domingo, 31 de outubro de 2010

O Lobisomem












A bela e o monstro



Que se pode dizer de um filme que manda às malvas o fascínio enigmático e receoso pelas histórias de lobisomens transformando uma suposta história de medo numa espécie de ‘fast food’ cinematográfico? Pouco, muito pouco, a não ser lamentar as presenças de actores do calibre de Anthony Hopkins e Benicio del Toro no elenco, o que faz com que muitos incautos se desloquem a uma sala de cinema para ver não mais que mera animação digital, uma ambientação à Inglaterra vitoriana e uma fotografia apropriadamente gótica. De resto, já sabíamos que o homem se transforma em lobo nas noites de Lua cheia, que a sua mordida deixando a vítima viva faz nascer uma nova besta e que nestas coisas fica sempre bem uma bela (Emily Blunt) atraída por semelhante bicheza (Benicio del Toro).



No limite, «O Lobisomem», de Joe Johnston, nem sequer poderá ser acusado de ‘pastiche’ porque a sua dimensão cinematográfica roça a nulidade. Os efeitos especiais são muito pobres e a extensão do medo mede-se pelos quilos de carne humana projectada pelos ares de uma aldeia dos tempos de Jack, o Estripador, e ainda pelos muitos litros de sangue que jorram dos cantos da boca do ‘animal’. Não percebemos é onde e quando Lawrence (Toro) começa a interessar-se romanticamente por Gwen (Blunt) e até que tipo de atracção esta exerce sobre Sir Talbot (Hopkins). E não percebemos porquê? Simples, porque as personagens são psicologicamente vazias e o drama inexistente. Tarefa quase heróica é a de quem ousa manter-se na sala até surgirem na tela os créditos finais do filme. É que por essa altura, já não se resiste a tantos braços e pernas decepados, às vísceras humanas arrancadas à dentada sem dó nem piedade e a aldeões esgadanhados a correrem que nem parolos para uma morte certa. Mas, porque se trata de uma morte rápida, há até mortes bem piores. Valha-nos isso e a quem duvide do que aqui se afirma valha-lhes S. Tomé: vão ver para crerem.



«The Wolfman», de Joe Johnston, com Anthony Hopkins, Benicio del Toro e Emily Blunt


Um Homem Singular










Laços eternos



A vida ensina-nos que muitas vezes é de onde menos esperamos que nos chega o mais comovente dos mundos. Assim é com «Um Homem Singular», filme que estreia Tom Ford na realização de filmes, e com a mais extraordinária representação que já vi do brilhante actor que é Colin Firth. O filme é todo ele de uma perfeição estética ímpar, de uma sensibilidade que aprofunda o que de melhor possui o ser humano através da sua personagem principal e possui ainda um estado de encantamento sentimental que nos enleva na história que desfila defronte dos nossos olhos. Isto, sem que alguma vez a realização de Ford pretenda a militância do espectador através da condição sexual do Prof. George Falconer (Firth). Mas mais do que falar de tendências sexuais, que apenas surgem englobadas no quotidiano das personagens, a história soa-nos como um cântico sobre um amor sem fronteiras nem parametrizações e vê-se sem que alguma vez a vertente carnal da sexualidade de Falconer, um homem de princípios muito vincados, seja sequer sugerida quanto mais exibida.



A narrativa parte da perda de Falconer. Depois de um acidente de viação, Jim (Matthew Goode), seu companheiro de dezasseis anos, morre. A partir daqui, George Falconer perde todo o interesse pela vida e inicia a preparação de um final provocado e abrupto para a sua própria existência. Entretanto, deixa que o seu dia decorra com a normalidade possível sem que a decisão que tomou interfira na vida dos que o rodeiam. Nomeadamente na actividade dos seus alunos e na inquietude de Charley (Julianne Moore), sua amiga de sempre com quem, em tempos remotos na vida de ambos, tentara um relacionamento amoroso. O filme adapta o livro homónimo da autoria de Christopher Isherwood e a acção decorre no início dos anos sessenta numa altura em que a sociedade americana vivia atemorizada pela crise provocada pela ameaça dos mísseis cubanos. E quando Falconer pensa que pode tomar nas suas mãos o seu próprio destino eis que é o destino quem lhe troca as voltas de um modo lancinante.



Tom Ford é, antes de ser realizador de cinema, um conhecido desenhador de moda que trabalhou para as casas Gucci e Yves Saint Laurent. E a esse facto não é alheia a perfeição visual e técnica num filme onde a montagem é exemplar e as imagens se balanceiam suavemente ao som de uma tocante banda sonora. De realçar ainda a forma discreta como as personagens se movem numa sociedade irrequieta, à época, e a excelente ‘mise en scène’ que nos transporta até uma Califórnia que desponta então como o coração da América. Em suma, um filme inesperado não só pela sua singularidade como pelo modo sereno como expõe a dor, a tragédia de um homem que vê a sua felicidade decepada de forma fortuita. E, no final, percebemos como é absolutamente verdadeira aquela nossa suspeita sobre a fragilidade com que todos nós passamos pela vida.



Embora já referida, uma última mas fundamental chamada de atenção para a pungente interpretação de Colin Firth, um actor de corpo inteiro e, com este papel, um dos mais sérios candidatos a vencedor do principal Oscar da representação masculina. Por uma vez que seja o preconceito não tem lugar, não pode ter, num filme que é antes de tudo um hino à vida. Mesmo que essa vida seja pensada a partir do momento em que alguém julga nada mais poder esperar dela e de si. Porque a dor, não sendo um modo de vida, é um factor determinante para aquilo que dela esperamos ou desejamos.





«A Single Man», de Tom Ford, com Colin Firth, Matthew Goode e Julianne Moore

Precious












Flor à beira do pântano



Década de oitenta, ghetto de Harlem, Nova Iorque, uma jovem negra de 16 anos que sofre de obesidade doentia está grávida do seu segundo filho. E quem é o pai de ambos? O seu próprio pai biológico. Mas esta é só parte da miséria em que a jovem Precious vive. Para além dos abusos sexuais de que é vítima por parte do pai, também a mãe (Mo’Nique), uma mulher monstruosa, se aproveita da filha a todo e qualquer nível, incluindo a usurpação dos subsídios do estado a que Precious tem direito, exploração desta no trabalho doméstico e, como se não bastasse, também se aproveita sexualmente da pobre adolescente. Se juntarmos a isto uma opção conceptual por parte da realização cujos recursos estilísticos privilegiam a realidade em detrimento do cinema espectáculo facilmente concluímos que «Precious», de Lee Daniels, é um grito (para não dizer berro) de alerta preenchendo com todo o propósito uma das funções do cinema: a denúncia.



Toda a história se constrói ao redor de pormenores sórdidos que a narrativa faz questão de sugerir evitando muito acertadamente o exibicionismo gratuito e a tentativa de arrancar do espectador uma lagrimazinha fácil. Por outro lado, a interpretação sóbria da actriz que dá corpo a Precious, Gabourey Sidibe, acaba por contribuir para o realismo cru, e cruel, de uma condição vivida nas fronteiras mais mórbidas do ser humano. Para sobreviver à crueldade da vida a que é forçada, Precious sonha com uma realidade absolutamente desconexa da sua e a uma distância inatingível para alguém a viver uma conjuntura tão desfavorável quer pela pessoa que é como pelo meio sociocultural que a rodeia. Pode até parecer uma barbaridade dizê-lo, mas aqui se prova que até o sonho não está acessível a todos. E sem querer desvendar a história a quem ainda o não viu, como se a prová-lo quase no final do filme o destino volta a pregar mais uma perversa partida a Precious.



Sendo um filme de causas, é interessante verificar as presenças de Mariah Carey (ela é a funcionária da segurança social) e de Lenny Kravitz (o enfermeiro John) num filme que teve a bênção da todo-poderosa Oprah Winfrey. E se a esperança para Precious é um simples exercício de retórica, para outras Precious, no feminino ou no masculino, talvez ainda se vá a tempo de agir. E essa terá sido a razão fulcral para a realização de um filme onde há ainda lugar para abordar ao de leve o preconceito homossexual através da lésbica e muito bonita Ms. Rain (Paula Patton), ela, professora numa escola alternativa, que é a primeira a dar a mão a Precious. Mas um filme, deve dizer-se, que caminha perigosamente à beira do abismo sem no entanto chegar a despenhar-se. E ainda bem que assim é, concluo.





«Precious», de Lee Daniels, com Gabourey Sidibe, Mo’Nique, Paula Patton, Mariah Carey e Lenny Kravitz

Estado de Guerra











Jogos de Guerra





«Estado de Guerra» está nomeado para nove estatuetas da Academia de Hollywood e tem recebido, por parte da crítica, os mais rasgados elogios. Na verdade, para quem aprecie uma abordagem à temática da guerra focando-se na tensão própria dos militares em combate ou nas suas acções diárias de sobrevivência numa terra hostil, este talvez seja o filme indicado. Mas se, por um lado, «The Hurt Locker», no seu título original, apresenta uma visão despolitizada do conflito onde uns procuram apenas salvar as vidas que outros querem ceifar, por outro nunca se coloca a questão de tentar perceber porque foram afastados das suas famílias e viajaram para uma terra inóspita e longínqua onde a única coisa que lhes interessa é terminar vivos o tempo da missão que lhes foi dada. Bom, nem a todos já que o Sargento William Jones (aqui sim, uma fabulosa interpretação de Jeremy Renner) surge como o elemento que comprova como os efeitos da adrenalina da guerra se podem tornar numa droga e num vício difícil de largar.



As referências cinematográficas são sempre bem-vindas e as cenas de tiroteio no deserto iraquiano entre as tropas americanas e os indígenas insurrectos procuram a associação óbvia aos ‘western’ de outros tempos e evocam a memória das terras onde a lei era imposta a tiro. «Estado de Guerra» não se fica apenas pelos tiros já que os meios e as armas são muitíssimo mais sofisticados e o filme acompanha uma equipa especializada no desmantelamento de explosivos. Toda a tensão e adrenalina da narrativa giram em volta do já referido Sargento W. Jones, um militar temerário muito próximo do suicida, e do antagonismo com o seu companheiro, o também Sargento Sanborn (Anthony Mackie), que se vale das regras e dos ensinamentos colhidos para tentar salvar a pele. Pelo meio, há ainda um soldado, Owen Eldridge (Brian Geraghty), que faz o papel de ingénuo dividido na admiração pela coragem louca de um e pelo extremo bom senso do outro.



Neste mundo caótico e de uma certa irreversibilidade do homem preso à sua natureza, quer seja ele militar americano ou terrorista iraquiano, resulta um filme desenhado com mão firme mas onde a psicologia auto-destrutiva que lhe está inerente não consegue soltar-se do carácter mecânico da acção de homens como meros peões numa guerra que nem sequer procuram compreender. Daqui resulta uma trama sem emoção para o espectador a não ser, como já referido, na corporização de Jeremy Renner de um militar irremediavelmente seduzido pela adrenalina da guerra. E essa é a mensagem maior do filme de Kathryn Bigelow, a dos militares como grandes vítimas do absurdo da guerra. Enfim, é uma visão entre muitas outras mas que no entanto não escapa ao carácter extremamente redutor da tese que defende. E o ritmo seguro da acção aliado a um certo desencanto das personagens não são suficientes para me fazerem admirar sobremaneira um filme onde a tensão se sobrepõe à emoção. Talvez temendo isso ainda durante a sua produção, a realização socorreu-se dos nomes de Guy Pearce, Ralph Fiennes e David Morse como chamariz para as bilheteiras das salas de cinema. Escusadamente, já que qualquer um dos três actores foi dar apenas o pontapé de saída sem ter participado activamente no jogo.







«The Hurt Locker», de Kathryn Bigelow, com Jeremy Renner, Anthony Mackie e Brian Geraghty

Invictus







Mandela, o homem por detrás de uma nação





Nelson Mandela ficará para a história como um dos homens que melhor representou o sentido humanístico de alguém. Ele que optou por esquecer e perdoar o sofrimento que lhe foi infligido durante os 27 longos anos em que esteve preso numa cela diminuta em nome da arbitrariedade humana, para poder unir e salvar uma nação dos seus próprios temores e do espírito de vingança que entretanto se agigantava. A partir do livro do jornalista John Calin, em «Invictus» Clint Eastwood narra de forma sóbria mas brilhante o modo como o já então presidente da África do Sul resolve, em nome da salvação de um país, apoiar a selecção nacional de râguebi – que fora um dos maiores símbolos do ‘apartheid’ – numa tentativa de união entre brancos e negros. E se noutros filmes de Eastwood está patente uma forte descrença relativamente ao ser humano (vide «Gran Torino» ou «Million Dollar Baby», por exemplo) em «Invictus» existe uma fé inabalável naquilo de que os homens são capazes de fazer apelando, em derradeira possibilidade, à força que só os detentores de uma grande liberdade interior podem usufruir.



Apesar de se tratar de um filme de abordagem política, dada a história real que o suporta era impossível que assim não fosse, a realização de Eastwood preocupou-se muito mais com os factos ligados à relação entre Mandela (Morgan Freeman) e François Pienaar (Matt Damon) e, por sua vez, com o crescendo de força e união entre a selecção nacional de râguebi, da qual Piennar é o capitão, e brancos e negros desavindos até então. As questões pessoais e políticas ligadas a Mandela são tratadas muito ao de leve num filme em que o velho realizador procura falar mais ao coração do espectador que propriamente à razão como era seu timbre. E, neste aspecto, Mandela aparece aqui como um herói distante do modelo normalmente adoptado por Eastwood, já que se trata de um homem já não a afrontar um sistema mas sim a colar-se a ele, a alterá-lo é certo, mas acabando num triunfo conjunto: homem e sistema.



Falando especificamente de cinema, o filme torna-se emotivo a espaços mas de uma forma muito natural sem cair no sentimento gratuito. Por outro lado, sendo um cineasta representante do cinema clássico norte-americano, a narrativa adopta uma complexidade estrutural longe da biografia simples e muito menos se aproxima do filme épico ligado às questões desportivas. No entanto, é absolutamente épico e brilhante o crescendo dramático que Clint Eastwood atinge com as filmagens da final da Taça do Mundo de 1995. E não era tarefa fácil, uma vez que o resultado era conhecido em virtude do jogo ter acontecido na realidade e ser sobejamente conhecido o seu vencedor. Um último destaque para Morgan Freeman num filme notável a vários níveis: na sua interpretação do homem admirável que é Nelson Mandela, Freeman parece despojar-se completamente de si no objectivo claro de mostrar ao mundo o rosto da luta contra o ‘apartheid’ e um dos mais justos Nobel da Paz de sempre.



Quanto a mim, vou relembrar o pequeno ‘cameo’ de Clint Eastwood - ele que aparece na bancada a apoiar a equipa sul-africana na final da Taça do Mundo - no momento em que comprar a minha própria camisola da selecção que uniu um país e mostrou à aldeia global a raça e o querer dos homens justos.






«Invictus», de Clint Eastwood, com Morgan Freeman e Mat Damon


Nas Nuvens











A condição humana



A crise económica e financeira que afecta o mundo pode não ser má para todos. Na verdade, para Ryan Bingham (George Clooney) os efeitos são positivos. Isto, porque aumentaram as solicitações naquilo que faz profissionalmente e por esse motivo vai manter-se no ar cruzando os céus nos aviões da American Airlines amealhando milhas naquele que é o seu grande projecto de vida: ganhar um cartão muito exclusivo e ter o seu nome inscrito num dos aviões da companhia aérea. E que faz profissionalmente Ryan Bingham? Numa altura em que a palavra de ordem é eliminar desperdícios alguns grandes quadros das empresas são vistos como tal e Bingham é o homem a quem compete dar a triste notícia do seu despedimento e suavizar os efeitos negativos do choque de quem é dispensado substituindo nesse papel os administradores das próprias empresas. O caricato aqui, é a objectividade profissional com que a personagem de Clooney assume as suas funções: ele lê a pessoa e transmite-lhe a forma menos detestável de uma notícia que é em tudo absolutamente odiosa.



Ryan Bingham é também um homem que não tem – por opção – qualquer relação afectiva séria com ninguém. Mas, no filme, acaba por encontrar uma alma gémea, Alex (Vera Farmiga), e ambos cruzam agendas para poderem pernoitar juntos em hotéis impessoais de cidades onde se encontram meramente de passagem. No entanto, o curioso é que Ryan Bingham acaba por não existir sem que o associemos a George Clooney. Ele é um tipo amável, charmoso, educado e atencioso no papel de um homem que o espectador deveria à partida odiar. Mas não e tal deve-se a Clooney. Será isto a prova de ter existido um erro de ‘casting’ por parte de Jason Reitman («Juno», 2007), o realizador? Não, de modo algum, esse é mesmo o grande trunfo do filme. E isso acontece quando a vida de Bingham corre o risco de se alterar radicalmente à chegada de Natalie (Anna Kendrick), uma jovem acabada de sair da universidade, ela que propõe que os despedimentos passem a ser feitos por vídeo-conferência. Não só a mais-valia das qualidades de um homem como Ryan Bingham se perderiam como o seu estilo de vida teria de ser dramaticamente alterado. E é então que as debilidades do ser humano presentes na personagem de Clooney vêm ao de cima e o filme adopta, como referido, a sua mais espantosa qualidade que nos atinge, fere e seduz tudo em dose cavalar: essa qualidade prende-se com a reflexão que a partir de então é desenvolvida sobre a condição humana através da singularidade de um homem que criou um escudo para si mas que fica completamente desprotegido no momento em que perde o controlo da situação. E que vemos acontecer nessa altura? Simples, o trivial. O seu coração endurecido torna-se dócil acabando por deixar que o amor aconteça. No entanto, é possível que Bingham tenha esticado demasiado a corda e a sua opção de viver uma solidão assumida acabe por se tornar numa inevitabilidade da vida. É pois muito provável que Bingham já não consiga evitar tornar-se definitivamente num homem só.



Jason Reitman, o realizador, é um pensador que usa as imagens para debitar ideias. O seu campo de observação é o ser humano e a sociedade onde este se insere. Neste filme, uma comédia apenas na aparência, Reitman recusa-se a dar-nos esperança. Pelo contrário, pela tela passam homens e mulheres despedaçados por um sistema económico alheado das pessoas e um homem (Clooney na sua prestação) que se usa das suas qualidades humanas para fazer o papel de Diabo. Numa narrativa ágil sem pontos mortos e onde sobressai o ‘saber fazer’ do realizador, reflecte-se sobre a fugacidade das relações humanas e a pequenez do homem numa máquina trituradora criada por si. Mas o lado cáustico de Reitman é ultrapassado pela prestação de um George Clooney que se vale do homem que é para construir um perfil psicológico a todos os títulos notável. O perfil de alguém aparentemente seguro de si, sedutor com as mulheres, amável com os homens e irradiando classe por onde passa, mas, afinal, tão amargamente frágil. Onde é que eu já vi alguém assim?





«Up in the Air», de Jason Reitman, com George Clooney, Vera Farmiga e Anna Kendrick

As Flores de Harrison











As Flores de Harrison





Não por acaso, numa altura em que denoto existirem alguns ataques aos repórteres fotográficos e demais jornalistas a propósito da tragédia que ainda decorre no Haiti, revi em DVD um filme que relata o drama de um casal de jornalistas igualmente num cenário dramático. Embora, neste caso, uma tragédia, a da guerra, provocada pelo homem. Refiro-me a «As Flores de Harrison», realizado no ano 2000 por Elie Chouraqui.





Essa guerra, catastrófica e ainda tão recente na nossa memória colectiva, ocorreu na ex-Jugoslávia e é a partir dela que se desenvolve a narrativa. O culto do ódio e a propagação desmedida do sofrimento através das atrocidades cometidas entre seres iguais, são ilustrados pela realização no acompanhamento de uma mulher que se recusa a acreditar na anunciada morte do marido, um repórter fotográfico americano. Sarah Lloyd (Andie MacDowell) é jornalista em Nova Iorque e mãe de dois filhos. Às evidências que lhe são proporcionadas para que cresse na morte do marido basta-lhe opor o forte sentimento que nutre por ele. Decidida, parte para Osijek, no norte da Croácia, em sua busca. Acompanhada doutros repórteres fotográficos, que a ajudam, ela caminhará perigosamente até Vukovar. Nesse trajecto, testemunhará a violência e brutalidade de uma guerra alimentada por rancores e angústias que culminam numa invulgar moral predadora do homem.





O filme não é perfeito e lamenta-se até a opção pela ruidosa vertente bélica em detrimento da história de amor que a suporta. Apesar disso, sem nunca se deixar perder na violência gratuita a acção coloca o espectador perante a gravidade do conflito civil, étnico e religioso que se viveu naquela região europeia e torna-se inevitável a existência de uma intensa ambiência de discórdia e fatalidade. O drama colectivo que é exposto pela obsessiva busca que o drama pessoal proporciona, o de uma mulher em busca do homem que ama, atinge um carácter perturbador. Os actos de guerra são atrozes mas credíveis e apesar dos 130 minutos de duração do filme este nunca se revela monótono no seu desenvolvimento. A par da esplêndida fotografia, realce-se o prestigiado elenco: Adrien Brody («O Pianista»), Elias Koteas («Crash») e, no papel principal, a actriz que um dia o filme «Sexo, Mentiras e Vídeo» catapultou definitivamente para uma valorosa carreira no cinema, a já referida Andy MacDowell. Em suma, «As Flores de Harrison», mais que um filme sobre o amor ou sobre a guerra, é um filme de muito humana esperança passado num cenário onde a humanidade entre os homens, pelo contrário, já não é sequer uma esperança. Um filme duro, sem dúvida, mas extremamente comovedor que aconselho sem reservas a quem não tenha receio de olhar a tragédia numa vertente pouco habitual e longe dos noticiários televisivos.

O cineasta da palavra





Eric Rohmer, 1920 – 2010





Para muitos Eric Rohmer representava um cinema difícil sendo tido pelos especialistas como um cineasta representante do moralismo que gostava de vaguear pelo interior do romantismo alemão ou das pinturas medievais. Morreu hoje quase a completar 90 anos de idade.



Para quem não sabe, Rohmer (o seu verdadeiro nome era Maurice Scherer) foi antes de tudo um fabuloso ensaísta, tendo analisado ao pormenor as obras de F. W. Murnau, Alfred Hitchcock e Roberto Rossellini, e um fervoroso crítico de cinema escrevendo para a conceituada revista «Cahiers du Cinema» onde foi também editor e chefe de redacção. Foi ainda jornalista e professor.



Do que conheci da obra de Rohmer, prefiro destacar um esquema quase obsessivo que o autor adoptou numa série que ficou conhecida como «Contos Morais» [mais tarde o realizador erigiria ainda uma segunda série designada de «Comédias e Provérbios»]. Nesses filmes, há sempre um homem que se apaixona por uma mulher, tem uma relação fugaz com uma outra para posteriormente voltar ao objecto inicial da sua paixão. A acção é quase nula e é uma voz ‘off’ que vai relatando os estados de alma e as intermitências do amor numa linguagem que muitos acharão demasiadamente cuidada mas que era a marca pessoal do peculiar cineasta. Ele que não se desviava um milímetro da sua arte. Nos seus filmes, Rohmer nutria ainda uma especial afeição por mulheres muito jovens. Na sua última obra, exibida em Portugal pela mão de Paulo Branco e da sua Atalanta Filmes, “Os Amores de Astrée e de Celadon” (2007), Rohmer não fugia ao seu estilo muito próprio filmando a exaltação da palavra e explorando um certo erotismo campestre. Quando se fala em cinema de autor, é a homens como Eric Rohmer que nos referimos. Goste-se ou não da sua obra. Paz à sua alma.



[«Les Amours d'Astrée et de Céladon»]

Deixa Chover







Gente Vulgar


O casal Agnès Jaoui e Jean-Pierre Bacri é o responsável por um dos maiores sucessos do cinema francês na última década em Portugal em termos de aceitação do público. Refiro-me a «O Gosto dos Outros» que esteve mais de um ano em exibição no cinema Nimas, em Lisboa. «Deixa Chover», o mais recente filme de Agnès Jaoui, vem um pouco na continuidade da obra anteriormente referida já que é de um retrato da França e dos franceses eternamente presos a uma certa irredutibilidade do destino que se trata.



A história apresenta-nos três personagens principais que se passeiam à deriva pela tela na busca que empreendem sobre qual é afinal o peso dos sentimentos e da herança do passado em cada um e naquilo que pretendem para o seu futuro. Sem exagero, dir-se-ia que quando o documentarista decadente Michel (Jean-Pierre Bacri), o seu assistente filho de argelinos radicados em França Karim (Jamel Debbouze) e a escritora e activista Agathe Villanova (Agnès Jaoui) partem para uma pequena cidade do interior nunca mais regressarão ao que era o ponto de partida das suas vidas.



Nesta busca iniciática, Agathe aventura-se pelo mundo da política na sua terra natal e aproveita para ajudar a irmã, por sua vez dispersa num casamento que a reprime, a organizar as coisas da mãe de ambas falecida um ano antes. Os dois documentaristas acompanham-na no intuito de realizarem um trabalho sobre Agathe Villanova, a escritora, a activista feminista, a mulher política. Sempre com a França como personagem secundária mas omnipresente, a mulher percebe que tudo aquilo por que se tem empenhado a tornou numa pessoa decidida mas autoritária e antipática ao olhar alheio, o que a magoa intimamente. Inclusivamente, vê perigar a sua relação com o homem que ama. Karim, por sua vez, vive as humilhações próprias de um descendente de argelinos observando o resultado patético do trabalho de documentarista de Michel quando, por mérito próprio, deveria ser ele mesmo a coordenar a equipa. Em boa verdade, aquilo que se observa é uma clara e fiel representação da vida. E isso é algo que o cinema francês sempre soube fazer de modo exemplar.



«Parlez-Moi de la Pluie», título original do filme, não é mais que a alusão a um poema – «L’orage» – cantado por Georges Brassens. E neste jogo da verdade e da vida busca-se referências poéticas ligadas às recordações de infância e aos amores de acentuada impossibilidade. E na perfeição dos diálogos e representação sem mácula dos actores surge em pano de fundo um mês de Agosto incaracterístico onde reinam o frio e a chuva. Mas, citando Fernando Pessoa, ‘Deus quer, o homem sonha e a obra nasce.’ E isto no filme significa que há sempre a possibilidade de arrepiarmos caminho ou de nos enchermos de coragem para abraçarmos aquele projecto, aquele amor que tanto medo nos dá mas que tanto desejamos para nós. Tudo se resume afinal a uma questão de escolhas. E já que falamos de escolhas, «Deixa Chover» é cinema sério, é a vida passada na tela e é uma boa escolha de cinema para apreciadores do género.



Deus sabe quanto amei







Em 1958 Vincente Minnelli realizou o filme «Deus Sabe Quanto Amei», com Frank Sinatra e Shirley McLaine nos principais papéis. A dada altura, Dave, a personagem corporizada por Sinatra, lê um livro a Ginny (Shirley MCLaine) mas acaba por se sentir incomodado com a incapacidade desta em perceber a história. No entanto, Ginny desarma-o respondendo-lhe na sua enternecedora sinceridade :



'Não, não percebi nada do livro, mas gostei. Também não te percebo e gosto tanto de ti.'



Sempre achei esta frase formidável. Não apenas pela honestidade intelectual e afectiva de alguém como pelo efeito que este comportamento aparentemente simples mas tão revelador de si tem no outro. No fundo, aqui se prova que existe no ser humano uma eterna sedução pelo insondável e pelos pequenos e grandes mistérios da personalidade que fazem cada um de nós tornar-se mais ou menos cativante segundo o olhar de quem nos observa. E não existe nenhum outro jogo de sedução tão eficaz como este em que nos expomos ao outro com espontaneidade e sem artifícios. E é esta extrema capacidade para filmar a mais pura e recôndita essência humana que fez do filme de Minnelli uma obra intemporal

Sherlock Holmes







O Sherlock Holmes de Guy Ritchie: Os músculos no lugar dos neurónios





Para quem seja fã do Sherlock Holmes que Sir Arthur Conan Doyle trouxe para o mundo da literatura e dos detectives, esqueça este «Sherlock Holmes» do realizador britânico Guy Ritchie. Porque o introvertido mas arrogante e cerebral Holmes que habita o Nº 221 da Baker Street, em Londres, transformou-se num herói de acção, musculado e lutador entre outros atributos físicos que se sobrepõem às suas excepcionais capacidades dedutivas. Facilmente será pois de concluir que o filme do britânico que realizou em 2000 «Snatch – Porcos e Diamantes», na minha opinião uma das melhores comédias de sempre, e que fizera recair sobre si os olhos dos cinéfilos de todo o mundo com a sua longa-metragem inaugural «Um Mal Nunca Vem Só» (1998), chutou para canto a personagem da literatura que dá nome ao filme e criou uma outra fruto do seu espírito inventivo e dos argumentistas ao seu serviço.



Poder-se-ia mesmo falar em publicidade enganosa não fosse dar-se o caso de andar pelo filme um tal de Dr. Watson (Jude Law) fiel ao original e ao seu amigo Holmes (Robert Downey Jr.) e a igual presença do pobre Inspector Lestrade (Eddie Marsan) que surge como o irremediável polícia incompetente e apalermado perante a destreza mental (e física) do seu rival da investigação privada. Também a predilecção pelo boxe por parte de Sherlock Holmes (e tão do agrado de Ritchie) e a sua paixão pelo violino não são esquecidos pela realização, o que traz ao filme um pouco do aroma dos livros.



A história inicial anda à volta dos assassinatos de belas e jovens virgens por parte de um tal Lord Blackwood (Mark Strong) com recurso à magia negra e desenvolve-se em redor de uma organização secreta com fundações no mundo da política a que o assassino aspira presidir. Pelo meio, a bela Irene Adler (Rachel McAdams) traz para a trama o elemento feminino, ela que é uma mulher atraente mas sinuosa que dribla o desejo que o detective Sherlock tem por si enganando-o sem dó nem piedade sempre que existe essa possibilidade apesar de ser o indefectível amigo Watson de quem Holmes não prescinde de modo algum. E que o diga a bela Mary (Kelly Reilly), a resistente noiva do médico antigo combatente de guerra.



Em resumo, aquilo que Guy Ritchie apresenta aos espectadores não passa de entretenimento puro e duro. Uma opção concepcional que resulta a espaços mas que acaba por se tornar aborrecida em certos momentos devido ao uso e abuso do estardalhaço mais de acordo com um espectáculo pirotécnico do que com um filme de bandidos, polícias e detectives de finais do Séc. XIX e inícios do Séc. XX. E se o espírito de Arthur Conan Doyle surge um pouco arredio da sua realização, já o seu próprio estilo muito mais adequado para filmar o submundo britânico em detrimento de dar a conhecer as aventuras de um investigador extraordinariamente inteligente mas arrogante em igual medida, acaba por vir ao de cima. Sobretudo nas cenas de luta, com especial ênfase no boxe e em alguns slow-motion a antecipar o decurso das cenas. É justo frisar ainda que o elenco no activo não terá defraudado as expectativas do peculiar realizador, com destaque especial para Jude Law. Parece-me no entanto muito pouco para uma super-produção que se usou de uma das personagens míticas da literatura policial para obter logo à partida um sucesso mediático que esteve longe de concretizar.







«Sherlock Holmes», de Guy Ritchie, com Robert Downey Jr. e Jude Law





Avatar





O Triunfo do Amor





Ao escrever sobre «Avatar» sinto-me desde logo enredado num conflito entre a razão e a emoção. Porque se em termos emocionais quero ser simpático com a mais recente super-produção de James Cameron, em termos racionais sou obrigado a distinguir o que é verdadeiramente espectacular e o que fica muito aquém daquilo que seria desejável. Porque se «Avatar» é inatacável no plano técnico atingindo uma beleza plástica que transporta o espectador para um espectáculo visual quase sem precedentes, já no aspecto argumental o filme não passa de uma amálgama de lugares-comuns. Dir-se-ia que James Cameron, que para além da realização assinou o guião do filme, se preocupou em demasia com a magia técnica – que também é uma das principais características do cinema – esquecendo um pouco as suas personagens, pouco trabalhadas porque demasiado vistas noutras vertentes, e a história toda ela absolutamente previsível. Ainda assim, o filme tem um indiscutível trunfo na questão argumental: consegue fazer com que o espectador tome partido, com que este entre na história. E esse já é um mérito relevante que joga a seu favor.



Jake Sully (Sam Worthington) é um antigo fuzileiro que se encontra incapacitado numa cadeira de rodas mas que é lançado para uma missão num planeta distante habitado pelos Na’vi substituindo o seu irmão entretanto assassinado. A sua missão, sob as ordens da cientista Grace (Sigourney Weaver), é a de procurar estabelecer relações diplomáticas com o povo indígena assumindo para o conseguir uma transmutação física que o torna igual a estes. Apesar das boas intenções, Jake tem alma de fuzileiro e acaba por estabelecer um acordo com o Coronel Miles (Stephen Lang), um militar empedernido, dando-lhe informações preciosas que irão permitir que este lance um ataque bélico que em momento algum pretendeu evitar. Mas como nestas coisas o coração manda mais que a razão, Jake caba por se apaixonar por Neytiri (Zoë Saldana), uma Na’vi pertencente ao clã dominante. Mas, fatalmente, o choque de civilizações acontece e Jake vai procurar refazer aquilo que ajudou a destruir.



A partir daqui tudo acontece de acordo com os livros, se é que me faço entender. Destaco no entanto dois momentos fundamentais no decorrer do filme. Um deles tem a ver com todo o percurso de autoconhecimento de Jake junto do povo Na’vi. É por esta altura que o amor acontece e é também nesta fase que o espectador começa a identificar-se e a tomar partido por uma civilização muito ligada ao misticismo e à natureza. O outro momento a destacar está ligado ao feroz ataque movido pelo Coronel Miles, ele que é um militar de corpo inteiro, excessivo e verborreico como convém, um brutamontes de carreira. E como não é homem para brincadeiras quer terminar a batalha antes que anoiteça para poder voltar e jantar calmamente em casa. O grau zero em termos de originalidade atinge aqui um ponto alto. É que talvez o filme tivesse um outro tipo de aceitação ao nível intelectual e mesmo emocional se em vez das barbaridades próprias dos líderes militares a tentarem incentivar as suas tropas Miles fosse um homem dividido entre o dever e a razão declamando poesia enquanto mandava chacinar toda uma civilização. Assim não e restam como muito positivas a verdadeira espectacularidade do cinema em 3D e a prestação regular de todo o elenco. Do que não pode restar qualquer dúvida é que este é um filme a ver. No cinema e em 3D. Se assim não for, arrisco mesmo afirmar que será tempo perdido.





«Avatar», de James Cameron, com Sam Worthington, Zoë Saldana, Sigourney Weaver e Stephen Lang

O Fabuloso Destino de Amélie [2001]


















Amélia dos olhos doces




Desculpem tão rebuscada citação, mas Voltaire disse um dia que "a delicadeza é para o espírito aquilo que a graça é para o rosto". E Voltaire não teve a felicidade de conhecer Amélie, Amélie Poulain. Amélie, essa, tem um sorriso garoto a baloiçar-lhe nos lábios, um olhar meio malandro a observar o mundo que a rodeia como se a cada momento se preparasse para pregar uma partida a alguém. Vê tudo através de uns olhos grandes, enormes, do tamanho das fantasias que lhe invadem constantemente o cérebro.

No princípio foi assim: Amélie teve uma infância infeliz. Vítima de uma enfermidade que afinal não tinha mas que lhe fora erradamente diagnosticada, a pobre viveu uma meninice arredada do convívio com as outras crianças. Perdeu a mãe e acabou por perder também o pai. Uma porque morreu e o outro porque não quis mais a vida. Jean-Pierre Jeunet, o realizador, começa o seu filme muito ao jeito de «Magnólia», assentando a génese da narrativa num processo resultante do efeito dos acasos que se conjugam formando estranhas coincidências.

Depois: não, uma infância infeliz não tem necessariamente que originar um adulto amargurado. E Jeunet inicia sob este pressuposto uma áurea de teórico positivismo sobre a vida e seus cambiantes que não mais abandonará até final.

E também: falei aqui de Voltaire, chamo agora a este comentário Oscar Wilde. Este afirmou, grosso modo, que "o egoísta não é o que vive como quer mas o que exige que os outros vivam como ele quer". Certo, Sr. Wilde, mas reparo que depois o senhor afirmou também que "o altruísta é aquele que deixa os outros viverem sem interferir nas suas vidas". Errado, nada de mais errado, prova-nos Amélie Poulain.

«Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain», no seu título original, é um filme longe do tradicional rumo do cinema francês. E também do cinema europeu o que eventualmente terá acarretado sobre si o ostracismo do Festival de Cannes. Por vaidade e presunção? Simples incompetência analítica? Talvez não uma ou sequer a outra, uma mera disfunção crítica, quem sabe, um erro crasso, acredito, uma grande injustiça, não duvido. Longe do habitual realismo tão obscuro quanto pessimista do citado cinema europeu, este filme evoca um certo imaginário infantil aqui transportado para a nostalgia de que são formadas as memórias dos adultos. Um filme onde se cruzam histórias de uns, os da ficção, que se fundem nas de outros, os da realidade. Histórias filmadas muito a propósito no típico bairro parisiense de Montmartre. Um filme que é um tributo à cor e à alegria, imensamente rico nas variadas personagens que o percorrem. Personagens de ficção copiadas da realidade que vivem as suas vidas de forma quase resignada, incapazes da ambição da verdadeira felicidade. É Amélie quem se intromete nessas vidas e lhes procura, por vezes com tão pouco, dar um novo sentido. E, embrenhada em tarefas altruístas, nem se apercebe como ela mesma receia dar esse passo na sua vida, como ela mesma tem medo de ser feliz.

E é assim que decorre uma das mais interessantes comédias do cinema francês toda ela passada num clima impregnado de fantasia e brilho. Um filme tecnicamente excelente, recheado de efeitos especiais que permitem um estado de espírito estranho pela suave tranquilidade que a sua visão transmite. Diria ainda que é um filme baseado em bons princípios, em pequenas coisas de que às vezes julgamos poder prescindir no dia-a-dia mas que poderão revelar-se essenciais ao equilíbrio emocional de cada um.

Destaque para Audrey Tautou a actriz que protagoniza Amélie, já que o seu rosto cândido espelha as boas intenções do filme e o seu trabalho de interpretação é excelente. Destaque seguinte para a banda sonora que nunca esquece que é a Paris dos parisienses e não a Paris das capas de revista onde se desenvolve a narrativa. Destaque final, num filme intenso em personagens caricaturais, para aquele indivíduo meio esquizofrénico, meio paranóico, que vive numa das mesas do café onde Amélie trabalha. Um tipo que se entretém a destruir as suas relações amorosas registando num pequeno gravador suspeitas em forma de delírios. Hilariante, no mínimo.

Por vezes sabe bem ver um filme assim.




«O Fabuloso destino de Amélie», de Jean-Pierre Jeunet, com Audrey Tautou e Mathieu Kassovitz



Filme: New York, I Love You









Amar em Nova Iorque



O amor é e será sempre a maior fonte de inspiração para poetas, escritores, músicos e… realizadores de cinema. «New York, I Love You», filme em exibição nas salas de cinema, é mais um exemplo dessa inevitável realidade. O amor promove a mais comovedora felicidade mas também pode tornar-se num sentimento de dolorosa vivência. E pode muito bem acontecer de forma imprevisível numa só noite, durante uma tarde, ou apenas em um dia que não se repetirá. Mas o amor também acontece por toda uma vida. E será chegado o momento, na velhice, em que o carinho e a companhia que os dois elementos do casal se oferecem são os elementos mais importantes. Estes serão afectos simples dentro de um sentimento gigante, mas, no entanto, são elementos fundamentais para quem os vive. O amor pode ainda ser brando, ou intenso, lancinante, angustiante, apenas satisfatório, afortunado, belo. E em todas estas imagens - de um amor efémero ou duradouro, de um amor simplesmente sonhado - do amor que se vive ficará para sempre a memória de quem o viveu.



«New York, I Love You» mostra-nos precisamente as várias faces do amor numa cidade repleta de povos, plena de gentes das mais diversas origens e culturas, de seres humanos que amam como quaisquer outros. Isto, embora coexistam entre si os mais diversos contrastes numa cidade que parece albergar o mundo. Realizado por vários nomes do cinema, entre os quais a estreante Natalie Portman que também protagoniza uma das histórias, o filme surge pela mão do produtor Emmanuel Bebihy, que se mudou da cidade luz para a cidade que não dorme, e vem na continuidade do êxito de «Paris Je t’Aime». E durante a pouco mais de hora e meia que a fita dura, vemos desfilar perante nós a alegria e a tristeza, a felicidade e a busca dela, a ansiedade e o descontentamento, a entrega e a procura. Observamos também como a hesitação acaba por arriscar impossibilitar o amor, e, quem não o vivenciou já, como a alegria anda de mãos dadas com a dor. Comodamente sentados na sala de cinema, somos levados a sentir alguma inquietude ao arriscarmos viver na pela as histórias dos diversos amantes. Imaginamos o que nos aconteceu no passado, como estamos a gerir o presente, mas também naquilo que poderá tornar-se o futuro dependendo das opções que tomarmos para ele. E ao racionalizarmos a questão do amor, estamos também a senti-lo. A sentir o amor mas também o filme. E o cinema, que nos proporciona momentos únicos de emotividade.



O filme homenageia o realizador Anthony Minghella, inesperadamente falecido já durante este ano. E quis o destino que uma das histórias mais tocantes das várias que vemos desfilar na tela, fosse precisamente aquela que Minghella deixou escrita. Num velho quarto de hotel, uma cantora lírica (Julie Christie) volta a Nova Iorque para recordar e, quiçá, exorcizar fantasmas do passado. É recebida por um criado aleijado (um extraordinário Shia LaBoeuf) que faz de tudo para a manter feliz e confortável orgulhoso de hóspede tão digna. Momentaneamente, as violetas tornam-se numa personagem do filme e a ambiência que se vive caracteriza-se por uma melancolia estranhamente suave. Entre uma taça de champanhe que comemora a felicidade do regresso ao hotel e uma brisa fresca que obriga ao fecho da janela do quarto, o drama acontece. Ou a memória dele. O resto é para descobrir no filme, mas diga-se que este segmento se designa de «Hotel Suite» e foi realizado por Shekhar Kapur, tendo ainda a participação do actor John Hurt. Durante o desenvolvimento da história, é quase impossível não deixar de sentir um arrepio na espinha. Entre a nostalgia de Isabelle (Julie Christie), os olhos tristes de Jacob (Shia LaBoeuf) e a resignação amargurada da personagem de John Hurt, suspeitamos que algures na vida das personagens o amor foi interrompido pela presença da morte. E, inevitavelmente, a tristeza apodera-se também do espectador.



Para finalizar, refira-se que o filme é constituído por uma matriz de narrativas. Mas o tema central, o amor, as relações amorosas, acaba por se unir nas diversas histórias ao local singular onde tudo acontece, a cidade de Nova Iorque. E nesta unidade de estilo, nesta recolha de vidas, decorre também parte importante da nossa. Porque é de pessoas que o filme fala. De pessoas como nós, de pessoas tão perto de nós. A não perder.
















«New York, I Love You», de Jiang Wen, Mira Nair, Shunji Iwai, Yvan Attal, Natalie Portman, Brett Ratner, Allen Hughes, Shekhar Kapur, Fatih Akin, Joshua Marston, Randy Balsmeyer, com Bradley Cooper, Hayden Christensen, Andy Garcia, Rachel Bilson, Natalie Portman, Irrfan Khan, Orlando Bloom, Christina Ricci, Maggie Q, Ethan Hawke, Anton Yelchin, James Caan, Julie Christie, John Hurt, Shia LaBeouf, Chris Cooper, Robin Wright Penn, Eli Wallach e Cloris Leachman

My Blueberry Nights – O Sabor do Amor





Postais da América

Para quem tenha visto «Chungking Express» (1994) mas, sobretudo, «In the Mood for Love» (2000) reconhece imediatamente em «My Blueberry Nights – O Sabor do Amor» as sedutoras fragrâncias do cinema do chinês Wong Kar-Wai. Pode então dizer-se que este novo filme de Kar-Wai é cinema de autor? Pode, mas na minha opinião não deve. Fazê-lo seria diminuir a dimensão dramática do filme que importou para o cinema a cantora jazz Norah Jones. E em boa hora o fez.



Se lerem em algum lado que «My Blueberry Nights» é um filme imperfeito, acreditem. Se vos disserem que a vida não é perfeita, acreditem também. Se alguém vos confidenciar que cinema é muitas vezes o retrato fiel da vida, acreditem ainda. Porque é precisamente da vida que falamos no filme em que partindo de um bar em Nova Iorque onde desabafa intimidades com Jeremy (Jude Law), Elisabeth (Norah Jones) resolve reinventar-se. Como mulher e como pessoa. E parte sem destino determinado e tempo definido. Fá-lo ao jeito de confissão para Jeremy mas redireccionando para os espectadores do cinema de Wong Kar-Wai singulares postais da América. Singulares porque ilustram os locais por onde vai passando através das gentes que em nome da sobrevivência se enganam a si mesmas procurando mostrar uma adaptação que estão longe de alcançar a um mundo que em boa verdade lhes é adverso (personagem de Natalie Portman) ou fugindo do amor que desejam mas cuja força são incapazes de suster (personagem de Rachel Weisz).



Pela sua impossibilidade, mais uma vez a realização de Wong Kar-Wai filma a dimensão trágica do amor. Neste caso, do amor entre um homem e uma mulher mas também do amor filial de uma filha por um pai. E enquanto comboios cruzam a noite e os reflexos das luzes no escuro nos embalam para um universo de encanto e tentação, a banda sonora da responsabilidade de Ry Cooder permite-nos o toque final no arrebatamento pelo filme.



Pelo magnetismo da sua interpretação Norah Jones tem um início de carreira auspicioso, Rachel Weisz apresenta-se na tela mais bela que nunca, David Strathairn compõe um polícia amargurado pela infelicidade no amor, Natalie Portman revela um lado frenético e intranquilo que não se lhe conhecia na enganosa segurança da sua personagem e Jude Law arranca uma prestação irrepreensível. Sem excessos, sem se colocar em bicos de pés, ele está lá e é peça fulcral no desenlace do nó que Kar-wai concebeu. Ele que aguarda tranquilamente pelo amor na prolongada espera por Elisabeth.



E é neste itinerário percorrido por almas à deriva, neste plano geral de vários postais ilustrados, que se fez um quadro único em que Wong Kar-Wai reproduz o sabor do amor. E se ouvirem dizer que «My Blueberry Nights» é isto ou aquilo, não acreditem. Não vão por aí, sigam em alternativa o caminho de uma sala de cinema e assistam ao filme, confiram por vós. No fim, corram a comer uma tarte de mirtilo. Pode ser o vosso dia. Quem sabe alguém decide limpar-vos os lábios de um modo muito especial!?





My Blueberry Nights – O Sabor do Amor, de Wong Kar-Wai, com Norah Jones, Jude Law, David Strathairn, Rachel Weisz e Natalie Portman

Fala com Ela





Emoção nas excentricidades do amor


A sala escurece e ao fundo o ecrã ilumina-se. O filme inicia-se com a imagem de uma sala de espectáculos onde se exibe Café Müller, com coreografia de Pina Baush. Disperso algures pela plateia um homem chora olhando os bailarinos em comovente interpretação. Não muito longe de si, um outro homem, este ligeiramente mais jovem, sustem o impulso de lhe falar, de lhe dizer o quanto o espectáculo também mexe consigo. Por esta altura, já os espectadores, não os de Café Müller mas sim os de «Fala com Ela», o filme de Pedro Almodóvar, se terão dado conta que estas são uma narrativa e uma realização em registo algo diferente do habitual no cineasta espanhol. Mas quando o filme terminar, novamente ao ritmo de Pina Baush e da sua muito cabo-verdiana Masurca Fogo, ficará a convicção emocionada de que Pedro Almodóvar amadureceu, cresceu como realizador.

Em todo o filme o que se revela de mais tocante é a afectividade que emana das diversas personagens, elas que agitam em nós a exteriorização das suas emoções. Para lá deste importante pormenor, existem igualmente duas diferenças fundamentais relativamente à anterior filmografia do realizador: as mulheres, habituais figuras de charneira nas suas histórias, passam a um papel de tácito protagonismo dando lugar de relevo aos homens; outra das diferenças, é a não introdução da vertente surrealista tão do agrado de Almodóvar. Isto, ainda que em «Fala com Ela» se possa continuar a falar de estranheza

O enredo aproveita muito da personagem de Benigno, um jovem cuja vivência se resume a cuidar das duas mulheres da sua vida: a mãe, entretanto falecida, e Alicia a bela jovem que um dia descobrira desde a janela da sua casa. Alicia dançava numa academia do lado oposto ao seu na rua onde vivia, e ele, Benigno, rendera-se à forma como esta irrompia na sala pisando suavemente o soalho. As dramáticas circunstancias da vida fariam com que Alicia um dia entrasse num coma dado como irreversível e Benigno fosse o seu enfermeiro. Ela era a bela adormecida e ele o príncipe encantado. Um príncipe pleno de amor por ela desejando acordá-la do seu sonho profundo. Entretanto, Benigno conheceria Marco na clínica, um argentino errante pelo mundo, escritor e jornalista, que fazia companhia à sua namorada, também ela em coma depois de investida pela bravura de um toiro numa tarde quente, seca e inglória em que seria apresentada de forma cruel aos riscos da sua profissão de toureira. Também Lydia fora bailarina por momentos. Mas Lydia dançara ao ritmo áspero dos cornos de um toiro e quedara prostrada no solo empoeirado da praça então tingido do vermelho do seu sangue. Nas bancadas, o público aficionado berrava o seu desespero e abafava os aplausos nervosos.

«Fala com Ela» acaba por transportar Pedro Almodóvar para um outro estágio de credibilidade artística dentro do panorama cinematográfico mundial. Apesar do Oscar que lhe fora atribuído por «Tudo Sobre a Minha Mãe» (1999), o realizador não se livrava de um certo estatuto de autor demasiado preso a excentricidades e devaneios surrealistas nas suas anteriores obras. Neste filme, o realizador não só pensa o seu cinema como o seu filme pensa questões pertinentes da nossa sociedade. De certo modo, pode dizer-se que existe no filme uma evidente modéstia de Almodóvar já que este é um cinema sincero em que o realizador deseja uma efectiva partilha com o espectador e não apenas chocá-lo. Mesmo o humor de que se socorre neste filme, fundamental para ponderar a comunicabilidade/incomunicabilidade nas relações sentimentais dos nossos dias, é um humor simpático, quase carinhoso, nada agressivo. Pedro Almodóvar esculpiu-se como realizador de cinema, pode dizer-se. Atingiu em «Fala com Ela» a liberdade criativa daqueles que já não necessitam chocar com o camuflado e simples objectivo de captar atenções sobre si mesmos.

Nesta obra, que aborda a par da solidão questões como a paixão, o ciúme e o desejo para acabar por se centrar na amizade entre dois homens, há ainda a realçar a irrepreensível prestação dos actores. Sem grandes artifícios visuais, nada como o desencanto de um olhar, a ternura de um gesto, a amargura de uma lágrima, a nostalgia de uma postura. E nisso todos os actores foram exímios o que só prova a famosa exigência com que Almodóvar obriga os seus actores a trabalharem os papéis que lhes cabem. Mas Almodóvar acaba por surpreender até em questões como gosto e identidade. Momento altíssimo do filme é a interpretação de uma versão de Cucurrucucú Paloma pelo brasileiro Caetano Veloso. Enquanto Caetano Veloso (en)canta e Marco se encosta a um cercado virado para olivais a perder de vista, nós vamo-nos emocionando com uma ambiência que nos é tão próxima. Se adicionarmos a isto a referência às touradas, ainda que muitos não as aprovem, elas que são parte fulcral da identidade cultural espanhola, «Fala com Ela» ganha o estatuto do mais exportável dos filmes espanhóis. E, para mim, o melhor Almodóvar de sempre num filme generoso e comovente.


«Fala com Ela», de Pedro Almodóvar


Cinema choque





Cinema Choque





O melhor do cinema europeu sempre esteve, e estará, na forma como intervém na sociedade sem no entanto, no meu entender, poder ser redutora e objectivamente apelidado de um cinema de causas. Não raras são as vezes em que um cinema com estes sintomas de subversão da realidade e dramatização quase caricatural dos factos no propósito de deixar aos outros margem para escolha de uma verdade, se torna de tal modo exigente que o que julgamos ver está muito longe daquilo que nos é dado ver.



Em «O Juiz e o Assassino» (1976) um desaire amoroso vai fazer de um antigo sargento de infantaria um ser perdido, de mentalidade simplória, que vagabundeia entre aldeias violando pastores e pastoras. Será julgado e condenado e o próprio Juiz que lhe dita a sentença irá sodomizar a sua companheira. Claro que o realizador francês Bernand Tavernier seguiu de perto um caso verídico ocorrido nos finais do Séc. XIX. Mas executa de tal forma uma manipulação de dados à sua maneira que é notório o seu menor interesse nos factos em si em detrimento da matéria que gerará a discussão. E mesmo que esta matéria choque os espíritos mais sensíveis é imperioso que os pensadores das imagens continuem a executar o seu trabalho

Os Irmãos Bloom









O admirável sonho dos Bloom





Neste mundo admirável mas por vezes tão esquivo e difícil, o maior privilégio a que alguém poderá aceder será o de viver a sua vida consoante a sonhou. E é precisamente desse sonho que nos fala o realizador Rian Johnson no filme que conta a história dos Bloom, dois irmãos órfãos que desde cedo tiveram que fazer pela vida. Johnson que em 2005 surpreendeu no Festival de Cinema de Sundance com «Brick». Bloom (Adrien Brody) é o mais sensível dos dois irmãos e aquele que verdadeiramente protagoniza as histórias escritas por Stephen (Mark Ruffalo), um escritor romântico feito argumentista de contos do vigário para os quais se socorre da inspiração de clássicos como Fiodor Dostoievski.



Apesar disso, a linha ténue entre realidade e ficção não é tão delicada assim e exerce sobre quem a segue uma pressão que pode tornar-se psicologicamente insustentável. É o que acontece a Bloom (Brody) que ensaia várias tentativas para fugir do mundo de fantasia e vigarice criado pelo irmão. Os dois decidem então executar um último golpe e para o fazer escolhem como vítima Penelope (a belíssima Rachel Weisz), uma herdeira solitária e tímida cujo maior hobby consiste em espatifar carros de alta cilindrada. Penelope é uma mulher excêntrica mas incrivelmente sedutora. Vem-se com o som das trovoadas, afoga-se em milhões mas sonha tornar-se contrabandista para ganhar tostões, e, claro, deste modo corre o grande risco de estragar os planos de Stephen (Ruffalo). Isto porque o sensível Bloom (Brody) não deixará de se apaixonar não resistindo ao poder de sedução de um exemplar perfeito e soberbo da bela casta feminina. Pelo meio dos três, os dois vigaristas e a potencial vítima, passeia-se a assistente japonesa dos irmãos Bloom. Ela que dá pelo nome de Bang Bang (Rinko Kikuchi), fala pouco (embora cante nos tradicionais bares de Karaoke de Tóquio) e é especialista em explosões.



O filme é divertido e as falas são de um modo geral inteligentes e de cariz profundamente psicológico. No entanto, o que mais se destaca deste projecto de Rian Johnson é a sua elevada ambição. Se não, vejamos: imaginemos que a todos nos é dada a capacidade de escrevermos o nosso próprio decurso de vida. Que pode haver de mais satisfatório? E se a dada altura esse sonho se desvanece por se tornar de impossível concretização nos for dada a possibilidade – triste mas extraordinariamente romântica – de tudo acabar, isto é, tal como o soldado no campo de batalha morrermos numa das nossas histórias? Ainda para mais sabendo que deixamos um importante legado: o de escrever para alguém que muito amamos um percurso final de vida pleno de felicidade. Poderá haver maior ambição? Creio que não.



Em resumo, apesar de algum desequilíbrio que se percebe, já que o filme não se aguenta por inteiro na dimensão enorme dos objectivos do seu realizador, o saldo final é claramente positivo. Sobretudo quando a história vem acondicionada num embrulho que transluz cinefilia por cada bocadinho da matéria com que foi composto. E se outra razão não houvesse para gostarmos deste filme, a sua capacidade de nos provar que as nossas vidas podem resultar muito mais daquilo que pensarmos para elas que o que na realidade acontece acaba por se tornar num motivo mais que suficiente para conquistar a nossa simpatia. Para além disso, em «The Brothers Bloom», no seu título original, Mark Ruffalo volta a ser o actor que tanto nos prometeu em «Podes Contar Comigo»(2000) e se Adrien Brody está uns furos abaixo daquilo que já nos ofereceu no passado, Rachel Weisz não sabe representar mal. E o seu sorriso, a sua beleza dócil, transporta-nos invariavelmente para a saudade daquele sorriso que nos faz, fez ou ainda fará sonhar. A caneta e o papel estão aí, a história a escrever está no âmago de cada um de nós.





«Os Irmãos Bloom», de Rian Johnson, com Mark Ruffalo, Adrien Brody, Rachel Weisz e Rinko Kikuchi






O Delator






Banhas, mentiras e cassetes manhosas







Depois de um início de carreira auspicioso com «Sexo, Mentiras e Vídeo», e, pelo meio, com outros sucessos na algibeira como «Traffic», «Erin Brockovich» e a saga «Oceans Eleven, Twelve e Thirteen» o realizador Steven Soderbergh continua a sua caminhada por atalhos e outros caminhos difíceis, locais esses onde podemos encontrar «The Informant», título actualmente em cartaz. E agora que está avisado, segure-se o espectador mais incauto ao banco onde acompanha o realizador nessa viagem atribulada já que compra um bilhete que supostamente o levará até aos anos 90, mas, valha a verdade, mais parece aportar nos anos 70. Ou seja, e já ao jeito de resumo prévio, a comédia dramática acaba mesmo por se transformar numa paródia que só não cai num gigantesco bocejo porque Matt Damon, o gordo e balofo Matt Damon, imagine-se, não deixa que o filme vá por aí.



A história tem base verídica e relata as aventuras e desventuras de um esquizofrénico ambicioso de nome Mark Whitacre (Damon) que não satisfeito com o seu lugar relevante de executivo numa empresa a auferir um vencimento de 350 000 dólares ano antes de impostos, resolve primeiro acusar os seus patrões de práticas ilícitas tendo-se tornado bufo do FBI para a obtenção de provas do crime, e, depois, acaba por culpar o próprio FBI de sevícias sobre a sua pessoa impoluta. Enquanto isto, a realidade dos factos que serve de inspiração ao filme é retratada por Soderbergh de um modo tão cáustico que é o próprio espectador que no final se sente tão mais estranho quanto a esquisitice daquilo a que assiste.



Posto isto, não será difícil perceber que vemos desfilar no ecrã espiões de trazer por casa, agentes da lei com formatura obtida por correspondência e empresários corruptos que, entre nós, nem para dar ainda mais colorido ao apito dourado nos serviam. Temos por cá bem melhor nesta matéria, suspeito. O filme salva-se unicamente pela prestação enérgica de um Matt Damon que engordou duas ou três arrobas para fazer este filme não perdendo com isso energia na língua, já que fala pelos cotovelos e debita mentiras ao ritmo do caudal de saída de água das condutas de Castelo Bode, uma barragem situada algures no Zêzere a poucos quilómetros de Constância.



Dir-se-á que Steven Soderbergh é um génio e que este filme o comprova. Sendo assim, eu assumo não ter estado à altura da sua genialidade já que vi o filme com bastante interesse inicial, mas entretanto este desvaneceu-se em mim e, por esta altura, já o esqueci completamente. Uma só nota final para Matt Damon que levou dois meses a recuperar a sua forma natural. Não tarda nada estamos a ouvir na rádio o anúncio tipo de uma dessas revistas do social a exortar o bom do cidadão a que «saiba como Matt Damon perdeu duas ou três séries de quilos em apenas dois meses; saiba tudo na Caras.» Ou será na VIP?







«O Delator», de Steven Soderbergh, com Matt Damon, outros

O Estranho Caso de Benjamin Button







Quando assisti ao filme «O Estranho Caso de Benjamin Button», confesso que ainda não tinha lido o livro de Francis Scott Fitzgerald, adaptado por David Fincher ao cinema. E arrisco dizer que ainda bem, pois a minha reacção ao trabalho de Fincher teria sido bem menos entusiástica. Na verdade, há em «O Estranho Caso de Benjamin Button» uma diferença clara e fundamental entre a literatura e o cinema. Isto porque a escrita se socorre da história insólita de um homem que nasce velho até desaparecer como bebé para ilustrar a fragilidade do amor e das paixões, que, por maiores que possam um dia ter sido, chegam a desaparecer de forma trágica se não apenas para um de modo igual para os dois elementos do par amoroso. Já o filme fica preso à disparidade temporal entre os dois amantes como se o desencontro amoroso passasse apenas por aí. E esta não é uma diferença pouco importante. Trata-se de uma questão de verosimilhança com a realidade já que acreditamos piamente naquilo que Fitzgerald nos quer transmitir, enquanto a ideia negativa de ficção está irremediavelmente presente na realização de David Fincher. Isto pese toda a carga emocional que o filme possa despejar em nós

O homem que não sabia viver sem o amor de uma mulher





João Ferro


O João Ferro morreu vai fazer ainda este Novembro 3 anos. Ainda não era velho, pouco mais de cinquenta anos cumpridos, quando se foi deste mundo. Conheci-o por acaso, noite longa de Inverno, noite fria cá fora, lá dentro eu e alguns amigos mais duas ou três bebidas para aquecer a alma e o corpo. Lá dentro do bar nas docas de Lisboa. O João Ferro era o João Ferro. Isto é, como o João Ferro só mesmo o João Ferro, não dava para existirem dois iguais. Falava noites a fio e nós – eu e os outros –, mais jovens que ele, ouvíamo-lo com redobrada atenção.



Calcorreara o mundo.



Fixara-se durante alguns anos no calor abafado de África, na humidade quente das mulheres africanas, dizia sem se cansar de o repetir. Tivera seis mulheres, todas lindas, afiançava com severidade a evitar as dúvidas. E oito filhos. De cinco das seis mulheres. Todas elas muito mais jovens que ele, 13 anos de diferença a última. Ele, João Ferro, filho de um duro Tenente da Força Aérea, jurava nunca ter vivido sem amar. Que amar lhe era tão precioso como o ar que respirava. E não, nunca fizera amor com uma mulher sem sentir uma cumplicidade especial, sem haver forte envolvimento emocional entre ambos. Respeitava as prostitutas mas nunca recorrera a nenhuma.



Por que não, João?, tu que és doido por mulheres, perguntavamos-lhe.



Porque as amava, explicava muito simplesmente. Às mulheres. Franzia o sobrolho, batia com o punho a fazer saltar os copos meio bebidos no balcão do bar e apregoava zangado que o amor não se paga. É uma partilha, defendia.



Partilha de quê, João?



Partilha de afectos, de cumplicidades, de desejos, de paixão. Olha lá, João, essa frase leste-a por aí, brincavam os outros. Mas o João Ferro não era homem de responder a provocações. Quando se deitava a descrever a beleza de uma qualquer mulher que amara, quase que lhe rebentavam de emoção as lágrimas pelo rosto abaixo. Aquela pele macia, suave, as pernas lindas, bem torneadas, os seios rijos, sedutores, a barriga lisa – oh, a barriga! -, os lábios ardentes, aquele mundo de devaneio a abrir-se para um homem! E partíamos.



Partiam ele e ela.



Partiam numa viagem louca, ofegante, transpirada, de chegada em gemida euforia. No fim, o gesto sereno de carinho, as mãos entrelaçadas na união dos corpos ainda soluçantes. Era um poeta, o João Ferro. Depois, meio bebido, meio cansado mas feliz, cabelo bem puxado para trás em gel fornecido pelo seu barbeiro de sempre em Cascais, ar aristocrático, lá seguia no seu Jaguar com 22 anos, matrícula espanhola. De Madrid. Até que um dia, atraiçoado pelo coração que tanta felicidade lhe dera, seguiu viagem num caixão castanho brilhante para o cemitério dos Prazeres. Sim, que o João Ferro não admitia outro cemitério que não aquele para o descanso final.



Dos Prazeres.

O Casamento de Rachel





Casamento Debaixo de Chuva



Do cineasta oscarizado por «O Silêncio dos Inocentes» (1991) chegou até nós «O Casamento de Rachel», cujo argumento se poderá resumir a um fim-de-semana que deveria ser apenas de festa mas se torna num carrossel de emoções quase todas elas bem amargas. Isto porque o regresso a casa de Kym vinda directamente de uma clínica de desintoxicação para assistir ao casamento da irmã – papel que valeu a nomeação ao Oscar de Anne Hathaway –, tem o condão de fazer desenterrar as memórias mais dolorosas da família, com especial incidência na morte do pequeno Ethan, irmão de ambas as jovens. Para além disso, tal como se sugere, Kym carrega consigo um longo historial de consumo de drogas e é, emocionalmente, uma bomba relógio prestes a explodir por toda a casa que se encontra recheada de convidados para a boda. Basta-lhe, para isso, abrir a boca ou mexer um simples músculo do seu corpo. Paul (Bill Irwin), o pai, continua a desculpar e proteger Kym, condescendência que aborrece tremendamente Rachel (Rosemarie DeWitt) perante a apatia de Abby (Debra Winger), a mãe, que aparenta fazer apenas o favor de testemunhar o casamento da filha. Abby que, tal como Paul, entretanto se divorciara e casara de novo.



A referência neste texto a «O Silêncio dos Inocentes» não é fruto do acaso. Na verdade, em «Rachel Getting Married», título original deste filme, o experiente Jonathan Demme resolve baralhar e dar de novo em termos formais o que na minha perspectiva não ajuda em nada o filme, a história que este conta e mesmo o espectador que fica meio atarantado com tanto solavanco de câmara que segue pelas diversas divisões da casa e jardins carregada aos ombros ao jeito de Dogma95. A intenção é boa e percebe-se o seu porquê, mas, como diz o ditado, de boas intenções está o inferno cheio e o propósito de convidar o espectador a entrar na festa(?) como se este participasse activamente nos acontecimentos não é feliz. Primeiro, e socorramo-nos de novo da voz do povo, a casamentos e baptizados só devem ir os convidados; depois, porque a trama é de tal modo dramática e psicologicamente perturbadora que convida à reflexão sobre aquilo a que se assiste e de tanto se sacudir a câmara prejudica-se a acção da mente; finalmente, porque os acontecimentos, os que se dão e aqueles que se evoca, já são por si só tão inquietantes que não era necessária esta mãozinha nervosa do realizador para nos abalar ainda mais.



Ainda assim, «O Casamento de Rachel» é uma interessante proposta de cinema que traz ao de cima os fantasmas de uma família disfuncional e desarticulada num momento que deveria ser de união e alegria. E como comédia dramática que é a gestão dos diálogos e dos silêncios que estes provocam, o movimento desordenado das personagens e a libertação das tensões acumuladas convergem todos para um denominador comum: o amor e a compreensão personalizados pelo pai de Rachel e Kym mas sobretudo por Rachel, ela que é uma mulher ainda bastante jovem mas que não abdica de si para se entregar aos outros. E esta é uma mensagem fundamental num mundo dominado pelo egoísmo e pela letargia tão bem simbolizado pela mãe das duas jovens, uma Debra Winger invariavelmente distante mesmo na hora de dar um beijo ou um abraço. Quanto a Anne Hathaway, é verdade que arranca mesmo uma interpretação fantástica personalizando uma jovem perturbada e desajeitada. Ela que confunde o riso com o choro e se perde nas suas emoções, mas, ao contrário daquilo que se poderia pensar, nunca perde a razão. A razão como consciência, entenda-se. E é por isso que Kym sofre.





Rachel Getting Married, de Jonathan Demme, com Anne Hathaway, Rosemarie DeWitt, Bill Irwin e Debra Winger


Dúvida





Calúnia





Numa das suas fantásticas homilias, o padre Flynn (Philip Seymour Hoffman) conta a história de uma mulher que tendo lançado um boato desprezível sobre alguém acaba por se arrepender e busca o perdão junto do padre seu confessor. O padre não lhe concede de imediato o perdão e instiga-a a subir ao telhado da casa onde habita com uma almofada de penas numa mão e uma faca na outra com o objectivo de rasgar o travesseiro ao vento. Quando a mulher regressa ao confessionário e lhe dá conta da missão cumprida, o padre não a perdoa desde logo optando por perguntar o que lhe restou do gesto. Uma imensidão de penas, responde-lhe a pecadora. E perante a nova missão de que o padre a encarrega, a de voltar ao local e apanhar todas as penas, a pesarosa mulher responde-lhe que isso é impossível já que estas se espalharam de tal modo que não é de todo possível reverter o mal feito. E é precisamente em volta destas questões, sobre as dúvidas de cada um – as que nos afectam no dia-a-dia e as lançadas sobre outrem – que nos fala «Dúvida», a adaptação de uma peça teatral escrita e encenada pelo próprio realizador, John Patrick Shanley.



Nunca esquecendo as suas origens teatrais, «Doubt», no seu título original, acaba por se tornar num filme de grande qualidade e inteligência alicerçado nas espantosas interpretações de Philip Seymour Hofmann e Meryl Streep, estes dois gigantes do cinema norte-americano, mas também de Amy Adams e Viola Davis todos eles nomeados para a cerimónia de entrega dos Oscar. Passada num colégio católico do Bronx nos anos 60 num período logo a seguir ao assassinato do Presidente Kennedy, a história coloca frente a frente a freira Aloysius (Streep), uma muito conservadora reitora que gere a instituição com mão de ferro, e o padre Flynn (o já citado Hoffman), um sacerdote progressista e emocional que defende alterações não apenas na gestão do colégio como nos métodos da própria igreja. Num período da história norte-americana de grandes mudanças eclesiásticas e reivindicações de direitos na sociedade civil, o filme aborda ao de leve questões como o racismo e a pedofilia, esta última hoje tão em voga, mas detém-se sobretudo na intolerância, na incapacidade de perdoar e naqueles que acreditam que os fins justificam os meios. Isto para, no final, tal como na homilia que se descreve acima, se chegar à conclusão que a dúvida atinge até os mais implacáveis. Mesmo que o mal feito não tenha já reparação possível.



Diria que sendo um filme que nunca perde o interesse para o espectador, «Dúvida» assenta numa realização recatada onde a câmara é usada sobretudo para filmar as prestações irrepreensíveis dos actores. Tal facto faz desta uma obra muito verbalizada o que neste caso soa a elogio. Ainda assim, algumas tomadas exteriores de cena que captam a força dos ventos e mostram as ruas desertas de um dos mais problemáticos bairros da cidade de Nova Iorque levam a que o intelecto e a comoção se cruzem nos altos e baixos de seres humanos presos à sua própria essência. «Dúvida» lança ainda um silencioso repto para que não se confunda emoções com factos evitando apontar os maus e os bons exibindo apenas almas à deriva vítimas tanto das suas convicções como das incertezas. Esta característica alicerçada em actores de primeira água que souberam aproveitar um texto extraordinário para dar o seu máximo, fazem deste um filme estimulante e a não perder.





Dúvida, de John Patrick Shanley, com Philip Seymour Hoffman, Meryl Streep, Amy Adams 

O Leitor







A Inquietante Hanna Schmitz



Um nome surge indissociável desta obra formalmente irrepreensível que desenha um retrato sensível e singular de uma mulher que se vem a descobrir como representante das SS, a que foi a abjecta polícia nazi: Kate Winslet. Absolutamente assombrosa no papel de uma personagem de extrema complexidade psicológica, a actriz britânica é perfeita e estonteante quando na sua fase inicial a componente erótica toma conta da história e mostra-se ainda mais admirável no devir inquietante de alguém que esconde um segredo terrível que se torna ainda mais horrível ao olhar alheio por teimar em esconder deste um outro segredo. Este, absolutamente compreensível e próprio da sua formação social e humana mas que o orgulho e a vergonha a obrigam a preservar dos outros.



Stephen Daldry, realizador anterior de dois filmes que reputo de brilhantes - «As Horas» (2002) e «Billy Elliot» (2000) – filma nesta sua obra uma visão que poucos ousariam divulgar dos protagonistas de uma das páginas mais negras da história da humanidade já que arrisca a incompreensão daqueles que não percebam que aquilo que se pretende não é perdoar e, claro, muito menos passar uma esponja sobre o holocausto e carrascos ao seu serviço. E fugir de forma tão sensível e inteligente ao habitual maniqueísmo em que forçosa e (arrisco mesmo dizer) muito justamente se cai quando se relata episódios da tragédia que as tropas de Hitler causaram no seio da humanidade é de um irrecusável mérito. Tal deve ser reconhecido sobretudo quando o filme nos é apresentado num embrulho cinematográfico de indiscutível qualidade e interesse até porque a originalidade da citada visão decorre do livro «Der Vorleser», de Bernard Schlinker, aqui adaptado.



Tudo se inicia quando um adoentado jovem, Michael Berg (David Kross), é ajudado por Hanna Schmitz (Kate Winslet) uma linda mulher que o leva até casa. Depois de alguns meses acamado com escarlatina, Michael regressa para agradecer a Hanna e depara com um cenário de inevitável sedução da mulher semi-nua a cuidar da sua higiene pessoal. o jovem rapaz e a mulher acabam por iniciar uma relação composta por muito sexo e sessões de leitura – dele para ela – de obras fundamentais da literatura universal. Poucos meses depois, Hanna acaba por desaparecer de Michael e somente anos mais tarde enquanto estudante de Direito este a vai reencontrar agora sentada no banco dos réus acusada do homicídio de centenas de judeus como guarda das SS no campo de concentração de Auschwitz. No decorrer do julgamento, Michael percebe algo que pode ajudar a antiga amante mas é incapaz de chegar ao gesto final mesmo que incentivado pelo seu professor de Direito, um fabuloso Bruno Ganz.



Anos depois, Michael (agora já protagonizado por um estigmatizado Ralph Fiennes) grava cassetes para que na sua cela Hanna continue a desfrutar das obras literárias que tanto amava. E se no olhar sofrido de Ralph Fiennes como Michael Berg se percebe a força que um grande amor pode exercer ao longo da vida dos homens e das mulheres, marcando inexoravelmente o seu percurso, é também através dos seus actos – ou ausência deles em defesa de Hanna - que Daldry prova que se pode compreender evitando acusar mas, contudo, não perdoar o que é imperdoável. Isto mesmo que se possa efectuar as mais dolorosas contextualizações do que levou à prática dos actos criminosos. «O Leitor» é, deste modo, e em minha opinião, humana e intelectualmente um dos mais interessantes filmes que o cinema norte-americano produziu nos últimos anos contando com um trunfo suplementar personalizado na prestação fabulosa de Kate Winslet que acaba por ajudar a solidificar o meritório conceito que a dá como a actriz do momento.





O Leitor, de Stephen Daldry, com Kate Winslet, Ralph Fiennes, David Kross e Bruno Ganz

Revolutionary Road





«Revolutionary Road»



Sam Mendes adaptou para o cinema o livro de Richard Yates e assume a tarefa da desconstrução do american dream e desagregação de um casamento que se consome à medida que a ambição de um, o marido, se desvia do sonho que foi de ambos mas que apenas a esposa mantém intacto. Até ao fim. Literalmente.



Kate Winslet e Leonardo DiCaprio carregam o filme às costas com interpretações relevantes, bem coadjuvados por um secundário – Michael Shannon – que ilustra o desencanto de uma realização na linha do grande sucesso do cineasta britânico, o aclamado «Beleza Americana». Intelectualmente estimulante e psicologicamente perturbador, o amor, o ódio e a indiferença vão-se acumulando numa palete de sentimentos contraditórios que conduzem as personagens por um caminho de ida sem volta.



No fim, Revolutionary Road, a rua, continuará imponente nas suas mansões unifamiliares e nos jardins bem cuidados onde a vida prossegue imperturbável. Umas vezes eufórica outras resignada mas invariavelmente indiferente aos dramas dos vencidos. «Revolutionary Road», o filme, vê-se com uma calma que causa estranheza já que é de uma serenidade enganadora que se trata porquanto somos invadidos pela perturbação e melancolia de histórias de vida já vistas e revistas. E não necessariamente apenas na tela grande da sala do cinema.




Vicky Cristina Barcelona






Fim de Semana Alucinante





Woody Allen foi, até há poucos anos, o cineasta da cidade de Nova Iorque, cidade onde nasceu, vive e filmava fazendo da grande metrópole americana mais uma personagem dos seus filmes. Depois de «Match Point» (2005), «Scoop» (2006) e «O Sonho de Cassandra» (2007), o realizador regressou à Europa, desta vez a Barcelona, para filmar «Vicky Cristina Barcelona». E a primeira reacção que o filme despoletou em mim é que Allen promete nele muito mais do que aquilo que chega a cumprir. Sendo a sua carreira pautada por diversas incursões analíticas ao universo das relações amorosas, não deixando de exercer uma crítica feroz às psicoses que afectam os seus intervenientes, desta vez Allen procurou ir mais longe tentando edificar uma outra visão do amor em contraponto com a prática reinante, prática essa que é imposta aos seus membros pela sociedade dita civilizada.



De férias na capital da Catalunha, Vicky (Rebecca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson) são duas amigas tão diferentes uma da outra quanto o podem ser a água e o vinho. Uma, Vicky, é moderada, tradicionalista e aposta nas relações amorosas sérias estando de casamento marcado com alguém que partilha da sua linha de pensamento. Outra, Cristina, salta de relação em relação não temendo o amor mesmo sabendo que as rupturas implicam sempre uma carga de sofrimento, assumindo-a. Enquanto uma tirou um curso sem qualquer saída profissional preparando-se para ser esposa e mãe, a outra procura incessantemente descobrir o rumo certo para a arte que lhe corre nas veias e que ainda não identificou correctamente. Em Barcelona conhecem o pintor Juan Antonio (Javier Bardem), um homem que acredita no amor livre e no sexo sem fronteiras mas que vive na ambiguidade de continuar a procurar em cada mulher aquilo que ainda ama em Maria Elena (Penélope Cruz), a sua ex. Juan Antonio vai abalar as convicções de Vicky, dar involuntariamente a entender a Cristina que aquilo que lhe falta é encontrar o homem certo e, através do relacionamento tempestuoso mas apaixonado com Maria Elena, provar que os grandes amores permanecem para a vida inteira independentemente dos seus protagonistas ficarem ou não juntos.



Mas onde falhou então Woody Allen? Primeiramente, no facto de não ter percebido a rica cultura espanhola e, consequentemente, não ter tirado dela partido. Secundariamente, e não menos importante, porque se referiu vastas vezes no filme à Barcelona de Gaudí e Miró mas fê-lo sempre como se desse provimento a uma encomenda que lhe fora colocada e não usando a mais-valia romântica que a capital da Catalunha lhe poderia proporcionar. Apesar disso, noutro campo, o analítico, Allen andou muito próximo de defender com sucesso a teoria da grandeza do amor. Este que tem, necessariamente, de se tornar imune a regras sociais ou aos rótulos que as excepções a essas regras facilmente adquirem. Allen teve igualmente nas suas mãos a oportunidade de provar que o erotismo é apenas a expressão mais inflamada do amor. Mas ficou-se somente por algumas ameaças meio envergonhadas da sua exposição. Quanto às interpretações, o destaque vai inteirinho para a sensualidade de Scarlett Johansson, a passear-se na tela com uma irresistível languidez, e para Rebecca Hall, que arranca a melhor interpretação de todo o filme. Quanto a Javier Bardem e Penélope Cruz, se ele é vítima do gigantesco estereótipo que é a sua personagem, ela pura e simplesmente prova que esganiçar-se até ao encarniçamento não é suficiente para fazer uma boa composição de uma personagem problemática. Nem pouco mais ou menos. Em suma, em «Vicky Cristina Barcelona», Allen volta a não conseguir pôr uma pedra sobre a monotonia de decomposição em que por vezes cai o seu cinema. E desta vez é com muita pena que o concluo, dada a simpatia que me merecerão sempre os grandes amores e o idealismo dos seus figurantes.







«Vicky Cristina Barcelona», de Woody Allen, com Scarlett Johansson, Rebecca Hall, Javier Bardem e Penélope Cruz