domingo, 31 de outubro de 2010

O Estranho Caso de Benjamin Button





Meet Benjamin Button?







Enrugado e a sofrer de artrites como se fosse um velho de 80 anos, é desta forma assustadora que nasce um menino que mais tarde receberá o nome de Benjamin. «O Estranho Caso de Benjamin Button» é a história de um homem que percorre a vida em sentido oposto já que nasce velho para morrer bebé. É também o mais recente filme de David Fincher, cineasta de «Se7en», «O Jogo», «Clube de Combate», «Sala de Pânico» e «Zodiac» o que significa que esta incursão no melodrama está nas antípodas dos seus (excelentes) filmes anteriores. Isto não sem que se percebam desde logo dois pormenores tão dramáticos quanto maquiavélicos do argumento: primeiro porque na sua estranha doença (que não existe na realidade) Benjamin Button tem marcado à partida o dia da sua morte uma vez que esta ocorrerá obrigatoriamente quando chegar a bebé; e ao longo da odisseia em que irá constituir-se a sua existência, nunca ele se poderá socorrer dos conhecimentos empíricos normais em qualquer outro ser humano que o ajudariam a uma melhor qualidade de vida. Porquê? Porque o seu caminho é percorrido de trás para a frente sem que tenha vivido as experiências normais do crescimento.



Benjamin Button (Brad Pitt a fazer lembrar a sua personagem em «Conhece Joe Black?») é, por todas as razões enumeradas, um ser humano frágil. E quanto a mim esse é o maior trunfo do filme, o que leva a que este atinja um plano muito elevado em questão de sensibilidade dramática. Benjamin conhece Daisy (Cate Blanchett) enquanto miúdos e as suas vidas confluem no que se poderá designar como evolução física por volta dos 40 anos de idade. E se para ele a verdade do coração é a única que importa, isso não significa que perca a consciência da necessidade que irá ter de abdicar do amor da mulher que o faz verdadeiramente feliz. E essa renúncia ocorre sem que o filme perca qualidades naquilo que mais procurou alcançar: humanismo e sobriedade dramática.



A vida não é, não pode ser, apenas uma viagem cruel e desprovida de sentido para a morte. A vida é feita de sonhos, de partilha, de cumplicidade. E a não ser por um breve período de tempo num percurso que vai desde os 80 anos até se extinguir no início, na idade de bebé, tudo isso será negado à personagem de Benjamin Button. E apesar do reconhecimento desta componente humanística forte que o marca, o filme perde por falta de ritmo na acção inicial. Nesta fase mais pachorrenta, o interesse reside apenas na admiração que é devida ao fabuloso trabalho de maquilhagem conseguido com Cate Blanchett mas sobretudo com Brad Pitt. E o que resulta de tudo o que neste texto se afirma, encontra-se na conclusão de mais uma vez estarmos na presença de um filme a ver quase exclusivamente com os olhos do coração. Isto sobe pena de perdermos toda a emotividade de uma história de vida tão atípica quanto tocante.








The Curious Case of Benjamin Button, de David Fincher, com Brad Pitt, Cate Blanchett, Julia Ormond e Elias Koteas

A Troca





Era uma vez na América



De facto, é um cliché inevitável: Clint Eastwood é um dos maiores realizadores da actualidade e herdeiro do cinema clássico de homens como Ford, Walsh e mesmo Sérgio Leone. Sem grandes concessões estilísticas mas com uma fotografia esplêndida que prende o espectador à tela desde o primeiro segundo, Eastwood (que faz 79 anos de idade em Maio) construiu em «A Troca» um filme tocante que conta uma história baseada em factos reais tão dura quanto revoltante de uma mãe em luta contra o despotismo de uma polícia que alia a arbitrariedade à incompetência.



Estamos em 1928 quando Christine Collins (Angelina Jolie), uma mãe que vive só com o pequeno filho Walter depois do pai do miúdo os ter abandonado a ambos quando este nasceu, chega um pouco mais tarde a casa após novo dia de trabalho na companhia de telefones onde é operadora e dá pela falta do rapaz. Feita a queixa à polícia, esta só passadas 24 horas a aceita para ao fim de uns meses aparecer com um outro miúdo que Christine desde logo percebe desesperadamente não ser aquele o verdadeiro Walter. Incapaz de reconhecer o erro, a corrupta polícia de Los Angeles força a pobre mãe a aceitar o filho de outra mulher como seu. Como Christine reage e luta para que a polícia aceite a falha e com isso volte a procurar Walter, a reacção das autoridades é inacreditável até à náusea chegando a internar compulsivamente a mulher num hospital psiquiátrico. Entretanto, quase por acaso, o Detective Lester Ybarra (um impressionante Michael Kelly) depara com um Serial Killer monstruoso que à sua conta assassinara de forma bárbara pelo menos vinte miúdos. Com estes novos acontecimentos e a ajuda de um padre (John Malkovich) que luta contra a repressão policial, o caso sofre uma reviravolta.



Se algo nos fica deste filme para além da força do amor de uma mãe que nunca desiste do seu filho apesar de seviciada por quem a deveria ajudar e apoiar, é a confirmação de uma certeza tão antiga quanto a civilização: que o poder exercido por quem não tem estrutura para o deter pode revelar-se de uma atrocidade insustentável. Depois, e no que concerne ao cinema, a convicção e força de uma narrativa que é simples somente na aparência. Como defendeu um dia Otto Preminger, o bom filme é aquele onde não se nota o dedo do realizador, embora tudo o que este faz o faça de modo deliberado. E esta capacidade Clint Eastwood teve-a mais uma vez, agora em «A Troca». Ainda para mais sendo obrigado à (brilhante) reconstituição de uma época, a dos anos 20/30 do século XX. Para terminar, quer-me parecer que o cinema que nos surge da mais recente filmografia de Eastwood se revela cada vez mais como um símbolo eloquente e cruel de uma América de contrastes, uma América que vagueia entre a magia do sonho e o mais terrorífico pesadelo. E esse drama está bem patente na tristeza do olhar de Angelina Jolie, pese o optimismo quase obsessivo da sua personagem indiferente ao pessimismo dos sinais que lhe vão chegando do exterior. Excelente proposta de cinema, este «Changeling», no seu título original.







«A Troca», de Clint Eastwood, com Angelina Jolie, John Malkovich e Michael

Duas Irmãs, Um Rei



[Maria Bolena (Scarlett Johansson) e Ana Bolena (Natalie Portman)]









As meninas boas vão para o céu, as más para todo o lado





Para quem aprecia filmes que procuram retratar um período da história universal, «Duas Irmãs, Um Rei» do inglês Justin Chadwick, pode não ser uma boa aposta. Mas se se perceber que o objectivo da realização pretende apenas servir-se dos dados da história para exercer uma reflexão bem mais psicológica sobre os protagonistas desse período da civilização do que narrar factos, então o caso muda de figura. E tanto Natalie Portman (como Ana Bolena) como Scarlett Johansson (como Maria Bolena), dão um recital de boa representação e ofuscam Eric Bana (o carismático – para o bem e para o mal – Henrique VIII de Inglaterra), prendendo sobre si e as personagens que corporizam, toda a atenção de um público já de si rendido à sua beleza ímpar.



O trabalho da realização é bastante competente sobretudo na evidência que consegue ao retratar personagens (pessoas) aliando essa reprodução à moral de uma época onde tudo vale na busca de poder. Chadwick, o já citado realizador, foi ainda suficientemente hábil concentrando-se na vertente psicológica de seres humanos invulgarmente interessantes sem nunca perder ritmo na acção nem o fio à meada. Adaptado do livro homónimo de Philippa Gregory, o filme resulta assim num muito interessante momento de cinema, não apenas pelo trabalho dos actores (acrescente-se a boa prestação de Kristin Scott Thomas - ela é Lady Elizabeth, a mãe das irmãs Bolena) mas também pela cuidada reconstituição da época. Embora, valha a verdade, a acção revolucionária de Henrique VIII, que chegou a ser excomungado pelo Papa da época, passasse de modo muito breve pela película e de forma escandalosamente secundária. Mas essa foi uma opção claramente tomada para a narrativa e ou se gosta ou se põe na borda do prato, não há nada a fazer.



O filme é ainda um hino às crónicas de paixão, traição e morte e tem em Ana Bolena a personificação da mais rebuscada inteligência, da astúcia e singularidade, uma víbora a que Natalie Portman deu um ar de vivacidade e formosura, qual modelo de tentação enviado pelo Diabo à terra. Já o peso de Scarlett Johansson neste filme é medido em ternura, nobreza de sentimentos, graciosidade da mais pura desprovida do disfarce e hipocrisia que o papel de Natalie Portman obrigava. Mas, como alguém disse, as mulheres boas vão para o céu e as más vão para todo o lado. Neste caso, isso significa que Maria Bolena não passou de amante do rei, a quem deu um filho bastardo, e que Ana Bolena chegou a rainha. E a filha de ambos (de Ana e de Henrique), Isabel I, governaria a Inglaterra durante 45 anos. Ana Bolena, essa, como se sabe, acabaria morta por decapitação à la francesa. Isto é, de pé, sem nunca se vergar ao carrasco, ao povo, ou quem quer que fosse, e o seu pescocinho delicado apenas foi decepado por uma elegante espada de metal muito brilhante.



Como nota de rodapé, sou obrigado a salientar a náusea que me causou observar como naquela época uma família, um pai, obrigou as suas filhas às mais vis sevícias no único intuito de granjear poder para si. É, de facto, aviltante e chega a ser quase reconfortante saber que também aquela gente, que existiu realmente, acabaria premiada com um corte de machada bem junto à nuca e que a sua cabeça rolou ignominiosamente (ignominiosamente? Ufa!) num estrado bem imundo ao som dos gritos triunfantes e odiosos de um povo que berrava sabe-se lá por que razões distintas.



The Other Boleyn Girl, de Justin Chadwick, com Natalie Portman, Scarlett Johansson e Eric Bana


A Rapariga Cortada em Dois





Claude Chabrol dá e tira*






Fugindo um pouco ao formalismo próprio de uma crítica de cinema séria, que este blogue também publica críticas mas nem tudo o que nele se escreve é a sério, sempre vos digo que Claude Chabrol, cineasta francês de «Les Biches», entre muitas outras obras de destaque do cinema francês, realizou em 2007 um filme com o peculiar título de «A Rapariga Cortada em Dois» e eu, graças a um DVD que fizeram o favor de me emprestar, só agora o vi.



A atirar a Woody Allen ou mesmo a Hitchcock, o argumento desenvolve-se por conta de uma jovem meteorologista, Gabrielle (Ludivine Sagnier), que se apaixona por um escritor já perto dos 60 anos de idade, Charles Saint-Denis (François Berléand) e acaba por casar com um jovem herdeiro, Paul Gaudens (Benoît Magimel), tão desequilibrado quanto o peso – que é muito elevado - do dinheiro da família.



Apesar de nos acenar com a bandeira da grandeza de um amor que quebra barreiras de idade (a paixão da bonita Gabrielle pelo escritor) e sociais (o magnata da indústria farmacêutica que se apaixona pela filha de uma modesta empregada de livraria), a realização de Chabrol revela-se maquiavélica já que acaba por não nos conceder nem um nem outro cenário: o escritor não deixa a mulher pela jovem apesar de apaixonado e a família abastada nunca chega a aceitar a plebeia no seu seio. O filme progride e há ainda umas quantas histórias por contar mas que para este texto deixaram de ter importância.



Ou seja, por que razão é que os realizadores da velha escola do cinema europeu se mantêm tão pessimistas que se limitam a filmar a realidade tal qual a pressentem, adicionando-lhes – neste caso particular - uma pitada de mistério policial e outra de conflito psicossocial? Meus caros, está na hora de apostar em força no amor derrubando barreiras e conquistando novos terrenos. Caramba, se a vida já é tão aborrecida para tantos para quê confrontá-los com essa mesma pasmaceira? No fim, Chabrol não resiste à consumação prática do simbolismo do título que deu ao seu filme e corta a pobre rapariga em dois num número de ilusionismo ao jeito de nem tudo o que parece é. Não havia necessidade.







[*Quem dá e depois tira, sempre o ouvi dizer, ganha um lugar bem quentinho no inferno; caramba, Chabrol, onde estavas com a cabeça?...]





La Fille Coupée en Deux
, de Claude Chabrol, com Ludivine Sagnier, Benoît Magimel e François Berléand

Quantum of Solace

[…e fiquei frustrado. Há uns anos escrevi isto sobre um dos filmes de Bond, sobre «Die Another Day»:]





Para Fieis Devotos de Bond


Religião: Insista-se na vertente religiosa de algumas personagens míticas do cinema porque James Bond regressou à Terra, que é, como quem diz, povoa novamente as salas de cinema mundiais numa nova aventura. Bond não promete muito. Melhor, não promete mais que aquilo que já ofereceu noutras aventuras, noutros filmes: dar luta sem tréguas aos maiores e mais megalómanos marginais do planeta, desafiar a traição com temerária sagacidade e sair ileso, manipular armamento de última geração em defesa da humanidade, passear a sua classe, distribuir charme, seduzir, amar e ser amado. E não se iludam, passear num veloz e elegante Aston Martin, ver as horas num sofisticado relógio Omega, beber Martinis ao início da noite num requintado bar de Hong Kong e acordar num luxuoso quarto de hotel de uma praia cubana ao lado de uma morena estonteante não é para todos, é somente para Bond, James Bond. Onde poderemos encontrá-lo de novo? Em «Morre Noutro Dia», com realização do neozelandês Lee Tamahori.



Expiação: Bond (Pierce Brosnan) é capturado após mais uma missão na zona desmilitarizada que une as duas Coreias. O espião sofre as mais cruéis sevícias, é torturado, atormentado. Acaba libertado numa troca por outro prisioneiro, mas é alvo da desconfiança dos seus pares. A sua folha de serviços não fora respeitada.



Libertação: Bond logra evadir-se e parte pelo mundo que nem um cavaleiro solitário em consolidação da honra em perigo porque questionada. Errando de Hong Kong a Cuba – onde se depara com a bela e enigmática espiã Jinx (Halle Berry) – e a Londres, 007 intenta localizar um criminoso inescrupuloso, que o atraiçoou, e evitar o rebentar de uma guerra calamitosa. O herói desafia as leis da física, prova que não envelheceu à passagem do seu 40º aniversário. E tudo isto com um sorriso trocista nos lábios. Entretanto vira as horas, deitara um último e ardente olhar à bela e tragara um derradeiro golo de Martini.



Cura e Salvação: Islândia, frio e muito gelo fora do cálice de Martini, um Aston Martin como viatura de serviço. Outra mulher a seus braços, quase loira, de seu nome Miranda (Rosamund Pike). Há uma missão por cumprir, um criminoso a travar. Gustav Graves (Toby Stephens), o bandido de serviço, terá pois que se haver com Bond. Uma missão impossível para si, dizemos nós.



O culto: Nesta oração, neste novo filme, digo, James Bond prova a pertinência da sua doutrina. Os seus actos temerários requerem a fé dos que crêem em si mas é de elevada sedução e encanto o mundo que promete a quem o adorar. A seu lado, anjos e demónios obtêm uma prestação adequada com destaque para Halle Berry, uma Bondgirl muito bem conseguida. Brosnan prova ser igualmente um dos mais fiéis intérpretes da missão que o pai de Bond, Ian Fleming, lhe confiou. Positiva também, acompanhando a evolução dos tempos, é a música de Madona que acompanha o ordinário da missa.]


[Hoje, repito, depois de ter visto o último filme de 007 sei que não era nada daquilo o que o seu pai, Ian Fleming, projectou para si, para ele, para o seu filho, para James Bond.]




Paris



[A beleza genuína, o sorriso franco, Juliette Binoche]







As Gentes, a Vida e a Morte, o Amor, Paris



Resumindo: em Pierre, irmão de Élise, é descoberta uma doença cardíaca que o levará à morte ou a um transplante salvador. Dançarino de profissão, Pierre vê a sua vida dramaticamente alterada do dia para a noite. E do alto do seu apartamento, Pierre passa a observador passivo das vidas frenéticas dos outros sem que, na perspectiva do dançarino, estes tenham a consciência de um bem que possuem e não dão o devido relevo. Um bem que ele agora entende de um modo diferente, sofrido, nostálgico: a vida.



Cedric Klapisch ficou famoso como cineasta fundamentalmente pelos filmes «A Residência Espanhola» e «As Bonecas Russas». Dessas muito interessantes experiências de cinema recuperou para «Paris» o seu actor fétiche (Romain Duris é Pierre) mas fez igualmente uma aquisição que eu reputaria de essencial para o seu elenco: Juliette Binoche (ela é Élise). Isto, porque a figura de Binoche transmite quase por si só todo o leitmotiv da obra: um mundo de pessoas aparentemente vulgares mas cujas vidas, embora anónimas, possuem atributos capazes de lhes transmitir a felicidade que estão longe de sentir. E em muitos desses casos porque elas, as pessoas (nós, as pessoas), preferem (preferimos) valorizar o que lhes falta atingir daquilo que projectaram (projectámos) para as suas vidas ao invés de celebrarem (celebrarmos) as pequenas/grandes conquistas do quotidiano. E para Pierre, a simples conquista da vida que agora lhe surge como cenário remoto enviara para segundo plano as banalidades que nos são sugeridas pelo facto de vivermos em sociedade. Pela sociedade, em suma.



Deste modo, através dos dramas e ilusões dos ilustres anónimos de uma grande cidade como Paris se vai construindo um cinema inteligente e sensível que tem a dupla capacidade de nos emocionar e fazer pensar. Como Pierre questiona a morte, o espectador é tranquilamente levado a questionar a vida. E, atrevo-me a referi-lo, é convidado a não esbanjar aquilo que esta lhe oferece iludido com o que dela pretende.



Como trunfo que desequilibra o jogo a seu favor (o jogo do cinema, neste caso), o filme apresenta ainda uma actriz que alia a beleza ao talento, uma actriz que surge invariavelmente na tela como uma mulher intensa e estimulante, uma mulher, uma actriz, de seu nome Juliette, Juliette Binoche. A não perder.





Paris, de Cedric Klapisch, com Romain Duris e Juliette Binoche

Os Sonhadores







[Eva Green, de virgem abundante a Bond Girl]













A Arte de Expor a Paixão

A filmar a grandeza dramática, inebriante e de um erotismo quase obsessivo mas nunca gratuito do amor, o nome do cineasta italiano Bernardo Bertolucci dispensa apresentações. «O Último Tango em Paris», «Beleza Roubada», entre outros, são exemplos de filmes onde o gosto pelo amor e suas cambiantes de desvario, exaltação dos corpos e das almas que exultam através da união da carne ganha um relevo especial. Este «Os Sonhadores» é apenas (cuidado com este «apenas») mais um radiante exemplo do carácter afectivo – designemo-lo assim – do cinema de Bertolucci.



Paris é a cidade do amor, do sonho, da cultura, das elites intelectuais, da agitação e da revolta. E também do Maio de 68 e da Cinemateca Francesa, para nos situarmos definitivamente em «The Dreamers», no seu título original. É também a cidade de Theo e Isabelle, dois irmãos tão loucos no dia-a-dia quanto o são pela 7ª arte, e de Matthew, um jovem estudante americano a estudar na cidade das luzes e também ele um cinéfilo compulsivo.



Entre os três jovens nasce uma ligação que chega a assumir contornos de absoluto delírio não apenas na relação quase siamesa dos dois gémeos como pelo amor que nasce entre o elemento feminino do par e Matthew. Neste ambiente de cultura, de enfurecimento intelectual e desregramento ganha protagonismo o ardor da paixão entre o jovem americano e a sedutora francesa cujos contornos Bertolluci não se coíbe de expor no ecrã. Para aqueles que se sintam constrangidos pela visão de um pénis momentos antes da penetração inaugural numa vagina que sangra e palpita, este talvez seja um filme desaconselhável. Para quem entenda estes como factores naturais da vida, que não devem ser escondidos mas também não servem para um redutor papel de simplesmente provocar ou estimular, «Os Sonhadores» acaba por ser uma revisitação da Paris onde se deu «O Último Tango(...)» mas sem que exista ligação palpável entre ambos.



De salientar o ano de produção do filme (2003) e a aparição da virgem Eva Green que anos mais tarde conheceríamos como Bond Girl (a contracenar com Daniel Craig). No restante elenco Michael Pitt, um estudante americano em Paris, e Louis Garrel, o irmão siamês, estão à altura de um filme onde o Maio de 68 serve apenas como pano de fundo para as fantasias eróticas de Bernardo Bertolucci. O truque reside na capacidade que este tem em transformá-las em bom cinema. Mas atenção, há por aí muito boa e intelectualmente bem cotada gente a achar o filme insuportável. Eu cá não, gostei. Deveras.





«The Dreamers», de Bernardo Bertolucci, com Michael Pitt, Eva Green e Louis Garrel

Nós Controlamos a Noite

[Eva Mendes, estrela cintilante de «We Own the Night»]




Drama, Paixão, Morte, Vida – Nova Iorque, NIPD

«Nós Controlamos a Noite» inicia-se de modo cativante com uma cena de desejo e paixão entre um homem e uma mulher. Ela, Eva Mendes, bela, sedutora, disponível, encontra-se estendida num sofá, ele, Joaquin Phoenix, olha-a rendido aos seus encantos, debruça-se sobre o seu corpo fascinante, beija-a na boca, no seio, acaricia-a nas pernas, entre as pernas.



O filme, realizado por James Gray (que também escreveu o argumento) recupera para a tela grande do cinema a velha história da família que se perpetua ao serviço da polícia. Os seus fantasmas, os sonhos, desentendimentos e apelos naturais. O cosmopolita cenário nova-iorquino das épicas discotecas e dos homens e mulheres em busca de adrenalina e chama de vida dá lugar à luta entre o braço da lei e os reis do tráfico de droga nos dias que correm oriundos do leste europeu.



Agora que Joaquin Phoenix anunciou a sua retirada do mundo do cinema para se dedicar à música (o desempenho fabuloso que conseguiu ao interpretar Johnny Cash deve ter-lhe dado ideias) deve realçar-se as suas capacidades dramáticas que pese as diferenças físicas e de época mas que pelas expressões de dor interior e revoltada resignação chegam a lembrar o desencantamento existencial de James Dean. E neste filme, a química entre o actor e a sensual Eva Mendes funciona na perfeição. No restante, Mark Wahlberg não compromete mas também não se evidencia e Robert Duvall que é agora e sempre... Robert Duvall, grande entre grandes, contribuem para um muito agradável filme sobre os dramas da família, a guerra contra o tráfico de droga que continua longe de ser ganha e os conflitos que perturbam um grande amor entre um homem e uma mulher.


We Own the Night, de James Gray, com Joaquin Phoenix, Eva Mendes, Robert Duvall e Mark Wahlberg

Mamma Mia





Quando, em tempos, fiz crítica de cinema com alguma regularidade, uma das primeiras lições que aprendi relativamente à dicotomia público – crítico (sim, porque ela existe) é que há filmes em que é completamente inútil procurar estruturar um texto fiável ao filme e àquilo que o hipotético especialista sente a partir do seu gosto e, fundamentalmente, da sua concepção de cinema desde que vá em sentido inverso ao da maioria. Porque as exigências de um crítico, que vê e analisa ao pormenor centenas de filmes em cada ano, são certamente diferentes e em grande parte das situações maiores (maiores? ok, batam lá no ceguinho que diz tamanha barbaridade) que para um espectador eventual de cinema. Muitas vezes, para este só a ida ao cinema já por si é um acontecimento de monta. E pode-se lutar contra isto? Não, não pode nem deve. Mas pode-se continuar a ser honesto na análise mesmo sabendo que a maioria gostou, se sentiu agradada (muito mesmo) e vai cair em cima de quem ousar dizer mal do seu objecto de estima.



Vem tudo isto a propósito de «Mamma Mia», um musical com realização desastrada de Phyllida Lloyd. Sim, sim, o filme tem uma Meryl Streep empenhadíssima em fazer boa figura, tem um Pierce Brosnan a debitar charme mas sem pingo de talento para as canções e tem ainda, entre outros, Colin Firth como peixe fora de água, Peter Skarsgard a fazer de si mesmo, Jullie Walters sem saber muito bem o que anda por ali a fazer e, essa sim, Christine Baranski a safar-se muito bem nesta tragédia grega. Tragédia cinematográfica, diga-se, que o filme é todo ele energia positiva e alegria a rodos mesmo na hora de três homens dividirem entre si a paternidade biológica da filha única de Donna (Meryl Streep).



Pese tudo isto, a fita tem as melodias dos Abba e o Sol de uma paradisíaca ilha grega. E por muito que se diga que a narrativa é indigente e que reina a mediocridade em quase toda a matéria concepcional do filme uma vez que o cinema foi substituído por uma espécie de Prozac servido em película ao invés das tradicionais pílulas, o povo não quer saber. E se o crítico resolver dar a sua opinião e esta for negativa, então é porque não percebe nada de cinema, é pseudo-intelectual ou, também se vê muito por aí nestes casos, é um chato sem bom gosto algum. Daí que, meus caros, viva «Mamma Mia», vivam os Abba e Meryl Streep também, viva o cinema que não é para aqui chamado e vivam as melodias que qualquer um pode cantar. Já agora, viva a democracia e viva a república.





Mamma Mia, de Phyllida Loyd, com Meryl Streep, Pierce Brosnan, outros;

Ficheiros Secretos: Quero Acreditar




Melodrama Sensaborão



Lembram-se? A série televisiva «X Files» entrou de rompante em nossas casas tornando-se um sucesso imediato. Daí até à sua chegada ao cinema em 1998 com «Ficheiros Secretos: O Filme» foi o evoluir de todo um processo natural que, à partida, tenderia a funcionar como uma espécie de aperfeiçoamento narrativo de um universo do agrado de espectadores de todo o mundo. No entanto, com a chegada de «Ficheiros Secretos: Quero Acreditar» à tela grande do cinema, creio que se matou de vez o que afinal já há muito agonizava. Terá o universo de Fox Mulder e Scully deixado de se tornar interessante relativamente à sua actividade como agentes especiais do FBI? Se assim for, faça-se, a partir de agora, um filme sobre a paixão entre as duas personagens principais, os seus encontros e desencontros afectivos, os seus novos desafios profissionais ou outra qualquer temática ligada ao par mas perceba-se de uma vez que o funeral de «X Files» já foi realizado. Quando? Em 2008, por Chris Carter neste «The X Files: I Want to Believe» (no seu título original).



Se o filme é decepcionante para os amantes da série televisiva, em que me incluo, imagino que se torne um pouco intrigante para aqueles que por ventura nunca acompanharam os episódios televisivos. É que, em boa verdade, esta fita não é mais que um banal e convencional episódio televisivo – embora mais alargado - e levanta a questão sobre saber onde reside afinal o segredo de um projecto televisivo de sucesso como o foi «X Files». Na verdade, comparada a este insípido drama de trama de complexidade muito duvidosa e completamente fora de moda no thriller psicológico que ensaia, ainda para mais sem capacidade de prender os espectadores à tela, «X Files», a série, está anos-luz à frente do filme. A todos os níveis.



Passe-se um pouquinho a vista pelo enredo e tente perceber-se do que se fala: toda a vertente psicológica e mais enigmática do filme – o grande trunfo da série – se prende com as visões de um padre que, valha-nos Deus, é um antigo pedófilo em expiação. Por outro lado, enquanto Mulder está retirado em penitência das lides, Scully é médica num hospital e deposita toda a fé na cura de um doente que, atente-se, a igreja quer pura e simplesmente deixar morrer já que não acredita na cura para a sua doença – valha-nos novamente Deus. Mas não é só já que andam a desaparecer misteriosamente mulheres e vem a perceber-se (atenção a quem ainda não viu o filme) que os confusos e estranhos maus da fita não vieram de Marte, Plutão ou outra Galáxia distante mas sim da Rússia. Ou de lá perto. Que Deus lhes perdoe ou castigue. A argumentistas, realizador e produtores que os actores são meros operacionais das fitas.



Note-se ainda o carácter irónico da coisa: num filme que tem muito de religioso no sentido de devoção à série, eis que a religião assume aqui um carácter fulcral no sentido mais negativista. Curiosamente, o melhor do filme, num argumento pobre e simplista, é a interpretação de Billy Connoly como o tal padre pedófilo e visionário que até chora lágrimas de sangue. Em suma, também um tanto ou quanto ironicamente, não só não se extraiu o melhor do espírito da série como o filme acaba por não ter qualquer significado dramático se a esquecer. Caricato. Resta-nos vibrar com a possibilidade inventariada de Mulder e Scully finalmente poderem vir a materializar o seu sonho de amor. Mas, desgraçadamente, isso não invalida que com este filme não corramos o risco de cair do alto do fervor místico relativamente à série «X Files» para a condição de meros gentios sem fé nem confiança. Uma lástima.



«Ficheiros Secretos: Quero Acreditar», de Chris Carter, com David Duchovny, Gillian Anderson, Billy Connoly e Amanda Peet

O Cavaleiro das Trevas













Humanos, Demasiado Humanos

Heath Ledger morreu alguns meses atrás, já o sabíamos. Mas que o actor australiano, cujo mediatismo subiu em flecha depois de ter protagonizado um dos componentes do par amoroso formado por dois homens em «O Segredo de «Brokeback Mountain», deixara para a posteridade uma portentosa interpretação de Joker em «O Cavaleiro das Trevas», de Christopher Nolan, sabemo-lo agora. Na verdade, o Joker de Heath Ledger revela-se uma figura psicótica, é certo, mas mostra-se sobretudo um ser humano tremendamente inteligente e, por via da inquietude que o atormenta, alguém profundamente assustador na dimensão trágica, caótica e massiva dos crimes que perpetra. Este é um Joker que ri desalmadamente, mas, note-se, um Joker que ri com a força da tristeza que o condiciona, que faz da anarquia o seu mundo, que não quer recompensas, não se sabe para onde vai e que procura fazer humor fabricando uma espécie de ironia trágica no destino alheio. O Joker do falecido Heath Ledger é mau. Mas mau não apenas por estar na sua natureza sê-lo; é mau por estar no seu objectivo lúgubre pretender fazer crer que a maldade está na natureza humana, faz parte da sua essência.



Mas há mais neste suposto «blockbuster» de Verão para além do inquietante Joker de cara esfacelada por duas cicatrizes enormes e uma língua viperina que tão depressa está dentro como fora da boca. Em «O Cavaleiro das Trevas» observamos um filme impressionante pela forma como contorna a vulgar fita de super-heróis vindos da BD, vemos desenrolar-se perante nós uma trama reconfortante no modelo que encarnou para si de filme sério e pensante sobre – lá está – a natureza humana. E neste contexto, o Batman - excelentemente representado por Christian Bale - é apenas mais um ser humano entre tantos. Um (super) herói cujo poder reside nas potencialidades que a riqueza herdada dos pais lhe possibilitam, na educação e formação recebidas e no uso que faz da tecnologia de ponta na luta contra o crime. Nolan, o realizador, foi igualmente buscar para a sua história uma das figuras da história original: Harvey Dent (um Aaron Eckhart competente e imbuído do espírito dramático da realização do inglês). E com a ajuda do Tenente Jim Gordon (Gary Oldman contido como poucas vezes temos oportunidade de assistir nas interpretações do actor), e do próprio Batman, subverte no final do filme o verdadeiro decurso das coisas para evitar evidenciar a defendida – pelo Joker –
inata perversidade da alma humana.



«O Cavaleiro das Trevas» é um filme maior, é a prova da superior capacidade de Christopher Nolan («Memento», «Inmsonia»...) para a realização de filmes, mas é sobretudo uma tese que atesta a força dos autores da BD no seu processo criativo. Eles que não se limitam, como pejorativamente alguns defendem, a fazer uns desenhos engraçados em quadrinhos e a fantasiá-los com argumentos ligeiros a não requererem um muito apurado esforço mental. Com este filme, Nolan tratou brilhantemente uma outra arte que não a sua, a BD. Mas, fazendo aquilo que melhor sabe, foi o cinema quem mais lucrou com o seu excelente trabalho. E se Gotham era até aqui uma cidade amargurada, perseguida por criminosos indizíveis e pouco ou nada condizentes com a condição humana, tudo isso mudou. A partir de «O Cavaleiro das Trevas», Gotham City passa a ser uma qualquer cidade do mundo moderno atolada nos seus próprios pesadelos e nos criminosos que os provocam e fazem deste um mundo por vezes cruel de se viver.



«O Cavaleiro das Trevas», de Christopher Nolan, com Christian Bale, Heath Ledger, Aaron Eckhart, Maggie Gyllenhall, Gary Oldman, Morgan Freeman e Michael Caine

A Paixão do Cinema



Os beijos do cinema em «Cinema Paradiso», de Giuseppe Tornatore.
Aqui. E Também aqui.

CINEMA PARAÍSO



Realizada em 1988 por Giuseppe Tornatore, esta obra foi merecedora do Prémio da Crítica em Cannes no ano de 1989 e do Óscar para Melhor Filme Estrangeiro, em 1990; verdadeira homenagem ao cinema e a todos quantos vivem de modo especial a sua magia, o filme é ainda um hino à vida e à amizade.



Quando o realizador Salvatore (Jaques Perrin) recebe em Roma a notícia da morte de Alfredo (Philippe Noiret), o velho projeccionista que o ensinou a amar o cinema, vai recordar a sua infância numa pequena cidade da Sicília. Vivida numa época do pós-guerra marcada pela fome e pela pobreza, era o cinema quem transmitia a ilusão da vida aos locais. Poético e nostálgico porque segue as memórias mais profundas de alguém, pelo filme e através da tela do velho e depois renovado Cinema Paraíso passam vultos do cinema de sempre como Renoir, John Wayne, Chaplin e, entre muitas outras, obras como “O Médico e o Monstro” (1941), de Victor Fleming, e “A Terra Treme”(1948), de Luchino Visconti. Também as questões políticas, sociais e o impacto da guerra no povo italiano não são esquecidos pela afectuosa realização de Tornatore.



Uma cena absolutamente inolvidável depara-se ao espectador já próximo do final da fita. É quando Salvatore, numa sala de projecção em Roma e chegado recentemente do funeral do seu grande amigo de infância, observa emocionado o que Alfredo lhe prometera dar muitos anos antes: as cenas que cortara da película original dos filmes obrigado pela censura de então. Nessa sequência forte emocionalmente, arrasadora, brilhante, encontram-se alguns dos mais famosos beijos do cinema. E se “Cinema Paraíso” não é o melhor filme do mundo é certamente um dos mais belos e tocantes de sempre. Obrigatório, indispensável, fundamental.





[nota: este texto escrevi-o em tempos para a extinta revista Primeiras Imagens]

Reservation Road - Traídos Pelo Destino





Fragilidades do ser humano



Que acontece quando descobrimos que alguém que, aos nossos olhos, cometeu o mais horrendo dos crimes é afinal um ser humano tal como nós, devastado pelo sofrimento, psicologicamente arrasado pela culpa? Continuaremos a querer consumar a nossa vingança desacreditando na justiça das instituições ou deixaremos simplesmente que o sistema funcione por si e actue de acordo com as regras? Estas são perguntas que ficam no ar após o visionamento de «Reservation Road – Traídos Pelo Destino» e que poderiam muito bem servir de premissa para o thriller realizado por Terry George («Hotel Rwanda», 2004) a partir do livro de John Burnham Schwartz, de 1998, considerado pelo New York Times como um dos mais notáveis romances publicados naquele ano.



Um pai orgulhoso do pequeno filho não só vê este ser atropelado mortalmente como observa impotente a fuga do condutor assassino. Outro pai, o alegado assassino, vive os resquícios de um divórcio difícil e procura reconquistar o amor do filho. Enquanto um, o primeiro, tem até ao dia fatídico uma vivência descontraída e quase idílica num casamento perfeito com dois filhos fantásticos, o outro, o segundo, é um homem em conflito consigo mesmo, vítima das más decisões tomadas na sua vida até então. A partir do horroroso acidente, Ethan (Joaquin Phoenix) não conseguirá ultrapassar a dor da perda passando os dias obcecado com a busca de vingança e Dwight (Mark Ruffalo) afunda-se nos remorsos e procura encontrar em si a coragem para finalmente encarar de frente e assumir as responsabilidades pelos seus actos. A espiral de tensão aumenta até à inevitável colisão entre os dois homens.



Por vezes a linha que separa o cinema do telefilme é bastante ténue. E quando deparamos na sala escura do cinema com um filme de semelhantes características, ou somos emocionalmente tocados por ele ou torna-se muito fácil fazer com que este se torne num objecto fílmico de algum desdém. No entanto, nesta obra que trabalha o desmoronamento familiar, a relação filial de pai e filho sob duas perspectivas diferentes, a (des)confiança no sistema judicial e, por último, a transformação de um aparente demónio em mero e frágil ser humano, a sobriedade da narrativa acaba por colocar sobre os ombros dos actores todo o ónus de sucesso ou falência de um projecto à partida muito mais ambicioso. E quer Joaquin Phoenix, já hoje um dos grandes do cinema norte-americano, quer Mark Ruffalo, sobretudo este sendo que é um dos actores da actualidade que melhor expressa as debilidades psicológicas e de carácter do ser humano, atribuem ao filme uma expressão cinematográfica que só por si a realização não atingiria. Destaque ainda para o efeito de catarse que o final do filme proporciona depois de momentos em que o difícil é conseguirmos não nos emocionar com a aterradora visão de algo que queremos bem longe de nós mas sabemos poder estar tão perto. E nessa identificação, nessa dimensão de pânico para onde nos transporta o thriller assinado por Terry George, reside o cinema numa das suas facetas mais importantes: pese o lugar-comum, confrontar-nos com a vida tal como ela é.



«Reservation Road – Traídos Pelo Destino», de Terry George, com Joaquin Phoenix, Mark Ruffalo, Jenniffer Connely e Mira Sorvino

Bem-vindo ao Turno da Noite




Um artista à solta no Supermercado



«Bem-vindo ao Turno da Noite» (2006) deriva da curta-metragem de sucesso «Cashback». O título original do filme manteve-se, a realização e o argumento continuam a pertencer a Sean Ellis e os dois intérpretes principais foram preservados, Sean Biggerstaff e Emília Fox. A curta-metragem, datada de 2004, foi nomeada para o Oscar, embora não tenha vencido o prémio, e, aí sim, entre outros galardões em festivais mais ou menos mediáticos venceu o Prémio do Público do… FIKE – Festival Internacional de Curtas-metragens de Évora.



Antes de mais, ensaiemos uma ligeira introspecção. Há diferentes tipos de realizadores e realizações mas quedemo-nos apenas em dois: os realizadores que esquecidos de si visam unicamente erigir uma obra com base na história e na melhor forma de a fazerem chegar ao público, que eu designo de altruístas, e aqueles que buscam alguma atenção para si mesmos através da forma como constroem o seu filme. Sean Ellis está claramente neste segundo segmento de cineastas. Pelo menos a avaliar por este «Bem-vindo ao Turno da Noite», o que até se poderá justificar em determinada perspectiva dado ser um novato na realização. Posto isto, cabe a cada um de nós, através da individualidade que nos caracteriza, perceber se somos mais ou menos tocados por esta concepção cinematográfica tão legítima quanto a outra.



Ben Willis é um jovem estudante de Belas Artes a viver uma ruptura amorosa. A sofrer de insónia a partir de então, resolve inscrever-se para um emprego no turno da noite de um supermercado. A ideia é aproveitar melhor as oito horas que deveriam ser de sono e, ao mesmo tempo, melhorar a sua decrépita situação financeira. Envolvido desde o momento em que passa a trabalhar no estabelecimento num mundo de personagens bizarras, Ben vive o seu tempo imaginando-se com a capacidade suprema de… o fazer parar. Ao tempo, esclareça-se. Através deste primeiro paradoxo da realização, o espectador confronta-se então com um mundo de beleza que é idealizado por Ben e materializado quase unicamente na formosura feminina. Ao mesmo tempo, cresce no nosso herói um interesse superlativo por Sharon, a serena miúda da caixa registadora.



O que se observa no trabalho da realização reside quase exclusivamente na consistência gráfica que o filme claramente consegue, refira-se em abono da verdade. Isto, através de jogos artísticos de imagens em slow motion que dão lugar a perguntas quase metafísicas, feitas em off, mas a que o argumento responde de modo displicente e banal. Por outro lado, a sensibilidade e introspecção de Ben Willis dificilmente se conjugariam com o humor extravagante de um jogo de futebol a fazer lembrar o génio fílmico de Guy Ritchie. Outra das lacunas do filme prende-se, na minha perspectiva, com a incapacidade deste em transmitir emoção porque vive demasiado preso ao grafismo de esquemas concepcionais muito cerebrais.



Perante o exposto, felizes os contemplados com a graça deste «Cashback» versão longa. Como a fascinante visão dos corpos desnudados de lindas mulheres não chega para fazer bom cinema, não foi o meu caso. Para mal dos meus pecados, é claro.




Bem-vindo ao Turno da Noite (2006), de Sean Ellis, com Sean Biggerstaff, Emília Fox e Michelle Ryan

Anthony Perkins, 1932 - 1992



 [Anthony Perkins]



Anthony Perkins corporizou inúmeras personagens no cinema, mas o seu nome confundir-se-á para sempre com o do atormentado Norman Bates, no filme “Psycho”, de Alfred Hitchcock.
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Nascido em NY, a sua infância ficaria marcada pela morte do pai, o também actor Osgood Perkins, quando tinha somente 5 anos de idade. Antes de rumar a Hollywood e se iniciar no cinema, em 1953, pela mão de George Cukor no filme “The Actress”, Perkins estudou no Rollins College. Voltaria depois à sua cidade natal onde se afirmaria como um talentoso actor da Broadway para, em 1956, de regresso a Hollywood, filmar sob as ordens de William Wyler o ‘western’ “Friendly Persuasion” que lhe valeria a sua única nomeação para um Oscar. Depois de contracenar com actrizes e actores como Ava Gardner, Audrey Hepburn e Gregory Peck, e trabalhar com realizadores da nomeada de Stanley Kramer e Anthony Mann, a sua hora chegaria em 1960, quando Hitchcock o achou perfeito para o papel de Norman Bates, em “Psycho”, o clássico do cinema de terror psicológico. Seria o papel da sua vida e, pese embora o seu meritório esforço em futuros trabalhos, Perkins jamais lograria libertar-se do estigma de Norman Bates.



Na verdade, ao longo da sua vasta carreira também repartida pela TV e pelo teatro, o actor teria o ensejo de trabalhar com os melhores realizadores de então. Para além dos já citados, refira-se os nomes de John Huston, Minnelli, Chabrol, Elia Kazan, Welles e Lumet. Destaque, aliás, para a sua excelente interpretação de Joseph K., na obra “O Processo”, dirigida por Orson Welles e baseada no clássico literário da autoria de Franz Kafka. Em 1983, dirigido por Richard Franklin, voltaria a vestir a pele de Bates numa sequela de “Psycho”. Repetiria a experiência em 1986, em “Psycho III”, fita em que se sentaria igualmente na cadeira da realização. Realizaria ainda uma outra obra menor, “Lucky Stiff” (1988), quando anos antes, como que a provar a sua polivalência, co-escrevera o argumento do interessante “The Last of Sheila” (1973).



Parecendo ter vivido sempre numa inquietação paralela à da personagem que o catapultaria para a fama, o actor casaria em 1973 com a fotógrafa de moda Berry Berenson, de quem teve dois filhos – Oz e Elvis, mas nunca se livraria de rumores sobre uma alegada homossexualidade. Morreu em 1992, soçobrando a problemas respiratórios derivados de uma pneumonia. Curiosamente, a sua viúva faleceria um dia antes de se completarem 9 anos sobre a sua morte, vítima dos atentados ao WTC de Nova Iorque.

A Estranha em Mim


 
[DVD]


Jodie Foster é «A Estranha em Mim», um filme absolutamente fora de tempo na sua temática – ou talvez não – do irlandês Neil Jordan, homem que já nos agraciou com o seu cinema em «O Fim da Aventura» (1999) e «Michael Collins (1996), isto só para citar dois (bons) exemplos. Desadequado do seu tempo porque simplista numa dramatização que o cinema abandonou há muito, a do justiceiro urbano.



A história conta-se em breves traços: Erica Bain (Foster) é uma locutora que busca transmitir aos nova-iorquinos os sons da sua cidade, é alguém que lhes sussurra a coabitação presente nas ruas, nos parques, nos bares, nas casas de cada um. Resumindo, é uma figura da rádio que lhes aquece a alma através da sublimação da intimidade da grande cidade de Nova Iorque. Erica está noiva, prestes a casar, quando um bando de marginais a deixa em estado quase vegetativo e lhe assassina o namorado. A partir da sua recuperação física, a jovem locutora, mulher moderna e bem formada, vai procurar sobreviver psicologicamente através das execuções que perpetra em assassinos, violadores e outros que tais. Pelo meio, há um detective de nome Mercer (Terrence Howard) de coração mole a viver um momento menos bom na sua vida profissional e afectiva que reúne todas as condições para compreender os actos criminosos da atípica justiceira.



Não sendo um filme menor em todos as suas características, «The Brave One», no seu título original, comete a indesejada proeza de chegar apenas a quem não quer (os amantes da acção pura e dura) e não atingir o seu propósito (criar polémica através da ambiguidade da sua mensagem). Não ajuda igualmente à realização o rosto de forçado sofrimento a que invariavelmente obriga a sua personagem principal e a metódica escolha de raças e credos na concretização dos alvos de Erica Bain. Por outro lado, a complexidade que se busca ao recorrer aos momentos de idílio amoroso presentes na amargurada memória da mulher em contraste com a violência que vai percorrendo no caminho para impor uma justiça acima da lei, está muito mais adequada à BD que propriamente a um cinema actual e de sofisticada intelectualidade. Que, em pézinhos de lã, procurou alcançar. Contas feitas, constatamos estar na presença de pouco mais que um mediano objecto de entretenimento para ver e arrumar num dos cantos de mais difícil acesso no nosso baú do esquecimento.







«The Brave One», de Neil Jordan, com Jodie Foster e Terrence Howard

Promessas Perigosas





[DVD]



David Cronenberg já nos fizera prova de toda a sua genialidade numa cinematografia até então fora dos circuitos normais de cinema, longe do chamado cinema ‘mainstream’. Ainda assim, filmes todos eles fabulosos e a ver e rever como «A Mosca» (1986), «M. Butterfly» (1993), «Crash» (1996), «eXistenZ» (1999), «Spider» (2002) e o seu anterior «Uma História de Violência» (2005) tinham tido uma reacção muito positiva por parte do público em geral e não apenas dos conhecedores da sua obra inspiradora, embriagante. Em «Promessas Perigosas» (2007) o cineasta canadense atinge o auge das suas capacidades como realizador… regular. O filme é de uma perfeição absoluta e as personagens extraordinariamente bem defendidas por um lote de actores impressionante acabam por se revelar a génese de um mundo que (sobre)vive ao nosso lado mas do qual raramente nos damos conta. E ainda bem que assim é.



O argumento detém-se numa Londres estranha, nada perceptível a olho nu, num mundo subterrâneo orquestrado pela Máfia originária dos países de Leste. Nikolai Luzhin (Viggo Mortensen) é o motorista de Semyon (o alemão Armin Mueller-Stahl) líder da seita e dono do faustoso restaurante Trans-Siberian que lhe serve de capa para as suas actividades perversas. Kiril (o francês Vincent Cassel) é filho de Seymon e amigo inseparável de Nikolai. Para baralhar as contas e trazer uma dimensão nova de busca e perturbação ao filme surge Anna (esplêndida e bela Naomi Watts), uma enfermeira de maternidade em busca da paternidade de um bebé cuja mãe, obrigada a prostituir-se pelos mafiosos, morre durante o parto.



Viggo Mortensen é soberbo na sua personagem esfíngica, atormentada, dividida entre o dever e a moral, atacada por demónios que lhe tornam o olhar turvo, mortiço, sem sombra de felicidade. Se o actor ganhou uma áurea de encantamento com a personagem Aragorn (saga de «O Senhor dos Anéis»), de competência em «Uma História de Violência», neste filme coloca-se ao nível dos grandes actores de que Hollywood se serve para continuar a senda do sonho que desde o velho continente os irmãos Lumière lhe proporcionaram e o seu cinema tão bem soube encarnar. Excelentemente secundado por um Vincent Cassel louco, enérgico e imprevisível e pela cândida doçura de uma Naomi Watts determinada e sem ponta de receio no desafio que se impôs a si própria, Viggo Mortensen é apenas porção fundamental de uma poesia aflitiva mas pungente de um poeta – Cronenberg – cujo talento reside na capacidade de perceber a alma humana como poucos e de a transportar para universos percorridos no fio da navalha mas universos encantatórios na sua obscuridade e plenos de irresistível sedução. Extraordinário filme a não perder e a reservar algures num canto especial das obras cinematográficas sem mácula, verdadeiramente estimulantes.





«Eastern Promises», de David Cronenberg, com Viggo Mortensen, Naomi Watts, Vincent Cassel e Armin Mueller-Stahl

Uma Segunda Juventude





Francis Ford Coppola pertence a uma linhagem de cineastas que só por si levam o espectador à sala de cinema. Responsável pela trilogia de «O Padrinho» e por esse grande filme de guerra que é «Apocalipse Now», entre outros, Coppola merece um crédito que este «Uma Segunda Juventude» não deita por terra mas bem tenta fazer por isso. Na verdade, o filme protagonizado por Tim Roth (actor competente mas por quem, vá-se lá perceber porquê, confesso nunca ter sentido grande apreço) e adaptado do livro escrito pelo filósofo Mircea Eliade, é uma tentativa rotundamente falhada do realizador americano se elevar a um patamar de excelência que não só foge à sua essência criativa como do qual não necessitava minimamente.



A história é transversal à vida do professor de linguística Dominic Matei (Roth) a partir do momento em que este é vítima da queda de um raio. Ironicamente, quando se preparava para pôr termo à vida através do suicídio o destino faz com que rejuvenesça até aos cerca de 40 anos. Ele que já passara dos 70. Tendo levado uma existência inteiramente dedicada à consumação da sua obra sobre as origens da linguagem humana, a Matei não sobrou tempo para viver e muito menos para o amor. Com a queda do raio e após recuperação num hospital, é-lhe então surpreendentemente concedida uma 2ª oportunidade com evidentes progressos sensoriais e cognitivos. Quando sucedem os factos, está-se em 1938 e a Europa vive o flagelo da guerra. Um cientista nazi, que desenvolvia uma teoria similar ao sucedido com o professor de linguística, obriga a que este se refugie no exílio. Enquanto isso, reencontra o grande amor da sua vida, Laura, na figura de Verónica (Alexandra Maria Lara). E também no amor, aparentemente, vê reacender-se a esperança de se redimir do fracasso da juventude.



Envolto numa opção conceptual bastante discutível, até porque a forma acaba por comprometer o conteúdo (a mensagem), o filme incorre em elementos místicos e paranormais interligados com a realidade que se tornam de difícil percepção para o espectador. Por outro lado, numa tentativa de erudição da realização a pretender fazer arte onde se pedia apenas que se fizesse cinema, a trama procura teorizar sobre a reencarnação e a cultura oriental como se estivéssemos num debate televisivo com a participação de 3 ou 4 cientistas muito capazes no seu trabalho mas tremendamente entediantes para quem os ouvisse e visse. E neste aspecto particular da busca do ensaio filosófico, Coppola age de um modo tão sensível como um elefante a passear-se numa loja de porcelanas. Grave, no entanto, é verificar que numa obra onde à partida se sugere a fantasia, o sonho, da vida numa nova vida ou da recuperação da juventude na mesma vida nunca esse desiderato é conseguido junto de quem assiste ao filme. Resumindo, o velho Francis Ford Coppola não demonstra uma segunda juventude nesta sua realização e, o que é mais preocupante, deixa mesmo no ar muitas reticências quanto ao seu trabalho agora que já não é nenhum jovem.



Cuidado, este filme deprime. Sem que seja sua intenção.





Youth Without Youth, de Francis Ford Coppola, com Tim Roth, Alexandra Maria Lara e Bruno Ganz




Ponto de Mira





Permita-se-me a liberdade da analogia, mas há cinema que funciona um pouco como um dia alguém caracterizou a denominada música pimba: tão depressa entra como sai do ouvido. «Ponto de Mira» tem precisamente atributos paralelos. É que depois de terminar a película e no ecrã surgem os créditos finais já ninguém se recorda ou sequer se importa com o que acabou de assistir. E cinema assim é, no mínimo, dispensável.



Se observarmos que pelo filme passam nomes grandes do cinema norte-americano como Sigourney Weaver (completamente desajustada no seu papel de realizadora de uma cadeia de televisão), Dennis Quaid (a fazer das tripas coração para tornar crível uma personagem tão gasta como a calçada da Praça Mayor em Salamanca onde, supostamente, a trama se desenvolve), Forest Whitaker (que se limita a alguns esgares de representação) e William Hurt (este sim, um actor que não sabe fazer mal) chegamos à conclusão que o povo tem razão quando diz que a albarda não faz o burro.



Sobre a narrativa basta dizer que vem na continuidade da paranóia dos americanos desde o 11 de Setembro explorando a ideia que o mundo está contra o seu povo e os seus representantes são o alvo permanente do terrorismo à escala global. A partir do pretenso assassinato do Presidente Americano ao iniciar um discurso a favor da paz (na espanhola Salamanca, imagine-se!), a realização de Pete Travis, um novato nestas andanças, e um pouco ao estilo do mestre japonês Akira Kurosawa, apresenta o sucedido através do olhar de variadas personagens quer com participação activa nos actos ou meras testemunhas do atentado. Pelo meio há uma perseguição automóvel tão vertiginosa como inverosímil mas que tem o condão de libertar o espectador de um tédio que ameaçava tornar-se em inevitável sonolência.



«Vantage Point» não passa, afinal, de um mero e sofrível objecto de puro entretenimento que não deveria ter saído das fronteiras norte-americanas. Isto porque jamais consegue que a ameaça terrorista se manifeste real e assustadora, as personagens não passam de meros estereótipos de inúmeros filmes do género e é tudo tão irreal que até a cidade de Salamanca foi filmada através dos cenários criados algures no México. Estamos então conversados sobre a quem deve interessar mais um sucesso virtual das forças norte-americanas contra o flagelo do terrorismo. E quando ele deixar de existir é simples, inventa-se.



Vantage Point, de Pete Travis, com Dennis Quaid, William Hurt, Forest Whitaker e Sigourney Weaver




Corações




«Corações», do francês Alain Resnais, é a mais recente proposta do pujante cinema francês em exibição nas salas portuguesas. Adaptado da peça de teatro «Private Fears in Public Places», «Coeurs», no seu título original, obedece a uma lógica de crítica mordaz à sociedade actual. Sobretudo nos meios urbanos, em que cada um vai dissimulando a sua própria solidão com máscaras de personagens que não têm coragem de assumir em público. Neste particular, o filme de Resnais é profundamente caricatural e em termos formais a transição de cenas vai-se dando sob a capa de uma interminável tempestade de neve o que faz lembrar um pouco as origens do argumento. A gélida tempestade de neve, sempre presente até ao final da película, não é mais que um simbolismo ligado ao frio com que batem os diversos corações das personagens em acção.



A narrativa parte da busca de uma casa maior para o casal Dan e Nicole. O par vive uma crise conjugal da qual se mostrará incapaz de sair. Dan é um antigo militar que passa os dias mergulhado no álcool e nas sestas que faz pela tarde fora o que se revela insuportável para Nicole. Arthur é o agente imobiliário de serviço a ambos. Ele que nutre uma secreta paixão pela muito religiosa e puritana Charlotte, sua colega de trabalho. Charlotte que, no final do dia, ainda cuida de Arthur, um velho acamado e louco varrido que é pai de Lionel, justamente o barman do bar do hotel onde Dan passa os dias a emborcar copos. Pelo meio ainda surge Gaëlle, irmã de Arthur, que busca fugir da solidão através de encontros promovidos em jornais e na Internet. Como cereja em cima do bolo, umas estranhas cassetes vídeo supostamente gravadas de programas religiosos acabam por se tornar no sumo dos dias para Arthur.



Nesta incursão cinematográfica por ambientes mais ligados ao teatro, pode dizer-se que a visão de Resnais sobre a solidão das gentes na grande cidade (de Paris) é invariavelmente melancólica e mesmo quando os diálogos se declaram hilariantes partem sempre de um sentimento de desgraça ou menos positivo relativamente à acção das personagens. O refúgio no álcool, na pornografia ou mesmo a aventura de esperar sentada num bar por quem não se sabe rigorosamente nada para além daquilo que está descrito num anúncio de “alguém que procura alguém”, são para a realização a única forma de redenção de almas solitárias sem amor e muito menos esperança de o vir a alcançar. E quando o tentam fazem-no de forma tosca, atabalhoada. Mesmo quando Gaëlle e Dan parecem no bom caminho para o conseguir, rapidamente Resnais lhes retira o tapete da felicidade.



Em suma, estamos na presença de um cinema reflexivo, crítico, mas deveras negativista que surge de França ao estilo das depressões do clima que normalmente nos chegam do norte da Europa. No fundo, é como se Resnais quisesse curar uma bebedeira com outra bebedeira pelo que o tom nada tem de motivador para o espectador que hipoteticamente possa passar pela circunstância de viver na situação descrita de alguma solidão. Apesar disso, no final do filme é possível que esse mesmo espectador sinta uma sensação estranha de bem-estar psicológico. Talvez porque depois de um exigente exercício – mental, neste caso – é bom descansar um pouco e poder avaliar a bondade do esforço feito. Isto pese algum sacrifício passado para o concluir.





Coeurs, de Alain Resnais, com Sabine Azéma, Lambert Wilson, André Dussollier, Pierre Arditi, Laura Morante, Isabelle Carré e Claude Rich





O Cinema na Abordagem aos Homens e Mulheres Portadores de Algum Tipo de Deficiência





Ao reflectir um pouco sobre a questão, chego à conclusão que o cinema abandonou ligeiramente as histórias sobre pessoas com deficiências físicas ou mentais em busca do seu lugar na sociedade. Talvez porque hoje por hoje haja também por parte do cinema um esforço de integração dessas pessoas na referida sociedade evitando tratá-las de forma diferente, ou, então, por questões ligadas ao próprio cinema como o será o facto do chamado overacting estar um pouco fora de moda. E filmes do género são propensos a uma abordagem algo excessiva por parte dos actores.



De tal modo assim é que, puxando pela memória, quase tem que se retroceder até Encontro de Irmãos (com Tom Cruise e Dustin Hoffman) ou mesmo Forrest Gump (Tom Hanks) para encontrarmos cinema centrado nessa temática. O também conhecido I Am Sam – A Força do Amor (Sean Penn) é mesmo um dos exemplos mais recentes que se consegue encontrar.



Ainda assim, A. I. – Inteligência Artificial (de Spielberg) é um filme futurista que se pode enquadrar no género. Nele temos um menino, que é afinal um robô, em busca de se tornar igual aos outros meninos, em busca do amor de mãe. Tal como Pinóquio buscava o amor de pai. Em Spider (de Cronenberg) temos alguém acabado de sair de um hospital psiquiátrico atormentado por uma infância dramática. Mas talvez este seja um filme demasiado complexo para um público ainda bastante jovem. Já Vida Interrompida (com Angelina Jolie e Winnona Ryder) parece retratar uma história interessante e motivadora para o público em causa. O argumento desenvolve-se numa instituição psiquiátrica um pouco ao jeito do clássico Voando Sobre um Ninho de Cucos (Jack Nicholson) mas actualizado nos cenários e adaptado a um universo feminino.



A Estação (ninguém conhecido) é cinema alternativo que conta a vida de um anão a querer fazer vingar a tese de que os homens não se medem aos palmos e Uma Mente Brilhante (com Russel Crowe) é popular e bastante pertinente até porque foi baseado numa história de vida verídica. Há ainda um filme comovente, O Grande Peixe (do genial Tim Burton), que nos narra a odisseia de um homem considerado louco mas talvez mentalmente bem mais são que os designados de saudáveis. Em À Espera de Um Milagre (com Tom Hanks e do Frank Darabont) um negro grande fisicamente mas com mente de criança mostra quão tortuosos podem ser os caminhos da justiça e que há razões que a própria razão se recusa a explicar. E, depois, temos ainda o colorido Nemo, aquele peixinho famoso que tinha uma barbatana deficiente mas que teimou em mostrar ao pai a sua auto-suficiência.



Relembre-se ainda o filme da vida de muito boa gente, Eduardo Mãos de Tesoura (saído igualmente da genialidade de Tim Burton), o muito bom O Meu Pé Esquerdo (com o excelente Daniel Day-Lewis) na história de um tetraplégico a comunicar com o pé, Filhos de um Deus Menor (com William Hurt) no registo surdo-mudo de uma mulher apaixonada e, por último, Kids (de Larry Clarke) que relata a inconsciência louca de uma juventude irreverente e suicida.

A Crítica e o Confronto de Ideias



Tempo houve em que era meu costume aconselhar os filmes de que gostava a todos os meus amigos e conhecidos. Mas com o ganho de maturidade, vamos percebendo que os diferentes percursos de vida, as experiências distintas, questões sociais, morais, ideológicas e a própria formação pedagógica de cada um e outros pormenores de carácter definidores da individualidade são quem determina o gozo que se tem a ver um determinado filme. Isto pese continuar a existir bom e mau cinema, independentemente do que se afirma atrás, e filmes há em que a dissonância de opiniões é grande e da polémica que se gera não se possa afirmar que este ou aquele é dono da razão. Tem tudo a ver, para além do já afirmado, com opções por diferentes tipos de propostas de cinema. Uns, opções de estética e conteúdo mais radicais, outros, por ventura mais consensuais, de sensibilidade mais abrangente.



Daí que continue a fazer sempre esta pergunta: por que é que ainda há tanta gente a ficar ofendida porque A disse mal do filme que B adorou?

Acredito que a troca de argumentos ou, dito de outra forma, o debate de opiniões, é sempre positiva. E muitas vezes, algumas delas até de modo muito improvável, somos confrontados com uma visão oposta que nos leva a questionar os fundamentos que nos levaram a formar a nossa própria opinião. A crítica, seja ela de livros, de pintura, de cinema, etc., é sempre positiva. Desde que realizada de forma honesta e bem fundamentada. E há que não esquecer que o alvo da crítica é sempre o objecto artístico e não o leitor. Quer isto dizer que quem opina pretende ser justo com o filme, no caso do cinema, e não, nem poderia, (somente) agradar a quem o lê.

The Mist - O Nevoeiro



Confesso, à partida, que acredito que a classificação do filme na categoria de terror é demasiado simplista para orientar o espectador em relação àquilo que vai observar na sala escura do cinema. «The Mist – O Nevoeiro», com realização de Frank Darabont, é um filme de terror, é certo, mas sobretudo é um filme de choque emocional e de ensaio sobre o perigo das populações em pânico e das suas descontroladas reacções sob o efeito da comoção. Para além disso, Darabont questiona o fanatismo religioso e, através de uma impressionante Marcia Gay Harden, vai mesmo mais longe ao colocar a nu o aproveitamento que certos pregadores da fé religiosa fazem do ser humano em dificuldades, em situação de debilidade física mas sobretudo psicológica. Este é um dos mais importantes elementos racionais do filme que o leva, posteriormente, a um final absolutamente arrasador para os mais influenciáveis. Um final onde Darabont acaba por questionar igualmente a própria fé humana. Mas aquela fé que deve ser apanágio do ser humano, extra qualquer factor ligado às religiões. Quem for ver o filme vá preparado, pois é com um final de história no mínimo chocante que se irá deparar.



Lembre-se que Darabont detém na sua filmografia como realizador um título fabuloso, um dos melhores filmes da década de 90: «Os Condenados de Shawshank»(1994), que a par deste «The Mist» e do também excelente «The Green Mile»(1999) resultam da adaptação de obras de Stephen King. Talvez nem sequer venha ao caso, mas o cineasta nasceu num campo de refugiados francês filho de pais húngaros em fuga da crise política (tentativa de revolução) no seu país. Daí, talvez, as alfinetadas que não se coíbe de dar nas instituições militares normalmente dependentes do poder político.



Em referência à narrativa de «The Mist – O Nevoeiro», ela gira à volta de uma pequena cidade no interior dos EUA. Um sítio bem perto do local onde foi edificada uma base militar sobre a qual circulam boatos estranhos nas ruas sobre a verdadeira actividade dos soldados na área. Após uma tempestade catastrófica que causa uma série de incidentes com quedas de árvores, casas destruídas e uma avaria grave no sistema de distribuição de electricidade, um estranho nevoeiro começa a abater-se sobre a povoação. Esse nevoeiro vem precisamente do lado das montanhas onde se situa a base militar e, no seu interior, começam a surgir criaturas horrendas, variações deformadas de algumas espécies animais que já hoje coabitam no planeta connosco, os ditos civilizados, os humanos. Fechados num supermercado, David Crayton (Thomas Jane) e o seu pequeno filho Billy (Nathan Gamble) vão tentar a sobrevivência contra os estranhos seres, claro, mas sobretudo contra aquilo que caracteriza o pior que a espécie humana carrega na sua essência. Característica essa que em situações de aflição acaba por inevitavelmente se soltar do indivíduo transformando-se num horrível fenómeno colectivo. Enquanto isto, e à causa também disto, vamos assistindo a muitas mortes. Umas a tiro de pistola, outras por suicídio, algumas outras devido a queimaduras e outras ainda por mais umas tantas razões que em condições normais só a certidão de óbito identificaria. Mas, será lá mais para o fim da película que surge o momento alto do filme: o já falado final. E quando o filme termina e surge o genérico no ecrã, fica a necessidade de continuarmos mais um pouco sentados na sala. A reflectir e a sentir. A sentir uma tristeza profunda mesclada por alguma sensação de revolta. É que nem sempre, quer na vida real quer no cinema, há lugar para finais felizes.



«The Mist – O Nevoeiro», de Frank Darabont, com Thomas Jane e Marcia Gay Harden

Seda





Não há muito que dizer acerca de «Seda», do canadense François Girard. O filme resulta de uma adaptação do ‘best-seller’ escrito pelo italiano Alessandro Baricco e na produção esteve reunida uma autêntica sociedade das nações formada por Canadá, França, Inglaterra, Japão e Itália. À causa de quê, pergunta-se, já que a expressão mais apropriada à visão das quase duas horas de película provém da gíria e designa-se de xaropada.



Depois, dizer apenas que há uma tentativa tão exacerbada de atingir a mais emotiva intimidade do espectador através do triunfo da estética que o resultado virou numa redundância concepcional tão aborrecida que apenas colheu do pobre um enorme bocejo defronte da tela. Não esquecer também a tentada viagem introspectiva do protagonista que nos é evidenciada pelo rosto sofrido e olhar embaciado de um Michael Pitt sem um mínimo de estrutura dramática para arcar com tamanha responsabilidade. Restam-nos os belíssimos rostos femininos das duas actrizes japonesas de serviço, em contraste com uma Keira Knightley irreconhecível a deambular pela tela qual aparição fantasmagórica, e um Alfred Molina invariavelmente competente. Mas não chega. De todo.



Neste poço de sensibilidade onde todos se afogam, incluindo o espectador num sono profundo, destaque-se ainda o gravíssimo erro de uma concepção cinematográfica que confunde aparência com essência. Uma lástima.





Seda, de François Girard, com Michael Pitt, Keira Knightley e Alfred Molina

Michael Clayton, Uma Questão de Consciência



Que acontece quando somos confrontados com o dilema da obrigatoriedade de cumprirmos com os nossos deveres profissionais e a dívida de lealdade para com um amigo que, ainda para mais, descobrimos ser detentor de uma verdade cruel que tem que ser contada ao mundo? Em primeira análise apelamos, creio eu, à nossa consciência. E ou a temos ou não, que é como quem diz ou agimos em nome do bem ou do mal. Não será tanto assim já que através da amostragem dos telhados de vidro de cada um o filme não procura mostrar heróis e vilões. E tem o mérito de não cair no erro de evidenciar a vida a preto e branco. Mas «Michael Clayton – Uma Questão de Consciência», a primeira incursão na realização por parte do brilhante argumentista Tony Gilroy, gira em torno desse vértice de legitimidade entre a moral e a própria legalidade dos (f)actos.



Esclareça-se no entanto que pese a trama se basear na relação de um poderoso escritório de advogados e um seu cliente que a ele recorre por se recusar a assumir a culpa que é sua na morte de quase meio milhar de pequenos agricultores, esta não se resume a uma história de advogados e seus dilemas tal como, por exemplo, é o conhecido filme dirigido pelo aqui actor Sydney Pollack, «A Firma». Não, este é um filme sobre o ser humano, sobre a consciência social e moral de cada um dos intervenientes na trama e as opressões que a mente sofre até que chega ao ponto de ruptura em que o único factor de redenção será a recuperação da liberdade individual até então tolhida pela profissão que se exerce. Quem, esporádica ou mais frequentemente, não a desejou já para si? A tal liberdade, a fuga para aquilo que nos parece algemar e regularizar apartando-nos do nosso eu?



Michael Clayton (um muito seguro George Clooney) é licenciado em Direito, mas na firma que representa como Consultor Especial ele é o homem certo no lugar certo sempre que se trata de resolver os problemas mais graves através da manipulação da lei e tudo feito de uma forma rápida e limpa. Pago a peso de ouro, o seu mundo - que já se encontra em desmoronamento à causa de problemas familiares - quase se despenha por completo quando o amigo, colega e prestigiado advogado Arthur Edens (Tom Wilkinson) morre em circunstâncias pouco claras. Michael começa então a compreender a gravidade dos contornos de um caso em que os ricos, os poderosos, mais uma vez se apoiam nos subterfúgios da lei para se eximirem de responsabilidades. E fazem-no porque podem pagar essa isenção de culpa. A partir deste momento, a narrativa embrenha-se na complexidade psicológica de cada uma das personagens em que não são esquecidas as motivações e constrangimentos que as condicionam.



Reclame-se a não exemplar originalidade da fita, mas reconheça-se a competência com que o filme é conduzido. Sobretudo ao nível das interpretações onde Tom Wilkinson (um perturbado advogado que só atinge a lucidez quando não se encontra medicado) e Tilda Swinton (uma dura e implacável Directora Jurídica que corta a torto indo mais longe que o simples esquecimento do direito e dos direitos do seu semelhante) demonstram toda a sua capacidade dramática logo seguidos de duas muito boas interpretações de George Clooney e Sydney Pollack. No fim, um prémio da realização para George Clooney e seus admiradores. Um close-up do actor à deriva pela cidade a bordo de um Táxi com 50 dólares de quilómetros para percorrer.



Em resumo, estamos na presença de cinema sério a merecer nota muito positiva.





Michael Clayton – Uma Questão de Consciência, de Tony Gilroy, com George Clooney, Tilda Swinton, Tom Wilkinson e Sydney Pollack

Relembrando o Calor da Discussão – Dogville

O Polémico Realizador Dinamarquês Lars von Trier

No meu regresso à cidade, olho o Cartaz de Cinema e constato que «Dogville» (2003), filme tido, por muitos, como obra maior na filmografia do cineasta dinamarquês Lars von Trier, se encontra em cena num Ciclo Especial de Cinema a decorrer algures no nosso país. O acaso leva-me a recordar como foi atacada, na altura, a minha clara rejeição do cinema que se observa em “Dogville”. Quer através de desagradáveis e-mails que recebi, quer em fóruns de cinema.



Não há que evitá-lo e acontece amiúde. Determinado filme vira objecto de culto para muitos quando se trata de matéria de repulsa (não, não exagero na expressão) para outros. Isto, pese a separação que deve ser feita entre o virtuosismo técnico de que Lars von Trier neste filme mais uma vez prova ser detentor (o que não nego, nem poderia) e o já recorrente em si (recorrente ou obsessivo?) tema de fundo que caracteriza o filme: a sua visão trágica, diria mesmo azeda, da essência humana. Não contente com isso, o cineasta dinamarquês ambientou essa sua doentia percepção do homem aos EUA numa época difícil para o seu povo (o 11 de Setembro de 2001 ainda estava bem fresco nas nossas memórias). A mim pareceu-me que von Trier não só destapara a ferida como se lançara sobre ela disposto a remexê-la, a causar dor. E isso, confesso, desagradou-me sobremaneira sabendo eu que nessa intenção nada havia de ingénuo.



Mas não foi só. É que curioso foi igualmente perceber que o tão exaltado brilhantismo da sua abordagem formal ao filme, que chegou a ser apelidada de cinema do futuro, assenta numa ‘mise en scène’ que tem tudo a ver com o teatro e quase nada com o cinema. Assim, o espectador é convidado a efectuar uma viagem que cinematograficamente o não leva a parte alguma e de toda a desintegração de valores a que assistimos sobressai apenas um egocêntrico Lars von Trier como figura máxima desse existencialismo negativista.



Apesar de tudo, «Dogville» não é um filme para se odiar. Nicole Kidman – sobretudo ela, Ben Gazzara e companhia acabaram por retirar, com as suas estupendas interpretações, mais esse pequeno prazer ao controverso realizador que viu gorada a sua subjacente provocaçãozinha. Afinal, prova-se que ao contrário do provérbio também há bens que vêm por mal.





[Esclareça-se que nada me move contra o senhor; Ondas de Paixão (1996) do mesmo Lars von Trier, até faz parte do lote dos meus filmes preferidos.]

A Passagem do Tempo – Giovana Mezzogiorno

Giovana Mezzogiorno em «A Janela em Frente», 2003

Depois de ter assistido a «O Amor nos Tempos de Cólera» e ter ficado desolado com a interpretação da actriz italiana Giovana Mezzogiorno, estive a reler algumas críticas minhas a filmes protagonizados pela actriz. E que saudades senti, dadas as diferenças encontradas.



Apenas 5 anos atrás, em 2003, a propósito do flme «A Janela em Frente» reparo como enalteci a beleza tão próxima de nós, nunca distante, da mulher. Para mim, à altura, e explicando melhor as minhas palavras, Giovanna Mezzogiorno apresentava-se na tela grande do cinema como uma mulher de uma beleza perfeitamente natural, nada etérea e quimérica, mas daquelas mulheres com quem deparamos na rua e cujo simples olhar tem o condão de nos melhorar o dia. O mesmo sucedera com «O Último Beijo», filme de 2001.



Em «O Amor nos Tempos de Cólera», Giovana está longe deste retrato sonhado. Fria, distante, seca, sem o encanto capaz de tornar credível o amor daquele homem ou sequer de transportar para o espectador o arrebatamento que faz do cinema essa arte ímpar, deslumbrante. E as culpas, neste caso, não incidem unicamente sobre a direcção de actores ou sobre a caracterização. O olhar, a expressão do rosto, provam-nos que não. Condene-se apenas o trabalho de casting do filme, talvez Giovana Mezzogiorno não tivesse as características necessárias para o papel.
Uma pena.