domingo, 31 de outubro de 2010

A inveja




[Ernest Miller Hemingway, 1899 - 1961]




Inveja de Hemingway





Julgo que é algo aceite universalmente: os escritores, os grandes escritores, homens ou mulheres, são pessoas especiais, tocadas por um sentimento exaltado, impetuoso, sentimento que têm necessidade de passar aos outros, de o (d)escrever como se de um impulsivo desabafo se tratasse. Muitos desses escritores são, foram, gente invulgar, gente atropelada no seu percurso pela fome de viver, de amar, gente que sem o perceber corre(u) desesperadamente para a angústia. E, em derradeiro fôlego, em alguns casos na maior prova que há de amor pela vida, acabaram por a abandonar voluntariamente. Não é raro eu sentir inveja dessa gente. Dessa gente de essência excessiva, de busca incessante pela felicidade sem jamais a lograrem alcançar.



Hoje, confesso, sinto inveja do que foi Hemingway.



Ernest Miller Hemingway, nascido no campo, filho de médico. Escreveu obras fundamentais como «O Sol Também se Levanta» (1926), «Por Quem os Sinos Dobram»(1940) e, entre outros, «O Velho e o Mar» (1952). Pelos seus escritos condecoraram-no com o Prémio Pulitzer, primeiro, e com o Nobel da Literatura, depois. Hemingway deixou que os seus olhos se humedecessem com o brilho das cores do mundo. Viveu em Itália, em Paris, em Espanha… E na paradisíaca Cuba durante muitos anos. Combateu guerras que não eram suas (Guerra Civil de Espanha), apaixonou-se por uma cultura que não era a sua (a festa brava, os toiros, Pamplona) e deixou que esses mundos por que passou em frenesim fizessem a sua escrita. Com quatro casamentos realizados, em número ainda maior que essas quatro paixões o escritor teve por várias vezes a maior dádiva que um homem alguma vez pode desejar: o amor de uma mulher.



Foi conhecida a sua instabilidade emocional ou, por outras palavras, a inquietude de uma mente sequiosa, de uma alma que a cada momento se agigantava. Fisicamente doente, a 2 de Julho de 1961 mostrou toda a coragem com que levou a vida ao virar para si uma arma de fogo e, disparando-a, enfrentar a morte. Entre nós, a eternizar o homem, o escritor, ficaram os relatos da sua vida e, fundamentalmente, a sua obra escrita.



Não, neste caso não se trata de um sentimento menor. Mas é verdade, sinto inveja do que foi Ernest Hemingway.





Pesadelo






«- Quero contar-te tudo.

Albertine levantou ternamente a mão como que impedindo-o, mas ele agarrou-a e segurou-a na sua, com um olhar que simultaneamente questionava e implorava. Então ela acenou-lhe consentindo e Fridolin iniciou o seu relato.»



«- Que é que devemos fazer, Albertine?

Ela sorriu por instantes, depois respondeu:

- Acho que devemos estar gratos ao destino por termos saído ilesos dessas aventuras, tanto as reais como as que sonhámos.»






in A História de um Sonho, de Arthur Schnitzler

















O livro e o filme





Há quem defenda que Arthur Schnitzler (1862 – 1931) foi o escritor que melhor descreveu os fantasmas do inconsciente, nomeadamente no que se refere às tensões sexuais próprias dos casais presos a uma conduta comportamental que supostamente é devida nos relacionamentos amorosos. Ao reler esta obra do escritor austríaco que rivalizou com Freud na teorização das pulsões eróticas quando reprimidas, não pude deixar de confirmar dois importantes aspectos: o quão actual o tema ainda se encontra, relembre-se que o livro foi publicado em 1926, e a extraordinária argúcia de Stanley Kubrick, verdadeiro psicólogo das imagens, na adaptação do livro ao cinema («Eyes Wide Shut», 1999). E são igualmente duas as interrogações que ficaram a pairar-me na mente quando terminei o último parágrafo do texto: até que ponto os casais se privam da consumação de desejos inconfessáveis para manter estáveis os seus relacionamentos e, por outro lado, mesmo um pouco em contraposição a isto, como seria mais feliz a vida das pessoas se a sociedade não os agrilhoasse a convenções e obrigações que de outro modo seriam tidos como absolutamente naturais?













No fabuloso filme de Stanley Kubrick, a cena final é transferida do quarto de dormir para uma loja de brinquedos. O apaziguamento da personagem de Nicole Kidman às confissões do marido é similar à do livro, mas quando a personagem de Tom Cruise questiona a mulher sobre se ficariam juntos para sempre, esta responde-lhe, grosso modo:





«- Para sempre? Não utilizemos essa palavra, assusta-me. Mas amo-te e há uma coisa que precisamos fazer urgentemente.



- Que é…? – Interroga Cruise.



- Foder.»]




In
De Olhos Bem Fechados (1999), Stanley Kubrick





Apanhados



Raramente vejo televisão. Não por preconceito ou despeito por aquilo em que a televisão generalista dos nossos dias se transformou em nome desse monstro baptizado de share, mas porque entre afazeres vários simplesmente não tenho tempo para ver. Mas num desses raros momentos em que me sento defronte do televisor e viajo de canal em canal apertando com sofreguidão as teclas do comando, fiz há dias uma paragem num programa de apanhados de um dos três principais canais nacionais. Antes não o tivesse feito, já que me veio de imediato à memória uma versão portuguesa do programa que passou há uns anos já não sei se na SIC, RTP ou TVI. Nesse nefasto episódio, recordo-me de um senhor já de idade avançada se preparar humildemente para que lhe tirassem as medidas. Pretexto? Encomendar de imediato o caixão em que ele mesmo desceria à terra quando soasse a sua hora. Hilariante, sem dúvida. Outro pobre homem, pessoa de meia-idade, simples mas voluntariosa, disponibilizara-se não para que lhe tirassem as medidas mas para se deslocar para detrás de um biombo de onde só voltaria com uma dose do seu sémen para doação por um motivo soturno qualquer de que já nem me recordo. Mais uma vez, bastante cómico, olaré. Ora o programa em que há dias fui desafortunadamente aterrar não era de produção nacional mas o espírito é o mesmo: abusar da boa vontade de pessoas que ao quererem ajudar se tornam imediatamente alvo de chacota das audiências. Pelo amor de Deus, não há por aí um legislador que transforme estes actos ignóbeis em crime punível com prisão? Juro, aí sim, eu iria achar um piadão e rir-me que nem um perdido.

Nocturno lisboeta

[Estação do Oriente, foto de José Boldt]




Há dias, depois de um jantar que se prolongou por mais algumas bebidas num bar, quando regressei a casa eram já cerca de três horas da manhã. Sentado ao volante do meu carro, percorri as ruas desertas de Lisboa. Artérias de uma cidade mergulhada no vazio a hora tardia onde apenas sobressaíam as luzes no escuro da noite. A luminosidade de uma montra aqui e ali ou do néon preso no alto dos edifícios, chamou-me a atenção. Lembro-me de, repentinamente, colar os olhos no retrovisor e ver um casal ainda muito jovem a correr no passeio até se perder do meu olhar curioso no virar de uma esquina.



A grande metrópole, viva durante o dia, alegre, graciosa, sobrevivia então solitária, sem alma, profanada no seu silêncio sepulcral apenas pelo roncar esporádico de um motor, pelo débil tossir de um qualquer toxicodependente de morada erigida por debaixo de um alpendre, de um viaduto, de uma existência amargurada e miserável.



Conduzi lentamente o carro, passei por debaixo do viaduto de Entrecampos e dirigi-me na direcção de casa, no sentido da 2ª circular. Já em pleno Campo Grande, parei nos semáforos na confluência com a Avenida do Brasil e observei um homem e uma mulher cujo desentendimento era notório dada a sonoridade violenta com que se travavam de razões. De repente, ela agrediu-o com a mão esquerda na face dele, que, estupefacto, se quedou imobilizado vendo-a fugir-lhe até se refugiar no nevoeiro. Algo me deu a sensação que se trataria de marido e mulher. O hábito enfraquece o amor, pensei.



O semáforo acendera-se no verde, distraído deixei que voltasse novamente ao vermelho. Esperei resignado que acendesse de novo o verde até voltar a fazer o carro deslizar na avenida. Junto à escola de enfermagem, já perto da 2ª circular, um outro casal que procurava ocultar-se junto ao grande portão do instituto, parecia sentir dificuldades para ter relações ali mesmo, em pé, encostados a um canto do enorme muro do edifício. As muitas roupas a que os 5 ou 6 graus da noite lisboeta obrigavam não são suficientes para enfraquecer as sensações, concluí.



Na 2ª circular o trânsito fluía ao ritmo de um punhado de carros em cada direcção, o nevoeiro era mais espesso. A noite tem um não sei quê de misteriosa, apeteceu-me continuar a andar de rua em rua até se acabar o combustível do carro.









Ela no seu mundo






 


Faltam pouco mais de 5 minutos para as 7 horas da tarde, o Holmes Place de Algés está bem composto e eu espero tranquilamente pela aula de RPM. Como sempre, ela chega de mansinho e fica muito quieta junto às escadas de acesso ao estúdio à espera do início da aula quase sem dar a perceber aos outros a sua presença. Tem os cabelos castanhos, um castanho muito claro, os cabelos não muito compridos, olhos também castanhos a olharem, eles sim, os olhos dela, irrequietos, para a azáfama habitual de quem se movimenta entre os estúdios, o ginásio, a piscina ou os balneários. Ainda assim, repentinamente o seu olhar parece quedar-se em algo, para, de imediato, quase com brusquidão, voltar à agitação habitual. Normalmente não fala com ninguém, limita-se a esperar pela aula e, circunstancialmente, a responder educadamente a quem a interpela. Mas mesmo nesses momentos tem a tendência para refugiar o seu olhar novamente no infinito particular escondendo-o de quem se lhe dirige. Escolhe quase sempre a mesma bicicleta que adapta calmamente a si enquanto mastiga uma pastilha com toda a suavidade do mundo, do mundo. De vez em quando sorri a uma ou outra laracha do instrutor de serviço, sorri enquanto se aplica generosamente durante todo o tempo que dura o exercício. No final, transpiração a escorrer-lhe do rosto para a T-shirt também ela encharcada do esforço desenvolvido, encaminha-se silenciosamente para o balneário. Estranhamente, pela forma calada como se movimenta, pelo facto de parecer estar só no meio do grupo, sinto que esta mulher intrigante parece estar muito longe de tomar conhecimento da elegância com que se move naquele que parece ser um mundo muito seu, apenas seu, o mundo dela, ela no seu mundo.
 








Centros comerciais

[Chop Suey, 1929 - Edward Hopper]






De partida para mais uma viagem de trabalho, almocei um bife de carne argentina na Block House do Oeiras Parque. Os centros comerciais têm toda uma variedade de restaurantes com acessibilidades e locais de estacionamento que por vezes dificilmente encontramos nas grandes cidades. E ao passearmos nas suas alamedas com as montras das lojas sofisticadamente decoradas, cruzamo-nos com lindas mulheres absorvidas na contemplação das novas tendências da moda e somos seduzidos pelas acolhedoras livrarias onde folheamos memórias daquele lugar onde nós e elas nos amámos como se não houvesse o dia seguinte e deliciamo-nos com as fragrâncias dos nossos tempos de infância de mãos dadas com os nossos avós – que saudades eu tenho tuas avô, não sei onde mas um dia voltarei a deixar que me beijes as faces avó – e em que primos e tios eram todos uma família unida e chegada e não apenas encontros esporádicos, normalmente tristes porque motivados pela partida de um de nós. Os centros comerciais põem à nossa disposição tudo aquilo que o dinheiro pode comprar e ainda nos sugerem um mundo que é tão grande quanto maior for a nossa imaginação.



Mas se assim é, por que não gosto eu de centros comerciais? Na verdade, fui deixando crescer em mim uma certa relutância por estes chamados santuários de consumo. Não por causa do consumismo, não porque não recorra a eles quando necessito de fazer compras. Recorro, claro que recorro. Como hoje ao ir almoçar um bife de carne argentina na Block House do Oeiras Parque. O problema é que os centros comerciais fazem-me lembrar aquele tipo que aparecia com o suplemento de economia do Expresso debaixo do braço nos almoços de Natal da empresa quando, após os estudos, me iniciei no mundo do trabalho. Ou aquel’outro que levou para uma viagem de trabalho de cinco dias a Roma o livro «Cem Anos de Solidão», de Marquez, não passando da página cinco quando era suposto que alguém minimamente interessado em livros, na altura, já tivesse obrigatoriamente de ter lido a obra em causa. Mas também aquela colega que começou a fumar já na idade adulta porque, para ela, era bonito no final das refeições puxar de um cigarro e botar conversa sobre tudo e sobre nada, embora, entre tanta baforada, eu apenas percebesse os sinais do fumo mas nunca entendesse o que verbalizava.



Aborreço-me em centros comerciais tal como me causam enfado as estatísticas. Precisamos deles e delas mas reduzem-nos a números e somos estandardizados por via de estudos de consumo e de ‘marketing’, consultas de opinião, inquéritos de rua ou por seja lá que merda for. Os centros comerciais são um dos rostos mais evidentes da globalização. São iguais em Lisboa, no Porto, em Paris, Madrid, Londres, S. Paulo, Pequim, Tóquio ou em Escalos de Baixo. É tudo tão feito para agradar, para ser aceite pelo maior universo possível de pessoas que até a nossa singularidade ameaçam. Tal como os gajos do suplemento de economia do Expresso, do livro do Gabriel Garcia Marquez ou dos cigarros como forma de promoção social, têm uma ânsia desmedida em ser aceites não pelo que cada um é mas por aquilo que acham que os outros vão apreciar. Ainda para mais dão-nos música. Por todo o lado onde entremos dão-nos música. Sim, eu até gosto de música. Mas não que a música me seja imposta sem eu que eu tenha a opção de a fazer calar.







[e espero que jamais alguém me veja com um suplemento do Expresso debaixo do braço; sim, porque se tal acontecer vai ser decerto o caderno de emprego e eu preciso muito do meu trabalho para viver]








Modelo de visita











A modelo fotográfico Iga A. é uma presença assídua cá na casa. Porque, e já o referi várias vezes, gosto muito de a ver trabalhar.


Omissão





Hoje, vindo de viagem do Porto, encontrei a L. na Àrea de Serviço da Mealhada. Ela viu-me primeiro e chegou-se a mim com um ar expansivo e sorriso de orelha a orelha vendo-me furibundo por ter apanhado mais uma molha desde o carro até ao bar do local. Lembro-me que tivemos em tempos uma paixoneta um pelo outro. Eu sentira-me atraído pelos seus cabelos lisos, castanhos claros, pelo seu sorriso cativante e, por que não dizê-lo, porque tinha as pernas mais bonitas da nossa turma. Ela suponho que se tivesse apaixonado por mim num dia como o de hoje, de chuva, em que carregado de livros escorreguei num lamaçal no pátio do Liceu e cheguei à sala de aula completamente encharcado de água e lama ouvindo ainda um raspanete do professor por ter estragado o livro da disciplina a que dava aula. São insondáveis os desígnios da alma humana e a pena que senti estampada no rosto dela transformara-se em amor. Eu não me importei com o facto, confesso. Mantinha a mesma beleza jovial e uma tão positiva quanto assombrosa atitude perante a vida. Conversámos durante alguns minutos. Divorciara-se há poucos meses, disse-me, porque se tinha apaixonado por outro tipo. Sem que eu lhe perguntasse o que quer que fosse, garantiu-me que apesar disso nunca tinha mentido ao ex. Até porque nos últimos meses de casamento falavam muito pouco. Ao ouvi-la, não pude deixar de meditar em algo que um dia li num dos livros de Simone de Beauvoir. Sim, talvez ela não lhe tivesse mentido. Mas certamente que durante algum tempo fugiu de lhe dizer a verdade.






Das amizades e das relações

[The Travel of Romance: 1994 - Eric Fischl]




No Blogue Pretextos para Fugir do Real, a Elisabete, autora do blogue, pergunta pelas amizades verdadeiras. Já deixei este texto por lá, na sua caixa de comentários, mas adapto-o também para aqui.
É que os relacionamentos, por via dos sentimentos demasiado voláteis, sejam eles amorosos ou de pura amizade, são válidos enquanto as pessoas retiram algo deles. Companhia, cumplicidade, reciprocidade ou seja lá o que for. Se alguma desta interacção se perde é muito fácil ‘desaparecer’ da vida do outro/a. Hoje, a Internet tem também alguma responsabilidade nisto. Não só porque é surpreendentemente simples assumir sentimentos e conivências que de facto não existem, como, por outro lado, é tremendamente fácil desligar de determinada pessoa porque para isso basta desligar o computador quando antes se promete amor e uma cabana para toda a vida. É de realçar também que a rapidez com que algumas pessoas chegam às nossas vidas é a mesma com que saem delas. Noutros casos, acreditamos piamente ter descoberto uma ‘alma gémea’ e investimos nesse instinto que nos empurra para essa pessoa. Mas do lado de lá o sentimento pode não ser o mesmo e ainda que não devêssemos fica sempre alguma mágoa pela perda do que afinal não se chegou a ganhar. Neste entretanto, involuntariamente também nós vamos deixando outros que nos estimam ‘pendurados’ no seu sentimento porque estamos ‘noutra’. Quando se coloca a questão fala-se certamente de alguma frustração relativamente a alguém, mas é possível que algures possa haver outra pessoa a pensar o mesmo relativamente a nós. E em muitos desses casos nós nem nos apercebemos disso, não fazemos por mal. A vida não é uma ciência exacta. É feita de altos e baixos, de sucessos e fracassos, de felicidade e tristeza. Mas é por isso que é tão bom saboreá-la. E já que a Elisabete fala nisso, os filmes exploram muito bem todas essas vertentes e não apenas as positivas.






Bola ao poste


[A modelo fotográfico Iga A.; gosto de a ver trabalhar]





Quando somos adolescentes, ou ainda muito jovens, vamos acumulando vitórias atrás de vitórias já que não damos relevo às pequenas derrotas que se assemelham a simples obstáculos a ultrapassar. Ao chegarmos à idade adulta, sentimos que alguma coisa está a mudar. Traçamos objectivos que nem sempre conseguimos alcançar e percebemos que começa a doer-nos de forma diferente quando sentimos que à nossa volta a reciprocidade deixou de ser um dado assumido. E quando dantes fazíamos perguntas sabendo de antemão as respostas, passamos igualmente a perceber que devemos preparar-nos para ouvir coisas que nos fazem sentir bem, é certo, mas sobretudo para não sermos surpreendidos negativamente.




Sim, é inegável que a nossa personalidade vai ganhando uma firmeza protectora perante as adversidades. Mas também não deixa de ser verdade que cada vez mais a máquina que na nossa ingenuidade e mesmo arrogância juvenil julgávamos perfeita passa a ser estranhamente falível. Leva-se algum tempo a chegar aqui, mas chega-se. Podem acreditar porque eu já lá estive algumas vezes e posso afiançar. E é o caralho! A sensação é tão agradável quanto o entusiasmo que se pode perceber neste texto.






Fim de semana alucinante


[Old Motor, 1991, Peter Howson]





Há histórias que durante tempos só desejamos esquecer, mas que passados uns anos relembramos com um sorriso nos lábios. Hoje revi um amigo meu da altura em que ambos acabáramos de tirar a carta de condução e nos julgávamos os maiores condutores do mundo. Pobres patetas, concluímos hoje ao relembrar um caso que nos aconteceu e entrou directamente para os anais da bacoquice.

Nesse tempo tive um dois cavalos. Para além de se deitar nas curvas, lembro-me que era uma viatura de grande chiadeira. Eu já não me fiava lá muito na caranguejola mas o estupor do carro resolveu um dia dar-me razão não se aguentando ao balanço. Capotou nuns terrenos que à primeira vista me pareceram apenas alagadiços numa propriedade muito perto do Rio Zêzere. Mas para mal dos nossos pecados e da Joana que nos acompanhava, viemos a constatar que o cenário era bem pior que o calculado inicialmente.

Apanhei um susto danado e não me lembro de nutrir tanto amor pelas minhas pernas como quando preso entre o banco e o tablier comecei a sentir um formigueiro que me sugeriu poder vir a ficar sem elas. Por outro lado, fomos pessimamente recebidos pelo dono da propriedade já que ficámos muito mal instalados. Eu fiquei com a Joana às costas dentro da viatura mal estacionada, de cócoras numa enorme pocilga a cheirar a merda de porco. O Tó Vaga-lume, que eu hoje encontrei na área de serviço de Aveiras, só gritava pelo nome da namorada e em histeria acenava com quatro quintos da mão esquerda já que perdeu o dedo mindinho com a brincadeira. A minha situação piorou quando a Joana começou a entrar em pânico, a espernear e a dar-me com os pés nas trombas. Fiquei aborrecido, claro que fiquei. Mas já que estava preso pelas pernas, inamovível, insisti em não abandonar o local.

Enfim, ficámos uma noite inteira naquilo pois só de manhã o dono da quinta e um pedreiro a trabalhar perto acederam ao pedido de socorro. Não o nosso pedido mas o dos porcos, coitados, completamente desgostosos com tamanha intrusão no seu próprio lar. Durante anos não contei a ninguém uma palavra do que aconteceu.




Publicidade enganosa


 



A senhora dá-me o jornal e eu coloco-lhe na mão a moeda de um euro que corresponde ao pagamento. Senhora de si, já avó, simpática, bem disposta, sabe do meu gosto por filmes e informa-me que no dia anterior por apenas mais um euro podia ter levado também um DVD de um clássico do cinema. E sorri. Não lhe digo que já tenho em casa o DVD em questão, faço um compasso de espera enquanto processo dados em busca de uma resposta amável. Saiu-me apenas um ‘foi burrice minha’. ‘Ah, mas o senhor até tem ar de ser uma pessoa inteligente’. Devolvi-lhe o sorriso. Talvez fosse caso para ficar feliz com a apreciação. Mas não, se há coisa de que eu sempre senti repulsa foi de publicidade enganosa. E se de facto a senhora tem razão e eu aparento inteligência, é puro equívoco. E, claro, trata-se de um evidente caso de publicidade enganosa.



 

O diagnóstico


Algures num país do médio oriente conta-se a história de um homem que foi ao médico por suspeitar de sofrer de uma doença terminal já que tocava com o dedo na barriga e doía-lhe, tocava com o dedo na cabeça e o efeito era o mesmo, na perna esquerda, direita, nas costas, em qualquer parte do corpo onde calcasse com o dedo sentia uma dor aflitiva. O diagnóstico do médico foi no entanto muito rápido. 'O senhor não sofre de qualquer doença grave', descansou-o. 'Tem apenas o dedo partido'.

Vou só ali num instante tirar uma chapa e volto já.

O brilho da paixão

[A cena do filme «Once Upon a Time in America» referida no texto]





A propósito de «Once Upon a Time in America»


Revejo «Era uma vez na América». Uma menina dos seus catorze anos dança alegremente por entre uma imensidão de sacos de farinha. Noodles, que na fase adulta irá ser interpretado por Robert de Niro, escondido olha por dentro de uma frincha aberta numa porta o objecto da sua paixão enquanto a fabulosa partitura de Enio Morricone os acompanha e entra pela minha sala. A miúda é repreendida e chamada pela mãe. Tendo que trocar de roupa, começa a despir o vestido branco de dançarina. Mas entra alguém e Noodles já não consegue ver por completo a beleza do corpo nu da jovem. Mais tarde, Noodles irá comprar a sua primeira experiência sexual. Tal como nos filmes ou no amor, para o jovem ainda não existe a gestão das expectativas e bom ou mau sexo para si não tem qualquer relevância, urge apenas tê-lo.

Quando Sergio Leone realizou o épico «Once Upon a Time in America» (1984), já tinha brindado os cinéfilos de todo o mundo com filmes inesquecíveis como «Por um Punhado de Dólares» (1964), «O Bom, o Mau e o Vilão« (1966) e «Once Upon a Time in the West» (1968). Leone levou treze longos anos a preparar o seu derradeiro filme. Por consequência, «Era uma Vez na América»(1984) é quase comparável a uma inesquecível experiência de amor. Nesta sua obra, o brilhante realizador conseguiu conjugar com grande sabedoria o desejo, a ternura e a paixão ardente de dois corpos que se conhecem como ninguém com o sentimento mais profundo, o amor.



Diz-me onde é a estrada


[Foto de José Boldt]



Olhei para aquele homem em dificuldades. As roupas largas já muito gastas, rotas, um par de botas, uma castanha e outra preta, o fardo de caixas de papelão cuidadosamente desmanchadas era de um peso incomportável para o seu corpo débil, para a força que nitidamente lhe faltava. Fixou-me o olhar quase em tom de súplica, pude então observar-lhe o rosto de barba comprida e rala, as rugas em redor dos olhos já sem brilho, sem sombra do sonho, olhos de quem espera simplesmente. De quem espera pelo fim com desolada resignação, como se fosse a última etapa que se tem de galgar até completar o que resta do compromisso com a vida.



Cerrei os punhos, trinquei a língua, expulsei de mim os fantasmas, os mesmos de que Pedro Abrunhosa fala na sua canção, e quis pegar no fardo de papel, colocá-lo no porta-bagagens do meu carro e sentar aquela criatura ao meu lado seguindo a estrada na direcção indicada pelo dedo de pele seca e suja em riste. Mas não, senti de novo o olhar parecendo agora agradecido mas sem que a sua boca balbuciasse palavra. Timidamente estendeu-me a mão num cumprimento. Depois, baixou a cabeça, colocou-a ainda mais entre os ombros cansados e virou-me as costas caminhando lentamente na direcção oposta à que trazia.




Saí também eu dali, deixei que o carro regressasse ao risco negro de alcatrão que se estendia até desaparecer ao fundo numa curva sinuosa. Lembrei de novo Abrunhosa e desejei que aquele homem se desviasse da espada, que encontrasse o seu mapa, que descobrisse onde era a estrada, que encontrasse terra à vista. Hoje não chove mas o céu continua cinzento.


Laços eternos







Já o escrevi por aqui, tive uma adolescência difícil fazendo da rebeldia um modo de vida. No entanto, por essa altura os meus dias enriqueciam-se na grandeza dos projectos que fazia para o futuro. Eram bem mais que projectos já que fiz a mim mesmo uma aposta: continuar a desobedecer a toda e qualquer regra, não deixar de incomodar com a minha atitude e procurar não reclamar para mim absolutamente mais nada que não fosse jamais perder a minha liberdade. Desses anos sobrou-me uma certa avidez pela vida numa mescla de paixão e cólera que assusta os outros bem mais do que cativa. E tão depressa sou levado aos céus como entro em queda livre e me estatelo violentamente no solo. Feitas bem as contas, sinto que ainda não perdi totalmente a aposta mas percebo que já muito dificilmente a conseguirei ganhar.



Guerra Fria




Já no Séc. XIX o escritor russo Leon Tolstoi escrevia que ‘falar mal dos outros agrada tanto às pessoas que difícil é deixar de condenar alguém para gáudio dos nossos interlocutores’. Felizmente que nem toda a gente age assim mas a verdade é que a maledicência predomina. Se atentarmos noutro pensamento de Tolstoi quando este diz ‘que deve valorizar-se a opinião dos estúpidos já que estes são a maioria’, então mais confiantes ficamos na razão do pensador russo. E sejamos directos, na maior parte das vezes quem se deixa embalar neste tipo de conversa manhosa não é ingénuo, é cínico.



Física & Química

[A meditação, por Scarlett Johansson, uma conhecida filósofa de leitura obrigatória]



‘O homem não tem uma única e a mesma vida, tem várias, e essa é a sua miséria’. Pelo menos era a convicção de François-René Chateaubriand, escritor, ensaísta e diplomata francês. Esta é, obviamente, uma visão pessimista das supostas várias vidas que os homens e as mulheres possuem, mas é aceitável do ponto de vista de um homem que viveu no Séc. XVIII. Entretanto as sociedades evoluíram, nomeadamente as ocidentais, e estas vidas são possíveis sem que aconteçam de uma forma miserável como descrito pelo autor citado. Com o surgimento da possibilidade do divórcio, com a maior liberalização no mercado de trabalho e na infinita maior facilidade de circulação do ser humano nos espaços físicos e mentais, nos dias de hoje é possível que essas várias vidas se tornem numa só que se reinventa por acasos muitas vezes efémeros mas que provocam uma autêntica revolução no decurso das existências. Ou seja, tudo é muito mais real e verídico, basta querer, e desejo e senso comum não têm que colidir necessariamente.

Mas tudo isto para dizer o quê? Na verdade nem eu sei muito bem, o que comigo até não é de estranhar. Por exemplo, enquanto estudante nunca pensei que duas disciplinas viessem a ter tanta influência na vida moderna. A química e a física. Mas é muito bom que assim seja e a questão física é muito mais compensadora se também existir a componente química.



O Sorriso

[Salma Hayek, actriz]





Esta manhã desci a rua a pé para aí uns cem metros até poder tomar um café numa pastelaria que raramente frequento. À entrada ajeitei a gravata olhando-me no vidro espelhado da porta. Vestira um fato azul-escuro, uma camisa de um azul bem claro e uma gravata bordeaux. Senti-me pouco confortável e atribuí culpas à indiferença com que fizera a mala na véspera.  Pedi o café à empregada de balcão, que me pareceu nova no estabelecimento, e esta devolveu a minha saudação matinal com um sorriso mecânico. Tive consciência que terá sido para aí o sorriso número trinta e dois de um cardápio pessoal já muito desgastado. Ainda assim agradeci e devolvi o sorriso.

Era só isto.





Wonderful World



Uma, cheia de qualidades, não consegue tornar-se agradável. A outra, cravejada de defeitos, é uma mulher encantadora. Este mundo é realmente um sítio muito estranho.



A propósito de «Plexus», de Henry Miller








Um lugar no mundo


Na sua obra «Plexus», que no fundo não é mais que uma autobiografia romanceada e faz parte da trilogia composta ainda pelas obras «Nexus» e «Sexus», o escritor norte-americano Henry Miller (1891 – 1980), conclui que o seu lugar no mundo seria sempre diferente do comum dos mortais. Miller dá igualmente a entender que só encontrando esse lugar para si e conquistando a paz de espírito suficiente para se usar das premissas de sabedoria que a vida lhe iria concedendo, poderia vir a ser um grande escritor.

Confesso a ambiguidade de sentimentos que me invade ao relembrar as sábias palavras de Henry Miller. Porque sendo eu um mau escritor só posso chegar a dois tipos de conclusão e nenhuma delas é boa. Ou assumo definitivamente a minha falta de talento para a escrita ou percebo com alguma ironia que me faltam a paz de espírito e o conhecimento suficientes para me tornar escritor. Sim, porque o meu lugar no mundo creio já estar definido: é que ao contrário de Miller, que se esteve nas tintas para a sociedade e suas regras vivendo a vida que sempre desejou para si, eu acabei por me deixar engolir pela mais absoluta regularidade do homem enquanto ser social.

A minha última esperança reside naquele sonho de um dia vir a explorar um pequeno bar numa praia tropical. Um bar construído por canas de bambu e frequentado por gente vinda do mais remoto dos mundos ávida dos sabores da natureza e daquela inocência que já foi característica do ser humano há muitos e muitos anos atrás.


Porto de Escala



Ontem, enquanto assistia ao estimulante «O Polícia Sem Lei», de Werner Herzog, filme sobre o qual hei-de vir aqui falar-vos, fui confrontado com a expressão ‘porto de escala’. É que não há expressão mais adequada para ilustrar o decurso de muitas vidas, que se fazem escalando de porto em porto na esperança de um dia lançar definitivamente a âncora ao mar. Entretanto vamos falando, apareçam.



Eis o ser humano




Eva Mendes, ela que a cada dia se torna um ser humano cada vez mais apurado. Nestes casos, e só nestes casos, sou um seguidor das teorias do Anatole.

As teorias do Anatole

«É preciso ser sensual para ser-se humano.»



Anatole France




A sério, pá? Ora, foda-se!

O Desequilíbrio

["Empress Wu", ilustração de George Barr]



 
Conheço-os a ambos. Ele é um homem de quase quarenta anos, aparência de rapaz e uma quase inacreditável ingenuidade. Ela é uma mulher um pouco mais jovem, e jovial, linda, sorridente, sedutora. Quando ela chega o homem-rapaz parece renascer da melancolia com que se dirige para a passadeira ou para o tapete dos abdominais. Ela fala-lhe sorridente, coloca-se a seu lado e deixa que ele continue a apaixonar-se por ela sabendo que nunca o irá amar ou sequer deixar que a relação entre ambos ultrapasse a zona das máquinas ou até o estúdio de Power Jump. Acredito que ela goste dele mas não do modo que ele desejaria. Às vezes passo pelos dois e dou por mim a desejar que ela não gostasse daquele homem bom como gosta. Mas os homens também saem reforçados nas derrotas. Mesmo naquelas que foram desde logo anunciadas.

 

Profissional Competente


 
A modelo fotográfico Iga. A.

Não me recordo de alguma vez o ter aqui escrito, mas gosto de a ver trabalhar.




De pouco vale o sonho se não for vivido



«La Jetée» é um filme francês datado de 1962, escrito e realizado por Chris Marker. Invoco-o para relembrar aqui o estranho fascínio que o seu argumento sempre exerceu sobre mim. Talvez porque nele se juntem elementos que reputo de fundamentais da vida como o são a paixão, o sonho e, inevitavelmente, a morte.

Tudo se desenrola a partir de uma imagem de infância a atormentar a vida de um homem. Essa imagem prende-se com a visão de uma mulher de pé junto a uma enorme queda de água e, junto a si, o tombo de um corpo projectado na corrente. Tudo isto se passa alguns anos antes do início de uma guerra mundial que viria a destruir totalmente Paris. Anos depois, nos subterrâneos da cidade luz uma equipa de cientistas ensaia viagens no tempo e esse homem, graças à sua obsessão, é o escolhido para efectuar uma expedição ao passado. E é assim que se vê perante a jovem dos seus sonhos o que permite que a sua fixação se torne numa doce realidade. Mas ao correr para os braços da mulher, cai-lhe aos pés fulminado. Ou seja, o corpo que durante anos viu projectado cataratas abaixo era o seu, a imagem que o perseguia era a da sua própria morte.

Convém explicar o porquê do meu fascínio por este argumento aparentemente simples mas de interpretação bem mais complexa, creio. Porque a imagem que atormentava aquele homem se tornara num sonho que urgia concretizar. Mas, como revelei atrás, essa concretização encerrava afinal um desfecho dramático. Um final que, ironicamente, valoriza ainda mais aqueles que nunca abandonam os seus sonhos, apesar de perceberem que podem estar a trilhar um caminho que os conduz não à felicidade procurada mas a inesperados e bem dolorosos desenlaces. Ainda assim, lutam, correm, não desistem, persistem no sonho. E se atingido positivamente o objectivo desejado, essa incerteza de que estão seguros mas que se mostra insuficiente para os fazer parar, aliada à paixão que os faz correr, só pode resultar em indescritível prazer.

Voltando ao cinema, com este filme se prova que uma das suas facetas mais compensadoras para o espectador se prende com narrativas que se desenvolvem a partir das mais extraordinárias surpresas que o mundo nos reserva. Por muito dramáticas que estas possam revelar-se.
 

Ancorar o Tempo

[Turkey Pond, 1944 - Andrew Wyeth]
 


Suponho que não aconteça apenas comigo. Em alturas de menor optimismo e mesmo de alguma necessidade de introspecção, é nas minhas memórias de menino que habitualmente encosto o pensamento e repouso a alma. Sentado num cadeirão de vime que possuo numa das varandas cá de casa, hoje foi um desses dias. E enquanto o calor continuou a subir até tornar o ar pouco menos que respirável, retrocedi mentalmente anos atrás. Viajei até casa dos meus avós, onde passei grande parte da minha infância.

Finais de Setembro, primeiras semanas de Outubro. Esta era a altura em que, depois de colhidas as uvas, o trabalho se desenvolvia na adega da quinta. Ao final do dia, depois de se despedir do pessoal que o ajudava, tal como eu faço amiúde também o meu avô aproveitava para se sentar num enorme cadeirão. Atirava com o chapéu para cima de um mesa de pinho envernizado e recostava-se enquanto limpava com um lenço o suor que lhe molhava a testa. Depois deitava um pouco de água fresca num copo e bebia. Mas, apesar de se lhe perceber a sede que lhe secava a boca, fazia-o muito lentamente, como se saboreasse deliciado a frescura que o líquido frio lhe proporcionava. Cansado, adormecia durante alguns minutos. Acordava apenas ao toque suave da mão da minha avó, fazendo-o estremecer um pouco no cadeirão, ou ao som de um velho relógio de carvalho pendurado algures numa das paredes que suportavam o telheiro onde se protegia do Sol ainda quente àquela hora do dia. Através do velho mostrador, de vidro já bastante baço, podia observar-se os algarismos negros e os ponteiros com um balancim de entremeio a assinalar as horas com razoável sonoridade.

Naquela altura, como hoje, só me ocorria correr para o relógio e pará-lo. Talvez assim pudesse ancorar o tempo.



Metamorfose





Adoravas ir àquele restaurante e começaste a ver filmes que antes não vias. Percorrias determinadas ruas da cidade escurecida e esboçavas um sorriso de felicidade. Quando regressavas a casa olhavas para a tua estante e procuravas nela aqueles livros. Antes de adormeceres olhavas para o visor do teu telemóvel em busca de algo que sabes bem o quê. De repente tudo isso deixou de fazer sentido para ti. Sabes bem que sim, por muito que procures enganar-te com a ilusão de uma emoção que estás longe de sentir.







Ondas de paixão



[Ronald B. El griego de Esmirna (Nicos)1976-1977]




Nasceu numa pequena cidade de província marcada pelo passar incessante dos comboios a fazerem ranger as sulipas por debaixo dos carris que se perdiam no enevoado horizonte das manhãs, no Inverno, ou na visão delirante das tardes de forte canícula, no Verão. Desde sempre sentira a sua uma cidade demasiado pequena para si. Desde muito novo que se perdia na paixão pela descoberta, pelo desvendar de novos mundos, pelo inevitável desejo que lhe causava o sexo oposto. Um dia surgiu a oportunidade, a sua oportunidade. Estudos secundários concluídos, os pais enviaram-no para a cidade grande onde deveria preparar-se para as exigências de gestão das fábricas de trabalhar a cortiça de que o pai era um dos maiores proprietários da região. E foi nela, na grande Lisboa, que se agigantou e fez homem. Também filho de famílias profundamente religiosas, seguiu como poucos os mandamentos da igreja. E se a oração coloca Deus a exortar a que amemos os outros como Ele nos ama a nós, ele amou as mulheres com quanta força lhe doava a fervorosa paixão que o compunha. Mas não, nunca se fez gestor de fábricas, sequer soube gerir a sua própria vida sem deixar de aceder aos outros impulsos, àqueles que emanam do espírito e da carne. Os dias passaram a tornar-se curtos, as noites quentes e longas. Entrementes, ainda escreveu livros que poucos leram e foi um explorador que bebeu até ao último fôlego à descoberta do fundo das garrafas, garrafas que esvaziava com uma estonteante facilidade. Nunca mais voltou. Nem para as fábricas que trabalhavam a cortiça, nem para a cidade pequena, nem para os pais que o criaram e sonharam. Entregou-se-lhes, a elas, às mulheres. Mas fê-lo sem nunca lhes pertencer. Não apenas a uma porque, afinal, era de todas elas. Como um barco à deriva nas ondas revoltas, balançou entre amores na brancura dos lençóis amarrotados. Lençóis humedecidos pelo suor da paixão.



Dorme de dia, vive de noite. Ainda se passeia algures por aí.


As gripes também têm destas coisas





Uma gripe é sempre uma coisa arreliadora. Mais que não seja, porque normalmente traz consigo a febre e nos obriga a ficar em casa. Mas pode igualmente ser um pretexto para revermos alguns daqueles filmes de que gostámos muito mas por uma ou outra razão ficaram esquecidos na prateleira dos DVD’s. Em tempos, alguém me pediu uma pequena lista onde constassem algumas incursões do cinema às chamadas ‘crises de idade’. Ou, pelo menos, àquele tempo em que um determinado acontecimento faz com que as pessoas que o vivem resolvam alterar algo nas suas vidas. E como uma gripe pode também ser motivo para voltar a escrever num blogue meio abandonado, aqui fica parte dessa lista. Pelo menos aqueles filmes que revi nestes três dias que já levo de molho. Embora vocês pouco ou nada tenham feito para que vos mande para cima com a minha vida entediante.







As Confissões de Schmidt – É um filme irónico sobre um homem que acaba de se reformar e vê a sua vida entrar num vazio completo. Entretanto, a mulher morre repentinamente e ele, aproveitando ter ficado só, procura refazer a vida, debate-se contra aquilo que a sociedade lhe reserva e, de peripécia em peripécia, acaba por perceber que todas as idades têm o seu encanto.







Íris – É o final da vida dramático de uma mulher brilhante no seu tempo, uma escritora reputada e admirada. Agora, com a doença de Alzheimer a afectá-la, tudo muda e percebe-se a importância de um percurso a dois e de sabermos que não acabamos sozinhos. E de perceber como funcionam as coisas debaixo deste panorama algo aflitivo apesar  da atenuante que frisei de termos alguém ao nosso lado.









O Gosto dos Outros – É um filme francês muito interessante que esteve quase um ano em exibição no Nimas (Lisboa, para quem é de fora). Retrata a crise de meia-idade de um empresário cansado da mulher e apaixonado por uma actriz. A dificuldade que tem em aceitar-se como é ao caminhar para os 50 anos é um dos pontos altos do filme.







Uma Casa, Uma Vida – Um homem, um arquitecto, alguém que levou a vida sem muitas preocupações, descobre, ao passar dos 40 anos, que está a morrer de uma doença terminal. Procura reencontrar-se com o filho e o choque de gerações é evidente e fulcral na trama.







Uma História Simples – Um dos mais comoventes filmes a que assisti. Um homem velho sabe que o seu irmão, com quem está de relações cortadas, está doente. Sabendo que não terá muito mais oportunidades para o rever enceta uma viagem de mais de 400 quilómetros de um estado ao outro viajando num simples cortador de relva adaptado. A obstinação do amor fraternal.








As Invasões Bárbaras – Trata-se de uma película que junta um grupo de amigos anteriormente rebeldes socialmente mas, agora, já passados 16 anos sobre a última vez em que se tinham encontrado. Ter-se-ão instalado e deixado de parte a rebeldia em troca do bem-estar social? De que forma estarão a ultrapassar a crise da meia-idade? E o aproximar da morte, aceitá-lo-ão de bom grado e de modo pacífico?














40 Grandes Filmes de Sempre

[New York Movie - 1939, Edward Hopper]








Num Blogue algures numa esquina da Blogosfera, alguém pede ajuda em forma de conselho para (ver) bons filmes. Independentemente do cinema, ou da reacção aos filmes, ser algo pessoal e intransmissível dependendo dos mais diversos factores ligados à própria natureza da pessoa e à formação da personalidade de cada um, julgo que é sempre possível escolher alguns filmes mais ou menos consensuais em que o risco de desiludirmos quem confia em nós para ver cinema se reduz substancialmente.



Sendo certo que muitos ficaram de fora já que ficou circunscrita a um número de 40, e de modo aleatório quanto a preferências, eis a minha lista de grandes filmes de sempre:







«CASABLANCA» (1943), de Michael Curtiz

«PINÓQUIO» (1940), de Walt Disney Prod.

«O COMBOIO APITOU TRÊS VEZES» (1952), de Fred Zinnemann

«VERTIGO» (1958), de Alfred Hitchcock

«A LARANJA MECÂNICA» (1971), de Stanley Kubrick

«FEIOS PORCOS E MAUS» (1976), de Ettore Scola

«O HOMEM ELEFANTE» (1980), de David Lynch

«A MOSCA» (1986), de David Cronenberg

«UMA HISTÓRIA SIMPLES» (1999), de David Lynch

«DE OLHOS BEM FECHADOS» (1999), de Stanley Kubrick

«BRANCA DE NEVE E OS SETE ANÕES» (1937), Walt Disney Prod.

«PSYCHO» (1960), de Alfred Hitchcock

«DR.STRANGELOVE» (1964), de Stanley Kubrick

«O CAÇADOR» (1978), de Michael Cimino

«OS SALTEADORES DA ARCA PERDIDA» (1981), de Steven Spielberg

«BLUE VELVET» (1986), de David Lynch

«O IMPÉRIO DO SOL» (1987), de Steven Spielberg

«CINEMA PARAÍSO» (1998), de Giuseppe Tornatore

«M. BUTTERFLY» (1993), de David Cronenberg

«FALA COM ELA» (2002), de Pedro Almodóvar

«A QUIMERA DO OURO» (1925), de Charles Chaplin

«OS PÁSSAROS» (1963), de Alfred Hitchcock

«O PADRINHO» (1972), de Francis Ford Coppola

«APOCALIPSE NOW» (1979), de Francis Ford Coppola

«THE SHINING» (1980), de Stanley Kubrick

«ET – O EXTRATERRESTRE» (1982), de Steven Spielberg

«SCARFACE» (1983), de Brian de Palma

«SILÊNCIO DOS INOCENTES» (1991), de Jonhattan Demme

«CRASH» (1996), de David Cronenberg

«MULHOLLAND DRIVE» (2001), de David Lynch

«NOSFERATU» (1922), de Friedrich Murnau

«E TUDO O VENTO LEVOU» (1939), de Victor Fleming

«DR.JIVAGO» (1965), de David Lean

«2001: ODISSEIA NO ESPAÇO» (1968), de Stanley Kubrick

«BLADE RUNNER» (1982), de Ridley Scott

«O SACRIFÍCIO»(1986), de Andrey Tarkowski

«ONDAS DE PAIXÃO» (1996), de Lars von Trier

«A BARREIRA INVISÍVEL» (1998), de Terrence Mallick

«A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA» (1999), Tim Burton
«SHREK» (2001), de Andrew Doamson, outros



O Apelo da Natureza



Sempre que observo esta pintura de Andrew Wyeth datada de 1948 e intitulada «Christina’s World», relembro-me dos tempos em que percorria as searas junto a casa dos meus avós sem olhar ao tempo que passava, sem rumo certo nem destino predefinido. Sabia apenas que antes que a tarde escurecesse teria que estar de regresso pois era altura da chegada do meu avô e ele não gostava de me saber fora àquelas horas do dia. Numa dessas minhas incursões, início de tarde solarengo, encontrei deitada sobre o centeio uma colega de escola, a Rita. Vi que chorava e aproximei-me dela. Sem que lhe perguntasse absolutamente nada estendeu-me uma das mãos e com a outra colocou um dedo em riste sobre os lábios como que a exigir-me silêncio. Fiquei quieto, mudo e, sem perceber bem porquê, fascinado com a visão de uma Rita melancólica e etérea que desconhecia. Uma estranha tranquilidade que repentinamente se apoderou de nós ainda tornou mais extraordinário aquele momento de inesperada felicidade. Ajoelhei-me junto a Rita, tão perto dela que as minhas pernas roçavam as suas, e pude perceber então que as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto sardento não eram de tristeza. Pelo contrário, compreendi que o que a Rita buscava naqueles campos era a abstracção que só a imensidão da natureza propicia, a solidão que lhe permitia encontrar-se a si mesma. Num impulso beijei-a nos lábios. Foram poucos e muito velozes segundos com os meus lábios colados nos dela, mas, sem olhar uma única vez para trás, assustado com o meu gesto fugi dali para fora deixando-a novamente entregue à acalmia que a extensa seara lhe transmitia. No outro dia, já na escola, ela sorriu-me e eu corei envergonhado. Estava terrivelmente apaixonado pela Rita mas nunca tive coragem de lho confessar. Anos mais tarde, já na cidade grande, encontrámo-nos junto a uma sala de cinema. Cumprimentámo-nos, conversámos um pouco e falei-lhe daquela tarde, do beijo roubado, da paixão que me consumiu durante meses. E fiz-lhe a pergunta inevitável: também gostavas de mim, Rita? Nisto, ela deu-me suavemente um beijo no rosto, sorriu e desapareceu no interior da sala escura do cinema deixando-me na incerteza. Uma incerteza que de quando em vez me faz revisitar aquele dia de absoluta felicidade.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

INIMIGOS PÚBLICOS












Inimigo Público nº 1 - Paixão e morte na Chicago dos anos 30





Na época da Grande Depressão norte-americana, anos 30, viveu naquele país um Robin Hood dos tempos modernos – à altura, bem entendido – de seu nome John Dillinger. Carismático, louco, romântico, apaixonado, aventureiro e temerário, Dillinger assaltou bancos, apenas bancos!, e criou empatia num povo a viver se não na miséria em grandes dificuldades financeiras em clara oposição à opulência das instituições bancárias. E foi isso mesmo, essa aventura real que a ficção gostaria de ter criado, que Michael Mann trouxe de forma brilhante para o cinema. Com respeito pela narrativa mas com especial dedicação àquilo que o vem celebrizando e que acabou por fazer (também) deste um filme formalmente irrepreensível. Aliás, bem mais que irrepreensível: sedutor.



Falemos de Michael Mann. Entre outras obras também elas importantes para o cinema, o realizador já nos obsequiou com filmes como «Heat» (1995), «O Informador» (1999), «Ali» (2001), «Colateral» (2004) e «Miami Vice» (2006). Agora, usando as câmaras digitais tão ao seu gosto e recorrendo aos close-up de modo quase cirúrgico e muito a propósito, Mann filma a sua Chicago e um nome mítico da história criminal norte-americana. Em paralelo, apresenta o histórico dos primórdios de uma das maiores e mais famosas organizações policiais do mundo, o FBI. Na altura, já com J. Edgar Hoover em grande forma. Era o início da investigação policial organizada e com recurso à tecnologia e o fim de um período de transição entre o bandido de pistola no coldre, bem ao jeito do velho oeste, e das actuais grandes organizações criminosas. Nesse período de mudança, John Dillinger foi um dos últimos marginais a viverem sobretudo do instinto e do engenho pessoais.



Tecnicamente perfeito, como já referi, a narrativa assume igualmente uma importância fundamental. Quer através dos feitos de Dillinger, um bandido e provocador simpático, da sua relação apaixonada com Billie Frechette (Marion Cotillard), quer em relação à perseguição que lhe é movida pelos homens do agente especial do FBI encarregado do caso, Melvin Purvis (Christian Bale). E é quase sem recuperar o fôlego que vemos desfilar na tela um amor maior que a vida, em que a coragem para o viver se sobrepõe à razão que em muitos casos é inimiga do coração, com a sucessão de perseguições e fugas realizadas com o estardalhaço necessário apenas para ilustrar os factos. E em 140 minutos de película em momento algum o filme se torna enfadonho.



Contando com interpretações meritórias de Johnny Depp, num registo que não lhe é muito habitual, e de Christian Bale, um polivalente incapaz de um desempenho sem qualidade, é o olhar triste de Marion Cotillard e as grossas lágrimas que rolam pelas suas faces de angústia, saudade e consequente sofrimento, que ficam a bailar na nossa mente muitas horas depois do filme ter terminado. Quanto a Dillinger, morreu assassinado cobardemente pelo FBI e atraiçoado por quem confiava depois de ter assistido no cinema a «Manhattan Melodrama», filme protagonizado por Clark Gable e de produção precisamente do ano da sua morte, 1934. Obrigatório.




Public Enemies, de Michael Mann, com Johnny Depp, Marion Cotillard e Christian Bale


















sábado, 23 de outubro de 2010

DUPLO AMOR



Leonard, um homem só e apaixonado entre duas mulheres

«Duplo Amor», título português para o mais recente filme do realizador James Gray, retoma aquilo que infelizmente o cinema americano tantas vezes se esquece de fazer: colar a vida ao ecrã exactamente como ela se desenrola. E filme também desse extraordinário actor que é Joaquin Phoenix. A trama detém-se sobre Leonard (Phoenix) um homem marcado pelo drama no amor. E é por uma tentativa de suicídio de Leonard que a película se inicia, ele que é bipolar intercalando a depressão mais profunda com a euforia desregrada.



Leonard amou muito uma mulher de quem esteve noivo. Mas a descoberta de uma doença que tornava o casal incompatível na hora de ter filhos (se nascessem morreriam antes de completar um ano) levou a sua apaixonada para lugar desconhecido arrastada pelos pais. O jovem amante procurou durante anos a mulher que amava, mas, sem obter o desejado êxito nessa busca, regressa a casa dos pais em Brooklyn, Nova Iorque. Curiosamente, ao longo do filme iremos observar como aos pais, nomeadamente à mãe Ruth (Isabela Rossellini), apenas interessa a felicidade do filho independentemente das humilhações que pudessem vir a sofrer com os seus actos de homem tresloucado ou, melhor dizendo, de homem apaixonado, livre. Isto, apesar de lhe tentarem um casamento com a recatada filha de um casal amigo, Sandra (Vinessa Cohen). E é entre Sandra e a sua bela mas um pouco volúvel vizinha Michelle (Gwyneth Paltrow) que se desenrola a duplicidade amorosa a que alude o título. E a angústia de Leonard entre seguir o seu instinto, acreditar no amor, ou ficar-se pela segurança de uma mulher que sabe amá-lo e não lhe oferece dúvidas.



Michelle, no fundo, nunca ‘maltrata’ Leonard. Ela é a amante de um homem poderoso, casado (Ronald, protagonizado por Elias Koteas), que a divide com a família e os afazeres profissionais. A sua culpa é unicamente a de ter concedido a esperança ao infeliz amante Leonard quando ela mesma se encontrava num beco sem saída com o homem que amava e acreditava deixasse tudo por ela (parece letra de uma música pimba mas não é, é o amor, ridículo aos olhos de quem não o sente). E como tantas vezes acontece na vida real, Leonard acaba por sofrer a amargura e o desencanto por ter acreditado num amor que o devastava a si mas não era inteiramente correspondido do outro lado.



«Two Lovers» é cinema sério. É um drama disfarçado de comédia romântica, é o renascer de um género tão maltratado pelos grandes estúdios de cinema atolados na megalomania de meios e na presunção de que aquilo que os espectadores querem é descomprimir com a docilidade de romances onde falta a verdadeira paixão e a complexidade labiríntica das questões do coração por vezes tão perigosamente perto de factores psicossociais que os condicionam.



James Gray é um talentoso realizador que já assinou filmes como «We Own The Night» (2007), «The Yards» (2000) e «Litle Odessa» (1994) e Joaquin Phoenix é na actualidade o actor que mais se aproxima daquilo que representa o mito de James Dean. E é também de há muito que ultrapassou a associação das avaliações ao seu talento tendo em conta o impacto da morte prematura do seu irmão River Phoenix. Neste filme Joaquin Phoenix volta a estar fantástico na pele de um homem apaixonado que segue um trilho dramático na relação com as mulheres por quem se apaixona. Mais que aconselhável, «Duplo Amor» é um filme imperdível. Até pela complexidade emocional da sua indissociável comparação com a vida.





Two Lovers, de James Gray, com Joaquin Phoenix, Gwyneth Paltrow, Vinessa Shaw, Isabela Rossellini e Elias Koteas

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

THE WRESTLER





O Solo de Rourke





A luta livre norte-americana consiste num mundo de personagens extravagantes
que fazem da excentricidade a sua religião e onde a comédia caminha a par do drama. Antes de vermos o filme «The Wrestler» poucos julgaríamos possível que se concedesse alguma dignidade a uma actividade tão difícil de catalogar, especialmente para um europeu, onde tudo está combinado desde quem ganha até como ganha e de que modo vai divertir uma plateia composta por gente histérica e sedenta. Pois é exactamente isso que o realizador Darren Aronofsky, depois do falhado «The Fountain» (2006), acaba por conseguir: conceder humanismo e respeitabilidade a um estranho desporto denominado de Wrestling. E é precisamente neste ponto fulcral do sucesso de «The Wrestler» que entra Mickey Rourke. O actor que nos anos 80 teve um relativo sucesso como símbolo sexual e que abandonou o cinema para abraçar o pugilismo resolveu contar a história da sua vida através da sua interpretação neste filme. E de que modo sensível o fez! Por isso, mais do que a história de um lutador de Wrestling decadente e no ocaso da vida, esta é a história de Mickey Rourke, o homem que fez de grande parte do seu percurso de vida um interminável rol de falhanços.



Não é difícil perceber que com Randy “The Ram” estamos longe do Mickey Rourke que foi dirigido por Alan Parker em «Angel Heart» (1987) ou por Adrian Lyne em «Nine ½ Weeks» (1986), provavelmente o seu sucesso mais mediático. Randy é um lutador em final de carreira que vive de combates de exibição e se humilha em pequenas sessões de autógrafos acompanhado por outros lutadores tão perdedores quanto ele. Para além disto, ao lutador não resta absolutamente nada a não ser a atenção de Cassidy (Marisa Tomei), uma linda stripper por quem nutre muito mais que uma simples simpatia. Este mundo feito de vazios e silêncios a partir de uma velha rulote torna-se ainda mais dramático quando, após um ataque de coração, o médico sugere a Randy “The Ram” escolher entre continuar a lutar ou a morte. O herói que já de si sobrevive apenas nas cassetes vídeo que ilustram os seus combates vinte anos atrás, inicia então uma caminhada no deserto experimentando uma vida normal. Mas como pau que nasce torto tarde ou nunca se endireita, Randy falha a reaproximação à filha que abandonara em criança (Evan Rachel Wood) e não consegue juntar-se a Cassidy. Para Randy “The Ram” Robinson só resta um caminho final: o Wrestling. Ou a morte.



«The Wrestler» adquire nesta fase uma áurea de intenso dramatismo onde as cicatrizes interiores do seu protagonista se tornam muito mais difíceis de curar que aquelas que exibe o seu corpo distorcido pelos abusos e pelo uso de esteróides. O cinema minimalista de Aronofsky detêm-se então numa América escura e de pesadelo e o espectador inicia um processo de entronização interior que lhe é transmitido pela amargura daquilo que vê. Randy “The Ram” Robinson, despojado daquilo que é, um lutador de Wrestling, deixa de interessar ao seu semelhante, passa a ser visto como o falhado em que realmente se tornou. E como o soldado que morre no campo de batalha, entre lágrimas Randy decide continuar a fazer aquilo que o faz sentir-se digno e respeitado, lutar.



Mickey Rourke, o homem, depois do pugilismo foi obrigado a operações plásticas para recomposição do seu rosto; Mickey Rourke, o actor, teve em «The Wrestler» a oportunidade de regressar ao único palco onde se fez grande, o cinema. E é a si, pese ser este o melhor filme de Darren Aronofsky, indiscutivelmente, que o filme deve parte de leão do seu sucesso. Quanto ao espectador que vá assistir a «The Wrestler» prepare-se para viver quase duas horas de película que nos mostram o percurso dramático de um homem que caminhou sobre as estrelas até se estatelar cá em baixo na terra. E perante isto, o Leão de Ouro ao filme, em Veneza, o Globo de Ouro de Rourke e as nomeações deste e de Marisa Tomei aos Oscars tornam-se irrelevantes. A não ser como veículo promocional do filme. Grande Mickey Rourke! Que força é essa amigo? Que força é essa que trazes nos braços?





«The Wrestler», de Darren Aronofsky, com Mickey Rourke, Marisa Tomei e Evan Rachel Wood