domingo, 31 de outubro de 2010

Fora de Controlo












Um cidadão exemplar



Oito anos depois, o actor que se celebrizou como Mad Max e posteriormente teve uma carreira plena no cinema desde produtor a realizador, regressa finalmente aos filmes. Neste seu retorno à interpretação, Mel Gibson surge de um modo como se dispensasse qualquer tipo de maquilhagem ao fazer de Tom Craven, um detective da brigada de homicídios que vê morrer a filha num disparo que de início julgou ser direccionado a si. A partir daqui, o detective parte para uma investigação onde parece procurar as mais diversas razões para não prosseguir vivendo. E com o desenrolar das pesquisas que faz, acabará por descobrir aquilo que jamais suspeitava e encontrar o que tão incessantemente procurava.



«Edge of Darkness» é a adaptação de uma mini-série britânica datada de 1985. E apesar do filme cumprir com o objectivo primordial do cinema, o entretenimento do espectador, a verdade é que não lhe acrescenta quase nada e se perde no confronto com as actuais séries televisivas já que não consegue adoptar uma linguagem cinematográfica própria. A começar porque não existe no filme um verdadeiro esquema narrativo. Que quer isto dizer? Significa que as diversas personagens vivem em função do desenvolvimento da trama e nunca se percebe de onde vêm e aquilo que as motiva para além das ocorrências da acção. E isso pesa no final do filme já que o espectador corre o risco de sair da sala com uma forte sensação de que tudo o que viu lhe soube a muito pouco. Se concluirmos ainda que o final do filme se torna óbvio pelas evidências que o antecedem, então estamos conversados quanto a um inexistente interesse superlativo deste «Fora de Controlo».



Ainda assim, há na história que se conta uma aura de tristeza e de contestação aos meios obscuros de que o poder se usa para levar em frente projectos que certamente a opinião pública condenaria caso deles tivesse conhecimento. E esses méritos devem ser reconhecidos. A somar a isto, para além das presenças pujantes de Danny Huston e Ray Winstone, dois secundários de luxo, passeia-se pelo filme um detective possuidor de irrepreensíveis códigos morais e de conduta protagonizado por um Mel Gibson esquecido de si para poder chegar ao coração dos espectadores. Tom Craven (Gibson) não é nenhum herói nem um polícia especialmente brilhante. É apenas um profissional competente e honesto que acredita em princípios basilares num mundo onde cada vez mais só são admitidos os muito maus e os muito bons. Um mundo sem espaço para aquelas pessoas que sobrevivem num espaço intermédio e apenas querem levar uma existência digna no cumprimento dos seus deveres. E de certo modo o filme homenageia estes ilustres anónimos acabando por ser esse o seu maior trunfo.



«Edge of Darkness», de Martin Campbell, com Mel Gibson, Bojana Bokakovic, Danny Huston e Ray Winstone


Lembra-te de Mim










Rebelde sem causa



Em 1991 Ally (Emilie de Ravin), ainda criança, vê a sua mãe ser assassinada numa estação de metro na cidade de Nova Iorque. Dez anos depois Ally, já crescida, irá cruzar-se com um jovem introspectivo, amargurado pelo suicídio do irmão e desolado pela pouca atenção que Charles (Pierce Brosnan ao seu estilo mais formal), o pai, concede à sua pequena irmã, ela que tem problemas de adaptação à escola e aos colegas. Esse jovem é Tyler (Robert Pattinson), ele que já antes tivera um encontro imediato com outro pai, este o de Ally, que é um polícia algo violento e obsessivo protagonizado por Chris Cooper. Tyler tem evidentes tendências depressivas mas não deixando por esse motivo de ser a âncora numa família destroçada pela tragédia. Isto porque também a mãe (uma desaproveitada Lena Olin) parece meio perdida num conflito interior que é transversal a todos naquela família.



A partir destes factos, o filme gira todo ele em torno da desagregação quer da família da bonita Ally ou do dolorido Tyler e da paixão que vai unir os dois jovens. Contra tudo e contra todos, até contra os próprios. O argumento, que foi idealizado com precisão quase matemática, filma de modo obsessivo o rosto angustiado da estrela do momento saída dos filmes de vampiros e, numa predilecção constante pelo drama, transporta o espectador para dentro de cemitérios onde os vivos choram os mortos e para o interior cosmopolita de uma Nova Iorque de postal ilustrado onde abundam os tradicionais táxis amarelos, os bares de culto e os restaurantes de luxo que mais não servem como cenário para novas desgraças e mais razões para fabricar um forte sentimento de nostalgia. Nesta espécie de fábula urbana, fácil será de perceber que a pouca profundidade do drama que se pretende e o ‘déjà vu’ presente ao longo de todo o filme pouco importam no seu objectivo principal: fazer render o peixe. Um peixe chamado Robert Pattinson à venda junto de um público feminino sedento de imagens do seu ídolo.



E se em termos críticos seria quase um sacrilégio admiti-lo, a verdade é que em questões de sensibilidade pelo que são as necessidades de um público de determinada idade desejoso de se idealizar no romance de um dos seus ícones é justo dizer que o cinema também se faz desta cepa. Se é bom ou mau cinema, neste caso pouco importará a quem não consegue suster as lágrimas perante o drama pungente e sai da sala a suspirar pelo jovem sedutor ou pela linda mulher em cujos corpos e almas se reviram durante cerca de duas horas. E se as coisas se passam deste modo, de que vale teorizar sobre a banalização de um género cinematográfico, o drama, que tem tantos e bons exemplos de qualidade em oposição a este «Lembra-te de mim»? Nada, absolutamente nada. Daí que, jovens adolescentes ou outros fãs de Pattinson ou deste modelo de cinema em registo sentimental, corram para as salas de cinema onde o filme está a ser projectado e deliciem-se com os vossos ídolos. Chorem, riam, emocionem-se e vibrem. Numa palavra, sintam, pois é para isso mesmo que também serve o cinema.



Para finalizar, não abdico de passar um louvor e lavrar um protesto. O aplauso vai para a pequenina Ruby Jerins, ela que é a irmãzinha desadaptada e talentosa, que se revela uma doçura de menina na exposição de um drama pessoal que não é tão invulgar assim. E a assobiadela, monumental, diga-se, vai para o final do filme disparatadamente panfletário a tentar uma seriedade descabida naquele que é afinal um romance de consumo modelarmente direccionado. Não havia necessidade.





«Remember Me», de Allen Coulter, com Robert Pattinson, Emilie de Ravin, Ruby Jerins, Pierce Brosnan, Chris Cooper e Lena Olin

Parnassus – O Homem Que Queria Enganar o Diabo








Deus e o Diabo numa terra sem Sol



Duvido que me consiga fazer entender, mas desde sempre achei que certos aspectos de imperfeição criam um poder de sedução enorme sobre algo ou alguém. Sobretudo quando essa imperfeição surge de uma sinceridade absoluta, de uma ingenuidade bondosa de quem se assume tal como é rejeitando maquilhagens de estilo, forma ou personalidade. «Parnassus – O Homem Que Queria Enganar o Diabo» é feito desta massa e Terry Gilliam, o ex Monty Python, é um realizador cujos filmes são erigidos sobre uma cinematografia arriscada e invariavelmente à beira do precipício. Não será pois de estranhar que passados vinte a trinta minutos de fita, a sensação que sentia crescer em mim com mais força era a de estar na presença de um filme confuso e muito desarrumado. E desse modo, como espectador também eu me senti à beira do abismo.



«The Imaginarium of Doctor Parnassus», título original do filme, marca também a derradeira participação do malogrado actor Heath Ledger no cinema, ele que morreria de overdose de medicamentos durante as filmagens. Curiosamente, tendo o argumento sido reescrito, o facto permitiu as participações nas filmagens de actores de renome como Johnny Depp (simplesmente brilhante), Jude Law e Colin Farrell. Nos papéis de substituição de Ledger, os três acabam por funcionar como alter-egos de Tony (a personagem defendida por Heath Ledger).



Relativamente à trama, ela parte de uma pacto que o mágico Dr. Parnassus (um Christopher Plummer em muito bom nível) faz com o Diabo (Tom Waits): em troca da imortalidade, Parnassus promete doar ao Diabo a alma do seu primeiro descendente logo que este complete dezasseis anos. E enquanto percorre as ruas de Londres numa carroça a vender a sua magia, Parnassus vai socorrer-se de Tony para tentar salvar a sua filha Valentina a poucos dias de completar a idade que a fará propriedade do Diabo. Valentina que é corporizada por Lily Cole, uma actriz de invulgar e estranha beleza.



Enquanto os clientes de Parnassus vão entrando pelo interior de um espelho mágico podendo aí viver a experiência mais sombria ou os prazeres mais simples, tudo fruto da imaginação dos próprios proporcionada pelo milenar Parnassus, Terry Gilliam caminha sobre o arame num delírio narrativo que chega a ser divertido mas cuja maior característica se alicerça num nítido desequilíbrio formal e de conteúdo. E nesta imperfeição fica a ganhar o mundo que está do lado de cá do espelho apesar das imagens soturnas de uma Londres marginal e nebulosa. No fundo, e no meio de tanto artifício visual, tudo resulta bem simples e mais não se pretende que discorrer sobre o bem e o mal, o real e o imaginado e o verdadeiro e o falso tal como se informa na sinopse promocional do filme. Mas as grandes ideias de Gilliam perdem-se na sua incapacidade de as dotar de riqueza e lucidez narrativas. No entanto, como referi no início a boa vontade e a humildade de querer fazer bom cinema são tão evidentes que o filme acaba por exercer um fascínio sobre nós que em boa verdade não teria só por si. E assim, cada vez mais me convenço que em cada homem louco há um homem bom. Mas é claro que nesta minha convicção falo também por mim.















«The Imaginarium of Doctor Parnassus», de Terry Gilliam, com Christopher Plummer, Heath Ledger, Tom Waits, Lily Cole, Johnny Depp, Colin Farrel e Jude Law


Uma Outra Educação








A educação de Lynn

Jenny (Carey Mulligan) é uma jovem e talentosa estudante que vive com os pais nos subúrbios de Londres. A família, gente medíocre e conservadora, sonha com um curso de literatura para a filha na famosa universidade de Oxford. Já Jenny, aparentemente mais madura que as suas colegas num também ele ultra-conservador colégio feminino, fantasia com a cosmopolita Paris e com uma existência completamente diferente da vida aborrecida que leva. Para ela, a vida teria certamente outro sabor a ouvir as canções de Juliette Greco, a fumar cigarros russos e com a ida regular a jantares em clubes restritos. Neste entretanto, surge David (Peter Sarsgaard) na vida de Jenny, um homem mais velho e sedutor que parece assumir-se como o meio mais rápido para Jenny atingir o que afinal parece unicamente desejar de Oxford.



O filme segue de perto as memórias escritas da jornalista inglesa Lynn Barber. Realizado pela dinamarquesa Lone Scherfig («Italiano para Principiantes», 2000) a narrativa assume conceptualmente uma espécie de pacto com a Inglaterra do pós guerra, já que se mostra cinzenta e convencional. E lamentavelmente, como se se tratasse de um pouco ambicioso espectador acabado de aterrar numa sala de cinema a ver o mundo a preto e branco, a realização depressa encontra um réu para um ‘crime’, note-se, onde apesar da sua juventude a seduzida o é através de carros luxuosos, prendas caras, viagens e toda uma vida de sumptuosidade. Apesar disso, e não esquecendo a peculiar dimensão moral do sedutor, David nunca se mostra um homem pervertido numa redutora busca de sexo parecendo verdadeiramente interessado no amor de Jenny e na sua enriquecedora companhia. E num filme que chega até nós recheado de expectativas e apontado como um dos dez melhores filmes candidatos aos Óscares, imagine-se o quão fascinante seria se a realização explorasse este filão ligado a gente diferente que quer e ama de modo marginal àquilo que a sociedade e a moral impõem.



Mas não e «An Education», no seu título original, teoriza vagamente sobre a educação que a vida acaba por dar a quem tem a coragem - ou a insensatez, como defende o filme - de a seguir fugindo aos cânones normais. Mas, mais uma vez sem surpresas, Oxford acaba por vencer numa vitória demasiado cruel sobre um amor amoral, é certo, mas um amor. E cruel porque quase no final da fita, Jenny, já universitária em Oxford e ultrapassada a ‘irritação David’, acaba por revelar que regressou a Paris como se fosse a primeira vez e com um namorado da sua idade. Olha que bem e que sorte a dela. Supõe-se que aquilo que o filme quer dizer é que Jenny já nem sequer recorda David, o homem que a fez feliz durante algum tempo sem a obrigar a nada e com a bênção da família, a ‘teve’ pela primeira vez e a apresentou à vida que sonhava. Mas não, nada mais falso, já que o filme mente descaradamente. Porque se o cinema é vida e se neste caso retrata as memórias de alguém, da jornalista inglesa Lynn Barber como já referi atrás, é bom que se faça a pergunta fundamental: afinal o que relembra Lynn nas suas memórias? Simples, a sua vida com o infame David. Tudo o resto que viveu, supõe-se, é tão saudável e tão normal que ninguém para além de si e dos que partilham a sua vida quer saber. Curioso, não?



Ainda assim, estamos na presença de um filme agradável mas onde convém ler para além da mensagem subjacente. Destaque para a interpretação muito deliciosa de Carey Mulligan, toda ela de uma naturalidade e fogosidade espantosas que fazem de Jenny o centro da acção num filme recheado de personagens riquíssimas na amostragem dos clichés sociais e familiares de uma Inglaterra dos anos sessenta sem gosto pela vida. Também grande está Alfred Molina, o pai, no desenho de um homem mesquinho que transporta para a filha o sonho de uma vida que não viveu. Mas que rapidamente se dispõe a alienar uma aparentemente sólida ideia de educação à vista do luxo e de uma dimensão social para a qual nunca teve a menor capacidade para se integrar.



Resumindo, «Uma Outra Educação» é um pequeno filme que se agiganta na forma como permite ao espectador meditar sobre a vida através dos revezes amorosos de uma jovem adolescente. Ainda que, por vezes, se chegue a conclusões que dificilmente serão aquelas que esperaríamos comodamente sentados no sofá da sala de cinema.







«An Education», de Lone Scherfig, com Carey Mulligan, Peter Sarsgaard, Alfred Molina, outros


Visto do Céu












O inferno na terra



Que dizer de um filme recheado de boas intenções e que admitimos ir tocar emocionalmente a esmagadora maioria dos espectadores dada a sua temática dolorosa mas que acreditamos ser uma obra falhada dados os seus desequilíbrio e despropositada grandiloquência? Provavelmente o melhor seria remetermo-nos ao silêncio. Isto porque ninguém quer – eu pelo menos não o pretendo – tocar amargamente o âmago de quem ler palavras menos amáveis para com um filme que nos fala de uma menina cruel e precocemente expulsa desta vida, ficando algures num território descrito como geograficamente situado entre a vida e a morte. Mas porque discordo totalmente da abordagem de Peter Jackson (realizador da fabulosa trilogia de «O Senhor dos Anéis») a um caso de vida (e morte) tão visceralmente cortante, arrisco mesmo magoar quem tenha visto e se tenha particularmente comovido com «The Lovely Bones», no seu título original.



Susie Salmon (Saoirse Ronan) é uma adolescente de catorze anos feliz e apaixonada pela vida e por um colega de escola. Vivendo no seio de uma família feliz composta pelo pai (Mark Wahlberg), pela mãe (Rachel Weisz) e por um pequeno irmão e uma irmã, Susie está longe de adivinhar que vive paredes meias com um perigoso pedófilo. Atraída pela curiosidade natural de uma menina ingénua e de boa índole, Susie acaba violentada e barbaramente assassinada por George Harvey (Stanley Tucci), um seu vizinho. Incapaz de seguir definitivamente para o céu, Susie observa a meio caminho entre a morte e a vida a incapacidade da sua família em superar a dor de tão difícil perda.



O filme adapta o livro homónimo de Alice Sebold, ‘best seller’ mundial. No entanto, a magnificência visual e plástica pretendida pela realização resulta numa superficialidade aviltante que apenas visa explorar do pior modo a dor de quem, sentado numa cadeira da sala de cinema, observa a tragédia da família Bones. E o que poderia ter sido um ensaio sobre os mistérios que encerram a vida para lá da morte, acaba por se tornar num exercício patético e inverosímil sobre uma família devastada e incapaz de ultrapassar a mágoa para poder prosseguir o seu caminho.



Ainda assim, na abordagem psicológica ao assassinato, e ao assassino, o filme mostra um cuidado que não teve na questão familiar e da já referida enigmática condição de Susie. Para isso muito contribuiu a portentosa interpretação de Stanley Tucci, o psicopata, ele sim a mostrar-nos como o perigo pode morar ao nosso lado sem que dele suspeitemos. E esta acaba por ser a prova final do enorme desequilíbrio de um filme onde a tragédia de uma família duramente traumatizada acaba por ser secundarizada pela assustadora normalidade de um homem profundamente doente e desumanizado. É também isto que eu não posso perdoar a Peter Jackson. Assim como à ideia subjacente da sua realização de que perante um drama como o que se assiste ao homem apenas resta coração como se devêssemos menorizar a razão. E eu não acredito nesta teoria.







«The Lovely Bones», de Peter Jackson, com Saoirse Ronan, Mark Wahlberg, Rachel Weisz, Susan Sarandon e Stanley Tucci



Alíce no País das Maravilhas





Do outro lado do espelho



Escrita por Lewis Carrol, «As Aventuras de Alice no País das Maravilhas» possui mais de duas dezenas de adaptações ao cinema. Chegou agora a vez de Tim Burton. Este, pegou em «As Aventuras de Alice no País das Maravilhas», adicionou-lhe «Alice do Outro Lado do Espelho» e fez um filme não se limitando a sonorizar as histórias e dotá-las de imagens em movimento. Isto porque «Alice in Wonderland», de Tim Burton, é a visão muito particular do peculiar e genial realizador sobre as obras de Lewis Carrol já de si repletas de simbolismos, paradoxos e mensagens subliminares. E se a história de Alice pertence ao imaginário infantil é inegável que o realizador norte-americano se dirige muito mais a graúdos que a miúdos sem no entanto deixar ninguém de fora do seu trabalho de composição. Um trabalho que é todo ele um saudável elogio à loucura. O que acaba até por ser recorrente na obra do cineasta de «Eduardo Mãos de Tesoura» (1990), «Marte Ataca» (1996), «O Cavaleiro sem Cabeça» (1999) e «O Grande Peixe» (2003) para só citar algumas das suas obras.

Alice (Mia Wasikowska) tem agora 19 anos de idade e regressa à terra onde esteve enquanto criança. Lá, ela vai reencontrar os seus velhos amigos: o Coelho Branco (Michael Sheen), Tweedledee e Tweedledum (Matt Lucas), a Lagarta Absolem (Alan Rickman), o Gato Cheshire (Stephen Fry) e o excêntrico e devoto Chapeleiro Louco (Johnny Depp). No entanto, a felicidade é então algo inexistente por aquelas bandas já que a Rainha Vermelha (Helena Bonham Carter) se apoderou do trono pela violência e à Rainha Branca (Anne Hathaway) e todos os seus anteriores amigos resta esperar que Alice possa devolver as maravilhas àquele país recheado de personagens fantásticas.

Durante quase duas horas, através das imagens em 3D, o espectador vive por dentro uma história fantástica sobre a busca que alguém efectua na tentativa de empreender o rumo certo para a sua vida. Um dos grandes desafios da realização de Burton prende-se precisamente com esse aspecto particular: o de saber até que ponto cada um de nós percebe ou não o que realmente importa nas nossas vidas através do paralelismo com o filme. Será que interessa perceber o que têm em comum um corvo e uma secretária ou será muito mais definitivo para a nossa existência determos em nós o talento capaz de não deixar que os laços importantes se quebrem ainda que cada um tenha que seguir rumos diferentes para as suas vidas? A par das sempre importantes questões filosóficas, o filme possui uma admirável qualidade artística e é de uma beleza visual cativante. É ainda de realçar que a animação em 3D está no filme ao serviço da história e não o contrário. E num filme recheado de grandes intérpretes do cinema actual, Helena Bonham Carter é talvez aquela que mais se destaca na ambiguidade de desejar o amor dos outros mas, por insegurança, acabar por optar pela política do medo. Já Johnny Depp, actor ‘fetiche’ de Burton, joga em casa dividido entre a mais completa insanidade e a emoção de dar corpo a um ser aparentemente seguro de si mas a espaços desprotegido e interrogativo sobre o meio que o rodeia.

Resumindo, «Alice no País das Maravilhas», de Tim Burton, apresenta-nos um mundo onde o sonho vira pesadelo e representa uma excelente oportunidade para alguns adultos recuperarem para si a criança que foram um dia. E, quem sabe, perceber se o caminho seguido por cada um está de acordo com os seus sonhos de menino. E não sendo segredo para ninguém, resulta curioso verificar como de um mundo aparentemente recheado de loucura se pode extrair tanto de positivo. E de belo para os olhos e para a alma.











«Alice in Wonderland», de Tim Burton, com Mia Wasikowska, Johnny Depp, Helena Bonham Carter e Anne Hathaway

Shutter Island












A barca do inferno



Até que ponto a loucura não serve de escudo ao ser humano como defesa contra a dor mais atroz? E se recuperada a lucidez de que força, ou forças, precisa o homem para sobreviver às inquietantes memórias que o levaram a perder a sanidade mental? E mesmo que tenha essa capacidade quererá este continuar a vida carregando às costas um fardo tão pesado? Esta e outras questões são-nos sugeridas por «Shutter Island», um ‘thriller’ de terror psicológico baseado na obra homónima de Dennis Lehane. «Shutter Island» que representa igualmente mais uma claustrofóbica descida do cinema aos infernos da mente humana. Neste caso, através de um argumento tão labiríntico como labiríntica pode revelar-se a própria mente. E para aqueles espectadores que entrados na sala de cinema se esquecem do mundo lá fora e vivem de modo particularmente sensível a vida das personagens que desfilam na tela, temo que o mais recente filme de Martin Scorsese lhes proporcione hora e meia de profundo sofrimento. De muito bom cinema, que não restem dúvidas, mas em igual medida de um doloroso pesar. Porque a tensão crescente no drama da vida de Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio) possui componentes próprios da mais aflitiva mágoa.



Teddy Daniels é um Agente da Polícia Federal em missão na prisão psiquiátrica de Shutter Island. Acompanhado do colega Chuck Aule (Mark Ruffalo), Daniels é também ele um homem atormentado pelo trágico desaparecimento da mulher. E a busca da verdade sobre os acontecimentos que rodearam a sua morte assim como o enigmático sumiço do piromaníaco assassino Laeddis, são os motivos reais por detrás da presença de Daniels na muito rochosa ilha. Ele que ali se desloca em missão oficial alegadamente na tentativa de investigar a fuga de uma das mais assustadoras criaturas presas no sombrio estabelecimento para tratamento psiquiátrico. Sobre este abundam igualmente os rumores sobre actos ilegais de investigações à mente humana e outras experiências cirúrgicas que visam mudar a atitude dos criminosos. E o comportamento do Dr. Cawley (Ben Kingsley), director clínico do estabelecimento, e dos elementos da guarda prisional parece atestar as desconfianças do Agente Federal.



Mas no que concerne a uma mente humana transtornada todas as possibilidades são de equacionar. E nem sempre aquilo que parece é. O filme, herdeiro do cinema clássico, apresenta uma estrutura conceptual irrepreensível que o leva a uma extrema eficácia na espiral de tensão que adopta. E a determinado momento todos se interrogam. As personagens sobre o seu verdadeiro papel no drama e o espectador que começa então a perceber que algo de verdadeiramente grandioso está para lhe ser revelado. À altura, vivem-se os anos 50 ainda na sombra de Auschwitz e da barbárie nazi sendo que, curiosamente ou talvez não, a chegada a Shutter Island só pode ser efectuada por ‘ferry’, o que aponta para a mitologia grega.



E num filme, mais um, de doloroso testemunho por parte do espectador da ambiência opressiva e, mais para o final, da descoberta do quão desordenada pode ficar a mente humana como resultado de um trauma profundo, emerge a excelente interpretação de Leonardo DiCaprio, ele que para muitos continua a ter que provar a sua enorme capacidade para a representação em cada novo filme que faz. DiCaprio que é muito bem coadjuvado por Mark Ruffalo, Ben Kingsley e pelo octogenário Max von Sydow. Quando o filme termina , até pelo período difícil de tragédia atrás de tragédia que o mundo vive na actualidade, há imagens que chocam de tal modo que é quase tarefa impossível a de nos alhearmos de que também nós somos seres humanos e como tal possuímos um limite para suportar a dor.





«Shutter Island», de Martin Scorsese, com Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Ben Kingsley e Max von Sydow

Anticristo












O falso profeta



Desde «Dogville» (2003) que a minha visão do trabalho de realização cinematográfica de Lars von Trier se alterou radicalmente. Para mim, o dinamarquês, criador juntamente com Thomas Vinterberg do manifesto Dogma 95 em prol de um cinema mais puro, realista e menos comercial, passava a mero provocador e usava o seu cinema como um meio para atingir esse fim que em alguns é positivo mas em si é nefasto. E em «Anticristo», Lars von trier ultrapassa todos os limites da razoabilidade edificando uma obra – de arte, a sua arte, não a nego – a todos os títulos violenta cruzando o masoquismo com o sadismo tendo ainda a ousadia de assumir publicamente que esta foi a forma que encontrou para ultrapassar a sua própria depressão, o que faz com que apeteça perguntar que culpa têm o cinema e o espectador do seu estado doentio. Como resultado, o que se observa nesta espécie de catarse para si próprio através da dor emocional, da agonia física e de uma estilização visual tão aberrante quanto excessiva é a prova da misoginia de que sempre deu conta nos seus filmes.



Não existe amor na relação entre Ele (William Dafoe num papel a que se adequa na perfeição) e Ela (Charlotte Gainsbourg numa interpretação absolutamente corajosa). O que se vê é sexo animalesco onde até o desejo parece andar arredio e o acto serve apenas para ajudar a expiar uma profunda e dolorosa existência feita apenas de dor a partir do momento em que o filho de ambos morre acidentalmente enquanto estes se perdiam numa constrangedora cena de sexo. Depois da tragédia, ela adoece psicologicamente e ele, psiquiatra, resolve que a melhor terapia será levar a mulher a enfrentar os seus medos. E com esse propósito em mente viajam até uma cabana perdida no interior de uma frondosa floresta, onde, lá chegados, acontece do bom e do bonito. Através de uma câmara nervosa bem ao jeito do movimento que fundou, Lars von Trier filma então a mais abjecta das vivências que até hoje observei num casal, atingindo uma dimensão de terror visual que faz com que este filme seja de difícil aconselhamento a quem quer que seja dada a incomodidade que provoca.



Surrealista e estilizado de um modo absolutamente pretensioso, «Antichrist» nunca poderia tornar-se na homenagem ao cineasta russo Andrei Tarkovski como o realizador dinamarquês pretendeu. Ainda assim, realce para algumas imagens monocromáticas com a música de Händel como pano de fundo e a cena final das mulheres no bosque num simbolismo que evoca uma espécie de redenção que sabe a pouco, muito pouco. Noutros artistas a doença psicológica de que padeceram levou a que edificassem obras belíssimas que são a prova da grandiosidade humana. Em Lars von Trier não. Nele, na sua arte, reinam o pessimismo, o mal-estar e um reiterado olhar doentio e amargo sobre o seu semelhante. E não, eu não assino por baixo.







«Antichrist», de Lars von Trier, com Charlotte Gainsbourg e William Dafoe

O Lobisomem












A bela e o monstro



Que se pode dizer de um filme que manda às malvas o fascínio enigmático e receoso pelas histórias de lobisomens transformando uma suposta história de medo numa espécie de ‘fast food’ cinematográfico? Pouco, muito pouco, a não ser lamentar as presenças de actores do calibre de Anthony Hopkins e Benicio del Toro no elenco, o que faz com que muitos incautos se desloquem a uma sala de cinema para ver não mais que mera animação digital, uma ambientação à Inglaterra vitoriana e uma fotografia apropriadamente gótica. De resto, já sabíamos que o homem se transforma em lobo nas noites de Lua cheia, que a sua mordida deixando a vítima viva faz nascer uma nova besta e que nestas coisas fica sempre bem uma bela (Emily Blunt) atraída por semelhante bicheza (Benicio del Toro).



No limite, «O Lobisomem», de Joe Johnston, nem sequer poderá ser acusado de ‘pastiche’ porque a sua dimensão cinematográfica roça a nulidade. Os efeitos especiais são muito pobres e a extensão do medo mede-se pelos quilos de carne humana projectada pelos ares de uma aldeia dos tempos de Jack, o Estripador, e ainda pelos muitos litros de sangue que jorram dos cantos da boca do ‘animal’. Não percebemos é onde e quando Lawrence (Toro) começa a interessar-se romanticamente por Gwen (Blunt) e até que tipo de atracção esta exerce sobre Sir Talbot (Hopkins). E não percebemos porquê? Simples, porque as personagens são psicologicamente vazias e o drama inexistente. Tarefa quase heróica é a de quem ousa manter-se na sala até surgirem na tela os créditos finais do filme. É que por essa altura, já não se resiste a tantos braços e pernas decepados, às vísceras humanas arrancadas à dentada sem dó nem piedade e a aldeões esgadanhados a correrem que nem parolos para uma morte certa. Mas, porque se trata de uma morte rápida, há até mortes bem piores. Valha-nos isso e a quem duvide do que aqui se afirma valha-lhes S. Tomé: vão ver para crerem.



«The Wolfman», de Joe Johnston, com Anthony Hopkins, Benicio del Toro e Emily Blunt


Um Homem Singular










Laços eternos



A vida ensina-nos que muitas vezes é de onde menos esperamos que nos chega o mais comovente dos mundos. Assim é com «Um Homem Singular», filme que estreia Tom Ford na realização de filmes, e com a mais extraordinária representação que já vi do brilhante actor que é Colin Firth. O filme é todo ele de uma perfeição estética ímpar, de uma sensibilidade que aprofunda o que de melhor possui o ser humano através da sua personagem principal e possui ainda um estado de encantamento sentimental que nos enleva na história que desfila defronte dos nossos olhos. Isto, sem que alguma vez a realização de Ford pretenda a militância do espectador através da condição sexual do Prof. George Falconer (Firth). Mas mais do que falar de tendências sexuais, que apenas surgem englobadas no quotidiano das personagens, a história soa-nos como um cântico sobre um amor sem fronteiras nem parametrizações e vê-se sem que alguma vez a vertente carnal da sexualidade de Falconer, um homem de princípios muito vincados, seja sequer sugerida quanto mais exibida.



A narrativa parte da perda de Falconer. Depois de um acidente de viação, Jim (Matthew Goode), seu companheiro de dezasseis anos, morre. A partir daqui, George Falconer perde todo o interesse pela vida e inicia a preparação de um final provocado e abrupto para a sua própria existência. Entretanto, deixa que o seu dia decorra com a normalidade possível sem que a decisão que tomou interfira na vida dos que o rodeiam. Nomeadamente na actividade dos seus alunos e na inquietude de Charley (Julianne Moore), sua amiga de sempre com quem, em tempos remotos na vida de ambos, tentara um relacionamento amoroso. O filme adapta o livro homónimo da autoria de Christopher Isherwood e a acção decorre no início dos anos sessenta numa altura em que a sociedade americana vivia atemorizada pela crise provocada pela ameaça dos mísseis cubanos. E quando Falconer pensa que pode tomar nas suas mãos o seu próprio destino eis que é o destino quem lhe troca as voltas de um modo lancinante.



Tom Ford é, antes de ser realizador de cinema, um conhecido desenhador de moda que trabalhou para as casas Gucci e Yves Saint Laurent. E a esse facto não é alheia a perfeição visual e técnica num filme onde a montagem é exemplar e as imagens se balanceiam suavemente ao som de uma tocante banda sonora. De realçar ainda a forma discreta como as personagens se movem numa sociedade irrequieta, à época, e a excelente ‘mise en scène’ que nos transporta até uma Califórnia que desponta então como o coração da América. Em suma, um filme inesperado não só pela sua singularidade como pelo modo sereno como expõe a dor, a tragédia de um homem que vê a sua felicidade decepada de forma fortuita. E, no final, percebemos como é absolutamente verdadeira aquela nossa suspeita sobre a fragilidade com que todos nós passamos pela vida.



Embora já referida, uma última mas fundamental chamada de atenção para a pungente interpretação de Colin Firth, um actor de corpo inteiro e, com este papel, um dos mais sérios candidatos a vencedor do principal Oscar da representação masculina. Por uma vez que seja o preconceito não tem lugar, não pode ter, num filme que é antes de tudo um hino à vida. Mesmo que essa vida seja pensada a partir do momento em que alguém julga nada mais poder esperar dela e de si. Porque a dor, não sendo um modo de vida, é um factor determinante para aquilo que dela esperamos ou desejamos.





«A Single Man», de Tom Ford, com Colin Firth, Matthew Goode e Julianne Moore

Precious












Flor à beira do pântano



Década de oitenta, ghetto de Harlem, Nova Iorque, uma jovem negra de 16 anos que sofre de obesidade doentia está grávida do seu segundo filho. E quem é o pai de ambos? O seu próprio pai biológico. Mas esta é só parte da miséria em que a jovem Precious vive. Para além dos abusos sexuais de que é vítima por parte do pai, também a mãe (Mo’Nique), uma mulher monstruosa, se aproveita da filha a todo e qualquer nível, incluindo a usurpação dos subsídios do estado a que Precious tem direito, exploração desta no trabalho doméstico e, como se não bastasse, também se aproveita sexualmente da pobre adolescente. Se juntarmos a isto uma opção conceptual por parte da realização cujos recursos estilísticos privilegiam a realidade em detrimento do cinema espectáculo facilmente concluímos que «Precious», de Lee Daniels, é um grito (para não dizer berro) de alerta preenchendo com todo o propósito uma das funções do cinema: a denúncia.



Toda a história se constrói ao redor de pormenores sórdidos que a narrativa faz questão de sugerir evitando muito acertadamente o exibicionismo gratuito e a tentativa de arrancar do espectador uma lagrimazinha fácil. Por outro lado, a interpretação sóbria da actriz que dá corpo a Precious, Gabourey Sidibe, acaba por contribuir para o realismo cru, e cruel, de uma condição vivida nas fronteiras mais mórbidas do ser humano. Para sobreviver à crueldade da vida a que é forçada, Precious sonha com uma realidade absolutamente desconexa da sua e a uma distância inatingível para alguém a viver uma conjuntura tão desfavorável quer pela pessoa que é como pelo meio sociocultural que a rodeia. Pode até parecer uma barbaridade dizê-lo, mas aqui se prova que até o sonho não está acessível a todos. E sem querer desvendar a história a quem ainda o não viu, como se a prová-lo quase no final do filme o destino volta a pregar mais uma perversa partida a Precious.



Sendo um filme de causas, é interessante verificar as presenças de Mariah Carey (ela é a funcionária da segurança social) e de Lenny Kravitz (o enfermeiro John) num filme que teve a bênção da todo-poderosa Oprah Winfrey. E se a esperança para Precious é um simples exercício de retórica, para outras Precious, no feminino ou no masculino, talvez ainda se vá a tempo de agir. E essa terá sido a razão fulcral para a realização de um filme onde há ainda lugar para abordar ao de leve o preconceito homossexual através da lésbica e muito bonita Ms. Rain (Paula Patton), ela, professora numa escola alternativa, que é a primeira a dar a mão a Precious. Mas um filme, deve dizer-se, que caminha perigosamente à beira do abismo sem no entanto chegar a despenhar-se. E ainda bem que assim é, concluo.





«Precious», de Lee Daniels, com Gabourey Sidibe, Mo’Nique, Paula Patton, Mariah Carey e Lenny Kravitz

Estado de Guerra











Jogos de Guerra





«Estado de Guerra» está nomeado para nove estatuetas da Academia de Hollywood e tem recebido, por parte da crítica, os mais rasgados elogios. Na verdade, para quem aprecie uma abordagem à temática da guerra focando-se na tensão própria dos militares em combate ou nas suas acções diárias de sobrevivência numa terra hostil, este talvez seja o filme indicado. Mas se, por um lado, «The Hurt Locker», no seu título original, apresenta uma visão despolitizada do conflito onde uns procuram apenas salvar as vidas que outros querem ceifar, por outro nunca se coloca a questão de tentar perceber porque foram afastados das suas famílias e viajaram para uma terra inóspita e longínqua onde a única coisa que lhes interessa é terminar vivos o tempo da missão que lhes foi dada. Bom, nem a todos já que o Sargento William Jones (aqui sim, uma fabulosa interpretação de Jeremy Renner) surge como o elemento que comprova como os efeitos da adrenalina da guerra se podem tornar numa droga e num vício difícil de largar.



As referências cinematográficas são sempre bem-vindas e as cenas de tiroteio no deserto iraquiano entre as tropas americanas e os indígenas insurrectos procuram a associação óbvia aos ‘western’ de outros tempos e evocam a memória das terras onde a lei era imposta a tiro. «Estado de Guerra» não se fica apenas pelos tiros já que os meios e as armas são muitíssimo mais sofisticados e o filme acompanha uma equipa especializada no desmantelamento de explosivos. Toda a tensão e adrenalina da narrativa giram em volta do já referido Sargento W. Jones, um militar temerário muito próximo do suicida, e do antagonismo com o seu companheiro, o também Sargento Sanborn (Anthony Mackie), que se vale das regras e dos ensinamentos colhidos para tentar salvar a pele. Pelo meio, há ainda um soldado, Owen Eldridge (Brian Geraghty), que faz o papel de ingénuo dividido na admiração pela coragem louca de um e pelo extremo bom senso do outro.



Neste mundo caótico e de uma certa irreversibilidade do homem preso à sua natureza, quer seja ele militar americano ou terrorista iraquiano, resulta um filme desenhado com mão firme mas onde a psicologia auto-destrutiva que lhe está inerente não consegue soltar-se do carácter mecânico da acção de homens como meros peões numa guerra que nem sequer procuram compreender. Daqui resulta uma trama sem emoção para o espectador a não ser, como já referido, na corporização de Jeremy Renner de um militar irremediavelmente seduzido pela adrenalina da guerra. E essa é a mensagem maior do filme de Kathryn Bigelow, a dos militares como grandes vítimas do absurdo da guerra. Enfim, é uma visão entre muitas outras mas que no entanto não escapa ao carácter extremamente redutor da tese que defende. E o ritmo seguro da acção aliado a um certo desencanto das personagens não são suficientes para me fazerem admirar sobremaneira um filme onde a tensão se sobrepõe à emoção. Talvez temendo isso ainda durante a sua produção, a realização socorreu-se dos nomes de Guy Pearce, Ralph Fiennes e David Morse como chamariz para as bilheteiras das salas de cinema. Escusadamente, já que qualquer um dos três actores foi dar apenas o pontapé de saída sem ter participado activamente no jogo.







«The Hurt Locker», de Kathryn Bigelow, com Jeremy Renner, Anthony Mackie e Brian Geraghty

Invictus







Mandela, o homem por detrás de uma nação





Nelson Mandela ficará para a história como um dos homens que melhor representou o sentido humanístico de alguém. Ele que optou por esquecer e perdoar o sofrimento que lhe foi infligido durante os 27 longos anos em que esteve preso numa cela diminuta em nome da arbitrariedade humana, para poder unir e salvar uma nação dos seus próprios temores e do espírito de vingança que entretanto se agigantava. A partir do livro do jornalista John Calin, em «Invictus» Clint Eastwood narra de forma sóbria mas brilhante o modo como o já então presidente da África do Sul resolve, em nome da salvação de um país, apoiar a selecção nacional de râguebi – que fora um dos maiores símbolos do ‘apartheid’ – numa tentativa de união entre brancos e negros. E se noutros filmes de Eastwood está patente uma forte descrença relativamente ao ser humano (vide «Gran Torino» ou «Million Dollar Baby», por exemplo) em «Invictus» existe uma fé inabalável naquilo de que os homens são capazes de fazer apelando, em derradeira possibilidade, à força que só os detentores de uma grande liberdade interior podem usufruir.



Apesar de se tratar de um filme de abordagem política, dada a história real que o suporta era impossível que assim não fosse, a realização de Eastwood preocupou-se muito mais com os factos ligados à relação entre Mandela (Morgan Freeman) e François Pienaar (Matt Damon) e, por sua vez, com o crescendo de força e união entre a selecção nacional de râguebi, da qual Piennar é o capitão, e brancos e negros desavindos até então. As questões pessoais e políticas ligadas a Mandela são tratadas muito ao de leve num filme em que o velho realizador procura falar mais ao coração do espectador que propriamente à razão como era seu timbre. E, neste aspecto, Mandela aparece aqui como um herói distante do modelo normalmente adoptado por Eastwood, já que se trata de um homem já não a afrontar um sistema mas sim a colar-se a ele, a alterá-lo é certo, mas acabando num triunfo conjunto: homem e sistema.



Falando especificamente de cinema, o filme torna-se emotivo a espaços mas de uma forma muito natural sem cair no sentimento gratuito. Por outro lado, sendo um cineasta representante do cinema clássico norte-americano, a narrativa adopta uma complexidade estrutural longe da biografia simples e muito menos se aproxima do filme épico ligado às questões desportivas. No entanto, é absolutamente épico e brilhante o crescendo dramático que Clint Eastwood atinge com as filmagens da final da Taça do Mundo de 1995. E não era tarefa fácil, uma vez que o resultado era conhecido em virtude do jogo ter acontecido na realidade e ser sobejamente conhecido o seu vencedor. Um último destaque para Morgan Freeman num filme notável a vários níveis: na sua interpretação do homem admirável que é Nelson Mandela, Freeman parece despojar-se completamente de si no objectivo claro de mostrar ao mundo o rosto da luta contra o ‘apartheid’ e um dos mais justos Nobel da Paz de sempre.



Quanto a mim, vou relembrar o pequeno ‘cameo’ de Clint Eastwood - ele que aparece na bancada a apoiar a equipa sul-africana na final da Taça do Mundo - no momento em que comprar a minha própria camisola da selecção que uniu um país e mostrou à aldeia global a raça e o querer dos homens justos.






«Invictus», de Clint Eastwood, com Morgan Freeman e Mat Damon


Nas Nuvens











A condição humana



A crise económica e financeira que afecta o mundo pode não ser má para todos. Na verdade, para Ryan Bingham (George Clooney) os efeitos são positivos. Isto, porque aumentaram as solicitações naquilo que faz profissionalmente e por esse motivo vai manter-se no ar cruzando os céus nos aviões da American Airlines amealhando milhas naquele que é o seu grande projecto de vida: ganhar um cartão muito exclusivo e ter o seu nome inscrito num dos aviões da companhia aérea. E que faz profissionalmente Ryan Bingham? Numa altura em que a palavra de ordem é eliminar desperdícios alguns grandes quadros das empresas são vistos como tal e Bingham é o homem a quem compete dar a triste notícia do seu despedimento e suavizar os efeitos negativos do choque de quem é dispensado substituindo nesse papel os administradores das próprias empresas. O caricato aqui, é a objectividade profissional com que a personagem de Clooney assume as suas funções: ele lê a pessoa e transmite-lhe a forma menos detestável de uma notícia que é em tudo absolutamente odiosa.



Ryan Bingham é também um homem que não tem – por opção – qualquer relação afectiva séria com ninguém. Mas, no filme, acaba por encontrar uma alma gémea, Alex (Vera Farmiga), e ambos cruzam agendas para poderem pernoitar juntos em hotéis impessoais de cidades onde se encontram meramente de passagem. No entanto, o curioso é que Ryan Bingham acaba por não existir sem que o associemos a George Clooney. Ele é um tipo amável, charmoso, educado e atencioso no papel de um homem que o espectador deveria à partida odiar. Mas não e tal deve-se a Clooney. Será isto a prova de ter existido um erro de ‘casting’ por parte de Jason Reitman («Juno», 2007), o realizador? Não, de modo algum, esse é mesmo o grande trunfo do filme. E isso acontece quando a vida de Bingham corre o risco de se alterar radicalmente à chegada de Natalie (Anna Kendrick), uma jovem acabada de sair da universidade, ela que propõe que os despedimentos passem a ser feitos por vídeo-conferência. Não só a mais-valia das qualidades de um homem como Ryan Bingham se perderiam como o seu estilo de vida teria de ser dramaticamente alterado. E é então que as debilidades do ser humano presentes na personagem de Clooney vêm ao de cima e o filme adopta, como referido, a sua mais espantosa qualidade que nos atinge, fere e seduz tudo em dose cavalar: essa qualidade prende-se com a reflexão que a partir de então é desenvolvida sobre a condição humana através da singularidade de um homem que criou um escudo para si mas que fica completamente desprotegido no momento em que perde o controlo da situação. E que vemos acontecer nessa altura? Simples, o trivial. O seu coração endurecido torna-se dócil acabando por deixar que o amor aconteça. No entanto, é possível que Bingham tenha esticado demasiado a corda e a sua opção de viver uma solidão assumida acabe por se tornar numa inevitabilidade da vida. É pois muito provável que Bingham já não consiga evitar tornar-se definitivamente num homem só.



Jason Reitman, o realizador, é um pensador que usa as imagens para debitar ideias. O seu campo de observação é o ser humano e a sociedade onde este se insere. Neste filme, uma comédia apenas na aparência, Reitman recusa-se a dar-nos esperança. Pelo contrário, pela tela passam homens e mulheres despedaçados por um sistema económico alheado das pessoas e um homem (Clooney na sua prestação) que se usa das suas qualidades humanas para fazer o papel de Diabo. Numa narrativa ágil sem pontos mortos e onde sobressai o ‘saber fazer’ do realizador, reflecte-se sobre a fugacidade das relações humanas e a pequenez do homem numa máquina trituradora criada por si. Mas o lado cáustico de Reitman é ultrapassado pela prestação de um George Clooney que se vale do homem que é para construir um perfil psicológico a todos os títulos notável. O perfil de alguém aparentemente seguro de si, sedutor com as mulheres, amável com os homens e irradiando classe por onde passa, mas, afinal, tão amargamente frágil. Onde é que eu já vi alguém assim?





«Up in the Air», de Jason Reitman, com George Clooney, Vera Farmiga e Anna Kendrick

As Flores de Harrison











As Flores de Harrison





Não por acaso, numa altura em que denoto existirem alguns ataques aos repórteres fotográficos e demais jornalistas a propósito da tragédia que ainda decorre no Haiti, revi em DVD um filme que relata o drama de um casal de jornalistas igualmente num cenário dramático. Embora, neste caso, uma tragédia, a da guerra, provocada pelo homem. Refiro-me a «As Flores de Harrison», realizado no ano 2000 por Elie Chouraqui.





Essa guerra, catastrófica e ainda tão recente na nossa memória colectiva, ocorreu na ex-Jugoslávia e é a partir dela que se desenvolve a narrativa. O culto do ódio e a propagação desmedida do sofrimento através das atrocidades cometidas entre seres iguais, são ilustrados pela realização no acompanhamento de uma mulher que se recusa a acreditar na anunciada morte do marido, um repórter fotográfico americano. Sarah Lloyd (Andie MacDowell) é jornalista em Nova Iorque e mãe de dois filhos. Às evidências que lhe são proporcionadas para que cresse na morte do marido basta-lhe opor o forte sentimento que nutre por ele. Decidida, parte para Osijek, no norte da Croácia, em sua busca. Acompanhada doutros repórteres fotográficos, que a ajudam, ela caminhará perigosamente até Vukovar. Nesse trajecto, testemunhará a violência e brutalidade de uma guerra alimentada por rancores e angústias que culminam numa invulgar moral predadora do homem.





O filme não é perfeito e lamenta-se até a opção pela ruidosa vertente bélica em detrimento da história de amor que a suporta. Apesar disso, sem nunca se deixar perder na violência gratuita a acção coloca o espectador perante a gravidade do conflito civil, étnico e religioso que se viveu naquela região europeia e torna-se inevitável a existência de uma intensa ambiência de discórdia e fatalidade. O drama colectivo que é exposto pela obsessiva busca que o drama pessoal proporciona, o de uma mulher em busca do homem que ama, atinge um carácter perturbador. Os actos de guerra são atrozes mas credíveis e apesar dos 130 minutos de duração do filme este nunca se revela monótono no seu desenvolvimento. A par da esplêndida fotografia, realce-se o prestigiado elenco: Adrien Brody («O Pianista»), Elias Koteas («Crash») e, no papel principal, a actriz que um dia o filme «Sexo, Mentiras e Vídeo» catapultou definitivamente para uma valorosa carreira no cinema, a já referida Andy MacDowell. Em suma, «As Flores de Harrison», mais que um filme sobre o amor ou sobre a guerra, é um filme de muito humana esperança passado num cenário onde a humanidade entre os homens, pelo contrário, já não é sequer uma esperança. Um filme duro, sem dúvida, mas extremamente comovedor que aconselho sem reservas a quem não tenha receio de olhar a tragédia numa vertente pouco habitual e longe dos noticiários televisivos.

O cineasta da palavra





Eric Rohmer, 1920 – 2010





Para muitos Eric Rohmer representava um cinema difícil sendo tido pelos especialistas como um cineasta representante do moralismo que gostava de vaguear pelo interior do romantismo alemão ou das pinturas medievais. Morreu hoje quase a completar 90 anos de idade.



Para quem não sabe, Rohmer (o seu verdadeiro nome era Maurice Scherer) foi antes de tudo um fabuloso ensaísta, tendo analisado ao pormenor as obras de F. W. Murnau, Alfred Hitchcock e Roberto Rossellini, e um fervoroso crítico de cinema escrevendo para a conceituada revista «Cahiers du Cinema» onde foi também editor e chefe de redacção. Foi ainda jornalista e professor.



Do que conheci da obra de Rohmer, prefiro destacar um esquema quase obsessivo que o autor adoptou numa série que ficou conhecida como «Contos Morais» [mais tarde o realizador erigiria ainda uma segunda série designada de «Comédias e Provérbios»]. Nesses filmes, há sempre um homem que se apaixona por uma mulher, tem uma relação fugaz com uma outra para posteriormente voltar ao objecto inicial da sua paixão. A acção é quase nula e é uma voz ‘off’ que vai relatando os estados de alma e as intermitências do amor numa linguagem que muitos acharão demasiadamente cuidada mas que era a marca pessoal do peculiar cineasta. Ele que não se desviava um milímetro da sua arte. Nos seus filmes, Rohmer nutria ainda uma especial afeição por mulheres muito jovens. Na sua última obra, exibida em Portugal pela mão de Paulo Branco e da sua Atalanta Filmes, “Os Amores de Astrée e de Celadon” (2007), Rohmer não fugia ao seu estilo muito próprio filmando a exaltação da palavra e explorando um certo erotismo campestre. Quando se fala em cinema de autor, é a homens como Eric Rohmer que nos referimos. Goste-se ou não da sua obra. Paz à sua alma.



[«Les Amours d'Astrée et de Céladon»]

Deixa Chover







Gente Vulgar


O casal Agnès Jaoui e Jean-Pierre Bacri é o responsável por um dos maiores sucessos do cinema francês na última década em Portugal em termos de aceitação do público. Refiro-me a «O Gosto dos Outros» que esteve mais de um ano em exibição no cinema Nimas, em Lisboa. «Deixa Chover», o mais recente filme de Agnès Jaoui, vem um pouco na continuidade da obra anteriormente referida já que é de um retrato da França e dos franceses eternamente presos a uma certa irredutibilidade do destino que se trata.



A história apresenta-nos três personagens principais que se passeiam à deriva pela tela na busca que empreendem sobre qual é afinal o peso dos sentimentos e da herança do passado em cada um e naquilo que pretendem para o seu futuro. Sem exagero, dir-se-ia que quando o documentarista decadente Michel (Jean-Pierre Bacri), o seu assistente filho de argelinos radicados em França Karim (Jamel Debbouze) e a escritora e activista Agathe Villanova (Agnès Jaoui) partem para uma pequena cidade do interior nunca mais regressarão ao que era o ponto de partida das suas vidas.



Nesta busca iniciática, Agathe aventura-se pelo mundo da política na sua terra natal e aproveita para ajudar a irmã, por sua vez dispersa num casamento que a reprime, a organizar as coisas da mãe de ambas falecida um ano antes. Os dois documentaristas acompanham-na no intuito de realizarem um trabalho sobre Agathe Villanova, a escritora, a activista feminista, a mulher política. Sempre com a França como personagem secundária mas omnipresente, a mulher percebe que tudo aquilo por que se tem empenhado a tornou numa pessoa decidida mas autoritária e antipática ao olhar alheio, o que a magoa intimamente. Inclusivamente, vê perigar a sua relação com o homem que ama. Karim, por sua vez, vive as humilhações próprias de um descendente de argelinos observando o resultado patético do trabalho de documentarista de Michel quando, por mérito próprio, deveria ser ele mesmo a coordenar a equipa. Em boa verdade, aquilo que se observa é uma clara e fiel representação da vida. E isso é algo que o cinema francês sempre soube fazer de modo exemplar.



«Parlez-Moi de la Pluie», título original do filme, não é mais que a alusão a um poema – «L’orage» – cantado por Georges Brassens. E neste jogo da verdade e da vida busca-se referências poéticas ligadas às recordações de infância e aos amores de acentuada impossibilidade. E na perfeição dos diálogos e representação sem mácula dos actores surge em pano de fundo um mês de Agosto incaracterístico onde reinam o frio e a chuva. Mas, citando Fernando Pessoa, ‘Deus quer, o homem sonha e a obra nasce.’ E isto no filme significa que há sempre a possibilidade de arrepiarmos caminho ou de nos enchermos de coragem para abraçarmos aquele projecto, aquele amor que tanto medo nos dá mas que tanto desejamos para nós. Tudo se resume afinal a uma questão de escolhas. E já que falamos de escolhas, «Deixa Chover» é cinema sério, é a vida passada na tela e é uma boa escolha de cinema para apreciadores do género.



Deus sabe quanto amei







Em 1958 Vincente Minnelli realizou o filme «Deus Sabe Quanto Amei», com Frank Sinatra e Shirley McLaine nos principais papéis. A dada altura, Dave, a personagem corporizada por Sinatra, lê um livro a Ginny (Shirley MCLaine) mas acaba por se sentir incomodado com a incapacidade desta em perceber a história. No entanto, Ginny desarma-o respondendo-lhe na sua enternecedora sinceridade :



'Não, não percebi nada do livro, mas gostei. Também não te percebo e gosto tanto de ti.'



Sempre achei esta frase formidável. Não apenas pela honestidade intelectual e afectiva de alguém como pelo efeito que este comportamento aparentemente simples mas tão revelador de si tem no outro. No fundo, aqui se prova que existe no ser humano uma eterna sedução pelo insondável e pelos pequenos e grandes mistérios da personalidade que fazem cada um de nós tornar-se mais ou menos cativante segundo o olhar de quem nos observa. E não existe nenhum outro jogo de sedução tão eficaz como este em que nos expomos ao outro com espontaneidade e sem artifícios. E é esta extrema capacidade para filmar a mais pura e recôndita essência humana que fez do filme de Minnelli uma obra intemporal

Sherlock Holmes







O Sherlock Holmes de Guy Ritchie: Os músculos no lugar dos neurónios





Para quem seja fã do Sherlock Holmes que Sir Arthur Conan Doyle trouxe para o mundo da literatura e dos detectives, esqueça este «Sherlock Holmes» do realizador britânico Guy Ritchie. Porque o introvertido mas arrogante e cerebral Holmes que habita o Nº 221 da Baker Street, em Londres, transformou-se num herói de acção, musculado e lutador entre outros atributos físicos que se sobrepõem às suas excepcionais capacidades dedutivas. Facilmente será pois de concluir que o filme do britânico que realizou em 2000 «Snatch – Porcos e Diamantes», na minha opinião uma das melhores comédias de sempre, e que fizera recair sobre si os olhos dos cinéfilos de todo o mundo com a sua longa-metragem inaugural «Um Mal Nunca Vem Só» (1998), chutou para canto a personagem da literatura que dá nome ao filme e criou uma outra fruto do seu espírito inventivo e dos argumentistas ao seu serviço.



Poder-se-ia mesmo falar em publicidade enganosa não fosse dar-se o caso de andar pelo filme um tal de Dr. Watson (Jude Law) fiel ao original e ao seu amigo Holmes (Robert Downey Jr.) e a igual presença do pobre Inspector Lestrade (Eddie Marsan) que surge como o irremediável polícia incompetente e apalermado perante a destreza mental (e física) do seu rival da investigação privada. Também a predilecção pelo boxe por parte de Sherlock Holmes (e tão do agrado de Ritchie) e a sua paixão pelo violino não são esquecidos pela realização, o que traz ao filme um pouco do aroma dos livros.



A história inicial anda à volta dos assassinatos de belas e jovens virgens por parte de um tal Lord Blackwood (Mark Strong) com recurso à magia negra e desenvolve-se em redor de uma organização secreta com fundações no mundo da política a que o assassino aspira presidir. Pelo meio, a bela Irene Adler (Rachel McAdams) traz para a trama o elemento feminino, ela que é uma mulher atraente mas sinuosa que dribla o desejo que o detective Sherlock tem por si enganando-o sem dó nem piedade sempre que existe essa possibilidade apesar de ser o indefectível amigo Watson de quem Holmes não prescinde de modo algum. E que o diga a bela Mary (Kelly Reilly), a resistente noiva do médico antigo combatente de guerra.



Em resumo, aquilo que Guy Ritchie apresenta aos espectadores não passa de entretenimento puro e duro. Uma opção concepcional que resulta a espaços mas que acaba por se tornar aborrecida em certos momentos devido ao uso e abuso do estardalhaço mais de acordo com um espectáculo pirotécnico do que com um filme de bandidos, polícias e detectives de finais do Séc. XIX e inícios do Séc. XX. E se o espírito de Arthur Conan Doyle surge um pouco arredio da sua realização, já o seu próprio estilo muito mais adequado para filmar o submundo britânico em detrimento de dar a conhecer as aventuras de um investigador extraordinariamente inteligente mas arrogante em igual medida, acaba por vir ao de cima. Sobretudo nas cenas de luta, com especial ênfase no boxe e em alguns slow-motion a antecipar o decurso das cenas. É justo frisar ainda que o elenco no activo não terá defraudado as expectativas do peculiar realizador, com destaque especial para Jude Law. Parece-me no entanto muito pouco para uma super-produção que se usou de uma das personagens míticas da literatura policial para obter logo à partida um sucesso mediático que esteve longe de concretizar.







«Sherlock Holmes», de Guy Ritchie, com Robert Downey Jr. e Jude Law





Avatar





O Triunfo do Amor





Ao escrever sobre «Avatar» sinto-me desde logo enredado num conflito entre a razão e a emoção. Porque se em termos emocionais quero ser simpático com a mais recente super-produção de James Cameron, em termos racionais sou obrigado a distinguir o que é verdadeiramente espectacular e o que fica muito aquém daquilo que seria desejável. Porque se «Avatar» é inatacável no plano técnico atingindo uma beleza plástica que transporta o espectador para um espectáculo visual quase sem precedentes, já no aspecto argumental o filme não passa de uma amálgama de lugares-comuns. Dir-se-ia que James Cameron, que para além da realização assinou o guião do filme, se preocupou em demasia com a magia técnica – que também é uma das principais características do cinema – esquecendo um pouco as suas personagens, pouco trabalhadas porque demasiado vistas noutras vertentes, e a história toda ela absolutamente previsível. Ainda assim, o filme tem um indiscutível trunfo na questão argumental: consegue fazer com que o espectador tome partido, com que este entre na história. E esse já é um mérito relevante que joga a seu favor.



Jake Sully (Sam Worthington) é um antigo fuzileiro que se encontra incapacitado numa cadeira de rodas mas que é lançado para uma missão num planeta distante habitado pelos Na’vi substituindo o seu irmão entretanto assassinado. A sua missão, sob as ordens da cientista Grace (Sigourney Weaver), é a de procurar estabelecer relações diplomáticas com o povo indígena assumindo para o conseguir uma transmutação física que o torna igual a estes. Apesar das boas intenções, Jake tem alma de fuzileiro e acaba por estabelecer um acordo com o Coronel Miles (Stephen Lang), um militar empedernido, dando-lhe informações preciosas que irão permitir que este lance um ataque bélico que em momento algum pretendeu evitar. Mas como nestas coisas o coração manda mais que a razão, Jake caba por se apaixonar por Neytiri (Zoë Saldana), uma Na’vi pertencente ao clã dominante. Mas, fatalmente, o choque de civilizações acontece e Jake vai procurar refazer aquilo que ajudou a destruir.



A partir daqui tudo acontece de acordo com os livros, se é que me faço entender. Destaco no entanto dois momentos fundamentais no decorrer do filme. Um deles tem a ver com todo o percurso de autoconhecimento de Jake junto do povo Na’vi. É por esta altura que o amor acontece e é também nesta fase que o espectador começa a identificar-se e a tomar partido por uma civilização muito ligada ao misticismo e à natureza. O outro momento a destacar está ligado ao feroz ataque movido pelo Coronel Miles, ele que é um militar de corpo inteiro, excessivo e verborreico como convém, um brutamontes de carreira. E como não é homem para brincadeiras quer terminar a batalha antes que anoiteça para poder voltar e jantar calmamente em casa. O grau zero em termos de originalidade atinge aqui um ponto alto. É que talvez o filme tivesse um outro tipo de aceitação ao nível intelectual e mesmo emocional se em vez das barbaridades próprias dos líderes militares a tentarem incentivar as suas tropas Miles fosse um homem dividido entre o dever e a razão declamando poesia enquanto mandava chacinar toda uma civilização. Assim não e restam como muito positivas a verdadeira espectacularidade do cinema em 3D e a prestação regular de todo o elenco. Do que não pode restar qualquer dúvida é que este é um filme a ver. No cinema e em 3D. Se assim não for, arrisco mesmo afirmar que será tempo perdido.





«Avatar», de James Cameron, com Sam Worthington, Zoë Saldana, Sigourney Weaver e Stephen Lang

O Fabuloso Destino de Amélie [2001]


















Amélia dos olhos doces




Desculpem tão rebuscada citação, mas Voltaire disse um dia que "a delicadeza é para o espírito aquilo que a graça é para o rosto". E Voltaire não teve a felicidade de conhecer Amélie, Amélie Poulain. Amélie, essa, tem um sorriso garoto a baloiçar-lhe nos lábios, um olhar meio malandro a observar o mundo que a rodeia como se a cada momento se preparasse para pregar uma partida a alguém. Vê tudo através de uns olhos grandes, enormes, do tamanho das fantasias que lhe invadem constantemente o cérebro.

No princípio foi assim: Amélie teve uma infância infeliz. Vítima de uma enfermidade que afinal não tinha mas que lhe fora erradamente diagnosticada, a pobre viveu uma meninice arredada do convívio com as outras crianças. Perdeu a mãe e acabou por perder também o pai. Uma porque morreu e o outro porque não quis mais a vida. Jean-Pierre Jeunet, o realizador, começa o seu filme muito ao jeito de «Magnólia», assentando a génese da narrativa num processo resultante do efeito dos acasos que se conjugam formando estranhas coincidências.

Depois: não, uma infância infeliz não tem necessariamente que originar um adulto amargurado. E Jeunet inicia sob este pressuposto uma áurea de teórico positivismo sobre a vida e seus cambiantes que não mais abandonará até final.

E também: falei aqui de Voltaire, chamo agora a este comentário Oscar Wilde. Este afirmou, grosso modo, que "o egoísta não é o que vive como quer mas o que exige que os outros vivam como ele quer". Certo, Sr. Wilde, mas reparo que depois o senhor afirmou também que "o altruísta é aquele que deixa os outros viverem sem interferir nas suas vidas". Errado, nada de mais errado, prova-nos Amélie Poulain.

«Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain», no seu título original, é um filme longe do tradicional rumo do cinema francês. E também do cinema europeu o que eventualmente terá acarretado sobre si o ostracismo do Festival de Cannes. Por vaidade e presunção? Simples incompetência analítica? Talvez não uma ou sequer a outra, uma mera disfunção crítica, quem sabe, um erro crasso, acredito, uma grande injustiça, não duvido. Longe do habitual realismo tão obscuro quanto pessimista do citado cinema europeu, este filme evoca um certo imaginário infantil aqui transportado para a nostalgia de que são formadas as memórias dos adultos. Um filme onde se cruzam histórias de uns, os da ficção, que se fundem nas de outros, os da realidade. Histórias filmadas muito a propósito no típico bairro parisiense de Montmartre. Um filme que é um tributo à cor e à alegria, imensamente rico nas variadas personagens que o percorrem. Personagens de ficção copiadas da realidade que vivem as suas vidas de forma quase resignada, incapazes da ambição da verdadeira felicidade. É Amélie quem se intromete nessas vidas e lhes procura, por vezes com tão pouco, dar um novo sentido. E, embrenhada em tarefas altruístas, nem se apercebe como ela mesma receia dar esse passo na sua vida, como ela mesma tem medo de ser feliz.

E é assim que decorre uma das mais interessantes comédias do cinema francês toda ela passada num clima impregnado de fantasia e brilho. Um filme tecnicamente excelente, recheado de efeitos especiais que permitem um estado de espírito estranho pela suave tranquilidade que a sua visão transmite. Diria ainda que é um filme baseado em bons princípios, em pequenas coisas de que às vezes julgamos poder prescindir no dia-a-dia mas que poderão revelar-se essenciais ao equilíbrio emocional de cada um.

Destaque para Audrey Tautou a actriz que protagoniza Amélie, já que o seu rosto cândido espelha as boas intenções do filme e o seu trabalho de interpretação é excelente. Destaque seguinte para a banda sonora que nunca esquece que é a Paris dos parisienses e não a Paris das capas de revista onde se desenvolve a narrativa. Destaque final, num filme intenso em personagens caricaturais, para aquele indivíduo meio esquizofrénico, meio paranóico, que vive numa das mesas do café onde Amélie trabalha. Um tipo que se entretém a destruir as suas relações amorosas registando num pequeno gravador suspeitas em forma de delírios. Hilariante, no mínimo.

Por vezes sabe bem ver um filme assim.




«O Fabuloso destino de Amélie», de Jean-Pierre Jeunet, com Audrey Tautou e Mathieu Kassovitz



Filme: New York, I Love You









Amar em Nova Iorque



O amor é e será sempre a maior fonte de inspiração para poetas, escritores, músicos e… realizadores de cinema. «New York, I Love You», filme em exibição nas salas de cinema, é mais um exemplo dessa inevitável realidade. O amor promove a mais comovedora felicidade mas também pode tornar-se num sentimento de dolorosa vivência. E pode muito bem acontecer de forma imprevisível numa só noite, durante uma tarde, ou apenas em um dia que não se repetirá. Mas o amor também acontece por toda uma vida. E será chegado o momento, na velhice, em que o carinho e a companhia que os dois elementos do casal se oferecem são os elementos mais importantes. Estes serão afectos simples dentro de um sentimento gigante, mas, no entanto, são elementos fundamentais para quem os vive. O amor pode ainda ser brando, ou intenso, lancinante, angustiante, apenas satisfatório, afortunado, belo. E em todas estas imagens - de um amor efémero ou duradouro, de um amor simplesmente sonhado - do amor que se vive ficará para sempre a memória de quem o viveu.



«New York, I Love You» mostra-nos precisamente as várias faces do amor numa cidade repleta de povos, plena de gentes das mais diversas origens e culturas, de seres humanos que amam como quaisquer outros. Isto, embora coexistam entre si os mais diversos contrastes numa cidade que parece albergar o mundo. Realizado por vários nomes do cinema, entre os quais a estreante Natalie Portman que também protagoniza uma das histórias, o filme surge pela mão do produtor Emmanuel Bebihy, que se mudou da cidade luz para a cidade que não dorme, e vem na continuidade do êxito de «Paris Je t’Aime». E durante a pouco mais de hora e meia que a fita dura, vemos desfilar perante nós a alegria e a tristeza, a felicidade e a busca dela, a ansiedade e o descontentamento, a entrega e a procura. Observamos também como a hesitação acaba por arriscar impossibilitar o amor, e, quem não o vivenciou já, como a alegria anda de mãos dadas com a dor. Comodamente sentados na sala de cinema, somos levados a sentir alguma inquietude ao arriscarmos viver na pela as histórias dos diversos amantes. Imaginamos o que nos aconteceu no passado, como estamos a gerir o presente, mas também naquilo que poderá tornar-se o futuro dependendo das opções que tomarmos para ele. E ao racionalizarmos a questão do amor, estamos também a senti-lo. A sentir o amor mas também o filme. E o cinema, que nos proporciona momentos únicos de emotividade.



O filme homenageia o realizador Anthony Minghella, inesperadamente falecido já durante este ano. E quis o destino que uma das histórias mais tocantes das várias que vemos desfilar na tela, fosse precisamente aquela que Minghella deixou escrita. Num velho quarto de hotel, uma cantora lírica (Julie Christie) volta a Nova Iorque para recordar e, quiçá, exorcizar fantasmas do passado. É recebida por um criado aleijado (um extraordinário Shia LaBoeuf) que faz de tudo para a manter feliz e confortável orgulhoso de hóspede tão digna. Momentaneamente, as violetas tornam-se numa personagem do filme e a ambiência que se vive caracteriza-se por uma melancolia estranhamente suave. Entre uma taça de champanhe que comemora a felicidade do regresso ao hotel e uma brisa fresca que obriga ao fecho da janela do quarto, o drama acontece. Ou a memória dele. O resto é para descobrir no filme, mas diga-se que este segmento se designa de «Hotel Suite» e foi realizado por Shekhar Kapur, tendo ainda a participação do actor John Hurt. Durante o desenvolvimento da história, é quase impossível não deixar de sentir um arrepio na espinha. Entre a nostalgia de Isabelle (Julie Christie), os olhos tristes de Jacob (Shia LaBoeuf) e a resignação amargurada da personagem de John Hurt, suspeitamos que algures na vida das personagens o amor foi interrompido pela presença da morte. E, inevitavelmente, a tristeza apodera-se também do espectador.



Para finalizar, refira-se que o filme é constituído por uma matriz de narrativas. Mas o tema central, o amor, as relações amorosas, acaba por se unir nas diversas histórias ao local singular onde tudo acontece, a cidade de Nova Iorque. E nesta unidade de estilo, nesta recolha de vidas, decorre também parte importante da nossa. Porque é de pessoas que o filme fala. De pessoas como nós, de pessoas tão perto de nós. A não perder.
















«New York, I Love You», de Jiang Wen, Mira Nair, Shunji Iwai, Yvan Attal, Natalie Portman, Brett Ratner, Allen Hughes, Shekhar Kapur, Fatih Akin, Joshua Marston, Randy Balsmeyer, com Bradley Cooper, Hayden Christensen, Andy Garcia, Rachel Bilson, Natalie Portman, Irrfan Khan, Orlando Bloom, Christina Ricci, Maggie Q, Ethan Hawke, Anton Yelchin, James Caan, Julie Christie, John Hurt, Shia LaBeouf, Chris Cooper, Robin Wright Penn, Eli Wallach e Cloris Leachman

My Blueberry Nights – O Sabor do Amor





Postais da América

Para quem tenha visto «Chungking Express» (1994) mas, sobretudo, «In the Mood for Love» (2000) reconhece imediatamente em «My Blueberry Nights – O Sabor do Amor» as sedutoras fragrâncias do cinema do chinês Wong Kar-Wai. Pode então dizer-se que este novo filme de Kar-Wai é cinema de autor? Pode, mas na minha opinião não deve. Fazê-lo seria diminuir a dimensão dramática do filme que importou para o cinema a cantora jazz Norah Jones. E em boa hora o fez.



Se lerem em algum lado que «My Blueberry Nights» é um filme imperfeito, acreditem. Se vos disserem que a vida não é perfeita, acreditem também. Se alguém vos confidenciar que cinema é muitas vezes o retrato fiel da vida, acreditem ainda. Porque é precisamente da vida que falamos no filme em que partindo de um bar em Nova Iorque onde desabafa intimidades com Jeremy (Jude Law), Elisabeth (Norah Jones) resolve reinventar-se. Como mulher e como pessoa. E parte sem destino determinado e tempo definido. Fá-lo ao jeito de confissão para Jeremy mas redireccionando para os espectadores do cinema de Wong Kar-Wai singulares postais da América. Singulares porque ilustram os locais por onde vai passando através das gentes que em nome da sobrevivência se enganam a si mesmas procurando mostrar uma adaptação que estão longe de alcançar a um mundo que em boa verdade lhes é adverso (personagem de Natalie Portman) ou fugindo do amor que desejam mas cuja força são incapazes de suster (personagem de Rachel Weisz).



Pela sua impossibilidade, mais uma vez a realização de Wong Kar-Wai filma a dimensão trágica do amor. Neste caso, do amor entre um homem e uma mulher mas também do amor filial de uma filha por um pai. E enquanto comboios cruzam a noite e os reflexos das luzes no escuro nos embalam para um universo de encanto e tentação, a banda sonora da responsabilidade de Ry Cooder permite-nos o toque final no arrebatamento pelo filme.



Pelo magnetismo da sua interpretação Norah Jones tem um início de carreira auspicioso, Rachel Weisz apresenta-se na tela mais bela que nunca, David Strathairn compõe um polícia amargurado pela infelicidade no amor, Natalie Portman revela um lado frenético e intranquilo que não se lhe conhecia na enganosa segurança da sua personagem e Jude Law arranca uma prestação irrepreensível. Sem excessos, sem se colocar em bicos de pés, ele está lá e é peça fulcral no desenlace do nó que Kar-wai concebeu. Ele que aguarda tranquilamente pelo amor na prolongada espera por Elisabeth.



E é neste itinerário percorrido por almas à deriva, neste plano geral de vários postais ilustrados, que se fez um quadro único em que Wong Kar-Wai reproduz o sabor do amor. E se ouvirem dizer que «My Blueberry Nights» é isto ou aquilo, não acreditem. Não vão por aí, sigam em alternativa o caminho de uma sala de cinema e assistam ao filme, confiram por vós. No fim, corram a comer uma tarte de mirtilo. Pode ser o vosso dia. Quem sabe alguém decide limpar-vos os lábios de um modo muito especial!?





My Blueberry Nights – O Sabor do Amor, de Wong Kar-Wai, com Norah Jones, Jude Law, David Strathairn, Rachel Weisz e Natalie Portman

Fala com Ela





Emoção nas excentricidades do amor


A sala escurece e ao fundo o ecrã ilumina-se. O filme inicia-se com a imagem de uma sala de espectáculos onde se exibe Café Müller, com coreografia de Pina Baush. Disperso algures pela plateia um homem chora olhando os bailarinos em comovente interpretação. Não muito longe de si, um outro homem, este ligeiramente mais jovem, sustem o impulso de lhe falar, de lhe dizer o quanto o espectáculo também mexe consigo. Por esta altura, já os espectadores, não os de Café Müller mas sim os de «Fala com Ela», o filme de Pedro Almodóvar, se terão dado conta que estas são uma narrativa e uma realização em registo algo diferente do habitual no cineasta espanhol. Mas quando o filme terminar, novamente ao ritmo de Pina Baush e da sua muito cabo-verdiana Masurca Fogo, ficará a convicção emocionada de que Pedro Almodóvar amadureceu, cresceu como realizador.

Em todo o filme o que se revela de mais tocante é a afectividade que emana das diversas personagens, elas que agitam em nós a exteriorização das suas emoções. Para lá deste importante pormenor, existem igualmente duas diferenças fundamentais relativamente à anterior filmografia do realizador: as mulheres, habituais figuras de charneira nas suas histórias, passam a um papel de tácito protagonismo dando lugar de relevo aos homens; outra das diferenças, é a não introdução da vertente surrealista tão do agrado de Almodóvar. Isto, ainda que em «Fala com Ela» se possa continuar a falar de estranheza

O enredo aproveita muito da personagem de Benigno, um jovem cuja vivência se resume a cuidar das duas mulheres da sua vida: a mãe, entretanto falecida, e Alicia a bela jovem que um dia descobrira desde a janela da sua casa. Alicia dançava numa academia do lado oposto ao seu na rua onde vivia, e ele, Benigno, rendera-se à forma como esta irrompia na sala pisando suavemente o soalho. As dramáticas circunstancias da vida fariam com que Alicia um dia entrasse num coma dado como irreversível e Benigno fosse o seu enfermeiro. Ela era a bela adormecida e ele o príncipe encantado. Um príncipe pleno de amor por ela desejando acordá-la do seu sonho profundo. Entretanto, Benigno conheceria Marco na clínica, um argentino errante pelo mundo, escritor e jornalista, que fazia companhia à sua namorada, também ela em coma depois de investida pela bravura de um toiro numa tarde quente, seca e inglória em que seria apresentada de forma cruel aos riscos da sua profissão de toureira. Também Lydia fora bailarina por momentos. Mas Lydia dançara ao ritmo áspero dos cornos de um toiro e quedara prostrada no solo empoeirado da praça então tingido do vermelho do seu sangue. Nas bancadas, o público aficionado berrava o seu desespero e abafava os aplausos nervosos.

«Fala com Ela» acaba por transportar Pedro Almodóvar para um outro estágio de credibilidade artística dentro do panorama cinematográfico mundial. Apesar do Oscar que lhe fora atribuído por «Tudo Sobre a Minha Mãe» (1999), o realizador não se livrava de um certo estatuto de autor demasiado preso a excentricidades e devaneios surrealistas nas suas anteriores obras. Neste filme, o realizador não só pensa o seu cinema como o seu filme pensa questões pertinentes da nossa sociedade. De certo modo, pode dizer-se que existe no filme uma evidente modéstia de Almodóvar já que este é um cinema sincero em que o realizador deseja uma efectiva partilha com o espectador e não apenas chocá-lo. Mesmo o humor de que se socorre neste filme, fundamental para ponderar a comunicabilidade/incomunicabilidade nas relações sentimentais dos nossos dias, é um humor simpático, quase carinhoso, nada agressivo. Pedro Almodóvar esculpiu-se como realizador de cinema, pode dizer-se. Atingiu em «Fala com Ela» a liberdade criativa daqueles que já não necessitam chocar com o camuflado e simples objectivo de captar atenções sobre si mesmos.

Nesta obra, que aborda a par da solidão questões como a paixão, o ciúme e o desejo para acabar por se centrar na amizade entre dois homens, há ainda a realçar a irrepreensível prestação dos actores. Sem grandes artifícios visuais, nada como o desencanto de um olhar, a ternura de um gesto, a amargura de uma lágrima, a nostalgia de uma postura. E nisso todos os actores foram exímios o que só prova a famosa exigência com que Almodóvar obriga os seus actores a trabalharem os papéis que lhes cabem. Mas Almodóvar acaba por surpreender até em questões como gosto e identidade. Momento altíssimo do filme é a interpretação de uma versão de Cucurrucucú Paloma pelo brasileiro Caetano Veloso. Enquanto Caetano Veloso (en)canta e Marco se encosta a um cercado virado para olivais a perder de vista, nós vamo-nos emocionando com uma ambiência que nos é tão próxima. Se adicionarmos a isto a referência às touradas, ainda que muitos não as aprovem, elas que são parte fulcral da identidade cultural espanhola, «Fala com Ela» ganha o estatuto do mais exportável dos filmes espanhóis. E, para mim, o melhor Almodóvar de sempre num filme generoso e comovente.


«Fala com Ela», de Pedro Almodóvar