quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Allen Stewart Konigsberg






Ou seja, Woody Allen.



Sobre o seu «A Rosa Púrpura do Cairo» (1985), o cineasta declarou ter-se limitado a dar ênfase aos “encantos do imaginário em oposição à dor de viver”. Woody Allen é o realizador por excelência dos filmes protagonizados por anti-heróis com grandes dificuldades em adaptar-se ao mundo sobrevivendo à realidade enfrentando-a através de uma atitude de gozo de cariz masoquista. Mas o admirável no mais nova-iorquino realizador de cinema é a sua espantosa capacidade de fazer comédia a partir de conjunturas aparentemente banais do quotidiano dos homens e das mulheres mas que são afinal o ponto de partida para situações bem dramáticas na vida real.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Descartes e a infância de Cristina

[Seated Girl (Fränzi Fehrmann) - 1910, altered 1920 - Ernst Ludwig Kirchner]


Fui admitido na então escola primária já com sete anos. E apenas três meses depois já tomara contacto com a complexidade da filosofia de Descartes. Pedro era o melhor aluno da sala, lia como um sacerdote, falava como um sofista e sabia a tabuada de trás para a frente. Mas não jogava à bola connosco no recreio, não tinha uma fisga para partir as lâmpadas da rua onde vivia o Sr. Ambrósio - o aborrecido do nosso professor - e de tanta inércia física tornara-se muito pesado. Apesar das suas inúmeras qualidades, para nós o Pedro não existia. Pensava mas não existia. Ao invés tínhamos a Cristina, sempre tão sorridente, sempre tão afável, tão dada às nossas brincadeiras inocentes. Era linda como uma princesa saída do mais soberbo conto de fadas e não havia rapaz que não a desejasse mimar, beijar as suas faces rosadas, que não sonhasse com ela. Quando eu a olhava, me fixava naquele rosto rosado de saúde e de vida, sentia que me faltava o chão debaixo dos pés, que perdia o sentido das coisas e mal me aguentava nas pernas delgadas e compridas. Naqueles momentos, o mundo parava em meu redor e nele só cabia a Cristina. Não era muito boa aluna e tempos mais tarde teve até que repetir o terceiro ano. Não, não pensava muito, mas existia.




Tributo



Era um intelectual de fazer inveja, mas quem o visse de boné a tapar a calvície e jornal invariavelmente no bolso do casaco a subir a Avenida da Liberdade em direcção à Lusomundo ou uma qualquer outra avenida para mais um visionamento de imprensa dos quais era um dos mais assíduos, diria que era apenas mais um anónimo como tantos outros a deambular pela cidade. Enquanto esperava pelo início das projecções, falava acaloradamente de cinema de igual forma com novos e velhos, mais ou menos reputados. Idolatrava John Ford , era o mais antigo programador da cinemateca e integrava o quadro de críticos de cinema do «Expresso». Vai hoje a enterrar, mas o seu exemplo perdurará e os seus escritos e pensamentos sobre cinema não deixarão que alguma vez abandone o mundo dos vivos. Obrigado, Manuel Cintra Ferreira, até sempre.


A era do projecto


[Mental (Project?), Gilbert and George]




Há dias tive uma torneira avariada cá em casa. Telefonei a um canalizador meu conhecido e enquanto lhe passava o cheque para pagar o trabalho feito, o tipo esclareceu-me que teria que arranjar outra pessoa para este tipo de tarefas porque ele se tinha metido num projecto de exploração de um bar. Achei que me ficava bem e dei-lhe os parabéns. Na sexta-feira de manhã tentei marcar uma reunião de trabalho para 2ªfeira às cinco da tarde, mas a pessoa com quem eu preciso reunir não está disponível a essa hora porque se tinha metido num projecto de ginásio. Cumprimentei-o pela iniciativa e resignei-me a nova data para conversarmos. O Álvaro, que era o meu informático de serviço, desligou-se dos computadores porque finalmente conseguiu iniciar um projecto de teatro numa companhia independente. Desejei-lhe sorte, obviamente.

Não há a menor dúvida, vivemos na era do projecto.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A avó de alguém

[Imagem retirada da Internet]






O meu carro não estranha, percorre veloz o alcatrão da A1. Direcção sul, paro na área de serviço de Pombal, entro no restaurante. Assim que me encontro no interior do estabelecimento vejo uma senhora a olhar fixamente para mim. Vestes austeras, rosto sofrido, cabelos brancos bem cuidados, olhos cansados a lembrarem uma juventude perdida. Tem certamente mais de oitenta anos de idade, dirige-se para o local onde me encontro. E fala-me. Pedro, Pedro, por onde tens andado, filho? E lança-me o braço apertando com a sua a minha mão. Não, é confusão sua, eu não sou o Pedro, respondo-lhe. Ela retrai-se, dá um passo atrás, contempla-me dos pés à cabeça. Não és o Pedro?, balbucia entristecida. Não, tenho pena pelo seu engano, não sou o Pedro. Tento ser carinhoso, ela insiste. Não és o Pedro? E sabes onde o Pedro está?  Não tenho tempo de lhe responder, uma outra senhora, talvez uma irmã, talvez uma simples amiga, pede-me desculpa e sugere à senhora que partam. Fiquei a olhá-las e ao autocarro onde entraram até que este desapareceu ao longe na faixa negra da auto-estrada. Talvez a senhora fosse finalmente ao encontro do Pedro que tanto ansiava encontrar.

Crónicas de amor e ódio


[A modelo fotográfico Iga A. - Gosto de a ver trabalhar]



Tenho pouco tempo para me deixar ficar em puro estado de indolência. Estes raros mas muito agradáveis momentos de inércia normalmente dão-se entre as onze, onze e picos da noite e prolongam-se até por volta da uma, uma e trinta da manhã. Mantenho convicta e orgulhosamente a televisão desligada a não ser que a modelo fotográfico Iga A. se apresente ao serviço num qualquer desses canais por cabo. Por via disso, é nas páginas da Internet que a minha vigilância se vai perdendo numa sonolência que me leva à cama e ao dia seguinte num upgrade de força e motivação que me faz encarar a vida com um renovado sorriso de esperança na espécie humana, na preservação da flora, na pujante vida animal, num Benfica novamente dominador ou até em ti mulher bonita que me lês algures em Mountain View, Califórnia, e inundas os gráficos do ‘Sitemeter’ aqui da casa. E nas várias leituras que faço, choca-me como alguns homens e mulheres, sobretudo elas, se entretêm a destruir a gloriosa memória de amores que se desvaneceram mas que num tempo definido das suas vidas os fizeram rejubilar, sonhar, viver. O amor não o merece por muito que as pessoas mudem. E um dia haverá em que todos iremos olhar para os dias então longínquos em que viajámos nos braços da paixão para constatarmos que valeu a pena. E é bom que celebremos a alegria mesmo que agora, como eu dizia, se perceba que para alguns a tristeza ande tão próxima da raiva.

A história por detrás da lenda




Para além do momento da concepção da maior rede social do planeta, «A Rede Social», de David Fincher, é o relato dramático de uma tragédia pessoal: a de um rapaz que tem tudo a que não dá importância, o dinheiro,  a sagacidade de uma mente invulgarmente capaz e um poder quase sem limites, mas que perde provavelmente aquilo que o faria mais feliz: o seu único amigo real e Erica, a sua namorada. Fincher constrói ainda um filme onde estão bem patentes a amizade, a traição, a desolação e a alienação que acompanham o mais jovem multimilionário do mundo, precisamente Marck Zuckerberg, o criador do Facebook essa tal rede virtual de amigos de vertiginosa propagação universal.

Crítica completa a «A Rede Social» no «Porto de Escala»

A Rede Social



Mark Zuckerberg
Adicionar como Amigo


«A Rede Social» fala-nos do momento da concepção da maior rede social do planeta, o Facebook. Só este pormenor, por si só, seria catalisador da atenção de milhões e milhões de utilizadores de tão importante plataforma digital, mas, ao mesmo tempo, colocava o realizador David Fincher perante um problema de aparente difícil resolução: como iria este contornar a questão de dar algo mais aos espectadores de cinema que a muita informação sobre Marck Zuckerberg (o autor da rede) e sobre o próprio Facebook já disponível um pouco por toda a parte? Mas a primeira resposta a esta dificuldade foi dada por Aaron Sorkin, o argumentista, que embora se tenha baseado na obra «The Accidental Billionaires», de Ben Mezrich, trabalhou os dados muito à sua maneira com vista à obtenção de um objectivo final, a satisfação dos espectadores. E sem desvendar já tudo, a solução está aí e agradará provavelmente a todos aqueles que apontam o dedo a muitos dos utilizadores da Internet: pelo que o filme mostra, Zuckerberg é para Sorkin um jovem com dificuldade para se relacionar socialmente, de genialidade obsessiva e vingativo. No entanto, entre a verdade dos factos e aquilo que é a dramatização ficcional dessa realidade, está aí um filme poderoso que não deve deixar de ser visto por quem quer que seja, utilizadores ou não do Facebook.
David Fincher tem somente 48 anos de idade mas possui já no currículo alguns dos filmes da vida de muito boa gente («Sete Pecados Mortais» 1995, «Clube de Combate» 1999 e  «Zodiac» 2007 estão nesta lista) assim como outros títulos não menos importantes («Allien 3» 1992, «O Jogo» 1997, «Sala de Pânico» (2002) e «O Estranho Caso de Benjamin Button» 2008). Daí que deste americano nascido no Colorado se espere sempre o melhor. E com «The Social Network», no seu título original, Fincher constrói um filme onde estão bem patentes a amizade, a traição, a desolação e a alienação que acompanham o mais jovem multimilionário do mundo, precisamente Marck Zuckerberg, o criador do Facebook essa tal rede virtual de amigos de que todos falam e de vertiginosa propagação universal.
Há no entanto uma história de vida por detrás da lenda. E essa, a história de vida, começa precisamente quando Erica (Rooney Mara) diz a Zuckerberg (Jesse Eisenberg) que um dia ele irá ficar sozinho por ser um cretino, enquanto prepara ela mesma o rompimento da relação que até então mantinha com o jovem. Daqui para a frente, através de fragmentos dos diversos acontecimentos e até à consolidação de Zuckerberg como o genial criador do Facebook, Fincher conduz a câmara à velocidade da inteligência superior do estudante de Harvard sem nunca esquecer a estranheza e complexidade da sua personalidade. E mais do que dar a perceber que a chave para um bom negócio é a correcta identificação das necessidades das pessoas ou que as elites reagem com agressividade quando vêem o seu poder ser colocado em causa, «A Rede Social» de David Fincher é o relato dramático de uma tragédia pessoal: a de um rapaz que tem tudo aquilo a que não dá importância, o dinheiro,  a sagacidade de uma mente invulgarmente capaz e um poder quase sem limites, mas que perde provavelmente aquilo que o faria mais feliz: o seu único amigo real (um excelente Andrew Garfield) e a já citada Erica, a sua namorada.
Será que o criador do Facebook é aquele rapaz que quase sem fazer por isso ou mesmo involuntariamente se revela um autêntico cretino? E que apesar do seu brilhantismo é um jovem solitário incapaz do amor e da amizade? Ou será que os criadores de «The Social Network», nomeadamente o seu argumentista, quiseram através de Marck Zuckerberg caracterizar uma comunidade que ama e faz amizades tanto quanto destrói relacionamentos à distância de um clique? São perguntas necessárias intelectual e emocionalmente mas que para o deve e haver final nas contas do filme pouco importarão. Até porque estes foram factores importantes para que este seja um filme fácil de se gostar. É que na sua desorientação perante algo que criou mas cuja realidade parece ultrapassá-lo, Zuckerberg acaba por se revelar um ser humano como qualquer outro.Apesar dos muitos amigos no Facebook, frágil perante a solidão que o envolve. E a pergunta final é óbvia, por acaso será que alguém conhece por aí uma história parecida com esta?

«The Social Network», de David Fincher, com Jesse Eisenberg, Andrew Garfield, Justin Timberlake e Rooney Mara



sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O velho e o mar







Poucos serão os que não conhecem a obra-prima de Ernest Hemingway, «O Velho e o Mar». Nesse pequeno livrinho onde se conta a história de um pescador cubano a pescar sozinho, e há mais de oitenta dias sem conseguir um único peixe até que se depara com um enorme peixe-espada, a narrativa é tão simples e ao mesmo tempo tão cativante que o desespero de ambos na luta pela sobrevivência, peixe-espada e pescador, acaba por se tornar num espantoso ensaio sobre a condição humana. E à chegada ao porto não é difícil imaginar a ambiguidade do sorriso do velho e pobre pescador, ele que dominou a sua presa mas dela lhe restaram apenas o rabo, a espinha e a cabeça. Apesar do seu dramático triunfo, Santiago sorri na inevitabilidade daquilo que faz e que é, afinal, a razão para continuar a sentir-se útil, vivo. E não é por acaso que durante o seu isolamento nas águas do golfo em busca do sustento, o velho homem questiona a sua condição de pescador para logo a seguir concluir que nasceu para aquilo mesmo. E essa é muitas vezes a diferença entre a literatura e a vida. Porque na literatura mesmo os homens e mulheres que falham o fazem perseguindo o seu destino. E são, de certo modo, pessoas felizes porque fazem aquilo para que desde sempre se sentiram predestinadas. O facto faz-me pensar na vida real, aquela que vivemos fora dos livros. Porque muitas vezes criado pelos próprios, um conjunto de condicionantes obriga a que muitos de nós vivamos e trabalhemos bem longe daquilo que nos faria de certo pessoas bem mais realizadas. E, já agora, mais felizes.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Do grave que é e das perguntas à queima-roupa

[Gas - 1940 - Edward Hopper]


Enquanto esperava a minha vez de pagar o combustível, uma mulher de cerca de trinta anos dirigia-se ao caixa em tom lastimoso queixando-se de mais uma semana de trabalho que estava difícil de terminar. Sentindo a minha presença, olhou na minha direcção e mesmo sem me conhecer de lado algum perguntou-me se haveria coisa pior. Respondi quase sem a olhar e sem pensar muito: 'sei lá, um grave edema pulmonar!?' Ficou calada. Aparentando um ar desconfiado, deu meia volta e saiu para a rua. Estou certo que concordou comigo.


quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O preço



[O escritor Philip Roth]





Leio algures num sítio da blogosfera uma citação de alguém que diz que jamais devemos justificar-nos; isto porque os nossos inimigos recusam-se a acreditar-nos e os verdadeiros amigos não precisam (de justificações)’. Este pensamento leva-me até um livro maior de Philip Roth, «A Mancha Humana». Pela obra vagueiam duas personagens a reinventarem-se por força da rejeição da sociedade em que estão inseridos. Uma, Coleman Silk, procura libertar-se do estigma racial engendrando para si uma nova identidade; e outra, Fauna, procura na relação amorosa com Silk uma nova oportunidade de redenção e esperança. Não seria necessária a leitura do livro para perceber que algo do género possui um risco elevado de insucesso e de trágico. Daqui se conclui que a única forma de lutar contra a hipocrisia residirá na busca por fazer prevalecer a verdade do que nos individualiza como seres humanos. Mas não sejamos ingénuos, seja qual for a opção que se tome haverá sempre um preço a pagar.

Herói sem Estrela



Julgo que tinha acabado de chegar à idade adulta quando tive a feliz oportunidade de assistir em sessão privada a «O Comboio Apitou Três Vezes». Desde então, uma cena do filme – um western com uma carga psicológica profunda e de certo modo em rompimento com os cânones de então do género – ficou-me retida na mente através do profundo respeito que senti pelo Xerife Will Kane.



Kane é o Xerife da cidade de Hadleyville. São 10.30 da manhã e no comboio prestes a chegar à cidade viaja um fora-da-lei anteriormente condenado à prisão através da sua acção de agente da autoridade. Enquanto os figurões do pequeno burgo e restante população se acobardam e abandonam o local, um irmão e dois cúmplices já aguardam na estação pela chegada do bandido sedento de vingança. Só, tremendamente só, Kane desobedece aos apelos até da própria mulher e decide enfrentar o perigo. Ás 12.15 horas já tudo acabou tendo conseguido derrotar os marginais. À vista da cidade que acorre a si para o felicitar, Kane, impassível, silencioso, retira do peito a estrela de Xerife e atira-a ao chão com sintomática indiferença renunciando ao cargo. E é este o momento chave do filme, a cena invejável para a qual é necessária uma coragem digna de um ser humano grandioso, o gesto que persiste em me invadir o subconsciente.



Naquele momento, ao atirar a estrela de Xerife ao chão e renegar o estatuto de herói, Kane demonstra toda a solidão de um homem a viver acima das suas forças em nome de um colectivo cobarde e oportunista que o não merece. O que Kane faz, no fundo, é retomar o seu papel na sociedade assumindo a fragilidade do ser humano incapaz de continuar a cumprir uma tarefa que o desgasta a si e que se revela apreciável apenas ao olhar alheio. Na altura vi o gesto de Will Kane como algo de exultante que me agitou ideais e fez rever preconceitos. Mas hoje, tantos anos passados sobre a primeira visão do filme, penso na personagem protagonizada por um Gary Cooper admirável e sinto-me pequeno perante a grandeza da sua atitude. Para agravar ainda mais a questão, observo como cada vez mais ridícula uma sociedade – a actual – onde este tipo de homens não tem lugar. O destaque de hoje, sabemo-lo bem, vai inteirinho para uma bem definida classe de vencedores.

Vermelho esbatido...

[A modelo Anna Friel]




...em vez de vermelho vivo.




A apatia começava a apoderar-se da equipa, nas bancadas muitos roíam as unhas, o ambiente no estádio já conhecera melhores momentos. O Benfica esteve a ganhar por quatro a zero ao Lyon e ganhava agora por apenas quatro a dois. A bola está junto à bandeirola de canto e o Benfica ganha um livre no seu ataque. Faltam um par de minutos para acabar o jogo. Como tinha sido derrotado em Lyon por dois a zero era importante que o Benfica tentasse o quinto golo para ficar em vantagem em caso de igualdade pontual com os franceses na classificação final do grupo. E aos 93 minutos de jogo não tinha nada a perder com o resultado que então se verificava. Entretanto, perante a estupefacção geral, o Benfica abdica de atacar, procura perder tempo junto ao vértice do campo mas perde a bola e sofre mais um golo. Ao meu lado, um miúdo de pouco mais de quinze anos leva as mãos à cabeça, por detrás de mim alguém grita impropérios ao árbitro, os benfiquistas engolem em seco, mas, por uma vez, o destino foi justo. Cada um obtém aquilo que procura. E Jorge Jesus viu premiada a sua falta de coragem ao não tomar aquela que até era a única atitude possível perante as circunstâncias dos dois jogos. Nos habituais empurrões à saída do estádio reina o silêncio, o passo é apressado, o dia seguinte é de trabalho e já poucos lembram os quatro golos marcados. Moral da história, ganhámos mas não nos sentimos felizes. E quando as vitórias têm um sabor amargo...


segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A pipoca mais doce


[A actriz Alicja Bachleda, que contracena no filme com Colin Farrell]




A cena repetiu-se. Fui ontem ao cinema ver «Ondine», de Neil Jordan. Um pouco por toda a sala sorvia-se Coca-cola por palhinhas e consumia-se pipocas em baldes coloridos. No final do filme, os colegas espectadores espalharam pipocas no soalho da sala. Desviei-me cuidadosamente para não estragar a sementeira.




*Crítica a «Ondine» no 'Porto de Escala»




Ondine



A senhora das águas

No cartaz de promoção a «Ondine», pode ler-se que ‘the truth is not what you know. Is what you believe.» A frase, intencionalmente poética no pensamento que encarna e sugere, é no entanto perigosa já que se alheia voluntariamente da verdade para se situar unicamente no campo das emoções. E isso seria desejável, e muito bom, se o mundo fosse um lugar onde a harmonia entre a fantasia e a realidade se solidificasse muito simplesmente num qualquer ideal de felicidade. Mas como não é assim e o mal existe, o pescador Syracuse (Colin Farrell) irá perceber que só poderá agarrar a vida caso ouse soltar-se definitivamente do enlevo embriagante daquilo em que quer acreditar mas que está longe de compreender.
Neil Jordan, realizador e argumentista de «Ondine», parece ter carregado no olhar a poesia inspiradora de uma terra rodeada pelo mar. Um mar de águas nem sempre calmas, muitas vezes revoltas,  mas um mar que se assume como uma componente incontornável do ser irlandês onde a música dos islandeses Sigur Rós se ajusta que nem uma luva ao estado anímico do filme. Um filme que desperta simpatia pela sua história até porque se revela invariavelmente contemplativo e nostálgico. Apesar de ter já realizado obras como «Michael Collins» (1996) ou «O Fim da Aventura» (1999), é em «Entrevista com o Vampiro» (1994) e «Breakfast on Pluto» (2005) que vamos encontrar as características a que aludo no modo de fazer de Jordan: o desenrolar de uma história aparentemente ilusória, mágica, sedutora,  mas que se vai tornando muito real através de um enredo simples que se constrói a partir do drama de cada uma das suas personagens. Neste caso, do drama do humilde pescador Syracuse, de Ondine (Alicja Bachleda), a mulher que literalmente ele pesca dos mares, e de Annie  (Alison Barry) a pequena filha do pescador a quem este dedica todo o seu tempo livre.
«Ondine» vê-se com o coração e sente-se através daquilo que os nossos olhos vão observando na tela. Desde a meteorologia rigorosa de um país de personalidade própria à vida dura de uma pequena cidade de pescadores,  à excelência das paisagens do noroeste da Irlanda até  à beleza de Ondine, a mulher que veio do fundo dos mares, e do amor que vai crescendo entre esta e Syracuse. E de modo necessariamente diferente, à forma como Ondine se vai agigantando na pequena Annie, ela que é uma menina com limitações relativamente às demais já que sofre de insuficiência renal. Por esta altura da fita, Ondine é para Annie somente uma personagem de conto de fadas.
Sim, «Ondine» é um conto de fadas moderno. Mas é também uma história de vidas que colhe frutos pela sua verosimilhança com a realidade. E para o seu êxito muito contribuíram as interpretações de Colin Farrell, solto de qualquer maneirismo ou vedetismo, e a forma como Jordan foi deixando que a verdade sobre a personagem de Ondine se fosse ocultando nos meandros da mitologia. E quando se trata de questões mitológicas, poucos as ousam negar embora todos desconfiemos delas. Um filme agradável, a ver sem expectativas de maior.

«Ondine», de Neil Jordan, com Colin Farrell, Alicja Bachleda e Alison Barry


O sentido da Vida

Todos o procuram. Há quem tenha o costume de o pesquisar nos livros, outros pensam encontrá-lo na magia do cinema, no Google, gente existe que faz dos sonhos o seu sentido da vida e também há por aí quem faça o inverso dando um sentido à vida correndo atrás do sonho. Outros nos dirão que é a família quem lhes confere sentido à sua vida. Ou o amor, até o trabalho.
Dias atrás experimentei investigar o sentido da vida no fundo de uma garrafa de tinto Tapada de Coelheiros, 14 graus. Como não consegui chegar a uma conclusão com aquela garrafa, fui buscar outra. Acabei enjoado e ainda mais confuso. Indisposto, decidi ir deitar-me na mais profunda ignorância.

Porto

[Torre dos Clérigos - Armando Aguiar]







Porto grave e sério



Caía uma chuva miudinha sobre o Porto, naquela noite.



Desde o hotel, com acento francês, em Gaia, conduzi o meu carro e deixei que deslizasse lentamente até quase metade da Boavista. Na Arrábida olhara a foz à minha esquerda, o beijo das águas do rio na boca do mar; lá ao fundo, à direita, altaneira, a Torre dos Clérigos, mais abaixo o Palácio de Cristal, a ribeira junto ao curso de água, e, centenária, férrea, ao longe a perder de vista, a Ponte de D. Luís, o casario em cada ponta dos dois tabuleiros. Distraído na contemplação de ti, Porto, ocupei duas faixas do pavimento enegrecido. Buzinaram-me. Uma, duas, três vezes, deixei de as contar, teriam sido quatro? Não, talvez fossem apenas três.



Na Boavista jantei no restaurante Cufra.



Foi acomodado nos seus bancos compridos, assentos vermelhos cor de vinho, que confortei o estômago e passeei o olhar pelas gentes em redor. Em redor vi gentes da gente do Porto, visitantes, convidados da invicta cidade, os funcionários trajados de azul, vi mulheres que entraram, mulheres que saíram, homens que saíram, homens que entraram, casais divertidos, silêncios escondidos, olhares retraídos, sorrisos francos, sorrisos de ocasião, copos cheios, uma mão na mão, copos de cerveja, bocas que mastigavam, copos vazios, francesinhas em vaivém incessante, ruídos abafados, uma televisão ligada. No futebol.



Aprendi a amar o Porto, a senti-lo de modo especial. Há algo de poético nas suas ruelas estreitas, nas calçadas gastas pelo pisar incessante de sapatos de saltos altos, rasos, meio salto, saltos gastos, novos, a luzir, cansados, desbotados. O Porto é uma cidade com história e de muitas histórias por contar. O Porto é grave e sério, como alguém escreveu e outro cantou. A cidade guarda no seu âmago o fogo vivo da excitação dos amantes das noites claras, bem regadas, chovia ontem, bebidas, noites animadas, era uma chuva miudinha a que caía; o Porto que vive com sofreguidão a correria do dia. Nas ruelas de luz bela e sombria, cantemo-lo. É uma cidade com alma, uma urbe misteriosa, sedutora de tão feliz na sua aparência triste e pesada. Porto empedernido, Porto de igrejas, museus e do vinho nas caves de Gaia.



No regresso ao outro lado, a neblina, a cidade a ajeitar-se nos lençóis dos seus residentes e hóspedes.



Já em pleno hotel, uma recepcionista sorriu pela enésima vez mostrando um sorriso dedicado, mas que - fiquei triste por ela - mais parecia retirado de um catálogo de vendas. Sim, fiquei triste por ela. Um elevador em queixume veio abaixo, foi acima, andar 7, piso da garagem, andar 12, restaurante buffet, andar 7 de novo, lobby. Carreguei no botão, levou-me do zero ao 14, agradeci-lhe, disse obrigado, a resposta surgiu num clique metálico de fechar de portas. No quarto ignorei a TV que me deu as boas vindas pelo meu nome próprio escrito em letra Bookman Old Style, deitei-me, falei longamente ao telefone, encostei a cabeça na almofada, senti o vazio, senti também que adormecia.



Adormeci.







Trechos da minha vida militar – Capítulo Primeiro









Nunca viajei tanto de comboio como quando cumpri o serviço militar. Certo dia o comboio travou bruscamente e parti um dente ao bater contra a porta dos asseios de uma carruagem muito pouco asseada. Esse triste episódio da minha vida militar teve duas consequências imediatas: fiquei a saber que andar de comboio não era bom para os dentes e deixei de confiar nos travões daquelas engenhocas sobre carris.


Trechos da minha vida militar – Capítulo Segundo



Fiz a recruta em Lisboa. À chegada ao quartel, no meu primeiro dia de tropa fui mal recebido por um mal-encarado tenente com ar de que todos lhe devem e ninguém lhe paga. Depressa percebi que gostava de cinema musculado e se julgava militar das SS nazis. Berrou-me e estranhei que o fizesse em português e não em alemão como seria natural. Soldado, deite-se, está cercado. Desconfiado olhei o tipo de soslaio e não mexi um músculo do corpo. O outro continuava a bramir. Como estava a chover pensei que era a isso que a ave rara se referia: estava cercado pela chuva. Como esta ameaçava não parar, fiz conversa e perguntei ao senhor tenente se sabia quanto tempo ia durar o clima invernoso. Parecendo não ter gostado da pergunta o oficial ajoelhou-se e começou aos tiros para o ar. Ajoelhei-me a seu lado e fingi disparar também. Atirei até à última munição.




Trechos da minha vida militar – Capítulo Terceiro







A minha semana de campo, na recruta, foi passada na Serra da Carregueira. Pelas árvores peladas percebia-se um Outono cerrado e o vento murmurava canções de embalar. Embalados também nós com dezenas de quilos de material bélico às costas, assentámos arraiais numa encosta virada para nenhures. Certamente que para me incentivar alguém me segredou que em exercícios anteriores um militar como nós tinha batido a bota num obtuso acidente com uma granada. Um descuido tinha feito explodir o artefacto junto à cara do pobre rapaz e a sua cabeça esmigalhada acabara transportada para a morgue no interior de um capacete. Tinha acabado de acontecer já que o acaso se dera sete anos atrás.



Nessa noite trovejou e choveu a cântaros e eu e mais dois dormimos numa tenda apenas com um cobertor a cobrir-nos e a água a escorrer-nos pelo corpo desde as fardas ensopadas. Estava agradável mas dormi apenas duas horas. Atribuí o facto à emoção do momento.







Trechos da minha vida militar – Capítulo Quarto









Acabei o período de magala com suave distinção depois de muito pintar a manta. Começáramos vinte e três em todo o pelotão mas acabámos apenas cerca de vinte e dois. Cerca de vinte e dois porque um de nós terminou incompleto já que perdera um pé num arreliador incidente com uma Berliet, esperando ainda no hospital o regresso a casa. E um outro, madeirense, conseguira ser deportado para a terra mais do Alberto João que dele.



Tive pena quando aquilo acabou. Quando um tipo começa a habituar-se às coisas agradáveis elas acabam de imediato. Ainda estive para dizer das boas ao comandante do pelotão mas achei que o sacana não iria compreender. Era um daqueles tipos com cabeça de martelo, diz-se, e nostalgia da guerra de África onde nunca tinha posto os pés. Lia muito bem, precisava apenas de aprender a compreender o que lia. Bradou-me um louvor à despedida que aproveitei prontamente para trocar por uma barra de chocolate na estação de Stª Apolónia.










domingo, 31 de outubro de 2010

Deixa-me Entrar




O menino e a vampira

O maior feito conseguido pela história de um menino de doze anos, solitário e introvertido que vive em permanente humilhação por um grupo de colegas de escola e da pequena, estranha e misteriosa Abby no filme realizado por Matt Reeves, acaba por ser a prova contundente da existência de uma indústria de cinema em Hollywood. Uma fábrica de fazer filmes que não pode parar, mas onde o dinheiro abunda na mesma medida em que faltam as ideias. De facto, o livro escrito por John Ajvide Lindqvist fora recentemente adaptado ao cinema num filme sueco realizado por Thomas Alfredson. E o que se conclui é que apesar da reverência ao original, de um evidente bem fazer de Matt Reeves bem patente na contenção e sensibilidade pelas histórias fantásticas que envolvem as duas crianças, este «Let Me In» está muito longe do poder visual, estilístico e artístico do já citado «Lat den Rätte Komma in» (2008).
Apesar disso, isto é, de não se perceber bem esta insistência de Hollywood em copiar o bom feito noutras partes do mundo, o filme flui de modo agradável. A realização, que adoptou um tom de respeito formal e artístico ao cinema de terror clássico, fugiu muito positivamente a essa onda de filmes de vampiros que tem invadido as salas de cinema com produtos de consumo fácil para mastigar e deitar fora. De salientar também as boas interpretações dos dois meninos de serviço, Chloë Grace Moretz (Abby, a vampira) e Kodi Smit-McPhee (Owen, o menino solitário), e ainda de Elias Koteas (o perturbado polícia). E para quem não viu o filme original nem leu o livro, acaba por ver premiada a sua ida ao cinema com um inteligente ‘twist’ final que de modo algum é suficiente para contrariar aquela máxima que nos diz que a cópia é invariavelmente pior que o original.

«Let Me In», de Matt Reeves, com Chloë Grace Moretz, Kodi Smit-McPhee e Elias Koteas


A CIDADE



Ben Affleck, um realizador que promete

Doug McRay [Ben Affleck] viveu e cresceu em Charlestown, um bairro de Boston conhecido por formar mais assaltantes a bancos que qualquer outra parte do mundo. E como marginal que se preze, Doug teve toda a sua formação na escola da rua criado por um pai delinquente e abandonado pela mãe ainda muito jovem. Agora, ele e mais três amigos formam um perigoso e muito competente bando de assaltantes não apenas a bancos como a carrinhas de transporte de valores. Mas, neste entremeio, Doug McRay vive o dilema de querer abandonar a única vida que sempre conheceu não o conseguindo fazer preso às ligações afectivas e de hierarquias entre criminosos que criou e não consegue quebrar. E de assalto em assalto, mergulhado na turba da cidade, para complicar ainda mais a sua situação Doug acaba por se apaixonar pela mulher responsável por um dos bancos que assalta.
Depois de «Vista Pela Última Vez…» [2007], Ben Affleck, actor pouco reconhecido e argumentista de valor, volta à realização provando que o cinema é a sua paixão e que talvez tenha encontrado a sua verdadeira vocação. Assim, «The Town» agiganta-se como filme na sua acção frenética, como convém, mas sobretudo por se tornar num filme pleno de tensão e força narrativa onde o equilíbrio entre a emoção de personagens com vida e a crueza do mundo por que estas optaram marca o respeito por um género, o ‘thriller’, como há já algum tempo não se via. De facto, a autenticidade que sobressai das personagens de Doug [Affleck], de James [Jeremy Renner], o seu cúmplice e melhor amigo e de Claire [Rebecca Hall], a gerente do banco que assalta e por quem se apaixona, é um factor que vai muito para além da simples competência e imediatamente pressupõe um talento muito especial para a realização de filmes. E sem querer entrar em comparações indesejáveis até para o jovem realizador Ben Affleck, nos últimos tempos só um homem conseguiu fazer passar para o público essa genuinidade. E esse é tão somente Clint Eastwood.
A um filme com um ritmo narrativo muito vivo, igual espessura dramática das personagens [mesmo daquelas que se afiguram como secundárias na trama] e um importante sentido do detalhe não é alheia a aliança entre a literatura e o cinema. Baseado na obra «Prince of Thieves», de Chuck Hogan, «A Cidade» soube ir beber à literatura aqueles pormenores que muitas vezes algum cinema se esquece de acentuar. Umas vezes por pura arrogância demasiado crentes no valor da imagem e outras por manifesta incapacidade dos seus artesãos. E talvez seja até um cliché olhando para o currículo de Affleck como actor, mas lamenta-se aqui a sua falta de carisma para um papel que a exigia em dose dupla. No entanto, neste capítulo das interpretações Jeremy Renner dá um recital de como bem representar num papel que lhe assenta que nem uma luva. E John Hamm [o agente do FBI que persegue o grupo de assaltantes] desempenha na perfeição a figura do polícia tão determinado a quebrar as leis que os assaltantes impõem como atormentado por uma certa incapacidade em consegui-lo. Uma incapacidade que parece resultar muito mais do talento dos bandidos que da sua própria ineficácia.
Resumindo, «The Town» é muito mais que um filme de polícias e ladrões. É uma obra que nos fala da irreversibilidade de determinados percursos de vida e, quando existe essa vontade, de como é difícil a fuga a um destino que parece estar traçado. E foi no meio da marginalidade e de alguma desordem social que se Affleck foi compondo esta sua poesia do fracasso. De um e de outro lado da barricada.

«A Cidade», de Ben Affleck, com Ben Affleck, Rebecca Hall, Jeremy Renner e John Hamm

Uma Família Moderna




Jogo de aparências

Quando Tommaso diz a Alba, a sua amiga de infância, que ‘os amores impossíveis são aqueles que duram para sempre’ não está apenas a dar eco a uma convicção da personagem. De facto, é a própria essência de Ferzan Ozpetek que se evidencia através do pensamento da personagem principal de «Uma Família Moderna», o mais recente filme do realizador italiano [turco de nascimento]. Ozpetek [ele que dirigiu em 2003 «A Janela em Frente»] acredita na imortalidade dos afectos e é um clássico que permanece fiel à temática principal das suas obras: a homossexualidade e, já agora, fazer do instinto o melhor instrumento para atingir a felicidade.

A história do filme conta-se em breves palavras. Um jovem oriundo de uma família abastada de Lecce [sul de Itália], regressa de Roma onde supostamente estudou Gestão para revelar duas coisas à família: uma que é homossexual e a outra que estudou literatura porque o seu grande sonho é ser escritor e que jamais pretendeu continuar o negócio da família. Para isso vai ter de enfrentar um pai homofóbico e uma cidade prepotente nas suas relações presa ao convencionalismo típico de uma povoação de província. Mas pese o facto de estarmos aparentemente perante o retrato fiel de uma família tradicional, Ozpetek constrói uma divertida teia de enganos e o bom do Tommaso [Ricardo Scarmacio] vai ter que alterar os seus planos vítima de acontecimentos inesperados.

Aquilo a que se assiste a partir desta premissa do guião, é a um filme que dificilmente deixará de tocar emocionalmente o espectador. O conflito entre a modernidade e a tradição enquadra-se perfeitamente em personagens que anseiam manter-se fiéis aos seus princípios de sempre mas que se recusam a fechar os seus corações àqueles que amam e cujo sangue lhe corre nas veias. Pelo meio há ainda uma avó extremamente sagaz numa sabedoria que parece ter sido colhida do grande amor que não viveu mas que manteve aceso dentro de si por toda uma vida e uma jovem mulher, Alba [Nicole Grimaudo], irresistivelmente sedutora na sua beleza física, na personalidade rebelde e no modo sensível e solitário com que parece dar asas ao seu carácter extrovertido.

E é assim, com sensibilidade e ironia, que «Mine Vaganti» [no seu título original] se vai construindo e ganhando a batalha da emoção alheio a algum convencionalismo no modo como a realização parece olhar a questão das diferenças na orientação sexual dos homens e das mulheres. Este pormenor está patente sobretudo nas personagens quase caricaturais dos amigos de Tommaso, mas há que reconhecer que o respeito pelas regras dramáticas de um género pode levar a este tipo de rigidez por parte da realização. No entanto, o pormenor é de imediato desculpável quando se percebe que Ozpetek jamais receou cair no excesso quando fazia sentido seguir por essa via. E o que é indiscutível, e verdadeiramente importante, é que «Uma Família Moderna» é não apenas um filme tão divertido quanto emotivo numa aliança entre comédia e drama como resulta num excelente momento de cinema. A não perder.

«Uma Família Moderna», de Ferzan Ozpetek, com Ricardo Scarmacio e Nicole Grimaudo























Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme





 


Crise, disse ele


Em finais dos anos 80, Oliver Stone apresentava ao mundo Gordon Gekko, um investidor de Wall Street ganancioso e sem escrúpulos que rendeu a Michael Douglas o Oscar para a melhor interpretação masculina do ano. O filme foi um sucesso e em 2010, já sem a chama nem a fleuma de outrora, Stone recriou a personagem fazendo-a sair da prisão onde cumprira pesada pena por fraude trazendo novamente Michael Douglas até nós, agora em «Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme». Debalde.


É que para além dos lugares-comuns já sobejamente repetidos sobre o mundo cão, amoral e devorador em que navega a economia global e de uma pomposa explicação dos motivos da actual crise financeira, a realização de Stone oferece-nos pouco mais de que possa orgulhar-se. E mesmo aquilo que nos oferece, embora num embrulho feito de papel finíssimo, arrasta consigo um tal moralismo entranhado nos ossos que dele dizer-se dispensável é curto. Para além disso, poucos delirarão com a condescendência das personagens perante os seus próprios actos e um final de filme tão optimista quanto patético. No fundo, tão anedótico como o ‘cameo’ [chamemos-lhe assim] de Charlie Sheen, ele que foi Bud Fox no primeiro filme da série.


Mas se alguém achar que estou a ser demasiado duro e não se tenha ainda deslocado a uma sala de cinema onde o filme esteja a ser exibido, aproveite agora. Aproveitem e vão vê-lo. Até porque se não gostarem das diatribes de Gekko & Comparsas lembrem-se que se tivessem partido uma perna seria bem pior. E mesmo que partam alguma perna, tenham calma. É que grave, grave, só mesmo se partissem as duas pernas. É esta a filosofia de «Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme».




«Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme», de Oliver Stone, com Michael Douglas, Shia LaBeouf e Carey Mulligan










A ORIGEM









Vamos por partes

As referências

O futuro é já hoje. Aconteceu assim com «Matrix» (1999 e 2003), dos irmãos Wachowski, foi-o entretanto com «Minority Report» (2002), de Steven spielberg, já o tinha sido muito antes com «2001: A Space Odyssey» (1968), de Stanley Kubrick e acontece agora com «A Origem»(2010), de Christopher Nolan. E falar do futuro já hoje relembrando outras obras-primas do cinema, quer dizer duas coisas: que «A Origem» é antes de mais um ‘thriller’ de ficção-científica, elemento comum aos filmes citados, e que na sua inesgotável criatividade e brilhante talento narrativo, Nolan é um cineasta que assume as boas ideias como uma inevitável inspiração de obras anteriores de mestres do mesmo ofício. E este é um sinal de humildade e inteligência que só lhe fica bem.

A matéria de que se fez o filme

A trama do mais recente filme do fantástico realizador inglês não é fácil de explicar nem de seguir na tela. Pese o magnífico carácter visual do filme [isto hoje até é assim muito para o fácil de escrever, basta adjectivar], a narrativa vertiginosa que sobrepõe o pesadelo ao sonho e vice-versa, obrigam a uma atenção suplementar do espectador. Até porque a realização de Nolan é feita de pormenores magistrais que revelam uma produção irrepreensível. Ao nível do ‘casting’, do guarda-roupa, da montagem, dos efeitos especiais e, por que não dizê-lo, na capacidade que existiu para acompanhar a sofisticação do artífice Nolan.


A história

Cobb (um soberbo Leonardo DiCaprio), é um espião que rouba o maior dos tesouros: os segredos guardados no subconsciente dos homens e mulheres que lhes são extorquidos enquanto sonham. Para isso, Cobb possui uma equipa de colaboradores que funciona entre si com a precisão de um relógio suíço. No entanto, dadas as características delicadas do seu trabalho Cobb perdeu tudo o que lhe era querido. E para recuperar o seu mundo, vai ter que aceitar um trabalho que lhe é proposto por Saito (Ken Watanabe), um vilão à escala mundial, e que se afigura como a mais difícil missão que até então levou a cabo. Desta vez não tem que roubar uma ideia, não tem que conhecer um segredo, tem, isso sim, que implantar algo no cérebro de Robert Fisher (Cillian Murphy), um herdeiro multimilionário. Para o tentar, o espião Cobb vai contar com a importante ajuda de Ariadne (Ellen Page), uma estudante brilhante que é treinada para se adaptar ao mundo dos sonhos. É bom no entanto recordar que quando alguém adormece, e sonha, tanto pode contar com sonhos cor-de-rosa ou com um pesadelo de causar enormes dores de cabeça. E o subconsciente de Cobb é povoado pela memória de Lisa (Marion Cottillard), a sua mulher.


O sumo e as ofertas ao espectador

Em suma, «Inception», no seu título original, é um enorme desafio à nossa capacidade enquanto espectadores de cinema de absorvermos muita matéria psicológica retirada das profundezas da mente lançada num mundo alucinante durante o sonho. E é absolutamente gratificante perceber que num espaço muito ligado à percepção que nos surge do poder de racionalização do homem, é a emoção – a emoção, sempre a emoção, que comanda os níveis de motivação para se atingir algo ou impede a sua prossecução porque somos incapazes de viver sem, por exemplo, o amor. Nolan dá-nos ainda a possibilidade de revermos um actor que chegou a ser cabeça de cartaz no passado e que hoje, aos 61 anos, se apresenta como um homem extremamente diferente daquilo que o fez tornar-se conhecido do público. Falo de Tom Berenger mas é bom que se atente sobretudo no desempenho esplendoroso de Leonardo DiCaprio, ele que nem sempre viu o seu trabalho devidamente valorizado. Ainda assim, notem bem no que este rapaz cresceu como actor de cinema. E mesmo com tantas ofertas, a maior de Nolan neste filme tem a ver com os 147 minutos de muito e bom cinema. E a certeza do quão importantes são os nossos sonhos, do quanto eles são fundamentais para atingirmos algo que se define numa palavra que neste texto parece tão descabida mas que no fundo é àquilo a que tudo se resume: a felicidade.

«Inception», de Christopher Nolan, com Leonardo DiCaprio, Marion Cotillard, Ellen Page, outros








[É a esta gente, com Christopher Nolan à cabeça e outros na 'sombra', que se deve «A Origem»]


O Escritor Fantasma




Chamada para a morte


O Iraque e o pantanoso mundo da política internacional têm sido fonte de inspiração para inúmeros filmes. Apesar disso, ainda tendo como pano de fundo o Iraque o verdadeiro ‘thriller’ das convergências políticas e manipuladoras de homens e governos estava ainda por fazer. E se «O Escritor Fantasma» não atinge a plenitude desse estatuto pode no entanto afirmar-se que anda lá muito perto. Com efeito, o aparente convencionalismo da realização de Roman Polanski – ele que não precisa de apresentações, torna-se um dos maiores trunfos de um filme que vive de personagens fortíssimas e de carácter insondável que fazem com que o espectador dificilmente consiga tomar partido por este ou por aquele. E assim o ‘suspense’ vai manter-se até ao fim.


Adam Lang (Pierce Brosnan) é um antigo Primeiro-ministro britânico refugiado numa ilha algures nos Estados Unidos e a braços com o Tribunal Internacional que o quer julgar pela prática de crimes de guerra. A forma como lidou com alegados terroristas iraquianos é o mote. Entretanto, durante o processo de escritura das suas memórias é contratado um novo escritor para as terminar já que o seu antecessor morre acidentalmente numa travessia marítima. O escritor fantasma (Ewan McGregor) viaja então para a mansão de Lang onde pretende concluir o livro e arrecadar 250 000 dólares com o trabalho. Mas rapidamente a personagem de Ewan McGregor percebe que algo de estranho se está a passar e que a morte do escritor que veio substituir poderá não ter sido assim tão acidental. E é a partir daqui que o filme se desenvolve acompanhando McGregor numa perigosa viagem a um mundo cínico, dissimulado e impiedoso que une política e espionagem internacionais.

O melhor do filme tem a ver com a intensidade dramática que é imposta por um guião que vive muito da ocultação de factos e engano nas evidências. Um filme assim, neste modelo com elevado grau de exigência, precisa avidamente de bons actores. E Tom Wilkinson (um sinuoso Paul Emmet, professor universitário e uma das primeiras incursões na investigação que McGregor leva a cabo), Olivia Williams (Ruth, a instável mulher do antigo inquilino do nº10 de Downing Street), Kim Catrall (Amelia Bly, assistente e amante do mesmo) e o próprio Ewan McGregor conseguem-no de um modo quase perfeito. Pena é que Pierce Brosnan esteja muito longe de reunir qualidades para um papel a requerer uma solidez dramática que jamais alcançou e ainda que o filme tenha alguma dificuldade em fazer acelerar o ritmo cardíaco dos espectadores mais cépticos.

Ainda assim, «The Ghost Writer» é um filme que recupera para o cinema o melhor de Roman Polanski e não será nenhum disparate dizer que a sobriedade e rigor com que a sua realização quase proíbe o espectador de se adiantar ao desfecho final da história, fazem lembrar aquele que ainda hoje é o maior mestre no ‘thriller de suspense': Alfred Hitchcock. E como bónus Polanski brinda ainda o espectador com uma mansão claustrofóbica numa ilha rodeada por um mar selvagem e meteorologia invernosa, pequenos e misteriosos hotéis construídos em nenhures e a ambiguidade conflituosa de uma editora de livros dividida entre os factos de uma biografia autorizada e a coscuvilhice ligada a um suposto maior interesse dos leitores. Em resumo, «O Escritor Fantasma» é um filme de insuspeita qualidade.



«The Ghost Writer», de Roman Polanski, com Ewan McGregor, Pierce Brosnan, Kim Catrall, Olivia Williams, Tom Wilkinson, outros



Dia e Noite






Missão Cumprida


Sim, eu sei, nem Tom Cruise é Cary Grant e muito menos James Mangold é Alfred Hitchcock. Mas caso o objectivo de uma ida ao cinema se prenda apenas com o visionamento de alucinação a rodos e mordacidade q.b. num filme que poderia ambicionar muito mais que aquilo que o próprio assume, então venham daí, peçam um alguidar de pipocas e um barril de Coca Cola porque durante duas horas o cinema resolveu rir-se de si mesmo. E nós com ele.

Ainda se lembram de «Missão Impossível II» , de John Woo? Lembram? Então esqueçam porque «Knight and Day» é tudo isso e muito mais em doses de loucura com uma pitada de química entre Tom Cruise e Cameron Diaz, ele que é o espião que combate o crime à escala mundial e ela a bela de serviço. Quanto à trama, um agente secreto acusado de traição, a sua própria organização a persegui-lo, tráfico de armas com direito a touros pelas ruas de Sevilha e uma mulher a caminho do casamento da irmã apanhada no meio do conflito. Onde é que já vimos isto? Fácil, em dezenas e dezenas de filmes. O bom da realização de Mangold é que assume a sua própria condição de mastigar e deitar fora mas com a característica fundamental de ser muito bom enquanto dura.

E se Cameron Diaz anda um pouco a reboque do filme, Tom Cruise toma as rédeas da trama com a qualidade e a sabedoria com que no próprio filme conduz aviões, motas de alta cilindrada, carros, copos de champanhe, armas de tiro de repetição e beijos na menina. Ele é Roy Miller e ela June Havens, nós os espectadores de férias que só querem fazer descansar os neurónios e usufruir de muita e boa diversão. Ala que se faz tarde!


«Knight and Day», de James Mangold, com Tom Cruise e Cameron Diaz






















A MULHER DO VIAJANTE NO TEMPO









Entre contradições e muita confusão também emergem as emoções


Henry viaja no banco de trás de um automóvel quando um violento acidente de tráfego o faz ficar órfão de mãe, ela que conduzia a sua própria viatura. O pequeno rapaz, que será interpretado por Eric Bana na idade adulta, vai no entanto poder voltar a ver a mãe em tempos anteriores ao do próprio acidente. Confusos? Pois continuarão a ficar já que o facto de Henry ser alguém que viaja entre o passado, o presente e o futuro sem conseguir controlar os momentos em que e para onde o faz não é explicado com coerência pela realização do alemão Robert Schwentke. Na verdade, as contradições da trama e a confusão romântica que pairam sobre o filme não ajudam nada a que se goste de uma história de ficção de impossibilidade real. E é aqui que começa o meu problema. Porquê? Porque embora de forma moderada e reconhecendo as inultrapassáveis fronteiras de um objecto de puro entretenimento, eu gostei do filme.

Já escrevi inúmeras vezes que cinema não é uma ciência exacta. E mesmo que percebamos as debilidades de uma realização ou de um argumento que se contradiz a si mesmo ao longo da trama, é possível que haja algo naquele filme que nos toque sobremaneira. A comparação pode até ser disparatada, assumo-o, mas esta linha de reflexão leva-me até ao amor. Quantas vezes nós não olhamos para um casal apaixonado mas aparentemente desequilibrado pelas características de cada um dos seus elementos e não percebemos o porquê de aquele homem ou aquela mulher se amarem. Mas amam-se porque o amor não se explica, acontece. E se o cinema se explica, naquilo em que o amor e o cinema têm muito de comum não há explicação possível: no campo das emoções, no território das sensações.

Voltando ao filme, Henry (Eric Bana, já o referi) inicia uma relação com Clare (Rachel McAdams). Entre saltos temporais e um amor que vive altos e baixos próprios das dificuldades de uma existência intermitente, a verdade é que o amor entre os dois persiste a todas as provas a que é sujeito. Perante isto, é possível que o espectador viaje pelo interior das suas memórias e perceba que caso lhe fosse dada a oportunidade de regressar a um ou outro importantes momentos da sua vida talvez pudesse alterar uma decisão ou um comportamento seus. Ou então não, tal como Clare lhe confessa quando sabe que vai perder Henry, nada mudaria. E é neste campo que o filme pode ter a capacidade de ganhar alguma razão junto de um espectador cujas razões já então nascem apenas das suas próprias emoções. E se assim for, o cinema confuso e contraditório de «A Mulher do Viajante no Tempo» já conseguiu vencer um dos seus grandes objectivos: fazer sonhar. E eu, quer o queira ou não, sou um sonhador. Que fazer!?


«The Time Traveller’s Wife», de Robert Schwentke, com Eric Bana e Rachel McAdams



Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo




Príncipe ou pirata, da Pérsia ou das Caraíbas, uma questão simples de clonagem


 


Acho que vou começar pelo princípio: Mike Newell, o realizador de «Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo», é o mesmo homem que em 2007 esteve por detrás das câmaras no filme «O Amor nos Tempos de Cólera» e quase arrasou por completo uma das maiores obras da história da literatura latino-americana e de um dos seus maiores intérpretes, Gabriel Garcia Marquez. Se juntarmos a isto o nome de um produtor que subverte o cinema em prol do negócio, Jerry Bruckheimer, e percebermos que o filme é a adaptação ao cinema de mais um videojogo, então quase ficamos conversados quanto à qualidade de «Prince of Persia: The Sands of Time». Mas não, desculpem, não me fico por aqui.




Coloque-se agora a questão: que se pode esperar de um filme com tão graves premissas? Eu diria que muito, se soubermos que a história evoca as fábulas das «Mil e Uma Noites» que povoaram o nosso imaginário infantil. E já que se trata da versão para cinema de um videojogo, espera-se igualmente – e no mínimo - acção mirabolante e um vertiginoso ritmo da narrativa. Reconheça-se que o filme até começa bem com as aventuras do pequeno Dastan (que em adulto será corporizado por Jake Gyllenhaal) e a aparição de um anjo que dá pelo nome de Gemma Arterton que no filme se chama Tamina e é a Princesa da esplendorosa cidade de Alamut. Mas uma montagem absolutamente desastrada, personagens secundárias a roçarem a idiotice para dar um tom de comédia ao filme conjuntamente com a desajustada pompa e circunstância à la Bruckheimer, tornam «Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo» num simples objecto de ‘franchising’ e confirmam Mike Newell como um mero tarefeiro ao serviço do pior cinema que se faz em Hollywood.




Ainda assim, há que reconhecer que o filme possui um público alvo como aliás é próprio de qualquer produto comercial a surgir no mercado depois de aturados estudos de mercado. E há ainda quem goste muito desta espécie de cinema, caso contrário ele não existiria. Isto porque, apesar de tudo e dos desastrosos efeitos especiais também, é de cinema que estamos a falar. E se outra razão não houvesse para o percebermos, Alfred Molina e Ben Kingsley estão lá para o provar. O primeiro mais que o segundo, na minha opinião. Mas bem analisada a questão, «Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo» está para o cinema como as canções pimba de Emanuel estão para a música: elas que tão depressa entram como saem do ouvido. Por outro lado, dá pena ver um Jake Gyllenhaall esforçado mas sem um mínimo de carisma para suportar uma personagem que se queria grandiosa e épica. Por tudo isto, volta Johnny Depp, volta «Pirata das Caraíbas», estão ambos perdoados.







«Prince of Persia: The Sands of Time», de Mike Newell, com Jack Gyllenhaal, Gemma Arterton, Ben Kingsley e Alfred Molina