Mostrar mensagens com a etiqueta Filmes. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Filmes. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Cela 211







Marcado para morrer


Juan Oliver [Alberto Ammann] é um cidadão comum que parece levar uma vida controlada e feliz. A sua mulher está grávida, o casal vive um invejável idílio amoroso e o jovem tem um novo emprego indo ocupar um lugar de guarda prisional na cidade onde ambos vivem. Contudo, a vida, essa mesma vida que julgamos poder controlar sem interferência alheia, nem sempre decorre como a programamos e, por vezes, as situações mais dramáticas ocorrem de forma totalmente imprevisível. E sem que as possamos tomar nas nossas mãos, tornamo-nos em algo próximo de meras vítimas do acaso. É, pelo menos, esta a premissa de «Cela 211», filme espanhol realizado por Daniel Monzón, que se aventurou num género – o drama prisional – sem os meios dos grandes estúdios mas com a capacidade de criar uma espiral de tensão que apenas vai culminar com o despoletar da tragédia.

«Cela 211» é cinema denúncia, claramente. Mas é sobretudo um filme duro e dramático sobre a realidade da vida nas prisões onde o mais abominável criminoso mostra poder reger-se por um código de honra capaz de envergonhar muitos daqueles que detém o poder. Sobretudo quando quem ‘manda’ trata de querer esconder da opinião pública os podres de um sistema que vive à base de esquemas e troca de favores não havendo, nestes casos, inocentes entre os envolvidos. Todos são culpados, seja por acção ou simples omissão. E se Juan Oliver é o protagonista desta história por tudo o que lhe acontece e por estar no centro das más decisões de colegas, negociadores sem honra e políticos sem escrúpulos, acaba por ver em Malamadre [numa impressionante interpretação de Luís Tosar] a personagem que lhe rouba quase todos os créditos na composição de um condenado tão capaz da maior brutalidade como incapaz da mais pequena traição. Este líder de uma comunidade de reclusos, entre políticos, polícias e marginais acaba por se revelar como o mais coerente de todos os homens envolvidos no motim que ele mesmo comanda compondo uma personagem hipnótica e carismática. Quanto ao pobre Juan Oliver, acaba por se ver arrastado para os mais ferozes acontecimentos pela negligência de uns e ineficácia de outros.

Confesso que desde «Os Condenados de Shawshank» [1994], de Frank Darabont, não via um drama prisional tão intenso e dramático como «Cela 211» na sua assustadora proximidade com a realidade. E apesar dos já referidos poucos recursos de que Daniel Monzón dispôs, este não se coibiu de apresentar cenas de uma brutalidade sem limites filmando-as como inexcedível competência. E se a maior fraqueza deste filme está na escolha de Alberto Ammann para um papel – o de protagonista – que requeria outro tipo de atributos dramáticos, a verdade é que a sensação maior com que o filme atinge o espectador reside na amostragem da debilidade do ser humano perante acontecimentos tão contundentes como imprevisíveis. E tudo se agrava perante esses acontecimentos se alguém acaba por ter a infelicidade de se tornar num mero peão de um tabuleiro jogado por homens detentores do poder muito pouco preocupados com as vidas humanas em contraponto com a imagem que pretendem fazer passar para a opinião pública.

Em suma, «Cela 211», que também distingue o criminoso comum do criminoso que age em nome de ideais políticos [os presos da ETA, a organização separatista basca]  é um drama sólido e rigoroso que não deve deixar de ser visto por ninguém. Mas muito especialmente a não perder por quem gosta de cinema que se faz calçado em  botas de biqueira de aço.


«Celda 211», de Daniel Monzón, com Alberto Ammann e Luís Tozar



segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O Americano











A bela e o matador

Por mais que o neguemos, todos temos um estilo. Próprio ou emprestado de outros. E rapidamente se descobre o de Anton Corbijn, o holandês realizador de «O Americano»: as personagens enigmáticas  e distantes são o seu estilo. Foi assim com «Control», filme sobre Ian Curtis o misterioso músico da banda Joy Division, e repete-o agora com o indecifrável Jack [George Clooney], um assassino a soldo refugiado numa zona montanhosa de Itália. O filme adapta o livro «A Very Private Gentleman», de Martin Booth, e fica a meio caminho entre o ‘Thriller’ clássico e o ‘western’.
Longe de atingir a perfeição, «The American» usa e abusa do carisma de George Clooney para criar uma personagem elegante e sombria que jamais permite que se lhe chegue à alma e desconfiada até da sua própria sombra. Perseguido por uma espécie de máfia sueca, Jack percorre as montanhas do interior italiano num velho Fiat Tempra e divide o seu tempo entre a violência e o sexo. No final, através de Clara [Violante Placido], uma prostituta belíssima, Jack acabará por descobrir o amor e revelar uma humanidade que até então se lhe desconhecia. Como se de um ‘cowboy’ solitário se tratasse, Jack vagueará então entre o amor e a morte sem consciência da debilidade que acarreta a sua condição de homem a abater.
Pese toda a simpatia pelo George Clooney de «O Americano», a verdade é que o filme se perde em imagens formosas mas estáticas e nas personagens da trama que nada acrescentam à história não permitindo a reflexão sem que jamais causem qualquer emoção [o Padre Benedetto é disso flagrante exemplo]. E a prometida tensão  inicial vai-se a pouco e pouco desvanecendo numa obra de narrativa inexplicavelmente lenta e até um pouco pretensiosa. E mesmo o final  a sugerir algum vazio melancólico deixa um sabor a uma certa frustração por se ver esfumar ali mesmo defronte dos nossos olhos a salvação de um homem e o sonho de uma mulher. Mas, de facto, o que acontece é o triunfo do simbolismo sobre os devaneios quiméricos do homem tão presentes nas chamadas obras de autor. Mas nem Corbijn será um autor no sentido que aqui se quer dar ao termo nem a bela e sensual Clara merecia tamanha traição da vida. Uma lástima.

«O Americano», de Anton Corbijn, com George Clooney e Violante Placido


domingo, 28 de novembro de 2010

José & Pilar





«A Pilar, que ainda não havia nascido e tanto tardou a chegar.»

Antes de qualquer outra observação, devo realçar o quão gratificante é ver chegar às salas de cinema do vulgar circuito comercial uma obra documental como «José & Pilar», numa realização de Miguel Gonçalves Mendes.  A equipa do realizador português acompanhou o quotidiano do casal José Saramago e Pilar del Río durante três anos [entre 2006 e 2009] criando uma visão nova e objectiva, desprovida de juízos de valor, sobre o único Nobel português da literatura. Um filme que chega ao público quando as persianas da vida já há algum tempo se fecharam sobre o escritor, o que confere à obra um cariz ainda mais vincadamente emocional. E mais gratificante ainda é ver como o público português aderiu a um retrato filmado que revela uma relação que se agigantou num amor puro e verdadeiro e demonstra ainda uma enorme sensibilidade ao desvendar em Saramago um homem extremamente lúcido e carinhoso desfazendo com isso a imagem de pessoa arrogante que o acompanhou desde que chegou ao topo.

Saramago foi um escritor de enorme sucesso e um homem de vida cheia, daquelas vidas que normalmente apenas habitam os livros. E quando conheceu, aos 63 anos de idade, aquela que viria a ser a mulher da sua vida, a jornalista espanhola Pilar del Rio, uma nova vida se abriu sobre o homem e escritor numa relação que duraria até à sua morte, já em Junho deste ano. E é sobre esse grande amor, sobre a vida do escritor com a sua mulher, que se centra o documentário apropriadamente intitulado «José & Pilar». Filmado sobretudo na ilha de Lanzarote onde o casal construiu o seu lar mas também nas imensas viagens a que o escritor se via obrigado por não saber dizer não aos imensos convites que recebia, o que vemos desfilar na tela é o lado real mas intensamente emocional de um amor que nasceu a partir da busca de uma jovem mulher por um homem grande na sua arte e se foi construindo nas pequenas coisas do dia-a-dia, na intimidade de dois seres humanos que se entregaram profundamente ao amor que os unia.
Ainda assim, é importante verificar como a câmara de Miguel G. Mendes acompanha o processo criativo do escritor e capta as suas angústias e temores mas, sobretudo, as convicções que partilhava com o mundo sem jamais as querer impor. Hoje, José e Pilar convivem de mãos dadas numa esquina da Azinhaga, terra natal do escritor, onde as ruas José Saramago e Pilar del Rio confluem entre si. E na placa toponímica que identifica a rua que homenageia a mulher do escritor, está à vista de todos uma das mais belas mensagens de amor que alguma vez pude ler. Retirada da obra «As Pequenas Memórias», lá está a frase que perpetua um grande amor: «A Pilar, que ainda não havia nascido e tanto tardou a chegar.»
Obrigatório. Para amantes da escrita de Saramago, do homem apaixonado que foi Saramago, para amantes de cinema e para quem, como eu, acredita no amor desprovido de barreiras de diferenças de idade ou outras.

«José & Pilar», de Miguel Gonçalves Mendes, com José Saramago e Pilar del Rio

[Foto tirada na Azinhaga, a 24 de Novembro; há um par de dias atrás]


domingo, 14 de novembro de 2010

Slumdog Millionaire







O Triunfo da Vontade





Será «Slumdog Millionaire», no seu título original, o melhor filme de 2008? Pode até ser, mas ter pelo mais recente trabalho de Danny Boyle um nível de estima tão elevado pode levar-nos à obrigação de tecer variadíssimas considerações sobre o cinema em geral. No entanto, esse não é um dado negativo e é até um dos grandes trunfos da realização de Boyle. Isto, a par da forma inteligente como retrata o drama das gentes que crescem nos bairros da lata de uma metrópole como Bombaím, mas, sobretudo, da história tocante que relata de um jovem de uma pureza e de um carácter ímpares que tem uma única ambição: a de recuperar para si o amor da sua vida. Para isso predispõe-se a participar no concurso local do «Quem quer ser milionário?». Mas como Jamal Malik (Dev Patel) é um simples assistente de Call Center, um slumdog [que poderá traduzir-se como cão (dog, claro) de bairro da lata (slum), pese a tradução do filme insistir em chamar-lhe rafeiro], ao chegar à pergunta que o poderá transformar no grande vencedor do concurso é acusado de aldrabice e levado para a esquadra da polícia para ser cruelmente interrogado. É então que o filme ganha alma e que a narrativa substitui o suspense tradicional por uma fluidez frenética. Nesta ambiência indistinta, é na miséria retratada que os cenários ganham cor e é a música que impulsiona o delírio dos factos chocantes e comovedores inerentes ao percurso de vida de Jamal.



Danny Boyle é o cineasta de «Trainspotting» (1996), mas também de «A Praia» (2000) e de «28 Dias Depois» (2002) filme onde abraça de novo o experimentalismo que é característica fundamental do seu cinema. Em «Quem Quer Ser Bilionário?» o inglês reúne-se de uma equipa de jovens actores amadores recrutados nos bairros da lata de Bombaím. E tem sorte. Não obstante a denúncia que faz dos abusos, do pouco respeito pelos direitos individuais dos cidadãos e até da rivalidade religiosa existente na Índia o filme recusa tornar-se panfletário para abraçar uma causa bem mais do domínio da alma humana que da problemática civilizacional. Jamal está-se nas tintas para o dinheiro que a vitória no concurso lhe pode dar, Jamal quer apenas recuperar a bela Latika (Freida Pinto) por quem sempre se manteve apaixonado. E na pergunta final, Jamal Malik não é – como nunca foi – o concorrente televisivo que está prestes a tornar-se riquíssimo. E nos cafés, nas ruas, nas casas, Jamal representa não um colectivo mas sim a certeza (individual), para cada um dos que o vêem, de que o sonho é possível. Pouco importa se o sonho do dinheiro e da mudança de vida para bem melhor que este pode proporcionar não esteja sequer nos objectivos de Jamal Malik. E, neste aspecto, o jovem indiano funciona até como o anti-herói. Não porque recuse a glória mas porque nem dela tem sequer conhecimento.



Arrisco afirmar que o sucesso de «Slumdog Millionaire» tem tanto de inesperado como de fruto do acaso, do momento. Isto apesar da excelente direcção de actores, da realização apaixonada de Boyle e outras relevantes características cinematográficas. Na verdade, este é o filme certo no momento certo quando a civilização atravessa uma crise que a faz questionar-se sobre o certo e o errado. Afinal, impérios construídos sobre estratégias bem delineadas e que foram conduzidas por homens e mulheres bem preparados caem diariamente. E Jamal Malik, que nasceu e cresceu nos bairros de lata de Mumbai até estes se transformarem na desordenada Bombaím, conseguiu a felicidade apenas à custa de acreditar no amor e de recusar a mentira. Tudo isto sobrevivendo rodeado das mais incríveis barbaridades. E na sua vitória Jamal Malik não é um jovem de sucesso, ele é somente um jovem feliz. Repito a ideia inicial: «Quem Quer Ser Bilionário?» talvez não seja o melhor filme de 2008, sequer um filme grandioso. Mas é feito de muita paixão, de vida, de esperança, de emoção. Afinal um conjunto de sentimentos brilhantemente adaptado para cinema.





«Quem Quer Ser Bilionário?», de Danny Boyle, com Dev Patel e Freida Pinto



segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A Rede Social



Mark Zuckerberg
Adicionar como Amigo


«A Rede Social» fala-nos do momento da concepção da maior rede social do planeta, o Facebook. Só este pormenor, por si só, seria catalisador da atenção de milhões e milhões de utilizadores de tão importante plataforma digital, mas, ao mesmo tempo, colocava o realizador David Fincher perante um problema de aparente difícil resolução: como iria este contornar a questão de dar algo mais aos espectadores de cinema que a muita informação sobre Marck Zuckerberg (o autor da rede) e sobre o próprio Facebook já disponível um pouco por toda a parte? Mas a primeira resposta a esta dificuldade foi dada por Aaron Sorkin, o argumentista, que embora se tenha baseado na obra «The Accidental Billionaires», de Ben Mezrich, trabalhou os dados muito à sua maneira com vista à obtenção de um objectivo final, a satisfação dos espectadores. E sem desvendar já tudo, a solução está aí e agradará provavelmente a todos aqueles que apontam o dedo a muitos dos utilizadores da Internet: pelo que o filme mostra, Zuckerberg é para Sorkin um jovem com dificuldade para se relacionar socialmente, de genialidade obsessiva e vingativo. No entanto, entre a verdade dos factos e aquilo que é a dramatização ficcional dessa realidade, está aí um filme poderoso que não deve deixar de ser visto por quem quer que seja, utilizadores ou não do Facebook.
David Fincher tem somente 48 anos de idade mas possui já no currículo alguns dos filmes da vida de muito boa gente («Sete Pecados Mortais» 1995, «Clube de Combate» 1999 e  «Zodiac» 2007 estão nesta lista) assim como outros títulos não menos importantes («Allien 3» 1992, «O Jogo» 1997, «Sala de Pânico» (2002) e «O Estranho Caso de Benjamin Button» 2008). Daí que deste americano nascido no Colorado se espere sempre o melhor. E com «The Social Network», no seu título original, Fincher constrói um filme onde estão bem patentes a amizade, a traição, a desolação e a alienação que acompanham o mais jovem multimilionário do mundo, precisamente Marck Zuckerberg, o criador do Facebook essa tal rede virtual de amigos de que todos falam e de vertiginosa propagação universal.
Há no entanto uma história de vida por detrás da lenda. E essa, a história de vida, começa precisamente quando Erica (Rooney Mara) diz a Zuckerberg (Jesse Eisenberg) que um dia ele irá ficar sozinho por ser um cretino, enquanto prepara ela mesma o rompimento da relação que até então mantinha com o jovem. Daqui para a frente, através de fragmentos dos diversos acontecimentos e até à consolidação de Zuckerberg como o genial criador do Facebook, Fincher conduz a câmara à velocidade da inteligência superior do estudante de Harvard sem nunca esquecer a estranheza e complexidade da sua personalidade. E mais do que dar a perceber que a chave para um bom negócio é a correcta identificação das necessidades das pessoas ou que as elites reagem com agressividade quando vêem o seu poder ser colocado em causa, «A Rede Social» de David Fincher é o relato dramático de uma tragédia pessoal: a de um rapaz que tem tudo aquilo a que não dá importância, o dinheiro,  a sagacidade de uma mente invulgarmente capaz e um poder quase sem limites, mas que perde provavelmente aquilo que o faria mais feliz: o seu único amigo real (um excelente Andrew Garfield) e a já citada Erica, a sua namorada.
Será que o criador do Facebook é aquele rapaz que quase sem fazer por isso ou mesmo involuntariamente se revela um autêntico cretino? E que apesar do seu brilhantismo é um jovem solitário incapaz do amor e da amizade? Ou será que os criadores de «The Social Network», nomeadamente o seu argumentista, quiseram através de Marck Zuckerberg caracterizar uma comunidade que ama e faz amizades tanto quanto destrói relacionamentos à distância de um clique? São perguntas necessárias intelectual e emocionalmente mas que para o deve e haver final nas contas do filme pouco importarão. Até porque estes foram factores importantes para que este seja um filme fácil de se gostar. É que na sua desorientação perante algo que criou mas cuja realidade parece ultrapassá-lo, Zuckerberg acaba por se revelar um ser humano como qualquer outro.Apesar dos muitos amigos no Facebook, frágil perante a solidão que o envolve. E a pergunta final é óbvia, por acaso será que alguém conhece por aí uma história parecida com esta?

«The Social Network», de David Fincher, com Jesse Eisenberg, Andrew Garfield, Justin Timberlake e Rooney Mara



segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Ondine



A senhora das águas

No cartaz de promoção a «Ondine», pode ler-se que ‘the truth is not what you know. Is what you believe.» A frase, intencionalmente poética no pensamento que encarna e sugere, é no entanto perigosa já que se alheia voluntariamente da verdade para se situar unicamente no campo das emoções. E isso seria desejável, e muito bom, se o mundo fosse um lugar onde a harmonia entre a fantasia e a realidade se solidificasse muito simplesmente num qualquer ideal de felicidade. Mas como não é assim e o mal existe, o pescador Syracuse (Colin Farrell) irá perceber que só poderá agarrar a vida caso ouse soltar-se definitivamente do enlevo embriagante daquilo em que quer acreditar mas que está longe de compreender.
Neil Jordan, realizador e argumentista de «Ondine», parece ter carregado no olhar a poesia inspiradora de uma terra rodeada pelo mar. Um mar de águas nem sempre calmas, muitas vezes revoltas,  mas um mar que se assume como uma componente incontornável do ser irlandês onde a música dos islandeses Sigur Rós se ajusta que nem uma luva ao estado anímico do filme. Um filme que desperta simpatia pela sua história até porque se revela invariavelmente contemplativo e nostálgico. Apesar de ter já realizado obras como «Michael Collins» (1996) ou «O Fim da Aventura» (1999), é em «Entrevista com o Vampiro» (1994) e «Breakfast on Pluto» (2005) que vamos encontrar as características a que aludo no modo de fazer de Jordan: o desenrolar de uma história aparentemente ilusória, mágica, sedutora,  mas que se vai tornando muito real através de um enredo simples que se constrói a partir do drama de cada uma das suas personagens. Neste caso, do drama do humilde pescador Syracuse, de Ondine (Alicja Bachleda), a mulher que literalmente ele pesca dos mares, e de Annie  (Alison Barry) a pequena filha do pescador a quem este dedica todo o seu tempo livre.
«Ondine» vê-se com o coração e sente-se através daquilo que os nossos olhos vão observando na tela. Desde a meteorologia rigorosa de um país de personalidade própria à vida dura de uma pequena cidade de pescadores,  à excelência das paisagens do noroeste da Irlanda até  à beleza de Ondine, a mulher que veio do fundo dos mares, e do amor que vai crescendo entre esta e Syracuse. E de modo necessariamente diferente, à forma como Ondine se vai agigantando na pequena Annie, ela que é uma menina com limitações relativamente às demais já que sofre de insuficiência renal. Por esta altura da fita, Ondine é para Annie somente uma personagem de conto de fadas.
Sim, «Ondine» é um conto de fadas moderno. Mas é também uma história de vidas que colhe frutos pela sua verosimilhança com a realidade. E para o seu êxito muito contribuíram as interpretações de Colin Farrell, solto de qualquer maneirismo ou vedetismo, e a forma como Jordan foi deixando que a verdade sobre a personagem de Ondine se fosse ocultando nos meandros da mitologia. E quando se trata de questões mitológicas, poucos as ousam negar embora todos desconfiemos delas. Um filme agradável, a ver sem expectativas de maior.

«Ondine», de Neil Jordan, com Colin Farrell, Alicja Bachleda e Alison Barry


domingo, 31 de outubro de 2010

Deixa-me Entrar




O menino e a vampira

O maior feito conseguido pela história de um menino de doze anos, solitário e introvertido que vive em permanente humilhação por um grupo de colegas de escola e da pequena, estranha e misteriosa Abby no filme realizado por Matt Reeves, acaba por ser a prova contundente da existência de uma indústria de cinema em Hollywood. Uma fábrica de fazer filmes que não pode parar, mas onde o dinheiro abunda na mesma medida em que faltam as ideias. De facto, o livro escrito por John Ajvide Lindqvist fora recentemente adaptado ao cinema num filme sueco realizado por Thomas Alfredson. E o que se conclui é que apesar da reverência ao original, de um evidente bem fazer de Matt Reeves bem patente na contenção e sensibilidade pelas histórias fantásticas que envolvem as duas crianças, este «Let Me In» está muito longe do poder visual, estilístico e artístico do já citado «Lat den Rätte Komma in» (2008).
Apesar disso, isto é, de não se perceber bem esta insistência de Hollywood em copiar o bom feito noutras partes do mundo, o filme flui de modo agradável. A realização, que adoptou um tom de respeito formal e artístico ao cinema de terror clássico, fugiu muito positivamente a essa onda de filmes de vampiros que tem invadido as salas de cinema com produtos de consumo fácil para mastigar e deitar fora. De salientar também as boas interpretações dos dois meninos de serviço, Chloë Grace Moretz (Abby, a vampira) e Kodi Smit-McPhee (Owen, o menino solitário), e ainda de Elias Koteas (o perturbado polícia). E para quem não viu o filme original nem leu o livro, acaba por ver premiada a sua ida ao cinema com um inteligente ‘twist’ final que de modo algum é suficiente para contrariar aquela máxima que nos diz que a cópia é invariavelmente pior que o original.

«Let Me In», de Matt Reeves, com Chloë Grace Moretz, Kodi Smit-McPhee e Elias Koteas


A CIDADE



Ben Affleck, um realizador que promete

Doug McRay [Ben Affleck] viveu e cresceu em Charlestown, um bairro de Boston conhecido por formar mais assaltantes a bancos que qualquer outra parte do mundo. E como marginal que se preze, Doug teve toda a sua formação na escola da rua criado por um pai delinquente e abandonado pela mãe ainda muito jovem. Agora, ele e mais três amigos formam um perigoso e muito competente bando de assaltantes não apenas a bancos como a carrinhas de transporte de valores. Mas, neste entremeio, Doug McRay vive o dilema de querer abandonar a única vida que sempre conheceu não o conseguindo fazer preso às ligações afectivas e de hierarquias entre criminosos que criou e não consegue quebrar. E de assalto em assalto, mergulhado na turba da cidade, para complicar ainda mais a sua situação Doug acaba por se apaixonar pela mulher responsável por um dos bancos que assalta.
Depois de «Vista Pela Última Vez…» [2007], Ben Affleck, actor pouco reconhecido e argumentista de valor, volta à realização provando que o cinema é a sua paixão e que talvez tenha encontrado a sua verdadeira vocação. Assim, «The Town» agiganta-se como filme na sua acção frenética, como convém, mas sobretudo por se tornar num filme pleno de tensão e força narrativa onde o equilíbrio entre a emoção de personagens com vida e a crueza do mundo por que estas optaram marca o respeito por um género, o ‘thriller’, como há já algum tempo não se via. De facto, a autenticidade que sobressai das personagens de Doug [Affleck], de James [Jeremy Renner], o seu cúmplice e melhor amigo e de Claire [Rebecca Hall], a gerente do banco que assalta e por quem se apaixona, é um factor que vai muito para além da simples competência e imediatamente pressupõe um talento muito especial para a realização de filmes. E sem querer entrar em comparações indesejáveis até para o jovem realizador Ben Affleck, nos últimos tempos só um homem conseguiu fazer passar para o público essa genuinidade. E esse é tão somente Clint Eastwood.
A um filme com um ritmo narrativo muito vivo, igual espessura dramática das personagens [mesmo daquelas que se afiguram como secundárias na trama] e um importante sentido do detalhe não é alheia a aliança entre a literatura e o cinema. Baseado na obra «Prince of Thieves», de Chuck Hogan, «A Cidade» soube ir beber à literatura aqueles pormenores que muitas vezes algum cinema se esquece de acentuar. Umas vezes por pura arrogância demasiado crentes no valor da imagem e outras por manifesta incapacidade dos seus artesãos. E talvez seja até um cliché olhando para o currículo de Affleck como actor, mas lamenta-se aqui a sua falta de carisma para um papel que a exigia em dose dupla. No entanto, neste capítulo das interpretações Jeremy Renner dá um recital de como bem representar num papel que lhe assenta que nem uma luva. E John Hamm [o agente do FBI que persegue o grupo de assaltantes] desempenha na perfeição a figura do polícia tão determinado a quebrar as leis que os assaltantes impõem como atormentado por uma certa incapacidade em consegui-lo. Uma incapacidade que parece resultar muito mais do talento dos bandidos que da sua própria ineficácia.
Resumindo, «The Town» é muito mais que um filme de polícias e ladrões. É uma obra que nos fala da irreversibilidade de determinados percursos de vida e, quando existe essa vontade, de como é difícil a fuga a um destino que parece estar traçado. E foi no meio da marginalidade e de alguma desordem social que se Affleck foi compondo esta sua poesia do fracasso. De um e de outro lado da barricada.

«A Cidade», de Ben Affleck, com Ben Affleck, Rebecca Hall, Jeremy Renner e John Hamm

Uma Família Moderna




Jogo de aparências

Quando Tommaso diz a Alba, a sua amiga de infância, que ‘os amores impossíveis são aqueles que duram para sempre’ não está apenas a dar eco a uma convicção da personagem. De facto, é a própria essência de Ferzan Ozpetek que se evidencia através do pensamento da personagem principal de «Uma Família Moderna», o mais recente filme do realizador italiano [turco de nascimento]. Ozpetek [ele que dirigiu em 2003 «A Janela em Frente»] acredita na imortalidade dos afectos e é um clássico que permanece fiel à temática principal das suas obras: a homossexualidade e, já agora, fazer do instinto o melhor instrumento para atingir a felicidade.

A história do filme conta-se em breves palavras. Um jovem oriundo de uma família abastada de Lecce [sul de Itália], regressa de Roma onde supostamente estudou Gestão para revelar duas coisas à família: uma que é homossexual e a outra que estudou literatura porque o seu grande sonho é ser escritor e que jamais pretendeu continuar o negócio da família. Para isso vai ter de enfrentar um pai homofóbico e uma cidade prepotente nas suas relações presa ao convencionalismo típico de uma povoação de província. Mas pese o facto de estarmos aparentemente perante o retrato fiel de uma família tradicional, Ozpetek constrói uma divertida teia de enganos e o bom do Tommaso [Ricardo Scarmacio] vai ter que alterar os seus planos vítima de acontecimentos inesperados.

Aquilo a que se assiste a partir desta premissa do guião, é a um filme que dificilmente deixará de tocar emocionalmente o espectador. O conflito entre a modernidade e a tradição enquadra-se perfeitamente em personagens que anseiam manter-se fiéis aos seus princípios de sempre mas que se recusam a fechar os seus corações àqueles que amam e cujo sangue lhe corre nas veias. Pelo meio há ainda uma avó extremamente sagaz numa sabedoria que parece ter sido colhida do grande amor que não viveu mas que manteve aceso dentro de si por toda uma vida e uma jovem mulher, Alba [Nicole Grimaudo], irresistivelmente sedutora na sua beleza física, na personalidade rebelde e no modo sensível e solitário com que parece dar asas ao seu carácter extrovertido.

E é assim, com sensibilidade e ironia, que «Mine Vaganti» [no seu título original] se vai construindo e ganhando a batalha da emoção alheio a algum convencionalismo no modo como a realização parece olhar a questão das diferenças na orientação sexual dos homens e das mulheres. Este pormenor está patente sobretudo nas personagens quase caricaturais dos amigos de Tommaso, mas há que reconhecer que o respeito pelas regras dramáticas de um género pode levar a este tipo de rigidez por parte da realização. No entanto, o pormenor é de imediato desculpável quando se percebe que Ozpetek jamais receou cair no excesso quando fazia sentido seguir por essa via. E o que é indiscutível, e verdadeiramente importante, é que «Uma Família Moderna» é não apenas um filme tão divertido quanto emotivo numa aliança entre comédia e drama como resulta num excelente momento de cinema. A não perder.

«Uma Família Moderna», de Ferzan Ozpetek, com Ricardo Scarmacio e Nicole Grimaudo























Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme





 


Crise, disse ele


Em finais dos anos 80, Oliver Stone apresentava ao mundo Gordon Gekko, um investidor de Wall Street ganancioso e sem escrúpulos que rendeu a Michael Douglas o Oscar para a melhor interpretação masculina do ano. O filme foi um sucesso e em 2010, já sem a chama nem a fleuma de outrora, Stone recriou a personagem fazendo-a sair da prisão onde cumprira pesada pena por fraude trazendo novamente Michael Douglas até nós, agora em «Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme». Debalde.


É que para além dos lugares-comuns já sobejamente repetidos sobre o mundo cão, amoral e devorador em que navega a economia global e de uma pomposa explicação dos motivos da actual crise financeira, a realização de Stone oferece-nos pouco mais de que possa orgulhar-se. E mesmo aquilo que nos oferece, embora num embrulho feito de papel finíssimo, arrasta consigo um tal moralismo entranhado nos ossos que dele dizer-se dispensável é curto. Para além disso, poucos delirarão com a condescendência das personagens perante os seus próprios actos e um final de filme tão optimista quanto patético. No fundo, tão anedótico como o ‘cameo’ [chamemos-lhe assim] de Charlie Sheen, ele que foi Bud Fox no primeiro filme da série.


Mas se alguém achar que estou a ser demasiado duro e não se tenha ainda deslocado a uma sala de cinema onde o filme esteja a ser exibido, aproveite agora. Aproveitem e vão vê-lo. Até porque se não gostarem das diatribes de Gekko & Comparsas lembrem-se que se tivessem partido uma perna seria bem pior. E mesmo que partam alguma perna, tenham calma. É que grave, grave, só mesmo se partissem as duas pernas. É esta a filosofia de «Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme».




«Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme», de Oliver Stone, com Michael Douglas, Shia LaBeouf e Carey Mulligan










A ORIGEM









Vamos por partes

As referências

O futuro é já hoje. Aconteceu assim com «Matrix» (1999 e 2003), dos irmãos Wachowski, foi-o entretanto com «Minority Report» (2002), de Steven spielberg, já o tinha sido muito antes com «2001: A Space Odyssey» (1968), de Stanley Kubrick e acontece agora com «A Origem»(2010), de Christopher Nolan. E falar do futuro já hoje relembrando outras obras-primas do cinema, quer dizer duas coisas: que «A Origem» é antes de mais um ‘thriller’ de ficção-científica, elemento comum aos filmes citados, e que na sua inesgotável criatividade e brilhante talento narrativo, Nolan é um cineasta que assume as boas ideias como uma inevitável inspiração de obras anteriores de mestres do mesmo ofício. E este é um sinal de humildade e inteligência que só lhe fica bem.

A matéria de que se fez o filme

A trama do mais recente filme do fantástico realizador inglês não é fácil de explicar nem de seguir na tela. Pese o magnífico carácter visual do filme [isto hoje até é assim muito para o fácil de escrever, basta adjectivar], a narrativa vertiginosa que sobrepõe o pesadelo ao sonho e vice-versa, obrigam a uma atenção suplementar do espectador. Até porque a realização de Nolan é feita de pormenores magistrais que revelam uma produção irrepreensível. Ao nível do ‘casting’, do guarda-roupa, da montagem, dos efeitos especiais e, por que não dizê-lo, na capacidade que existiu para acompanhar a sofisticação do artífice Nolan.


A história

Cobb (um soberbo Leonardo DiCaprio), é um espião que rouba o maior dos tesouros: os segredos guardados no subconsciente dos homens e mulheres que lhes são extorquidos enquanto sonham. Para isso, Cobb possui uma equipa de colaboradores que funciona entre si com a precisão de um relógio suíço. No entanto, dadas as características delicadas do seu trabalho Cobb perdeu tudo o que lhe era querido. E para recuperar o seu mundo, vai ter que aceitar um trabalho que lhe é proposto por Saito (Ken Watanabe), um vilão à escala mundial, e que se afigura como a mais difícil missão que até então levou a cabo. Desta vez não tem que roubar uma ideia, não tem que conhecer um segredo, tem, isso sim, que implantar algo no cérebro de Robert Fisher (Cillian Murphy), um herdeiro multimilionário. Para o tentar, o espião Cobb vai contar com a importante ajuda de Ariadne (Ellen Page), uma estudante brilhante que é treinada para se adaptar ao mundo dos sonhos. É bom no entanto recordar que quando alguém adormece, e sonha, tanto pode contar com sonhos cor-de-rosa ou com um pesadelo de causar enormes dores de cabeça. E o subconsciente de Cobb é povoado pela memória de Lisa (Marion Cottillard), a sua mulher.


O sumo e as ofertas ao espectador

Em suma, «Inception», no seu título original, é um enorme desafio à nossa capacidade enquanto espectadores de cinema de absorvermos muita matéria psicológica retirada das profundezas da mente lançada num mundo alucinante durante o sonho. E é absolutamente gratificante perceber que num espaço muito ligado à percepção que nos surge do poder de racionalização do homem, é a emoção – a emoção, sempre a emoção, que comanda os níveis de motivação para se atingir algo ou impede a sua prossecução porque somos incapazes de viver sem, por exemplo, o amor. Nolan dá-nos ainda a possibilidade de revermos um actor que chegou a ser cabeça de cartaz no passado e que hoje, aos 61 anos, se apresenta como um homem extremamente diferente daquilo que o fez tornar-se conhecido do público. Falo de Tom Berenger mas é bom que se atente sobretudo no desempenho esplendoroso de Leonardo DiCaprio, ele que nem sempre viu o seu trabalho devidamente valorizado. Ainda assim, notem bem no que este rapaz cresceu como actor de cinema. E mesmo com tantas ofertas, a maior de Nolan neste filme tem a ver com os 147 minutos de muito e bom cinema. E a certeza do quão importantes são os nossos sonhos, do quanto eles são fundamentais para atingirmos algo que se define numa palavra que neste texto parece tão descabida mas que no fundo é àquilo a que tudo se resume: a felicidade.

«Inception», de Christopher Nolan, com Leonardo DiCaprio, Marion Cotillard, Ellen Page, outros








[É a esta gente, com Christopher Nolan à cabeça e outros na 'sombra', que se deve «A Origem»]


O Escritor Fantasma




Chamada para a morte


O Iraque e o pantanoso mundo da política internacional têm sido fonte de inspiração para inúmeros filmes. Apesar disso, ainda tendo como pano de fundo o Iraque o verdadeiro ‘thriller’ das convergências políticas e manipuladoras de homens e governos estava ainda por fazer. E se «O Escritor Fantasma» não atinge a plenitude desse estatuto pode no entanto afirmar-se que anda lá muito perto. Com efeito, o aparente convencionalismo da realização de Roman Polanski – ele que não precisa de apresentações, torna-se um dos maiores trunfos de um filme que vive de personagens fortíssimas e de carácter insondável que fazem com que o espectador dificilmente consiga tomar partido por este ou por aquele. E assim o ‘suspense’ vai manter-se até ao fim.


Adam Lang (Pierce Brosnan) é um antigo Primeiro-ministro britânico refugiado numa ilha algures nos Estados Unidos e a braços com o Tribunal Internacional que o quer julgar pela prática de crimes de guerra. A forma como lidou com alegados terroristas iraquianos é o mote. Entretanto, durante o processo de escritura das suas memórias é contratado um novo escritor para as terminar já que o seu antecessor morre acidentalmente numa travessia marítima. O escritor fantasma (Ewan McGregor) viaja então para a mansão de Lang onde pretende concluir o livro e arrecadar 250 000 dólares com o trabalho. Mas rapidamente a personagem de Ewan McGregor percebe que algo de estranho se está a passar e que a morte do escritor que veio substituir poderá não ter sido assim tão acidental. E é a partir daqui que o filme se desenvolve acompanhando McGregor numa perigosa viagem a um mundo cínico, dissimulado e impiedoso que une política e espionagem internacionais.

O melhor do filme tem a ver com a intensidade dramática que é imposta por um guião que vive muito da ocultação de factos e engano nas evidências. Um filme assim, neste modelo com elevado grau de exigência, precisa avidamente de bons actores. E Tom Wilkinson (um sinuoso Paul Emmet, professor universitário e uma das primeiras incursões na investigação que McGregor leva a cabo), Olivia Williams (Ruth, a instável mulher do antigo inquilino do nº10 de Downing Street), Kim Catrall (Amelia Bly, assistente e amante do mesmo) e o próprio Ewan McGregor conseguem-no de um modo quase perfeito. Pena é que Pierce Brosnan esteja muito longe de reunir qualidades para um papel a requerer uma solidez dramática que jamais alcançou e ainda que o filme tenha alguma dificuldade em fazer acelerar o ritmo cardíaco dos espectadores mais cépticos.

Ainda assim, «The Ghost Writer» é um filme que recupera para o cinema o melhor de Roman Polanski e não será nenhum disparate dizer que a sobriedade e rigor com que a sua realização quase proíbe o espectador de se adiantar ao desfecho final da história, fazem lembrar aquele que ainda hoje é o maior mestre no ‘thriller de suspense': Alfred Hitchcock. E como bónus Polanski brinda ainda o espectador com uma mansão claustrofóbica numa ilha rodeada por um mar selvagem e meteorologia invernosa, pequenos e misteriosos hotéis construídos em nenhures e a ambiguidade conflituosa de uma editora de livros dividida entre os factos de uma biografia autorizada e a coscuvilhice ligada a um suposto maior interesse dos leitores. Em resumo, «O Escritor Fantasma» é um filme de insuspeita qualidade.



«The Ghost Writer», de Roman Polanski, com Ewan McGregor, Pierce Brosnan, Kim Catrall, Olivia Williams, Tom Wilkinson, outros



Dia e Noite






Missão Cumprida


Sim, eu sei, nem Tom Cruise é Cary Grant e muito menos James Mangold é Alfred Hitchcock. Mas caso o objectivo de uma ida ao cinema se prenda apenas com o visionamento de alucinação a rodos e mordacidade q.b. num filme que poderia ambicionar muito mais que aquilo que o próprio assume, então venham daí, peçam um alguidar de pipocas e um barril de Coca Cola porque durante duas horas o cinema resolveu rir-se de si mesmo. E nós com ele.

Ainda se lembram de «Missão Impossível II» , de John Woo? Lembram? Então esqueçam porque «Knight and Day» é tudo isso e muito mais em doses de loucura com uma pitada de química entre Tom Cruise e Cameron Diaz, ele que é o espião que combate o crime à escala mundial e ela a bela de serviço. Quanto à trama, um agente secreto acusado de traição, a sua própria organização a persegui-lo, tráfico de armas com direito a touros pelas ruas de Sevilha e uma mulher a caminho do casamento da irmã apanhada no meio do conflito. Onde é que já vimos isto? Fácil, em dezenas e dezenas de filmes. O bom da realização de Mangold é que assume a sua própria condição de mastigar e deitar fora mas com a característica fundamental de ser muito bom enquanto dura.

E se Cameron Diaz anda um pouco a reboque do filme, Tom Cruise toma as rédeas da trama com a qualidade e a sabedoria com que no próprio filme conduz aviões, motas de alta cilindrada, carros, copos de champanhe, armas de tiro de repetição e beijos na menina. Ele é Roy Miller e ela June Havens, nós os espectadores de férias que só querem fazer descansar os neurónios e usufruir de muita e boa diversão. Ala que se faz tarde!


«Knight and Day», de James Mangold, com Tom Cruise e Cameron Diaz






















A MULHER DO VIAJANTE NO TEMPO









Entre contradições e muita confusão também emergem as emoções


Henry viaja no banco de trás de um automóvel quando um violento acidente de tráfego o faz ficar órfão de mãe, ela que conduzia a sua própria viatura. O pequeno rapaz, que será interpretado por Eric Bana na idade adulta, vai no entanto poder voltar a ver a mãe em tempos anteriores ao do próprio acidente. Confusos? Pois continuarão a ficar já que o facto de Henry ser alguém que viaja entre o passado, o presente e o futuro sem conseguir controlar os momentos em que e para onde o faz não é explicado com coerência pela realização do alemão Robert Schwentke. Na verdade, as contradições da trama e a confusão romântica que pairam sobre o filme não ajudam nada a que se goste de uma história de ficção de impossibilidade real. E é aqui que começa o meu problema. Porquê? Porque embora de forma moderada e reconhecendo as inultrapassáveis fronteiras de um objecto de puro entretenimento, eu gostei do filme.

Já escrevi inúmeras vezes que cinema não é uma ciência exacta. E mesmo que percebamos as debilidades de uma realização ou de um argumento que se contradiz a si mesmo ao longo da trama, é possível que haja algo naquele filme que nos toque sobremaneira. A comparação pode até ser disparatada, assumo-o, mas esta linha de reflexão leva-me até ao amor. Quantas vezes nós não olhamos para um casal apaixonado mas aparentemente desequilibrado pelas características de cada um dos seus elementos e não percebemos o porquê de aquele homem ou aquela mulher se amarem. Mas amam-se porque o amor não se explica, acontece. E se o cinema se explica, naquilo em que o amor e o cinema têm muito de comum não há explicação possível: no campo das emoções, no território das sensações.

Voltando ao filme, Henry (Eric Bana, já o referi) inicia uma relação com Clare (Rachel McAdams). Entre saltos temporais e um amor que vive altos e baixos próprios das dificuldades de uma existência intermitente, a verdade é que o amor entre os dois persiste a todas as provas a que é sujeito. Perante isto, é possível que o espectador viaje pelo interior das suas memórias e perceba que caso lhe fosse dada a oportunidade de regressar a um ou outro importantes momentos da sua vida talvez pudesse alterar uma decisão ou um comportamento seus. Ou então não, tal como Clare lhe confessa quando sabe que vai perder Henry, nada mudaria. E é neste campo que o filme pode ter a capacidade de ganhar alguma razão junto de um espectador cujas razões já então nascem apenas das suas próprias emoções. E se assim for, o cinema confuso e contraditório de «A Mulher do Viajante no Tempo» já conseguiu vencer um dos seus grandes objectivos: fazer sonhar. E eu, quer o queira ou não, sou um sonhador. Que fazer!?


«The Time Traveller’s Wife», de Robert Schwentke, com Eric Bana e Rachel McAdams



Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo




Príncipe ou pirata, da Pérsia ou das Caraíbas, uma questão simples de clonagem


 


Acho que vou começar pelo princípio: Mike Newell, o realizador de «Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo», é o mesmo homem que em 2007 esteve por detrás das câmaras no filme «O Amor nos Tempos de Cólera» e quase arrasou por completo uma das maiores obras da história da literatura latino-americana e de um dos seus maiores intérpretes, Gabriel Garcia Marquez. Se juntarmos a isto o nome de um produtor que subverte o cinema em prol do negócio, Jerry Bruckheimer, e percebermos que o filme é a adaptação ao cinema de mais um videojogo, então quase ficamos conversados quanto à qualidade de «Prince of Persia: The Sands of Time». Mas não, desculpem, não me fico por aqui.




Coloque-se agora a questão: que se pode esperar de um filme com tão graves premissas? Eu diria que muito, se soubermos que a história evoca as fábulas das «Mil e Uma Noites» que povoaram o nosso imaginário infantil. E já que se trata da versão para cinema de um videojogo, espera-se igualmente – e no mínimo - acção mirabolante e um vertiginoso ritmo da narrativa. Reconheça-se que o filme até começa bem com as aventuras do pequeno Dastan (que em adulto será corporizado por Jake Gyllenhaal) e a aparição de um anjo que dá pelo nome de Gemma Arterton que no filme se chama Tamina e é a Princesa da esplendorosa cidade de Alamut. Mas uma montagem absolutamente desastrada, personagens secundárias a roçarem a idiotice para dar um tom de comédia ao filme conjuntamente com a desajustada pompa e circunstância à la Bruckheimer, tornam «Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo» num simples objecto de ‘franchising’ e confirmam Mike Newell como um mero tarefeiro ao serviço do pior cinema que se faz em Hollywood.




Ainda assim, há que reconhecer que o filme possui um público alvo como aliás é próprio de qualquer produto comercial a surgir no mercado depois de aturados estudos de mercado. E há ainda quem goste muito desta espécie de cinema, caso contrário ele não existiria. Isto porque, apesar de tudo e dos desastrosos efeitos especiais também, é de cinema que estamos a falar. E se outra razão não houvesse para o percebermos, Alfred Molina e Ben Kingsley estão lá para o provar. O primeiro mais que o segundo, na minha opinião. Mas bem analisada a questão, «Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo» está para o cinema como as canções pimba de Emanuel estão para a música: elas que tão depressa entram como saem do ouvido. Por outro lado, dá pena ver um Jake Gyllenhaall esforçado mas sem um mínimo de carisma para suportar uma personagem que se queria grandiosa e épica. Por tudo isto, volta Johnny Depp, volta «Pirata das Caraíbas», estão ambos perdoados.







«Prince of Persia: The Sands of Time», de Mike Newell, com Jack Gyllenhaal, Gemma Arterton, Ben Kingsley e Alfred Molina




O Segredo dos Seus Olhos



‘te Amo’


Sobre a mesa está pousado um bloco onde falta a letra A, encostada a um canto da sala encontra-se uma máquina de escrever que suprime a mesma letra A, mas apesar de silencioso nos olhos de Irene (Soledad Villamil) pode perceber-se um grande Amor. «O Segredo dos Seus Olhos», filme argentino realizado por Juan José Campanella, foi este ano o surpreendente vencedor do Oscar da Academia de Hollywood para o Melhor Filme Estrangeiro. Mas a surpresa só o é para quem não assista a duas horas de um filme onde o romance, a política e o crime são evocados com sentimento e paixão através de uma cinematografia irrepreensível. O cineasta argentino demonstra nesta obra uma invulgar mestria a lidar com a inquietude existencial do ser humano fiel àquilo em que acredita. Mas para tão grande sucesso, Campanella contou com um invulgar trio de actores cuja actuação só por si valeria todo o visionamento do filme.

Benjamin Espósito (numa fabulosa interpretação de Ricardo Darin) é um investigador judicial reformado que resolve escrever um livro sobre a história de um violento crime ocorrido trinta anos antes e que lhe alteraria radicalmente a carreira e a vida. Empurrado para a cena da violação e assassínio de uma linda mulher recentemente casada, Benjamin acaba por ficar preso à tragédia a que assiste e, posteriormente, à força do amor que sente no jovem viúvo dilacerado pela perda da companheira. Mas está-se em 1974, a Argentina vive debaixo de um regime arcaico e feudal e apesar de tudo fazer para que o criminoso seja apanhado e punido, Benjamin vai perceber que querer não é poder quando se depende dos outros e de um sistema judicial corrupto. No entanto, o investigador é um idealista e enquanto persegue o assassino vergado pela força do amor de outrem nem se apercebe que lentamente vai perdendo a possibilidade de ser feliz com a mulher que ama.

O facto de se estar perante o processo de criação de um livro, permite ao filme viajar constantemente entre o passado e o presente, a realidade e a ficção. E se os diálogos são um dos seus maiores trunfos, fazendo até vincar um pouco a singularidade do povo argentino, é nos silêncios, naquilo que se não diz, e na expressividade dos olhares que o filme atinge toda a sua plenitude. Verdadeiramente bem trabalhada e a demonstrar o quão coerente pode tornar-se a acção dos homens podendo atingir foros de um dramatismo sem paralelo, a trama policial acaba igualmente por ser um mero pretexto para o que pode ser o vazio total de uma vida sem o objecto da nossa paixão. Nesse amor silenciado, reprimido, são personagens principais Benjamin e Irene mas é fundamental perceber no final do filme o modo como Ricardo Morales (Pablo Rago), o desditoso viúvo, preencheu o vazio da sua vida sem a mulher que lhe foi violentamente roubada. A si e à vida.

Em suma, «El Secreto de Sus Ojos» é um filme notável sobre a existência humana num olhar sensível e inteligente que toca sem ser sentimentalista. E a par disso, como já referi atrás, há todo um festival de bem representar dado por Ricardo Darin (Benjamin), Gillermo Francella (o colega e amigo Sandoval) e Soledade Villamil (Irene). Imperdível.



«El Secreto de Sus Ojos», de Juan José Campanella, com Ricardo Darin, Gillermo Francella e Soledade Villamil




Polícia sem Lei








A redenção impossível


A propósito de «Polícia Sem Lei» poderia vir aqui falar-vos do singular realizador que é Werner Herzog, do ‘novo cinema alemão’ de que faz parte, dizem, ou de Rainer Werner Fassbinder ou Wim Wenders que como Herzog são alemães muito perigosos (um já se foi) e cúmplices com este no crime de fazer cinema pouco ou nada consensual. Mas não, deixo isso para os especialistas ou para as páginas enciclopédicas igualmente importantes na avaliação de uma obra e do trabalho de autores e actores. E também não pela simples razão de que aqui sou um simples cinéfilo, um espectador comum, mas sobretudo não porque seria um desperdício fazê-lo quando pelo filme se passeia um ser humano, um polícia no caso em questão, que persegue deliberadamente a sua própria perdição. Um homem que mata a dor com o prazer ainda que socialmente o faça sob algumas das mais condenáveis formas.

Pois este polícia sem lei, que usa e abusa do poder que lhe é conferido pela sua profissão, corrupto e amoral, acaba por se revelar uma das mais fantásticas personagens do cinema nesta época de contenção e num género que tem muito de ficcional mas que aqui poderia ser bem real, o policial. E se o cinema pode ser designado como uma fábrica de emoções, façam o favor de apertar os cintos uma vez que o estado geral que passa a vigorar assim que «The Bad Lieutenant: Port Of Call - New Orleans» se inicia é o de total insanidade. Insanidade na história que se desenrola e de estupefacção do espectador esmagado pelo delírio auto-destrutivo de uma personagem a contagiar todo o filme.

Mas calma, não corram já para as salas de cinema, sejam um pouquinho mais cautelosos. É que já li algures que este foi o pior filme do ano para uns quantos. É justo, como já sugeri atrás não se trata de um filme consensual certamente e cinema não bate a todos por igual. Mas que para mim foi absolutamente revigorante observar a forma como um polícia a investigar o homicídio de uma família inteira no que aparenta ter sido um ajuste de contas lê o manual de instruções de trás para a frente e ainda rasga umas páginas pelo meio, lá isso foi. E se o filme é muito de um Nicolas Cage histriónico no seu impagável boneco, há que não esquecer a humidade e o calor de uma Nova Orleães de sotaque sulista e a viver um período de negação logo após os efeitos do furacão Katrina a transformar-se numa personagem omnipresente em toda a trama. E ‘last but not least’ que dizer da belíssima e cada vez mais sensual Eva Mendes aqui num papel complexo de uma prostituta incrivelmente sedutora num misto de ingenuidade e admirável capacidade de amar? Meus caros Abel Ferrara, Harvey Keitel e «The Bad Lieutenant» de 1992, o homem até pode ter ido beber inspiração no vosso trabalho, não o nego, mas que valeu a pena lá isso valeu.



«The Bad Lieutenant: Port Of Call - New Orleans», de Werner Herzog, com Nicolas Cage e Eva Mendes