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segunda-feira, 23 de abril de 2012

assim assim





Do tudo e do nada

Onde começa e onde acaba «assim assim»? No ser-humano e nas relações, dir-se-ia. Mas não. De facto, num filme que começou por ser uma curta-metragem parece-me que para sua própria elevação por lá devia ter ficado. Sem um fio condutor que ligue o mosaico de histórias [?] que por lá se cruzam, sem sabermos de onde vêm e para onde se dirigem as personagens e o que as motiva, com conversas longas e maçadoras que destilam uma ideia estereotipada e simplista das ligações amorosas e das pessoas, «assim assim» é ainda um filme confuso que quer chegar a todo o lado mas acaba por não chegar a lado algum. Ficam a boa prestação de alguns membros do elenco [a curta aparição de Rita Blanco, por exemplo, mesmo que também eles andem meio perdidos entre bilhetes postais na noite lisboeta] e a falhada boa intenção do realizador Sérgio Graciano de fazer um filme de pessoas para as pessoas, ou seja, para o público em geral. Mas soube a pouco, muito pouco, quase nada.

«assim assim», de Sérgio Graciano



domingo, 15 de abril de 2012

Três






Filosofia alternativa do amor

 

«Três» poderia ser um drama intimista tão interessante quanto estimulante narrando de forma pouco convencional as venturas e desventuras de um triângulo amoroso não tão clássico assim. Desde logo porque se trata da história de um casal que no ano de festejar vinte anos sobre a sua união se apaixona, ele e ela, pelo mesmo homem. E dito isto está também contada a sinopse de um filme realizado por Tom Tykwer, o mesmo de «Corre, Lola,   Corre» [1998] e de «O Perfume- História de Um Assassino» [2006] entre outros. E poderia mesmo.  Até porque há no filme aquele realismo mágico das personagens que tantas vezes é característica exclusiva de algum cinema europeu. Poderia, disse bem, porque, na minha opinião, não é.
E não o é porque a realização de Tykwer, ele que é igualmente responsável pelo argumento, quis explicar em 119 minutos todas as questões ligadas à doença, à velhice e ao amor. E isto para não ser demasiado exaustivo. Assim, passa pelo filme uma panóplia infindável de referências filosóficas, incursões à poesia existencialista, às ciências biomédicas, à medicina e grande diversidade de manifestações culturais. Se juntarmos a isto a informação de que os protagonistas do triângulo amoroso são uma jornalista de televisão especializada em matéria científica [Hanna, a mulher], um cientista genético perito em inseminação artificial [Adam, o amante do casal] e um engenheiro de arte [Simon, o companheiro de Hanna], seja lá o que isso da engenharia de arte for, está tudo dito quanto às pretensões de eruditismo do filme. Mas o que resulta daqui é unicamente uma exposição de ornamentos inúteis numa história de vidas que se bastaria a ela mesma para redundar num grande momento de cinema.
Ainda assim, o filme tem algumas vertentes bem positivas sobretudo no tratamento que faz das personagens. Nomeadamente na subtileza com que faz o enquadramento de cada uma nas questões ligadas à sua sexualidade. A par disso, a realização de Tykwer faz com que essas mesmas personagens se passeiem pelos restaurantes, bares e ruas de Berlim atribuindo um estatuto cinematográfico à capital alemã como tantas vezes vimos fazer com Nova Iorque [através de Woody Allen, por exemplo] ou Paris, por diversos cineastas. E nesta 2ª adolescência que Tykwer permite aos quarentões Hanna, Simon e Adam é de salientar a insistência nos ângulos anatómicos de cada um, nomeadamente na coragem de Sophie Rois [ela que interpreta Hanna]. A amenizar os ouvidos um pouco arranhados pela difícil língua alemã há a meio do filme o soar de «Space Odity», de David Bowie, e, no final, um desenlace pouco surpreendente e algo insípido já que parece ter sido feito a pedido de várias famílias. A ver sem grandes expectativas.


«Drei», de Tom Tykwer, com Sophie Rois [Hanna], Sebastian Schipper [Simon] e Devid Striesow [Adam]



sábado, 7 de abril de 2012

Florbela





Existência inquieta


Não estará completamente distante da realidade quem acredite que a melhor poesia, aquela que nos impulsiona e rasga a alma, vem também ela de uma outra alma inquieta, de alguém em constante desassossego, de uma mulher ou de um homem em permanente conflito com a sua existência e aquilo que a rodeia. «Florbela», de Vicente Alves do Ó, esqueceu-se deliberadamente da literatura, da poesia, para se centrar nessa mulher assombrada e desencantada que ainda assim buscou avidamente a vida até que não obteve a morte. Não se poderá dizer que a ideia tenha resultado totalmente porque se não fosse a sua poesia emancipada e tão próxima do abismo como o foi a mulher, Florbela Espanca teria morrido na obscuridade de uma época onde os convencionalismos de uma sociedade castradora e controladora não permitiam veleidades de maior às mulheres, quanto mais a uma poetisa muito à frente do seu tempo.

Mas Florbela, tentando driblar a sua desdita, ainda procurou a inserção. Já casada com um médico de Matosinhos [protagonizado por Albano Jerónimo] terá então dito que o mundo já tinha dela aquilo que pretendia: era então uma mulher casada, honrada e, acima de tudo, discreta. Pobre mundo que a tanto obrigas, pobre Florbela Espanca que tinha de se negar a si própria para ser aceite pelos outros. Mas, inevitavelmente, esse seria o princípio do fim para a mulher que já denotava através da pulsão da sua poesia uma irresistível atracção pela morte. Porque como cantou outra desditosa mulher precocemente falecida cerca de um século depois da sua própria morte, para Florbela o amor foi sempre um jogo perdido. Como a vida perdida do irmão Apeles [corporizado por Ivo Canelas] afogando-se, ele e o avião com que procurava tirar os pés da terra e abraçar o sonho, nas águas frias do Tejo. O Tejo que não terá lavado as mágoas da poetisa que foi acometida de uma tristeza que não mais soube ultrapassar. Era então uma Florbela dividida entre o amor sereno e de pés bem no chão do marido de Matosinhos e a loucura apaixonada e apaixonante do irmão. Este que não pertencia a lugar algum em particular mas a todos os lugares onde pudesse assentar a fúria de viver com que procurava driblar o fogo da paixão que lhe consumia as entranhas.

Com nota positiva para o guarda-roupa, os cuidados na reconstituição da época e para o restante elenco, é no entanto imperioso realçar que Dalila Carmo está soberba no papel de Florbela. Aliás, é tanto e tão aflitivo o desespero no seu rosto e, noutra vertente da sua personalidade instável, a ânsia pelo infinito que o seu olhar denuncia que se por um qualquer sortilégio encontrasse a actriz algures numa rua de Vila Viçosa ou de Lisboa teria direito eu mesmo à minha própria assombração da poetisa. E aí talvez não resistisse a dizer-lhe como nós, os homens, fazemos a vida difícil aos vivos mas tratamos tão bem dos mortos. Se não, vejamos: a sua obra foi quase totalmente editada a título póstumo, depois da sua morte a poetisa virou quase mito e os seus poemas são cantados por vozes importantes e até já se converteram em sucesso de vendas [«Ser Poeta», pelos Trovante]. Para culminar, surge agora «Florbela», o filme. Quanto a Vicente Alves do Ó, o dedicado realizador de Florbela, terá cumprido o seu maior e mais importante objectivo. Melhor do seu trabalho não haverá para dizer já que a realização de Vicente do Ó demonstrou que ‘ser poeta é ter cá dentro um astro que flameja (…) é amar-te assim perdidamente, é seres alma e sangue e vida em mim’. E porque foi precisamente assim que viveu e morreu Flor Bela de Alma da Conceição Espanca, a poetisa Florbela Espanca, vale a pena ver «Florbela».



«Florbela» de Vicente Alves do Ó, com Dalila Carmo, Albano Jerónimo e Ivo Canelas


domingo, 29 de janeiro de 2012

Os Descendentes

 





A Viagem de Clooney

Alexander Payne filma a faceta mais genuína da América através das personagens dos seus filmes em busca do auto-conhecimento que as levará a um ponto sem retorno. Foi assim em «About Schmidt» [2002] e em «Sideways» [2004] e é assim em «Os Descendentes» [2011] com o advogado Matt King [um George Clooney humilde e fantástico] na recuperação do que lhe resta da família e na raiva que o amor também proporciona sem o negar. Com este filme, Payne demonstra ainda que a vida não é uma comédia mas o riso é um escape do ser humano para os dramas que esta lhe proporciona. E na raiva que sente, emocionado Clooney despede-se da mulher com um «meu amor, minha vida, minha dor» que descreve na perfeição o quanto sofre e ama. Filme a não perder, história de vida a reter.

«The Descendants», de Alexander Payne, com George Clooney



 

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Drive - Risco Duplo





Um actor, uma banda sonora, uma realização, um filme de culto

«Drive», do dinamarquês Nicolas Winding Refn, é um exercício de estilo fantástico, é um hino ao lirismo visual, é nostalgia do início ao fim. «Drive» tem uma das mais fantásticas bandas sonoras dos últimos tempos no cinema americano, tem planos aéreos sobre Los Angeles, perseguições nas suas ruas míticas, tem amor, sacrifício, sensibilidade, violência, lealdade, traição, paixão e morte.
«Drive – Risco Duplo» tem ainda um Ryan Gosling absolutamente fenomenal. Ele é a imagem do anti-herói, do ser humano desenraizado da sociedade que o ladeia, é o homem mais sensível e o mais duro, é uma espécie de cow-boy solitário que conduz como ninguém uma máquina de muitos cavalos, é o lutador silencioso.
Porque a vida nem sempre é como a queremos viver e é possível o sacrifício por amor, porque o rosto sereno e aparentemente tranquilo de um homem pode esconder o âmago mais inquieto e as aparências iludem, porque a vida tem que ser vivida ainda que estranhemos os labirintos para que ela nos empurra e perante esse fatalismo a redenção pode significar perda e sofrimento vale a pena ver este filme.
E sobre «Drive» não lerão nem mais uma palavra escrita por mim. A não ser confirmar que o cinema é arte e uma máquina de fabricar emoções absolutamente fantástica e arrebatadora.

«Drive», de Nicolas Winding Refn, com Ryan Gosling e Carey Mulligan

sábado, 3 de dezembro de 2011

Melancolia






O apocalipse segundo Lars von Trier, Capítulo Terceiro

Cada vez que se fala de Lars von Trier é inevitável falar-se de Dogma 95 e da forma como, em parceria com Thomas Vinterberg, o realizador dinamarquês buscou uma nova reinvenção do cinema a partir exactamente das suas bases negando toda a nova tecnologia associada. No entanto, é inútil manter este discurso já que a depressão em que caiu o próprio Lars von Trier se estendeu ao seu cinema de uma forma que chega a ser penosa para o espectador. Foi assim com «Dogville» [2003], o mesmo se passou com «Anticristo» [2009] e acontece agora com este «Melancolia» [2011]. De facto, o mais recente filme do homem que nos deu, entre outros, «Ondas de Paixão» [1996] e «Dancer in the Dark» [2000] não passa de um exercício inútil de querer pensar as pessoas, a sociedade e o próprio mundo através de um cenário apocalíptico que arrasa tudo sem deixar rasto de nada. A acumular, o facto de muito pouco do que contem esta visão negativista de Lars von Trier da realidade que o rodeia constituir qualquer novidade para os amantes de cinema. Talvez a descoberta de um novo planeta no firmamento.
O filme até possui um elenco invejável onde pontificam Kirsten Dunst, a mulher que no filme personifica um estado tal de depressão que não só seca tudo à sua volta como é inútil qualquer antídoto que vise a sua cura, Charlotte Gainsbourg e Kiefer Sutherland a par de nomes incontornáveis da representação como Charlotte Rampling, John Hurt e Stellan Skarsgärd. Mas em vez de dar credibilidade a «Melancolia» este pormenor do casting só acarreta uma carga negativa ainda maior já que defendendo personagens sem qualquer espessura dramática, na maior parte dos casos, e de um dramatismo exagerado ou desfasado, noutros casos, faz com que os actores acabem por se afundar com o filme enquanto o espectador vai procurando inutilmente uma ponta de racionalidade onde os critérios lógicos são inexistentes. Dir-se-á que essa pode ser uma característica das grandes obras de arte mas eu acredito que em cinema a discussão não pode nunca ser apenas a qualidade ou não do filme em si mas sim o que este debate. E a par da questão ligada à razão, a emoção não só necessita ser posta à prova como a narrativa deve conter atributos que prendam o espectador à tela. E para mim nada disso acontece em «Melancholia» que é, afinal, um planeta que vem destruir outro planeta, o nosso.
Por tudo isto, é também quase uma fatalidade comparar-se esta obra a «A Árvore da Vida», de Terrence Malick. E aí, pese a excelente música de Richard Wagner em «Melancolia», há toda uma dimensão poética e filosófica aliada a uma certa serenidade ligada à própria concepção do filme que abafa completamente este estado anímico depressivo em que (sobre)vive o cinema do tal realizador que um dia criou um movimento chamado Dogma 95: luz natural, câmara às costas, ausência de efeitos especiais e amor pelo cinema. Velhos tempos, águas passadas, há que o dizer.

«Melancholia», de Lars von Trier, com Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg e Kiefer Sutherland

domingo, 27 de novembro de 2011

Nos Idos de Março






A oeste nada de novo

«Nos Idos de Março» podia ser um filme sobre políticos corruptos. Ou sobre como se joga sujo nos bastidores da política a alto nível e de como é tão fácil para gente que se propõe representar o povo cair em tentação ou mesmo trair sem pestanejar. Mas não, o novo filme do multifacetado George Clooney, aqui no papel de realizador, é, como o próprio afirma, um testamento sobre a moralidade em sentido mais generalista. E é fácil concordar com Clooney neste aspecto particular, porque o que acontece na campanha das primárias do Partido Democrata para encontrar um candidato do partido às eleições para Presidente dos Estados Unidos da América, não é diferente daquilo que acontece no nosso dia-a-dia, nas empresas, nas escolas, ou seja, na vida das pessoas. A diferença é que de um político com evidentes responsabilidades, e também daqueles que o rodeiam, se espera que os seus comportamentos sejam pautados por uma moral que deveria ser inquestionável. Mas isso, não sejamos ingénuos, é coisa em que muito poucos já acreditam. E sendo assim, o que de facto fica em risco? Algo que foi tão difícil de conquistar e temo se esteja a esgotar: a própria democracia, o que é trágico.
Ryan Gosling, um dos actores do momento, interpreta o papel de um idealista director de comunicação da campanha do Governador da Pensylvania [Clooney]. Mas isso, o idealismo do rapaz, é só até que perceba que vale tudo menos tirar olhos no mundo em que se move. E perante isto faz a opção que ninguém desejaria mas que sabemos ser a mais fácil, isto é, vai lutar sem clemência com as mesmas armas dos seus adversários. Ou supostos companheiros. A partir daqui o filme foge à solenidade com que vinha a reger-se, a intriga adensa-se e aquilo que julgávamos até então ser um filme sobre a alta política descamba para o ‘thriller’ comum. O problema deste «The Ides of March», título que alude ao assassinato de Júlio César a 15 de Março de 44 A.C., é que o cinismo é tão bem assumido e a traição tão impiedosamente arquitectada que, tal como na rábula do pobre que desconfia de esmola em demasia, o espectador começa a ficar descrente. E a perceber que afinal está numa sala de cinema, despertando assim do torpor relativo à realidade que é suposto o cinema transmitir. E neste ponto reafirmo uma suspeita minha de quase sempre: a de que mais uma vez funcionam contra os filmes as adaptações de peças de teatro. Digo isto porque há no teatro uma pompa interpretativa ligada ao texto e um certo tipo de rigor de cenários dos quais o cinema dificilmente consegue libertar-se.
O que não é de modo algum negociável, é a riqueza do elenco onde pontificam para além de Gosling e de Clooney nomes como Paul Giamatti, Philip Seymour Hoffman e Marisa Tomei. Apesar disso, e das excelentes interpretações com que nos brindam, mesmo que personalizado por gente tão grande já não é novidade para ninguém a amoralidade com que se fabricam governos. E ao mesmo tempo, a indiferença com que os cidadãos olham para os políticos resignando-se ao que julgam ser uma inevitabilidade. De facto, seja num comício em Cincinnati, Ohio, ou em Vale de Estacas, Santarém, o princípio é o mesmo: criar uma imagem de honra e sentido de dever que todos sabem que mesmo que depois de eleitos o tentassem jamais o conseguiriam pôr em prática. E o porquê disto é simples mas dramático, repito. Porque a democracia soçobrou perante a ditadura do poder económico e financeiro. E é apenas isso que «Nos Idos de Março» nos repete até à exaustão acrescentando muito pouco ao que já sabemos. Mas sendo cinema, acredito que acrescenta alguma espectacularidade, uma maior fotogenia e elegância em contraponto à boçalidade que diariamente nos entra casa dentro através dos políticos que temos.

«In The Ides of March», de George Clooney, com Ryan Gosling, George Clooney, Paul Giamatti, Philip Seymour Hoffman, Evan Rachel Wood e Marisa Tomei


sábado, 26 de novembro de 2011

Um Método Perigoso






Apenas diferentes entre iguais

Evitemos ir ao engano, «Um Método Perigoso», o mais recente filme de David Cronenberg, não é um filme para todos. E não o é sobretudo devido à sua fonte de inspiração, o teatro. Mas já lá vamos porque antes há que esclarecer que dizer isto não é dizer mal da realização de um dos maiores cineastas da actualidade, pelo contrário. De facto, «A Dangerous Method», no seu título original, é formalmente irrepreensível e vive de uma dialéctica incessante mas é de uma complexidade intelectual que pode desarmar os menos interessados pelo seu tema de fundo. E qual é a temática do filme que aborda vagamente a relação entre Sigmund Freud e Carl Jung, pais da psicanálise, para se centrar na paixão deste último pela sua belíssima paciente Sabina Spielrein? Indubitavelmente é o labirinto que constitui a mente humana. Em primeira análise a importância da componente psicológica no comportamento social de cada um de nós, homens e mulheres, mas principalmente o peso da questão sexual nas perturbações da mente.
É sabido que a filmografia de David Cronenberg sempre teve uma carga sexual e visceral intensa e o mesmo sucede com este «Um Método Perigoso». Embora, neste filme, seja de realçar a aproximação a um cinema mais convencional que o habitual nos trabalhos anteriores do canadiano. Ainda assim, confirma-se que paixão e morte, sexo, família, alienação e desvios comportamentais estão lá. Principalmente através da doente autodestrutiva e objecto de desejo que é a personagem de Keira Knightley [Spielrein], do impagável e dramático de uma forma assaz cativante Vincent Cassel [na personagem de Otto Gross] e do homem bom e médico brilhante Carl Jung [interpretado por Michael Fassbender] já que Sigmund Freud [por Viggo Mortensen] vive num patamar acima. Ele é o médico defensor da sua tese como tendo uma base científica, é o homem seguro de si, o pensador erroneamente dogmático, o intelectual convencido e convincente.
Sendo um filme sobre a criação da psicanálise no tratamento de doentes mentais, «Um Método Perigoso» é igualmente a história de um amor intenso, de duas almas gémeas que têm a felicidade de se encontrar, mas, desafortunadamente, de se perderem uma para a outra e, a partir deste dado, da forma como cada um dos amantes vai tentar sobreviver ao fracasso desse amor sem nunca desistir da sua paixão. Paixão arrebatadora que os acompanhará para sempre. E aqui mais uma vez a ética se impõe ao desejo dos corpos e um discutível sentido de dever à avassaladora vontade das almas em desespero. Mas se alguma coisa Cronenberg acrescenta àquilo que foram as vidas de homens tão fundamentais para o progresso da humanidade, é a de evidenciar que mais sedutor que perceber quais as complicações que levaram à doença psicológica só mesmo a sagacidade mental de quem não pretende curar obrigando o doente a comportar-se através daquilo que o mundo espera dele, mas antes dar-lhe a perceber que apesar da sua aparente imperfeição há um lugar para si no mundo. E isso nunca através de um rótulo de anormalidade mas sim de aceitação da diferença.
Excelentes as interpretações de Mortensen e de Fassbender, um tudo-nada burlesca a de Keira Knightley. Já Vincent Cassel volta a roçar a perfeição nos poucos minutos em que se passeia pela tela.
A não perder. Sabendo ao que se vai.


«A Dangerous Method», de David Cronenberg, com Michael Fassbender, Keira Knightley, Viggo Mortensen e Vincent Cassel

domingo, 2 de outubro de 2011

A Casa dos Sonhos


 








Dream House, um filme que assusta mas não é de terror

Jim Sheridan não tem a desenvoltura criativa de um Christopher Nolan, é certo, nem Daniel Craig a espessura dramática de, por exemplo, Sean Penn. Mas o facto é que ambos contribuíram para um filme surpreendente, «A Casa dos Sonhos». Por outro lado, este filme não é de terror clássico como aparenta, é, quando muito, sobre o terror que invade a mente humana e a molda sob um escudo protector. E se há filmes cujo ‘trailer’ e promoção jogam contra si, é o caso deste «Dream House». Atrevam-se, não percam este filme. E não, as razões para que não o percam não se prendem apenas com as presenças da belíssima Rachel Weisz ou da sempre sedutora Naomi Watts.



Dream House, de Jim Sheridan, com Daniel Craig, Rachel Weisz e Naomi Watts





segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Meia-noite em Paris, de Woody Allen






Woody Allen, o poeta

Existe em mim uma nostalgia, a de na minha juventude desejar ser escritor, ser um idealista e sonhador. Deliciava-me com a música romântica e atrevida de Cole Porter, a vida de sonho de Ernest Hemingway, perdia-me na complexidade cognitiva da pintura de Salvador Dali, adormecia nos braços de mulheres belíssimas como Marion Cotillard. Paris era para mim a cidade dos mil e um encantos e encontrava nos invernosos dias de chuva a inspiração para os meus devaneios. De facto, sei-o agora, eu sempre quis ser um Owen Wilson. Ou melhor, a sua personagem de um filme de Woody Allen, um Gil Pender de «Meia-noite em Paris», vagueando pela anoitecer da cosmopolita cidade francesa, percorrendo as esquinas do tempo ao encontro de alguns dos maiores ícones da cultura ocidental que sempre me inspiraram. E, no final, dar um passeio à chuva de mão dada com uma mulher, aquela mulher, a tal mulher, a que todos os homens procuram mas apenas alguns têm a felicidade de encontrar.
«Midnight in Paris», no seu título original, marca o regresso em grande estilo do génio de Woody Allen num argumento brilhante, numa fotografia esplêndida recheada de personagens radiosas deste e de outros tempos, personagens da nossa história, vultos de sempre. No seu périplo nocturno, desencontrado de Inez [Rachel McAdams], a sua noiva fútil e tristemente presa à banalidade, Gil [Owen Wilson] irá deparar nos anos vinte com um Hemingway [Corey Stoll] excêntrico, aventureiro e brigão, com uma suicida Zelda Fitzgerald [Alison Pill] perante as aventuras de Scott Fitzgerald [Tom Hiddleston] e ao som de «Let’s  do It», interpretado ao piano por Cole Porter. Encontrar-se-á ainda com a extravagância de Dali [um excelente e cómico Adrien Brody] ou a inconstância de Picasso [Marcial Di Fonzo Bo]. E pela mão de Adriana [Marion Cotillard], viajará até à Belle Époque de Toulouse-Lautrec, Degas e Gauguin. Entretanto, será ouvinte atento de uma guia de museu interpretada por Carla Bruni.
De facto, há que não ter receio de dizê-lo, «Meia-noite em Paris» é apenas um pequeno filme. Mas um pequeno filme que se vai agigantando em nós porquanto cremos nas potencialidades do sonho, na validade de perseguirmos a nossa felicidade sem medo de cortar amarras e quebrar regras. E ao dizer isto quero reafirmar que o mais recente dos quase cinquenta filmes do genial realizador nova-iorquino é afinal um delicioso poema, uma homenagem à vida e àqueles seres humanos grandiosos que a enalteceram e deram novos mundos ao mundo com o seu talento, a sua arte, a sua visão. E tal como eles, Woody Allen tem-no conseguido fazer. Através da sua vocação artística, o cinema, é facto, mas também pela sua vida como o demonstra a fé que teve no amor sem pensar nos obstáculos que teria de ultrapassar. Quanto a Owen Wilson, esta é apenas e só a sua melhor interpretação de sempre no cinema. E sim, Wilson fez por merecer aquela deliciosa companhia final que teve num passeio à chuva pelas ruas de Paris. Paris a cidade das luzes, a urbe eterna e romântica, a capital dos sonhos e do amor cuja essência a câmara de Allen tão bem soube captar.


«Midnight in Paris», de Woody Allen, com Owen Wilson, Rachel McAdams, Marion Cotillard, Adrien Brody, Kathy Bates, outros



terça-feira, 30 de agosto de 2011

Cowboys e Aliens






O Cowboy, a bela e os ET garimpeiros

Que se erga radiante quem protestou contra o fim do western clássico, ele está de regresso. Estamos em 1873, um homem ergue-se no solo de areia tórrida do deserto do Arizona, os traços secos e bem vincados do indivíduo só rodeado de abutres fazem lembrar vagamente o rosto de James Bond. No braço ostenta uma poderosa pulseira provavelmente demasiado avant-garde para o seu tempo, no olhar firme percebe-se a determinação dos homens que não temem a violência, daqueles que fazem da coragem um estilo de vida e têm da honra uma definição muito peculiar.
Ele é Daniel Craig a quem se junta Harrison Ford ambos numa luta à partida desigual contra um gang de alienígenas garimpeiros, o primeiro em busca da memória perdida e o segundo do filho desaparecido. Entretanto, Jon Favreau [o homem que patenteou «Iron Man»] realiza com desenvoltura e alguma elegância um filme de cowboys, índios e seres de outro planeta respeitando escrupulosamente as regras do western. E como se a prová-lo, no final o herói verá fecharem-se atrás de si as portadas do velho saloon e  partirá solitário desafiando o desconhecido sob um Sol inclemente de tão abrasador. Na garganta ainda arde o Whisky duplo bebido de um só trago e no peito carrega o fogo aceso pelo sorriso celestial de Olivia Wilde.


«Cowboys e Aliens», de Jon Favreau, com Daniel Craig, Olivia Wilde e Harrison Ford


segunda-feira, 25 de julho de 2011

Stanley Kubrick na Cinemateca





DE OLHOS BEM FECHADOS
[Cinemateca, 4ª feira, dia 27 pelas 21.30 horas]



A prova final da genialidade do mestre, da genialidade de Stanley Kubrick

   
Ao longo da sua carreira de realizador de cinema, Stanley Kubrick revelou ser um profundo conhecedor da natureza humana. E em «Eyes Wide Shut», cujo argumento foi co-autor, mais do que construir uma narrativa a partir da realidade buscada na sua forma mais marginal, ou de pesadelos como alternativa à impossibilidade prática de quebrar as regras, o seu conhecido perfeccionismo que o levava a repetir ‘takes’ até à exaustão de técnicos e actores, está patente sobretudo num conjunto de diálogos intensíssimos onde cada simples palavra é não só fundamental como imprescindível para que a ‘mensagem’ passasse para o lado de cá da tela. Mas este é apenas um dos destaques de um filme maior que deu outro relevo a um género cinematográfico já de si de uma riqueza considerável dada a vastidão de obras-primas nele contido, o drama psicológico.

Toda a trama gira em volta de situações pertencentes ao imaginário das personagens, ou na sua forma tentada, e o que se observa é que aquilo que na realidade nunca chega a acontecer provoca ainda assim a explosão e o abalo emocional que levam a que um casal necessite expulsar os seus fantasmas para poder seguir em frente. Como génio que foi, é importante que se tente perceber de que se rodeou o realizador para esta espécie de aproximação a Freud. Neste âmbito, atente-se como a banda sonora do filme é simplesmente fantástica na forma de acompanhar o desenlace psicológico das diversas cenas, estimulando por vezes a união dos corpos, sendo de alguma sacralidade noutros momentos e servindo-se do som enérgico das teclas de um piano martelando quase sempre as mentes perturbadas. Os ambientes escolhidos são faustosos e de indiscutível bom gosto e, noutra vertente,a construção do perfil psicológico de cada personagem foi levada ao extremo. Desde o anónimo pianista de serões pela madrugada dentro até ao simples recepcionista de hotel, passando pelas prostitutas que povoam a grande mansão onde tem lugar uma das cenas fulcrais do filme. 


Em termos do ‘cast’, para o par nuclear da trama Kubrick escolheu dois actores no auge do seu mediatismo que formavam então um casal na vida real. E Tom Cruise e Nicole Kidman mostraram-se à altura da tarefa que o mestre-de-cerimónias lhes destinou, brindando-o com duas representações memoráveis muito bem secundados pelo também já precocemente falecido Sidney Pollack. Ele que talvez tivesse embarcado aqui numa busca de aprendizagem para aquela que foi a sua mais conhecida faceta, a de realizador. Mas se tudo é extremamente perfeito no filme não nos admiremos por em momento algum, gostemos ou não daquilo a que assistimos, nos seja dada a oportunidade de pensarmos que este ou aquele pormenor poderia ter sido mudado para outra coisa qualquer.

Em suma, «Eyes Wide Shut» é uma obra-prima do cinema, a derradeira de Stanley Kubrick, o mestre, ele que já não pôde assistir à estreia do seu filme.



«Eyes Wide Shut», de Stanley Kubrick, com Tom Cruise e Nicole Kidman

sábado, 23 de julho de 2011

Rumo à Liberdade




À conquista da vida

Num campo de refugiados na Sibéria, 1941, vivem-se os horrores da guerra e o resultado da carnificina operada pelo jugo estalinista. Um grupo de homens liderado pelo polaco Janusz [Jim Sturgess] e pelo americano Smith [Ed Harris] com o russo Valka [Colin Farrell] pelo meio, decide fugir e encetar um penoso caminho rumo à liberdade. O objectivo é chegar a Índia mas para isso terão que enfrentar a fome, o frio e o calor tórrido do deserto. As tempestades de gelo na rigorosa Sibéria, o deserto de Gobi e as cordilheiras dos Himalaias são apenas parte dos obstáculos que terão que ultrapassar.
Diga-se que a credibilidade da história que este filme traz até nós só é possível por esta se ter baseado numa história verídica contida nas memórias do polaco Slavomir Rawicz, um livro que entre nós recebeu o título de «A Longa Caminhada». Realizado por Peter Weir, que volta a filmar a grandiosidade dos espaços abertos enquadrando o homem na sua pequenez perante a natureza implacável, o filme mostra isso mesmo: uma história quase inacreditável de sobrevivência onde a força do espírito e da coragem humanos desafia os seus próprios limites.
A realização de Weir apenas espaçadamente recorre à emoção com o objectivo de não colocar minimamente em causa a factualidade dos acontecimentos e raramente apela às transições como forma de prender o espectador à tela. Mas na dolorosa agonia destes homens que pelo caminho tentam socorrer a bonita e jovem Irena [Saoirse Ronan], há uma história de heróis e um enorme hino à vida. Para eles não há sequer estradas sem fim, apenas florestas perdidas e extensões ora geladas ora áridas. E para parte do grupo o que irá restar é somente uma viagem ao fim das suas vidas, uma passagem lancinante para o outro lado do espelho. Mas nesta unidade destruída de um grupo de heróis, felizmente que alguns sobreviveram possibilitando dar a conhecer ao mundo o seu inigualável feito. E o filme de Weir respeita essa grandeza pungente. E para quem tivesse dúvidas, fica exposto mais um claro exemplo de que Estaline não foi mais que um outro Hitler que de diferente do original apenas tinha a cobarde falsidade da sua propaganda política.

«The Way Back», de Peter Weir, com Jim Sturgess, Colin Farrell, Ed Harris e Saoirse Ronan

sexta-feira, 22 de julho de 2011

A Árvore da Vida





O Reluzente Planetário da Vida



Escrever um texto sobre «A Árvore da Vida», a mais recente obra-prima de Terrence Malick, é deixar que os caracteres formem em palavras, frases e ideias uma definição de nós mesmos. De nós como pessoas inseridas numa sociedade mais vasta que aquela que convive connosco mas sobretudo como seres humanos que pensam, sentem e se projectam para lá daquilo que nos rodeia. «The Tree of Life» vive muito dos seus extraordinários efeitos visuais, tem vulcões em actividade, chuva de lava e apenas chuva, tem nuvens nos céus e um Sol que os domina. Em suma, num processo narrativo inigualável, Terrence Malick mostra-nos a história do Universo que habitamos desde os bosques frondosos por onde correm rios e dinossauros a representarem a cadeia da vida, até às visões celestiais que indiciam caber apenas no domínio da fé, daqueles que acreditam. Mas a natureza, essa, é eternamente viva. E nós, os homens e mulheres, somos parte integrante dessa natureza. E se é certo que a influenciamos não menos certo é que somos irremediavelmente influenciados por ela. Desde o dia em que nascemos até àquele em que morremos.
Malick não é um realizador vulgar. Quase não aparece em público e realizou agora o seu quinto filme em quarenta anos. Todos eles imprescindíveis. E os seus temas mantêm-se coerentes e actuais na confrontação entre o sagrado e o profano, entre a fé e os factos, questionando-se sobre o mundo e a nossa própria existência nesse mundo. As vozes em ‘off’ – em «A Árvore da Vida» há somente uma voz ‘off’ – perguntam. Perguntam, é certo, mas não parecem querer obter uma resposta. Ao invés, pretendem obrigar o espectador a pensar sobre as respostas que afinal até existem no filme. E para isso, Malick filma a natureza como ninguém, imagem e som vagueiam de mãos dadas na tela e a sensibilidade e beleza tocam-nos de um modo que quase diria irreversível se tal fosse possível. E os momentos de lucidez de que o espectador é acometido são a espaços interrompidos por uma estranha  forma de loucura, pela alienação que nos é transmitida pela visão única de um mundo em ebulição.
Mas que ninguém saia da sala caso se sinta intimidado por esta quimera feita de segredos insondáveis de um universo que é de todos mas que a ninguém pertence. Isto porque «A Árvore da Vida» é também uma viagem à América dos anos cinquenta, no pós-guerra. Nas paisagens bucólicas do Texas, a família O’brien divide-se entre um pai disciplinador, uma mãe doce e terna e três pequenas crianças um pouco à deriva num mar de felicidade mas que a espaços é atormentado por ondas de desespero na incompreensão dos mais pequenos confrontados com os actos dos maiores. Entretanto, o filme acompanha até à idade adulta o filho mais velho do casal. Este que é uma espécie de alma perdida num mundo moderno. Acompanha igualmente a tentativa de reconciliação deste na relação conturbada com o pai e a sua busca de um sentido da vida rebuscando nas suas origens e admitindo no final a existência da fé. Brad Pitt é o pai, Sean Penn o filho e Jessica Chastain a mãe. E eu e tu, eles e nós também somos filhos, pais, seres humanos que habitam este mesmo universo numa espécie de trânsito para a morte. Mas, estou plenamente convicto, onde vale bem mais acreditar que há tanto para viver até ao dia final ao invés de crer noutra vida esquecendo esta.



«The Tree of Life», de Terrence Malick, com Brad Pitt, Sean Penn e Jessica Chastain





segunda-feira, 18 de julho de 2011

Pequenas Mentiras Entre Amigos






Sexo, Mentiras e Vídeo

Eles são um grupo de amigos entre os trinta e os quarenta anos. Uns vivem relacionamentos que já conheceram melhores dias, outros são casados e até têm filhos. São gente realizada profissionalmente e há entre eles médicos, actores e um empresário hoteleiro muito bem sucedido. O filme começa por acompanhar um deles numa noite de diversão, copos e alguma droga. Mas Ludo [Jean Dujardin] abandona a discoteca onde se encontra, pega no seu motociclo e percorre as ruas desertas na madrugada de Paris até ter um acidente que o deixa desfigurado e em coma nas vésperas de ir de férias com os amigos para o sul de França. Sem visitas e sem que pudessem fazer algo pelo amigo, Marie [Marion Cotillard], Vincent [Benoît Magimel], Eric [Gilles Lelouche], Antoine [Laurent Lafitte] & companheiros decidem manter de pé o projecto de férias na casa do mais abastado do grupo, Max [François Cluzet], hoteleiro de profissão e talentoso exibicionista. E é então que entre ‘flirts’ vários, jogos de praia, visionamentos de vídeos de férias de anos passados, lautos almoços e ainda maiores jantaradas que o grupo se vai revelar.
Para quem viu o filme «A Última Noite» e se recorda do rapaz francês de bom trato que é apaixonado pela personagem de Keira Knightley, acaba de descobrir o argumentista e realizador deste «Pequenas Mentiras entre Amigos». Isso mesmo, Guillaume Canet, um dos mais prestigiados actores franceses da nova geração, assina este filme maravilhoso onde o espectador se deve preparar para o melhor e para o pior. Ou seja, para rir muito e chorar ainda mais. Aliás, nem é de estranhar: não é por acaso desta matéria que se faz afinal a vida? E apesar de se reconhecer no filme alguns excessos sentimentais e uns minutos que poderiam ser poupados na montagem, a verdade, meus caros, é que esta é a melhor proposta de cinema actualmente em exibição nas salas para quem gosta de celebrar a vida através da 7ª arte.
E «Les Petits Mouchoirs», no seu título original, é muito mais que um exercício de entretenimento puro já que exerce uma crítica bastante dura a uma certa burguesia que vive embrenhada num jogo de aparências tal que aquilo que importa unicamente é mostrar. Mostrar bens materiais, mostrar bons relacionamentos de amizade e de índole diversa e, ‘last but not least’, aparentar felicidade. O pior é quando à noite as luzes se apagam, o escuro convida à reflexão e o silêncio da noite leva a que se tenha sobre os actos praticados uma lucidez que torna tudo tão verdadeiro quanto atroz. Nesses momentos não há hipocrisia que valha e aqueles que durante o dia se entretêm no mentiroso jogo da felicidade caem então num naufrágio emocional que demonstra não apenas a sua fragilidade como a desorientação de que são vítimas. Apesar disso, o filme de Guillaume Canet, que tem um leve registo autobiográfico, mostra como pode ser tão falsa aquela frase que nos diz que os amigos são para as ocasiões. Pelo contrário, a acreditarmos no filme este prova que na amizade o sentimento que mais predomina é o egoísmo. Claro que é duro dizê-lo e muito mais reconhecê-lo, mas o facto é que as acções deste grupo de amigos a cultivarem a mais pura infantilidade emocional e racional parece estar tão perto de nós que quase nos faz querer afundar no sofá da sala de cinema como se também nos coubesse alguma culpa pelo que sucede na tela.
Para além da estrutura narrativa simples num filme com uma profundidade psicossocial que à partida estamos longe de imaginar, há ainda dois destaques a fazer: a extraordinária banda sonora, tão agradável quanto apropriada, e a excelência de um argumento onde cada personagem faz esquecer inteiramente o actor/actriz que a defende. Com uma excepção, claro: a que se refere aos olhos lindos e sorriso meigo e triste de Marie, directamente saídos da beleza de Marion Cotillard.
Finalizando, há que não esquecer: «Pequenas Mentiras entre Amigos» é o cinema como celebração da vida e um filme a não perder.


«Les Petits Mouchoirs», de Guillaume Canet, com Marion Cotillard, Benoît Magimel, Gilles Lelouche, Laurent Lafitte e François Cluzet


sexta-feira, 24 de junho de 2011

A Minha Versão do Amor






Três casamentos e um funeral

Se dúvidas ainda existem por aí de que um bom livro pode ser completamente desconjuntado por uma má adaptação cinematográfica, por favor que esse alguém seja meu convidado e assista a «A Minha Versão do Amor». O filme em má hora estreia Richard J. Lewis na realização de longas-metragens, depois de uma vasta carreira na televisão tendo até assinado alguns episódios de «C.S.I.: Crime Sob Investigação».
Mas comecemos pelos factos: Paul Giamatti não sabe representar mal, é certo, no entanto a sua química com Rosamund Pike, Minnie Driver e Rachelle Lefevre, que foram todas suas mulheres no filme, roça o grau zero. Depois, percorrer através das memórias do produtor de televisão Barney Panofsky [Giamatti] toda uma vida que vem desde os vinte e poucos e segue até à data da sua morte aos sessenta e muitos, requereria uma arte de maquilhagem e recomposição de gerações que não existiu já que as personagens nunca foram credíveis e os cenários mostram-se demasiadamente folclóricos para um filme do género. E, por último, como se o referido não bastasse, quem é que estando bom da cabeça pode imaginar que alguém com as características físicas de Dustin Hoffman poderia ser pai de alguém com as características físicas de Paul Giamatti? Provavelmente quem conhecesse a mãe, admito, mas como não é o meu caso achei deveras ridícula a ligação familiar de pai e filho entre Hoffman e Giamatti.
Inatacável mesmo é o fascinante percurso de vida da personagem principal. Sem dúvida que ter casado com três mulheres lindíssimas, ser um reputado produtor de cinema, ter vivido a juventude em Itália para quem é originário do Canadá, ser durante trinta anos perseguido pela acusação da morte do melhor amigo e, finalmente, ter conhecido a mulher dos seus sonhos precisamente no dia em que se casava com outra mulher são pretextos mais que suficientes para um bom filme. Mas não, infelizmente «Barney’s Version» roça a mais pura chatice e nem o Globo de Ouro dado a Giamatti esconde o facto de estarmos na presença de um filme falhado.
Percebe-se na realização a boa intenção de querer celebrar um percurso de vida rico e pouco comum, sobretudo pela autenticidade com que este se desenvolveu. Mas não e até onde supomos haver alguma mordacidade por parte de Lewis o que existe não passa de mera comédia involuntária. Por tudo isto, deseja-se que Richard J. Lewis tenha a capacidade de perceber onde falhou, baralhe e dê de novo e quanto a Giamatti nada como rever «Sideways» [2004], este sim um grande filme e que, por sinal, é até um filme bem regado. Se é que me faço entender.  



«Barney’s Version», de Richard J. Lewis, com Paul Giamatti, Dustin Hoffman, Rosamund Pike, Minnie Driver, Rachelle Lefevre e Bruce Greenwood

sábado, 11 de junho de 2011

Por um mundo bem melhor






Confesso que não me apetece escrever muito e ainda menos me apetece escrever uma crítica com cabeça, tronco e membros sobre «Num Mundo Melhor» que, como sobejamente sabem, é o filme dinamarquês que arrancou o Oscar deste ano na gala de Hollywood relegando o feioso «Biutiful» para o merecido ocaso e fazendo da sua realizadora, a também dinamarquesa Susanne Bier, uma espécie de mulher gelatina na altura do discurso de agradecimento tão nervosa estava a senhora.
Mas acontece que mesmo em filmes sofríveis, como é este «Num Mundo Melhor», o cinema europeu tem o condão de fazer filmes para um público adulto [e este “adulto” nada tem a ver com a idade dos que vêem cinema] ao mesmo tempo que aproxima a ficção tão sensivelmente da realidade que pelo menos uma certa sensação de satisfação permanece em nós já depois do seu visionamento. E isto ainda que tenhamos consciência que faltou ali algo. Um porra, um foda-se, sei lá, qualquer merda que aproxime ainda mais o cinema do nosso vai e vem  [disse bem, vai e vem] por cá.
Vejam bem, eu nem sequer sou anti-cinema de sítio algum e muito menos dos americanos já que sou pobre mas não sou mal agradecido e da América vieram muitos dos filmes que me fizeram sonhar.  Mas talvez seja essa a grande diferença dos europeus versus americanos já que se estes últimos nos fazem sonhar, os primeiros rapidamente nos fazem acordar e, se necessário, borram-nos a cara de esterco envergonhados pelo mundo que mesmo que por omissão ajudámos a criar.  E a verdade é que os actores e actrizes europeus têm verrugas na cara, varizes nas pernas e nem todos frequentam o Health Club lá do sítio. Em suma, são pessoas como a maioria de nós e não como aqueles caralhos dos americanos que acordam de manhã já barbeados e bem penteados e não cheiram mal da boca. O diabo que os carregue.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

A Última Noite




De olhos bem fechados

É certo e sabido, um amor aparentemente sólido e que levou anos a construir pode facilmente ser fragilizado pela desconfiança ou mesmo destruído por uma noite em que um membro do casal ceda à tentação. O tema tem sido explorado até à medula pelo cinema e «De Olhos Bem Fechados» [1999], de Stanley Kubrick, é um exemplo maior da importância que as relações amorosas adquiriram desde sempre para o mundo dos filmes. «A Última Noite», filme que estreia Massy Tadjedin na realização, é igualmente a prova da existência de temáticas que jamais se esgotarão por via de visões diferentes que podem acrescentar algo de novo ao cinema. Mas apesar de ser um filme agradável de seguir, «Last Night» nunca consegue deixar o estatuto de pequeno filme agarrado a alguns também pequenos clichés para conseguir sobreviver.
Michael [Sam Worthington] e Joanna Reed [Keira Knightley] são casados há poucos anos. Ele é uma espécie de promotor imobiliário e ela cronista e aspirante a escritora. Numa festa, Joanna conhece Laura [Eva Mendes], uma colega de trabalho de Michael, e rapidamente se apercebe da química existente entre ambos. Confrontado o marido à chegada a casa com as suas suspeitas, este nega o óbvio. Para maior azar, no dia seguinte Laura e Michael têm que viajar em trabalho para fora da cidade o que agudiza ainda mais o clima de dúvidas da bonita Joanna. Mas como nisto das tentações marido e mulher estão em pé de igualdade, no dia seguinte Alex [Guillaume Canet], um antigo amante de Joanna, está na cidade e convida-a para jantar. A partir daqui o filme joga com circunstâncias distintas para que aconteça a tentação e, talvez numa visão um pouco feminista da coisa, nas diferentes atitudes de Joanna e Michael perante a infidelidade iminente. Pelo meio, a realização vai jogando inteligentemente com datas para que o espectador perceba o histórico do casal Reed e apresenta ainda uma espécie de consciência dura mas honesta personalizada por Truman [Griffin Dunne], um amigo de Alex.
No deve e haver final temos um drama intimista muito bem escrito e realizado com rigor científico tal, que, ao invés, não permite riscos desnecessários. É no entanto de saudar o elogio da palavra e a inteligência dos diálogos e de realçar que num filme onde o desejo dos corpos está quase sempre presente jamais se veja o nu dos amantes. Por outro lado, existe sempre a convicção de que uma espécie de sentimento interior muito profundo comanda cada gesto, cada carícia, cada beijo no que me parece ser também uma característica muito feminina da realização da americana nascida em Teerão, que também escreveu o argumento e produziu o filme. Jogam contra si a completa falta de perfil de Sam Worthington [«Exterminador Implacável – A Salvação» e «Avatar»] para este género de filmes, um lado escusadamente elitista do mundo em que as personagens se movimentam e, já que se fala em coisas menores, não era assim tão importante que o amante de Joanna tivesse que ser francês, como é recorrente vir escrito nos livros. Ainda assim, através de uma fascinante atmosfera urbana e nocturna o filme pensa as relações amorosas e deixa o espectador a reflectir. E no único risco assumido acaba por nos dizer através do olhar de Michael para os sapatos de noite de Joanna esquecidos e espalhados pela sala, que as tentações ou mesmo as pequenas infidelidades devem ser tratadas como tal. Ou seja, ignoradas. Porque perante um amor que pode valer uma vida que importância tem uma relação que apenas sobreviveu a uma noite? Ainda que essa tenha sido a última noite.

A Última Noite, de Massy Tadjedin, com Keira Knightley, Sam Worthington, Eva Mendes e Guillaume Canet

domingo, 20 de março de 2011

Os Agentes do Destino





Por amor de uma mulher

Há uma vertente do cinema que visa quase exclusivamente o entretenimento do espectador, tornando os filmes em mera diversão. Infelizmente, os grandes estúdios têm inundado as salas com propostas perfeitamente ridículas que chegam a atentar a inteligência das pessoas. O cinema tornou-se uma indústria que na maioria das vezes faz tábua rasa da sua condição de arte, a 7ª. Ainda assim, por vezes chegam até nós filmes despretensiosos que para além de funcionarem como bom entretenimento conseguem ir muito para além disso. Ao visioná-los, o espectador diverte-se, emociona-se, sonha e pensa. E é isso mesmo aquilo que George Nolfi conseguiu ao adaptar para filme o conto «Adjustment Team», escrito por Philip K. Dick. «Os Agentes do Destino» é um thriller romântico de ficção científica que agrada bastante pese toda a carga de simbolismo religioso um tanto ou quanto desfasado dos nossos dias.
Antes de ir à trama, diga-se que Philip K. Dick escreveu, entre outras obras suas adaptadas ao cinema, esse memorável «Blade Runner» [Ridley Scott, 1982] e «Relatório Minoritário» [Steven Spielberg, 2002]. Quanto à história deste «Os Agentes do Destino», David [Matt Damon] é um jovem político de sucesso pese ter publicamente associada a si a imagem de um homem inconstante. Já Elise [fantástica e linda Emily Blunt] é uma bailarina simpática, de personalidade de uma leveza encantadora e mulher delicada que conhece David precisamente no dia em que este perde as eleições para o Senado. Para quem não acredita no amor à primeira vista, tem em «The Adjustment Bureau», no seu título original, a prova de que o clique imediato é bem possível. Ficamos também com a certeza, caso tivéssemos dúvidas a respeito, que o livre arbítrio não é uma benesse que cai dos céus mas sim um direito a ser exercido pelos homens e mulheres. Isto porque estava escrito que David e Elise não poderiam ficar juntos, mas o par amoroso não está pelos ajustes e vai lutar pelo seu amor.
Apesar da fragilidade do argumento - que ainda assim possui uma atmosfera de intemporalidade - e, provavelmente, de uma linguagem cinematográfica demasiadamente próxima dos códigos televisivos, o filme é aquilo que já se disse – emociona, faz sonhar e diverte – e possui como extras as interpretações de Matt Damon e Emily Blunt, ele bastante profissional num projecto não muito arrojado e ela numa actuação a dar para o celestial; eu, pelo menos, assim achei. Por outro lado, há toda uma equipa de secundários de luxo liderada por Anthony Mackie [«Estado de Guerra»], John Slattery [«Homem de Ferro 2»] e Terence Stamp [«Valquíria»]. E quando assim é, que mais se pode exigir de um filme que pelo seu lado apenas nos solicita simpatia e boa disposição?



[O bónus de «Os Agentes do Destino»: a lindíssima Emily Blunt como Elise]





«The Adjustment Bureau», de George Nolfi, com Matt Damon e Emily Blunt