segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A boa educação por Anton Tchekhov


[Rebecca Hall e Scarlett Johansson à mesa em «Vicky Cristina Barcelona»]






Falecido em 1904, o escritor e dramaturgo russo Anton Tchekhov escreveu que a boa educação não está tanto em não derramar o molho sobre a toalha de mesa mas muito mais em ter a capacidade de não notar que outra pessoa o faça. Suspeito que na sociedade actual muito poucos lêem Tchekhov e muitos menos seguem aquilo que tão nobremente defendia.



Preconceito



[New York Movie, 1939 - Edward Hopper]




Confesso que quando era adolescente, e mesmo até um pouco mais tarde já jovem adulto, quando conhecia alguém costumava perguntar a essa pessoa se gostava de cinema. E se a resposta era afirmativa de imediato colocava nova questão. Questão essa sobre que filme ou filmes vistos por essa pessoa a tinham de algum modo marcado ou influenciado. Se é que os havia. Eram perguntas quase ao estilo de “diz-me de que filmes gostas, dir-te-ei quem és”. Ainda hoje faço isso um pouco, embora apenas por brincadeira e nunca como fórmula de busca de conhecimento sobre a personalidade ou carácter do outro. Isto apesar das nossas preferências cinematográficas terem tudo a ver com a pessoa que somos. Com a forma como pensamos, como sentimos, com o nosso percurso de vida, académico, profissional e tudo aquilo que de algum modo nos fez ser o indivíduo em que nos tornámos. E até, por vezes, com aquela pessoa que amámos e que apesar de já nada sabermos dela continuamos a ser influenciados pela sua anterior presença na nossa vida.

A fragilidade do indivíduo

[Man Sitting - Back View - 1964, Wayne Thiebaud]






Anos atrás li um livro de estrutura narrativa grandiosa. Um livro unanimemente considerado como um dos grandes documentos da literatura mundial. Falo de «O Doutor Jivago», de Boris Pasternak. Hoje relembro como a obra é perfeita na demonstração da fragilidade do indivíduo, de como as vivências, os pensamentos e as reflexões de alguém podem estar tão de acordo com alguma inquietude que nos assola e necessariamente afecta os dias.


Jivago, burguês e médico, abandona Moscovo no dealbar de uma revolução. Fá-lo ao perceber que os meios determinam os fins. Isto é, que o bem gerará o bem e a força bruta só poderá gerar o mal. Imerso na violência da história, passeia-se um intelectual de alma solitária que se apaixona tremendamente por uma mulher muito mais jovem que ele. Uma mulher que encontra anos depois de a ter conhecido em Moscovo. Uma paixão intemporal que não irá viver dada a tragédia de que é vítima acabando por morrer de ataque cardíaco depois de sobreviver longo tempo na penúria.


Lembrei-me do Dr. Jivago. Do poeta, do homem apaixonado, do idealista. Lembrei-me de como não somos nada em confronto com o decorrer avassalador da vida, perante os acontecimentos sobre os quais não temos mão mas que nos condicionam o dia-a-dia, nos limitam os sonhos, nos fazem ter que recomeçar do zero quando julgávamos ter construído algo. Há em tudo isto muito de material [existe sempre algo de material em tudo] mas, sobretudo, de espiritual e trágico. E enquanto nos questionamos, vamos continuando o nosso caminho. Cansados, de olhar vazio, assemelhando-nos a autómatos, mas lá prosseguimos. No entanto, muitas vezes sem sabermos muito bem qual o rumo que devemos tomar.

sábado, 20 de novembro de 2010

A sexualidade infeliz



[Isabelle Huppert em «La Pianiste»]



No filme em que o austríaco Michael Haneke adapta um livro da sua compatriota escritora Elfriede Jelinek, «A Pianista», Erika Kohut vive uma sexualidade reprimida pela figura da mãe. O seu desequilíbrio emocional leva-a a soltar-se num voyeurismo desenfreado em sessões pornográficas e na observação de casais a terem sexo. Os excêntricos desejos sexuais desta mulher culta, professora de música no Conservatório de Viena, levavam-na a sentir-se refém da crueldade, do amor pela dor fazendo dessa dor o objecto que a fazia sentir prazer e atingir a desejada felicidade. O livro de Jelinek, segundo a própria, tinha muito de autobiográfico. Afinal, estas revelações que a escritora decidiu partilhar de si com o mundo têm tanto de fantástico como de realistas.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O cinéfilo que pintava quadros

[Nighthawks, 1942 - Edward Hopper]







«Nighthawks» é talvez o quadro mais mediatizado de Edward Hopper, pintor realista norte-americano que ficou celebrizado como o poeta da solidão. No quadro citado, e segundo as suas próprias palavras, Hopper refere apenas como uma possibilidade remota o facto deste ilustrar a solidão urbana. «Inconscientemente talvez estivesse a pintar a solidão de uma cidade», referiu a propósito. O pintor era um cinéfilo compulsivo e a perspectiva um tanto ou quanto bizarra que adoptou para «Nighthawks» assim como o jogo de luzes que as suas técnicas de composição permitiram, parecem comprovar essa mesma teoria. Hopper nasceu e morreu em Nova Iorque nos anos de 1882 e 1967.

Amores maiores do que a vida

[Cartas de uma Freira Portuguesa - Milo Manara, via E Deus Criou a Mulher]






«Os meus olhos é que perderam nos teus a única luz que os animava.»





Soror Mariana Alcoforado



Não raras são as vezes em que as grandes paixões permanecem eternas, afundadas na tristeza pela privação do outro, serenadas pelo lento passar do tempo que leva à triste resignação da perda. Soror Mariana Alcoforado, nascida e falecida em Beja nos anos de 1640 e 1723, foi uma dessas infelizes protagonistas de um amor maior que a vida. Apaixonada pelo fidalgo francês Noël Bouton (1636 – 1715), na altura em Portugal ao serviço da Cavalaria Francesa no reinado de Luís XIV, por essa paixão ardente a freira portuguesa quebrou o voto de castidade e propôs-se acompanhar o oficial até ao seu país de origem, não encontrando no entanto reciprocidade nesse desejo por parte do seu amado.



Famosa por escrever 7 fabulosas cartas que deram origem a livros e que pela sua beleza estética e fabulosa componente literária inspiraram poetas, escritores, pintores e outros artistas, decorreu em tempos no Real Mosteiro da Nossa Senhora da Conceição, em Beja, uma exposição que homenageava a religiosa portuguesa, que foi escrivã e vigária do templo, com a reprodução de litografias de Henri Matisse e de documentos originais que retratam a sua muito inflamada paixão que em tempo curto descambaria em saudade e dor. Deixo aqui ficar, com este texto, a minha singela homenagem a uma mulher que morreu não deixando que o seu amor alguma vez morresse em si.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A dor de sentir




 [Suicídio, de Edouard Manet - 1877]





Do livro «Gente Feliz com Lágrimas» [1988], de João de Melo, salta-me à vista este pequeno excerto. “Nos olhos dela, perdura ainda uma solidão compassiva e extenuada, dessas que a vida não consegue explicar. O hábito de ser triste culpabiliza nela a própria ideia de felicidade. Tal como nós, não sabe ser feliz sem lágrimas, nem rir sem o remorso da alegria, e isso vê-se-lhe nos olhos.”

Sorrio. Lembro-me de Camilo Castelo Branco, de si próprio e do seu «Amor de Perdição» [1862], de Van Gogh, do Shakespeare de «Romeu e Julieta» [1595], de Virginia Woolf, de Ernest Hemingway, Kurt Cobain e tantos, tantos outros e detenho-me apenas a tentar interpretar um sentimento voraz que de tão intenso se transforma em apetite que somente o trágico sabor da vida pode saciar.

Medo no cinema

Agarrados à Cadeira na Sala Escura do Cinema



Há tempos a revista Actual, do Expresso, apresentou-nos um interessante trabalho sobre o horror no cinema. Que é como quem diz, sobre os filmes de terror. Confesso que não considero este como um género menor do cinema tal como se escreve no texto da publicação, mas, neste caso particular dos filmes de terror, as minhas exigências enquanto espectador são muito mais elevadas que noutros géneros mais populares, mais próximos de nós, do nosso quotidiano. Isto porque é imperioso que sinta um vislumbre de veracidade na história que se desenvolve na fita muito para além dos aspectos conceptuais da realização. Estes que podem ir desde a excelência dos dècors – que são, claro, essenciais no género cinematográfico – ou da perfeição na caracterização dos actores – também um aspecto fundamental para o sucesso de um filme de terror. Significa isto que um filme de terror que alcance uma consistência dramática capaz de libertar a porção correcta na mistura de tensão e medo no espectador, possui desde logo duas características fundamentais para se tornar num bom filme do género. Mas estas duas não sobrevivem sem uma outra especificidade: a capacidade de atingir uma dimensão de verosimilhança com a realidade ou do que pode estar para além dela. Claro que a tudo isto o meu amigo
António Pascoalinho – um dos maiores se não o maior especialista de filmes do género em Portugal – responderia com um enorme bocejo. Mas, reconheço, até pelo que foi dito atrás, estou a quilómetros do seu gozo especial em 'molhar a sopa' nos jorros de sangue que fazem as delícias dos grandes fanáticos do género em que outro amigo, o Filipe Lopes, também se inclui.



Com honrosas excepções, quase todos eles fazem parte da lista que o Expresso disponibiliza no referido trabalho. Mas eis a minha relação de melhores filmes de terror da história do cinema. Fora desta lista ficam sequelas e personagens míticas como o Conde Dracula, Frankenstein,
Freddy Krueger (Pesadelo em Elm Street), Jason Vorhees (Sexta-feira 13), Allien e outros. Por outro lado, dada a sua dimensão trágica e humanista numa figura inumana, Nosferatu (1922), de Murnau, ocupa um lugar de destaque numa listagem restringida aos melhores. Na minha modesta opinião, claro.












[ Nosferatu (1922), de F.W. Murnau - O início]






1 - [The Shining (1980), de Stanley Kubrick - A genialidade do mestre]







3 - [The Birds (1963), de Alfred Hitchcock - Tese de doutoramento do mestre do 'suspense']





4 - [The Exorcist (1973), de William Friedkin - Possuída pelo demónio]





5 - [ The Fly (1986), de David Cronenberg - Apanhado nas teias do seu próprio desejo de evolução científica]




6 - [Rosemary's Baby (1968), de Roman Polanski - Histeria e assombração]





7 - [Halloween (1978), de John Carpenter - Guiados no medo pelos olhos do impiedoso assassino]





8 - [Night of Living Dead (1968), de Georges A. Romero - A morte saiu à rua (numa noite assim)]








10 - [Jaws (1975), de Steven Spielberg - Medo e perturbação]














terça-feira, 16 de novembro de 2010

O exímio fantasista




Invariavelmente pitoresco e sedutoramente colorido, busca referências do passado no sótão das suas memórias, descreve fervores políticos e gentes bizarras, é interventivo socialmente, revela os apelos da sexualidade e tão depressa flutua numa doce áurea de romantismo como imediatamente resvala para a obscenidade.





Sim, seria deveras reconfortante que o parágrafo acima descrevesse a minha ziguezagueante actividade aqui na casa. Mas não, é de Fellini e do seu incontornável «Amarcord» (1973) que falo.

 
 




De má fé

[Poplars on the Epte - 1891, Claude Monet]




Dou um passeio pela blogosfera, leio alguns textos aqui e ali e um pouco ao acaso folheio alguns comentários que são deixados nesses blogues. E fico espantado comigo por continuar a deixar que a natureza humana me surpreenda. Por vezes julgo perceber que alguém que escreve publicamente sobre o que lhe queima a alma deixa entrever um espírito sensível e tão sedutoramente ingénuo e puro. E incomoda-me que receba por parte de outrem observações não só despropositadas como cruéis. É como alguém escreveu um dia. Há pessoas que olham para a floresta e só vêem lenha para queimar.


Elas & Nós

[A actriz francesa Emmanuelle Béart]






A citação vem no jornal Público e pertence ao actor e dramaturgo francês Marcel Achard (1899 – 1974): ‘As mulheres gostam dos homens silenciosos porque acreditam que eles estão a ouvi-las’. Mas essa é a grande culpa do homem. Porque enquanto as mulheres falam nós vamos observando os gestos delicados que fazem com as mãos, os lábios avermelhados do sangue que lhes aquece o corpo em suave sintonia com aquilo que certamente dizem, o sorriso entusiasta perante o nosso olhar atento mas absorto, e, no final, se tivermos sorte, ainda recebemos um abraço. E se mais sorte tivermos, um beijo caloroso. E quando elas nos perguntam o que pensamos dos largos minutos em que falaram arrebatadas pelo valor do discurso, nós que nada ouvimos embora estivéssemos deliciados na atenção que lhes dedicámos, respondemos apenas que nada mais há a acrescentar a tamanha lucidez e eloquência. E recebemos de novo um abraço, este merecido, e, com um pouco de sorte, novo beijo ainda mais quente que o anterior. Mas lá bem no fundo, nós sabemos que elas estão perfeitamente cientes do que se passa nestes momentos e percebem que na nossa fraqueza perante os seus encantos reside o seu triunfo. E para nós, homens, fica reservada a vitória moral.




segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Siddharta, o indiano












Para quem leu o livro, sabe que «Siddhartha» - obra fundamental da literatura de sempre, de Hermann Hesse - é a história de uma procura. De uma procura que alguém leva a cabo e onde o elemento mais importante não é o ponto de chegada mas sim o percurso realizado para lá chegar. Siddhartha é um jovem indiano bem-nascido mas totalmente insatisfeito com a vida que tem. Resolve então partir à aventura na tentativa de encontrar aquilo que o pode completar. Embora, à partida, não lograsse perceber o que procurava. Nessa busca, de anos, experimentou de tudo. Entregou-se à luxúria, ao jogo, tornou-se asceta e interagiu com as mais variadas personagens conhecendo os múltiplos aspectos da vida.



Ou seja, um homem que tinha tudo percebeu que sem passar por privações, sem conhecer o desânimo ou o sabor amargo da derrota, sem ter a necessidade de se reinventar para ultrapassar obstáculos conhecendo a dor e o sofrimento jamais conseguiria identificar a felicidade e lidar com ela caso existisse como um todo. E é um facto que sempre que me acontece algo de menos bom e que de algum modo me provoque sofrimento procuro recordar-me de Siddhartha. Isto para não esquecer que felicidade e tristeza se completam. E que mesmo parecendo um paradoxo, a felicidade e a tristeza atribuem à vida aquele espantoso equilíbrio que todos buscamos no dia-a-dia. Apesar disso, confesso-vos que em momentos menos bons não fosse o enorme respeito que nutro pelos livros e já teria rasgado «Siddhartha» de Hesse. Que se ponha de pé quem não se importa de sofrer para melhor saborear a felicidade.



domingo, 14 de novembro de 2010

O cansaço dos dias

[Pintura de Andrew Wyeth]




Sentia-se demasiado cansado naquele dia. Era tarde e a noite caíra sorrateiramente sobre a cidade, o demasiado calor para a época  anunciava a tempestade e o vento forte fazia estremecer a sombra das árvores numa dança estranha no negrume do pavimento. Deixou-se ficar sentado na noite a ouvir o silêncio poético que antecipava a intempérie. Enquanto escutava, adormeceu. E sonhou. Uma mulher sorriu-lhe no sonho. Estava linda no seu sorriso, aquela mulher. Um cão latiu ao longe, os travões de um carro que parara no semáforo a pouco mais de cem metros de si chiaram, a noite já então fizera esquecer completamente o dia, acordou. A mulher já lá não estava, desvanecera-se no acordar dele. Entretanto, na esquina da rua uma velhinha que há muito enlouquecera pôs-se a cantar.


Slumdog Millionaire







O Triunfo da Vontade





Será «Slumdog Millionaire», no seu título original, o melhor filme de 2008? Pode até ser, mas ter pelo mais recente trabalho de Danny Boyle um nível de estima tão elevado pode levar-nos à obrigação de tecer variadíssimas considerações sobre o cinema em geral. No entanto, esse não é um dado negativo e é até um dos grandes trunfos da realização de Boyle. Isto, a par da forma inteligente como retrata o drama das gentes que crescem nos bairros da lata de uma metrópole como Bombaím, mas, sobretudo, da história tocante que relata de um jovem de uma pureza e de um carácter ímpares que tem uma única ambição: a de recuperar para si o amor da sua vida. Para isso predispõe-se a participar no concurso local do «Quem quer ser milionário?». Mas como Jamal Malik (Dev Patel) é um simples assistente de Call Center, um slumdog [que poderá traduzir-se como cão (dog, claro) de bairro da lata (slum), pese a tradução do filme insistir em chamar-lhe rafeiro], ao chegar à pergunta que o poderá transformar no grande vencedor do concurso é acusado de aldrabice e levado para a esquadra da polícia para ser cruelmente interrogado. É então que o filme ganha alma e que a narrativa substitui o suspense tradicional por uma fluidez frenética. Nesta ambiência indistinta, é na miséria retratada que os cenários ganham cor e é a música que impulsiona o delírio dos factos chocantes e comovedores inerentes ao percurso de vida de Jamal.



Danny Boyle é o cineasta de «Trainspotting» (1996), mas também de «A Praia» (2000) e de «28 Dias Depois» (2002) filme onde abraça de novo o experimentalismo que é característica fundamental do seu cinema. Em «Quem Quer Ser Bilionário?» o inglês reúne-se de uma equipa de jovens actores amadores recrutados nos bairros da lata de Bombaím. E tem sorte. Não obstante a denúncia que faz dos abusos, do pouco respeito pelos direitos individuais dos cidadãos e até da rivalidade religiosa existente na Índia o filme recusa tornar-se panfletário para abraçar uma causa bem mais do domínio da alma humana que da problemática civilizacional. Jamal está-se nas tintas para o dinheiro que a vitória no concurso lhe pode dar, Jamal quer apenas recuperar a bela Latika (Freida Pinto) por quem sempre se manteve apaixonado. E na pergunta final, Jamal Malik não é – como nunca foi – o concorrente televisivo que está prestes a tornar-se riquíssimo. E nos cafés, nas ruas, nas casas, Jamal representa não um colectivo mas sim a certeza (individual), para cada um dos que o vêem, de que o sonho é possível. Pouco importa se o sonho do dinheiro e da mudança de vida para bem melhor que este pode proporcionar não esteja sequer nos objectivos de Jamal Malik. E, neste aspecto, o jovem indiano funciona até como o anti-herói. Não porque recuse a glória mas porque nem dela tem sequer conhecimento.



Arrisco afirmar que o sucesso de «Slumdog Millionaire» tem tanto de inesperado como de fruto do acaso, do momento. Isto apesar da excelente direcção de actores, da realização apaixonada de Boyle e outras relevantes características cinematográficas. Na verdade, este é o filme certo no momento certo quando a civilização atravessa uma crise que a faz questionar-se sobre o certo e o errado. Afinal, impérios construídos sobre estratégias bem delineadas e que foram conduzidas por homens e mulheres bem preparados caem diariamente. E Jamal Malik, que nasceu e cresceu nos bairros de lata de Mumbai até estes se transformarem na desordenada Bombaím, conseguiu a felicidade apenas à custa de acreditar no amor e de recusar a mentira. Tudo isto sobrevivendo rodeado das mais incríveis barbaridades. E na sua vitória Jamal Malik não é um jovem de sucesso, ele é somente um jovem feliz. Repito a ideia inicial: «Quem Quer Ser Bilionário?» talvez não seja o melhor filme de 2008, sequer um filme grandioso. Mas é feito de muita paixão, de vida, de esperança, de emoção. Afinal um conjunto de sentimentos brilhantemente adaptado para cinema.





«Quem Quer Ser Bilionário?», de Danny Boyle, com Dev Patel e Freida Pinto



quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A mulher

[Rachel Weisz, uma mulher]


Gosto de escrever. A escrita permite que moldemos o mundo sob o nosso ponto de vista e dêmos à vida os contornos que muito bem nos aprouver. Neste âmbito, sempre tive uma ideia romântica da mulher e embora no decurso da vida sejamos assaltados por pensamentos parasitas e ensaiemos alguns passos de dança com corpos estranhos a esse ideal, o perfil dessa mulher – que não está vedado a pequenas variações – está criado, existe.

O rosto dessa mulher é desenhado a traços muito femininos, bem definidos, e deixa escapar uma áurea nostálgica que permite adivinhar a preferência por um sorriso franco que transmite um sentimento em detrimento de uma gargalhada forte que surge apenas como resultado de um reflexo. Dos seus olhos, castanhos, ressalta um delicioso colorido de avelã. Os cabelos, também eles castanhos, a voz, um tom de voz suave que altera apenas de quando em vez para se poder fazer compreender nos momentos em que o ruído dominante a isso obriga. Os olhos brilhantes, sim, os seus olhos castanhos brilhantes, exprimem para o mundo exterior as emoções que procura reter interiormente. Mas procura escondê-los amiúde,  deixando fugir o olhar até o deter em locais vagos e incertos. Tem um corpo lindo, perfeito, é uma mulher elegante. E sofisticada sem que procure trabalhar este pormenor. Mas não necessita fazê-lo, a sofisticação é-lhe inata e emprega-a com toda a naturalidade do mundo. Gosta de se manter em forma, adora um bom livro e é fã de cinema. É de uma delicadeza suave e é encantador o carinho com que interage com os outros. Isto, embora seja directa mesmo que evite ferir a quem se dirige. Pese tudo o que se disse, tem dificuldade em expor mais de si do que aquilo que dá a perceber involuntariamente.

Talvez esta mulher não exista. Ou talvez exista apenas no mundo que a escrita molda. Mas é esta a mulher.





quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Da vida


[«Storytime», ilustração de George Barr]



Nos contos de fadas não há lugar para surpresas desagradáveis e tudo acontece ordenadamente até ao também harmonioso final. De certo modo, se a nossa vida decorresse como nas histórias de infância teríamos a felicidade garantida. Mas como a perfeição não existe, essa seria uma felicidade cozinhada em lume brando onde não há lugar para a ansiedade pelo tempo que se espera, para o desaire ou para a conquista, para o ardor, para a paixão. Assim sendo, deixemos as fadas no seu mundo e aceitemos as vibrações que a vida nos transmite mesmo que por vezes tenhamos que rebobinar as nossas emoções e obrigar-nos a que tudo volte ao seu início.


Autor maldito

[Kate Winslet e Geofrey Rush numa das cenas de um filme sobre o polémico Marquês de Sade]



Doantien Sade, que ficou conhecido para o mundo como o Marquês de Sade, viveu em França nos finais do século dezoito e inícios do século dezanove. Tendo levado uma vida dedicada à luxúria, Sade, aristocrata e libertino, foi desde sempre um autor maldito. Isto, talvez porque os homens em vez de procurarem compreender o que não entendem preferem imediatamente acusar e condenar, embora, sejamos justos, neste caso se entendam sem dificuldade as razões para tanta aversão. Apesar disso, e das suas práticas, Doantien Sade era um homem de convicções e ideias claras e podia mesmo fazer minhas algumas das palavras que deixou para a posteridade. Sem comentários adjacentes, destaco dois desses pensamentos que se podem ajustar ao conceito com que vou edificando este blogue. Dizia o célebre autor francês que ‘antes de ser um homem da sociedade sou-o da natureza’ e ‘dirijo-me às pessoas capazes de me entenderem, essas podem ler-me sem perigo’.

Mas um dos ideais que provavelmente mais contribuíram para a sua própria concepção de vida e que, se mais não houvesse, só por si justificaria todo o efeito negativo e mesmo pejorativo atribuído ao sadismo pode retirar-se da sua convicção de que ‘a primeira lei que a natureza lhe impôs foi a de gozar à custa de qualquer um’. Foda-se lá o gajo.


Allen Stewart Konigsberg






Ou seja, Woody Allen.



Sobre o seu «A Rosa Púrpura do Cairo» (1985), o cineasta declarou ter-se limitado a dar ênfase aos “encantos do imaginário em oposição à dor de viver”. Woody Allen é o realizador por excelência dos filmes protagonizados por anti-heróis com grandes dificuldades em adaptar-se ao mundo sobrevivendo à realidade enfrentando-a através de uma atitude de gozo de cariz masoquista. Mas o admirável no mais nova-iorquino realizador de cinema é a sua espantosa capacidade de fazer comédia a partir de conjunturas aparentemente banais do quotidiano dos homens e das mulheres mas que são afinal o ponto de partida para situações bem dramáticas na vida real.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Descartes e a infância de Cristina

[Seated Girl (Fränzi Fehrmann) - 1910, altered 1920 - Ernst Ludwig Kirchner]


Fui admitido na então escola primária já com sete anos. E apenas três meses depois já tomara contacto com a complexidade da filosofia de Descartes. Pedro era o melhor aluno da sala, lia como um sacerdote, falava como um sofista e sabia a tabuada de trás para a frente. Mas não jogava à bola connosco no recreio, não tinha uma fisga para partir as lâmpadas da rua onde vivia o Sr. Ambrósio - o aborrecido do nosso professor - e de tanta inércia física tornara-se muito pesado. Apesar das suas inúmeras qualidades, para nós o Pedro não existia. Pensava mas não existia. Ao invés tínhamos a Cristina, sempre tão sorridente, sempre tão afável, tão dada às nossas brincadeiras inocentes. Era linda como uma princesa saída do mais soberbo conto de fadas e não havia rapaz que não a desejasse mimar, beijar as suas faces rosadas, que não sonhasse com ela. Quando eu a olhava, me fixava naquele rosto rosado de saúde e de vida, sentia que me faltava o chão debaixo dos pés, que perdia o sentido das coisas e mal me aguentava nas pernas delgadas e compridas. Naqueles momentos, o mundo parava em meu redor e nele só cabia a Cristina. Não era muito boa aluna e tempos mais tarde teve até que repetir o terceiro ano. Não, não pensava muito, mas existia.




Tributo



Era um intelectual de fazer inveja, mas quem o visse de boné a tapar a calvície e jornal invariavelmente no bolso do casaco a subir a Avenida da Liberdade em direcção à Lusomundo ou uma qualquer outra avenida para mais um visionamento de imprensa dos quais era um dos mais assíduos, diria que era apenas mais um anónimo como tantos outros a deambular pela cidade. Enquanto esperava pelo início das projecções, falava acaloradamente de cinema de igual forma com novos e velhos, mais ou menos reputados. Idolatrava John Ford , era o mais antigo programador da cinemateca e integrava o quadro de críticos de cinema do «Expresso». Vai hoje a enterrar, mas o seu exemplo perdurará e os seus escritos e pensamentos sobre cinema não deixarão que alguma vez abandone o mundo dos vivos. Obrigado, Manuel Cintra Ferreira, até sempre.


A era do projecto


[Mental (Project?), Gilbert and George]




Há dias tive uma torneira avariada cá em casa. Telefonei a um canalizador meu conhecido e enquanto lhe passava o cheque para pagar o trabalho feito, o tipo esclareceu-me que teria que arranjar outra pessoa para este tipo de tarefas porque ele se tinha metido num projecto de exploração de um bar. Achei que me ficava bem e dei-lhe os parabéns. Na sexta-feira de manhã tentei marcar uma reunião de trabalho para 2ªfeira às cinco da tarde, mas a pessoa com quem eu preciso reunir não está disponível a essa hora porque se tinha metido num projecto de ginásio. Cumprimentei-o pela iniciativa e resignei-me a nova data para conversarmos. O Álvaro, que era o meu informático de serviço, desligou-se dos computadores porque finalmente conseguiu iniciar um projecto de teatro numa companhia independente. Desejei-lhe sorte, obviamente.

Não há a menor dúvida, vivemos na era do projecto.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A avó de alguém

[Imagem retirada da Internet]






O meu carro não estranha, percorre veloz o alcatrão da A1. Direcção sul, paro na área de serviço de Pombal, entro no restaurante. Assim que me encontro no interior do estabelecimento vejo uma senhora a olhar fixamente para mim. Vestes austeras, rosto sofrido, cabelos brancos bem cuidados, olhos cansados a lembrarem uma juventude perdida. Tem certamente mais de oitenta anos de idade, dirige-se para o local onde me encontro. E fala-me. Pedro, Pedro, por onde tens andado, filho? E lança-me o braço apertando com a sua a minha mão. Não, é confusão sua, eu não sou o Pedro, respondo-lhe. Ela retrai-se, dá um passo atrás, contempla-me dos pés à cabeça. Não és o Pedro?, balbucia entristecida. Não, tenho pena pelo seu engano, não sou o Pedro. Tento ser carinhoso, ela insiste. Não és o Pedro? E sabes onde o Pedro está?  Não tenho tempo de lhe responder, uma outra senhora, talvez uma irmã, talvez uma simples amiga, pede-me desculpa e sugere à senhora que partam. Fiquei a olhá-las e ao autocarro onde entraram até que este desapareceu ao longe na faixa negra da auto-estrada. Talvez a senhora fosse finalmente ao encontro do Pedro que tanto ansiava encontrar.

Crónicas de amor e ódio


[A modelo fotográfico Iga A. - Gosto de a ver trabalhar]



Tenho pouco tempo para me deixar ficar em puro estado de indolência. Estes raros mas muito agradáveis momentos de inércia normalmente dão-se entre as onze, onze e picos da noite e prolongam-se até por volta da uma, uma e trinta da manhã. Mantenho convicta e orgulhosamente a televisão desligada a não ser que a modelo fotográfico Iga A. se apresente ao serviço num qualquer desses canais por cabo. Por via disso, é nas páginas da Internet que a minha vigilância se vai perdendo numa sonolência que me leva à cama e ao dia seguinte num upgrade de força e motivação que me faz encarar a vida com um renovado sorriso de esperança na espécie humana, na preservação da flora, na pujante vida animal, num Benfica novamente dominador ou até em ti mulher bonita que me lês algures em Mountain View, Califórnia, e inundas os gráficos do ‘Sitemeter’ aqui da casa. E nas várias leituras que faço, choca-me como alguns homens e mulheres, sobretudo elas, se entretêm a destruir a gloriosa memória de amores que se desvaneceram mas que num tempo definido das suas vidas os fizeram rejubilar, sonhar, viver. O amor não o merece por muito que as pessoas mudem. E um dia haverá em que todos iremos olhar para os dias então longínquos em que viajámos nos braços da paixão para constatarmos que valeu a pena. E é bom que celebremos a alegria mesmo que agora, como eu dizia, se perceba que para alguns a tristeza ande tão próxima da raiva.

A história por detrás da lenda




Para além do momento da concepção da maior rede social do planeta, «A Rede Social», de David Fincher, é o relato dramático de uma tragédia pessoal: a de um rapaz que tem tudo a que não dá importância, o dinheiro,  a sagacidade de uma mente invulgarmente capaz e um poder quase sem limites, mas que perde provavelmente aquilo que o faria mais feliz: o seu único amigo real e Erica, a sua namorada. Fincher constrói ainda um filme onde estão bem patentes a amizade, a traição, a desolação e a alienação que acompanham o mais jovem multimilionário do mundo, precisamente Marck Zuckerberg, o criador do Facebook essa tal rede virtual de amigos de vertiginosa propagação universal.

Crítica completa a «A Rede Social» no «Porto de Escala»

A Rede Social



Mark Zuckerberg
Adicionar como Amigo


«A Rede Social» fala-nos do momento da concepção da maior rede social do planeta, o Facebook. Só este pormenor, por si só, seria catalisador da atenção de milhões e milhões de utilizadores de tão importante plataforma digital, mas, ao mesmo tempo, colocava o realizador David Fincher perante um problema de aparente difícil resolução: como iria este contornar a questão de dar algo mais aos espectadores de cinema que a muita informação sobre Marck Zuckerberg (o autor da rede) e sobre o próprio Facebook já disponível um pouco por toda a parte? Mas a primeira resposta a esta dificuldade foi dada por Aaron Sorkin, o argumentista, que embora se tenha baseado na obra «The Accidental Billionaires», de Ben Mezrich, trabalhou os dados muito à sua maneira com vista à obtenção de um objectivo final, a satisfação dos espectadores. E sem desvendar já tudo, a solução está aí e agradará provavelmente a todos aqueles que apontam o dedo a muitos dos utilizadores da Internet: pelo que o filme mostra, Zuckerberg é para Sorkin um jovem com dificuldade para se relacionar socialmente, de genialidade obsessiva e vingativo. No entanto, entre a verdade dos factos e aquilo que é a dramatização ficcional dessa realidade, está aí um filme poderoso que não deve deixar de ser visto por quem quer que seja, utilizadores ou não do Facebook.
David Fincher tem somente 48 anos de idade mas possui já no currículo alguns dos filmes da vida de muito boa gente («Sete Pecados Mortais» 1995, «Clube de Combate» 1999 e  «Zodiac» 2007 estão nesta lista) assim como outros títulos não menos importantes («Allien 3» 1992, «O Jogo» 1997, «Sala de Pânico» (2002) e «O Estranho Caso de Benjamin Button» 2008). Daí que deste americano nascido no Colorado se espere sempre o melhor. E com «The Social Network», no seu título original, Fincher constrói um filme onde estão bem patentes a amizade, a traição, a desolação e a alienação que acompanham o mais jovem multimilionário do mundo, precisamente Marck Zuckerberg, o criador do Facebook essa tal rede virtual de amigos de que todos falam e de vertiginosa propagação universal.
Há no entanto uma história de vida por detrás da lenda. E essa, a história de vida, começa precisamente quando Erica (Rooney Mara) diz a Zuckerberg (Jesse Eisenberg) que um dia ele irá ficar sozinho por ser um cretino, enquanto prepara ela mesma o rompimento da relação que até então mantinha com o jovem. Daqui para a frente, através de fragmentos dos diversos acontecimentos e até à consolidação de Zuckerberg como o genial criador do Facebook, Fincher conduz a câmara à velocidade da inteligência superior do estudante de Harvard sem nunca esquecer a estranheza e complexidade da sua personalidade. E mais do que dar a perceber que a chave para um bom negócio é a correcta identificação das necessidades das pessoas ou que as elites reagem com agressividade quando vêem o seu poder ser colocado em causa, «A Rede Social» de David Fincher é o relato dramático de uma tragédia pessoal: a de um rapaz que tem tudo aquilo a que não dá importância, o dinheiro,  a sagacidade de uma mente invulgarmente capaz e um poder quase sem limites, mas que perde provavelmente aquilo que o faria mais feliz: o seu único amigo real (um excelente Andrew Garfield) e a já citada Erica, a sua namorada.
Será que o criador do Facebook é aquele rapaz que quase sem fazer por isso ou mesmo involuntariamente se revela um autêntico cretino? E que apesar do seu brilhantismo é um jovem solitário incapaz do amor e da amizade? Ou será que os criadores de «The Social Network», nomeadamente o seu argumentista, quiseram através de Marck Zuckerberg caracterizar uma comunidade que ama e faz amizades tanto quanto destrói relacionamentos à distância de um clique? São perguntas necessárias intelectual e emocionalmente mas que para o deve e haver final nas contas do filme pouco importarão. Até porque estes foram factores importantes para que este seja um filme fácil de se gostar. É que na sua desorientação perante algo que criou mas cuja realidade parece ultrapassá-lo, Zuckerberg acaba por se revelar um ser humano como qualquer outro.Apesar dos muitos amigos no Facebook, frágil perante a solidão que o envolve. E a pergunta final é óbvia, por acaso será que alguém conhece por aí uma história parecida com esta?

«The Social Network», de David Fincher, com Jesse Eisenberg, Andrew Garfield, Justin Timberlake e Rooney Mara



sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O velho e o mar







Poucos serão os que não conhecem a obra-prima de Ernest Hemingway, «O Velho e o Mar». Nesse pequeno livrinho onde se conta a história de um pescador cubano a pescar sozinho, e há mais de oitenta dias sem conseguir um único peixe até que se depara com um enorme peixe-espada, a narrativa é tão simples e ao mesmo tempo tão cativante que o desespero de ambos na luta pela sobrevivência, peixe-espada e pescador, acaba por se tornar num espantoso ensaio sobre a condição humana. E à chegada ao porto não é difícil imaginar a ambiguidade do sorriso do velho e pobre pescador, ele que dominou a sua presa mas dela lhe restaram apenas o rabo, a espinha e a cabeça. Apesar do seu dramático triunfo, Santiago sorri na inevitabilidade daquilo que faz e que é, afinal, a razão para continuar a sentir-se útil, vivo. E não é por acaso que durante o seu isolamento nas águas do golfo em busca do sustento, o velho homem questiona a sua condição de pescador para logo a seguir concluir que nasceu para aquilo mesmo. E essa é muitas vezes a diferença entre a literatura e a vida. Porque na literatura mesmo os homens e mulheres que falham o fazem perseguindo o seu destino. E são, de certo modo, pessoas felizes porque fazem aquilo para que desde sempre se sentiram predestinadas. O facto faz-me pensar na vida real, aquela que vivemos fora dos livros. Porque muitas vezes criado pelos próprios, um conjunto de condicionantes obriga a que muitos de nós vivamos e trabalhemos bem longe daquilo que nos faria de certo pessoas bem mais realizadas. E, já agora, mais felizes.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Do grave que é e das perguntas à queima-roupa

[Gas - 1940 - Edward Hopper]


Enquanto esperava a minha vez de pagar o combustível, uma mulher de cerca de trinta anos dirigia-se ao caixa em tom lastimoso queixando-se de mais uma semana de trabalho que estava difícil de terminar. Sentindo a minha presença, olhou na minha direcção e mesmo sem me conhecer de lado algum perguntou-me se haveria coisa pior. Respondi quase sem a olhar e sem pensar muito: 'sei lá, um grave edema pulmonar!?' Ficou calada. Aparentando um ar desconfiado, deu meia volta e saiu para a rua. Estou certo que concordou comigo.


quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O preço



[O escritor Philip Roth]





Leio algures num sítio da blogosfera uma citação de alguém que diz que jamais devemos justificar-nos; isto porque os nossos inimigos recusam-se a acreditar-nos e os verdadeiros amigos não precisam (de justificações)’. Este pensamento leva-me até um livro maior de Philip Roth, «A Mancha Humana». Pela obra vagueiam duas personagens a reinventarem-se por força da rejeição da sociedade em que estão inseridos. Uma, Coleman Silk, procura libertar-se do estigma racial engendrando para si uma nova identidade; e outra, Fauna, procura na relação amorosa com Silk uma nova oportunidade de redenção e esperança. Não seria necessária a leitura do livro para perceber que algo do género possui um risco elevado de insucesso e de trágico. Daqui se conclui que a única forma de lutar contra a hipocrisia residirá na busca por fazer prevalecer a verdade do que nos individualiza como seres humanos. Mas não sejamos ingénuos, seja qual for a opção que se tome haverá sempre um preço a pagar.

Herói sem Estrela



Julgo que tinha acabado de chegar à idade adulta quando tive a feliz oportunidade de assistir em sessão privada a «O Comboio Apitou Três Vezes». Desde então, uma cena do filme – um western com uma carga psicológica profunda e de certo modo em rompimento com os cânones de então do género – ficou-me retida na mente através do profundo respeito que senti pelo Xerife Will Kane.



Kane é o Xerife da cidade de Hadleyville. São 10.30 da manhã e no comboio prestes a chegar à cidade viaja um fora-da-lei anteriormente condenado à prisão através da sua acção de agente da autoridade. Enquanto os figurões do pequeno burgo e restante população se acobardam e abandonam o local, um irmão e dois cúmplices já aguardam na estação pela chegada do bandido sedento de vingança. Só, tremendamente só, Kane desobedece aos apelos até da própria mulher e decide enfrentar o perigo. Ás 12.15 horas já tudo acabou tendo conseguido derrotar os marginais. À vista da cidade que acorre a si para o felicitar, Kane, impassível, silencioso, retira do peito a estrela de Xerife e atira-a ao chão com sintomática indiferença renunciando ao cargo. E é este o momento chave do filme, a cena invejável para a qual é necessária uma coragem digna de um ser humano grandioso, o gesto que persiste em me invadir o subconsciente.



Naquele momento, ao atirar a estrela de Xerife ao chão e renegar o estatuto de herói, Kane demonstra toda a solidão de um homem a viver acima das suas forças em nome de um colectivo cobarde e oportunista que o não merece. O que Kane faz, no fundo, é retomar o seu papel na sociedade assumindo a fragilidade do ser humano incapaz de continuar a cumprir uma tarefa que o desgasta a si e que se revela apreciável apenas ao olhar alheio. Na altura vi o gesto de Will Kane como algo de exultante que me agitou ideais e fez rever preconceitos. Mas hoje, tantos anos passados sobre a primeira visão do filme, penso na personagem protagonizada por um Gary Cooper admirável e sinto-me pequeno perante a grandeza da sua atitude. Para agravar ainda mais a questão, observo como cada vez mais ridícula uma sociedade – a actual – onde este tipo de homens não tem lugar. O destaque de hoje, sabemo-lo bem, vai inteirinho para uma bem definida classe de vencedores.

Vermelho esbatido...

[A modelo Anna Friel]




...em vez de vermelho vivo.




A apatia começava a apoderar-se da equipa, nas bancadas muitos roíam as unhas, o ambiente no estádio já conhecera melhores momentos. O Benfica esteve a ganhar por quatro a zero ao Lyon e ganhava agora por apenas quatro a dois. A bola está junto à bandeirola de canto e o Benfica ganha um livre no seu ataque. Faltam um par de minutos para acabar o jogo. Como tinha sido derrotado em Lyon por dois a zero era importante que o Benfica tentasse o quinto golo para ficar em vantagem em caso de igualdade pontual com os franceses na classificação final do grupo. E aos 93 minutos de jogo não tinha nada a perder com o resultado que então se verificava. Entretanto, perante a estupefacção geral, o Benfica abdica de atacar, procura perder tempo junto ao vértice do campo mas perde a bola e sofre mais um golo. Ao meu lado, um miúdo de pouco mais de quinze anos leva as mãos à cabeça, por detrás de mim alguém grita impropérios ao árbitro, os benfiquistas engolem em seco, mas, por uma vez, o destino foi justo. Cada um obtém aquilo que procura. E Jorge Jesus viu premiada a sua falta de coragem ao não tomar aquela que até era a única atitude possível perante as circunstâncias dos dois jogos. Nos habituais empurrões à saída do estádio reina o silêncio, o passo é apressado, o dia seguinte é de trabalho e já poucos lembram os quatro golos marcados. Moral da história, ganhámos mas não nos sentimos felizes. E quando as vitórias têm um sabor amargo...


segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A pipoca mais doce


[A actriz Alicja Bachleda, que contracena no filme com Colin Farrell]




A cena repetiu-se. Fui ontem ao cinema ver «Ondine», de Neil Jordan. Um pouco por toda a sala sorvia-se Coca-cola por palhinhas e consumia-se pipocas em baldes coloridos. No final do filme, os colegas espectadores espalharam pipocas no soalho da sala. Desviei-me cuidadosamente para não estragar a sementeira.




*Crítica a «Ondine» no 'Porto de Escala»




Ondine



A senhora das águas

No cartaz de promoção a «Ondine», pode ler-se que ‘the truth is not what you know. Is what you believe.» A frase, intencionalmente poética no pensamento que encarna e sugere, é no entanto perigosa já que se alheia voluntariamente da verdade para se situar unicamente no campo das emoções. E isso seria desejável, e muito bom, se o mundo fosse um lugar onde a harmonia entre a fantasia e a realidade se solidificasse muito simplesmente num qualquer ideal de felicidade. Mas como não é assim e o mal existe, o pescador Syracuse (Colin Farrell) irá perceber que só poderá agarrar a vida caso ouse soltar-se definitivamente do enlevo embriagante daquilo em que quer acreditar mas que está longe de compreender.
Neil Jordan, realizador e argumentista de «Ondine», parece ter carregado no olhar a poesia inspiradora de uma terra rodeada pelo mar. Um mar de águas nem sempre calmas, muitas vezes revoltas,  mas um mar que se assume como uma componente incontornável do ser irlandês onde a música dos islandeses Sigur Rós se ajusta que nem uma luva ao estado anímico do filme. Um filme que desperta simpatia pela sua história até porque se revela invariavelmente contemplativo e nostálgico. Apesar de ter já realizado obras como «Michael Collins» (1996) ou «O Fim da Aventura» (1999), é em «Entrevista com o Vampiro» (1994) e «Breakfast on Pluto» (2005) que vamos encontrar as características a que aludo no modo de fazer de Jordan: o desenrolar de uma história aparentemente ilusória, mágica, sedutora,  mas que se vai tornando muito real através de um enredo simples que se constrói a partir do drama de cada uma das suas personagens. Neste caso, do drama do humilde pescador Syracuse, de Ondine (Alicja Bachleda), a mulher que literalmente ele pesca dos mares, e de Annie  (Alison Barry) a pequena filha do pescador a quem este dedica todo o seu tempo livre.
«Ondine» vê-se com o coração e sente-se através daquilo que os nossos olhos vão observando na tela. Desde a meteorologia rigorosa de um país de personalidade própria à vida dura de uma pequena cidade de pescadores,  à excelência das paisagens do noroeste da Irlanda até  à beleza de Ondine, a mulher que veio do fundo dos mares, e do amor que vai crescendo entre esta e Syracuse. E de modo necessariamente diferente, à forma como Ondine se vai agigantando na pequena Annie, ela que é uma menina com limitações relativamente às demais já que sofre de insuficiência renal. Por esta altura da fita, Ondine é para Annie somente uma personagem de conto de fadas.
Sim, «Ondine» é um conto de fadas moderno. Mas é também uma história de vidas que colhe frutos pela sua verosimilhança com a realidade. E para o seu êxito muito contribuíram as interpretações de Colin Farrell, solto de qualquer maneirismo ou vedetismo, e a forma como Jordan foi deixando que a verdade sobre a personagem de Ondine se fosse ocultando nos meandros da mitologia. E quando se trata de questões mitológicas, poucos as ousam negar embora todos desconfiemos delas. Um filme agradável, a ver sem expectativas de maior.

«Ondine», de Neil Jordan, com Colin Farrell, Alicja Bachleda e Alison Barry


O sentido da Vida

Todos o procuram. Há quem tenha o costume de o pesquisar nos livros, outros pensam encontrá-lo na magia do cinema, no Google, gente existe que faz dos sonhos o seu sentido da vida e também há por aí quem faça o inverso dando um sentido à vida correndo atrás do sonho. Outros nos dirão que é a família quem lhes confere sentido à sua vida. Ou o amor, até o trabalho.
Dias atrás experimentei investigar o sentido da vida no fundo de uma garrafa de tinto Tapada de Coelheiros, 14 graus. Como não consegui chegar a uma conclusão com aquela garrafa, fui buscar outra. Acabei enjoado e ainda mais confuso. Indisposto, decidi ir deitar-me na mais profunda ignorância.

Porto

[Torre dos Clérigos - Armando Aguiar]







Porto grave e sério



Caía uma chuva miudinha sobre o Porto, naquela noite.



Desde o hotel, com acento francês, em Gaia, conduzi o meu carro e deixei que deslizasse lentamente até quase metade da Boavista. Na Arrábida olhara a foz à minha esquerda, o beijo das águas do rio na boca do mar; lá ao fundo, à direita, altaneira, a Torre dos Clérigos, mais abaixo o Palácio de Cristal, a ribeira junto ao curso de água, e, centenária, férrea, ao longe a perder de vista, a Ponte de D. Luís, o casario em cada ponta dos dois tabuleiros. Distraído na contemplação de ti, Porto, ocupei duas faixas do pavimento enegrecido. Buzinaram-me. Uma, duas, três vezes, deixei de as contar, teriam sido quatro? Não, talvez fossem apenas três.



Na Boavista jantei no restaurante Cufra.



Foi acomodado nos seus bancos compridos, assentos vermelhos cor de vinho, que confortei o estômago e passeei o olhar pelas gentes em redor. Em redor vi gentes da gente do Porto, visitantes, convidados da invicta cidade, os funcionários trajados de azul, vi mulheres que entraram, mulheres que saíram, homens que saíram, homens que entraram, casais divertidos, silêncios escondidos, olhares retraídos, sorrisos francos, sorrisos de ocasião, copos cheios, uma mão na mão, copos de cerveja, bocas que mastigavam, copos vazios, francesinhas em vaivém incessante, ruídos abafados, uma televisão ligada. No futebol.



Aprendi a amar o Porto, a senti-lo de modo especial. Há algo de poético nas suas ruelas estreitas, nas calçadas gastas pelo pisar incessante de sapatos de saltos altos, rasos, meio salto, saltos gastos, novos, a luzir, cansados, desbotados. O Porto é uma cidade com história e de muitas histórias por contar. O Porto é grave e sério, como alguém escreveu e outro cantou. A cidade guarda no seu âmago o fogo vivo da excitação dos amantes das noites claras, bem regadas, chovia ontem, bebidas, noites animadas, era uma chuva miudinha a que caía; o Porto que vive com sofreguidão a correria do dia. Nas ruelas de luz bela e sombria, cantemo-lo. É uma cidade com alma, uma urbe misteriosa, sedutora de tão feliz na sua aparência triste e pesada. Porto empedernido, Porto de igrejas, museus e do vinho nas caves de Gaia.



No regresso ao outro lado, a neblina, a cidade a ajeitar-se nos lençóis dos seus residentes e hóspedes.



Já em pleno hotel, uma recepcionista sorriu pela enésima vez mostrando um sorriso dedicado, mas que - fiquei triste por ela - mais parecia retirado de um catálogo de vendas. Sim, fiquei triste por ela. Um elevador em queixume veio abaixo, foi acima, andar 7, piso da garagem, andar 12, restaurante buffet, andar 7 de novo, lobby. Carreguei no botão, levou-me do zero ao 14, agradeci-lhe, disse obrigado, a resposta surgiu num clique metálico de fechar de portas. No quarto ignorei a TV que me deu as boas vindas pelo meu nome próprio escrito em letra Bookman Old Style, deitei-me, falei longamente ao telefone, encostei a cabeça na almofada, senti o vazio, senti também que adormecia.



Adormeci.







Trechos da minha vida militar – Capítulo Primeiro









Nunca viajei tanto de comboio como quando cumpri o serviço militar. Certo dia o comboio travou bruscamente e parti um dente ao bater contra a porta dos asseios de uma carruagem muito pouco asseada. Esse triste episódio da minha vida militar teve duas consequências imediatas: fiquei a saber que andar de comboio não era bom para os dentes e deixei de confiar nos travões daquelas engenhocas sobre carris.


Trechos da minha vida militar – Capítulo Segundo



Fiz a recruta em Lisboa. À chegada ao quartel, no meu primeiro dia de tropa fui mal recebido por um mal-encarado tenente com ar de que todos lhe devem e ninguém lhe paga. Depressa percebi que gostava de cinema musculado e se julgava militar das SS nazis. Berrou-me e estranhei que o fizesse em português e não em alemão como seria natural. Soldado, deite-se, está cercado. Desconfiado olhei o tipo de soslaio e não mexi um músculo do corpo. O outro continuava a bramir. Como estava a chover pensei que era a isso que a ave rara se referia: estava cercado pela chuva. Como esta ameaçava não parar, fiz conversa e perguntei ao senhor tenente se sabia quanto tempo ia durar o clima invernoso. Parecendo não ter gostado da pergunta o oficial ajoelhou-se e começou aos tiros para o ar. Ajoelhei-me a seu lado e fingi disparar também. Atirei até à última munição.




Trechos da minha vida militar – Capítulo Terceiro







A minha semana de campo, na recruta, foi passada na Serra da Carregueira. Pelas árvores peladas percebia-se um Outono cerrado e o vento murmurava canções de embalar. Embalados também nós com dezenas de quilos de material bélico às costas, assentámos arraiais numa encosta virada para nenhures. Certamente que para me incentivar alguém me segredou que em exercícios anteriores um militar como nós tinha batido a bota num obtuso acidente com uma granada. Um descuido tinha feito explodir o artefacto junto à cara do pobre rapaz e a sua cabeça esmigalhada acabara transportada para a morgue no interior de um capacete. Tinha acabado de acontecer já que o acaso se dera sete anos atrás.



Nessa noite trovejou e choveu a cântaros e eu e mais dois dormimos numa tenda apenas com um cobertor a cobrir-nos e a água a escorrer-nos pelo corpo desde as fardas ensopadas. Estava agradável mas dormi apenas duas horas. Atribuí o facto à emoção do momento.







Trechos da minha vida militar – Capítulo Quarto









Acabei o período de magala com suave distinção depois de muito pintar a manta. Começáramos vinte e três em todo o pelotão mas acabámos apenas cerca de vinte e dois. Cerca de vinte e dois porque um de nós terminou incompleto já que perdera um pé num arreliador incidente com uma Berliet, esperando ainda no hospital o regresso a casa. E um outro, madeirense, conseguira ser deportado para a terra mais do Alberto João que dele.



Tive pena quando aquilo acabou. Quando um tipo começa a habituar-se às coisas agradáveis elas acabam de imediato. Ainda estive para dizer das boas ao comandante do pelotão mas achei que o sacana não iria compreender. Era um daqueles tipos com cabeça de martelo, diz-se, e nostalgia da guerra de África onde nunca tinha posto os pés. Lia muito bem, precisava apenas de aprender a compreender o que lia. Bradou-me um louvor à despedida que aproveitei prontamente para trocar por uma barra de chocolate na estação de Stª Apolónia.