domingo, 31 de outubro de 2010

Anthony Perkins, 1932 - 1992



 [Anthony Perkins]



Anthony Perkins corporizou inúmeras personagens no cinema, mas o seu nome confundir-se-á para sempre com o do atormentado Norman Bates, no filme “Psycho”, de Alfred Hitchcock.
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Nascido em NY, a sua infância ficaria marcada pela morte do pai, o também actor Osgood Perkins, quando tinha somente 5 anos de idade. Antes de rumar a Hollywood e se iniciar no cinema, em 1953, pela mão de George Cukor no filme “The Actress”, Perkins estudou no Rollins College. Voltaria depois à sua cidade natal onde se afirmaria como um talentoso actor da Broadway para, em 1956, de regresso a Hollywood, filmar sob as ordens de William Wyler o ‘western’ “Friendly Persuasion” que lhe valeria a sua única nomeação para um Oscar. Depois de contracenar com actrizes e actores como Ava Gardner, Audrey Hepburn e Gregory Peck, e trabalhar com realizadores da nomeada de Stanley Kramer e Anthony Mann, a sua hora chegaria em 1960, quando Hitchcock o achou perfeito para o papel de Norman Bates, em “Psycho”, o clássico do cinema de terror psicológico. Seria o papel da sua vida e, pese embora o seu meritório esforço em futuros trabalhos, Perkins jamais lograria libertar-se do estigma de Norman Bates.



Na verdade, ao longo da sua vasta carreira também repartida pela TV e pelo teatro, o actor teria o ensejo de trabalhar com os melhores realizadores de então. Para além dos já citados, refira-se os nomes de John Huston, Minnelli, Chabrol, Elia Kazan, Welles e Lumet. Destaque, aliás, para a sua excelente interpretação de Joseph K., na obra “O Processo”, dirigida por Orson Welles e baseada no clássico literário da autoria de Franz Kafka. Em 1983, dirigido por Richard Franklin, voltaria a vestir a pele de Bates numa sequela de “Psycho”. Repetiria a experiência em 1986, em “Psycho III”, fita em que se sentaria igualmente na cadeira da realização. Realizaria ainda uma outra obra menor, “Lucky Stiff” (1988), quando anos antes, como que a provar a sua polivalência, co-escrevera o argumento do interessante “The Last of Sheila” (1973).



Parecendo ter vivido sempre numa inquietação paralela à da personagem que o catapultaria para a fama, o actor casaria em 1973 com a fotógrafa de moda Berry Berenson, de quem teve dois filhos – Oz e Elvis, mas nunca se livraria de rumores sobre uma alegada homossexualidade. Morreu em 1992, soçobrando a problemas respiratórios derivados de uma pneumonia. Curiosamente, a sua viúva faleceria um dia antes de se completarem 9 anos sobre a sua morte, vítima dos atentados ao WTC de Nova Iorque.

A Estranha em Mim


 
[DVD]


Jodie Foster é «A Estranha em Mim», um filme absolutamente fora de tempo na sua temática – ou talvez não – do irlandês Neil Jordan, homem que já nos agraciou com o seu cinema em «O Fim da Aventura» (1999) e «Michael Collins (1996), isto só para citar dois (bons) exemplos. Desadequado do seu tempo porque simplista numa dramatização que o cinema abandonou há muito, a do justiceiro urbano.



A história conta-se em breves traços: Erica Bain (Foster) é uma locutora que busca transmitir aos nova-iorquinos os sons da sua cidade, é alguém que lhes sussurra a coabitação presente nas ruas, nos parques, nos bares, nas casas de cada um. Resumindo, é uma figura da rádio que lhes aquece a alma através da sublimação da intimidade da grande cidade de Nova Iorque. Erica está noiva, prestes a casar, quando um bando de marginais a deixa em estado quase vegetativo e lhe assassina o namorado. A partir da sua recuperação física, a jovem locutora, mulher moderna e bem formada, vai procurar sobreviver psicologicamente através das execuções que perpetra em assassinos, violadores e outros que tais. Pelo meio, há um detective de nome Mercer (Terrence Howard) de coração mole a viver um momento menos bom na sua vida profissional e afectiva que reúne todas as condições para compreender os actos criminosos da atípica justiceira.



Não sendo um filme menor em todos as suas características, «The Brave One», no seu título original, comete a indesejada proeza de chegar apenas a quem não quer (os amantes da acção pura e dura) e não atingir o seu propósito (criar polémica através da ambiguidade da sua mensagem). Não ajuda igualmente à realização o rosto de forçado sofrimento a que invariavelmente obriga a sua personagem principal e a metódica escolha de raças e credos na concretização dos alvos de Erica Bain. Por outro lado, a complexidade que se busca ao recorrer aos momentos de idílio amoroso presentes na amargurada memória da mulher em contraste com a violência que vai percorrendo no caminho para impor uma justiça acima da lei, está muito mais adequada à BD que propriamente a um cinema actual e de sofisticada intelectualidade. Que, em pézinhos de lã, procurou alcançar. Contas feitas, constatamos estar na presença de pouco mais que um mediano objecto de entretenimento para ver e arrumar num dos cantos de mais difícil acesso no nosso baú do esquecimento.







«The Brave One», de Neil Jordan, com Jodie Foster e Terrence Howard

Promessas Perigosas





[DVD]



David Cronenberg já nos fizera prova de toda a sua genialidade numa cinematografia até então fora dos circuitos normais de cinema, longe do chamado cinema ‘mainstream’. Ainda assim, filmes todos eles fabulosos e a ver e rever como «A Mosca» (1986), «M. Butterfly» (1993), «Crash» (1996), «eXistenZ» (1999), «Spider» (2002) e o seu anterior «Uma História de Violência» (2005) tinham tido uma reacção muito positiva por parte do público em geral e não apenas dos conhecedores da sua obra inspiradora, embriagante. Em «Promessas Perigosas» (2007) o cineasta canadense atinge o auge das suas capacidades como realizador… regular. O filme é de uma perfeição absoluta e as personagens extraordinariamente bem defendidas por um lote de actores impressionante acabam por se revelar a génese de um mundo que (sobre)vive ao nosso lado mas do qual raramente nos damos conta. E ainda bem que assim é.



O argumento detém-se numa Londres estranha, nada perceptível a olho nu, num mundo subterrâneo orquestrado pela Máfia originária dos países de Leste. Nikolai Luzhin (Viggo Mortensen) é o motorista de Semyon (o alemão Armin Mueller-Stahl) líder da seita e dono do faustoso restaurante Trans-Siberian que lhe serve de capa para as suas actividades perversas. Kiril (o francês Vincent Cassel) é filho de Seymon e amigo inseparável de Nikolai. Para baralhar as contas e trazer uma dimensão nova de busca e perturbação ao filme surge Anna (esplêndida e bela Naomi Watts), uma enfermeira de maternidade em busca da paternidade de um bebé cuja mãe, obrigada a prostituir-se pelos mafiosos, morre durante o parto.



Viggo Mortensen é soberbo na sua personagem esfíngica, atormentada, dividida entre o dever e a moral, atacada por demónios que lhe tornam o olhar turvo, mortiço, sem sombra de felicidade. Se o actor ganhou uma áurea de encantamento com a personagem Aragorn (saga de «O Senhor dos Anéis»), de competência em «Uma História de Violência», neste filme coloca-se ao nível dos grandes actores de que Hollywood se serve para continuar a senda do sonho que desde o velho continente os irmãos Lumière lhe proporcionaram e o seu cinema tão bem soube encarnar. Excelentemente secundado por um Vincent Cassel louco, enérgico e imprevisível e pela cândida doçura de uma Naomi Watts determinada e sem ponta de receio no desafio que se impôs a si própria, Viggo Mortensen é apenas porção fundamental de uma poesia aflitiva mas pungente de um poeta – Cronenberg – cujo talento reside na capacidade de perceber a alma humana como poucos e de a transportar para universos percorridos no fio da navalha mas universos encantatórios na sua obscuridade e plenos de irresistível sedução. Extraordinário filme a não perder e a reservar algures num canto especial das obras cinematográficas sem mácula, verdadeiramente estimulantes.





«Eastern Promises», de David Cronenberg, com Viggo Mortensen, Naomi Watts, Vincent Cassel e Armin Mueller-Stahl

Uma Segunda Juventude





Francis Ford Coppola pertence a uma linhagem de cineastas que só por si levam o espectador à sala de cinema. Responsável pela trilogia de «O Padrinho» e por esse grande filme de guerra que é «Apocalipse Now», entre outros, Coppola merece um crédito que este «Uma Segunda Juventude» não deita por terra mas bem tenta fazer por isso. Na verdade, o filme protagonizado por Tim Roth (actor competente mas por quem, vá-se lá perceber porquê, confesso nunca ter sentido grande apreço) e adaptado do livro escrito pelo filósofo Mircea Eliade, é uma tentativa rotundamente falhada do realizador americano se elevar a um patamar de excelência que não só foge à sua essência criativa como do qual não necessitava minimamente.



A história é transversal à vida do professor de linguística Dominic Matei (Roth) a partir do momento em que este é vítima da queda de um raio. Ironicamente, quando se preparava para pôr termo à vida através do suicídio o destino faz com que rejuvenesça até aos cerca de 40 anos. Ele que já passara dos 70. Tendo levado uma existência inteiramente dedicada à consumação da sua obra sobre as origens da linguagem humana, a Matei não sobrou tempo para viver e muito menos para o amor. Com a queda do raio e após recuperação num hospital, é-lhe então surpreendentemente concedida uma 2ª oportunidade com evidentes progressos sensoriais e cognitivos. Quando sucedem os factos, está-se em 1938 e a Europa vive o flagelo da guerra. Um cientista nazi, que desenvolvia uma teoria similar ao sucedido com o professor de linguística, obriga a que este se refugie no exílio. Enquanto isso, reencontra o grande amor da sua vida, Laura, na figura de Verónica (Alexandra Maria Lara). E também no amor, aparentemente, vê reacender-se a esperança de se redimir do fracasso da juventude.



Envolto numa opção conceptual bastante discutível, até porque a forma acaba por comprometer o conteúdo (a mensagem), o filme incorre em elementos místicos e paranormais interligados com a realidade que se tornam de difícil percepção para o espectador. Por outro lado, numa tentativa de erudição da realização a pretender fazer arte onde se pedia apenas que se fizesse cinema, a trama procura teorizar sobre a reencarnação e a cultura oriental como se estivéssemos num debate televisivo com a participação de 3 ou 4 cientistas muito capazes no seu trabalho mas tremendamente entediantes para quem os ouvisse e visse. E neste aspecto particular da busca do ensaio filosófico, Coppola age de um modo tão sensível como um elefante a passear-se numa loja de porcelanas. Grave, no entanto, é verificar que numa obra onde à partida se sugere a fantasia, o sonho, da vida numa nova vida ou da recuperação da juventude na mesma vida nunca esse desiderato é conseguido junto de quem assiste ao filme. Resumindo, o velho Francis Ford Coppola não demonstra uma segunda juventude nesta sua realização e, o que é mais preocupante, deixa mesmo no ar muitas reticências quanto ao seu trabalho agora que já não é nenhum jovem.



Cuidado, este filme deprime. Sem que seja sua intenção.





Youth Without Youth, de Francis Ford Coppola, com Tim Roth, Alexandra Maria Lara e Bruno Ganz




Ponto de Mira





Permita-se-me a liberdade da analogia, mas há cinema que funciona um pouco como um dia alguém caracterizou a denominada música pimba: tão depressa entra como sai do ouvido. «Ponto de Mira» tem precisamente atributos paralelos. É que depois de terminar a película e no ecrã surgem os créditos finais já ninguém se recorda ou sequer se importa com o que acabou de assistir. E cinema assim é, no mínimo, dispensável.



Se observarmos que pelo filme passam nomes grandes do cinema norte-americano como Sigourney Weaver (completamente desajustada no seu papel de realizadora de uma cadeia de televisão), Dennis Quaid (a fazer das tripas coração para tornar crível uma personagem tão gasta como a calçada da Praça Mayor em Salamanca onde, supostamente, a trama se desenvolve), Forest Whitaker (que se limita a alguns esgares de representação) e William Hurt (este sim, um actor que não sabe fazer mal) chegamos à conclusão que o povo tem razão quando diz que a albarda não faz o burro.



Sobre a narrativa basta dizer que vem na continuidade da paranóia dos americanos desde o 11 de Setembro explorando a ideia que o mundo está contra o seu povo e os seus representantes são o alvo permanente do terrorismo à escala global. A partir do pretenso assassinato do Presidente Americano ao iniciar um discurso a favor da paz (na espanhola Salamanca, imagine-se!), a realização de Pete Travis, um novato nestas andanças, e um pouco ao estilo do mestre japonês Akira Kurosawa, apresenta o sucedido através do olhar de variadas personagens quer com participação activa nos actos ou meras testemunhas do atentado. Pelo meio há uma perseguição automóvel tão vertiginosa como inverosímil mas que tem o condão de libertar o espectador de um tédio que ameaçava tornar-se em inevitável sonolência.



«Vantage Point» não passa, afinal, de um mero e sofrível objecto de puro entretenimento que não deveria ter saído das fronteiras norte-americanas. Isto porque jamais consegue que a ameaça terrorista se manifeste real e assustadora, as personagens não passam de meros estereótipos de inúmeros filmes do género e é tudo tão irreal que até a cidade de Salamanca foi filmada através dos cenários criados algures no México. Estamos então conversados sobre a quem deve interessar mais um sucesso virtual das forças norte-americanas contra o flagelo do terrorismo. E quando ele deixar de existir é simples, inventa-se.



Vantage Point, de Pete Travis, com Dennis Quaid, William Hurt, Forest Whitaker e Sigourney Weaver




Corações




«Corações», do francês Alain Resnais, é a mais recente proposta do pujante cinema francês em exibição nas salas portuguesas. Adaptado da peça de teatro «Private Fears in Public Places», «Coeurs», no seu título original, obedece a uma lógica de crítica mordaz à sociedade actual. Sobretudo nos meios urbanos, em que cada um vai dissimulando a sua própria solidão com máscaras de personagens que não têm coragem de assumir em público. Neste particular, o filme de Resnais é profundamente caricatural e em termos formais a transição de cenas vai-se dando sob a capa de uma interminável tempestade de neve o que faz lembrar um pouco as origens do argumento. A gélida tempestade de neve, sempre presente até ao final da película, não é mais que um simbolismo ligado ao frio com que batem os diversos corações das personagens em acção.



A narrativa parte da busca de uma casa maior para o casal Dan e Nicole. O par vive uma crise conjugal da qual se mostrará incapaz de sair. Dan é um antigo militar que passa os dias mergulhado no álcool e nas sestas que faz pela tarde fora o que se revela insuportável para Nicole. Arthur é o agente imobiliário de serviço a ambos. Ele que nutre uma secreta paixão pela muito religiosa e puritana Charlotte, sua colega de trabalho. Charlotte que, no final do dia, ainda cuida de Arthur, um velho acamado e louco varrido que é pai de Lionel, justamente o barman do bar do hotel onde Dan passa os dias a emborcar copos. Pelo meio ainda surge Gaëlle, irmã de Arthur, que busca fugir da solidão através de encontros promovidos em jornais e na Internet. Como cereja em cima do bolo, umas estranhas cassetes vídeo supostamente gravadas de programas religiosos acabam por se tornar no sumo dos dias para Arthur.



Nesta incursão cinematográfica por ambientes mais ligados ao teatro, pode dizer-se que a visão de Resnais sobre a solidão das gentes na grande cidade (de Paris) é invariavelmente melancólica e mesmo quando os diálogos se declaram hilariantes partem sempre de um sentimento de desgraça ou menos positivo relativamente à acção das personagens. O refúgio no álcool, na pornografia ou mesmo a aventura de esperar sentada num bar por quem não se sabe rigorosamente nada para além daquilo que está descrito num anúncio de “alguém que procura alguém”, são para a realização a única forma de redenção de almas solitárias sem amor e muito menos esperança de o vir a alcançar. E quando o tentam fazem-no de forma tosca, atabalhoada. Mesmo quando Gaëlle e Dan parecem no bom caminho para o conseguir, rapidamente Resnais lhes retira o tapete da felicidade.



Em suma, estamos na presença de um cinema reflexivo, crítico, mas deveras negativista que surge de França ao estilo das depressões do clima que normalmente nos chegam do norte da Europa. No fundo, é como se Resnais quisesse curar uma bebedeira com outra bebedeira pelo que o tom nada tem de motivador para o espectador que hipoteticamente possa passar pela circunstância de viver na situação descrita de alguma solidão. Apesar disso, no final do filme é possível que esse mesmo espectador sinta uma sensação estranha de bem-estar psicológico. Talvez porque depois de um exigente exercício – mental, neste caso – é bom descansar um pouco e poder avaliar a bondade do esforço feito. Isto pese algum sacrifício passado para o concluir.





Coeurs, de Alain Resnais, com Sabine Azéma, Lambert Wilson, André Dussollier, Pierre Arditi, Laura Morante, Isabelle Carré e Claude Rich





O Cinema na Abordagem aos Homens e Mulheres Portadores de Algum Tipo de Deficiência





Ao reflectir um pouco sobre a questão, chego à conclusão que o cinema abandonou ligeiramente as histórias sobre pessoas com deficiências físicas ou mentais em busca do seu lugar na sociedade. Talvez porque hoje por hoje haja também por parte do cinema um esforço de integração dessas pessoas na referida sociedade evitando tratá-las de forma diferente, ou, então, por questões ligadas ao próprio cinema como o será o facto do chamado overacting estar um pouco fora de moda. E filmes do género são propensos a uma abordagem algo excessiva por parte dos actores.



De tal modo assim é que, puxando pela memória, quase tem que se retroceder até Encontro de Irmãos (com Tom Cruise e Dustin Hoffman) ou mesmo Forrest Gump (Tom Hanks) para encontrarmos cinema centrado nessa temática. O também conhecido I Am Sam – A Força do Amor (Sean Penn) é mesmo um dos exemplos mais recentes que se consegue encontrar.



Ainda assim, A. I. – Inteligência Artificial (de Spielberg) é um filme futurista que se pode enquadrar no género. Nele temos um menino, que é afinal um robô, em busca de se tornar igual aos outros meninos, em busca do amor de mãe. Tal como Pinóquio buscava o amor de pai. Em Spider (de Cronenberg) temos alguém acabado de sair de um hospital psiquiátrico atormentado por uma infância dramática. Mas talvez este seja um filme demasiado complexo para um público ainda bastante jovem. Já Vida Interrompida (com Angelina Jolie e Winnona Ryder) parece retratar uma história interessante e motivadora para o público em causa. O argumento desenvolve-se numa instituição psiquiátrica um pouco ao jeito do clássico Voando Sobre um Ninho de Cucos (Jack Nicholson) mas actualizado nos cenários e adaptado a um universo feminino.



A Estação (ninguém conhecido) é cinema alternativo que conta a vida de um anão a querer fazer vingar a tese de que os homens não se medem aos palmos e Uma Mente Brilhante (com Russel Crowe) é popular e bastante pertinente até porque foi baseado numa história de vida verídica. Há ainda um filme comovente, O Grande Peixe (do genial Tim Burton), que nos narra a odisseia de um homem considerado louco mas talvez mentalmente bem mais são que os designados de saudáveis. Em À Espera de Um Milagre (com Tom Hanks e do Frank Darabont) um negro grande fisicamente mas com mente de criança mostra quão tortuosos podem ser os caminhos da justiça e que há razões que a própria razão se recusa a explicar. E, depois, temos ainda o colorido Nemo, aquele peixinho famoso que tinha uma barbatana deficiente mas que teimou em mostrar ao pai a sua auto-suficiência.



Relembre-se ainda o filme da vida de muito boa gente, Eduardo Mãos de Tesoura (saído igualmente da genialidade de Tim Burton), o muito bom O Meu Pé Esquerdo (com o excelente Daniel Day-Lewis) na história de um tetraplégico a comunicar com o pé, Filhos de um Deus Menor (com William Hurt) no registo surdo-mudo de uma mulher apaixonada e, por último, Kids (de Larry Clarke) que relata a inconsciência louca de uma juventude irreverente e suicida.

A Crítica e o Confronto de Ideias



Tempo houve em que era meu costume aconselhar os filmes de que gostava a todos os meus amigos e conhecidos. Mas com o ganho de maturidade, vamos percebendo que os diferentes percursos de vida, as experiências distintas, questões sociais, morais, ideológicas e a própria formação pedagógica de cada um e outros pormenores de carácter definidores da individualidade são quem determina o gozo que se tem a ver um determinado filme. Isto pese continuar a existir bom e mau cinema, independentemente do que se afirma atrás, e filmes há em que a dissonância de opiniões é grande e da polémica que se gera não se possa afirmar que este ou aquele é dono da razão. Tem tudo a ver, para além do já afirmado, com opções por diferentes tipos de propostas de cinema. Uns, opções de estética e conteúdo mais radicais, outros, por ventura mais consensuais, de sensibilidade mais abrangente.



Daí que continue a fazer sempre esta pergunta: por que é que ainda há tanta gente a ficar ofendida porque A disse mal do filme que B adorou?

Acredito que a troca de argumentos ou, dito de outra forma, o debate de opiniões, é sempre positiva. E muitas vezes, algumas delas até de modo muito improvável, somos confrontados com uma visão oposta que nos leva a questionar os fundamentos que nos levaram a formar a nossa própria opinião. A crítica, seja ela de livros, de pintura, de cinema, etc., é sempre positiva. Desde que realizada de forma honesta e bem fundamentada. E há que não esquecer que o alvo da crítica é sempre o objecto artístico e não o leitor. Quer isto dizer que quem opina pretende ser justo com o filme, no caso do cinema, e não, nem poderia, (somente) agradar a quem o lê.

The Mist - O Nevoeiro



Confesso, à partida, que acredito que a classificação do filme na categoria de terror é demasiado simplista para orientar o espectador em relação àquilo que vai observar na sala escura do cinema. «The Mist – O Nevoeiro», com realização de Frank Darabont, é um filme de terror, é certo, mas sobretudo é um filme de choque emocional e de ensaio sobre o perigo das populações em pânico e das suas descontroladas reacções sob o efeito da comoção. Para além disso, Darabont questiona o fanatismo religioso e, através de uma impressionante Marcia Gay Harden, vai mesmo mais longe ao colocar a nu o aproveitamento que certos pregadores da fé religiosa fazem do ser humano em dificuldades, em situação de debilidade física mas sobretudo psicológica. Este é um dos mais importantes elementos racionais do filme que o leva, posteriormente, a um final absolutamente arrasador para os mais influenciáveis. Um final onde Darabont acaba por questionar igualmente a própria fé humana. Mas aquela fé que deve ser apanágio do ser humano, extra qualquer factor ligado às religiões. Quem for ver o filme vá preparado, pois é com um final de história no mínimo chocante que se irá deparar.



Lembre-se que Darabont detém na sua filmografia como realizador um título fabuloso, um dos melhores filmes da década de 90: «Os Condenados de Shawshank»(1994), que a par deste «The Mist» e do também excelente «The Green Mile»(1999) resultam da adaptação de obras de Stephen King. Talvez nem sequer venha ao caso, mas o cineasta nasceu num campo de refugiados francês filho de pais húngaros em fuga da crise política (tentativa de revolução) no seu país. Daí, talvez, as alfinetadas que não se coíbe de dar nas instituições militares normalmente dependentes do poder político.



Em referência à narrativa de «The Mist – O Nevoeiro», ela gira à volta de uma pequena cidade no interior dos EUA. Um sítio bem perto do local onde foi edificada uma base militar sobre a qual circulam boatos estranhos nas ruas sobre a verdadeira actividade dos soldados na área. Após uma tempestade catastrófica que causa uma série de incidentes com quedas de árvores, casas destruídas e uma avaria grave no sistema de distribuição de electricidade, um estranho nevoeiro começa a abater-se sobre a povoação. Esse nevoeiro vem precisamente do lado das montanhas onde se situa a base militar e, no seu interior, começam a surgir criaturas horrendas, variações deformadas de algumas espécies animais que já hoje coabitam no planeta connosco, os ditos civilizados, os humanos. Fechados num supermercado, David Crayton (Thomas Jane) e o seu pequeno filho Billy (Nathan Gamble) vão tentar a sobrevivência contra os estranhos seres, claro, mas sobretudo contra aquilo que caracteriza o pior que a espécie humana carrega na sua essência. Característica essa que em situações de aflição acaba por inevitavelmente se soltar do indivíduo transformando-se num horrível fenómeno colectivo. Enquanto isto, e à causa também disto, vamos assistindo a muitas mortes. Umas a tiro de pistola, outras por suicídio, algumas outras devido a queimaduras e outras ainda por mais umas tantas razões que em condições normais só a certidão de óbito identificaria. Mas, será lá mais para o fim da película que surge o momento alto do filme: o já falado final. E quando o filme termina e surge o genérico no ecrã, fica a necessidade de continuarmos mais um pouco sentados na sala. A reflectir e a sentir. A sentir uma tristeza profunda mesclada por alguma sensação de revolta. É que nem sempre, quer na vida real quer no cinema, há lugar para finais felizes.



«The Mist – O Nevoeiro», de Frank Darabont, com Thomas Jane e Marcia Gay Harden

Seda





Não há muito que dizer acerca de «Seda», do canadense François Girard. O filme resulta de uma adaptação do ‘best-seller’ escrito pelo italiano Alessandro Baricco e na produção esteve reunida uma autêntica sociedade das nações formada por Canadá, França, Inglaterra, Japão e Itália. À causa de quê, pergunta-se, já que a expressão mais apropriada à visão das quase duas horas de película provém da gíria e designa-se de xaropada.



Depois, dizer apenas que há uma tentativa tão exacerbada de atingir a mais emotiva intimidade do espectador através do triunfo da estética que o resultado virou numa redundância concepcional tão aborrecida que apenas colheu do pobre um enorme bocejo defronte da tela. Não esquecer também a tentada viagem introspectiva do protagonista que nos é evidenciada pelo rosto sofrido e olhar embaciado de um Michael Pitt sem um mínimo de estrutura dramática para arcar com tamanha responsabilidade. Restam-nos os belíssimos rostos femininos das duas actrizes japonesas de serviço, em contraste com uma Keira Knightley irreconhecível a deambular pela tela qual aparição fantasmagórica, e um Alfred Molina invariavelmente competente. Mas não chega. De todo.



Neste poço de sensibilidade onde todos se afogam, incluindo o espectador num sono profundo, destaque-se ainda o gravíssimo erro de uma concepção cinematográfica que confunde aparência com essência. Uma lástima.





Seda, de François Girard, com Michael Pitt, Keira Knightley e Alfred Molina

Michael Clayton, Uma Questão de Consciência



Que acontece quando somos confrontados com o dilema da obrigatoriedade de cumprirmos com os nossos deveres profissionais e a dívida de lealdade para com um amigo que, ainda para mais, descobrimos ser detentor de uma verdade cruel que tem que ser contada ao mundo? Em primeira análise apelamos, creio eu, à nossa consciência. E ou a temos ou não, que é como quem diz ou agimos em nome do bem ou do mal. Não será tanto assim já que através da amostragem dos telhados de vidro de cada um o filme não procura mostrar heróis e vilões. E tem o mérito de não cair no erro de evidenciar a vida a preto e branco. Mas «Michael Clayton – Uma Questão de Consciência», a primeira incursão na realização por parte do brilhante argumentista Tony Gilroy, gira em torno desse vértice de legitimidade entre a moral e a própria legalidade dos (f)actos.



Esclareça-se no entanto que pese a trama se basear na relação de um poderoso escritório de advogados e um seu cliente que a ele recorre por se recusar a assumir a culpa que é sua na morte de quase meio milhar de pequenos agricultores, esta não se resume a uma história de advogados e seus dilemas tal como, por exemplo, é o conhecido filme dirigido pelo aqui actor Sydney Pollack, «A Firma». Não, este é um filme sobre o ser humano, sobre a consciência social e moral de cada um dos intervenientes na trama e as opressões que a mente sofre até que chega ao ponto de ruptura em que o único factor de redenção será a recuperação da liberdade individual até então tolhida pela profissão que se exerce. Quem, esporádica ou mais frequentemente, não a desejou já para si? A tal liberdade, a fuga para aquilo que nos parece algemar e regularizar apartando-nos do nosso eu?



Michael Clayton (um muito seguro George Clooney) é licenciado em Direito, mas na firma que representa como Consultor Especial ele é o homem certo no lugar certo sempre que se trata de resolver os problemas mais graves através da manipulação da lei e tudo feito de uma forma rápida e limpa. Pago a peso de ouro, o seu mundo - que já se encontra em desmoronamento à causa de problemas familiares - quase se despenha por completo quando o amigo, colega e prestigiado advogado Arthur Edens (Tom Wilkinson) morre em circunstâncias pouco claras. Michael começa então a compreender a gravidade dos contornos de um caso em que os ricos, os poderosos, mais uma vez se apoiam nos subterfúgios da lei para se eximirem de responsabilidades. E fazem-no porque podem pagar essa isenção de culpa. A partir deste momento, a narrativa embrenha-se na complexidade psicológica de cada uma das personagens em que não são esquecidas as motivações e constrangimentos que as condicionam.



Reclame-se a não exemplar originalidade da fita, mas reconheça-se a competência com que o filme é conduzido. Sobretudo ao nível das interpretações onde Tom Wilkinson (um perturbado advogado que só atinge a lucidez quando não se encontra medicado) e Tilda Swinton (uma dura e implacável Directora Jurídica que corta a torto indo mais longe que o simples esquecimento do direito e dos direitos do seu semelhante) demonstram toda a sua capacidade dramática logo seguidos de duas muito boas interpretações de George Clooney e Sydney Pollack. No fim, um prémio da realização para George Clooney e seus admiradores. Um close-up do actor à deriva pela cidade a bordo de um Táxi com 50 dólares de quilómetros para percorrer.



Em resumo, estamos na presença de cinema sério a merecer nota muito positiva.





Michael Clayton – Uma Questão de Consciência, de Tony Gilroy, com George Clooney, Tilda Swinton, Tom Wilkinson e Sydney Pollack

Relembrando o Calor da Discussão – Dogville

O Polémico Realizador Dinamarquês Lars von Trier

No meu regresso à cidade, olho o Cartaz de Cinema e constato que «Dogville» (2003), filme tido, por muitos, como obra maior na filmografia do cineasta dinamarquês Lars von Trier, se encontra em cena num Ciclo Especial de Cinema a decorrer algures no nosso país. O acaso leva-me a recordar como foi atacada, na altura, a minha clara rejeição do cinema que se observa em “Dogville”. Quer através de desagradáveis e-mails que recebi, quer em fóruns de cinema.



Não há que evitá-lo e acontece amiúde. Determinado filme vira objecto de culto para muitos quando se trata de matéria de repulsa (não, não exagero na expressão) para outros. Isto, pese a separação que deve ser feita entre o virtuosismo técnico de que Lars von Trier neste filme mais uma vez prova ser detentor (o que não nego, nem poderia) e o já recorrente em si (recorrente ou obsessivo?) tema de fundo que caracteriza o filme: a sua visão trágica, diria mesmo azeda, da essência humana. Não contente com isso, o cineasta dinamarquês ambientou essa sua doentia percepção do homem aos EUA numa época difícil para o seu povo (o 11 de Setembro de 2001 ainda estava bem fresco nas nossas memórias). A mim pareceu-me que von Trier não só destapara a ferida como se lançara sobre ela disposto a remexê-la, a causar dor. E isso, confesso, desagradou-me sobremaneira sabendo eu que nessa intenção nada havia de ingénuo.



Mas não foi só. É que curioso foi igualmente perceber que o tão exaltado brilhantismo da sua abordagem formal ao filme, que chegou a ser apelidada de cinema do futuro, assenta numa ‘mise en scène’ que tem tudo a ver com o teatro e quase nada com o cinema. Assim, o espectador é convidado a efectuar uma viagem que cinematograficamente o não leva a parte alguma e de toda a desintegração de valores a que assistimos sobressai apenas um egocêntrico Lars von Trier como figura máxima desse existencialismo negativista.



Apesar de tudo, «Dogville» não é um filme para se odiar. Nicole Kidman – sobretudo ela, Ben Gazzara e companhia acabaram por retirar, com as suas estupendas interpretações, mais esse pequeno prazer ao controverso realizador que viu gorada a sua subjacente provocaçãozinha. Afinal, prova-se que ao contrário do provérbio também há bens que vêm por mal.





[Esclareça-se que nada me move contra o senhor; Ondas de Paixão (1996) do mesmo Lars von Trier, até faz parte do lote dos meus filmes preferidos.]

A Passagem do Tempo – Giovana Mezzogiorno

Giovana Mezzogiorno em «A Janela em Frente», 2003

Depois de ter assistido a «O Amor nos Tempos de Cólera» e ter ficado desolado com a interpretação da actriz italiana Giovana Mezzogiorno, estive a reler algumas críticas minhas a filmes protagonizados pela actriz. E que saudades senti, dadas as diferenças encontradas.



Apenas 5 anos atrás, em 2003, a propósito do flme «A Janela em Frente» reparo como enalteci a beleza tão próxima de nós, nunca distante, da mulher. Para mim, à altura, e explicando melhor as minhas palavras, Giovanna Mezzogiorno apresentava-se na tela grande do cinema como uma mulher de uma beleza perfeitamente natural, nada etérea e quimérica, mas daquelas mulheres com quem deparamos na rua e cujo simples olhar tem o condão de nos melhorar o dia. O mesmo sucedera com «O Último Beijo», filme de 2001.



Em «O Amor nos Tempos de Cólera», Giovana está longe deste retrato sonhado. Fria, distante, seca, sem o encanto capaz de tornar credível o amor daquele homem ou sequer de transportar para o espectador o arrebatamento que faz do cinema essa arte ímpar, deslumbrante. E as culpas, neste caso, não incidem unicamente sobre a direcção de actores ou sobre a caracterização. O olhar, a expressão do rosto, provam-nos que não. Condene-se apenas o trabalho de casting do filme, talvez Giovana Mezzogiorno não tivesse as características necessárias para o papel.
Uma pena.

Uma História Simples



Há filmes que nos marcam para sempre e que a poeira do tempo não mais varrerá da nossa memória. Hoje, ao arrumar precisamente algumas caixas de filmes, um deles transmitiu-me uma sensação especial ao contemplá-lo. Sentei-me um pouco e relembrei, anos atrás, a emoção que experimentei ao vê-lo na tela grande do cinema.



Foi num dos muitos dias de 1999 em que entrei numa das salas de cinema do CC Saldanha Residence, em Lisboa, para assistir a mais um filme. Parece propositada a ressonância poética, mas não, chovia mesmo e estava bastante frio lá fora. Lembro-me perfeitamente. Apesar disso, cerca de duas horas mais tarde quando saí da sala sentia-me reconfortado. Na mente e na alma. Nada disso importava. Nem a chuva, nem o frio, nem o trânsito a respingar água para os transeuntes desprotegidos no passeio ao longo da avenida. Nada. Naquela hora, até para bem alto o meu pensamento voou e soaram-me ainda mais inúteis, tremendamente vazias de sentido, as querelas que os homens fazem questão de alimentar e nos condicionam a todos no dia-a-dia. Tinha acabado de assistir a «Uma História Simples», de um surpreendente e atípico David Lynch.



Pese o nome grande do cinema que assinava a obra, e de cujo trabalho sou adepto, era no entanto outro o nome que baloiçava na minha mente. O de Alvin Straight, um homem velho, de barbas descuidadas, olhar azul e tímido que cruzou as pradarias norte-americanas ao longo de centenas de quilómetros no simples intuito de visitar o seu irmão doente e com quem se encontrava desavindo. Alvin não queria, não podia, deixar que algo pudesse acontecer ao seu irmão, que este pudesse deixá-lo sem que antes lograssem entender-se, recuperar a comprometida relação de irmãos, fumar um cigarro a seu lado. Para que fosse possível cumprir o seu desejo, adaptou um velho cortador de relva para nele poder fazer a viagem. Uma viagem de mais de 400 quilómetros onde foi colhendo amizades ao longo de um percurso de dias e noites sujeito aos caprichos do tempo. Pediu ajuda, comeu com quem lhe ofereceu mesa, assou salsichas em fogueiras acesas em clareiras iluminadas pelo luar… Foi difícil, mas conseguiu.



Está na hora de rever esse fantástico filme, essa poderosa lição de amor fraterno, que é «Uma História Simples» («The Straight Story»), de David Lynch.

O Amor nos Tempos de Cólera

Um Amor Impossível ou Quando o Cinema não faz Justiça à Literatura

Florentino Ariza, poeta e humilde funcionário dos telégrafos da colombiana Cartagena, apaixona-se perdidamente por Fermina Daza, recém chegada à cidade. A paixão de Florentino é explosiva, de um romantismo inabalável, o seu amor irá quedar-se em si para todo o sempre. Mas a modesta classe social de Florentino leva Fermina a casar com o Dr. Juvenal Urbino, médico, aristocrata, alguém que é ainda bastante respeitado pelo que fez na cidade ao livrá-la da cólera, doença que na altura fustigava os locais. Florentino, fiel ao seu grande amor, irá esperar mais de 50 anos pela sua amada procurando, entretanto, ser feliz sem a mulher da sua vida.



Esta é, em traços gerais, a trama do filme que adaptou para o cinema um dos mais importantes livros do consagrado escritor latino Gabriel Garcia Marquez, O Amor nos Tempos de Cólera. Adaptar uma obra literária desta estirpe ao cinema, dada a diferença de modelos de narrativa, pode redundar num grande filme ou… numa obra tremendamente falhada. Infelizmente, estamos na presença do segundo caso. Quer pela realização de Mike Newell quer pelo espalhafatoso fracasso das interpretações da maioria do elenco com destaque (negativo) para Giovana Mezzogiorno e Javier Bardem, no fundo as duas personagens principais de uma lendária história de amor.



Falar de amor, em cinema ou noutra qualquer expressão artística, requer uma sensibilidade extrema. Isto se quisermos tocar o âmago de alguém, emocionar alguém. E «Love in the Time of Cholera» está muito longe de ter atingido esse elevado nível de sensibilidade. Por respeito ao notável escritor colombiano, diria mesmo que estamos perante um embuste. Não existe na narrativa força dramática que nos faça acreditar na tragédia de um homem que espera 50 anos pela sua amada, não se percebe química alguma entre Bardem e Giovana Mezzogiorno e o histrionismo que a direcção de actores invariavelmente permitiu, transferiu para uma espécie de comédia o que deveria ter sido um drama épico. Exceptue-se aqui Benjamin Bratt, o Dr. Juvenal Urbino.



Não, recuso-me a aceitar que alguém possa acreditar que um ridículo Florentino Ariza pudesse ser alvo do interesse superlativo das mulheres, que um poeta burlesco conseguisse amar com a força que se lhe pressupunha e, até, detivesse na alma o idealismo que o levasse a tão grande acto de amor. E a Fermina Dazza de Mike Newell esteve a quilómetros do encanto e da candura necessários ao enredo amoroso que a envolve, não possuiu sequer a beleza que se impunha ou a personalidade intensa e cativante que um amor como o de Ariza exigia.



Para além de tudo isto, o filme é monótono em muitos momentos e a caracterização das personagens excessiva. Mas nada supera a gravidade que foi alcançada ao não se conseguir perceber a dimensão realística da escrita de Gabriel Garcia Marquez. O artificialismo impera e o que era um amor impossível, algo que sobressai da intimidade mais fervorosa do ser humano, acaba transformado num mero amontoado de trejeitos, caracterizações, cenários e roupas de época sem espaço nem lugar para a emoção.



Expiação









Cecilia e Robbie.

Cecilia Tallis e Robbie Turner. Uma paixão maior que a vida, um amor que sobrevive a tudo. À mentira, à infâmia, ao afastamento, à dor, à guerra. Cecilia é a filha dos senhores de uma sumptuosa mansão na Inglaterra dos anos 30, Robbie é filho da governanta. Ele licenciara-se em medicina com o apoio do grande proprietário mas, para os membros da classe abastada, não passará nunca do filho da criada e jamais poderia ousar assemelhar-se a eles, aos escolhidos, juntar-se-lhes em igualdade de classe. No entanto, quis o destino que Cecilia e Robbie se apaixonassem perdidamente um pelo outro. E quando, após um pequeno desentendimento, Robbie escreve num pequeno pedaço de papel algumas palavras debruadas pelo fervor da paixão dizendo à sua amada que “anseia por beijar-lhe a cona húmida, a doce cona húmida”, é mesmo disso que se trata: de paixão, de arrebatamento, do desejo da carne motivado pela ebulição da alma. Levado, afinal, por um amor que lhe queima as entranhas.



Keira Knyghtley é Cecilia, James McAvoy corporizou Robbie e o londrino Joe Wryght realizou este emotivo filme a partir da obra escrita de Ian McEwan. Lá mais para o final da fita surgirá em todo o seu esplendor uma Vanessa Redgrave que vem para nos dar a triste notícia. Fá-lo de forma contida, serena, sorri com a tristeza de quem reconhece ter cometido um erro imperdoável enquanto criança. Na face enrugada da velha escritora, ela que causara danos irreparáveis quando era somente a pequena Briony Tallis irmã de Cecilia, já não há rastos de culpa. Naquele rosto, naquele olhar resignado, desgastado, existe apenas a consciência da transgressão cometida. De um pecado que acabaria por lhe ditar uma vida inteira em total…expiação.



Se quisermos ser inteiramente honestos na apreciação crítica, se esquecermos a comoção e olharmos com frieza a realização de Joe Wright deparamos com um filme imperfeito, com o desenrolar de algumas cenas que parecem emperrar o normal desenvolvimento da trama. Mas não, isso não é possível. Para quem Sente está terminantemente proibida a visão do filme desprendida de emoção. E a honestidade crítica não é para aqui chamada. Até porque há pormenores técnicos no filme dignos de registo, que requereram algum virtuosismo de processos. Refiro-me à montagem, ao manuseamento da câmara sobre os rostos perturbados ora pelo calor opressivo das paisagens campesinas de Inglaterra ora pelo testemunho das agruras da guerra. E depois há a banda sonora, fantástica. E há uma Kiera Knightley saída em roupagem íntima do interior de um lago qual Senhora das Águas. Felizes os contemplados com tão divinal visão. Obrigado, Senhor…Joe Wright.



«Expiação» é cinema clássico, digam-no. Sim, também tem pouco de original, não nos toca sequer pelo arrojo formal da sua concepção. O filme é mesmo uma adaptação, como já se disse, de um livro. Ou seja, parte da genialidade de alguém exterior ao cinema. Tudo isso é verdade. Mas a grande verdade, a verdade que interessa gritar, é que «Expiação» retrata com extrema sensibilidade a impiedade que vastas vezes se abate sobre os homens e as mulheres. Neste caso, ironicamente, a partir da história de um grande amor.



A não perder. De forma alguma.

Primeira e Entusiástica Impressão - «Expiação», Filme Clássico ou a Classe Insofismável do Cinema

Apenas hoje vi «Expiação». Não, não vou escrever por agora nenhuma crítica ao filme. Nem poderia, dado estar ainda sob o efeito emocionalmente devastador que este teve em mim (sim, devastador, já que faz aqui todo o sentido um alegado exagero da expressão). Mas não conseguiria adormecer se não viesse agora mesmo escrever o quanto é bom (re)ver cinema realizado ao estilo mais clássico, adornado ainda por uma paixão maior que a vida e uma banda sonora soberba. Cinema, ainda, diga-se, onde se sentem fortíssimas as fragrâncias da palavra escrita ou, se quisermos, o colorido romanesco que só a génese literária concede.



Confesso que antes de começar a amar o cinema já era um sonhador licenciado com muito boa nota. O cinema proporcionou-me a extensão do sonho. Da paixão pelos filmes tenho obtido um retorno que não é nem pode ser quantificado. O cinema comoveu-me, divertiu-me, fez-me reflectir, abriu-me novos horizontes, obrigou-me a olhar para diferentes pontos de vista, alertou-me, sensibilizou-me… E «Expiação» enquadra-se numa filosofia mais clássica, mais simples mas não menos importante de amor por uma arte que ao longo dos anos se tem vindo a aperfeiçoar, se sofisticou e adaptou aos novos tempos, à realidade actual.

Um último pensamento para Keira Knightley. A imagem da actriz a sair de vestes molhadas de dentro de um pequeno lago é de uma formosura alucinante, sedutora, indutora de sonho e fantasia. Em suma, um retrato de magistral beleza proporcionado pelo encanto singular da actriz.

Dos Mistérios da Vida, Os Insondáveis e Maquiavélicos Desígnios da Mente






AINDA A REALIDADE VERSUS FICÇÃO





No texto anterior, falava-se textualmente em como não raras vezes a realidade pode ultrapassar a ficção na suposta improbabilidade dos factos. Ou, dito de outro modo, em como determinados acontecimentos de tão chocantes, de tão surpreendentes, dificilmente poderiam sair da imaginação do ficcionista. Assim, talvez valha a pena esticar um pouco mais a manta da questão.





OS INDESCRÍTIVEIS FACTOS



Durante o ano de 1993, desde França para o mundo, a notícia causou estupefacção e incredulidade ao relatar os pormenores sórdidos da inacreditável história de vida (e de morte) de Jean-Claude Romand. Em traços gerais, um homem tornara-se refém da sua própria essência dominada pela cobardia quando após mentir durante 18 longos anos à sua família e amigos não aguentou mais o pesado fardo do embuste em que vivia e, incapaz de lhes confessar a cruel verdade, acabou por assassinar os filhos, a mulher e os pais.



Tudo começara nos tempos da universidade. Aí, enquanto estudante de medicina, Romand cometera um erro grave e não mais terminaria a licenciatura. Escondida a dura verdade de todos quantos o rodeavam, tornou-se então para os que o circundavam no pai extremoso, no marido atento e carinhoso, no médico com um importante cargo de investigador na ONU. Entretanto, (sobre)vivia de esquemas e falsidades, refugiava-se em hotéis de beira de estrada, parques de estacionamento, áreas de serviço e embrenhava-se no interior dos densos bosques existentes entre a Suiça e a França. Romand tornara-se prisioneiro da sua própria incapacidade de lidar com a verdade, tornara-se um cobarde miserável. Um homem fraco que não se coibia de se travestir de herói à escala familiar.





O ADVERSÁRIO (2002), de Nicole Garcia com Daniel Auteil






O EMPREGO DO TEMPO (2001), de Laurent Cantet com Aurélien Recoing






O CINEMA



Por duas vezes o cinema se debruçou sobre este caso recheado de sofrimento e malvadez. Em 2001, Laurent Cantet explorou as cambiantes psicossociais do acontecido focadas no mundo do trabalho. O filme intitula-se «O Emprego do Tempo» e tornou-se num belíssimo e interessante ensaio filosófico sobre a questão. Já em 2002, Nicole Garcia atreveu-se a narrar quase fidedignamente os trágicos acontecimentos em «O Adversário», um filme que se assemelha a uma espécie de poesia do desespero. E cada um do seu modo, os dois filmes exploraram a dolorosa realidade com uma sensibilidade notável descodificando a quem os assistiu o incompreensível e tresloucado acto de Romand. Sem perdão, contudo.



O Lado Selvagem

A Felicidade Era já Ali

Por onde começar? Que dizer de um filme extremamente comovente onde alguém busca uma espécie de desprendimento salvador do que entende como os malefícios da sociedade e acaba por se ver refém exactamente daquilo em que acreditava como sendo a verdadeira felicidade?





[Antes de mais, antes mesmo de falar objectivamente do filme, dizer que na ainda curta filmografia de Sean Penn como cineasta, a natureza tem um papel fundamental no ser humano como solução redentora para as dificuldades psicossociais com que este tropeça na sua trajectória de vida. Apesar disso, acredito que se Penn quiser chegar como realizador ao patamar que já atingiu como actor, terá que arrepiar caminho numa certa grandiloquência invariavelmente presente no seu modus operandi. Sobretudo quando ensaia a exposição do vértice homem – natureza. E em «O Lado Selvagem» não fugiu à (menos boa) regra.]



À partida, arrisco dizer que o filme «O Lado Selvagem» funciona como uma trágica ironia do destino associada a um jovem que aproveita os problemas que foi coleccionando na sua relação com os pais para se pôr de mal com o dito mundo civilizado. Após a licenciatura na universidade como aluno brilhante, Christopher McCandless (Emile Hirsch) doa todas as suas economias e parte com uma mochila às costas em direcção ao Alaska e àquilo que entende preencher todas as suas necessidades: viver da natureza apartado do resto do mundo. Sem qualquer dinheiro – já que queima as últimas notas que lhe restam – entre os poucos pertences que transporta consigo, fazem parte algumas obras de importantes escritores, um outro livro que ensina a colher a sua própria alimentação da natureza e, entre outros apetrechos, um profundo rancor pelos pais. Pais que, pese os eventuais erros cometidos, o amam verdadeiramente e sofrem com a sua perda. Mas o que esperava constituísse a redenção para todos os seus males acaba por se tornar na sua maldição. Christopher, como seria expectável, perde na luta que se vê obrigado a travar com a natureza.



A dor de Christopher era, afinal, a única razão da sua existência. Insensível ao dito de um velho e sábio homem (um fabuloso Hal Holbrook) que lhe dá guarida durante uns dias – ele que lhe diz qualquer coisa como “ao perdoarmos é que estamos verdadeiramente a amar” –, o desafortunado aventureiro ainda tem tempo para perceber que “a felicidade só existe quando partilhada”. Refém da natureza e do seu próprio projecto de vida, o filme tem o condão de nos convidar a olhar bem para o que nos rodeia antes de decidirmos que não somos felizes ou que o que temos não nos basta. Também para nos ajudar a perceber que ainda que o que tenhamos nos desagrade pode ser esse o ponto de partida que ajude a construir os alicerces do amanhã.



Baseado numa história verídica, aqui se prova que o declínio da ideia de salvação pode muito bem iniciar-se quando tomamos consciência do que consiste a verdadeira felicidade. E esse momento fulcral de auto-consciência da necessidade de viragem, pode dar-se tarde demais. «Into the Wild» contém, em resumo, uma inesperada e irónica lição de vida. Possui ainda uma fotografia lindíssima que resulta muito bem acompanhada das vozes em off. E ao longo do desenrolar da película, jamais se perde a sensação de humidade no olhar mas sem nunca chegar a cair uma lágrima. E isso joga a favor do filme e da realização de Sean Penn.



A ver com os olhos da alma sem esquecer a necessária reflexão.


O LADO SELVAGEM, de Sean Penn, com Emile Hirsch, William Hurt e Marcia Gay Harden


No Vale de Elah



«No Vale de Elah» não é apenas mais um filme sobre a guerra nem o Iraque se revela aqui como o novo filão do cinema norte-americano na cicatrização das feridas que conflitos militares desta natureza sempre provocam nas sociedades que os vivem. De facto, existe um novo fantasma na sociedade norte-americana que Paul Haggis (ele que realizou «Crash» em 2004) não tenta exorcizar mas que explora na plenitude, nomeadamente através da personagem de um actor em estado de graça, Tommy Lee Jones: a verdade sonegada e, em paralelo, a busca dessa verdade.



Hank Deerfield (Tommy Lee Jones) é um veterano da guerra que é confrontado com o desaparecimento do filho no seu regresso do Iraque para a base nos Estados Unidos. Deerfield recusa que o filho seja um desertor e parte em sua busca. Daqui para a frente as imagens confrontam-nos com acontecimentos mal explicados – designadamente a descoberta da morte horrível do filho de Deerfield – perante a absoluta indiferença da polícia local e os obstáculos colocados pelos militares. Haggis, que também co-escreveu o argumento, inventa então uma detective (Charlize Theron) com rabos-de-palha na ascensão que teve na carreira mas que se voluntariza no apoio à investigação de um pai a tentar descobrir o que realmente aconteceu com o filho. Mas esta, a introdução da detective na intriga, é uma história colateral desnecessária para o que efectivamente sucede na trama. Bastava que a câmara de Haggis se dedicasse quase em exclusividade ao one man show protagonizado por Tommy Lee Jones cuja espessura dramática da personagem a par da interpretação contida mas irrepreensível do actor, são na verdade o tesouro mais precioso que o filme nos oferece.



Ainda assim, «In the Valley of Elah», no seu título original, é uma interessante proposta fílmica se esquecermos igualmente o desfile de personalidades do cinema como Josh Brolin, Jason Patric e Susan Sarandon cuja presença no elenco mais não visou que apelar à ressonância do nome próprio de cada um. Eu, pelo menos, não os vi por lá ou quando os vi vi-os mal (Sarandon).





NO VALE DE ELAH, de Paul Haggis, com Tommy Lee Jones e Charlize Theron

Beijos que a História Relembrará






«Mulholland Drive», ano de 2001, obra-prima de David Lynch, hino de lamentação, cântico de amor e de paixão, crónica de tristeza e tragédia. O sonho ou a realidade? Simplesmente a genial singularidade do realizador. É deste filme uma das mais fantásticas cenas de beijos do cinema. Entre duas mulheres consumidas pelo desejo.

Betty e Rita ajeitam-se entre os lençóis. Desde a almofada esverdeada em que aconchega a cabeça, Rita olha Betty com a excitação reflectida no seu olhar forte, dominador. Ergue-se aproximando-se da outra para o beijo de boas-noites. Betty, tímida, inclina-se igualmente na direcção da cena tórrida de amor que se pressente. Ela olha Rita quase em súplica, quer ser tomada, amada. A câmara de Lynch capta os rostos vivos do sangue que fervilha nas veias das duas mulheres, Rita toca suavemente com os seus lábios nos lábios de Betty e esta corresponde decidida à carícia, beijam-se com fervor. Os olhos fechados, os músculos relaxados pelo desejo, a sensualidade extrema que avulta da tela.

- Alguma vez fizeste isto? – questiona Betty com doçura.

- Não sei… Tu fizeste? – Rita não quer saber, apenas quer viver o momento.

Os corpos desnudam-se, a respiração torna-se ofegante, rápida. As duas mulheres acariciam-se nos seios rijos, belos e cativantes que a película não protege. As bocas unem-se num novo beijo, num beijo longo, profundamente apaixonado. Em cada gesto, em cada olhar, Betty sugere viver momentos de prazer único:

- Apaixonei-me por ti.

- Apaixonei-me por ti.

Rita responde-lhe com entrega física, com afecto pleno de desejo, de volúpia. Consumada a união dos corpos, saciada a sede de paixão, as duas mulheres adormecem amenizadas.

Durante o sono Rita murmura algo, o tom agiganta-se, o pesadelo possui-a por inteiro:

- Silêncio.

- Silêncio.

- Não há orquestra.







MULHOLLAND DRIVE, de David Lynch, com Naomi Watts e Laura Harring





Como de Beijos em Cinema se Fez Prova de Uma Amizade Maior que a Vida



«Cinema Paraíso», realizado em 1988 por Giuseppe Tornatore, é um dos mais belos e tocantes filmes da história do cinema que, por sua vez, homenageia o próprio cinema e a sua inigualável magia. O filme conta a história da amizade entre o pequeno Salvatore e o velho projeccionista Alfredo. Já próximo do final do filme, muitos anos depois do convívio entre o homem bom e a criança sonhadora, os beijos tomam lugar no ecrã e a nostalgia das memórias de alguém toca-nos de uma forma emocionalmente esmagadora.



Salvatore recebe a notícia da morte de Alfredo e um pequeno legado que este lhe reservara. Regressado do funeral do amigo, sentado numa sala de projecção em Roma, o agora realizador de cinema observa emocionado o que Alfredo lhe prometera dar muitos anos antes: as cenas que cortara da película original dos filmes obrigado pela censura que ao tempo vigorava em Itália. Pela tela desfilam muitos dos beijos que fizeram a história do cinema. E Salvatore sofre de saudade, contorce-se na cadeira da sala onde se vai afundando cada vez mais num choro compulsivo a que o obrigam a amizade profunda por um homem agora desaparecido e o amor que ambos nutriam pelo cinema.



Simplesmente extraordinário pela força das emoções. Arrasador.





CINEMA PARAÍSO, de Giuseppe Tornatore, com Jaques Perrin e Phillipe Noiret

Ed Wood, 1924 - 1978

Num momento em que aqui mesmo ao lado, na barra lateral do blogue, está a decorrer uma sondagem – limitada a alguns nomes, é certo – para a escolha do melhor realizador da história do cinema, talvez faça sentido inverter as coisas e dar-vos a conhecer um texto que em tempos escrevi para uma revista de cinema sobre aquele que foi considerado o pior realizador da história do cinema. Apesar disso, Ed Wood pertence por direito próprio à galeria das grandes figuras da história da 7ª arte. Até porque, tal como refere o texto, nunca abandonou o seu sonho: o cinema.



Considerado dois anos após a sua morte como o pior realizador da história do cinema, Ed Wood é hoje uma lenda e motivo de culto para cinéfilos de todo o mundo



Edward D. Wood, Jr. nasceu a 10 de Outubro de 1924 numa pequena localidade do Estado de Nova Yorque. Manifestando desde muito cedo uma extraordinária paixão pelo cinema, sendo primeiro um adepto dos western e posteriormente fanático pela obra de Orson Welles, a quem desejava repetir o sucesso, Ed Wood viria a demonstrar-se um caso típico de infortúnio e dedicação a uma arte para a qual sempre evidenciou uma incrível falta de talento.



Chegado a Hollywood no ano de 1946, em 1948 o realizador, actor, argumentista, produtor e editor já dirigia a sua primeira longa-metragem e primeiro grande fracasso, “The Casual Company”, em que os protagonistas eram o próprio e a noiva e onde desde logo deu provas de uma total incapacidade para a função. Apesar disso, Wood nunca desistiu de lutar pelo seu sonho e um dos seus estratagemas para promoção dos seus filmes era apostar em nomes de algum modo mediáticos mas sem a menor vocação para a interpretação ou desde há muito acabados para o cinema. Neste âmbito, ganham destaque Bela Lugosi, famoso pela sua interpretação de Drácula mas que havia muitos anos tinha sido marginalizado por ser consumidor de drogas, Thon Johnson, um atleta sueco de luta-livre que sequer aprendeu a falar correctamente inglês e uma antiga apresentadora de televisão de nome Vampira. Os restantes componentes dos seus elencos eram actores indizíveis pela sua arte. Ou falta dela.



Os títulos mais famosos da peculiar filmografia de Ed Wood são “Glen or Glenda” (1953), uma obra inspirada na mudança de sexo e que continha muito de autobiográfico do realizador – ele que sempre gostara de se vestir com roupas femininas embora não fosse homossexual, “Bride of the Monster” (1955), que rendeu bom dinheiro mas cujos direitos Wood vendera, e «Plan 9 from Outer Space”, considerado o pior filme de sempre do cinema.



Tal como os seus filmes, onde as paredes abanavam, copos caíam e os actores se enganavam sem que o realizador repetisse uma cena, também na vida privada não se pode dizer que fosse tudo um mar de rosas para Wood. O seu primeiro casamento com Norma McCarthy mostrar-se-ia bastante frágil resistindo apenas poucos meses. Casaria depois com Kathy Wood num enlace que duraria até à sua morte, aos 53 anos, depois de se ter refugiado no álcool e na filmagem de pornografia.



Em 1994, Tim Burton debruçou-se sobre a sua vida homenageando o realizador no filme “Ed Wood”, em que Johnny Depp fez de Wood (ver cartaz acima).

Este País não é Para Velhos

Sejamos honestos, numa sociedade cada vez mais normalizada, economicista e dependente, surpreende pela positiva verificar o elogio da loucura que foi idealizado pelos membros da Academia de Hollywood ao elegerem «Este País Não é Para Velhos» como o melhor filme de 2007. Mas, caramba, vamos lá a abrir os olhos, não passou disso mesmo. Infelizmente, acredito estarmos perante um filme non sense no pior sentido do termo, muito aborrecido aqui e ali e, arrisco dizer, um filme falhado. Ninguém me tira da ideia que a realização dos dois peculiares irmãos não quis mais que contar uma anedota, bem embrulhada em papel modelo sátira, é certo, mas uma anedota que se revelou sem grande piada. Mas a Academia riu abundantemente embora, quero crer, sem saber lá muito bem porquê. O que resulta disto é que se há algures por aí uns tolinhos (sorry) não são certamente os Coen.



Os irmãos Coen, esses, reconheça-se, fazem da alienação a sua arte. Mas em cinema nem sempre isso basta e neste seu filme ficaram muito aquém do minimamente exigível. E quando se tem bons actores (Tommy Lee Jones, por exemplo, deu-se muito bem como Sheriff Bell), uma fotografia admirável e, o melhor do filme, alguns diálogos assombrosos em inteligência e humor, já se pedia pouco a Ethan e Joel Coen: pedia-se apenas que conseguissem alguma profundidade psicológica quanto ao argumento e às personagens e, já agora, que procurassem que a história que quiseram contar fizesse algum sentido aqui e ali. O final do filme é paradigmático desta falta de senso. Somou-se dois mais dois, a conta deu cinco, estava errada e ninguém a corrigiu.



Uma outra nota para a personagem de Javier Bardem – protagonizada de modo muito sofrível por este – que não destoa do restante: a sua caracterização tem montes de piada, ok, mas porquê assim? Quem é este homem, por que age o diabo do rapaz de modo tão desapiedado e desapaixonado e, sobretudo, por que não matou ele o idiota que lhe corta o cabelo daquele modo ridículo? Se calhar até matou, mas ninguém no-lo disse. E terá, a tê-lo despachado, Anton Chigurh (Bardem) usado no assassínio do seu barbeiro oficial o original método da moedinha e da escolha de cara ou coroa? Estes Coen são um pagode e levaram o seu circo até aos Óscares. Com sucesso, diga-se.



Em suma, se aquele país não é para velhos este filme não o prova. É que, ironicamente, para além dos já citados diálogos admiráveis o melhor de si é, afinal, o velho Sheriff Bell. E os novos que vagueiam pela tela parecem umas baratas tontas a atirar em tudo quanto mexe. Mas é justo, no fundo no fundo é tudo uma simples questão de cara ou coroa. Eh!



ESTE PAÍS NÃO É PARA VELHOS – de Joel e Ethan Coen, com Tommy Lee Jones, Josh Brolin e Javier Bardem

Haverá Sangue



«Haverá Sangue» é cinema no seu estado mais puro, mais genuíno. Realizado por Paul Thomas Anderson – que já nos tinha oferecido os fabulosos «Jogos de Prazer», «Magnólia» e «Embriagado de Amor» - o filme conta ainda com um actor cuja maior homenagem não é a entrega de uma qualquer estatueta pelos seus pares mas o reconhecimento do público de que é alguém que não se serve do cinema mas que, pelo contrário, serve o cinema com o brilhantismo e a entrega de muito poucos.



Passado nos primórdios do Séc. XX quando começavam a surgir os primeiros magnatas do petróleo, a narrativa descreve um prospector cujo único objectivo na vida é o de se tornar milionário não evitando seguir qualquer meio justificado este apenas pela finalidade que se propôs alcançar. Plainview (Day-Lewis) é um perfeito pulha que, ainda para mais, despreza o seu semelhante; por exemplo, não se lhe conhece um relacionamento com o sexo oposto e toda a ascensão que logra alcançar assenta numa podridão sem limites. A rivalizar consigo no modo deplorável como pauta a sua vida, apenas Eli Sunday (Paul Dano) o asqueroso líder espiritual da pequena e decadente cidade onde se situam as terras inóspitas que irão trazer a prosperidade a Plainview.



Em suma, «There Will Be Blood» – no seu título original, pelo seu abstraccionismo está longe de ser cinema fácil de apreender pelo espectador menos avisado. Isto, com excepção da interpretação assombrosa de Daniel Day-Lewis que poucos deixarão de não reverenciar. Para o facto de ser um filme de percepção delicada conta o pormenor da realização se ter soltado das amarras do sentimentalismo para construir um desapaixonado retrato sócio-cultural da América. A América das oportunidades, da liberdade absoluta mas onde verificamos existir uma completa ausência de valores civilizacionais e humanos por muitos daqueles que atingiram o sonho. Em «Haverá Sangue» não há lugar para mulheres bonitas, homens charmosos ou vidas de causar inveja. Na verdade também não há muito sangue. Há sim petróleo, terras de natureza hostil, dureza e seres humanos de personalidade ensombrada pela cobiça que fundamenta a sua existência enquanto seres vivos.



HAVERÁ SANGUE de Paul Thomas Anderson, com Daniel Day-Lewis e Paul Dano.

O Filme






























De Olhos Bem FechadosQuem me conhece sabe bem que não tenho um filme da minha vida. Seria demasiado redutor e impróprio simplificar a nossa imensa paixão por tão belíssima e inspiradora arte num só filme. Contudo, há aqueles filmes que nos marcam para sempre por muitos mais que possamos vir ainda a assistir. São filmes únicos cuja essência toca os nossos mais recônditos sentimentos e nos impulsionam os sentidos para o êxtase.



«De Olhos Bem Fechados» é um desses filmes. Derradeira obra do mestre das imagens em movimento, ainda para mais aproveitando a música como ninguém para as suas realizações, Stanley Kubrick refugiou-se nos problemas de um jovem casal e fez com que os fantasmas que os assombravam desfilassem perante nós num cenário de fortíssima intensidade psicológica.



Kubrick, que muitos que com ele conviviam por obrigação profissional testemunhavam ser um homem de trato difícil e cujos filmes o absorviam de tal modo que lhe restava muito pouco tempo para tratar de si até nas necessidades mais básicas, era no entanto um perfeccionista como realizador de cinema, um verdadeiro psicólogo das imagens. E em «De Olhos Bem Fechados», Tom Cruise e Nicole Kidman, à época marido e mulher também na vida real, protagonizaram uma história moderna onde as fragilidades da natureza humana se cruzaram com imagens de mulheres lindíssimas em coreografias irrepreensíveis levando a cabo, por exemplo, uma orgia que se confundia amiúde com a grandeza de uma ópera épica ou a singularidade de uma pintura excepcional.



É, no mínimo, um filme obrigatório. E que pertence ao imaginário cinéfilo de muitos de nós.



DE OLHOS BEM FECHADOS, de Stanley Kubrick, com Tom Cruise e Nicole Kidman

A boa educação


[Daria Werbowy]





Aproveitando a minha estadia na cidade, mandei uma mensagem a uma amiga a convidá-la para tomar um café. Percebi de imediato que me tinha enganado no número. Apesar do meu equívoco, recebi de alguém que estava certamente longe de me conhecer, uma mensagem escrita – para os amigos e conhecidos diz-se SMS – que declinava delicadamente o convite: ‘desculpa, não estou; tem paciência, volto mais tarde.’
Confesso, a elegância alheia deixa-me invariavelmente bem disposto. Fui tomar um banho e cantei o hino nacional.


A Metamorfose

«A Metamorfose», de Franz Kafka, é sabido, é uma obra essencial. Li o livro há alguns anos atrás numa altura – jovem estudante – em que via o simbolismo da tragédia de Gregor Samsa numa dimensão meramente literária e puramente filosófica da vida. Era o tempo do sonho, da idealização dos projectos, da sensação de que aquilo que desejamos depende apenas de nós e da nossa capacidade de realização. Hoje, mais do que compreender Gregor Samsa percebo Franz Kafka. E aquele conjunto de conceitos metafísicos tornou-se algo de uma possibilidade tremendamente real a cada novo desafio do quotidiano. Converteu-se, por assim dizer, num obstáculo permanente e de risco elevado para se conseguir ultrapassar. E quem nunca se sentiu como no pesadelo superiormente engendrado por Kafka que se coloque de pé.


A mulher e o Rapaz

[Bad Boy-1981, Eric Fischl]





ASAE causa polémica

Para quem se queixa da frenética actividade da ASAE cá do burgo, saiba que os meninos da ASAE australiana estão dispostos a ultrapassar a impopularidade dos seus colegas lusos. Segundo noticia o «Expresso» na sua edição online, os infelizes funcionários da segurança alimentar australiana, proibiram a admirável iniciativa de um bar do país dos cangurus de oferecer vales de bebidas às senhoras que se despojassem das roupinhas interiores e as pendurassem no balcão do estabelecimento. Alegaram os ditos meninos que esta iniciativa “constituía um incentivo irresponsável ao consumo de bebidas alcoólicas”.



Como nota de rodapé, diga-se que a inventiva administração do bar responsável pela original iniciativa promoveu o evento com uma foto de Britney Spears a sair de estabelecimento homólogo… sem cuecas. Não são dados mais pormenores quer sobre o paradeiro da peça de roupa quer sobre a forma (des)cuidada da mais-que-tudo da cantora.






[Um gesto que Kate Backinsale infelizmente já não poderá executar no bar australiano citado na notícia do «Expresso»; culpados? A ASAE, é claro!]

O Porto desde Gaia



[Docas do Porto,2002 - Armando Aguiar]










Um dia disse a um sueco meu conhecido e colega de trabalho anos atrás que o melhor sítio para perceber a beleza do Porto se encontra descendo até ao cais de Vila Nova de Gaia e avistar a cidade desde ali, desde a margem esquerda do rio. Ele sorriu e não me respondeu talvez descrente naquilo que lhe dizia. Hoje reafirmo esta minha convicção. Desde o cais de Gaia, sim, mas também desde o quarto no décimo nono andar do hotel onde me encontro hospedado. Olho a cidade em anfiteatro sobre as águas prestes a beijar o mar - águas que trazem da Régua e outros lugares do alto Douro o aroma das uvas que tornaram mítico o vinho com o nome da cidade, perscruto os edifícios de granito sobranceiros ao Douro, o moderno em contraste com o antigo, constato a imponência das diversas pontes que unem as cidades. E até o céu azul, aqui e ali pintalgado de cinzento por uma e outra nuvem, ajuda a conceder ao Porto uma visão poética da vida. Através da sua arquitectura mas também das gentes que o habitam e percorrem. Sim, porque o Porto é genuíno, é puro. E é imperfeito, claro.

As Palavras dos Outros

«Há nos confins da Ibéria um povo que nem se governa nem se deixa governar.»




Júlio César

A Sedutora Sensualidade do Sonho












«Mulholland Drive» pode ser descrito como uma poesia. Ou como se de um intenso hino de lamentação se tratasse. Pode ser descrito de várias formas, mas aquilo que fez com que «Mulholland Drive» viesse ao mundo através do génio do seu criador foi a vontade de nos contar uma história triste e trágica. Uma história como tantas outras num universo sedutor mas igualmente devastador e cruel para tantos. A história triste de alguém com um brilho nos olhos, o brilho nascido do sonho da fama e vincado pelo desejo de se cobrir de glória. A história de alguém que chega a um mundo que não é o seu e, com o choque brutal das diferenças desses mundos opostos, se esquece afinal de quem era, do seu verdadeiro mundo. E sonha. Sonha tornar-se uma mulher bela e sensual, atraente como poucas.



Como ela ama a mulher que quer ser, mas como é trágica a frustração dos sonhos que se esvaem, a desolação do sentimento de quem suspeita vir a falhar no sonho que a fazia viver. O sonho confunde-se com a realidade e ela faz amor consigo mesma, com a imagem ilusoriamente materializada da mulher em que desejava vir a transformar-se. Masturba-se. A noite é longa, húmida, quente. No sono perturbado, o quarto onde dorme vira teatro nocturno e chama-se Silêncio. Nada é o que parece, tudo é ilusão. E chora-se («Crying») de infelicidade. Ela estremece com o pesadelo. Não suporta mais, todos a amam pelo que desejaria ser, falha como é na verdade, dá-se o descalabro emocional. Fim.

O Virtuoso Sr. S.

[Eduard Kosmack, 1910 - Egon Schiele]







Anos atrás quando me iniciei no mundo do trabalho, travei conhecimento com um prodigioso director de compras de uma empresa nos subúrbios de Lisboa. Homem de aparência fina, bigode e cabelo sempre muito bem aparados sem que nestes se vislumbrasse um único cabelo branco apesar de já na altura ter passado em muito os cinquenta anos, o Sr. S. era tido em muito boa conta pelos seus superiores e olhado como um velho dinossauro da mediação no sector empresarial em que se encontrava.



Na verdade, o ilustre Sr. S. era mesmo um excelente negociador. Mas o que os seus chefes não sabiam era que o seu talento esmorecia paradoxalmente ao volume do envelope de notas que lhe era dado à sorrelfa por quem alinhava nos seus dúbios princípios morais. Apesar disso, quem o ouvisse falar e soubesse destes factos ficaria espantado com a desfaçatez do homenzinho pois o biltre julgava-se o mais íntegro, impoluto e imparcial dos homens. Este foi um dos meus primeiros choques com a realidade das relações humanas, o que me levou desde logo a concluir que é perfeitamente verdadeira aquela frase que diz que um homem é o que é e aquilo que julga ser.







[Por esta altura, era chefe do governo um tal de Cavaco Silva, hoje Presidente da República, e recordo-me bem de uma ida sua ao parlamento afiançar que Portugal não era um país de corruptos. Houve quem ainda chegasse a desconfiar levemente desta tese, mas uma afirmação do mesmo Cavaco à imprensa garantindo que nunca se enganava e raramente tinha dúvidas descansou quem não tinha ficado lá muito convencido. E certamente que tranquilizou também o Sr. S. e seus pares.]







O Sr. S. acabou por morrer num infeliz e aparatoso acidente esmagado por um desses camiões de recolha de lixo na conjugação fatal de uma marcha-atrás e de uma distracção; afinal uma ocorrência nefasta que se revelou uma triste ironia do destino.




Margarida Rebelo Pinto, Dois





No mesmo espaço de opinião no Sol, Margarida Rebelo Pinto declara que “quando chega a hora de esquecer alguém, o melhor é blindar o coração e matar o tempo para que cada dia passe depressa, até àquela manhã perfeita em que em vez de acordarmos com a pedra de angústia encostada à garganta, partilhamos a companhia do som da chuva ou um olhar novo de quem nos quer bem”. Totalmente de acordo, sobretudo na muito poética parte em que fala da pedra da angústia e do som da chuva. No entanto, permito-me acrescentar a estes tópicos uma boa garrafa de vinho, a barba por fazer e o cabelo em desalinho. Isto não só porque estas coisas da agonia têm que ser levadas muito a sério e com estilo mas também porque, tornando a perda num calvário, estamos a valorizar a nossa paixão. E depois quem disse que beber sozinho não é um passatempo agradável?