domingo, 31 de outubro de 2010

O Escritor Fantasma




Chamada para a morte


O Iraque e o pantanoso mundo da política internacional têm sido fonte de inspiração para inúmeros filmes. Apesar disso, ainda tendo como pano de fundo o Iraque o verdadeiro ‘thriller’ das convergências políticas e manipuladoras de homens e governos estava ainda por fazer. E se «O Escritor Fantasma» não atinge a plenitude desse estatuto pode no entanto afirmar-se que anda lá muito perto. Com efeito, o aparente convencionalismo da realização de Roman Polanski – ele que não precisa de apresentações, torna-se um dos maiores trunfos de um filme que vive de personagens fortíssimas e de carácter insondável que fazem com que o espectador dificilmente consiga tomar partido por este ou por aquele. E assim o ‘suspense’ vai manter-se até ao fim.


Adam Lang (Pierce Brosnan) é um antigo Primeiro-ministro britânico refugiado numa ilha algures nos Estados Unidos e a braços com o Tribunal Internacional que o quer julgar pela prática de crimes de guerra. A forma como lidou com alegados terroristas iraquianos é o mote. Entretanto, durante o processo de escritura das suas memórias é contratado um novo escritor para as terminar já que o seu antecessor morre acidentalmente numa travessia marítima. O escritor fantasma (Ewan McGregor) viaja então para a mansão de Lang onde pretende concluir o livro e arrecadar 250 000 dólares com o trabalho. Mas rapidamente a personagem de Ewan McGregor percebe que algo de estranho se está a passar e que a morte do escritor que veio substituir poderá não ter sido assim tão acidental. E é a partir daqui que o filme se desenvolve acompanhando McGregor numa perigosa viagem a um mundo cínico, dissimulado e impiedoso que une política e espionagem internacionais.

O melhor do filme tem a ver com a intensidade dramática que é imposta por um guião que vive muito da ocultação de factos e engano nas evidências. Um filme assim, neste modelo com elevado grau de exigência, precisa avidamente de bons actores. E Tom Wilkinson (um sinuoso Paul Emmet, professor universitário e uma das primeiras incursões na investigação que McGregor leva a cabo), Olivia Williams (Ruth, a instável mulher do antigo inquilino do nº10 de Downing Street), Kim Catrall (Amelia Bly, assistente e amante do mesmo) e o próprio Ewan McGregor conseguem-no de um modo quase perfeito. Pena é que Pierce Brosnan esteja muito longe de reunir qualidades para um papel a requerer uma solidez dramática que jamais alcançou e ainda que o filme tenha alguma dificuldade em fazer acelerar o ritmo cardíaco dos espectadores mais cépticos.

Ainda assim, «The Ghost Writer» é um filme que recupera para o cinema o melhor de Roman Polanski e não será nenhum disparate dizer que a sobriedade e rigor com que a sua realização quase proíbe o espectador de se adiantar ao desfecho final da história, fazem lembrar aquele que ainda hoje é o maior mestre no ‘thriller de suspense': Alfred Hitchcock. E como bónus Polanski brinda ainda o espectador com uma mansão claustrofóbica numa ilha rodeada por um mar selvagem e meteorologia invernosa, pequenos e misteriosos hotéis construídos em nenhures e a ambiguidade conflituosa de uma editora de livros dividida entre os factos de uma biografia autorizada e a coscuvilhice ligada a um suposto maior interesse dos leitores. Em resumo, «O Escritor Fantasma» é um filme de insuspeita qualidade.



«The Ghost Writer», de Roman Polanski, com Ewan McGregor, Pierce Brosnan, Kim Catrall, Olivia Williams, Tom Wilkinson, outros



Dia e Noite






Missão Cumprida


Sim, eu sei, nem Tom Cruise é Cary Grant e muito menos James Mangold é Alfred Hitchcock. Mas caso o objectivo de uma ida ao cinema se prenda apenas com o visionamento de alucinação a rodos e mordacidade q.b. num filme que poderia ambicionar muito mais que aquilo que o próprio assume, então venham daí, peçam um alguidar de pipocas e um barril de Coca Cola porque durante duas horas o cinema resolveu rir-se de si mesmo. E nós com ele.

Ainda se lembram de «Missão Impossível II» , de John Woo? Lembram? Então esqueçam porque «Knight and Day» é tudo isso e muito mais em doses de loucura com uma pitada de química entre Tom Cruise e Cameron Diaz, ele que é o espião que combate o crime à escala mundial e ela a bela de serviço. Quanto à trama, um agente secreto acusado de traição, a sua própria organização a persegui-lo, tráfico de armas com direito a touros pelas ruas de Sevilha e uma mulher a caminho do casamento da irmã apanhada no meio do conflito. Onde é que já vimos isto? Fácil, em dezenas e dezenas de filmes. O bom da realização de Mangold é que assume a sua própria condição de mastigar e deitar fora mas com a característica fundamental de ser muito bom enquanto dura.

E se Cameron Diaz anda um pouco a reboque do filme, Tom Cruise toma as rédeas da trama com a qualidade e a sabedoria com que no próprio filme conduz aviões, motas de alta cilindrada, carros, copos de champanhe, armas de tiro de repetição e beijos na menina. Ele é Roy Miller e ela June Havens, nós os espectadores de férias que só querem fazer descansar os neurónios e usufruir de muita e boa diversão. Ala que se faz tarde!


«Knight and Day», de James Mangold, com Tom Cruise e Cameron Diaz






















A MULHER DO VIAJANTE NO TEMPO









Entre contradições e muita confusão também emergem as emoções


Henry viaja no banco de trás de um automóvel quando um violento acidente de tráfego o faz ficar órfão de mãe, ela que conduzia a sua própria viatura. O pequeno rapaz, que será interpretado por Eric Bana na idade adulta, vai no entanto poder voltar a ver a mãe em tempos anteriores ao do próprio acidente. Confusos? Pois continuarão a ficar já que o facto de Henry ser alguém que viaja entre o passado, o presente e o futuro sem conseguir controlar os momentos em que e para onde o faz não é explicado com coerência pela realização do alemão Robert Schwentke. Na verdade, as contradições da trama e a confusão romântica que pairam sobre o filme não ajudam nada a que se goste de uma história de ficção de impossibilidade real. E é aqui que começa o meu problema. Porquê? Porque embora de forma moderada e reconhecendo as inultrapassáveis fronteiras de um objecto de puro entretenimento, eu gostei do filme.

Já escrevi inúmeras vezes que cinema não é uma ciência exacta. E mesmo que percebamos as debilidades de uma realização ou de um argumento que se contradiz a si mesmo ao longo da trama, é possível que haja algo naquele filme que nos toque sobremaneira. A comparação pode até ser disparatada, assumo-o, mas esta linha de reflexão leva-me até ao amor. Quantas vezes nós não olhamos para um casal apaixonado mas aparentemente desequilibrado pelas características de cada um dos seus elementos e não percebemos o porquê de aquele homem ou aquela mulher se amarem. Mas amam-se porque o amor não se explica, acontece. E se o cinema se explica, naquilo em que o amor e o cinema têm muito de comum não há explicação possível: no campo das emoções, no território das sensações.

Voltando ao filme, Henry (Eric Bana, já o referi) inicia uma relação com Clare (Rachel McAdams). Entre saltos temporais e um amor que vive altos e baixos próprios das dificuldades de uma existência intermitente, a verdade é que o amor entre os dois persiste a todas as provas a que é sujeito. Perante isto, é possível que o espectador viaje pelo interior das suas memórias e perceba que caso lhe fosse dada a oportunidade de regressar a um ou outro importantes momentos da sua vida talvez pudesse alterar uma decisão ou um comportamento seus. Ou então não, tal como Clare lhe confessa quando sabe que vai perder Henry, nada mudaria. E é neste campo que o filme pode ter a capacidade de ganhar alguma razão junto de um espectador cujas razões já então nascem apenas das suas próprias emoções. E se assim for, o cinema confuso e contraditório de «A Mulher do Viajante no Tempo» já conseguiu vencer um dos seus grandes objectivos: fazer sonhar. E eu, quer o queira ou não, sou um sonhador. Que fazer!?


«The Time Traveller’s Wife», de Robert Schwentke, com Eric Bana e Rachel McAdams



Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo




Príncipe ou pirata, da Pérsia ou das Caraíbas, uma questão simples de clonagem


 


Acho que vou começar pelo princípio: Mike Newell, o realizador de «Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo», é o mesmo homem que em 2007 esteve por detrás das câmaras no filme «O Amor nos Tempos de Cólera» e quase arrasou por completo uma das maiores obras da história da literatura latino-americana e de um dos seus maiores intérpretes, Gabriel Garcia Marquez. Se juntarmos a isto o nome de um produtor que subverte o cinema em prol do negócio, Jerry Bruckheimer, e percebermos que o filme é a adaptação ao cinema de mais um videojogo, então quase ficamos conversados quanto à qualidade de «Prince of Persia: The Sands of Time». Mas não, desculpem, não me fico por aqui.




Coloque-se agora a questão: que se pode esperar de um filme com tão graves premissas? Eu diria que muito, se soubermos que a história evoca as fábulas das «Mil e Uma Noites» que povoaram o nosso imaginário infantil. E já que se trata da versão para cinema de um videojogo, espera-se igualmente – e no mínimo - acção mirabolante e um vertiginoso ritmo da narrativa. Reconheça-se que o filme até começa bem com as aventuras do pequeno Dastan (que em adulto será corporizado por Jake Gyllenhaal) e a aparição de um anjo que dá pelo nome de Gemma Arterton que no filme se chama Tamina e é a Princesa da esplendorosa cidade de Alamut. Mas uma montagem absolutamente desastrada, personagens secundárias a roçarem a idiotice para dar um tom de comédia ao filme conjuntamente com a desajustada pompa e circunstância à la Bruckheimer, tornam «Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo» num simples objecto de ‘franchising’ e confirmam Mike Newell como um mero tarefeiro ao serviço do pior cinema que se faz em Hollywood.




Ainda assim, há que reconhecer que o filme possui um público alvo como aliás é próprio de qualquer produto comercial a surgir no mercado depois de aturados estudos de mercado. E há ainda quem goste muito desta espécie de cinema, caso contrário ele não existiria. Isto porque, apesar de tudo e dos desastrosos efeitos especiais também, é de cinema que estamos a falar. E se outra razão não houvesse para o percebermos, Alfred Molina e Ben Kingsley estão lá para o provar. O primeiro mais que o segundo, na minha opinião. Mas bem analisada a questão, «Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo» está para o cinema como as canções pimba de Emanuel estão para a música: elas que tão depressa entram como saem do ouvido. Por outro lado, dá pena ver um Jake Gyllenhaall esforçado mas sem um mínimo de carisma para suportar uma personagem que se queria grandiosa e épica. Por tudo isto, volta Johnny Depp, volta «Pirata das Caraíbas», estão ambos perdoados.







«Prince of Persia: The Sands of Time», de Mike Newell, com Jack Gyllenhaal, Gemma Arterton, Ben Kingsley e Alfred Molina




O Segredo dos Seus Olhos



‘te Amo’


Sobre a mesa está pousado um bloco onde falta a letra A, encostada a um canto da sala encontra-se uma máquina de escrever que suprime a mesma letra A, mas apesar de silencioso nos olhos de Irene (Soledad Villamil) pode perceber-se um grande Amor. «O Segredo dos Seus Olhos», filme argentino realizado por Juan José Campanella, foi este ano o surpreendente vencedor do Oscar da Academia de Hollywood para o Melhor Filme Estrangeiro. Mas a surpresa só o é para quem não assista a duas horas de um filme onde o romance, a política e o crime são evocados com sentimento e paixão através de uma cinematografia irrepreensível. O cineasta argentino demonstra nesta obra uma invulgar mestria a lidar com a inquietude existencial do ser humano fiel àquilo em que acredita. Mas para tão grande sucesso, Campanella contou com um invulgar trio de actores cuja actuação só por si valeria todo o visionamento do filme.

Benjamin Espósito (numa fabulosa interpretação de Ricardo Darin) é um investigador judicial reformado que resolve escrever um livro sobre a história de um violento crime ocorrido trinta anos antes e que lhe alteraria radicalmente a carreira e a vida. Empurrado para a cena da violação e assassínio de uma linda mulher recentemente casada, Benjamin acaba por ficar preso à tragédia a que assiste e, posteriormente, à força do amor que sente no jovem viúvo dilacerado pela perda da companheira. Mas está-se em 1974, a Argentina vive debaixo de um regime arcaico e feudal e apesar de tudo fazer para que o criminoso seja apanhado e punido, Benjamin vai perceber que querer não é poder quando se depende dos outros e de um sistema judicial corrupto. No entanto, o investigador é um idealista e enquanto persegue o assassino vergado pela força do amor de outrem nem se apercebe que lentamente vai perdendo a possibilidade de ser feliz com a mulher que ama.

O facto de se estar perante o processo de criação de um livro, permite ao filme viajar constantemente entre o passado e o presente, a realidade e a ficção. E se os diálogos são um dos seus maiores trunfos, fazendo até vincar um pouco a singularidade do povo argentino, é nos silêncios, naquilo que se não diz, e na expressividade dos olhares que o filme atinge toda a sua plenitude. Verdadeiramente bem trabalhada e a demonstrar o quão coerente pode tornar-se a acção dos homens podendo atingir foros de um dramatismo sem paralelo, a trama policial acaba igualmente por ser um mero pretexto para o que pode ser o vazio total de uma vida sem o objecto da nossa paixão. Nesse amor silenciado, reprimido, são personagens principais Benjamin e Irene mas é fundamental perceber no final do filme o modo como Ricardo Morales (Pablo Rago), o desditoso viúvo, preencheu o vazio da sua vida sem a mulher que lhe foi violentamente roubada. A si e à vida.

Em suma, «El Secreto de Sus Ojos» é um filme notável sobre a existência humana num olhar sensível e inteligente que toca sem ser sentimentalista. E a par disso, como já referi atrás, há todo um festival de bem representar dado por Ricardo Darin (Benjamin), Gillermo Francella (o colega e amigo Sandoval) e Soledade Villamil (Irene). Imperdível.



«El Secreto de Sus Ojos», de Juan José Campanella, com Ricardo Darin, Gillermo Francella e Soledade Villamil




Polícia sem Lei








A redenção impossível


A propósito de «Polícia Sem Lei» poderia vir aqui falar-vos do singular realizador que é Werner Herzog, do ‘novo cinema alemão’ de que faz parte, dizem, ou de Rainer Werner Fassbinder ou Wim Wenders que como Herzog são alemães muito perigosos (um já se foi) e cúmplices com este no crime de fazer cinema pouco ou nada consensual. Mas não, deixo isso para os especialistas ou para as páginas enciclopédicas igualmente importantes na avaliação de uma obra e do trabalho de autores e actores. E também não pela simples razão de que aqui sou um simples cinéfilo, um espectador comum, mas sobretudo não porque seria um desperdício fazê-lo quando pelo filme se passeia um ser humano, um polícia no caso em questão, que persegue deliberadamente a sua própria perdição. Um homem que mata a dor com o prazer ainda que socialmente o faça sob algumas das mais condenáveis formas.

Pois este polícia sem lei, que usa e abusa do poder que lhe é conferido pela sua profissão, corrupto e amoral, acaba por se revelar uma das mais fantásticas personagens do cinema nesta época de contenção e num género que tem muito de ficcional mas que aqui poderia ser bem real, o policial. E se o cinema pode ser designado como uma fábrica de emoções, façam o favor de apertar os cintos uma vez que o estado geral que passa a vigorar assim que «The Bad Lieutenant: Port Of Call - New Orleans» se inicia é o de total insanidade. Insanidade na história que se desenrola e de estupefacção do espectador esmagado pelo delírio auto-destrutivo de uma personagem a contagiar todo o filme.

Mas calma, não corram já para as salas de cinema, sejam um pouquinho mais cautelosos. É que já li algures que este foi o pior filme do ano para uns quantos. É justo, como já sugeri atrás não se trata de um filme consensual certamente e cinema não bate a todos por igual. Mas que para mim foi absolutamente revigorante observar a forma como um polícia a investigar o homicídio de uma família inteira no que aparenta ter sido um ajuste de contas lê o manual de instruções de trás para a frente e ainda rasga umas páginas pelo meio, lá isso foi. E se o filme é muito de um Nicolas Cage histriónico no seu impagável boneco, há que não esquecer a humidade e o calor de uma Nova Orleães de sotaque sulista e a viver um período de negação logo após os efeitos do furacão Katrina a transformar-se numa personagem omnipresente em toda a trama. E ‘last but not least’ que dizer da belíssima e cada vez mais sensual Eva Mendes aqui num papel complexo de uma prostituta incrivelmente sedutora num misto de ingenuidade e admirável capacidade de amar? Meus caros Abel Ferrara, Harvey Keitel e «The Bad Lieutenant» de 1992, o homem até pode ter ido beber inspiração no vosso trabalho, não o nego, mas que valeu a pena lá isso valeu.



«The Bad Lieutenant: Port Of Call - New Orleans», de Werner Herzog, com Nicolas Cage e Eva Mendes







Robin Hood






O herói antes de o ser


Pergunta: quem foi Robin Longstride? Resposta: foi Robin Hood, o justiceiro da floresta de Sherwood que infernizava a vida ao Xerife de Nottingham e irritava o Príncipe John. Diga-se também que Robin Longstride é o filho único de um pedreiro que afinal foi filósofo sentenciado à morte por incitar os pobres e fracos a lutarem e a não desistirem dos seus direitos e sonhos. Mas convém ainda acrescentar, como ajuda suplementar para melhor percepção do fenómeno, que este acaba por ser unicamente o Robin Hood do realizador Ridley Scott, um Robin Hood que surge como simples arqueiro ao serviço de Ricardo Coração de Leão, rei de Inglaterra. Para clarificar ainda mais as coisas, é bom que se diga que estamos afinal a conhecer o homem por detrás da lenda. E que Longstride, um plebeu, por obra e graça do destino acaba por se travestir de fidalgo e ser ele a entregar à rainha mãe a espada de Ricardo I como prova da sua morte ocorrida no cerco a um castelo em terras de França.

As más notícias não acabam por aqui já que é minha convicção que parte de leão do semi-fracasso que constitui este «Robin Hood» se dá exactamente pelo exposto anteriormente. Ou seja, porque é bem provável que o espectador vá em busca do ‘seu’ Robin dos Bosques e se depare com um herói muito diferente daquele que conhece. Diferente da lenda e pouco de acordo com os factos históricos, embora esta seja uma questão lateral de somenos importância. E mesmo que quisesse ser benevolente com o filme já que este até tem bem delineados o herói, pela sua coragem e pelo seu carácter, e os vilões não faltando a donzela por quem o protagonista se irá apaixonar, a realização de Ridley Scott revela-se de tal modo convencional que até como simples entretenimento as suas mais de duas horas de duração acabam por fazer diluir um pouco essa importante dimensão do cinema. E o aborrecimento só não é geral graças a um excelente leque de actores, desde Russell Crowe a Max von Sydow passando por Cate Blanchett, e a uma bem urdida teia de conspirações que levam à acção e intriga.

De facto, «Robin Hood» não acrescenta nada de novo ao cinema e é mesmo muito parecido com «Gladiator» (2000). Mas isto numa escala bastante inferior até porque no filme em que Russell Crowe arrebatou o Oscar de Melhor Actor existia um vilão de peso a desequilibrar a balança a seu favor: Joaquin Phoenix. E perante o academismo do trabalho de Ridley Scott, custa a acreditar que em 1982 este mesmo homem tenha realizado um dos títulos fulcrais do cinema de ficção científica: «Blade Runner». Assim, «Robin Hood» perde-se na sua ambição reduzindo-se a um mero produto do cinema comercial de expressão menor. E para sermos justos há que perceber que nem sequer faz qualquer sentido tecer comparações com Errol Flynn e Olivia de Havilland em «The Adventures of Robin Hood» (1938), de Michael Curtiz e William Keighley, esse sim, um Robin dos Bosques de acordo com a lenda e com aquilo que se espera do grande cinema.


«Robin Hood», de Ridley Scott, com Russell Crowe, Cate Blanchet e Max von Sydow

 

















O Sexo e A cidade 2




Ensaio sobre a frivolidade


Para quem tenha visto o primeiro filme, «O Sexo e A cidade 2» não passa de uma repetição exaustiva de esquemas mas que agora surgem banais e sem pinga de inteligência criativa. E a sensação resulta pior para quem tenha visto alguns episódios da série televisiva que deu origem aos filmes, já que nesse caso «Sex and the City 2» não passa do estender de uma longa passadeira de frivolidades e humor fácil. Mais grave ainda, é perceber em como a ânsia mercantilista pode assassinar – e o termo assassinar é tudo menos exagerado - o que foi uma ideia inicial extremamente válida e fresca: elaborar um retrato livre e desinibido da mulher moderna, urbana e independente.

De facto, toda a causticidade e genialidade da série que o primeiro filme recuperava um pouco para o cinema perdeu-se nesta sequela. E a prova disso mesmo é constatar que as amigas Carrie (Sarah Jessica Parker), Charlotte (Kristin Davis), Miranda (Cynthia Nixon) e Samantha (Kim Catrall) são hoje caricaturas baratas de si mesmas numa vida anterior e que até o ‘glamour’ que milhões de mulheres procuram nas suas personagens se transformou em algo tosco e desenxabido. Não o mereciam a série televisiva, as admiráveis personagens que esta criou e muito menos os milhões de fãs que certamente se sentirão um pouco frustrados com o que viram neste filme. Não servirá de factor atenuante para os fãs, mas fácil será de concluir que para quem não seja adepto de «O Sexo e a Cidade» o filme não passa de um enorme bocejo muito mal disfarçado com uma ou outra gargalhada fácil aqui e acoli. Quanto aos primeiros, temo que em resultado das justificadas expectativas com que foram ver o filme possam ter saído da sala de cinema com uma certa sensação de fraude a pairar-lhe sobre a mente.


«Sex and the City 2», de Michael Patrick King, com Sarah Jessica Parker, Kim Cattrall, Kristin Davis e Cynthia Nixon




















9








Às portas do Inferno

No ocaso da vida, um cientista cria nove bonequinhos tecnologicamente movidos e envoltos numa pele feita de um tecido rude. Na sua quase inacreditável expressividade e inocência, esses bonequinhos são o único rasto com vida da passagem do homem pela Terra. Num futuro indefinido e apocalíptico reina a desolação e as máquinas, suprema e terrível criação do ser humano, continuam a sua destruição sendo que o alvo principal é agora o pequeno grupo de bonequinhos de serapilheira liderados pelo 9. Visualmente espantoso mas carente de um argumento sólido que desse outro impacto às preocupações sobre o carácter destrutivo da ambição humana, assim acontece «9», o filme.

«9» começou por ser uma curta-metragem de animação nomeada aos Óscares há um par de anos. Com o apoio do genial Tim Burton, o realizador Shane Acker conseguiu convencer os estúdios a produzirem uma longa-metragem suportada no mesmo material. E se a indústria do cinema de animação dá dois passos à frente em termos formais e de matéria-prima para a sua execução, a verdade é que enquanto unidade fílmica, «9» resulta contraditório. Trabalhando a decadência do ser humano enquanto espécie, nas referências aos nazis e ao carácter dogmático da religião parecem residir os alvos principais da fúria da realização. No entanto, a narrativa revela-se demasiado metafórica apesar da simplicidade das suposições a que obriga o espectador.

Mas é pena. Isto porque «9», feito de máquinas e bonecos de trapo, é um dos filmes mais humanos que vi nos últimos tempos. E em momento algum esquece que para se criar algo de bom tal terá que ser feito com… alma. E eu concordo em absoluto. É na alma de cada um que reside o maior poder. O resto resume-se unicamente a convenções e grilhetas que o homem inventou para se proteger na sua debilidade. Mas tal como as máquinas em «9», que se rebelaram contra o homem, também o sistema já não o serve. Oprime-o.



«9», de Shane Acker, com Elijah Wood, Christopher Plummer, outros





Greenberg







Crónica indie de uma ida febril ao cinema


Suponho que ir ao cinema quando se está a meio de uma gripe não seja bom para quem vai e muito menos para a apreciação do filme. Mas como sou avesso a ficar de ‘molho’ desde que me consiga arrastar de casa, arrastado lá fui. «Greenberg», de Noah Baumbach, é um produto típico do chamado cinema independente norte-americano e tem tudo aquilo que à partida se espera deste género de cinema. Pessoas de alguma forma estranhas, relações problemáticas e gente feia. Para além disso, Greenberg é corporizado por um Ben Stiller de tal maneira esquelético que impressiona pela sua magreza.

Stiller é Greenberg, um homem já entrado nos quarenta anos mas que parece nunca ter saído dos vinte. Saiu, isso sim, de um manicómio (vá lá, desculpem, diz-se hospital psiquiátrico) e desde Nova Iorque viaja até Los Angeles onde vai passar uns dias a casa do irmão, este de bem com a vida a fazer na altura uma viagem com a família até ao Vietname. Greenberg é um tipo neurótico e egocêntrico que não consegue passar mais de cinco minutos com alguém sem conseguir arranjar um conflito. Ora isto para quem vem de visita a antigos amigos e acaba por se relacionar com a empregada do irmão não é lá muito saudável. E entre gente que bebe como se não houvesse amanhã, barriguda e profundamente desmazelada com o seu aspecto meio ‘hippie’ e um bonito cão a sofrer de uma doença sofisticada, sem que pouco ou nada aconteça lá se vai fazendo o filme de Baumbach, ele que tem no seu currículo «A Lula e a Baleia»(2005) e «Margot e o Casamento»(2007).

Se esta fosse uma normal crítica de cinema, claro que seria de bom tom evocar o cinema europeu como referência de «Greenberg», nomeadamente Eric Rohmer, mas a verdade é que uma das coisas boas da febre é permitir esta leveza na hora de comentar um filme. Que, diga-se em abono da verdade, pouco ou nada acrescenta às vidas de cada um e como momento cultural ou de simples entretenimento também não possui méritos por aí além. Ou seja, admito que «Greenberg» seja muito para fãs do cinema independente norte-americano mas ainda assim não deixa de ser mais do mesmo. Apesar de tudo, vou tentar rever o filme quando sair em DVD já sem febre e com uma bebida e uns aperitivos a acompanhar.




Greenberg, de Noah Baumbach, com Ben Stiller



Dorian Gray











O retrato tremido de Dorian Gray







 


Mesmo sendo pouco conseguidos, há filmes que podem valer a pena. Não só porque levantam questões importantes e intemporais sobre a natureza humana e até relativamente às opções de vida que cada um toma, mas também porque relembram grandes obras da literatura de sempre. Não é, no entanto, o caso de «Dorian Gray», do britânico Oliver Parker. E não o é porque se trata de um mau produto, de um produto de consumo imediato que de modo algum faz justiça à obra «O Retrato de Dorian Gray», de Oscar Wilde. As razões são várias e prendem-se desde logo com questões técnicas como o desajustado aparato da montagem e uma fotografia pomposa que se baralha na fidelidade estética ao romance ao pretender imprimir ao filme uma áurea de terror gótico. Outra das razões tem a ver com a infelicidade do ‘casting’ quanto ao actor que veste a pele de Dorian Gray. Apesar disso, e como se essas não fossem por si razões suficientes para o fracasso, o que falha sobretudo é a ineficácia na exploração da inquietude e dos tormentos por que a personagem principal irá passar depois da sua longa caminhada até à total decadência moral em busca do prazer sem limites. Como já falhara antes na amostragem da adulteração da personalidade de um jovem cândido e ingénuo alcançada através das ideias perversas de quem joga com a vida dos outros.


 


A história é conhecida, Dorian Gray (Ben Barnes), um jovem aristocrata, chega a Londres depois da morte do avô e conhece o pintor Basil Hallward (Ben Chaplin) que imediatamente se sente seduzido pela beleza singular do rapaz. Basil não só cria a sua maior obra ao pintar o retrato de Dorian como apresenta este a Lord Henry Wotton, um fidalgo cínico que o alicia para a sua visão do mundo onde apenas o que importa é o prazer. A par, como forma de pressão sobre o jovem, vai enfatizando o carácter efémero da maior virtude de Dorian Gray: a sua beleza física. Em contraposição, o pintor Basil age de modo paternalista com Gray pese toda a carga erótica e de desejo que este desperta em si. E enquanto Wotton corrompe definitivamente a personalidade do rapaz transformando-o num libertino perverso sem sentimentos que não sejam os da satisfação dos seus próprios prazeres, este mantém-se estranhamente jovem. E é no retrato do quadro pintado por Basil que se vai sulcando toda a dor que Dorian Gray vai semeando à sua passagem.


 


A melhor forma que Parker arranjou para retratar o desregramento e libertinagem em que Dorian Gray caiu foi a insistência em caricatas cenas de orgia. E quando o eterno jovem resolve dar um novo curso à sua vida, a inquietude que o atormenta é mostrada de forma muito redutora em rápidos ‘flasbacks’ dos seus mais infames actos anteriores. Infelizmente, o actor que corporiza Dorian Gray limita-se a cumprir uma missão sem rasgo e sem a capacidade de atribuir espessura dramática à personagem. Assim, cabe a Colin Firth pegar nas rédeas do filme conseguindo transmitir-lhe alguma carga psicológica sobre um dos mais recorrentes temas de reflexão do homem através das suas diferentes formas de arte: o da eterna juventude. Por outro lado, é à sua personagem que cabe a maior crítica ao espírito hedonista da época vitoriana. Mas até nas maiores reflexões o que fica é a esmagadora conclusão sobre a vida por mais simples que esta possa revelar-se: é que a existir para alguém, a imortalidade não é mais que uma condenação ao degredo se não houver quem acompanhe essa pessoa na sua existência. E no amor.



Filme prescindível.



Um Lugar Para Viver










O sentido da Vida



Sejamos honestos, Sam Mendes não é propriamente um estudante de cinema a apresentar uma tese de licenciatura e o estatuto que granjeou como realizador de cinema não lhe permite o relaxamento criativo que se observa neste dificilmente classificável «Um Lugar para Viver». Mendes, que ganhou primeiramente fama no teatro, mais propriamente no West End londrino, especializou-se no cinema como cronista de uma certa desolação quotidiana tal como o atestam «American Beauty» (1999), com o qual ganhou o Oscar, e o mais recente «Revolutionary Road» (2008). Daí que não seja de estranhar que aborde novamente uma temática ligada a famílias disfuncionais e casais em busca do sentido da vida. Mas se como comédia o filme perde importância em termos de intervenção psicossocial dadas as personagens demasiado caricaturais, como melodrama vive de situações inverosímeis e rebuscadas numa tentativa fútil de validar os dilemas do casal central da trama.



A própria premissa de que o filme parte é desde logo um pouco patética. Um casal de trintões descobre que vai ter um filho e aos seis meses da gravidez de Verona (uma excelente Maya Rudolph) vem também a saber que os pais de Burt (John Krasinski também em bom nível) vão partir para a Europa deixando-os a sós no Colorado onde viviam lado a lado. A partir daqui, Burt e Verona resolvem iniciar uma viagem por quase toda a América do Norte em busca de amigos e familiares que possam servir-lhes de farol para uma vida nova com a filha que está para nascer. E a intenção é mudarem-se definitivamente para junto dos eleitos. A ideia já por si soa um pouco a disparatada, mas olhando a imaturidade e pouca preparação dos dois trintões perdoa-se o que em condições normais seria de todo improvável. O problema é que nas visitas que fazem em locais tão distantes como o Canadá ou a Flórida, os dois só vão encontrar famílias desestruturadas, ‘hippies’ aburguesados e completamente descompensados intelectual e emocionalmente e até um casal que durante o dia adopta crianças como quem muda de camisa e à noite frequenta bares de ‘striptease’. E é claro que na sua quase infantilidade Burt e Verona saem a ganhar e acabam por descobrir o já referido sentido da vida. Pena é que não haja no filme uma única pessoa de comportamento social minimamente aceitável.



Enquanto brincou aos filmes em «Um Lugar para Viver», Sam Mendes gozou de liberdade criativa e até se integrou num mundo que nunca foi o seu, o do cinema independente. Deu ainda um toque intimista à sua realização e misturou num casal alguma ingenuidade com amor confrontando-o com figuras ainda mais excêntricas e outras completamente doidas. Não conseguiu no entanto evitar alguma falha de ritmo da acção que se deve a uma estrutura dramática desconexa já que muitas das cenas quase parecem curtas metragens diferentes entre si. Apesar disso, e do facto de haver pouca verdade neste seu filme, no deve e haver final observamos um ‘road movie’ bastante agradável de se ver e hilariante a espaços que não deve deixar de ser aconselhado a quem gosta de filmes… no cinema. Isto porque «Away We Go» tem bons actores e respeita uma linguagem cinematográfica que a televisão não tem capacidade para transmitir. Quanto a Sam Mendes, que venha o novo James Bond, próximo projecto do realizador. Um filme que vem mesmo a calhar, já que nas histórias do espião ao serviço de sua Majestade abundam as mulheres bonitas e Mendes acabou de se separar de Kate Winslet. A ver vamos se Rachel Weisz não volta para os braços do compatriota.



«Away We Go», de Sam Mendes, com John Krasinski e Maya Rudolph

Green Zone






A Farsa


Antes daquilo que vá aqui dizer logo a seguir, devo confessar que me apetece muito pouco escrever uma crítica convencional sobre «Green Zone: Combate Pela Verdade». A razão é simples, é que o mais recente filme de Paul Greengrass colocou-me de novo frente a frente com todos aqueles motivos que me fizeram um cinéfilo inveterado, compulsivo ou, se preferirem, um tolinho dos filmes. E isso faz-me desejar libertar somente a alma. Ou tudo aquilo que por ela passa neste momento.




Através de uma banda sonora extraordinariamente adequada à história, de uma montagem vertiginosa que me fez ficar agarrado à cadeira da sala de cinema do primeiro ao último segundo, com este seu filme o realizador britânico Paul Greengrass não só provocou em mim um turbilhão de emoções como ainda me fez recordar que a manipulação da informação tanto pode destruir a vida de uma só pessoa como provocar uma guerra lançando milhões de seres humanos no desespero e no caos. Repito, bem lá no fundo eu tinha a certeza que gostar de cinema só poderia ser algo de muito bom e libertador. E ao sair da sala de cinema há poucas horas atrás – escrevo este texto às primeiras horas da madrugada de Domingo - só não gritei bem alto o meu júbilo por pudor. Mas não se pense que em mim só havia alegria. Havia euforia, sim, mas também raiva e desespero. E só um grande filme como «Green Zone» indubitavelmente é poderia levar-me a esta miscelânea de sensações e à quase perda de controlo sobre mim mesmo.



Todos sabemos que os aliados, com os EUA à cabeça, invadiram o Iraque sob o pretexto de que o exército iraquiano tinha na sua posse poderosas armas químicas de destruição massiva. Hoje sabemos também que nunca foram encontrados esses famosos arsenais nos desertos daquele país do médio oriente. Mas é na tentativa de encontrar esse armamento que em 2003, poucas semanas após a invasão do Iraque, o Sargento-chefe Roy Miller (Matt Damon) e a sua equipa são enviados para o Iraque. Depois de várias informações tidas como seguras se revelarem totalmente falsas, Miller não só começa a desconfiar que algo ali não bate certo como se apercebe de alguma sabotagem com vista a inviabilizar o seu trabalho. Pela história passeiam-se ainda Clark Poudstone (Greg Kinnear), um alto funcionário norte americano que se revela um facínora e um impiedoso manipulador, Martin Brown (Brendan Gleeson), um agente da CIA recto e de bons instintos, e ainda Lawrie Dayne (Amy Ryan), uma jornalista demasiado ingénua e muito influenciável por fontes que não questiona.



Como pode facilmente perceber-se, baseado no livro de Rajiv Chandrasekaran e com guião de um dos mais importantes argumentistas de Hollywood, Brian Helgeland (ele que trabalha regularmente com Clint Eastwood e escreveu o argumento para «Robin Wood», de Ridley Scott, fita ainda por estrear), o filme explora a autêntica farsa que americanos e ingleses montaram como desculpa para invadirem o Iraque e deporem Saddam Hussein. Daí que muito mais que um filme de guerra, «Green Zone» é um ‘thriller’ que tem como pano de fundo a guerra no Iraque. Uma guerra que ainda hoje, sete anos depois da invasão, se prolonga. De câmara na mão, o que ajuda à acção trepidante a que assistimos, Greengrass dirige não só uma fabulosa equipa de actores como até o espectáculo pirotécnico que idealizou resultou numa impressionante beleza estética. Se é que se pode afirmar algo do género quando olhamos uma cidade a ser destruída pelas bombas inclementes que matam tudo o que mexe em seu redor sem diferenciar culpados ou inocentes. E se há verdades que doem, esta que o filme sugere, embora não possa ser considerada uma verdade total porque faltam elementos que provem o embuste, dói exactamente por isso mesmo: dói porque dificilmente serão julgados e condenados os grandes culpados da morte de milhares e milhares de cidadãos iraquianos e muitos militares do lado dos aliados.



Termino este texto voltando ao seu princípio porque é por filmes como este «Green Zone» que ao longo dos anos me tornei um apaixonado por cinema. Isto, pese o grande objectivo de Paul Greengrass ao realizá-lo, suponho, comigo não tenha funcionado. Isto é, não senti que tenha resultado como catarse para a culpa que a humanidade deve necessariamente sentir sempre que inventa uma guerra onde morrem tantos de nós. Ainda assim, o filme valeu e de que maneira como grande momento de cinema. Um filme, aliás, que ninguém deve perder. E não sendo meu hábito fazê-lo, não resisto neste caso à óbvia comparação com «The Hurt Locker». Sendo um filme de guerra que tem igualmente como cenário o Iraque e tendo sido vencedor de uns quantos Óscares, o filme de Kathryn Bigelow não passa de uma brincadeira de meninos confrontado com «Green Zone». Denso, interventivo, vertiginoso, esteticamente irrepreensível, brilhantemente protagonizado e fundamental é assim este imperdível «Green Zone: Combate Pela Verdade».

«Green Zone», de Paul Greengrass, com Matt Damon, Brendan Gleeson, Greg Kinnear e Amy Ryan


Fora de Controlo












Um cidadão exemplar



Oito anos depois, o actor que se celebrizou como Mad Max e posteriormente teve uma carreira plena no cinema desde produtor a realizador, regressa finalmente aos filmes. Neste seu retorno à interpretação, Mel Gibson surge de um modo como se dispensasse qualquer tipo de maquilhagem ao fazer de Tom Craven, um detective da brigada de homicídios que vê morrer a filha num disparo que de início julgou ser direccionado a si. A partir daqui, o detective parte para uma investigação onde parece procurar as mais diversas razões para não prosseguir vivendo. E com o desenrolar das pesquisas que faz, acabará por descobrir aquilo que jamais suspeitava e encontrar o que tão incessantemente procurava.



«Edge of Darkness» é a adaptação de uma mini-série britânica datada de 1985. E apesar do filme cumprir com o objectivo primordial do cinema, o entretenimento do espectador, a verdade é que não lhe acrescenta quase nada e se perde no confronto com as actuais séries televisivas já que não consegue adoptar uma linguagem cinematográfica própria. A começar porque não existe no filme um verdadeiro esquema narrativo. Que quer isto dizer? Significa que as diversas personagens vivem em função do desenvolvimento da trama e nunca se percebe de onde vêm e aquilo que as motiva para além das ocorrências da acção. E isso pesa no final do filme já que o espectador corre o risco de sair da sala com uma forte sensação de que tudo o que viu lhe soube a muito pouco. Se concluirmos ainda que o final do filme se torna óbvio pelas evidências que o antecedem, então estamos conversados quanto a um inexistente interesse superlativo deste «Fora de Controlo».



Ainda assim, há na história que se conta uma aura de tristeza e de contestação aos meios obscuros de que o poder se usa para levar em frente projectos que certamente a opinião pública condenaria caso deles tivesse conhecimento. E esses méritos devem ser reconhecidos. A somar a isto, para além das presenças pujantes de Danny Huston e Ray Winstone, dois secundários de luxo, passeia-se pelo filme um detective possuidor de irrepreensíveis códigos morais e de conduta protagonizado por um Mel Gibson esquecido de si para poder chegar ao coração dos espectadores. Tom Craven (Gibson) não é nenhum herói nem um polícia especialmente brilhante. É apenas um profissional competente e honesto que acredita em princípios basilares num mundo onde cada vez mais só são admitidos os muito maus e os muito bons. Um mundo sem espaço para aquelas pessoas que sobrevivem num espaço intermédio e apenas querem levar uma existência digna no cumprimento dos seus deveres. E de certo modo o filme homenageia estes ilustres anónimos acabando por ser esse o seu maior trunfo.



«Edge of Darkness», de Martin Campbell, com Mel Gibson, Bojana Bokakovic, Danny Huston e Ray Winstone


Lembra-te de Mim










Rebelde sem causa



Em 1991 Ally (Emilie de Ravin), ainda criança, vê a sua mãe ser assassinada numa estação de metro na cidade de Nova Iorque. Dez anos depois Ally, já crescida, irá cruzar-se com um jovem introspectivo, amargurado pelo suicídio do irmão e desolado pela pouca atenção que Charles (Pierce Brosnan ao seu estilo mais formal), o pai, concede à sua pequena irmã, ela que tem problemas de adaptação à escola e aos colegas. Esse jovem é Tyler (Robert Pattinson), ele que já antes tivera um encontro imediato com outro pai, este o de Ally, que é um polícia algo violento e obsessivo protagonizado por Chris Cooper. Tyler tem evidentes tendências depressivas mas não deixando por esse motivo de ser a âncora numa família destroçada pela tragédia. Isto porque também a mãe (uma desaproveitada Lena Olin) parece meio perdida num conflito interior que é transversal a todos naquela família.



A partir destes factos, o filme gira todo ele em torno da desagregação quer da família da bonita Ally ou do dolorido Tyler e da paixão que vai unir os dois jovens. Contra tudo e contra todos, até contra os próprios. O argumento, que foi idealizado com precisão quase matemática, filma de modo obsessivo o rosto angustiado da estrela do momento saída dos filmes de vampiros e, numa predilecção constante pelo drama, transporta o espectador para dentro de cemitérios onde os vivos choram os mortos e para o interior cosmopolita de uma Nova Iorque de postal ilustrado onde abundam os tradicionais táxis amarelos, os bares de culto e os restaurantes de luxo que mais não servem como cenário para novas desgraças e mais razões para fabricar um forte sentimento de nostalgia. Nesta espécie de fábula urbana, fácil será de perceber que a pouca profundidade do drama que se pretende e o ‘déjà vu’ presente ao longo de todo o filme pouco importam no seu objectivo principal: fazer render o peixe. Um peixe chamado Robert Pattinson à venda junto de um público feminino sedento de imagens do seu ídolo.



E se em termos críticos seria quase um sacrilégio admiti-lo, a verdade é que em questões de sensibilidade pelo que são as necessidades de um público de determinada idade desejoso de se idealizar no romance de um dos seus ícones é justo dizer que o cinema também se faz desta cepa. Se é bom ou mau cinema, neste caso pouco importará a quem não consegue suster as lágrimas perante o drama pungente e sai da sala a suspirar pelo jovem sedutor ou pela linda mulher em cujos corpos e almas se reviram durante cerca de duas horas. E se as coisas se passam deste modo, de que vale teorizar sobre a banalização de um género cinematográfico, o drama, que tem tantos e bons exemplos de qualidade em oposição a este «Lembra-te de mim»? Nada, absolutamente nada. Daí que, jovens adolescentes ou outros fãs de Pattinson ou deste modelo de cinema em registo sentimental, corram para as salas de cinema onde o filme está a ser projectado e deliciem-se com os vossos ídolos. Chorem, riam, emocionem-se e vibrem. Numa palavra, sintam, pois é para isso mesmo que também serve o cinema.



Para finalizar, não abdico de passar um louvor e lavrar um protesto. O aplauso vai para a pequenina Ruby Jerins, ela que é a irmãzinha desadaptada e talentosa, que se revela uma doçura de menina na exposição de um drama pessoal que não é tão invulgar assim. E a assobiadela, monumental, diga-se, vai para o final do filme disparatadamente panfletário a tentar uma seriedade descabida naquele que é afinal um romance de consumo modelarmente direccionado. Não havia necessidade.





«Remember Me», de Allen Coulter, com Robert Pattinson, Emilie de Ravin, Ruby Jerins, Pierce Brosnan, Chris Cooper e Lena Olin

Parnassus – O Homem Que Queria Enganar o Diabo








Deus e o Diabo numa terra sem Sol



Duvido que me consiga fazer entender, mas desde sempre achei que certos aspectos de imperfeição criam um poder de sedução enorme sobre algo ou alguém. Sobretudo quando essa imperfeição surge de uma sinceridade absoluta, de uma ingenuidade bondosa de quem se assume tal como é rejeitando maquilhagens de estilo, forma ou personalidade. «Parnassus – O Homem Que Queria Enganar o Diabo» é feito desta massa e Terry Gilliam, o ex Monty Python, é um realizador cujos filmes são erigidos sobre uma cinematografia arriscada e invariavelmente à beira do precipício. Não será pois de estranhar que passados vinte a trinta minutos de fita, a sensação que sentia crescer em mim com mais força era a de estar na presença de um filme confuso e muito desarrumado. E desse modo, como espectador também eu me senti à beira do abismo.



«The Imaginarium of Doctor Parnassus», título original do filme, marca também a derradeira participação do malogrado actor Heath Ledger no cinema, ele que morreria de overdose de medicamentos durante as filmagens. Curiosamente, tendo o argumento sido reescrito, o facto permitiu as participações nas filmagens de actores de renome como Johnny Depp (simplesmente brilhante), Jude Law e Colin Farrell. Nos papéis de substituição de Ledger, os três acabam por funcionar como alter-egos de Tony (a personagem defendida por Heath Ledger).



Relativamente à trama, ela parte de uma pacto que o mágico Dr. Parnassus (um Christopher Plummer em muito bom nível) faz com o Diabo (Tom Waits): em troca da imortalidade, Parnassus promete doar ao Diabo a alma do seu primeiro descendente logo que este complete dezasseis anos. E enquanto percorre as ruas de Londres numa carroça a vender a sua magia, Parnassus vai socorrer-se de Tony para tentar salvar a sua filha Valentina a poucos dias de completar a idade que a fará propriedade do Diabo. Valentina que é corporizada por Lily Cole, uma actriz de invulgar e estranha beleza.



Enquanto os clientes de Parnassus vão entrando pelo interior de um espelho mágico podendo aí viver a experiência mais sombria ou os prazeres mais simples, tudo fruto da imaginação dos próprios proporcionada pelo milenar Parnassus, Terry Gilliam caminha sobre o arame num delírio narrativo que chega a ser divertido mas cuja maior característica se alicerça num nítido desequilíbrio formal e de conteúdo. E nesta imperfeição fica a ganhar o mundo que está do lado de cá do espelho apesar das imagens soturnas de uma Londres marginal e nebulosa. No fundo, e no meio de tanto artifício visual, tudo resulta bem simples e mais não se pretende que discorrer sobre o bem e o mal, o real e o imaginado e o verdadeiro e o falso tal como se informa na sinopse promocional do filme. Mas as grandes ideias de Gilliam perdem-se na sua incapacidade de as dotar de riqueza e lucidez narrativas. No entanto, como referi no início a boa vontade e a humildade de querer fazer bom cinema são tão evidentes que o filme acaba por exercer um fascínio sobre nós que em boa verdade não teria só por si. E assim, cada vez mais me convenço que em cada homem louco há um homem bom. Mas é claro que nesta minha convicção falo também por mim.















«The Imaginarium of Doctor Parnassus», de Terry Gilliam, com Christopher Plummer, Heath Ledger, Tom Waits, Lily Cole, Johnny Depp, Colin Farrel e Jude Law


Uma Outra Educação








A educação de Lynn

Jenny (Carey Mulligan) é uma jovem e talentosa estudante que vive com os pais nos subúrbios de Londres. A família, gente medíocre e conservadora, sonha com um curso de literatura para a filha na famosa universidade de Oxford. Já Jenny, aparentemente mais madura que as suas colegas num também ele ultra-conservador colégio feminino, fantasia com a cosmopolita Paris e com uma existência completamente diferente da vida aborrecida que leva. Para ela, a vida teria certamente outro sabor a ouvir as canções de Juliette Greco, a fumar cigarros russos e com a ida regular a jantares em clubes restritos. Neste entretanto, surge David (Peter Sarsgaard) na vida de Jenny, um homem mais velho e sedutor que parece assumir-se como o meio mais rápido para Jenny atingir o que afinal parece unicamente desejar de Oxford.



O filme segue de perto as memórias escritas da jornalista inglesa Lynn Barber. Realizado pela dinamarquesa Lone Scherfig («Italiano para Principiantes», 2000) a narrativa assume conceptualmente uma espécie de pacto com a Inglaterra do pós guerra, já que se mostra cinzenta e convencional. E lamentavelmente, como se se tratasse de um pouco ambicioso espectador acabado de aterrar numa sala de cinema a ver o mundo a preto e branco, a realização depressa encontra um réu para um ‘crime’, note-se, onde apesar da sua juventude a seduzida o é através de carros luxuosos, prendas caras, viagens e toda uma vida de sumptuosidade. Apesar disso, e não esquecendo a peculiar dimensão moral do sedutor, David nunca se mostra um homem pervertido numa redutora busca de sexo parecendo verdadeiramente interessado no amor de Jenny e na sua enriquecedora companhia. E num filme que chega até nós recheado de expectativas e apontado como um dos dez melhores filmes candidatos aos Óscares, imagine-se o quão fascinante seria se a realização explorasse este filão ligado a gente diferente que quer e ama de modo marginal àquilo que a sociedade e a moral impõem.



Mas não e «An Education», no seu título original, teoriza vagamente sobre a educação que a vida acaba por dar a quem tem a coragem - ou a insensatez, como defende o filme - de a seguir fugindo aos cânones normais. Mas, mais uma vez sem surpresas, Oxford acaba por vencer numa vitória demasiado cruel sobre um amor amoral, é certo, mas um amor. E cruel porque quase no final da fita, Jenny, já universitária em Oxford e ultrapassada a ‘irritação David’, acaba por revelar que regressou a Paris como se fosse a primeira vez e com um namorado da sua idade. Olha que bem e que sorte a dela. Supõe-se que aquilo que o filme quer dizer é que Jenny já nem sequer recorda David, o homem que a fez feliz durante algum tempo sem a obrigar a nada e com a bênção da família, a ‘teve’ pela primeira vez e a apresentou à vida que sonhava. Mas não, nada mais falso, já que o filme mente descaradamente. Porque se o cinema é vida e se neste caso retrata as memórias de alguém, da jornalista inglesa Lynn Barber como já referi atrás, é bom que se faça a pergunta fundamental: afinal o que relembra Lynn nas suas memórias? Simples, a sua vida com o infame David. Tudo o resto que viveu, supõe-se, é tão saudável e tão normal que ninguém para além de si e dos que partilham a sua vida quer saber. Curioso, não?



Ainda assim, estamos na presença de um filme agradável mas onde convém ler para além da mensagem subjacente. Destaque para a interpretação muito deliciosa de Carey Mulligan, toda ela de uma naturalidade e fogosidade espantosas que fazem de Jenny o centro da acção num filme recheado de personagens riquíssimas na amostragem dos clichés sociais e familiares de uma Inglaterra dos anos sessenta sem gosto pela vida. Também grande está Alfred Molina, o pai, no desenho de um homem mesquinho que transporta para a filha o sonho de uma vida que não viveu. Mas que rapidamente se dispõe a alienar uma aparentemente sólida ideia de educação à vista do luxo e de uma dimensão social para a qual nunca teve a menor capacidade para se integrar.



Resumindo, «Uma Outra Educação» é um pequeno filme que se agiganta na forma como permite ao espectador meditar sobre a vida através dos revezes amorosos de uma jovem adolescente. Ainda que, por vezes, se chegue a conclusões que dificilmente serão aquelas que esperaríamos comodamente sentados no sofá da sala de cinema.







«An Education», de Lone Scherfig, com Carey Mulligan, Peter Sarsgaard, Alfred Molina, outros


Visto do Céu












O inferno na terra



Que dizer de um filme recheado de boas intenções e que admitimos ir tocar emocionalmente a esmagadora maioria dos espectadores dada a sua temática dolorosa mas que acreditamos ser uma obra falhada dados os seus desequilíbrio e despropositada grandiloquência? Provavelmente o melhor seria remetermo-nos ao silêncio. Isto porque ninguém quer – eu pelo menos não o pretendo – tocar amargamente o âmago de quem ler palavras menos amáveis para com um filme que nos fala de uma menina cruel e precocemente expulsa desta vida, ficando algures num território descrito como geograficamente situado entre a vida e a morte. Mas porque discordo totalmente da abordagem de Peter Jackson (realizador da fabulosa trilogia de «O Senhor dos Anéis») a um caso de vida (e morte) tão visceralmente cortante, arrisco mesmo magoar quem tenha visto e se tenha particularmente comovido com «The Lovely Bones», no seu título original.



Susie Salmon (Saoirse Ronan) é uma adolescente de catorze anos feliz e apaixonada pela vida e por um colega de escola. Vivendo no seio de uma família feliz composta pelo pai (Mark Wahlberg), pela mãe (Rachel Weisz) e por um pequeno irmão e uma irmã, Susie está longe de adivinhar que vive paredes meias com um perigoso pedófilo. Atraída pela curiosidade natural de uma menina ingénua e de boa índole, Susie acaba violentada e barbaramente assassinada por George Harvey (Stanley Tucci), um seu vizinho. Incapaz de seguir definitivamente para o céu, Susie observa a meio caminho entre a morte e a vida a incapacidade da sua família em superar a dor de tão difícil perda.



O filme adapta o livro homónimo de Alice Sebold, ‘best seller’ mundial. No entanto, a magnificência visual e plástica pretendida pela realização resulta numa superficialidade aviltante que apenas visa explorar do pior modo a dor de quem, sentado numa cadeira da sala de cinema, observa a tragédia da família Bones. E o que poderia ter sido um ensaio sobre os mistérios que encerram a vida para lá da morte, acaba por se tornar num exercício patético e inverosímil sobre uma família devastada e incapaz de ultrapassar a mágoa para poder prosseguir o seu caminho.



Ainda assim, na abordagem psicológica ao assassinato, e ao assassino, o filme mostra um cuidado que não teve na questão familiar e da já referida enigmática condição de Susie. Para isso muito contribuiu a portentosa interpretação de Stanley Tucci, o psicopata, ele sim a mostrar-nos como o perigo pode morar ao nosso lado sem que dele suspeitemos. E esta acaba por ser a prova final do enorme desequilíbrio de um filme onde a tragédia de uma família duramente traumatizada acaba por ser secundarizada pela assustadora normalidade de um homem profundamente doente e desumanizado. É também isto que eu não posso perdoar a Peter Jackson. Assim como à ideia subjacente da sua realização de que perante um drama como o que se assiste ao homem apenas resta coração como se devêssemos menorizar a razão. E eu não acredito nesta teoria.







«The Lovely Bones», de Peter Jackson, com Saoirse Ronan, Mark Wahlberg, Rachel Weisz, Susan Sarandon e Stanley Tucci



Alíce no País das Maravilhas





Do outro lado do espelho



Escrita por Lewis Carrol, «As Aventuras de Alice no País das Maravilhas» possui mais de duas dezenas de adaptações ao cinema. Chegou agora a vez de Tim Burton. Este, pegou em «As Aventuras de Alice no País das Maravilhas», adicionou-lhe «Alice do Outro Lado do Espelho» e fez um filme não se limitando a sonorizar as histórias e dotá-las de imagens em movimento. Isto porque «Alice in Wonderland», de Tim Burton, é a visão muito particular do peculiar e genial realizador sobre as obras de Lewis Carrol já de si repletas de simbolismos, paradoxos e mensagens subliminares. E se a história de Alice pertence ao imaginário infantil é inegável que o realizador norte-americano se dirige muito mais a graúdos que a miúdos sem no entanto deixar ninguém de fora do seu trabalho de composição. Um trabalho que é todo ele um saudável elogio à loucura. O que acaba até por ser recorrente na obra do cineasta de «Eduardo Mãos de Tesoura» (1990), «Marte Ataca» (1996), «O Cavaleiro sem Cabeça» (1999) e «O Grande Peixe» (2003) para só citar algumas das suas obras.

Alice (Mia Wasikowska) tem agora 19 anos de idade e regressa à terra onde esteve enquanto criança. Lá, ela vai reencontrar os seus velhos amigos: o Coelho Branco (Michael Sheen), Tweedledee e Tweedledum (Matt Lucas), a Lagarta Absolem (Alan Rickman), o Gato Cheshire (Stephen Fry) e o excêntrico e devoto Chapeleiro Louco (Johnny Depp). No entanto, a felicidade é então algo inexistente por aquelas bandas já que a Rainha Vermelha (Helena Bonham Carter) se apoderou do trono pela violência e à Rainha Branca (Anne Hathaway) e todos os seus anteriores amigos resta esperar que Alice possa devolver as maravilhas àquele país recheado de personagens fantásticas.

Durante quase duas horas, através das imagens em 3D, o espectador vive por dentro uma história fantástica sobre a busca que alguém efectua na tentativa de empreender o rumo certo para a sua vida. Um dos grandes desafios da realização de Burton prende-se precisamente com esse aspecto particular: o de saber até que ponto cada um de nós percebe ou não o que realmente importa nas nossas vidas através do paralelismo com o filme. Será que interessa perceber o que têm em comum um corvo e uma secretária ou será muito mais definitivo para a nossa existência determos em nós o talento capaz de não deixar que os laços importantes se quebrem ainda que cada um tenha que seguir rumos diferentes para as suas vidas? A par das sempre importantes questões filosóficas, o filme possui uma admirável qualidade artística e é de uma beleza visual cativante. É ainda de realçar que a animação em 3D está no filme ao serviço da história e não o contrário. E num filme recheado de grandes intérpretes do cinema actual, Helena Bonham Carter é talvez aquela que mais se destaca na ambiguidade de desejar o amor dos outros mas, por insegurança, acabar por optar pela política do medo. Já Johnny Depp, actor ‘fetiche’ de Burton, joga em casa dividido entre a mais completa insanidade e a emoção de dar corpo a um ser aparentemente seguro de si mas a espaços desprotegido e interrogativo sobre o meio que o rodeia.

Resumindo, «Alice no País das Maravilhas», de Tim Burton, apresenta-nos um mundo onde o sonho vira pesadelo e representa uma excelente oportunidade para alguns adultos recuperarem para si a criança que foram um dia. E, quem sabe, perceber se o caminho seguido por cada um está de acordo com os seus sonhos de menino. E não sendo segredo para ninguém, resulta curioso verificar como de um mundo aparentemente recheado de loucura se pode extrair tanto de positivo. E de belo para os olhos e para a alma.











«Alice in Wonderland», de Tim Burton, com Mia Wasikowska, Johnny Depp, Helena Bonham Carter e Anne Hathaway

Shutter Island












A barca do inferno



Até que ponto a loucura não serve de escudo ao ser humano como defesa contra a dor mais atroz? E se recuperada a lucidez de que força, ou forças, precisa o homem para sobreviver às inquietantes memórias que o levaram a perder a sanidade mental? E mesmo que tenha essa capacidade quererá este continuar a vida carregando às costas um fardo tão pesado? Esta e outras questões são-nos sugeridas por «Shutter Island», um ‘thriller’ de terror psicológico baseado na obra homónima de Dennis Lehane. «Shutter Island» que representa igualmente mais uma claustrofóbica descida do cinema aos infernos da mente humana. Neste caso, através de um argumento tão labiríntico como labiríntica pode revelar-se a própria mente. E para aqueles espectadores que entrados na sala de cinema se esquecem do mundo lá fora e vivem de modo particularmente sensível a vida das personagens que desfilam na tela, temo que o mais recente filme de Martin Scorsese lhes proporcione hora e meia de profundo sofrimento. De muito bom cinema, que não restem dúvidas, mas em igual medida de um doloroso pesar. Porque a tensão crescente no drama da vida de Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio) possui componentes próprios da mais aflitiva mágoa.



Teddy Daniels é um Agente da Polícia Federal em missão na prisão psiquiátrica de Shutter Island. Acompanhado do colega Chuck Aule (Mark Ruffalo), Daniels é também ele um homem atormentado pelo trágico desaparecimento da mulher. E a busca da verdade sobre os acontecimentos que rodearam a sua morte assim como o enigmático sumiço do piromaníaco assassino Laeddis, são os motivos reais por detrás da presença de Daniels na muito rochosa ilha. Ele que ali se desloca em missão oficial alegadamente na tentativa de investigar a fuga de uma das mais assustadoras criaturas presas no sombrio estabelecimento para tratamento psiquiátrico. Sobre este abundam igualmente os rumores sobre actos ilegais de investigações à mente humana e outras experiências cirúrgicas que visam mudar a atitude dos criminosos. E o comportamento do Dr. Cawley (Ben Kingsley), director clínico do estabelecimento, e dos elementos da guarda prisional parece atestar as desconfianças do Agente Federal.



Mas no que concerne a uma mente humana transtornada todas as possibilidades são de equacionar. E nem sempre aquilo que parece é. O filme, herdeiro do cinema clássico, apresenta uma estrutura conceptual irrepreensível que o leva a uma extrema eficácia na espiral de tensão que adopta. E a determinado momento todos se interrogam. As personagens sobre o seu verdadeiro papel no drama e o espectador que começa então a perceber que algo de verdadeiramente grandioso está para lhe ser revelado. À altura, vivem-se os anos 50 ainda na sombra de Auschwitz e da barbárie nazi sendo que, curiosamente ou talvez não, a chegada a Shutter Island só pode ser efectuada por ‘ferry’, o que aponta para a mitologia grega.



E num filme, mais um, de doloroso testemunho por parte do espectador da ambiência opressiva e, mais para o final, da descoberta do quão desordenada pode ficar a mente humana como resultado de um trauma profundo, emerge a excelente interpretação de Leonardo DiCaprio, ele que para muitos continua a ter que provar a sua enorme capacidade para a representação em cada novo filme que faz. DiCaprio que é muito bem coadjuvado por Mark Ruffalo, Ben Kingsley e pelo octogenário Max von Sydow. Quando o filme termina , até pelo período difícil de tragédia atrás de tragédia que o mundo vive na actualidade, há imagens que chocam de tal modo que é quase tarefa impossível a de nos alhearmos de que também nós somos seres humanos e como tal possuímos um limite para suportar a dor.





«Shutter Island», de Martin Scorsese, com Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Ben Kingsley e Max von Sydow