kingsley e pelo octogenário Max von Sydow. Quando o filme termina , até pelo período difícil de tragédia atrás de tragédia que o mundo vive na actualidade, há imagens que chocam de tal modo que é quase tarefa impossível a de nos alhearmos de que também nós somos seres humanos e como tal possuímos um limite para suportar a dor.





«Shutter Island», de Martin Scorsese, com Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Ben Kingsley e Max von Sydow

Anticristo












O falso profeta



Desde «Dogville» (2003) que a minha visão do trabalho de realização cinematográfica de Lars von Trier se alterou radicalmente. Para mim, o dinamarquês, criador juntamente com Thomas Vinterberg do manifesto Dogma 95 em prol de um cinema mais puro, realista e menos comercial, passava a mero provocador e usava o seu cinema como um meio para atingir esse fim que em alguns é positivo mas em si é nefasto. E em «Anticristo», Lars von trier ultrapassa todos os limites da razoabilidade edificando uma obra – de arte, a sua arte, não a nego – a todos os títulos violenta cruzando o masoquismo com o sadismo tendo ainda a ousadia de assumir publicamente que esta foi a forma que encontrou para ultrapassar a sua própria depressão, o que faz com que apeteça perguntar que culpa têm o cinema e o espectador do seu estado doentio. Como resultado, o que se observa nesta espécie de catarse para si próprio através da dor emocional, da agonia física e de uma estilização visual tão aberrante quanto excessiva é a prova da misoginia de que sempre deu conta nos seus filmes.



Não existe amor na relação entre Ele (William Dafoe num papel a que se adequa na perfeição) e Ela (Charlotte Gainsbourg numa interpretação absolutamente corajosa). O que se vê é sexo animalesco onde até o desejo parece andar arredio e o acto serve apenas para ajudar a expiar uma profunda e dolorosa existência feita apenas de dor a partir do momento em que o filho de ambos morre acidentalmente enquanto estes se perdiam numa constrangedora cena de sexo. Depois da tragédia, ela adoece psicologicamente e ele, psiquiatra, resolve que a melhor terapia será levar a mulher a enfrentar os seus medos. E com esse propósito em mente viajam até uma cabana perdida no interior de uma frondosa floresta, onde, lá chegados, acontece do bom e do bonito. Através de uma câmara nervosa bem ao jeito do movimento que fundou, Lars von Trier filma então a mais abjecta das vivências que até hoje observei num casal, atingindo uma dimensão de terror visual que faz com que este filme seja de difícil aconselhamento a quem quer que seja dada a incomodidade que provoca.



Surrealista e estilizado de um modo absolutamente pretensioso, «Antichrist» nunca poderia tornar-se na homenagem ao cineasta russo Andrei Tarkovski como o realizador dinamarquês pretendeu. Ainda assim, realce para algumas imagens monocromáticas com a música de Händel como pano de fundo e a cena final das mulheres no bosque num simbolismo que evoca uma espécie de redenção que sabe a pouco, muito pouco. Noutros artistas a doença psicológica de que padeceram levou a que edificassem obras belíssimas que são a prova da grandiosidade humana. Em Lars von Trier não. Nele, na sua arte, reinam o pessimismo, o mal-estar e um reiterado olhar doentio e amargo sobre o seu semelhante. E não, eu não assino por baixo.







«Antichrist», de Lars von Trier, com Charlotte Gainsbourg e William Dafoe

O Lobisomem












A bela e o monstro



Que se pode dizer de um filme que manda às malvas o fascínio enigmático e receoso pelas histórias de lobisomens transformando uma suposta história de medo numa espécie de ‘fast food’ cinematográfico? Pouco, muito pouco, a não ser lamentar as presenças de actores do calibre de Anthony Hopkins e Benicio del Toro no elenco, o que faz com que muitos incautos se desloquem a uma sala de cinema para ver não mais que mera animação digital, uma ambientação à Inglaterra vitoriana e uma fotografia apropriadamente gótica. De resto, já sabíamos que o homem se transforma em lobo nas noites de Lua cheia, que a sua mordida deixando a vítima viva faz nascer uma nova besta e que nestas coisas fica sempre bem uma bela (Emily Blunt) atraída por semelhante bicheza (Benicio del Toro).



No limite, «O Lobisomem», de Joe Johnston, nem sequer poderá ser acusado de ‘pastiche’ porque a sua dimensão cinematográfica roça a nulidade. Os efeitos especiais são muito pobres e a extensão do medo mede-se pelos quilos de carne humana projectada pelos ares de uma aldeia dos tempos de Jack, o Estripador, e ainda pelos muitos litros de sangue que jorram dos cantos da boca do ‘animal’. Não percebemos é onde e quando Lawrence (Toro) começa a interessar-se romanticamente por Gwen (Blunt) e até que tipo de atracção esta exerce sobre Sir Talbot (Hopkins). E não percebemos porquê? Simples, porque as personagens são psicologicamente vazias e o drama inexistente. Tarefa quase heróica é a de quem ousa manter-se na sala até surgirem na tela os créditos finais do filme. É que por essa altura, já não se resiste a tantos braços e pernas decepados, às vísceras humanas arrancadas à dentada sem dó nem piedade e a aldeões esgadanhados a correrem que nem parolos para uma morte certa. Mas, porque se trata de uma morte rápida, há até mortes bem piores. Valha-nos isso e a quem duvide do que aqui se afirma valha-lhes S. Tomé: vão ver para crerem.



«The Wolfman», de Joe Johnston, com Anthony Hopkins, Benicio del Toro e Emily Blunt


Um Homem Singular










Laços eternos



A vida ensina-nos que muitas vezes é de onde menos esperamos que nos chega o mais comovente dos mundos. Assim é com «Um Homem Singular», filme que estreia Tom Ford na realização de filmes, e com a mais extraordinária representação que já vi do brilhante actor que é Colin Firth. O filme é todo ele de uma perfeição estética ímpar, de uma sensibilidade que aprofunda o que de melhor possui o ser humano através da sua personagem principal e possui ainda um estado de encantamento sentimental que nos enleva na história que desfila defronte dos nossos olhos. Isto, sem que alguma vez a realização de Ford pretenda a militância do espectador através da condição sexual do Prof. George Falconer (Firth). Mas mais do que falar de tendências sexuais, que apenas surgem englobadas no quotidiano das personagens, a história soa-nos como um cântico sobre um amor sem fronteiras nem parametrizações e vê-se sem que alguma vez a vertente carnal da sexualidade de Falconer, um homem de princípios muito vincados, seja sequer sugerida quanto mais exibida.



A narrativa parte da perda de Falconer. Depois de um acidente de viação, Jim (Matthew Goode), seu companheiro de dezasseis anos, morre. A partir daqui, George Falconer perde todo o interesse pela vida e inicia a preparação de um final provocado e abrupto para a sua própria existência. Entretanto, deixa que o seu dia decorra com a normalidade possível sem que a decisão que tomou interfira na vida dos que o rodeiam. Nomeadamente na actividade dos seus alunos e na inquietude de Charley (Julianne Moore), sua amiga de sempre com quem, em tempos remotos na vida de ambos, tentara um relacionamento amoroso. O filme adapta o livro homónimo da autoria de Christopher Isherwood e a acção decorre no início dos anos sessenta numa altura em que a sociedade americana vivia atemorizada pela crise provocada pela ameaça dos mísseis cubanos. E quando Falconer pensa que pode tomar nas suas mãos o seu próprio destino eis que é o destino quem lhe troca as voltas de um modo lancinante.



Tom Ford é, antes de ser realizador de cinema, um conhecido desenhador de moda que trabalhou para as casas Gucci e Yves Saint Laurent. E a esse facto não é alheia a perfeição visual e técnica num filme onde a montagem é exemplar e as imagens se balanceiam suavemente ao som de uma tocante banda sonora. De realçar ainda a forma discreta como as personagens se movem numa sociedade irrequieta, à época, e a excelente ‘mise en scène’ que nos transporta até uma Califórnia que desponta então como o coração da América. Em suma, um filme inesperado não só pela sua singularidade como pelo modo sereno como expõe a dor, a tragédia de um homem que vê a sua felicidade decepada de forma fortuita. E, no final, percebemos como é absolutamente verdadeira aquela nossa suspeita sobre a fragilidade com que todos nós passamos pela vida.



Embora já referida, uma última mas fundamental chamada de atenção para a pungente interpretação de Colin Firth, um actor de corpo inteiro e, com este papel, um dos mais sérios candidatos a vencedor do principal Oscar da representação masculina. Por uma vez que seja o preconceito não tem lugar, não pode ter, num filme que é antes de tudo um hino à vida. Mesmo que essa vida seja pensada a partir do momento em que alguém julga nada mais poder esperar dela e de si. Porque a dor, não sendo um modo de vida, é um factor determinante para aquilo que dela esperamos ou desejamos.





«A Single Man», de Tom Ford, com Colin Firth, Matthew Goode e Julianne Moore

Precious












Flor à beira do pântano



Década de oitenta, ghetto de Harlem, Nova Iorque, uma jovem negra de 16 anos que sofre de obesidade doentia está grávida do seu segundo filho. E quem é o pai de ambos? O seu próprio pai biológico. Mas esta é só parte da miséria em que a jovem Precious vive. Para além dos abusos sexuais de que é vítima por parte do pai, também a mãe (Mo’Nique), uma mulher monstruosa, se aproveita da filha a todo e qualquer nível, incluindo a usurpação dos subsídios do estado a que Precious tem direito, exploração desta no trabalho doméstico e, como se não bastasse, também se aproveita sexualmente da pobre adolescente. Se juntarmos a isto uma opção conceptual por parte da realização cujos recursos estilísticos privilegiam a realidade em detrimento do cinema espectáculo facilmente concluímos que «Precious», de Lee Daniels, é um grito (para não dizer berro) de alerta preenchendo com todo o propósito uma das funções do cinema: a denúncia.



Toda a história se constrói ao redor de pormenores sórdidos que a narrativa faz questão de sugerir evitando muito acertadamente o exibicionismo gratuito e a tentativa de arrancar do espectador uma lagrimazinha fácil. Por outro lado, a interpretação sóbria da actriz que dá corpo a Precious, Gabourey Sidibe, acaba por contribuir para o realismo cru, e cruel, de uma condição vivida nas fronteiras mais mórbidas do ser humano. Para sobreviver à crueldade da vida a que é forçada, Precious sonha com uma realidade absolutamente desconexa da sua e a uma distância inatingível para alguém a viver uma conjuntura tão desfavorável quer pela pessoa que é como pelo meio sociocultural que a rodeia. Pode até parecer uma barbaridade dizê-lo, mas aqui se prova que até o sonho não está acessível a todos. E sem querer desvendar a história a quem ainda o não viu, como se a prová-lo quase no final do filme o destino volta a pregar mais uma perversa partida a Precious.



Sendo um filme de causas, é interessante verificar as presenças de Mariah Carey (ela é a funcionária da segurança social) e de Lenny Kravitz (o enfermeiro John) num filme que teve a bênção da todo-poderosa Oprah Winfrey. E se a esperança para Precious é um simples exercício de retórica, para outras Precious, no feminino ou no masculino, talvez ainda se vá a tempo de agir. E essa terá sido a razão fulcral para a realização de um filme onde há ainda lugar para abordar ao de leve o preconceito homossexual através da lésbica e muito bonita Ms. Rain (Paula Patton), ela, professora numa escola alternativa, que é a primeira a dar a mão a Precious. Mas um filme, deve dizer-se, que caminha perigosamente à beira do abismo sem no entanto chegar a despenhar-se. E ainda bem que assim é, concluo.





«Precious», de Lee Daniels, com Gabourey Sidibe, Mo’Nique, Paula Patton, Mariah Carey e Lenny Kravitz

Estado de Guerra











Jogos de Guerra





«Estado de Guerra» está nomeado para nove estatuetas da Academia de Hollywood e tem recebido, por parte da crítica, os mais rasgados elogios. Na verdade, para quem aprecie uma abordagem à temática da guerra focando-se na tensão própria dos militares em combate ou nas suas acções diárias de sobrevivência numa terra hostil, este talvez seja o filme indicado. Mas se, por um lado, «The Hurt Locker», no seu título original, apresenta uma visão despolitizada do conflito onde uns procuram apenas salvar as vidas que outros querem ceifar, por outro nunca se coloca a questão de tentar perceber porque foram afastados das suas famílias e viajaram para uma terra inóspita e longínqua onde a única coisa que lhes interessa é terminar vivos o tempo da missão que lhes foi dada. Bom, nem a todos já que o Sargento William Jones (aqui sim, uma fabulosa interpretação de Jeremy Renner) surge como o elemento que comprova como os efeitos da adrenalina da guerra se podem tornar numa droga e num vício difícil de largar.



As referências cinematográficas são sempre bem-vindas e as cenas de tiroteio no deserto iraquiano entre as tropas americanas e os indígenas insurrectos procuram a associação óbvia aos ‘western’ de outros tempos e evocam a memória das terras onde a lei era imposta a tiro. «Estado de Guerra» não se fica apenas pelos tiros já que os meios e as armas são muitíssimo mais sofisticados e o filme acompanha uma equipa especializada no desmantelamento de explosivos. Toda a tensão e adrenalina da narrativa giram em volta do já referido Sargento W. Jones, um militar temerário muito próximo do suicida, e do antagonismo com o seu companheiro, o também Sargento Sanborn (Anthony Mackie), que se vale das regras e dos ensinamentos colhidos para tentar salvar a pele. Pelo meio, há ainda um soldado, Owen Eldridge (Brian Geraghty), que faz o papel de ingénuo dividido na admiração pela coragem louca de um e pelo extremo bom senso do outro.



Neste mundo caótico e de uma certa irreversibilidade do homem preso à sua natureza, quer seja ele militar americano ou terrorista iraquiano, resulta um filme desenhado com mão firme mas onde a psicologia auto-destrutiva que lhe está inerente não consegue soltar-se do carácter mecânico da acção de homens como meros peões numa guerra que nem sequer procuram compreender. Daqui resulta uma trama sem emoção para o espectador a não ser, como já referido, na corporização de Jeremy Renner de um militar irremediavelmente seduzido pela adrenalina da guerra. E essa é a mensagem maior do filme de Kathryn Bigelow, a dos militares como grandes vítimas do absurdo da guerra. Enfim, é uma visão entre muitas outras mas que no entanto não escapa ao carácter extremamente redutor da tese que defende. E o ritmo seguro da acção aliado a um certo desencanto das personagens não são suficientes para me fazerem admirar sobremaneira um filme onde a tensão se sobrepõe à emoção. Talvez temendo isso ainda durante a sua produção, a realização socorreu-se dos nomes de Guy Pearce, Ralph Fiennes e David Morse como chamariz para as bilheteiras das salas de cinema. Escusadamente, já que qualquer um dos três actores foi dar apenas o pontapé de saída sem ter participado activamente no jogo.







«The Hurt Locker», de Kathryn Bigelow, com Jeremy Renner, Anthony Mackie e Brian Geraghty

Invictus







Mandela, o homem por detrás de uma nação





Nelson Mandela ficará para a história como um dos homens que melhor representou o sentido humanístico de alguém. Ele que optou por esquecer e perdoar o sofrimento que lhe foi infligido durante os 27 longos anos em que esteve preso numa cela diminuta em nome da arbitrariedade humana, para poder unir e salvar uma nação dos seus próprios temores e do espírito de vingança que entretanto se agigantava. A partir do livro do jornalista John Calin, em «Invictus» Clint Eastwood narra de forma sóbria mas brilhante o modo como o já então presidente da África do Sul resolve, em nome da salvação de um país, apoiar a selecção nacional de râguebi – que fora um dos maiores símbolos do ‘apartheid’ – numa tentativa de união entre brancos e negros. E se noutros filmes de Eastwood está patente uma forte descrença relativamente ao ser humano (vide «Gran Torino» ou «Million Dollar Baby», por exemplo) em «Invictus» existe uma fé inabalável naquilo de que os homens são capazes de fazer apelando, em derradeira possibilidade, à força que só os detentores de uma grande liberdade interior podem usufruir.



Apesar de se tratar de um filme de abordagem política, dada a história real que o suporta era impossível que assim não fosse, a realização de Eastwood preocupou-se muito mais com os factos ligados à relação entre Mandela (Morgan Freeman) e François Pienaar (Matt Damon) e, por sua vez, com o crescendo de força e união entre a selecção nacional de râguebi, da qual Piennar é o capitão, e brancos e negros desavindos até então. As questões pessoais e políticas ligadas a Mandela são tratadas muito ao de leve num filme em que o velho realizador procura falar mais ao coração do espectador que propriamente à razão como era seu timbre. E, neste aspecto, Mandela aparece aqui como um herói distante do modelo normalmente adoptado por Eastwood, já que se trata de um homem já não a afrontar um sistema mas sim a colar-se a ele, a alterá-lo é certo, mas acabando num triunfo conjunto: homem e sistema.



Falando especificamente de cinema, o filme torna-se emotivo a espaços mas de uma forma muito natural sem cair no sentimento gratuito. Por outro lado, sendo um cineasta representante do cinema clássico norte-americano, a narrativa adopta uma complexidade estrutural longe da biografia simples e muito menos se aproxima do filme épico ligado às questões desportivas. No entanto, é absolutamente épico e brilhante o crescendo dramático que Clint Eastwood atinge com as filmagens da final da Taça do Mundo de 1995. E não era tarefa fácil, uma vez que o resultado era conhecido em virtude do jogo ter acontecido na realidade e ser sobejamente conhecido o seu vencedor. Um último destaque para Morgan Freeman num filme notável a vários níveis: na sua interpretação do homem admirável que é Nelson Mandela, Freeman parece despojar-se completamente de si no objectivo claro de mostrar ao mundo o rosto da luta contra o ‘apartheid’ e um dos mais justos Nobel da Paz de sempre.



Quanto a mim, vou relembrar o pequeno ‘cameo’ de Clint Eastwood - ele que aparece na bancada a apoiar a equipa sul-africana na final da Taça do Mundo - no momento em que comprar a minha própria camisola da selecção que uniu um país e mostrou à aldeia global a raça e o querer dos homens justos.






«Invictus», de Clint Eastwood, com Morgan Freeman e Mat Damon