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terça-feira, 1 de março de 2011

A Náusea







Descontente com a vida, solitário e desenraizado, homem fisicamente feio e perdido no que considera o absurdo da existência, desgastado pela dúvida e pela consciência de si, historiador e biógrafo, assim descreve Jean-Paul Sartre a personagem principal do seu livro «A Náusea» (1938). Embora experimente alguma relutância ao confessá-lo, admito ter dias em que me sinto precisamente como Antoine Roquentin, o menino de que aqui se fala.

Memória





Timothy Ryback deu uma entrevista ao jornal Público sobre o seu livro «A Biblioteca Privada de Hitler» e, entre outras coisas, diz que ‘a civilização ocidental está assente na noção de que a leitura, a educação, a literatura, nos dão mais conhecimento e fazem do mundo um sítio melhor. E com Adolf Hitler acontece exactamente o contrário. Este homem usou a literatura, usou a história, usou a filosofia para inspirar algumas das mais horríveis acções já cometidas por seres humanos’. Para concluir declara suspeitar que ‘Hitler não era a única pessoa má com uma biblioteca.’
Pois é, mas eu não suspeito, tenho a certeza. E alguns deles têm até um aspecto tão descontraído e sorridente que metem medo. Tal como é assustadora a frase promocional retirada do Washington Post e que a capa do livro exibe orgulhosamente dizendo que este é ‘Absolutamente cativante… fascinante e perturbador’. É que nada do que diga respeito ao energúmeno que foi Hitler pode assemelhar-se às emoções referidas como cativantes ou fascinantes. E falar deste homem serve apenas como pretexto para que não deixemos que a memória possa alguma vez ser apagada.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O fim da aventura







«A detonação foi seca e curta. É assim que ladram os Colt de 38. A minha pobre gata francesa tremia de olhos muito abertos. Amava-a. Abracei-a contra mim amaldiçoando as malditas armadilhas da vida.»

In «Diário de Um Killer Sentimental» [1996], Luís Sepúlveda.



Um assassino a soldo, competente e muito cuidadoso, comete um erro imperdoável: apaixona-se por uma linda mulher francesa. A relação entra em colapso quando o profissional está a meio de um trabalho bastante complexo e importante, o que o vai levar a abandonar a profissão mais cedo que aquilo que planeara. Mas a sua última missão espelha o quão ingrata pode ser a vida de um homem. Ainda para mais quando esse homem é um assassino profissional que não mistura trabalho com sentimentos.



quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O Monte dos Vendavais







«O Monte dos Vendavais» foi escrito pela britânica Emily Brontë em 1847 e levado ao cinema por Peter Kosminsky em 1992, como é sabido. A obra relata o conflito de duas gerações das famílias Earnshaw e Linton e o amor avassalador, trágico, entre as personagens Heathcliff (interpretado de forma soberba por Ralph Fiennes no cinema) e Catherinne (uma fascinante Juliette Binoche no filme). Embora levado ao extremo em termos de dramatismo, trata-se de um retrato fiel da vida, de uma aventura arrebatadora, entusiasmante e profundamente reveladora da complexidade do ser humano. As angústias e os medos das personagens são explorados de uma forma perfeita causando no leitor/espectador um efeito tão apaixonante como o ardor que corrói interiormente os dois amantes. E neste âmbito, Heathcliff contribui de forma decisiva para o carácter emocionalmente opressivo de toda a obra. O amor, o ódio e o medo misturados fazem de si alguém que atemoriza mas ao mesmo tempo lança instintivamente um irresistível poder de sedução sobre as mulheres. Um romance clássico e um filme intemporais a pedirem nova leitura e mais um visionamento.





O conselho





É sempre muito arriscado aconselhar um livro ou um filme a alguém cuja forma de estar, pensar e sentir não dominamos. Em tempos uma pessoa com quem não tenho muita afinidade pediu-me que lhe aconselhasse um livro que tivesse sido adaptado ao cinema e também o filme que resultou do livro. Segundo essa pessoa, teria que ser uma história dramática que envolvesse uma relação amorosa. Ainda pensei em aconselhar o «Doutor Jivago», obra maior escrita por Boris Pasternak e levada ao cinema por David Leane. Mas achei que talvez fosse um conselho óbvio de mais e eu próprio acabei por lhe emprestar «O Monte dos Vendavais» saído da genialidade de Emily Brontë e adaptado ao cinema por Peter Kosminsky. Uma manhã, enquanto desenferrujava as pernas numa curta corrida junto a minha casa, essa pessoa veio ter comigo com o livro e o DVD nas mãos. Fiquei um pouco receoso de ter causado alguma decepção com o meu conselho. Mas não. Depois de me ter colocado nas mãos as duas obras, percebi não só pelo que me foi dito como pelo sentimento expresso nessas palavras que Emily Brontë e Peter Kosminsky tinham causado um efeito emocionalmente devastador na minha interlocutora.






segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Culpa








Tem dias em que me sinto uma personagem de um livro de Dostoievski. Se repararmos bem quase todas as suas personagens vivem cravejadas de defeitos. Entre outras inenarráveis categorias, ora são bêbados relaxados, malvados compulsivos ou deploráveis sovinas. Enfim, malandragem sem emenda. Está certo que bebo álcool muito esporadicamente e quase sempre com moderação, que procuro ser correcto com os outros e tenho uma péssima relação com o dinheiro já que nunca é de longa duração. Mas tal como as personagens do escritor russo, cuja humanidade leva à expiação voluntária dos seus pecados, sempre que algo de errado acontece entre mim e outra pessoa tenho a invariável tendência de achar que eu é que fiz algo de mal.



segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A vida dos livros

[Nina Lund]



Confesso que deste livro já não me vêm à memória nem título nem autor. Mas recordo-me bem da história de amor que se desenvolvia numa intensidade por vezes cortante. E entre sentidas palavras de amor acompanhadas de gestos de carinho e querer, dos corpos unidos pela paixão e pelo desejo, havia risos e também lágrimas. E ausências difíceis de suportar. Apesar de tudo, e talvez por esse mesmo motivo recorde aqui uma obra já distante, por cada acontecimento que levou a que um dia a ilusão terminasse sem que tivesse morrido nos dois amantes, senti sempre que o autor proclamava a inocência do ser humano quando apanhado por um sentimento voraz que não se planeia mas ao qual se sucumbe. Também já não lembro muito bem em que condições aquela relação apaixonada terminou. Mas na literatura como na vida, creio que a mulher (neste caso a mulher) trocou a paixão louca e avassaladora por uma vida mais lúcida e realista. Enfim, uma obra que no seu final talvez faça apenas o relato de mais um combate perdido pelo amor.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Histórias de longe mas tão afectivamente próximas

 
 
 
"Tenho de ir aos arredores! À beira do rio onde o meu avô me levava... para pescar? Lembro-me, o meu avô tinha-me levado à beira de um rio, se tínhamos apanhado algum peixe, já não sei, mas lembro-me, tinha um avô, tive uma infância."



in «Uma Cana de Pesca Para o Meu Avô», de Gao Xingjian

terça-feira, 30 de novembro de 2010

A Azinhaga de José Saramago





Estava uma tarde clara e fria como o são muitas tardes de Outono quando o meu carro contornou a rotunda que dá início à Azinhaga para quem vem do lado de Lisboa. Noto que dois rapazes guiam três ou quatro cabeças de gado pisando a erva e torneando arbustos até ladearem as estacas de uma vedação para animais. Sou natural do Ribatejo, mas, curiosamente, não me recordava de alguma vez ter estado na terra onde nasceu José Saramago. Deixo o carro seguir o percurso de alcatrão até ao que julgo ser o largo principal da povoação.
Sentado num banco de jardim, qual Pessoa no Largo do Chiado, vislumbro uma estátua de Saramago em plena leitura. Algumas pessoas ladeiam o monumento e pergunto onde é a Rua José Saramago. Silêncio total, trocam-se olhos inquisidores, ninguém me sabe responder. Agradeço e sigo o meu caminho, hesitante. Um jovem de pouco mais de vinte anos, livros debaixo de um dos braços, atravessa a rua um pouco mais à frente. Repito-lhe a pergunta anterior. Olha o vazio, parece puxar pela cabeça, pede-me desculpa, também não sabe. E a de Pilar del Rio, insisto. Pilar del Rio?, devolve-me a pergunta. Sim, confirmo eu, Pilar del Rio. Não, não sei. Ao fundo, uma mulher de meia idade fita-me tranquilamente com um sorriso a baloiçar-lhe nos lábios. Tente a zona nova, trezentos metros à esquerda, quase me gritou. Foi o que fiz.
E lá estavam.
Lá estavam a pequena biblioteca com o nome de José Saramago, a Rua Pilar del Rio de esquina com a Rua José Saramago. Tiro algumas fotos, entro um pouco no interior do edifício da biblioteca e, alguns minutos depois, percebo o alcance das palavras de José Saramago ao referir-se à passagem dos homens e mulheres por esta vida: num momento «está-se ali» e no outro «já não se está». E na Azinhaga, terra natal do único Nobel português da literatura, José Saramago já não está sem que provavelmente alguma vez tivesse estado. Isto, ainda que por lá se perpetue o seu nome em duas ou três homenagens simbólicas.
Já é quase noite quando regresso à estrada consciente da insignificância que o homem se atribui a si mesmo. Acabou-se para José Saramago, subiu à montanha mágica mas já não faz mais livros. Já não está ali. Mas tenho pena, eu que nunca fui seu fiel devoto.



segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A fragilidade do indivíduo

[Man Sitting - Back View - 1964, Wayne Thiebaud]






Anos atrás li um livro de estrutura narrativa grandiosa. Um livro unanimemente considerado como um dos grandes documentos da literatura mundial. Falo de «O Doutor Jivago», de Boris Pasternak. Hoje relembro como a obra é perfeita na demonstração da fragilidade do indivíduo, de como as vivências, os pensamentos e as reflexões de alguém podem estar tão de acordo com alguma inquietude que nos assola e necessariamente afecta os dias.


Jivago, burguês e médico, abandona Moscovo no dealbar de uma revolução. Fá-lo ao perceber que os meios determinam os fins. Isto é, que o bem gerará o bem e a força bruta só poderá gerar o mal. Imerso na violência da história, passeia-se um intelectual de alma solitária que se apaixona tremendamente por uma mulher muito mais jovem que ele. Uma mulher que encontra anos depois de a ter conhecido em Moscovo. Uma paixão intemporal que não irá viver dada a tragédia de que é vítima acabando por morrer de ataque cardíaco depois de sobreviver longo tempo na penúria.


Lembrei-me do Dr. Jivago. Do poeta, do homem apaixonado, do idealista. Lembrei-me de como não somos nada em confronto com o decorrer avassalador da vida, perante os acontecimentos sobre os quais não temos mão mas que nos condicionam o dia-a-dia, nos limitam os sonhos, nos fazem ter que recomeçar do zero quando julgávamos ter construído algo. Há em tudo isto muito de material [existe sempre algo de material em tudo] mas, sobretudo, de espiritual e trágico. E enquanto nos questionamos, vamos continuando o nosso caminho. Cansados, de olhar vazio, assemelhando-nos a autómatos, mas lá prosseguimos. No entanto, muitas vezes sem sabermos muito bem qual o rumo que devemos tomar.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Amores maiores do que a vida

[Cartas de uma Freira Portuguesa - Milo Manara, via E Deus Criou a Mulher]






«Os meus olhos é que perderam nos teus a única luz que os animava.»





Soror Mariana Alcoforado



Não raras são as vezes em que as grandes paixões permanecem eternas, afundadas na tristeza pela privação do outro, serenadas pelo lento passar do tempo que leva à triste resignação da perda. Soror Mariana Alcoforado, nascida e falecida em Beja nos anos de 1640 e 1723, foi uma dessas infelizes protagonistas de um amor maior que a vida. Apaixonada pelo fidalgo francês Noël Bouton (1636 – 1715), na altura em Portugal ao serviço da Cavalaria Francesa no reinado de Luís XIV, por essa paixão ardente a freira portuguesa quebrou o voto de castidade e propôs-se acompanhar o oficial até ao seu país de origem, não encontrando no entanto reciprocidade nesse desejo por parte do seu amado.



Famosa por escrever 7 fabulosas cartas que deram origem a livros e que pela sua beleza estética e fabulosa componente literária inspiraram poetas, escritores, pintores e outros artistas, decorreu em tempos no Real Mosteiro da Nossa Senhora da Conceição, em Beja, uma exposição que homenageava a religiosa portuguesa, que foi escrivã e vigária do templo, com a reprodução de litografias de Henri Matisse e de documentos originais que retratam a sua muito inflamada paixão que em tempo curto descambaria em saudade e dor. Deixo aqui ficar, com este texto, a minha singela homenagem a uma mulher que morreu não deixando que o seu amor alguma vez morresse em si.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Siddharta, o indiano












Para quem leu o livro, sabe que «Siddhartha» - obra fundamental da literatura de sempre, de Hermann Hesse - é a história de uma procura. De uma procura que alguém leva a cabo e onde o elemento mais importante não é o ponto de chegada mas sim o percurso realizado para lá chegar. Siddhartha é um jovem indiano bem-nascido mas totalmente insatisfeito com a vida que tem. Resolve então partir à aventura na tentativa de encontrar aquilo que o pode completar. Embora, à partida, não lograsse perceber o que procurava. Nessa busca, de anos, experimentou de tudo. Entregou-se à luxúria, ao jogo, tornou-se asceta e interagiu com as mais variadas personagens conhecendo os múltiplos aspectos da vida.



Ou seja, um homem que tinha tudo percebeu que sem passar por privações, sem conhecer o desânimo ou o sabor amargo da derrota, sem ter a necessidade de se reinventar para ultrapassar obstáculos conhecendo a dor e o sofrimento jamais conseguiria identificar a felicidade e lidar com ela caso existisse como um todo. E é um facto que sempre que me acontece algo de menos bom e que de algum modo me provoque sofrimento procuro recordar-me de Siddhartha. Isto para não esquecer que felicidade e tristeza se completam. E que mesmo parecendo um paradoxo, a felicidade e a tristeza atribuem à vida aquele espantoso equilíbrio que todos buscamos no dia-a-dia. Apesar disso, confesso-vos que em momentos menos bons não fosse o enorme respeito que nutro pelos livros e já teria rasgado «Siddhartha» de Hesse. Que se ponha de pé quem não se importa de sofrer para melhor saborear a felicidade.



quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Autor maldito

[Kate Winslet e Geofrey Rush numa das cenas de um filme sobre o polémico Marquês de Sade]



Doantien Sade, que ficou conhecido para o mundo como o Marquês de Sade, viveu em França nos finais do século dezoito e inícios do século dezanove. Tendo levado uma vida dedicada à luxúria, Sade, aristocrata e libertino, foi desde sempre um autor maldito. Isto, talvez porque os homens em vez de procurarem compreender o que não entendem preferem imediatamente acusar e condenar, embora, sejamos justos, neste caso se entendam sem dificuldade as razões para tanta aversão. Apesar disso, e das suas práticas, Doantien Sade era um homem de convicções e ideias claras e podia mesmo fazer minhas algumas das palavras que deixou para a posteridade. Sem comentários adjacentes, destaco dois desses pensamentos que se podem ajustar ao conceito com que vou edificando este blogue. Dizia o célebre autor francês que ‘antes de ser um homem da sociedade sou-o da natureza’ e ‘dirijo-me às pessoas capazes de me entenderem, essas podem ler-me sem perigo’.

Mas um dos ideais que provavelmente mais contribuíram para a sua própria concepção de vida e que, se mais não houvesse, só por si justificaria todo o efeito negativo e mesmo pejorativo atribuído ao sadismo pode retirar-se da sua convicção de que ‘a primeira lei que a natureza lhe impôs foi a de gozar à custa de qualquer um’. Foda-se lá o gajo.


sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O velho e o mar







Poucos serão os que não conhecem a obra-prima de Ernest Hemingway, «O Velho e o Mar». Nesse pequeno livrinho onde se conta a história de um pescador cubano a pescar sozinho, e há mais de oitenta dias sem conseguir um único peixe até que se depara com um enorme peixe-espada, a narrativa é tão simples e ao mesmo tempo tão cativante que o desespero de ambos na luta pela sobrevivência, peixe-espada e pescador, acaba por se tornar num espantoso ensaio sobre a condição humana. E à chegada ao porto não é difícil imaginar a ambiguidade do sorriso do velho e pobre pescador, ele que dominou a sua presa mas dela lhe restaram apenas o rabo, a espinha e a cabeça. Apesar do seu dramático triunfo, Santiago sorri na inevitabilidade daquilo que faz e que é, afinal, a razão para continuar a sentir-se útil, vivo. E não é por acaso que durante o seu isolamento nas águas do golfo em busca do sustento, o velho homem questiona a sua condição de pescador para logo a seguir concluir que nasceu para aquilo mesmo. E essa é muitas vezes a diferença entre a literatura e a vida. Porque na literatura mesmo os homens e mulheres que falham o fazem perseguindo o seu destino. E são, de certo modo, pessoas felizes porque fazem aquilo para que desde sempre se sentiram predestinadas. O facto faz-me pensar na vida real, aquela que vivemos fora dos livros. Porque muitas vezes criado pelos próprios, um conjunto de condicionantes obriga a que muitos de nós vivamos e trabalhemos bem longe daquilo que nos faria de certo pessoas bem mais realizadas. E, já agora, mais felizes.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O preço



[O escritor Philip Roth]





Leio algures num sítio da blogosfera uma citação de alguém que diz que jamais devemos justificar-nos; isto porque os nossos inimigos recusam-se a acreditar-nos e os verdadeiros amigos não precisam (de justificações)’. Este pensamento leva-me até um livro maior de Philip Roth, «A Mancha Humana». Pela obra vagueiam duas personagens a reinventarem-se por força da rejeição da sociedade em que estão inseridos. Uma, Coleman Silk, procura libertar-se do estigma racial engendrando para si uma nova identidade; e outra, Fauna, procura na relação amorosa com Silk uma nova oportunidade de redenção e esperança. Não seria necessária a leitura do livro para perceber que algo do género possui um risco elevado de insucesso e de trágico. Daqui se conclui que a única forma de lutar contra a hipocrisia residirá na busca por fazer prevalecer a verdade do que nos individualiza como seres humanos. Mas não sejamos ingénuos, seja qual for a opção que se tome haverá sempre um preço a pagar.

domingo, 31 de outubro de 2010

A Metamorfose

«A Metamorfose», de Franz Kafka, é sabido, é uma obra essencial. Li o livro há alguns anos atrás numa altura – jovem estudante – em que via o simbolismo da tragédia de Gregor Samsa numa dimensão meramente literária e puramente filosófica da vida. Era o tempo do sonho, da idealização dos projectos, da sensação de que aquilo que desejamos depende apenas de nós e da nossa capacidade de realização. Hoje, mais do que compreender Gregor Samsa percebo Franz Kafka. E aquele conjunto de conceitos metafísicos tornou-se algo de uma possibilidade tremendamente real a cada novo desafio do quotidiano. Converteu-se, por assim dizer, num obstáculo permanente e de risco elevado para se conseguir ultrapassar. E quem nunca se sentiu como no pesadelo superiormente engendrado por Kafka que se coloque de pé.


Margarida Rebelo Pinto, Dois





No mesmo espaço de opinião no Sol, Margarida Rebelo Pinto declara que “quando chega a hora de esquecer alguém, o melhor é blindar o coração e matar o tempo para que cada dia passe depressa, até àquela manhã perfeita em que em vez de acordarmos com a pedra de angústia encostada à garganta, partilhamos a companhia do som da chuva ou um olhar novo de quem nos quer bem”. Totalmente de acordo, sobretudo na muito poética parte em que fala da pedra da angústia e do som da chuva. No entanto, permito-me acrescentar a estes tópicos uma boa garrafa de vinho, a barba por fazer e o cabelo em desalinho. Isto não só porque estas coisas da agonia têm que ser levadas muito a sério e com estilo mas também porque, tornando a perda num calvário, estamos a valorizar a nossa paixão. E depois quem disse que beber sozinho não é um passatempo agradável?






Margarida Rebelo Pinto, Um







Margarida Rebelo Pinto, a escritora, assina uma coluna no semanário Sol com o amável título «Com Muito Prazer». A parágrafos tantos, Margarida escreve que existe uma grande “quantidade e qualidade de poetas em Portugal”. Ficou bem à Margarida reconhecê-lo, ela que não é poetiza. Mas logo de seguida percebe-se onde quis chegar ao sentenciar que “o talento (dos poetas) é inversamente proporcional ao dos aprendizes a escritores que, por publicarem um livro, pensam que já fazem parte do ofício da escrita”. Ficou mal à Margarida escrevê-lo, ela que é escritora encartada, goste-se ou não da sua escrita. Eu, confesso, como nunca li um livro de sua autoria não estou habilitado a fazer apreciações a esta lídima representante dos que exercem o ofício da escrita. No entanto, tenho todo o direito de acreditar que não é a publicação de livros ou mesmo o sucesso editorial que faz de alguém... escritor.




A inveja




[Ernest Miller Hemingway, 1899 - 1961]




Inveja de Hemingway





Julgo que é algo aceite universalmente: os escritores, os grandes escritores, homens ou mulheres, são pessoas especiais, tocadas por um sentimento exaltado, impetuoso, sentimento que têm necessidade de passar aos outros, de o (d)escrever como se de um impulsivo desabafo se tratasse. Muitos desses escritores são, foram, gente invulgar, gente atropelada no seu percurso pela fome de viver, de amar, gente que sem o perceber corre(u) desesperadamente para a angústia. E, em derradeiro fôlego, em alguns casos na maior prova que há de amor pela vida, acabaram por a abandonar voluntariamente. Não é raro eu sentir inveja dessa gente. Dessa gente de essência excessiva, de busca incessante pela felicidade sem jamais a lograrem alcançar.



Hoje, confesso, sinto inveja do que foi Hemingway.



Ernest Miller Hemingway, nascido no campo, filho de médico. Escreveu obras fundamentais como «O Sol Também se Levanta» (1926), «Por Quem os Sinos Dobram»(1940) e, entre outros, «O Velho e o Mar» (1952). Pelos seus escritos condecoraram-no com o Prémio Pulitzer, primeiro, e com o Nobel da Literatura, depois. Hemingway deixou que os seus olhos se humedecessem com o brilho das cores do mundo. Viveu em Itália, em Paris, em Espanha… E na paradisíaca Cuba durante muitos anos. Combateu guerras que não eram suas (Guerra Civil de Espanha), apaixonou-se por uma cultura que não era a sua (a festa brava, os toiros, Pamplona) e deixou que esses mundos por que passou em frenesim fizessem a sua escrita. Com quatro casamentos realizados, em número ainda maior que essas quatro paixões o escritor teve por várias vezes a maior dádiva que um homem alguma vez pode desejar: o amor de uma mulher.



Foi conhecida a sua instabilidade emocional ou, por outras palavras, a inquietude de uma mente sequiosa, de uma alma que a cada momento se agigantava. Fisicamente doente, a 2 de Julho de 1961 mostrou toda a coragem com que levou a vida ao virar para si uma arma de fogo e, disparando-a, enfrentar a morte. Entre nós, a eternizar o homem, o escritor, ficaram os relatos da sua vida e, fundamentalmente, a sua obra escrita.



Não, neste caso não se trata de um sentimento menor. Mas é verdade, sinto inveja do que foi Ernest Hemingway.





Pesadelo






«- Quero contar-te tudo.

Albertine levantou ternamente a mão como que impedindo-o, mas ele agarrou-a e segurou-a na sua, com um olhar que simultaneamente questionava e implorava. Então ela acenou-lhe consentindo e Fridolin iniciou o seu relato.»



«- Que é que devemos fazer, Albertine?

Ela sorriu por instantes, depois respondeu:

- Acho que devemos estar gratos ao destino por termos saído ilesos dessas aventuras, tanto as reais como as que sonhámos.»






in A História de um Sonho, de Arthur Schnitzler

















O livro e o filme





Há quem defenda que Arthur Schnitzler (1862 – 1931) foi o escritor que melhor descreveu os fantasmas do inconsciente, nomeadamente no que se refere às tensões sexuais próprias dos casais presos a uma conduta comportamental que supostamente é devida nos relacionamentos amorosos. Ao reler esta obra do escritor austríaco que rivalizou com Freud na teorização das pulsões eróticas quando reprimidas, não pude deixar de confirmar dois importantes aspectos: o quão actual o tema ainda se encontra, relembre-se que o livro foi publicado em 1926, e a extraordinária argúcia de Stanley Kubrick, verdadeiro psicólogo das imagens, na adaptação do livro ao cinema («Eyes Wide Shut», 1999). E são igualmente duas as interrogações que ficaram a pairar-me na mente quando terminei o último parágrafo do texto: até que ponto os casais se privam da consumação de desejos inconfessáveis para manter estáveis os seus relacionamentos e, por outro lado, mesmo um pouco em contraposição a isto, como seria mais feliz a vida das pessoas se a sociedade não os agrilhoasse a convenções e obrigações que de outro modo seriam tidos como absolutamente naturais?













No fabuloso filme de Stanley Kubrick, a cena final é transferida do quarto de dormir para uma loja de brinquedos. O apaziguamento da personagem de Nicole Kidman às confissões do marido é similar à do livro, mas quando a personagem de Tom Cruise questiona a mulher sobre se ficariam juntos para sempre, esta responde-lhe, grosso modo:





«- Para sempre? Não utilizemos essa palavra, assusta-me. Mas amo-te e há uma coisa que precisamos fazer urgentemente.



- Que é…? – Interroga Cruise.



- Foder.»]




In
De Olhos Bem Fechados (1999), Stanley Kubrick