Em «Gran Torino», esse extraordinário filme de 2008 realizado por Clint Eastwood, a personagem central da trama, Walt Kowalski (protagonizado pelo próprio Eastwood), é um homem só que vê a sua mulher morrer enquanto os seus amigos ou morreram também ou se mudaram para outros locais da cidade. Entretanto, vê o seu bairro habitado na sua esmagadora maioria pelo povo Hmong, uma etnia oriunda do sudeste asiático.
Como grande realizador de cinema que é, em «Gran Torino» Eastwood consegue fazer ainda a ponte entre os conflitos interiores de um homem de alma atormentada e uma sociedade doente. E através de uma realização segura e de uma interpretação verdadeiramente antológica, Eastwood e o seu filme elevam-se a uma categoria superior onde coexistem o drama mais intenso e profundo com cenas de sentido humor.
A nostalgia de outros tempos e um certo impasse vivencial tornam-se elementos fundamentais de uma história onde a expectativa do fim de uma vida já sem grandes estímulos e o apelo da solidariedade se fundem num objectivo comum. E é na consolidação desse objectivo que o filme de Eastwood se torna perfeito e absolutamente imperdível na história de um homem que encontra a redenção de um modo tão altruísta quanto dramático. E no final do filme talvez sejamos levados a concluir que a perfeição de «Gran Torino» só é possível em contraste com a eterna imperfeição do mundo em que vivemos e naquilo em que o transformámos.
Gran Torino, de e com Clint Eastwood

































