sábado, 11 de dezembro de 2010

Histórias de longe mas tão afectivamente próximas

 
 
 
"Tenho de ir aos arredores! À beira do rio onde o meu avô me levava... para pescar? Lembro-me, o meu avô tinha-me levado à beira de um rio, se tínhamos apanhado algum peixe, já não sei, mas lembro-me, tinha um avô, tive uma infância."



in «Uma Cana de Pesca Para o Meu Avô», de Gao Xingjian

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Não estamos sós


[Nicole Kidman em «Os Outros», de Alejandro Amènabar; 'eles' existem e andam algures por aí...]







O meu Avô Anastácio, com o seu cabelo curto e impecavelmente penteado a fazer lembrar um oficial da marinha inglesa, sentava-me no seu colo era eu garoto e dizia-me qualquer coisa ininteligível para mim à altura como:

– As referências, menino, as referências, nunca as percas!

E depois dava mais uma baforada nos cigarros sem filtro que adorava fumar e ele mesmo fazia, virava o olhar para o horizonte sem que se lhe percebesse qualquer referência física onde me pudesse orientar, e ficava assim durante largos minutos sem sequer se lembrar da minha leve existência sobre as suas pernas ossudas.

Um dia, era eu ainda um miúdo, no regresso de uma pescaria à cana no Rio Tejo, noite escura já alongada sobre os campos em redor, eu e o João optámos pelo caminho mais curto de regresso a nossas casas e que se fazia ao longo da linha da Beira-baixa. Esta era, à partida, uma decisão cómoda caso não existisse por ali, a uns bons 500 metros para sul no nosso caminho de volta,  um dos cemitérios da região. Amedrontados mas de peito cheio que dos fracos não reza a história, lá caminhámos contando toros de madeira via-férrea fora. Ia eu para aí nas 87 sulipas em que naqueles tempos assentavam os carris, quando avistei o vulto. Era enorme, tão negro que mal se distinguia na noite escura, e, coisa difícil para um humano vulgar, de pernas muito abertas suportava o corpo nos pés assentes em ambos os carris da linha. O cenário piorava porque ali mesmo ao lado viam-se bem brancas no negrume da noite as paredes que delimitavam o local onde se multiplicavam os sepulcros. O tal cemitério. Lembro-me que o João olhava para mim aterrado, eu olhava para ele não menos atemorizado e… nada. Não sabíamos que atitude tomar. Ficar ali, tentar o recuo perante o assustador inimigo!? Finalmente, e sem movermos um músculo do rosto para pronunciarmos o que quer que fosse, corremos na direcção de uma casa abastada que sabíamos existir algures. Neste entretanto, a coisa foi-se tal como chegou. Sem avisar, sem se perceber de onde veio e muito menos para onde voltou.

Volto eu agora às referências do meu avô Anastácio, ele que foi uma referência para mim. Morreu anos atrás e nunca cheguei a contar-lhe este incidente. Por um lado com receio de não ser levado a sério mas também porque usara emprestada sem seu conhecimento a cana de pesca que ele mais gostava. Hoje pergunto-me como teria ele agido perante uma situação como a descrita. Quero acreditar que se dirigiria até junto do vulto não identificado, se apresentaria educadamente à figura e, sem pejo algum, oferecer-se-ia para lhe fazer um dos seus cigarros antes de se sentarem os dois nos carris a fumar sossegadamente e a comentar como as águas do rio, de tão calmas, andavam bem más para a pesca à vara solta. Como afinal ele tanto apreciava.



quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Noites longas



[Hotel Lobby,1943 - Edward Hopper]






Gosto de hotéis.

Gosto do momento de chegar e de olhar a azáfama dos restantes hóspedes a entrar e sair, aprecio a amabilidade com que sou recebido pelos funcionários da recepção. Sorriem-me, fazem-me sentir bem, ajudam a que me sinta à vontade num local que não é naturalmente de paragem no meu dia-a-dia. Gosto, sobretudo, quando me desloco em trabalho, dos hotéis de cidade. E ainda mais durante o Inverno. Chego, tomo um duche, saio para jantar e, se não tenho companhia, regresso rapidamente e deito-me a folhear o jornal, um livro, a saltitar com o comando do televisor de canal em canal ou, quando estou predisposto a isso, ligo o portátil, visito-vos, escrevo um pouco ou simplesmente navego de sítio em sítio sem destino pré-definido.

Mas é depois de todo esse ritual que aprecio ainda mais os hotéis. Sobretudo os de cidade. É quando chega a hora de dormir e o sono não chega. Nesses momentos, é reconfortante ter à mão o serviço de quartos sempre disponível com tudo aquilo que vulgarmente não temos em casa e que os hotéis têm. E mesmo que cheguemos à porta do quarto para a abrir quando nos vêm servir o que encomendámos, estejamos ou não despenteados, olhar estremunhado e modos a denotarem enfado, lá estão invariavelmente o mesmo sorriso, a mesma simpatia, a eterna boa disposição. Gosto de hotéis. E, em trabalho, gosto sobretudo de hotéis de cidade.

O sono que se espera, desespera e não chega, o afastar dos lençóis e as passadas lentas até à janela para uma mirada sobre as luzes da cidade. A memória de mim, a memória de ti, disto, daquilo, de aqui e de além, os olhos abertos na insónia que se sofre e não deseja.
Nunca se deseja uma insónia. Mas é nos hotéis de cidade, e em pleno Inverno, que melhor se suportam.

Lembro-me da última que tive. De cada detalhe, de cada movimento na noite. Recordo-me também como e de onde chegou e, até, quanto tempo durou. Durou até que fechei os olhos sem me dar conta e só os ter aberto já de manhã ao som irritante do toque do despertador do telemóvel. Mas lembrava tudo na noite de insónia. Lembrava o vento lá fora a abanar furiosamente os ramos das árvores na avenida, as sombras ondulantes nos passeios desertos onde apenas alguns filhos da noite, desavisados, se protegiam como podiam das bátegas fortes que encharcavam as ruas. E olhei, olhava-os, à espera, apenas à espera. E nem quando já tarde finalmente me deitei, me senti só e errante na cidade adormecida.

Gosto de hotéis. Quando viajo em trabalho, prefiro os de cidade. E se estiver uma noite tempestuosa, tanto melhor. A chuva, o vento e as sombras frenéticas distraem-nos nas noites de insónia. E recordo-me de ti, de mim, daqui e de além.

Mulheres

 [Violante Placido, estrela reluzente no filme «O Americano» , de Anton Corbijn]




«A minha vida torna-se cheia com pequenos grãos que me vão saciando a vontade e o sonho. Um dia vou conseguir tornar a minha utopia real. Passo a passo. Beijo grande.»



Eu sei que sim. Sempre soube. Um beijo.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Cela 211







Marcado para morrer


Juan Oliver [Alberto Ammann] é um cidadão comum que parece levar uma vida controlada e feliz. A sua mulher está grávida, o casal vive um invejável idílio amoroso e o jovem tem um novo emprego indo ocupar um lugar de guarda prisional na cidade onde ambos vivem. Contudo, a vida, essa mesma vida que julgamos poder controlar sem interferência alheia, nem sempre decorre como a programamos e, por vezes, as situações mais dramáticas ocorrem de forma totalmente imprevisível. E sem que as possamos tomar nas nossas mãos, tornamo-nos em algo próximo de meras vítimas do acaso. É, pelo menos, esta a premissa de «Cela 211», filme espanhol realizado por Daniel Monzón, que se aventurou num género – o drama prisional – sem os meios dos grandes estúdios mas com a capacidade de criar uma espiral de tensão que apenas vai culminar com o despoletar da tragédia.

«Cela 211» é cinema denúncia, claramente. Mas é sobretudo um filme duro e dramático sobre a realidade da vida nas prisões onde o mais abominável criminoso mostra poder reger-se por um código de honra capaz de envergonhar muitos daqueles que detém o poder. Sobretudo quando quem ‘manda’ trata de querer esconder da opinião pública os podres de um sistema que vive à base de esquemas e troca de favores não havendo, nestes casos, inocentes entre os envolvidos. Todos são culpados, seja por acção ou simples omissão. E se Juan Oliver é o protagonista desta história por tudo o que lhe acontece e por estar no centro das más decisões de colegas, negociadores sem honra e políticos sem escrúpulos, acaba por ver em Malamadre [numa impressionante interpretação de Luís Tosar] a personagem que lhe rouba quase todos os créditos na composição de um condenado tão capaz da maior brutalidade como incapaz da mais pequena traição. Este líder de uma comunidade de reclusos, entre políticos, polícias e marginais acaba por se revelar como o mais coerente de todos os homens envolvidos no motim que ele mesmo comanda compondo uma personagem hipnótica e carismática. Quanto ao pobre Juan Oliver, acaba por se ver arrastado para os mais ferozes acontecimentos pela negligência de uns e ineficácia de outros.

Confesso que desde «Os Condenados de Shawshank» [1994], de Frank Darabont, não via um drama prisional tão intenso e dramático como «Cela 211» na sua assustadora proximidade com a realidade. E apesar dos já referidos poucos recursos de que Daniel Monzón dispôs, este não se coibiu de apresentar cenas de uma brutalidade sem limites filmando-as como inexcedível competência. E se a maior fraqueza deste filme está na escolha de Alberto Ammann para um papel – o de protagonista – que requeria outro tipo de atributos dramáticos, a verdade é que a sensação maior com que o filme atinge o espectador reside na amostragem da debilidade do ser humano perante acontecimentos tão contundentes como imprevisíveis. E tudo se agrava perante esses acontecimentos se alguém acaba por ter a infelicidade de se tornar num mero peão de um tabuleiro jogado por homens detentores do poder muito pouco preocupados com as vidas humanas em contraponto com a imagem que pretendem fazer passar para a opinião pública.

Em suma, «Cela 211», que também distingue o criminoso comum do criminoso que age em nome de ideais políticos [os presos da ETA, a organização separatista basca]  é um drama sólido e rigoroso que não deve deixar de ser visto por ninguém. Mas muito especialmente a não perder por quem gosta de cinema que se faz calçado em  botas de biqueira de aço.


«Celda 211», de Daniel Monzón, com Alberto Ammann e Luís Tozar



terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Oito anos







[A modelo fotográfico Iga A., presença assídua cá na casa; gosto muito de a ver trabalhar]





Ontem, manhã bem cedo, janela aberta a dar para um pequeno jardim onde imperam os vultos das árvores, senti nos meus ouvidos um inesperado sussurro da memória. Ao folhear um livro escrito pelo punho de John Steinbeck, quiçá em busca de inspiração para não necessitar decretar algum tempo de exílio do exercício da escrita, deparei com uma factura da FNAC do Colombo com a data de 30 de Julho de 2002. Oito anos atrás, portanto. O momento, provavelmente irrelevante em si no decurso da minha existência por cá, fez-me recordar-te, recordar-vos, lembrar quem passou pela minha vida, quem eu nunca mais vi, quem então fazia parte dela, quem foi fazendo, quem já não faz. Foi como se de repente sentisse a alma a acordar e a necessidade de reviver intimamente oito anos em que tanto aconteceu e perceber que valeu a pena, que vale a pena. E que a saudade não é somente um sentimento triste de perda ou sentimento de falta mas é também um sentir convicto de que nada acontece por acaso. E a verdade é que todas as pessoas que passaram pela minha vida, mesmo que nunca mais as tenha visto ou delas não tenha tido mais notícias, se mantém por cá, que possuem um lugar que é seu ainda que agora bem arrumadas em pequenos cantos da emoção e da razão. Da memória. Sim, a minha vida nunca parou, continuou, mas não vos esqueci, como nunca esquecerei, porque sem ti, sem ela, sem vocês, a minha existência empobreceria. E vulgarizava-se.

A factura, essa, tem o valor de 85.32 euros. Nove euros e noventa e cinco pela banda sonora de «In The Mood for Love», o espantoso filme de Wong Kar Wai muito antes de ter rumado à América para fazer «My Blueberry Nights – O Sabor do Amor», dezasseis euros e quarenta e nove por uma colectânea dos Doors à procura de «Light My Fire» e do talento desregrado e suicida de Jim Morrison, dezasseis euros e quarenta e quatro por «Blue Velvet» e pelo peculiar mundo de sedução de David Lynch, doze euros e noventa e cinco ainda por David Lynch em «O Homem Elefante» e, finalmente, o restante para o filme de um pequeno ‘robot’, qual Pinóquio pelo amor de pai, em busca do amor de mãe e de se tornar um menino de verdade em «A. I. Inteligência Artificial», de Steven Spielberg.


domingo, 5 de dezembro de 2010

Madrid, ponto de passagem

[Hotel Room, 1931 - Edward Hopper]



Estive de novo em Madrid. Madrid é uma cidade enorme rodeada de auto-estradas de circunvalação recheadas de tentáculos cujo negrume alcatroado a liga aos mais diferentes pontos da Espanha. Madrid não tem mar como outras grandes cidades mundiais, mas tem um enorme aeroporto internacional que a une às outras grandes urbes espanholas e ao mundo inteiro e é ainda ponto de partida e chegada para uma enorme rede de comboios de alta velocidade que percorre todo o país de Cervantes.

Atocha, La Castellana, Cibelles, Moncloa, Prado, são, entre tantas outras, marcas indissociáveis da cidade. Mas existe em Madrid um museu que também faz parte dos roteiros obrigatórios da cidade embora me pareça passar um pouco despercebido. É um espaço cultural que merece uma visita bem atenta às suas enormes galerias e dá pelo nome de Thyssen Bornemisza. Voltei lá nesta curta visita e pude observar expostas algumas das maiores expressões de criatividade da pintura mundial desde Degas a Miró, de Picasso a Monet, de Velásquez a Van Gogh e muitos outros grandes nomes da pintura mundial e suas várias tendências artísticas.
Apesar disso, há quadros que sabemos existirem no Thyssen Bornemisza mas cuja presença por lá continua a surpreender-nos quando nos deparamos com eles. Um é famosíssimo, pertence ao americano Edward Hopper, pintor por excelência da solidão urbana, e retrata uma mulher só num quarto de hotel, com as malas – supõe-se – ainda meio por desfazer (Hotel Room, 1931). Mas, ao mesmo tempo que me surpreendo com a visão do original da pintura por ali, fica a pairar em mim a forte sensação de que não haverá melhor quadro para descrever a impressão que me invade de cada vez que visito Madrid.

É que ao contrário de Paris, Roma ou Londres, exemplos não ao acaso de outras três grandes cidades europeias, em Madrid parece sentirmos sempre que estamos lá de passagem. E se em Paris, Londres ou Roma nos apetece desfazer as malas, ficar por ali, envolver-nos na multidão, tornarmo-nos um deles, em Madrid já não. A mala fica por desfazer e vamos usando o estritamente necessário da bagagem que nos acompanha por não conseguirmos esquecer que vamos – e queremos - partir. E mesmo de visita a um outro famoso museu, o Centro de Arte Rainha Dª Sofia, perante uma outra obra incontornável da cultura global, a Guernica, de Picasso, não conseguimos desenvencilhar-nos da sensação de solidão que nos transmite Madrid e que o quadro de Hopper tão bem expressa.

Afinal, talvez «Hotel Room» de Edward Hopper esteja no local certo: a imensa cidade de Madrid que nos envolve e impressiona na sua grandeza mas não nos conquista afectivamente. Falo por mim, claro.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Da justiça e do sistema judicial

 
 
'Não encontramos justiça no sistema judicial. Este limita-se a aplicar a lei.'


In «Reservation Road – Traídos Pelo Destino»

A homilia

[Folles Amours, montagem fotográfica de Lucien Clergue, o 'poeta da fotografia']






Em «A Dúvida» [filme de 2008], numa das suas fantásticas homilias o padre Flynn [Philip Seymour Hoffman] conta a história de uma mulher que tendo lançado um boato desprezível sobre alguém acaba por se arrepender e busca o perdão junto do padre seu confessor. O padre não lhe concede de imediato o perdão e instiga-a a subir ao telhado da casa onde habita com uma almofada de penas numa mão e uma faca na outra com o objectivo de rasgar o travesseiro ao vento. Quando a mulher regressa ao confessionário e lhe dá conta da missão cumprida, o padre não a perdoa desde logo optando por perguntar o que lhe restou do gesto. Uma imensidão de penas, responde-lhe pesarosamente a pecadora. E perante a nova missão de que o padre a encarrega, a de voltar ao local e apanhar todas as penas, a desconsolada mulher responde-lhe que isso é impraticável já que estas se espalharam de tal modo que não é de todo possível reverter o mal feito.
Hoje lembrei-me do padre Flynn e da sua homilia. Porque os fins não justificam os meios e a intolerância, a incapacidade de perdoar e, por que não dizê-lo, a maldade não podem nunca sobreviver a coberto da sensação de impunidade reinante numa sociedade que há muito perdeu a noção do bom senso.






O que ficou por dizer

[A actriz Rachel Weisz]




Foram muitas, tantas as noites em que um homem e uma mulher fizeram amor numa cama de quarto de hotel. Ela, silenciosa, deixava que as suas mãos lhe vincassem a pele com toda a força do prazer que experimentava no seu corpo encaixado no dele. O homem apercebia-se invariavelmente do momento em que o corpo dela estremecia de êxtase colado ao seu. Com desejo mas ainda mais ternura levava algum tempo até que fizesse resvalar o seu corpo trémulo imobilizando-se arfante ao lado do dela na cama de lençóis brancos e transpirados. Beijavam-se uma e outra vez sem que pronunciassem uma única palavra. Naqueles momentos as palavras eram-lhes dispensáveis, traiçoeiras. Talvez por isso lhes tenha ficado tanto por dizer.



terça-feira, 30 de novembro de 2010

A Azinhaga de José Saramago





Estava uma tarde clara e fria como o são muitas tardes de Outono quando o meu carro contornou a rotunda que dá início à Azinhaga para quem vem do lado de Lisboa. Noto que dois rapazes guiam três ou quatro cabeças de gado pisando a erva e torneando arbustos até ladearem as estacas de uma vedação para animais. Sou natural do Ribatejo, mas, curiosamente, não me recordava de alguma vez ter estado na terra onde nasceu José Saramago. Deixo o carro seguir o percurso de alcatrão até ao que julgo ser o largo principal da povoação.
Sentado num banco de jardim, qual Pessoa no Largo do Chiado, vislumbro uma estátua de Saramago em plena leitura. Algumas pessoas ladeiam o monumento e pergunto onde é a Rua José Saramago. Silêncio total, trocam-se olhos inquisidores, ninguém me sabe responder. Agradeço e sigo o meu caminho, hesitante. Um jovem de pouco mais de vinte anos, livros debaixo de um dos braços, atravessa a rua um pouco mais à frente. Repito-lhe a pergunta anterior. Olha o vazio, parece puxar pela cabeça, pede-me desculpa, também não sabe. E a de Pilar del Rio, insisto. Pilar del Rio?, devolve-me a pergunta. Sim, confirmo eu, Pilar del Rio. Não, não sei. Ao fundo, uma mulher de meia idade fita-me tranquilamente com um sorriso a baloiçar-lhe nos lábios. Tente a zona nova, trezentos metros à esquerda, quase me gritou. Foi o que fiz.
E lá estavam.
Lá estavam a pequena biblioteca com o nome de José Saramago, a Rua Pilar del Rio de esquina com a Rua José Saramago. Tiro algumas fotos, entro um pouco no interior do edifício da biblioteca e, alguns minutos depois, percebo o alcance das palavras de José Saramago ao referir-se à passagem dos homens e mulheres por esta vida: num momento «está-se ali» e no outro «já não se está». E na Azinhaga, terra natal do único Nobel português da literatura, José Saramago já não está sem que provavelmente alguma vez tivesse estado. Isto, ainda que por lá se perpetue o seu nome em duas ou três homenagens simbólicas.
Já é quase noite quando regresso à estrada consciente da insignificância que o homem se atribui a si mesmo. Acabou-se para José Saramago, subiu à montanha mágica mas já não faz mais livros. Já não está ali. Mas tenho pena, eu que nunca fui seu fiel devoto.



segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O Americano











A bela e o matador

Por mais que o neguemos, todos temos um estilo. Próprio ou emprestado de outros. E rapidamente se descobre o de Anton Corbijn, o holandês realizador de «O Americano»: as personagens enigmáticas  e distantes são o seu estilo. Foi assim com «Control», filme sobre Ian Curtis o misterioso músico da banda Joy Division, e repete-o agora com o indecifrável Jack [George Clooney], um assassino a soldo refugiado numa zona montanhosa de Itália. O filme adapta o livro «A Very Private Gentleman», de Martin Booth, e fica a meio caminho entre o ‘Thriller’ clássico e o ‘western’.
Longe de atingir a perfeição, «The American» usa e abusa do carisma de George Clooney para criar uma personagem elegante e sombria que jamais permite que se lhe chegue à alma e desconfiada até da sua própria sombra. Perseguido por uma espécie de máfia sueca, Jack percorre as montanhas do interior italiano num velho Fiat Tempra e divide o seu tempo entre a violência e o sexo. No final, através de Clara [Violante Placido], uma prostituta belíssima, Jack acabará por descobrir o amor e revelar uma humanidade que até então se lhe desconhecia. Como se de um ‘cowboy’ solitário se tratasse, Jack vagueará então entre o amor e a morte sem consciência da debilidade que acarreta a sua condição de homem a abater.
Pese toda a simpatia pelo George Clooney de «O Americano», a verdade é que o filme se perde em imagens formosas mas estáticas e nas personagens da trama que nada acrescentam à história não permitindo a reflexão sem que jamais causem qualquer emoção [o Padre Benedetto é disso flagrante exemplo]. E a prometida tensão  inicial vai-se a pouco e pouco desvanecendo numa obra de narrativa inexplicavelmente lenta e até um pouco pretensiosa. E mesmo o final  a sugerir algum vazio melancólico deixa um sabor a uma certa frustração por se ver esfumar ali mesmo defronte dos nossos olhos a salvação de um homem e o sonho de uma mulher. Mas, de facto, o que acontece é o triunfo do simbolismo sobre os devaneios quiméricos do homem tão presentes nas chamadas obras de autor. Mas nem Corbijn será um autor no sentido que aqui se quer dar ao termo nem a bela e sensual Clara merecia tamanha traição da vida. Uma lástima.

«O Americano», de Anton Corbijn, com George Clooney e Violante Placido


domingo, 28 de novembro de 2010

Auto-estrada 5


[Imagem da autoria de Lilya Corneli]





Costumo encontrá-la todos os dias, logo pela manhã, entre uma torrada e um daqueles sumos condensados ricos em calorias. Estaciona o Peugeot 307 azul escuro, matrícula de 2006, no parque de estacionamento da área de serviço de Oeiras. E sai lentamente, vagarosamente, de dentro do carro percorrendo a pequena distância até ao snack-bar sem nunca tirar os olhos do piso adornado de inúmeras rachas no betão desgastado pela passagem do tempo e das pessoas e carros. Aparenta pouco mais de 30 anos mas carrega no olhar o peso de uma vida a valer o dobro da idade que se lhe percebe. Ontem percebia-se-lhe também um corpo esbelto por debaixo da gabardina clara com que se protegia do frio e da chuva. Os homens não conseguem deixar de reparar nestas coisas numa mulher, é algo que lhes é superior. Pese tamanha melancolia e desapego do que a rodeia, a minha curiosidade aumenta a cada dia ao reparar que os traços finos do rosto, a boca perfeita e a pele suave indiciam que procura disfarçar uma beleza capaz de fazer deter nela o olhar daqueles que se cruzam no seu caminho. Quase nunca lhe ouvi a voz, tão suave e silencioso é o modo como faz o pedido aos empregados do bar. Que nunca são os mesmos. Ontem ouvi-a, escutei-lhe a voz. Passou por mim e, perante o meu espanto, levantou os olhos do chão até se encontrarem com os meus, detiveram-se por instantes na minha surpresa esbugalhada, sorriu e desejou-me bom dia. Mal tive tempo de me recompor e balbuciar o bom dia que trazia guardado para outra ocasião que não aquela. Desviou lentamente o olhar e caminhou de regresso ao carro, olhos de novo nas rachas de betão, e arrancou. Depois de apanhar do chão o jornal que atabalhoadamente deixara cair, só já tive tempo de ver o azul do Peugeot esbater-se algures no tráfego intenso da A5 àquela hora da manhã.

José & Pilar





«A Pilar, que ainda não havia nascido e tanto tardou a chegar.»

Antes de qualquer outra observação, devo realçar o quão gratificante é ver chegar às salas de cinema do vulgar circuito comercial uma obra documental como «José & Pilar», numa realização de Miguel Gonçalves Mendes.  A equipa do realizador português acompanhou o quotidiano do casal José Saramago e Pilar del Río durante três anos [entre 2006 e 2009] criando uma visão nova e objectiva, desprovida de juízos de valor, sobre o único Nobel português da literatura. Um filme que chega ao público quando as persianas da vida já há algum tempo se fecharam sobre o escritor, o que confere à obra um cariz ainda mais vincadamente emocional. E mais gratificante ainda é ver como o público português aderiu a um retrato filmado que revela uma relação que se agigantou num amor puro e verdadeiro e demonstra ainda uma enorme sensibilidade ao desvendar em Saramago um homem extremamente lúcido e carinhoso desfazendo com isso a imagem de pessoa arrogante que o acompanhou desde que chegou ao topo.

Saramago foi um escritor de enorme sucesso e um homem de vida cheia, daquelas vidas que normalmente apenas habitam os livros. E quando conheceu, aos 63 anos de idade, aquela que viria a ser a mulher da sua vida, a jornalista espanhola Pilar del Rio, uma nova vida se abriu sobre o homem e escritor numa relação que duraria até à sua morte, já em Junho deste ano. E é sobre esse grande amor, sobre a vida do escritor com a sua mulher, que se centra o documentário apropriadamente intitulado «José & Pilar». Filmado sobretudo na ilha de Lanzarote onde o casal construiu o seu lar mas também nas imensas viagens a que o escritor se via obrigado por não saber dizer não aos imensos convites que recebia, o que vemos desfilar na tela é o lado real mas intensamente emocional de um amor que nasceu a partir da busca de uma jovem mulher por um homem grande na sua arte e se foi construindo nas pequenas coisas do dia-a-dia, na intimidade de dois seres humanos que se entregaram profundamente ao amor que os unia.
Ainda assim, é importante verificar como a câmara de Miguel G. Mendes acompanha o processo criativo do escritor e capta as suas angústias e temores mas, sobretudo, as convicções que partilhava com o mundo sem jamais as querer impor. Hoje, José e Pilar convivem de mãos dadas numa esquina da Azinhaga, terra natal do escritor, onde as ruas José Saramago e Pilar del Rio confluem entre si. E na placa toponímica que identifica a rua que homenageia a mulher do escritor, está à vista de todos uma das mais belas mensagens de amor que alguma vez pude ler. Retirada da obra «As Pequenas Memórias», lá está a frase que perpetua um grande amor: «A Pilar, que ainda não havia nascido e tanto tardou a chegar.»
Obrigatório. Para amantes da escrita de Saramago, do homem apaixonado que foi Saramago, para amantes de cinema e para quem, como eu, acredita no amor desprovido de barreiras de diferenças de idade ou outras.

«José & Pilar», de Miguel Gonçalves Mendes, com José Saramago e Pilar del Rio

[Foto tirada na Azinhaga, a 24 de Novembro; há um par de dias atrás]


segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A boa educação por Anton Tchekhov


[Rebecca Hall e Scarlett Johansson à mesa em «Vicky Cristina Barcelona»]






Falecido em 1904, o escritor e dramaturgo russo Anton Tchekhov escreveu que a boa educação não está tanto em não derramar o molho sobre a toalha de mesa mas muito mais em ter a capacidade de não notar que outra pessoa o faça. Suspeito que na sociedade actual muito poucos lêem Tchekhov e muitos menos seguem aquilo que tão nobremente defendia.



Preconceito



[New York Movie, 1939 - Edward Hopper]




Confesso que quando era adolescente, e mesmo até um pouco mais tarde já jovem adulto, quando conhecia alguém costumava perguntar a essa pessoa se gostava de cinema. E se a resposta era afirmativa de imediato colocava nova questão. Questão essa sobre que filme ou filmes vistos por essa pessoa a tinham de algum modo marcado ou influenciado. Se é que os havia. Eram perguntas quase ao estilo de “diz-me de que filmes gostas, dir-te-ei quem és”. Ainda hoje faço isso um pouco, embora apenas por brincadeira e nunca como fórmula de busca de conhecimento sobre a personalidade ou carácter do outro. Isto apesar das nossas preferências cinematográficas terem tudo a ver com a pessoa que somos. Com a forma como pensamos, como sentimos, com o nosso percurso de vida, académico, profissional e tudo aquilo que de algum modo nos fez ser o indivíduo em que nos tornámos. E até, por vezes, com aquela pessoa que amámos e que apesar de já nada sabermos dela continuamos a ser influenciados pela sua anterior presença na nossa vida.

A fragilidade do indivíduo

[Man Sitting - Back View - 1964, Wayne Thiebaud]






Anos atrás li um livro de estrutura narrativa grandiosa. Um livro unanimemente considerado como um dos grandes documentos da literatura mundial. Falo de «O Doutor Jivago», de Boris Pasternak. Hoje relembro como a obra é perfeita na demonstração da fragilidade do indivíduo, de como as vivências, os pensamentos e as reflexões de alguém podem estar tão de acordo com alguma inquietude que nos assola e necessariamente afecta os dias.


Jivago, burguês e médico, abandona Moscovo no dealbar de uma revolução. Fá-lo ao perceber que os meios determinam os fins. Isto é, que o bem gerará o bem e a força bruta só poderá gerar o mal. Imerso na violência da história, passeia-se um intelectual de alma solitária que se apaixona tremendamente por uma mulher muito mais jovem que ele. Uma mulher que encontra anos depois de a ter conhecido em Moscovo. Uma paixão intemporal que não irá viver dada a tragédia de que é vítima acabando por morrer de ataque cardíaco depois de sobreviver longo tempo na penúria.


Lembrei-me do Dr. Jivago. Do poeta, do homem apaixonado, do idealista. Lembrei-me de como não somos nada em confronto com o decorrer avassalador da vida, perante os acontecimentos sobre os quais não temos mão mas que nos condicionam o dia-a-dia, nos limitam os sonhos, nos fazem ter que recomeçar do zero quando julgávamos ter construído algo. Há em tudo isto muito de material [existe sempre algo de material em tudo] mas, sobretudo, de espiritual e trágico. E enquanto nos questionamos, vamos continuando o nosso caminho. Cansados, de olhar vazio, assemelhando-nos a autómatos, mas lá prosseguimos. No entanto, muitas vezes sem sabermos muito bem qual o rumo que devemos tomar.

sábado, 20 de novembro de 2010

A sexualidade infeliz



[Isabelle Huppert em «La Pianiste»]



No filme em que o austríaco Michael Haneke adapta um livro da sua compatriota escritora Elfriede Jelinek, «A Pianista», Erika Kohut vive uma sexualidade reprimida pela figura da mãe. O seu desequilíbrio emocional leva-a a soltar-se num voyeurismo desenfreado em sessões pornográficas e na observação de casais a terem sexo. Os excêntricos desejos sexuais desta mulher culta, professora de música no Conservatório de Viena, levavam-na a sentir-se refém da crueldade, do amor pela dor fazendo dessa dor o objecto que a fazia sentir prazer e atingir a desejada felicidade. O livro de Jelinek, segundo a própria, tinha muito de autobiográfico. Afinal, estas revelações que a escritora decidiu partilhar de si com o mundo têm tanto de fantástico como de realistas.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O cinéfilo que pintava quadros

[Nighthawks, 1942 - Edward Hopper]







«Nighthawks» é talvez o quadro mais mediatizado de Edward Hopper, pintor realista norte-americano que ficou celebrizado como o poeta da solidão. No quadro citado, e segundo as suas próprias palavras, Hopper refere apenas como uma possibilidade remota o facto deste ilustrar a solidão urbana. «Inconscientemente talvez estivesse a pintar a solidão de uma cidade», referiu a propósito. O pintor era um cinéfilo compulsivo e a perspectiva um tanto ou quanto bizarra que adoptou para «Nighthawks» assim como o jogo de luzes que as suas técnicas de composição permitiram, parecem comprovar essa mesma teoria. Hopper nasceu e morreu em Nova Iorque nos anos de 1882 e 1967.

Amores maiores do que a vida

[Cartas de uma Freira Portuguesa - Milo Manara, via E Deus Criou a Mulher]






«Os meus olhos é que perderam nos teus a única luz que os animava.»





Soror Mariana Alcoforado



Não raras são as vezes em que as grandes paixões permanecem eternas, afundadas na tristeza pela privação do outro, serenadas pelo lento passar do tempo que leva à triste resignação da perda. Soror Mariana Alcoforado, nascida e falecida em Beja nos anos de 1640 e 1723, foi uma dessas infelizes protagonistas de um amor maior que a vida. Apaixonada pelo fidalgo francês Noël Bouton (1636 – 1715), na altura em Portugal ao serviço da Cavalaria Francesa no reinado de Luís XIV, por essa paixão ardente a freira portuguesa quebrou o voto de castidade e propôs-se acompanhar o oficial até ao seu país de origem, não encontrando no entanto reciprocidade nesse desejo por parte do seu amado.



Famosa por escrever 7 fabulosas cartas que deram origem a livros e que pela sua beleza estética e fabulosa componente literária inspiraram poetas, escritores, pintores e outros artistas, decorreu em tempos no Real Mosteiro da Nossa Senhora da Conceição, em Beja, uma exposição que homenageava a religiosa portuguesa, que foi escrivã e vigária do templo, com a reprodução de litografias de Henri Matisse e de documentos originais que retratam a sua muito inflamada paixão que em tempo curto descambaria em saudade e dor. Deixo aqui ficar, com este texto, a minha singela homenagem a uma mulher que morreu não deixando que o seu amor alguma vez morresse em si.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A dor de sentir




 [Suicídio, de Edouard Manet - 1877]





Do livro «Gente Feliz com Lágrimas» [1988], de João de Melo, salta-me à vista este pequeno excerto. “Nos olhos dela, perdura ainda uma solidão compassiva e extenuada, dessas que a vida não consegue explicar. O hábito de ser triste culpabiliza nela a própria ideia de felicidade. Tal como nós, não sabe ser feliz sem lágrimas, nem rir sem o remorso da alegria, e isso vê-se-lhe nos olhos.”

Sorrio. Lembro-me de Camilo Castelo Branco, de si próprio e do seu «Amor de Perdição» [1862], de Van Gogh, do Shakespeare de «Romeu e Julieta» [1595], de Virginia Woolf, de Ernest Hemingway, Kurt Cobain e tantos, tantos outros e detenho-me apenas a tentar interpretar um sentimento voraz que de tão intenso se transforma em apetite que somente o trágico sabor da vida pode saciar.

Medo no cinema

Agarrados à Cadeira na Sala Escura do Cinema



Há tempos a revista Actual, do Expresso, apresentou-nos um interessante trabalho sobre o horror no cinema. Que é como quem diz, sobre os filmes de terror. Confesso que não considero este como um género menor do cinema tal como se escreve no texto da publicação, mas, neste caso particular dos filmes de terror, as minhas exigências enquanto espectador são muito mais elevadas que noutros géneros mais populares, mais próximos de nós, do nosso quotidiano. Isto porque é imperioso que sinta um vislumbre de veracidade na história que se desenvolve na fita muito para além dos aspectos conceptuais da realização. Estes que podem ir desde a excelência dos dècors – que são, claro, essenciais no género cinematográfico – ou da perfeição na caracterização dos actores – também um aspecto fundamental para o sucesso de um filme de terror. Significa isto que um filme de terror que alcance uma consistência dramática capaz de libertar a porção correcta na mistura de tensão e medo no espectador, possui desde logo duas características fundamentais para se tornar num bom filme do género. Mas estas duas não sobrevivem sem uma outra especificidade: a capacidade de atingir uma dimensão de verosimilhança com a realidade ou do que pode estar para além dela. Claro que a tudo isto o meu amigo
António Pascoalinho – um dos maiores se não o maior especialista de filmes do género em Portugal – responderia com um enorme bocejo. Mas, reconheço, até pelo que foi dito atrás, estou a quilómetros do seu gozo especial em 'molhar a sopa' nos jorros de sangue que fazem as delícias dos grandes fanáticos do género em que outro amigo, o Filipe Lopes, também se inclui.



Com honrosas excepções, quase todos eles fazem parte da lista que o Expresso disponibiliza no referido trabalho. Mas eis a minha relação de melhores filmes de terror da história do cinema. Fora desta lista ficam sequelas e personagens míticas como o Conde Dracula, Frankenstein,
Freddy Krueger (Pesadelo em Elm Street), Jason Vorhees (Sexta-feira 13), Allien e outros. Por outro lado, dada a sua dimensão trágica e humanista numa figura inumana, Nosferatu (1922), de Murnau, ocupa um lugar de destaque numa listagem restringida aos melhores. Na minha modesta opinião, claro.












[ Nosferatu (1922), de F.W. Murnau - O início]






1 - [The Shining (1980), de Stanley Kubrick - A genialidade do mestre]







3 - [The Birds (1963), de Alfred Hitchcock - Tese de doutoramento do mestre do 'suspense']





4 - [The Exorcist (1973), de William Friedkin - Possuída pelo demónio]





5 - [ The Fly (1986), de David Cronenberg - Apanhado nas teias do seu próprio desejo de evolução científica]




6 - [Rosemary's Baby (1968), de Roman Polanski - Histeria e assombração]





7 - [Halloween (1978), de John Carpenter - Guiados no medo pelos olhos do impiedoso assassino]





8 - [Night of Living Dead (1968), de Georges A. Romero - A morte saiu à rua (numa noite assim)]








10 - [Jaws (1975), de Steven Spielberg - Medo e perturbação]














terça-feira, 16 de novembro de 2010

O exímio fantasista




Invariavelmente pitoresco e sedutoramente colorido, busca referências do passado no sótão das suas memórias, descreve fervores políticos e gentes bizarras, é interventivo socialmente, revela os apelos da sexualidade e tão depressa flutua numa doce áurea de romantismo como imediatamente resvala para a obscenidade.





Sim, seria deveras reconfortante que o parágrafo acima descrevesse a minha ziguezagueante actividade aqui na casa. Mas não, é de Fellini e do seu incontornável «Amarcord» (1973) que falo.

 
 




De má fé

[Poplars on the Epte - 1891, Claude Monet]




Dou um passeio pela blogosfera, leio alguns textos aqui e ali e um pouco ao acaso folheio alguns comentários que são deixados nesses blogues. E fico espantado comigo por continuar a deixar que a natureza humana me surpreenda. Por vezes julgo perceber que alguém que escreve publicamente sobre o que lhe queima a alma deixa entrever um espírito sensível e tão sedutoramente ingénuo e puro. E incomoda-me que receba por parte de outrem observações não só despropositadas como cruéis. É como alguém escreveu um dia. Há pessoas que olham para a floresta e só vêem lenha para queimar.


Elas & Nós

[A actriz francesa Emmanuelle Béart]






A citação vem no jornal Público e pertence ao actor e dramaturgo francês Marcel Achard (1899 – 1974): ‘As mulheres gostam dos homens silenciosos porque acreditam que eles estão a ouvi-las’. Mas essa é a grande culpa do homem. Porque enquanto as mulheres falam nós vamos observando os gestos delicados que fazem com as mãos, os lábios avermelhados do sangue que lhes aquece o corpo em suave sintonia com aquilo que certamente dizem, o sorriso entusiasta perante o nosso olhar atento mas absorto, e, no final, se tivermos sorte, ainda recebemos um abraço. E se mais sorte tivermos, um beijo caloroso. E quando elas nos perguntam o que pensamos dos largos minutos em que falaram arrebatadas pelo valor do discurso, nós que nada ouvimos embora estivéssemos deliciados na atenção que lhes dedicámos, respondemos apenas que nada mais há a acrescentar a tamanha lucidez e eloquência. E recebemos de novo um abraço, este merecido, e, com um pouco de sorte, novo beijo ainda mais quente que o anterior. Mas lá bem no fundo, nós sabemos que elas estão perfeitamente cientes do que se passa nestes momentos e percebem que na nossa fraqueza perante os seus encantos reside o seu triunfo. E para nós, homens, fica reservada a vitória moral.




segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Siddharta, o indiano












Para quem leu o livro, sabe que «Siddhartha» - obra fundamental da literatura de sempre, de Hermann Hesse - é a história de uma procura. De uma procura que alguém leva a cabo e onde o elemento mais importante não é o ponto de chegada mas sim o percurso realizado para lá chegar. Siddhartha é um jovem indiano bem-nascido mas totalmente insatisfeito com a vida que tem. Resolve então partir à aventura na tentativa de encontrar aquilo que o pode completar. Embora, à partida, não lograsse perceber o que procurava. Nessa busca, de anos, experimentou de tudo. Entregou-se à luxúria, ao jogo, tornou-se asceta e interagiu com as mais variadas personagens conhecendo os múltiplos aspectos da vida.



Ou seja, um homem que tinha tudo percebeu que sem passar por privações, sem conhecer o desânimo ou o sabor amargo da derrota, sem ter a necessidade de se reinventar para ultrapassar obstáculos conhecendo a dor e o sofrimento jamais conseguiria identificar a felicidade e lidar com ela caso existisse como um todo. E é um facto que sempre que me acontece algo de menos bom e que de algum modo me provoque sofrimento procuro recordar-me de Siddhartha. Isto para não esquecer que felicidade e tristeza se completam. E que mesmo parecendo um paradoxo, a felicidade e a tristeza atribuem à vida aquele espantoso equilíbrio que todos buscamos no dia-a-dia. Apesar disso, confesso-vos que em momentos menos bons não fosse o enorme respeito que nutro pelos livros e já teria rasgado «Siddhartha» de Hesse. Que se ponha de pé quem não se importa de sofrer para melhor saborear a felicidade.



domingo, 14 de novembro de 2010

O cansaço dos dias

[Pintura de Andrew Wyeth]




Sentia-se demasiado cansado naquele dia. Era tarde e a noite caíra sorrateiramente sobre a cidade, o demasiado calor para a época  anunciava a tempestade e o vento forte fazia estremecer a sombra das árvores numa dança estranha no negrume do pavimento. Deixou-se ficar sentado na noite a ouvir o silêncio poético que antecipava a intempérie. Enquanto escutava, adormeceu. E sonhou. Uma mulher sorriu-lhe no sonho. Estava linda no seu sorriso, aquela mulher. Um cão latiu ao longe, os travões de um carro que parara no semáforo a pouco mais de cem metros de si chiaram, a noite já então fizera esquecer completamente o dia, acordou. A mulher já lá não estava, desvanecera-se no acordar dele. Entretanto, na esquina da rua uma velhinha que há muito enlouquecera pôs-se a cantar.


Slumdog Millionaire







O Triunfo da Vontade





Será «Slumdog Millionaire», no seu título original, o melhor filme de 2008? Pode até ser, mas ter pelo mais recente trabalho de Danny Boyle um nível de estima tão elevado pode levar-nos à obrigação de tecer variadíssimas considerações sobre o cinema em geral. No entanto, esse não é um dado negativo e é até um dos grandes trunfos da realização de Boyle. Isto, a par da forma inteligente como retrata o drama das gentes que crescem nos bairros da lata de uma metrópole como Bombaím, mas, sobretudo, da história tocante que relata de um jovem de uma pureza e de um carácter ímpares que tem uma única ambição: a de recuperar para si o amor da sua vida. Para isso predispõe-se a participar no concurso local do «Quem quer ser milionário?». Mas como Jamal Malik (Dev Patel) é um simples assistente de Call Center, um slumdog [que poderá traduzir-se como cão (dog, claro) de bairro da lata (slum), pese a tradução do filme insistir em chamar-lhe rafeiro], ao chegar à pergunta que o poderá transformar no grande vencedor do concurso é acusado de aldrabice e levado para a esquadra da polícia para ser cruelmente interrogado. É então que o filme ganha alma e que a narrativa substitui o suspense tradicional por uma fluidez frenética. Nesta ambiência indistinta, é na miséria retratada que os cenários ganham cor e é a música que impulsiona o delírio dos factos chocantes e comovedores inerentes ao percurso de vida de Jamal.



Danny Boyle é o cineasta de «Trainspotting» (1996), mas também de «A Praia» (2000) e de «28 Dias Depois» (2002) filme onde abraça de novo o experimentalismo que é característica fundamental do seu cinema. Em «Quem Quer Ser Bilionário?» o inglês reúne-se de uma equipa de jovens actores amadores recrutados nos bairros da lata de Bombaím. E tem sorte. Não obstante a denúncia que faz dos abusos, do pouco respeito pelos direitos individuais dos cidadãos e até da rivalidade religiosa existente na Índia o filme recusa tornar-se panfletário para abraçar uma causa bem mais do domínio da alma humana que da problemática civilizacional. Jamal está-se nas tintas para o dinheiro que a vitória no concurso lhe pode dar, Jamal quer apenas recuperar a bela Latika (Freida Pinto) por quem sempre se manteve apaixonado. E na pergunta final, Jamal Malik não é – como nunca foi – o concorrente televisivo que está prestes a tornar-se riquíssimo. E nos cafés, nas ruas, nas casas, Jamal representa não um colectivo mas sim a certeza (individual), para cada um dos que o vêem, de que o sonho é possível. Pouco importa se o sonho do dinheiro e da mudança de vida para bem melhor que este pode proporcionar não esteja sequer nos objectivos de Jamal Malik. E, neste aspecto, o jovem indiano funciona até como o anti-herói. Não porque recuse a glória mas porque nem dela tem sequer conhecimento.



Arrisco afirmar que o sucesso de «Slumdog Millionaire» tem tanto de inesperado como de fruto do acaso, do momento. Isto apesar da excelente direcção de actores, da realização apaixonada de Boyle e outras relevantes características cinematográficas. Na verdade, este é o filme certo no momento certo quando a civilização atravessa uma crise que a faz questionar-se sobre o certo e o errado. Afinal, impérios construídos sobre estratégias bem delineadas e que foram conduzidas por homens e mulheres bem preparados caem diariamente. E Jamal Malik, que nasceu e cresceu nos bairros de lata de Mumbai até estes se transformarem na desordenada Bombaím, conseguiu a felicidade apenas à custa de acreditar no amor e de recusar a mentira. Tudo isto sobrevivendo rodeado das mais incríveis barbaridades. E na sua vitória Jamal Malik não é um jovem de sucesso, ele é somente um jovem feliz. Repito a ideia inicial: «Quem Quer Ser Bilionário?» talvez não seja o melhor filme de 2008, sequer um filme grandioso. Mas é feito de muita paixão, de vida, de esperança, de emoção. Afinal um conjunto de sentimentos brilhantemente adaptado para cinema.





«Quem Quer Ser Bilionário?», de Danny Boyle, com Dev Patel e Freida Pinto



quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A mulher

[Rachel Weisz, uma mulher]


Gosto de escrever. A escrita permite que moldemos o mundo sob o nosso ponto de vista e dêmos à vida os contornos que muito bem nos aprouver. Neste âmbito, sempre tive uma ideia romântica da mulher e embora no decurso da vida sejamos assaltados por pensamentos parasitas e ensaiemos alguns passos de dança com corpos estranhos a esse ideal, o perfil dessa mulher – que não está vedado a pequenas variações – está criado, existe.

O rosto dessa mulher é desenhado a traços muito femininos, bem definidos, e deixa escapar uma áurea nostálgica que permite adivinhar a preferência por um sorriso franco que transmite um sentimento em detrimento de uma gargalhada forte que surge apenas como resultado de um reflexo. Dos seus olhos, castanhos, ressalta um delicioso colorido de avelã. Os cabelos, também eles castanhos, a voz, um tom de voz suave que altera apenas de quando em vez para se poder fazer compreender nos momentos em que o ruído dominante a isso obriga. Os olhos brilhantes, sim, os seus olhos castanhos brilhantes, exprimem para o mundo exterior as emoções que procura reter interiormente. Mas procura escondê-los amiúde,  deixando fugir o olhar até o deter em locais vagos e incertos. Tem um corpo lindo, perfeito, é uma mulher elegante. E sofisticada sem que procure trabalhar este pormenor. Mas não necessita fazê-lo, a sofisticação é-lhe inata e emprega-a com toda a naturalidade do mundo. Gosta de se manter em forma, adora um bom livro e é fã de cinema. É de uma delicadeza suave e é encantador o carinho com que interage com os outros. Isto, embora seja directa mesmo que evite ferir a quem se dirige. Pese tudo o que se disse, tem dificuldade em expor mais de si do que aquilo que dá a perceber involuntariamente.

Talvez esta mulher não exista. Ou talvez exista apenas no mundo que a escrita molda. Mas é esta a mulher.





quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Da vida


[«Storytime», ilustração de George Barr]



Nos contos de fadas não há lugar para surpresas desagradáveis e tudo acontece ordenadamente até ao também harmonioso final. De certo modo, se a nossa vida decorresse como nas histórias de infância teríamos a felicidade garantida. Mas como a perfeição não existe, essa seria uma felicidade cozinhada em lume brando onde não há lugar para a ansiedade pelo tempo que se espera, para o desaire ou para a conquista, para o ardor, para a paixão. Assim sendo, deixemos as fadas no seu mundo e aceitemos as vibrações que a vida nos transmite mesmo que por vezes tenhamos que rebobinar as nossas emoções e obrigar-nos a que tudo volte ao seu início.


Autor maldito

[Kate Winslet e Geofrey Rush numa das cenas de um filme sobre o polémico Marquês de Sade]



Doantien Sade, que ficou conhecido para o mundo como o Marquês de Sade, viveu em França nos finais do século dezoito e inícios do século dezanove. Tendo levado uma vida dedicada à luxúria, Sade, aristocrata e libertino, foi desde sempre um autor maldito. Isto, talvez porque os homens em vez de procurarem compreender o que não entendem preferem imediatamente acusar e condenar, embora, sejamos justos, neste caso se entendam sem dificuldade as razões para tanta aversão. Apesar disso, e das suas práticas, Doantien Sade era um homem de convicções e ideias claras e podia mesmo fazer minhas algumas das palavras que deixou para a posteridade. Sem comentários adjacentes, destaco dois desses pensamentos que se podem ajustar ao conceito com que vou edificando este blogue. Dizia o célebre autor francês que ‘antes de ser um homem da sociedade sou-o da natureza’ e ‘dirijo-me às pessoas capazes de me entenderem, essas podem ler-me sem perigo’.

Mas um dos ideais que provavelmente mais contribuíram para a sua própria concepção de vida e que, se mais não houvesse, só por si justificaria todo o efeito negativo e mesmo pejorativo atribuído ao sadismo pode retirar-se da sua convicção de que ‘a primeira lei que a natureza lhe impôs foi a de gozar à custa de qualquer um’. Foda-se lá o gajo.