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terça-feira, 15 de março de 2011

O Emprego do Tempo


[DVD]



Um homem refém de si mesmo 




      Era inevitável que o cinema se debruçasse sobre os contornos trágicos do tristemente célebre, em França, caso Romand. Curiosamente, estrearia primeiramente nas nossas salas uma abordagem cinematográfica do dramático acontecimento posterior a «O Emprego do Tempo». Nesse filme, com o título original de «L’Adversaire»(2002), Nicole Garcia seguiu com bastante fidelidade aquilo que o escritor Emmanuel Carrère descreveu em livro sobre o que realmente aconteceu. Lembre-se que depois de mentir durante quase vinte anos à sua família e amigos sobre um curso que nunca tirou e um emprego que nunca teve, um homem, justamente Jean-Claude Romand, esquivara-se à confissão da dolorosa verdade assassinando toda a sua família. Já neste filme, datado de 1999, o realizador Laurent Cantet interessa-se pelo ocorrido apenas como meio de inspiração para a reflexão. E se bem que a importância do núcleo familiar se mantém intacta no seu filme, Cantet estende essa influência à relação do seu protagonista com o mundo do trabalho. Ou não tivesse sido já essa a principal preocupação presente na sua anterior obra sugestivamente intitulada «Recursos Humanos». Como curiosidade, refira-se que sendo essa a sua primeira longa-metragem, Cantet ganharia com o filme o César do cinema francês destinado a premiar uma primeira obra.
     
     Realce-se desde logo a importância do factor psicológico como elemento catalisador da acção ao longo do filme. Porque quando existe uma consciência, a mentira torna-se um fardo demasiado pesado de suster e a perturbação pode tomar conta de quem reiteradamente vive sob os seus desígnios. Se não, repare-se: quando Vincent (Aurélien Recoing) perde o seu emprego, não tem coragem para revelar o facto à sua família. Instado a explicar-se sobre pequenos pormenores acerca de uma hipotética mudança de emprego, que representava um salto qualitativo na sua carreira profissional, Vincent vai-se atolando cada vez mais no equívoco que criara. Durante meses ele é o executivo que às semanas se ausenta para o seu trabalho numa repartição da ONU, em Genebra. Mas, na verdade, mais não faz que confundir-se com quem efectivamente lá trabalha, conduzir sem rumo definido durante longas horas, passar o tempo em áreas de serviço e parques de estacionamento, desaparecer por dentro de florestas e montanhas. Os esquemas a que se obriga para fazer face às obrigações financeiras de pai de família levam-no ainda a trair e a fazer parte de esquemas de corrupção e marginalidade, adensando-lhe a angústia em que cada vez mais se enterra.
     
      Há, desse modo, uma clara vertente psicológica a nortear o criterioso argumento do filme. E isso sucede desde o primeiro minuto, já que Vincent perde o seu emprego porque tem para com os seus deveres profissionais uma relação desencantada, de parcos estímulos, quase como se o constrangimento de ter de fazer o que o não realiza ou estimula se torne num calvário renovado a cada novo dia. E isso leva-o ao absentismo e à recusa, que por sua vez o conduz ao desemprego. Mas a cobardia de Vincent, que a câmara de Cantet não esconde mas também nunca faz questão de evidenciar – pelo menos de modo acusatório, leva-o a mentir. E é pelo repetido acumular dessa mentira que a sua vida se torna num insustentável fardo. E Vincent acaba refém de si mesmo preso na teia que a sua própria debilidade tece.
       E no filme a tensão adensa-se na conjugação de tempos e espaços que a realização manipula exemplarmente. Os dias passados na estrada conduzindo sem destino, o contínuo adormecer dentro da viatura e o amanhecer esperando apenas que a noite chegue novamente são elementos filmados com um domínio perfeito de métodos e técnicas. Por outro lado, a aposta em Aurélien Recoing, um actor normalmente distante deste universo dos filmes, revelou-se acertada. Porque o perfil do actor, ou do homem por detrás dessa capa, parece confundir-se com cada uma das facetas que a sua personagem vai adoptando ao longo da história na tentativa de se imiscuir discretamente num universo que não é o seu. E se em «L’Adversaire» Nicole Garcia não fugiu nunca da verdade dos factos e, mesmo sem acusar, expôs o lado hediondo dos actos praticados, em «L’Emploi du Temps» Laurent Cantet preferiu reflectir sobre as motivações psicológicas de um homem vítima das suas próprias características de personalidade. E para aqueles que se preocupam ou gostam de se confrontar com histórias da vida em que a alma humana sucumbe de forma trágica às obrigações sociais, este é um filme a não perder. Até porque o homem permanece como o ser mais enigmático e imprevisível à face da terra.


«L’Emploi du Temps» [DVD], de Laurent Cantet, com Aurélien Recoing

segunda-feira, 7 de março de 2011

Um Funeral à Chuva





SS*

Este fim-de-semana resolvi descobrir igualmente «Um Funeral à Chuva», de Telmo Martins, fenómeno recente no panorama cinematográfico português. A sinopse conta-se facilmente e faz lembrar tão levemente quanto a queda aparatosa de um elefante esse filme mítico que dá pelo nome de «Os Amigos de Alex» [1983], de Lawrence Kasdan. Mas do pormenor não vem mal ao mundo assim como a trivialidade das conversas entre os sete antigos colegas de universidade que se reencontram para o funeral de um deles que morreu prematuramente e daí resolverem fazer um rescaldo das suas vidas e retomar a ligação e amizade entretanto perdidas assim como o ‘dèja vu’ das situações em que incorrem. Não, não viria mal ao mundo se Telmo Martins and friends conseguissem tornar o seu projecto recheado de nobres intenções, reconheça-se, num filme agradável. E já agora, que isto de pedir não custa, com uma narrativa fluida uma vez que a complexidade existencial se afoga rapidamente numas quantas cervejas acompanhadas de um charro aqui e outro acolá.
Mas se há filme em que seria de todo agradável tecer os mais rasgados elogios, seria este «Um Funeral à Chuva». Porque não teve subsídios e, a acreditar nos próprios, nem custos para a produção que conseguiu alavancar-se no apoio de diversas empresas e entidades. Mas também, ‘last but not least’, porque o filme tem as pernas da actriz Sandra Santos. Umas pernas lindas que a câmara de Telmo Martins capta avidamente desde o tornozelo até aos minúsculos calções que a sua personagem usa durante quase todo o filme. Um filme que tem duas horas e dez minutos de duração, diga-se. Por outro lado, há ainda a Covilhã e a Serra da Estrela, a nostalgia da universidade, das praxes académicas e das bebedeiras. Mas, confesso, as pernas da Sandra Santos filmadas por Telmo Martins ficaram-me na retina e são do mais memorável que o cinema português do género nos ofereceu até hoje. E agora que as temos esqueça-se as mamas da Rita Pereira nos Emmys ou as ditas da Cláudia Vieira em «O Contrato» [2009], de Nicolau Breyner. Mas, facto penoso neste caso, um filme não pode ser só pernas e as mulheres são muito mais que pernas e mamas. No cinema como na vida. Nós, os homens, como bem diz o Vitor Norte em «O Contrato», é que ‘somos uns gajos do caralho’.

*Sandra Santos

«Um Funeral à Chuva», de Telmo Martins, com Sandra Santos, outros


Crazy Heart




Um homem singular

Tenho ouvido e lido muito boa gente desabafar que escreve bem melhor quando está triste. A confissão não me é estranha e a resposta é-nos dada por «Crazy Heart» [2009], o filme que permitiu a Jeff Bridges arrebatar o Óscar de melhor actor em 2010. De facto, tal como nos sussurram os sons da música country, pedra basilar da cultura popular norte-americana, não tenho dúvidas de que quanto mais amarga é a vida, mais doce é a canção.
Quer na sala grande do cinema ou no leitor de DVD cá de casa, vejo vários filmes por semana. Mas quis o destino que só agora, confrontado com a foto do rosto sofrido de Bridges [depositada num escaparate da secção de DVD’s de uma conhecida loja de livros e filmes] de queixo um pouco acima da viola que toca enquanto supostamente entoa  uma canção, resolvi que era chegado o momento de perceber por que razão Colin Firth lhe vira ser retirado o Óscar pela sua interpretação exímia em «Um Homem Singular». Firth,  também ele devastado por um grande amor perdido algures nas mais inesperadas casualidades da vida. E em boa hora o fiz, porque «Crazy Heart» é cinema sem artifícios, é a ficção a sobrepor-se à realidade, é autenticidade, é sensibilidade e intimismo.
«Crazy Heart» é ainda a história de um homem, de um músico, perdido na incapacidade de olhar para trás. E de ao olhar o homem glorioso que foi, seguir em frente sabendo que há sempre algo de valoroso para desfrutar e dar aos outros pese ter-se perdido algo num percurso de vida por vezes sinuoso. Mas, entre a areia dos quilómetros e quilómetros de deserto que atravessa diariamente para actuar em bares manhosos e submerso pelo torpor do álcool com que vai enganando a sua dor, a vida dá nova oportunidade a Bad Blake [Jeff Bridges]. Essa oportunidade surge através do amor correspondido por Jean [Maggie Gyllenhall], uma mãe solteira muito mais jovem que ele. Como seria de esperar, porque quando a ficção é boa resulta no espelho fiel da realidade, Bad Blake deixa escapar aquele que se percebe ser o grande amor da sua vida e quando faz aquilo que deveria ter feito desde logo é já demasiado tarde para ambos.
Pobres os espíritos de quem decidiu enviar directamente para DVD este filme tocante sobre a fragilidade do indivíduo. Uma debilidade que surge da insatisfação de que é feita a sua própria massa, da incapacidade para em determinado momento perceber qual é o caminho a seguir. E Jeff Bridges foi exemplar na corporização de um homem com estas características especiais, de alguém que caminha sempre em desequilíbrio tanto podendo a qualquer momento subir aos céus, às estrelas, como estatelar-se no solo, descer ao inferno. Dir-se-ia que «Crazy Heart» nasce de uma história já vista, pouco original. Eu diria que nasce de nós, do ser humano imperfeito que somos. E diria também que, em «Crazy Heart», Jeff Bridges é… um homem singular.

Crazy Heart», de Scott Cooper, com Jeff Bridges, Maggie Gyllenhaal, Robert Duvall e Colin Farrell

domingo, 27 de fevereiro de 2011

127 Horas





O homem e a montanha

O filme inicia-se com imagens frenéticas tiradas de câmaras de segurança sobre as ruas apinhadas de gente, estádios de futebol imersos de espectadores, cenas vindas directamente de televisões, cenas domésticas e, de entre todas elas, emerge o protagonista do filme, Aron Ralston [James Franco]. Baseado em factos reais, Ralston, engenheiro e amante da natureza, é um homem tão confiante de si mesmo e das suas capacidades de lidar com desertos e montanhas adversas que sai de fim-de-semana algures para o Utah sem deixar uma única nota de si, sem que alguém saiba para onde seguiu.

Mas esta inconsciência sairá cara a Aron quando um dos seus braços, comprimido entre uma rocha que se soltara e as paredes de uma ravina, o faz ficar preso nas entranhas da terra. E é a partir daqui que o realizador de «Trainspotting» [1996], «A Praia» [2000], «28 Dias Depois» [2002] e o multi-oscarizado «Slumdog Billionaire» [1998] faz um filme sobre o calvário de um homem agarrado ao seu próprio destino sem qualquer possibilidade de apoio externo que não venha de si mesmo. Apesar das possibilidades deste homem aterradoras de tão pessimistas, Boyle imprime ao filme um humor a roçar o sarcasmo que faz com que plateias nervosas se confundam entre o choro e o riso. É obra.

No entanto, é inegável que numa história com estas características o filme tenha as suas próprias limitações que nem a esquizofrenia visual de que é composto consegue disfarçar. Ainda assim, nesta hora e meia de puro cenário e tensão dramática há um actor que encarna na perfeição o aventureiro dos nossos dias a quem a natureza resolveu dar uma lição perante a sua insolência. E durante os cinco dias em que está preso por um braço, o filme condensa em hora e meia toda a fragilidade humana perante uma morte que se avizinha e a necessidade de força interior para manter intactos a mente e o ânimo. Em suma, «127 Horas» é uma proposta de cinema diferente e ousada que se desenvencilha capazmente das suas próprias restrições graças ao talento dos seus autores e actores, Danny Boyle e James Franco à cabeça. Que eu corte já um braço a mim mesmo se assim não é.

«127 Hours», de Danny Boyle, com James Franco


domingo, 20 de fevereiro de 2011

Despojos de Inverno





Irmã coragem

«Winter’s Bone» é mais uma pérola do cinema indie, um filme passado numa América mais tenebrosa que profunda, numa sociedade fechada sobre si e marginal, num mundo onde o gelo e o lixo tornam ainda mais hostil uma paisagem montanhosa já de si áspera como as gentes que a povoam. Correndo por fora, «Despojos de Inverno», da americana Debra Granik, promete no entanto dar que falar na noite dos Óscares. Não porque tenha grandes probabilidades de vencer alguma das quatro estatuetas para que foi nomeado, não sejamos ingénuos, mas porque cada uma das nomeações deste pequeno/grande filme são demasiadamente sólidas para não serem levadas a sério. Nomeadamente a de Jennifer Lawrence, uma irmã feita mãe coragem num mundo assente em silêncios e no medo.

Ree [Jennifer Lawrence] tem apenas dezassete anos mas a seu cargo vivem um irmão de doze e uma irmã de seis e ainda a mãe dada como louca perante o seu silêncio e inércia talvez na única forma que encontrou de enfrentar a miséria e a mesquinhez que a rodeiam. O pai, ausente, acabara de sair da prisão mas desapareceu deixando a família em risco de perder os terrenos e a casa onde vivem dados por ele como pagamento da fiança. Ree tem, assim, poucos dias para encontrar o pai e evitar o desmembramento total da sua família já de si disfuncional. Mas na tarefa árdua a que se propõe, Ree irá enfrentar as mais terríveis ameaças proferidas por personagens sinistras regidas por um estranho código de silêncio. Nessa busca, a jovem vai ainda contar com os avanços e recuos de Teardrop [John Hawkes], o tão violento como generoso irmão do seu pai.

Como facilmente se pode perceber, Debra Granik constrói em «Despojos de Inverno» um thriller de estética rugosa subindo aos montes Ozark para mostrar uma América má e feia regida por máfias familiares onde abundam os laboratórios artesanais de drogas e álcool. Mas no mundo de «Winter’s Bone», para gáudio do espectador de cinema sobrevive uma jovem que não teme enfrentar a violência de gente sórdida e dura em nome de uma responsabilidade maternal que não lhe deveria pertencer mas que ela não enjeita. E Ree tão depressa se mostra a mais terna das irmãs como a mais feroz lutadora numa interpretação superior de Jennifer Lawrence, ela que representa ainda a esperança num ambiente de adversidade e desolação. E no filme, a personagem de Jennifer rima apenas como os suaves acordes de um banjo ou nas velhas canções country entoadas por uma também velha cantora na reunião familiar que na sua desesperada busca ela interrompe. Interrompem-na Ree e o seu inesgotável amor pela vida. Pela sua, é claro, mas sobretudo pela vida dos seus dois pequenos irmãos. A não perder.

«Winter’s Bone», de Debra Granik, com Jennifer Lawrence e John Hawkes

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Indomável





Em nome do pai

Desde que se estrearam com «Sangue por Sangue» [1984] que, goste-se ou deteste-se, ninguém fica indiferente ao cinema de Joel e Ethan Coen. Ao longo de quase trinta anos, os dois irmãos construíram uma carreira na indústria cinematográfica onde está bem patente um estilo muito próprio normalmente associado a um sentido de humor que chega a ser desconcertante. Em «Indomável», remake de «Velha Raposa» [1969] filme que deu o Oscar de Melhor Actor a John Wayne e realizado por Henry Hathaway, o humor é um pouco mais subtil que o habitual mas os Coen continuam a fazer o mais literário cinema dos nossos dias. De facto, a qualidade do texto assente em diálogos vivos e inteligentes prova que mais do que nos deixar durante dias e dias a pensar nos seus filmes, estes servem sobretudo para que o espectador desfrute deles numa sala de cinema. E esse é o grande trunfo de «Indomável», numa realização que demonstra igualmente a grande valia técnica dos dois cineastas.

A partir do momento em que a jovem Mattie Ross [Hailee Steinfeld] resolve vingar a morte do pai às mãos de um seu empregado, percebemos que a narrativa de «True Grit», no seu título original, se vai debruçar muito sobre a fronteira entre o bem e o mal e a perda de inocência de uma adolescente que passará a partir dali a lidar permanentemente com a morte. O Marshal Rooster Cogburn [Jeff Bridges] é o homem contratado por Mattie para dar caça ao assassino. E quando este acaba por fazer um acordo com o Ranger LaBoeuf [Matt Damon] à revelia de Mattie, os três partem para as montanhas onde julgam estar escondido o infame Tom Chaney [Josh Brolin]. Nesse momento, o espectador entra definitivamente na melancolia poética dos Western, dos homens de corpos aquecidos pelo whisky, de pistola no coldre e tiro fácil e da luta pela sobrevivência em terras inóspitas povoadas por gente áspera.

E se a pequena Hailee Steinfeld se revela uma actriz de corpo inteiro completamente inserida no corpo e alma da sua personagem, Jeff Bridges assume de vez a sua importância no panorama cinematográfico norte-americano arrancando uma notável interpretação de um velho e decadente Marshall que recupera a dignidade no cumprimento da sua obrigação contratual e moral para com Mattie. Ela que se revelara desde sempre uma negociadora de verbo fácil, convincente e implacável. Entretanto, o espectador mergulha de cabeça numa história que acaba por se declarar triste e amarga ainda para mais dominada pelo desencanto com que termina. De destacar o esplendor da fotografia do filme, assim como a confirmação, através do manejo da câmara e do domínio das técnicas de som, do homem como ser minúsculo perante a terra que o rodeia.

 Em suma, este «Indomável» dos irmãos Coen é a tradução perfeita para cinema da grande literatura e aquece-nos a alma muito pela nostalgia que desperta e pelo executar assumido  de um certo revivalismo do clássico americano por excelência, o western.

«True Grit», de Joel e Ethan Coen, com Jeff Bridges, Hailee Steinfeld, Matt Damon e Josh Brolin

domingo, 13 de fevereiro de 2011

The Fighter - Último Round





A vida não é um sonho

Mickey Ward [Mark Wahlberg] teve no seu irmão o ídolo da adolescência e vive uma existência de superação pessoal como lutador de boxe. Por sua vez o irmão, Dicky Ecklund [Christian Bale], é uma estrela há muito apagada que vive uma lenda bem mais obscura que cintilante de um dia ter sido o orgulho de Lowell, Massachusetts. E enquanto um, o primeiro, vive condicionado pela fidelidade à família - incluindo a mãe ainda a seguir a luz apagada de Dicky - e a quantos o rodeiam por este ou por aquele motivo, o outro subsiste numa inacreditável dependência emocional e material pelo boxe tornando-se treinador de Mickey como se por decreto. Mas Mickey quer viver o sonho americano e Dicky representa o falhanço simbólico de uma sociedade, a americana, onde muitos dos seus derrotados se tornam marginais e dependentes de drogas. Neste entretanto, surge Charlene [Amy Adams], a namorada de Mickey, uma jovem mulher tão paradoxalmente doce como dura e determinada.
«The Fighter – Último Round» aborda um dos desportos mais visceralmente queridos dos americanos, o boxe. E poderia muito bem ter-se reduzido à categoria de mais uma metáfora de queda e redenção assente numa história que foi beber inspiração à vida real. No entanto, a realização de David O. Russell [ele que realizou «Três Reis» no já longínquo ano de 1999] agarra-se com unhas e dentes ao mito de dois irmãos, dois homens, dois lutadores de boxe, na tentativa de construir um filme sólido e muito realista que retrata o sonho americano a partir de um bairro problemático e de uma das suas famílias. Uma família que é um exemplo perfeito do que são as classes mais desfavorecidas da América. E neste seu retrato, o que sobressai é a capacidade de conseguir fugir ao ordenamento emocional de pessoas que de facto são incapazes de agirem de modo organizado já que vivem quase por instinto. E esse é um trunfo do seu cinema fugindo não só ao tradicional filme de boxe como ao exibicionismo pretensioso de quem aborda a complexidade da natureza humana.
Baseado numa história verídica, é exemplar a reconstrução dos combates de boxe entre um Mickey esforçado e circunspecto e os seus adversários tidos à partida como favoritos o que prova a existência de uma excelente direcção artística. E se Mark Wahlberg está em plano de evidência, que dizer de um Christian Bale que se esquece de si mesmo para mais uma vez se abandonar por inteiro à personagem que encarna? Bale, em «The Fighter – Último Round», é um homem moralmente perdido, fisicamente raquítico e dramaticamente agarrado ao crack e a uma imagem que tem de si e do boxe. E para quem esperar até aos créditos finais do filme e observe o homem real que encarnou, poderá verificar nas inacreditáveis semelhanças entre um e outro. Fantástica interpretação, sem dúvida, daquele que já foi maquinista, psicopata americano e Batman, entre outros. Quanto a Amy Adams, dizer apenas que a beleza quando existe se percebe até por detrás do balcão de um bar manhoso a servir bebidas a gente rude enquanto é apreciada por olhares lânguidos e esfomeados. Grandes interpretações, grande filme e o boxe como metáfora para a vida.

«The Fighter», de David O. Russell, com Mark Wahlberg, Christian Bale, Melissa Leo e Amy Adams

O Discurso do Rei




O rei e o plebeu

A Europa encontra-se numa encruzilhada bélica para onde é levada por um homenzinho vil, de bigodinho pateta mas de discurso arrebatador de nome Hitler. Entretanto, em Inglaterra Jorge V morrera e deixara um vazio no trono já que o seu sucessor natural, que viria a ser Eduardo VIII [Guy Pearce], apresentava uma frivolidade pouco de acordo com o estatuto e acabaria mesmo por abdicar em prol de um amor tido como inconveniente por uma cidadã americana já anteriormente casada por duas vezes. Sucede-lhe como rei o seu irmão mais novo, Bertie [Colin Firth] para a família e Jorge VI para a história, um homem de grande carácter mas afectado por uma arreliadora gaguez que o diminuía como líder. Bertie acaba por se socorrer de um atípico terapeuta da fala, Lionel [Geoffrey Rush], ele, plebeu e australiano que nem sequer possuía formação em medicina. No entanto, levado para a guerra por Hitler, em 1939 o Império Britânico ouvirá do seu rei gago um discurso histórico e mobilizador. E é sobre esse discurso e sobre a amizade que nasce entre o rei e o terapeuta plebeu que Tom Hooper edifica «O Discurso do Rei». Aparentemente, um filme talhado para ganhar prémios.
«The King’s Speech», no seu título original, é formalmente inatacável e em tempo algum dispensou a conhecida fleuma britânica e um glamour muito british. Apesar de ter sempre em pano de fundo o grave momento histórico que o mundo vivia na altura, isso nunca pareceu interessar por aí além à realização de Tom Hooper. E ainda bem, digo eu, já que o filme retrata a angústia de um homem que tendo vindo a tornar-se rei se sentia bem menos válido que o mais humilde dos seus súbditos. E nesse âmbito, sem histrionismos exagerados [e dispensáveis], com uma interpretação sólida e equilibrada, Colin Firth é peça fundamental para que se perceba aquilo que todos já sabemos: que os reis não passam de seres humanos como quaisquer outros. Mas a forma como o filme demonstra esta evidência, acaba por se revelar de uma elegância extrema. Até no desfilar de carências afectivas que a sua personagem principal possui e nas situações humilhantes por que passa.
Mas neste formalismo todo, a surpresa está na fina ironia com que se dão os encontros e desencontros entre o terapeuta e Jorge VI, dotando o filme de uma comicidade muito invulgar para um drama mas também de uma emotividade que pode fazer chegar às lágrimas o espectador mais sensível. E caso se esteja atento ao que de mais subliminar tem o texto do filme, não deixam igualmente de se tornar bem interessantes as diversas relações existentes. Entre a realeza e o povo, a relação sempre ambígua com a igreja com esta a colocar-se em bicos de pés ou na prova irrefutável de que o poder, as grandes decisões, já então pertenciam aos governos e não à monarquia. Mas, como disse anteriormente, o filme passa por aí mas não é nesses aspectos que se detém.
Em minha opinião longe da obra-prima que tantos prémios poderiam sugerir, «O Discurso do Rei» acaba ainda assim por se tornar num filme muito competente, por vezes comovente, que para além de um grande Colin Firth possui ainda um outro actor, Geoffrey Rush, cuja enorme presença como terapeuta do rei merece tanto destaque quanto aquele que é dado a Colin Firth. De realçar também a mordacidade altiva de Helena Bonham Carter como Rainha Isabel. E mesmo que não tenha sido pelo discurso do rei que os aliados ganharam a guerra, certamente que depois deste filme Jorge VI ficará ainda mais no coração dos britânicos. Pelas suas virtudes, claro, mormente pela sua coragem, mas, curiosamente, sendo um homem igual a tantos outros, muito mais pela sua debilidade: pela sua gaguez.

«The King’s Speech», de Tom Hooper, com Colin Firth, Geoffrey Rush e Helena Bonham Carter


segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Cisne Negro







A bela e os demónios

Nina [Natalie Portman] tem uma obsessão, a de se tornar prima ballerina da companhia de ballet que representa. Esta que se apresta para estrear na nova temporada o bailado «O Lago dos Cisnes», em mais uma versão das inúmeras existentes do original russo composto em 1875. E para Nina o sonho torna-se realidade quando o director da companhia - personagem interpretada com uma segurança impressionante pelo francês Vincent Cassel - a escolhe para encarnar o Cisne Negro. Mas entre lágrimas de alegria e uma incontida emoção que partilha de imediato com uma mãe, a sua, possessiva e super protectora, em Nina emergem os demónios que lhe infernizam a existência. Para piorar as coisas, a insegurança da bailarina aumenta com a chegada de Lilly [Milla Kunis], uma outra bailarina não tão perfeita em palco mas muito mais natural que Nina.
Tal como em «O Wrestler» [2008], o anterior filme do realizador Darren Aronofsky, «Cisne Negro» centra-se na sua personagem principal para exercitar uma inquietante viagem aos mais recônditos lugares do subconsciente. Mas, neste caso, com uma importante e decisiva diferença na personagem brilhantemente interpretada por Natalie Portman: enquanto Mickey Rourke pagava pelas suas escolhas erradas mas conscientes, Portman afunda-se na sua obsessão que de tão fulcral na sua vida acaba por se transformar numa grave doença psicológica. E é a partir desta premissa que o filme se agiganta nas alucinações de Nina, na confusão em que se tornam os seus dias e no seu sofrimento interior e, já agora, por que não dizê-lo, na empatia que a sua personagem cria com o espectador.
Mas se é verdade que a interpretação da belíssima Natalie Portman é magistral, também não é mentira se disser que o filme é muito mais que o trabalho da actriz. A sequência final do bailado, por exemplo, é um dos mais marcantes momentos de cinema dos últimos tempos; e a fuga aos clichés a que está associado o mundo das artes, muito bem representada através da personagem de Cassel, são trunfos de um cinema de abordagem clássica mas muito sedutora. Um cinema que se alimenta nos momentos intrigantes em que leva o espectador a mergulhar e na consequente espiral de tensão que se vai adensando até culminar instantes antes do momento final do filme. E num filme, num drama psicológico, onde o ciúme, a inveja, a vida e a morte, o mal e o bem trilham caminhos paralelos, para o espectador Nina jamais pertencerá a nenhuma destas facetas saídas todas elas da própria natureza humana. Isto porque na sua dor, no seu querer, na sua beleza arrebatadora, Nina é sobretudo uma jovem mulher em sofrimento por quem o espectador do filme torce dada a sua evidente fragilidade.
No final, o que fica de tudo isto é um tremendo fascínio por um filme extraordinário e uma sentida admiração pelo trabalho de uma actriz. E isto por mais obscura que seja a história que nos é contada e angustiante o perfil psicológico da sua personagem principal. Imperdível.   

«Black Swan», de Darren Aronofsky, com Natalie Portman, Vincente Cassel, Mila Kunis e Winona Ryder

domingo, 30 de janeiro de 2011

Biutiful






O elogio da dor

«Biutiful» é, antes de mais, a história de um homem que vive à beira do precipício. O mundo de Uxbal (Javier Bardem) é pesado, feio, doloroso e o novo filme de Alejandro González Iñarritu torna-se desse modo desaconselhável não pela sua incontestável qualidade cinematográfica mas porque a história que nos conta é de tal forma um hino à dor, à agonia, que facilmente leva o espectador ao desespero e ao cansaço pelo negativismo visceral ensaiado nas maleitas da natureza humana inseridas numa sociedade desigual que gera a mais repugnante miséria.
Uxbal, um Bardem inexcedível física e emocionalmente numa entrega fantástica ao perfil penoso da sua personagem, é um homem que perdeu a mãe quando criança e não chegou sequer a conhecer o pai. Tem ainda uma ex-mulher massagista, prostituta, alcoólica e bipolar incapaz de tomar conta dos dois pequenos filhos de ambos já que a ele, Uxbal, lhe resta muito pouco tempo de vida por sofrer de uma grave doença cancerosa. Uxbal, um estranho na sua própria terra, ganha a vida entre a máfia chinesa e os africanos ilegais que traficam todo o tipo de artigos nas ruas de Barcelona. Acrescente-se também que a Barcelona de Iñárritu é pobre e suja, dificilmente reconhecível e, inicialmente, pode até ser confundida com qualquer cidade oriental ou sul-americana no pior que estas grandes urbes com população em excesso podem apresentar.
E a verdade é que o filme vive da omnipresença de Javier Bardem, não apenas porque segue quase em exclusivo a sua personagem mas por razão da fantástica prestação do melhor actor espanhol da actualidade. Daqui se depreende que o realizador mexicano abandonou as histórias em mosaico e as montagens vertiginosas, seguindo uma linha temporal única e bem definida. Apesar disso, não se tornou mais fácil para o espectador seguir uma narrativa que, como se pode perceber, faz da dor uma única linha de raciocínio apresentando-a, à dor, em sentido literal e metafórico, ao centro, à esquerda e à direita, aqui, ali e acolá. E se numa pretensa busca de redenção para os seus pecados Uxbal demonstra uma humanidade admirável para quem busca o sustento na exploração do seu semelhante tendo ainda uma relação afectiva muito forte com os seus dois filhos, a verdade é que por seu lado o mundo de Alejandro González Iñárritu precisa rapidamente de mostrar alguma crença no ser humano. Sob pena dos seus espectadores se cansarem de constantemente serem vergastados emocionalmente pelo seu cinema.

«Biutiful», de Alejandro González Iñárritu, com Javier Bardem




segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Hereafter - Outra Vida


 


Ensaio sobre a vida

«Hereafter – Outra Vida» é a confirmação do octogenário Clint Eastwood como um dos maiores realizadores do nosso tempo. Paralelamente, ao espectador espera-o um filme que lhe promete falar da morte mas que opta por dissertar sobre a vida. Uma história, ou um mosaico de histórias que se cruzam na estranha capacidade sensorial de um homem, que se preocupa mais com o indivíduo e com os seus mais profundos dilemas que com a sociedade em que este possa estar inserido. E nesta espécie de conspiração do silêncio que une as personagens numa narrativa sóbria mas que nos oferece uma espantosa recriação do maremoto ocorrido no Índico há um par de anos atrás, emerge um actor extraordinário numa interpretação paradoxalmente humilde e cintilante pela sua extrema sensibilidade: Matt Damon. Imperdível.

«Hereafter – Outra Vida», de Clint Eastwood


Tron: O Legado




Império dos sentidos

Poder-se-á acusar «Tron – O Legado» de alguma pobreza argumental. E quem o fizer tem toda a razão. No entanto, teme-se que essa preocupação possa fazer com que se perca aquilo que as virtudes da tecnologia permitiram no filme em que Jeff Bridges desaparece durante vinte anos sugado para um programa de computador: a sua impressionante originalidade visual. Porque «Tron» não é um filme qualquer. «Tron» é pura alucinação digital, é uma grandessíssima bebedeira onde o gozo e a alegria descambam numa maravilhosa noite de sono e num dia seguinte sem o menor indício de ressaca. «Tron» é, em suma, um fascínio para os olhos, é delírio, ilusão, é desvario. E é sentir para crer.

«Tron: O Legado», de Joseph Kosinski

O Turista




Presunção e água benta…

Sim, «O Turista» tem Angelina Jolie e Johnny Depp nos principais papéis. E tem Veneza, essa cidade eternamente romântica de gôndolas e canais, palácios e pontes. No entanto, o filme de Florian Henckel von Donnersmarck (!) é um completo vazio de ideias numa catadupa de clichés narrativos e visuais. Para além de dispensável e fútil, «O Turista» mostra ainda uma actriz incapaz de cumprir os mínimos que justifiquem o seu invejável estatuto e um actor a perder-se cada vez mais na caricatura de si mesmo. Enfim, uma perda de tempo.




Stone – Ninguém é Inocente





A culpa

Um criminoso cumpre pena e procura alcançar a liberdade condicional. O agente encarregue da sua avaliação está igualmente na recta final de um percurso profissional incólume mas a terminar com a idade da reforma. Entre estes homens existem duas mulheres. Uma, a do marginal, usa-se de todos os meios para corromper o agente e com isso conseguir a liberdade do marido. A outra, a do agente da lei, vive uma existência oca e abafada pelo dever de acompanhar o homem com quem casou mas de quem desde há muito se sente afectivamente desligada.

«Stone – Ninguém é Inocente» é, deste modo, um filme que se movimenta na exploração da culpa de gente perdida algures entre a sua essência e aquilo que a sociedade lhe exige. E enquanto uns seguem religiosamente o que os bons costumes lhes ditam e cumprem a sua pena em silêncio, outros divergem e acabam igualmente condenados pelo extravio a que se atreveram. Mas, lamentavelmente, o filme perde-se nas suas excessivas exigências filosóficas já que coloca questões para as quais não encontra respostas. E Milla Jovovich, Edward Norton e Robert de Niro acabam também eles perdidos numa encruzilhada de vidas demasiadamente desinteressantes para que pudessem suscitar no espectador a procura por si mesmo das respostas que o filme não lhe oferece. Mas é pena.

«Stone – Ninguém é Inocente», de  John Curran




sábado, 15 de janeiro de 2011

O ADVERSÁRIO




   A verdade escondida

   
      Sorria tristemente e o olhar, tímido, parecia perdido algures no horizonte. Mas para a mulher, para os filhos, para os pais, era o marido atencioso, o pai protector, o filho dedicado. Era também o médico brilhante com um cargo de investigador na OMS. Um dia, a tranquilidade daria lugar à tragédia. Afinal, podem revelar-se devastadores os contornos ligados às mais recônditas fraquezas do ser humano.
      

      Se existem situações limite em que a verdade ultrapassa claramente a ficção, uma dessas situações consubstancia-se, claramente, na história em que se baseou o livro, da autoria de Emmanuel Carrère, que a realizadora Nicole Garcia adaptou neste filme ao cinema. O filme relata de modo bastante equilibrado em função do acto repulsivo a que alude, a vivência secretamente errante de Jean-Marc Faure (Daniel Auteil), cuja família acreditava que fosse médico a trabalhar como investigador na OMS. Mas a vida de Jean-Marc estava muito longe dessa realidade por si criada mas completamente inexistente. Uma realidade que nunca passara da simples virtualidade. Depois de um erro cometido ainda enquanto estudante de medicina, Jean-Marc revela-se incapaz de lidar com a verdade e mente durante dezoito anos à sua família e amigos. Na extrema e pantanosa experiência humana em que se vai atolando, o falso médico passa os dias em áreas de serviço das auto-estradas, embrenha-se em estradas secundárias dos bosques da região onde vive e abandona-se em quartos de hotel. É uma errância viciosa mantida materialmente pela impostura e marcada psicologicamente pela solidão. Nicole Garcia deixou que a sua câmara captasse o lado mais humano do drama de um homem cobarde que temia as reacções previstas dos que o ladeavam se colocados em confronto com os seus actos falhados, e é atroz o impacto em nós da ambiência silenciosa do seu filme. Os movimentos lentos da câmara e o percurso grave do protagonista, funcionam como se em prelúdio para a anunciada tragédia.
     
      Jean-Marc Faure é o nome ficcionado de Jean-Claude Romand, o homem que entrou numa espiral de degradação psicológica que o levou a um acto tresloucado mas cometido com uma aterradora serenidade. Apesar da realização jamais pretender especular sobre motivações ou encenar explicações psicológicas que levem a um entendimento mais objectivo do espectador perante a insanidade da trama a que assiste, tornam-se ainda assim evidentes os diferentes estágios que levam à alienação final. Faure traçara para si uma exigência terrível com o prolongamento da sua mentira. Para aquele homem, não havia sonhos ou metas a atingir e daí a tristeza que é latente no seu rosto, o desencantamento que transparece no seu olhar. E aquelas pequenas felicidades do dia-a-dia tornaram-se para si irrelevantes, inconsequentes. Daniel Auteil, que ainda não há muito víramos como Marquês de Sade («Sade», 2000), é perfeito no papel de um homem oprimido pela sua própria acção, preso às teias da rede por si tecida. Auteil, como Faure, deambula pela tela cingido rigorosamente à fatalidade da sua personagem. São devastadoras as expressões físicas do actor corporizando um homem potencialmente luminoso mas que se apagava em defesa da sua mentira. No meio do ardil, na gravidade da tragédia, avulta do filme uma espécie de poesia do desespero. E se méritos podem ser atribuídos a Nicole Garcia em virtude da abordagem do seu cinema à história, é de inteira justiça realçar-se o fabuloso trabalho de interpretação de Daniel Auteil. O actor “deu-se” à personagem como se sofresse verdadeiramente com o seu calvário e retira de um sentimento tão negativo quanto a repulsa, com a sua interpretação, um tão estranho quanto inesperado fascínio.
     
      Uma das virtudes do filme reside na percepção que houve de que este se baseava numa história passada na realidade e em tempos muito recentes, em 1993. Esse facto, aliado ao livro de Carrère, ameaçava retirar qualquer tipo e hipótese de surpresa ao filme. Esse pormenor foi ultrapassado socorrendo-se Nicole Garcia em opções conceptuais algo arrojadas, dada a muito própria estrutura da narrativa no que à história se refere. O arrojo, dizia, consistiu no modo como o filme foi montado. Ao mesmo tempo que os contornos dramáticos da trama vão sendo apresentados ao espectador, Luc (François Cluzet), o principal amigo de Jean-Marc, e Marianne (Emmanuelle Devos), que foi sua amante, vão sendo interrogados na polícia sobre o amigo e antigo amante, o que indicia o que já se sabia: que algo de terrível viria a suceder no final. E esse final, ou parte dele, também seria desde logo facultado ao espectador mas apenas parcialmente, acção essa tendente a agir no filme como elemento criador de expectativas.
     
      Diga-se que
«L’Adversaire» não é o primeiro título inspirado nos trágicos acontecimentos protagonizados por Jean-Claude Romand em Janeiro de 1993 e que mais não seriam que o culminar de uma grande mentira quotidiana com dezoito longos anos de duração. «Emploi du Temps», realizado por Laurent Cantet, já tomara a ocorrência fatídica como inspiração de si mas com uma diferença substancial: a inspiração fora exercida de forma muito livre relativamente aos acontecimentos e de molde a praticar um acentuado exercício de reflexão. Este «L’Adversaire» evita a própria reflexão ao largo da história, mas, sendo fiel à obra literária em que se baseia que por sua vez é fiel aos actos ocorridos – o escritor acompanhou mesmo as sessões do tribunal que viria a condenar Romand à pena de prisão perpétua – permite que a sua visão leve à reflexão individual por parte de cada um dos seus espectadores. E esse é um pormenor também ele positivo.
     
      No entanto, na obsessão de evitar julgamentos valorativos sobre quem quer que fosse, a película não alcança um final satisfatório. Aliás, a forma abrupta e pouco clara que o filme encarna no seu final deixa mesmo um sabor amargo de frustração decorrente da ambiguidade alcançada. Esse pormenor, arrisca a que o espectador caia em si e se aperceba que a desolação emocional que o afecta decorre muito mais da consciência que tem de que o que vê teve origem em factos reais e não pelo modo como o filme foi estruturado. O que até nem será totalmente verdade, porque a impressionante espessura dramática que a realização alcança através de silêncios e actos reprimidos, foi preponderante para a atmosfera trágica que é partilhada entre espectador e personagens. E essa perdurará para lá do visionamento do filme. Assim como a incompreensão para com um homem capaz de matar para não olhar a desilusão que a crua e dura verdade provocaria naqueles que o amavam.




     
[Texto em reposição]

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Juha [DVD]

       

      Balada Triste ao Infortúnio
   
      «Juha» foi primeiramente conto, história de gentes do povo gravada no papel. «Juha» foi imaginado, delineado, pela mente do escritor finlandês Juhani Aho no já distante ano de 1912. Em «Juha» narra-se o drama do campesino do mesmo nome, Juha, que tão feliz vivia na sua bucólica e bem tratada quinta com a companheira Marja. Desfia-se igualmente o encontro destes com Shemeikka, indivíduo cosmopolita dando ares aristocráticos, conhecedor da vida e a quem a vida também conhecia bem, e – falando já do filme realizado por Aki Kaurismäki – viajante de cabelos ao vento no seu ágil descapotável vermelho. Mas Juha (Sakari Kuosmanen) é tão delicado nos seus gestos rudes de aldeão agricultor e a sua voz grossa soa tão amável... E Marja (Kati Outinen) move-se com aquela graça que advém da singela genuinidade da mulher para quem o mundo não era muito mais que o marido, a quinta e a praça onde comerciavam a sua produção; mas isso chegava-lhe, o seu olhar brilhava, a sua voz parecia perder-se naqueles campos cultivados melodiosa como o cântico das aves na Primavera. Mas eis que surgiu Shemeikka (André Wilms). Aquela sedutora, maldita e altiva pose, o olhar vivido, a voz insinuante e bem colocada...! Shemeike representa um mundo novo, uma perturbação desconhecida, uma avalanche de novos sentimentos. E torna-se estranho, quase inacreditável mesmo, como um filme mudo e a preto e branco consegue definir dele tanta coisa em nós. Como consegue transmitir a percepção das emoções, a compreensão dos estados de alma mais simples e os mais complexos. E enquanto as personagens vivem o drama nós apreendemos com que sons e com que cores o fazem.
     
      «Juha» é um filme triste. Daquela tristeza que não humedece a vista mas que enregela a alma. Acontece que «Juha» é igualmente um filme muito belo. Em «Juha» pressente-se uma espécie de método cartesiano adaptado ao cinema. Ou seja, nele existe um assumido esquecimento e abalroamento de quanto o cinema evoluiu tecnicamente para que a partir de um novo e primário estado pudesse operar-se a reconstrução deste sem os vícios entretanto adquiridos e ressuscitando em nós um perdido encantamento das histórias contadas na tela grande. «Juha» é também um filme de referências. Referências que vão de Godard a Dovjenko, de Renoir a Buñuel. É o próprio Kaurismäki quem o revela. E porque essas referências são facilmente detectáveis perde importância a outra revelação de Kaurismäki quando confessa gostar muito de mentir. Mas nada disso importa, sequer a mentira a existir. Porque este filme tem um efeito psicologicamente libertador sobre o espectador. Mesmo que nele se trilhem caminhos ligados à mentira e à traição, é de verdade que ele nos fala. De uma verdade cuja restituição vale a morte de um homem. E o filme vale pela sua simplicidade humana extraída da complexidade da trama que lhe dá vida. E há que o referir: se o cinema é a 7ª arte é muito por motivo de filmes como este «Juha» que esse estatuto outrora foi alcançado. Pela sua intemporalidade, pela irrepreensível e absolutamente espantosa direcção de actores. Desde a expressão corporal mais simples até ao rigor com que a identidade social de cada uma das (três) personagens foi defendida. Acrescente-se que a utilização da banda sonora alcança nesta obra uma invulgar sintonia com a acção desenvolvida. Como se fosse a música a ditar os comportamentos e não os comportamentos a sugerirem a escolha dos temas e dos registos. Registos que vão desde a música popular à música clássica sem esquecer a música moderna.
     
      Em suma, «Juha» é um daqueles filmes que muitas vezes procuramos mas quase nunca acreditamos encontrar. É um filme onde ao vê-lo nos deixamos ir como se enlevados na surpresa e pela grandiosidade dos seus ímpetos. Ímpetos de dramatismo, esclareça-se. De tal forma assim é que a páginas tantas sentimo-nos viajar. Sentimos que partimos para um qualquer lugar sem dele pensarmos em voltar. E existe a convicção de que as opções conceptuais em termos visuais e sonoros nunca se configuram numa obsessiva formalidade ou, dito de outra forma, como se alguma vez fossem resultado de um qualquer assomo repentino de pretensiosismo autoral por parte do seu realizador. Antes se adivinha nessas opções uma lógica de amor pelo trabalho artesanal e, aí sim, reconheça-se, um certo desprezo pela industrialização de uma arte. Industrialização do cinema, claro. E «Juha» é uma fantástica experiência de cinema. Socorrendo-me de forma livre da letra de uma música que me diz muito, a quem o assistir “espera-o ondas que persistem, que nunca param de bater, esperam-no homens que resistem... antes de morrer”.*


         * «Capitão Romance», Ornatos Violeta



domingo, 9 de janeiro de 2011

O Preço da Traição


 



O dinheiro não paga o amor

Catherine [Julianne Moore], ginecologista, mãe, esposa, desconfia que o seu marido, David [Liam Neeson], professor de profissão, a engana com qualquer jovem que se atravessa no seu caminho. Para obter provas irrefutáveis da infidelidade de David, Catherinne contrata Chloe [Amanda Seyfried], uma jovem prostituta de luxo, a quem incube de seduzir o marido. «Chloe», título original do filme do egípcio Atom Egoyan, é o ‘remake’ do francês «Nathalie X» [2003], dirigido por Anne Fontaine.
Num filme com estas premissas, supõe-se desde logo que três elementos se tornem fundamentais e adensem uma narrativa que visa prender o espectador não apenas pela razão mas sobretudo pela emoção: a suspeita, os jogos de sedução e o engano. Nada mau, diria, mas o que, de facto, Egoyan acaba por não conseguir confirmar por inteiro transformando o que deveria ser um ‘thriller’ erótico num drama psicológico. E pese a génese desta história residir na insegurança de uma mulher ao ver aparecerem-lhe na pele as primeiras rugas, o que de melhor o filme oferece acaba por ser o duelo de sedução entre essa mesma mulher [Moore], belíssima, de cinquenta anos, que mantém intactos todos os seus atributos físicos e a beleza voluptuosa de uma outra mulher [Seyfried] no auge da sua juventude e na posse de todos aqueles predicados físicos que enlouquecem os homens. E algumas mulheres.
Assim, «O Preço da Traição» acaba por ser um filme agradável, que se vai apurando em lume brando e se saboreia com menos gosto que aquilo que os olhos prometem. Ainda assim, fica mais uma vez a certeza de que o mundo – e o ser humano – vive à beira de um ataque de nervos, ou, como o filme demonstra, vivemos numa época em que cada vez é mais difícil confiar na sanidade mental de muitos daqueles que nos rodeiam.

«O Preço da Traição», de Atom Egoyan, com Julliane Moore, Liam Neeson e Amanda Seyfried

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Gran Torino






A ausência dói



Em «Gran Torino», esse extraordinário filme de 2008 realizado por Clint Eastwood, a personagem central da trama, Walt Kowalski (protagonizado pelo próprio Eastwood), é um homem só que vê a sua mulher morrer enquanto os seus amigos ou morreram também ou se mudaram para outros locais da cidade. Entretanto, vê o seu bairro habitado na sua esmagadora maioria pelo povo Hmong, uma etnia oriunda do sudeste asiático.

Como grande realizador de cinema que é, em «Gran Torino» Eastwood consegue fazer ainda a ponte entre os conflitos interiores de um homem de alma atormentada e uma sociedade doente. E através de uma realização segura e de uma interpretação verdadeiramente antológica, Eastwood e o seu filme elevam-se a uma categoria superior onde coexistem o drama mais intenso e profundo com cenas de sentido humor.

A nostalgia de outros tempos e um certo impasse vivencial tornam-se elementos fundamentais de uma história onde a expectativa do fim de uma vida já sem grandes estímulos e o apelo da solidariedade se fundem num objectivo comum. E é na consolidação desse  objectivo que o filme de Eastwood se torna perfeito e absolutamente imperdível na história de um homem que encontra a redenção de um modo tão altruísta quanto dramático. E no final do filme talvez sejamos levados a concluir que a perfeição de «Gran Torino» só é possível em contraste com a eterna imperfeição do mundo em que vivemos e naquilo em que o transformámos.

Gran Torino, de e com Clint Eastwood