quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Semelhanças



 
Miguel Esteves Cardoso? Não, apenas um auto-retrato de Grant Wood, datado de 1932.




segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

O dia do juízo final





Na maior parte das religiões acredita-se no dia do juízo final. Talvez esse dia exista mesmo. Afinal vivemos a crédito e no fim alguém nos irá cobrar a dívida que contraímos por cada dia que por cá andámos. E neste aspecto certas religiões funcionam como vulgares seguradoras espalhando a fé no seu deus como quem vende apólices. Acho isto execrável. Mas, pelo sim pelo não, Domingo vou à missa das onze.




domingo, 9 de janeiro de 2011

O Preço da Traição


 



O dinheiro não paga o amor

Catherine [Julianne Moore], ginecologista, mãe, esposa, desconfia que o seu marido, David [Liam Neeson], professor de profissão, a engana com qualquer jovem que se atravessa no seu caminho. Para obter provas irrefutáveis da infidelidade de David, Catherinne contrata Chloe [Amanda Seyfried], uma jovem prostituta de luxo, a quem incube de seduzir o marido. «Chloe», título original do filme do egípcio Atom Egoyan, é o ‘remake’ do francês «Nathalie X» [2003], dirigido por Anne Fontaine.
Num filme com estas premissas, supõe-se desde logo que três elementos se tornem fundamentais e adensem uma narrativa que visa prender o espectador não apenas pela razão mas sobretudo pela emoção: a suspeita, os jogos de sedução e o engano. Nada mau, diria, mas o que, de facto, Egoyan acaba por não conseguir confirmar por inteiro transformando o que deveria ser um ‘thriller’ erótico num drama psicológico. E pese a génese desta história residir na insegurança de uma mulher ao ver aparecerem-lhe na pele as primeiras rugas, o que de melhor o filme oferece acaba por ser o duelo de sedução entre essa mesma mulher [Moore], belíssima, de cinquenta anos, que mantém intactos todos os seus atributos físicos e a beleza voluptuosa de uma outra mulher [Seyfried] no auge da sua juventude e na posse de todos aqueles predicados físicos que enlouquecem os homens. E algumas mulheres.
Assim, «O Preço da Traição» acaba por ser um filme agradável, que se vai apurando em lume brando e se saboreia com menos gosto que aquilo que os olhos prometem. Ainda assim, fica mais uma vez a certeza de que o mundo – e o ser humano – vive à beira de um ataque de nervos, ou, como o filme demonstra, vivemos numa época em que cada vez é mais difícil confiar na sanidade mental de muitos daqueles que nos rodeiam.

«O Preço da Traição», de Atom Egoyan, com Julliane Moore, Liam Neeson e Amanda Seyfried

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Gran Torino






A ausência dói



Em «Gran Torino», esse extraordinário filme de 2008 realizado por Clint Eastwood, a personagem central da trama, Walt Kowalski (protagonizado pelo próprio Eastwood), é um homem só que vê a sua mulher morrer enquanto os seus amigos ou morreram também ou se mudaram para outros locais da cidade. Entretanto, vê o seu bairro habitado na sua esmagadora maioria pelo povo Hmong, uma etnia oriunda do sudeste asiático.

Como grande realizador de cinema que é, em «Gran Torino» Eastwood consegue fazer ainda a ponte entre os conflitos interiores de um homem de alma atormentada e uma sociedade doente. E através de uma realização segura e de uma interpretação verdadeiramente antológica, Eastwood e o seu filme elevam-se a uma categoria superior onde coexistem o drama mais intenso e profundo com cenas de sentido humor.

A nostalgia de outros tempos e um certo impasse vivencial tornam-se elementos fundamentais de uma história onde a expectativa do fim de uma vida já sem grandes estímulos e o apelo da solidariedade se fundem num objectivo comum. E é na consolidação desse  objectivo que o filme de Eastwood se torna perfeito e absolutamente imperdível na história de um homem que encontra a redenção de um modo tão altruísta quanto dramático. E no final do filme talvez sejamos levados a concluir que a perfeição de «Gran Torino» só é possível em contraste com a eterna imperfeição do mundo em que vivemos e naquilo em que o transformámos.

Gran Torino, de e com Clint Eastwood



Prado do Repouso


 
[1892, Edvard Munch]

Amanheceu cinzenta a quinta-feira, dia 6 de Janeiro, no Porto. Do meu quarto de hotel vi a foz, o casario estendido sobre o rio. Comecei o meu dia com a presença num funeral. Os silêncios de respeito pela ocasião triste, os semblantes magoados dos familiares e amigos, a dor da perda mas também as palavras de ocasião. Por que será que mais do que o sofrimento por quem parte me dói observar a ruína emocional em que caem os que os amaram em vida e choram a sua morte?
 

Onde está o cão?

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O Monte dos Vendavais







«O Monte dos Vendavais» foi escrito pela britânica Emily Brontë em 1847 e levado ao cinema por Peter Kosminsky em 1992, como é sabido. A obra relata o conflito de duas gerações das famílias Earnshaw e Linton e o amor avassalador, trágico, entre as personagens Heathcliff (interpretado de forma soberba por Ralph Fiennes no cinema) e Catherinne (uma fascinante Juliette Binoche no filme). Embora levado ao extremo em termos de dramatismo, trata-se de um retrato fiel da vida, de uma aventura arrebatadora, entusiasmante e profundamente reveladora da complexidade do ser humano. As angústias e os medos das personagens são explorados de uma forma perfeita causando no leitor/espectador um efeito tão apaixonante como o ardor que corrói interiormente os dois amantes. E neste âmbito, Heathcliff contribui de forma decisiva para o carácter emocionalmente opressivo de toda a obra. O amor, o ódio e o medo misturados fazem de si alguém que atemoriza mas ao mesmo tempo lança instintivamente um irresistível poder de sedução sobre as mulheres. Um romance clássico e um filme intemporais a pedirem nova leitura e mais um visionamento.





O conselho





É sempre muito arriscado aconselhar um livro ou um filme a alguém cuja forma de estar, pensar e sentir não dominamos. Em tempos uma pessoa com quem não tenho muita afinidade pediu-me que lhe aconselhasse um livro que tivesse sido adaptado ao cinema e também o filme que resultou do livro. Segundo essa pessoa, teria que ser uma história dramática que envolvesse uma relação amorosa. Ainda pensei em aconselhar o «Doutor Jivago», obra maior escrita por Boris Pasternak e levada ao cinema por David Leane. Mas achei que talvez fosse um conselho óbvio de mais e eu próprio acabei por lhe emprestar «O Monte dos Vendavais» saído da genialidade de Emily Brontë e adaptado ao cinema por Peter Kosminsky. Uma manhã, enquanto desenferrujava as pernas numa curta corrida junto a minha casa, essa pessoa veio ter comigo com o livro e o DVD nas mãos. Fiquei um pouco receoso de ter causado alguma decepção com o meu conselho. Mas não. Depois de me ter colocado nas mãos as duas obras, percebi não só pelo que me foi dito como pelo sentimento expresso nessas palavras que Emily Brontë e Peter Kosminsky tinham causado um efeito emocionalmente devastador na minha interlocutora.






quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

A verdade da mentira


[Girl in a Poppy Field, 1974 - Peter Blake]



M., onze anos de idade, um sorriso feliz desenhado num rosto de menina. Olha-me atentamente, fixa o seu olhar em mim, investiga para lá do que vê e faz a pergunta incómoda: ‘já alguma vez mentiste?’ Fiquei sem pinga de sangue, hesitei. Mas não, se já alguma vez mentira não era aquela a altura para repetir o meu constrangedor delito. Respondi-lhe com o meu melhor sorriso em tão difíceis circunstâncias. ‘Já, já menti.’ Ela não acreditou e riu-se com vontade voltando para o seu mundo povoado de inocência. Percebi então que lhe dissera a verdade parecendo que mentia. Senti-me duplamente mal.


 

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Os Sonhadores


[Eva Green, de virgem abundante a Bond Girl]




A Arte de Expor a Paixão

A filmar a grandeza dramática, inebriante e de um erotismo quase obsessivo mas nunca gratuito do amor, o nome do cineasta italiano Bernardo Bertolucci dispensa apresentações. «O Último Tango em Paris», «Beleza Roubada», entre outros, são exemplos de filmes onde o gosto pelo amor e suas cambiantes de desvario, exaltação dos corpos e das almas que exultam através da união da carne ganha um relevo especial. Este «Os Sonhadores» é apenas (cuidado com este «apenas») mais um radiante exemplo do carácter afectivo – designemo-lo assim – do cinema de Bertolucci.

Paris é a cidade do amor, do sonho, da cultura, das elites intelectuais, da agitação e da revolta. E também do Maio de 68 e da Cinemateca Francesa, para nos situarmos definitivamente em «The Dreamers», no seu título original. É também a cidade de Theo e Isabelle, dois irmãos tão loucos no dia-a-dia quanto o são pela 7ª arte, e de Matthew, um jovem estudante americano a estudar na cidade das luzes e também ele um cinéfilo compulsivo.

Entre os três jovens nasce uma ligação que chega a assumir contornos de absoluto delírio não apenas na relação quase siamesa dos dois gémeos como pelo amor que nasce entre o elemento feminino do par e Matthew. Neste ambiente de cultura, de enfurecimento intelectual e desregramento ganha protagonismo o ardor da paixão entre o jovem americano e a sedutora francesa cujos contornos Bertolluci não se coíbe de expor no ecrã. Para aqueles que se sintam constrangidos pela visão de um pénis momentos antes da penetração inaugural numa vagina que sangra e palpita, este talvez seja um filme desaconselhável. Para quem entenda estes como factores naturais da vida, que não devem ser escondidos mas também não servem para um redutor papel de simplesmente provocar ou estimular, «Os Sonhadores» acaba por ser uma revisitação da Paris onde se deu «O Último Tango (...)» mas sem que exista ligação palpável entre ambos.

De salientar o ano de produção do filme (2003) e a aparição da virgem Eva Green que anos mais tarde conheceríamos como Bond Girl (a contracenar com Daniel Craig). No restante elenco Michael Pitt, um estudante americano em Paris, e Louis Garrel, o irmão siamês, estão à altura de um filme onde o Maio de 68 serve apenas como pano de fundo para as fantasias eróticas de Bernardo Bertolucci. O truque reside na capacidade que este tem em transformá-las em bom cinema. Mas atenção, há por aí muito boa e intelectualmente bem cotada gente a achar o filme insuportável. Eu cá não, gostei. Deveras.




«The Dreamers», de Bernardo Bertolucci, com Michael Pitt, Eva Green e Louis Garrel

Gaivota

[Lisboa]


Lisboa




[Gaivota] 






Lisboa. Uma voz linda de mulher ouve-se ao longe enquanto canta rogando que uma gaivota lhe traga o céu de Lisboa. E Lisboa está ali, está aqui, está lá, permanece um coração perfeito no desenho que fazemos da cidade grande e cosmopolita que é. Nas suas ruas antigas, menos antigas, modernas, mais modernas, os olhares entrecruzam-se saltando de laje em laje, saltitando algures nas lajes feridas pelo passar do tempo. E também eu vou perscrutando aqui e além pelo interior da penumbra, pela noite que se aproxima.

Mas Lisboa não esmorece nem cai no mar como canta a voz feminina. Permanece, isso sim, soberba nas suas avenidas, nas praças de sempre pisadas pelos pés velozes dos vendedores de bugigangas que interpelam os turistas. Que lhes sorriem, que lhes falam enquanto aqueles lhes põem uma mão sobre o ombro, lhes suplicam, imploram. Nas igrejas as vendedoras. À porta, numa dessas igrejas antigas, tão antigas como as ruas, as praças, a vendedora sem pernas oferece aos crentes ou somente curiosos os seus ramos de flores viçosas. Violetas, são violetas, quase grita.

Paguei o café e ausentei-me da esplanada, deixei a mesa vazia, a chávena branca vazia, o guardanapo gasto, as cadeiras desalinhadas, o rasto dos meus lábios na chávena branca, o casal ao lado de mãos dadas, as mãos dadas num aperto caloroso, o homem de ar aristocrático que folheava o jornal fingindo ler as notícias, os seus olhos perdidos na beleza e na juventude das mulheres em reboliço, rua acima, rua abaixo. Lá fica também o empregado de laço negro ao pescoço. E Pessoa, Pessoa o poeta da cidade, Pessoa impávido e sereno na sua representação em ferro, em bronze, não sei bem.

Desci a Rua Garrett em direcção à Rua do Carmo e a mulher mantém-se a cantar. E não, também eu não sei, nunca soube aliás, porque tem Lisboa este tom magoado, porque nela cantam o fado sob o céu como numa asa que não voa. Voz de homem, sumida, lamentosa, responde-lhe ainda a cantar. Diz-lhe que é Lisboa, que Lisboa vive num rosário de penas onde reina a saudade. E chegado já ao Rossio, fico sem saber o que fazer num caso como o que está a acontecer, como o meu, como o teu, como o dela. Ela Lisboa.  E como o homem que canta a chorar baixinho, talvez não me reste mais que pedir aos céus, a mim, a ti e a Deus. Mas não, não foi Deus. Fomos nós homens, foram vocês mulheres, és tu mulher linda, tu que és a saudade, o brilho no olhar. E embrenhei-me na cidade por entre caras conhecidas, desconhecidas, ruas, praças, avenidas, umas modernas e outras antigas. Por Lisboa.





segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

O nosso mundo

[Foto de Bill Brandt]



A crise financeira deitou a economia no divã e esta teima em não sair do coma profundo em que mergulhou. A depressão atingiu primeiramente a América mas rapidamente se alastrou pelo mundo fora e Portugal, como pátria do fado, não escapou à triste sina. Os bancos, habituados a pagar fortunas vergonhosas aos seus altos quadros e, numa ironia cruel, a viverem acima das suas possibilidades, deixaram de ter dinheiro para fomentar as linhas de crédito com que engenhosamente as empresas iam mascarando os problemas de anos e anos de péssimas gestões. Os discursos endureceram, gerou-se o medo e antes de debelar a recessão económica o mundo vai ter que curar a fraqueza psicológica de que padece e que o impede de reagir. E às vezes é preciso tão pouco para encontrar uma saída para a clausura onde nos encontramos. Eu sei que é duro dizê-lo, lê-lo, até pensá-lo, mas enquanto não é dado o passo para que esse pouco se concretize os sentimentos que mais transparecem são de amargura, decepção, incompetência e muita incerteza. E o mundo ameaça tornar-se num lugar triste para se viver.

 
Feliz 2011.


terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Instantâneos, Quatro - Viver



É tão bom sentir que somos parte integrante e activa desta vida a fervilhar.

Instantâneos, Três - Domingo

No Domingo vai casar-se um rapaz. É de boas famílias, tirou o curso de Engenheiro Técnico, já trabalha, a noiva pesa 57 quilos, tem cabelos pretos e carta de condução categoria B. Não lembro o nome do pai dela, a mãe dele é Justina, a mãe dela cabeleireira e esteticista, o futuro sogro dela é agente de seguros, está estabelecido por conta própria, tem somente uma hipoteca sobre o edifício onde montou escritório. Para o casamento convidaram 43 pessoas mas há um casal, que mora em Borba, que não pode vir porque o marido é bombeiro e está de serviço e a mulher é costureira e tem uma encomenda de cortinados para concluir antes do fim-de-semana terminar. A rapariga vai de branco, ele de preto e laço cinzento na camisa branca. Os pais de ambos sentem-se muito felizes e anseiam por netos.

Instantâneos, Dois - Hoje

Hoje alguém me disse que se fosse um filme seria «Disponível Para Amar», ou, no título em inglês, «In The Mood For Love». Hoje vesti um fato cinzento claro, uma camisa azul, uma gravata bordeaux, uns sapatos e um cinto pretos, almocei numa área de serviço de auto-estrada um panado a saber a couro velho e um sumo natural de laranja, paguei nove euros, senti-me pouco à vontade no fato que vesti, fiz duas centenas de quilómetros de automóvel e não recordo a paisagem. Hoje se eu fosse um filme seria «Eyes Wide Shut», ou, no título português, «De Olhos Bem Fechados».

Instantâneos, Um - Ontem



Ontem o frio não diminuiu de intensidade mas o David esteve melhor da asma. Nos jornais as presidenciais perderam importância e já não se falou tanto na crise provocada pela neve nos aeroportos. Um BMW série 5 leva 80 euros de gasóleo e os bilhetes dos transportes públicos vão aumentar. O João foi ao hospital para visitar um tio e deparou com ele embrulhado num lençol, telefonou para a família e deu-se início aos preparativos para o funeral. Antes tinha que se realizar a autópsia e o ar condicionado na sala de espera do hospital estava avariado. No Pacífico um explorador do fundo dos mares voltou à superfície atulhado de riquezas, sofreu uma arritmia cardíaca forte e porque não conseguiu rapidamente transporte para a clínica mais próxima morreu da espera.


segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

O amor, por Minnelli







Em 1958 Vincente Minnelli realizou o filme «Deus Sabe Quanto Amei», com Frank Sinatra e Shirley McLaine nos principais papéis. A dada altura, Dave, a personagem corporizada por Sinatra, lê um livro a Ginny (Shirley MCLaine) mas acaba por se sentir incomodado com a incapacidade desta em perceber a história. No entanto, Ginny desarma-o respondendo-lhe na sua enternecedora sinceridade :



'Não, não percebi nada do livro, mas gostei. Também não te percebo e gosto tanto de ti.'



Sempre achei esta frase formidável. Não apenas pela honestidade intelectual e afectiva de alguém como pelo efeito que este comportamento aparentemente simples mas tão revelador de si tem no outro. No fundo, aqui se prova que existe no ser humano uma eterna sedução pelo insondável e pelos pequenos e grandes mistérios da personalidade que fazem cada um de nós tornar-se mais ou menos cativante segundo o olhar de quem nos observa. E não existe nenhum outro jogo de sedução tão eficaz como este em que nos expomos ao outro com espontaneidade e sem artifícios. E é esta extrema capacidade para filmar a mais pura e recôndita essência humana que fez do filme de Minnelli uma obra intemporal.

Culpa








Tem dias em que me sinto uma personagem de um livro de Dostoievski. Se repararmos bem quase todas as suas personagens vivem cravejadas de defeitos. Entre outras inenarráveis categorias, ora são bêbados relaxados, malvados compulsivos ou deploráveis sovinas. Enfim, malandragem sem emenda. Está certo que bebo álcool muito esporadicamente e quase sempre com moderação, que procuro ser correcto com os outros e tenho uma péssima relação com o dinheiro já que nunca é de longa duração. Mas tal como as personagens do escritor russo, cuja humanidade leva à expiação voluntária dos seus pecados, sempre que algo de errado acontece entre mim e outra pessoa tenho a invariável tendência de achar que eu é que fiz algo de mal.



quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Ausência


 

[Não me vês, 2003 - Dário Alves]




 
Estamos tão pouco presentes na vida de algumas pessoas que dificilmente elas notam a nossa ausência. E no entanto nós sabemo-nos ausentes porque gostamos da sua presença.




 

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Lost in Translation - O Amor é um Lugar Estranho




[Scarlett Johansson em «Lost in Translation - O Amor é um Lugar Estranho»]
 
 
 
 



 
«Lost in Translation – O Amor é um Lugar Estranho» é um filme de amor. Sim, de amizade e ternura também, claro, mas é sobretudo o amor o sentimento que mais transparece do filme de Sofia Coppola. No entanto, há uma tristeza infinita nesse amor, uma melancolia que permite que o nosso fascínio pelo filme aumente a cada minuto que passa e cresça ainda em nós já depois do final da fita. Talvez porque aquele amor não se tenha concretizado, talvez porque dele saibamos apenas que nada mais restará para além da saudade, das memórias de uma semana marcante passada na cidade de Tóquio. Talvez ainda porque aquele era um amor só possível nas circunstâncias com que a extrema sensibilidade de Sofia Coppola no-lo apresentou. Não, o sentimento nascido entre Bob e Charlotte não permitia que as duas personagens recomeçassem as suas vidas com ele. As vidas de ambos só poderiam continuar depois de, isto é, para além daqueles momentos fugazes mas intensos. E daí a sensação de nostalgia e dor com que ficamos quando Bob segreda ternamente a Charlotte algo que não nos é permitido ouvir. E Charlotte chora. Nesse momento, estamos a olhar aquele par no presente mas sabemos que é já o passado que vislumbramos. Charlotte chora então de saudade. Para aqueles dois não havia futuro em conjunto e é através do conhecimento dessa realidade que sentimos um maior magnetismo pelo filme. Porquê? É impossível sabê-lo. Simplesmente porque continua a ser uma das tarefas mais delicadas a de tentar perceber a alma humana.





 

domingo, 19 de dezembro de 2010

Publicidade enganosa



Como habitualmente, a senhora dá-me o jornal e eu coloco-lhe na mão a moeda de um euro que corresponde ao pagamento. Senhora de si, já avó, simpática, bem disposta, sabe do meu gosto por filmes e informa-me que no dia anterior por apenas mais um euro podia ter levado também um DVD de um clássico do cinema. E sorri. Não lhe digo que já tenho em casa o DVD em questão, faço um compasso de espera enquanto processo dados na busca de uma resposta amável. Saiu-me apenas um ‘foi burrice minha’. ‘Ah, mas o senhor até tem ar de ser uma pessoa inteligente’. Devolvi-lhe o sorriso. Talvez fosse caso para ficar feliz com a apreciação. Mas não, se há coisa de que eu sempre senti repulsa foi de publicidade enganosa. E se, de facto, a senhora tem razão e eu aparento inteligência é puro equívoco e trata-se de um evidente caso de publicidade enganosa.


 

Eis o ser humano




Eva Mendes, ela que a cada dia se torna um ser humano cada vez mais apurado. Nestes casos, e só nestes casos, sou um seguidor das teorias do Anatole.
 
 

O repouso da espécie



 

Um ser humano Anatoliano repousa sob a arrebatada sensibilidade do olhar de Michel Feugeas, autor do eloquente instantâneo sobre a espécie.


As teorias de Anatole

«É preciso ser sensual para ser-se humano.»



Anatole France

A aprendizagem

["Empress Wu", ilustração de George Barr]



 
Conheço-os a ambos. Ele é um homem de quase quarenta anos, aparência de rapaz e uma quase inacreditável ingenuidade. Ela é uma mulher um pouco mais jovem, e jovial, linda, sorridente, sedutora. Quando ela chega o homem-rapaz parece renascer da melancolia com que se dirige para a passadeira ou para o tapete dos abdominais. Ela fala-lhe sorridente, coloca-se a seu lado e deixa que ele continue a apaixonar-se por ela sabendo que nunca o irá amar ou sequer deixar que a relação entre ambos ultrapasse a zona das máquinas ou até o estúdio de Power Jump. Acredito que ela goste dele mas não do modo que ele desejaria. Às vezes passo pelos dois e dou por mim a desejar que ela não gostasse daquele homem bom como gosta já que acabará por fazê-lo sofrer. Mas os homens também saem reforçados nas derrotas. Mesmo naquelas que foram desde logo anunciadas.

 

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A vida dos livros

[Nina Lund]



Confesso que deste livro já não me vêm à memória nem título nem autor. Mas recordo-me bem da história de amor que se desenvolvia numa intensidade por vezes cortante. E entre sentidas palavras de amor acompanhadas de gestos de carinho e querer, dos corpos unidos pela paixão e pelo desejo, havia risos e também lágrimas. E ausências difíceis de suportar. Apesar de tudo, e talvez por esse mesmo motivo recorde aqui uma obra já distante, por cada acontecimento que levou a que um dia a ilusão terminasse sem que tivesse morrido nos dois amantes, senti sempre que o autor proclamava a inocência do ser humano quando apanhado por um sentimento voraz que não se planeia mas ao qual se sucumbe. Também já não lembro muito bem em que condições aquela relação apaixonada terminou. Mas na literatura como na vida, creio que a mulher (neste caso a mulher) trocou a paixão louca e avassaladora por uma vida mais lúcida e realista. Enfim, uma obra que no seu final talvez faça apenas o relato de mais um combate perdido pelo amor.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Histórias de longe mas tão afectivamente próximas

 
 
 
"Tenho de ir aos arredores! À beira do rio onde o meu avô me levava... para pescar? Lembro-me, o meu avô tinha-me levado à beira de um rio, se tínhamos apanhado algum peixe, já não sei, mas lembro-me, tinha um avô, tive uma infância."



in «Uma Cana de Pesca Para o Meu Avô», de Gao Xingjian

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Não estamos sós


[Nicole Kidman em «Os Outros», de Alejandro Amènabar; 'eles' existem e andam algures por aí...]







O meu Avô Anastácio, com o seu cabelo curto e impecavelmente penteado a fazer lembrar um oficial da marinha inglesa, sentava-me no seu colo era eu garoto e dizia-me qualquer coisa ininteligível para mim à altura como:

– As referências, menino, as referências, nunca as percas!

E depois dava mais uma baforada nos cigarros sem filtro que adorava fumar e ele mesmo fazia, virava o olhar para o horizonte sem que se lhe percebesse qualquer referência física onde me pudesse orientar, e ficava assim durante largos minutos sem sequer se lembrar da minha leve existência sobre as suas pernas ossudas.

Um dia, era eu ainda um miúdo, no regresso de uma pescaria à cana no Rio Tejo, noite escura já alongada sobre os campos em redor, eu e o João optámos pelo caminho mais curto de regresso a nossas casas e que se fazia ao longo da linha da Beira-baixa. Esta era, à partida, uma decisão cómoda caso não existisse por ali, a uns bons 500 metros para sul no nosso caminho de volta,  um dos cemitérios da região. Amedrontados mas de peito cheio que dos fracos não reza a história, lá caminhámos contando toros de madeira via-férrea fora. Ia eu para aí nas 87 sulipas em que naqueles tempos assentavam os carris, quando avistei o vulto. Era enorme, tão negro que mal se distinguia na noite escura, e, coisa difícil para um humano vulgar, de pernas muito abertas suportava o corpo nos pés assentes em ambos os carris da linha. O cenário piorava porque ali mesmo ao lado viam-se bem brancas no negrume da noite as paredes que delimitavam o local onde se multiplicavam os sepulcros. O tal cemitério. Lembro-me que o João olhava para mim aterrado, eu olhava para ele não menos atemorizado e… nada. Não sabíamos que atitude tomar. Ficar ali, tentar o recuo perante o assustador inimigo!? Finalmente, e sem movermos um músculo do rosto para pronunciarmos o que quer que fosse, corremos na direcção de uma casa abastada que sabíamos existir algures. Neste entretanto, a coisa foi-se tal como chegou. Sem avisar, sem se perceber de onde veio e muito menos para onde voltou.

Volto eu agora às referências do meu avô Anastácio, ele que foi uma referência para mim. Morreu anos atrás e nunca cheguei a contar-lhe este incidente. Por um lado com receio de não ser levado a sério mas também porque usara emprestada sem seu conhecimento a cana de pesca que ele mais gostava. Hoje pergunto-me como teria ele agido perante uma situação como a descrita. Quero acreditar que se dirigiria até junto do vulto não identificado, se apresentaria educadamente à figura e, sem pejo algum, oferecer-se-ia para lhe fazer um dos seus cigarros antes de se sentarem os dois nos carris a fumar sossegadamente e a comentar como as águas do rio, de tão calmas, andavam bem más para a pesca à vara solta. Como afinal ele tanto apreciava.



quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Noites longas



[Hotel Lobby,1943 - Edward Hopper]






Gosto de hotéis.

Gosto do momento de chegar e de olhar a azáfama dos restantes hóspedes a entrar e sair, aprecio a amabilidade com que sou recebido pelos funcionários da recepção. Sorriem-me, fazem-me sentir bem, ajudam a que me sinta à vontade num local que não é naturalmente de paragem no meu dia-a-dia. Gosto, sobretudo, quando me desloco em trabalho, dos hotéis de cidade. E ainda mais durante o Inverno. Chego, tomo um duche, saio para jantar e, se não tenho companhia, regresso rapidamente e deito-me a folhear o jornal, um livro, a saltitar com o comando do televisor de canal em canal ou, quando estou predisposto a isso, ligo o portátil, visito-vos, escrevo um pouco ou simplesmente navego de sítio em sítio sem destino pré-definido.

Mas é depois de todo esse ritual que aprecio ainda mais os hotéis. Sobretudo os de cidade. É quando chega a hora de dormir e o sono não chega. Nesses momentos, é reconfortante ter à mão o serviço de quartos sempre disponível com tudo aquilo que vulgarmente não temos em casa e que os hotéis têm. E mesmo que cheguemos à porta do quarto para a abrir quando nos vêm servir o que encomendámos, estejamos ou não despenteados, olhar estremunhado e modos a denotarem enfado, lá estão invariavelmente o mesmo sorriso, a mesma simpatia, a eterna boa disposição. Gosto de hotéis. E, em trabalho, gosto sobretudo de hotéis de cidade.

O sono que se espera, desespera e não chega, o afastar dos lençóis e as passadas lentas até à janela para uma mirada sobre as luzes da cidade. A memória de mim, a memória de ti, disto, daquilo, de aqui e de além, os olhos abertos na insónia que se sofre e não deseja.
Nunca se deseja uma insónia. Mas é nos hotéis de cidade, e em pleno Inverno, que melhor se suportam.

Lembro-me da última que tive. De cada detalhe, de cada movimento na noite. Recordo-me também como e de onde chegou e, até, quanto tempo durou. Durou até que fechei os olhos sem me dar conta e só os ter aberto já de manhã ao som irritante do toque do despertador do telemóvel. Mas lembrava tudo na noite de insónia. Lembrava o vento lá fora a abanar furiosamente os ramos das árvores na avenida, as sombras ondulantes nos passeios desertos onde apenas alguns filhos da noite, desavisados, se protegiam como podiam das bátegas fortes que encharcavam as ruas. E olhei, olhava-os, à espera, apenas à espera. E nem quando já tarde finalmente me deitei, me senti só e errante na cidade adormecida.

Gosto de hotéis. Quando viajo em trabalho, prefiro os de cidade. E se estiver uma noite tempestuosa, tanto melhor. A chuva, o vento e as sombras frenéticas distraem-nos nas noites de insónia. E recordo-me de ti, de mim, daqui e de além.

Mulheres

 [Violante Placido, estrela reluzente no filme «O Americano» , de Anton Corbijn]




«A minha vida torna-se cheia com pequenos grãos que me vão saciando a vontade e o sonho. Um dia vou conseguir tornar a minha utopia real. Passo a passo. Beijo grande.»



Eu sei que sim. Sempre soube. Um beijo.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Cela 211







Marcado para morrer


Juan Oliver [Alberto Ammann] é um cidadão comum que parece levar uma vida controlada e feliz. A sua mulher está grávida, o casal vive um invejável idílio amoroso e o jovem tem um novo emprego indo ocupar um lugar de guarda prisional na cidade onde ambos vivem. Contudo, a vida, essa mesma vida que julgamos poder controlar sem interferência alheia, nem sempre decorre como a programamos e, por vezes, as situações mais dramáticas ocorrem de forma totalmente imprevisível. E sem que as possamos tomar nas nossas mãos, tornamo-nos em algo próximo de meras vítimas do acaso. É, pelo menos, esta a premissa de «Cela 211», filme espanhol realizado por Daniel Monzón, que se aventurou num género – o drama prisional – sem os meios dos grandes estúdios mas com a capacidade de criar uma espiral de tensão que apenas vai culminar com o despoletar da tragédia.

«Cela 211» é cinema denúncia, claramente. Mas é sobretudo um filme duro e dramático sobre a realidade da vida nas prisões onde o mais abominável criminoso mostra poder reger-se por um código de honra capaz de envergonhar muitos daqueles que detém o poder. Sobretudo quando quem ‘manda’ trata de querer esconder da opinião pública os podres de um sistema que vive à base de esquemas e troca de favores não havendo, nestes casos, inocentes entre os envolvidos. Todos são culpados, seja por acção ou simples omissão. E se Juan Oliver é o protagonista desta história por tudo o que lhe acontece e por estar no centro das más decisões de colegas, negociadores sem honra e políticos sem escrúpulos, acaba por ver em Malamadre [numa impressionante interpretação de Luís Tosar] a personagem que lhe rouba quase todos os créditos na composição de um condenado tão capaz da maior brutalidade como incapaz da mais pequena traição. Este líder de uma comunidade de reclusos, entre políticos, polícias e marginais acaba por se revelar como o mais coerente de todos os homens envolvidos no motim que ele mesmo comanda compondo uma personagem hipnótica e carismática. Quanto ao pobre Juan Oliver, acaba por se ver arrastado para os mais ferozes acontecimentos pela negligência de uns e ineficácia de outros.

Confesso que desde «Os Condenados de Shawshank» [1994], de Frank Darabont, não via um drama prisional tão intenso e dramático como «Cela 211» na sua assustadora proximidade com a realidade. E apesar dos já referidos poucos recursos de que Daniel Monzón dispôs, este não se coibiu de apresentar cenas de uma brutalidade sem limites filmando-as como inexcedível competência. E se a maior fraqueza deste filme está na escolha de Alberto Ammann para um papel – o de protagonista – que requeria outro tipo de atributos dramáticos, a verdade é que a sensação maior com que o filme atinge o espectador reside na amostragem da debilidade do ser humano perante acontecimentos tão contundentes como imprevisíveis. E tudo se agrava perante esses acontecimentos se alguém acaba por ter a infelicidade de se tornar num mero peão de um tabuleiro jogado por homens detentores do poder muito pouco preocupados com as vidas humanas em contraponto com a imagem que pretendem fazer passar para a opinião pública.

Em suma, «Cela 211», que também distingue o criminoso comum do criminoso que age em nome de ideais políticos [os presos da ETA, a organização separatista basca]  é um drama sólido e rigoroso que não deve deixar de ser visto por ninguém. Mas muito especialmente a não perder por quem gosta de cinema que se faz calçado em  botas de biqueira de aço.


«Celda 211», de Daniel Monzón, com Alberto Ammann e Luís Tozar



terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Oito anos







[A modelo fotográfico Iga A., presença assídua cá na casa; gosto muito de a ver trabalhar]





Ontem, manhã bem cedo, janela aberta a dar para um pequeno jardim onde imperam os vultos das árvores, senti nos meus ouvidos um inesperado sussurro da memória. Ao folhear um livro escrito pelo punho de John Steinbeck, quiçá em busca de inspiração para não necessitar decretar algum tempo de exílio do exercício da escrita, deparei com uma factura da FNAC do Colombo com a data de 30 de Julho de 2002. Oito anos atrás, portanto. O momento, provavelmente irrelevante em si no decurso da minha existência por cá, fez-me recordar-te, recordar-vos, lembrar quem passou pela minha vida, quem eu nunca mais vi, quem então fazia parte dela, quem foi fazendo, quem já não faz. Foi como se de repente sentisse a alma a acordar e a necessidade de reviver intimamente oito anos em que tanto aconteceu e perceber que valeu a pena, que vale a pena. E que a saudade não é somente um sentimento triste de perda ou sentimento de falta mas é também um sentir convicto de que nada acontece por acaso. E a verdade é que todas as pessoas que passaram pela minha vida, mesmo que nunca mais as tenha visto ou delas não tenha tido mais notícias, se mantém por cá, que possuem um lugar que é seu ainda que agora bem arrumadas em pequenos cantos da emoção e da razão. Da memória. Sim, a minha vida nunca parou, continuou, mas não vos esqueci, como nunca esquecerei, porque sem ti, sem ela, sem vocês, a minha existência empobreceria. E vulgarizava-se.

A factura, essa, tem o valor de 85.32 euros. Nove euros e noventa e cinco pela banda sonora de «In The Mood for Love», o espantoso filme de Wong Kar Wai muito antes de ter rumado à América para fazer «My Blueberry Nights – O Sabor do Amor», dezasseis euros e quarenta e nove por uma colectânea dos Doors à procura de «Light My Fire» e do talento desregrado e suicida de Jim Morrison, dezasseis euros e quarenta e quatro por «Blue Velvet» e pelo peculiar mundo de sedução de David Lynch, doze euros e noventa e cinco ainda por David Lynch em «O Homem Elefante» e, finalmente, o restante para o filme de um pequeno ‘robot’, qual Pinóquio pelo amor de pai, em busca do amor de mãe e de se tornar um menino de verdade em «A. I. Inteligência Artificial», de Steven Spielberg.


domingo, 5 de dezembro de 2010

Madrid, ponto de passagem

[Hotel Room, 1931 - Edward Hopper]



Estive de novo em Madrid. Madrid é uma cidade enorme rodeada de auto-estradas de circunvalação recheadas de tentáculos cujo negrume alcatroado a liga aos mais diferentes pontos da Espanha. Madrid não tem mar como outras grandes cidades mundiais, mas tem um enorme aeroporto internacional que a une às outras grandes urbes espanholas e ao mundo inteiro e é ainda ponto de partida e chegada para uma enorme rede de comboios de alta velocidade que percorre todo o país de Cervantes.

Atocha, La Castellana, Cibelles, Moncloa, Prado, são, entre tantas outras, marcas indissociáveis da cidade. Mas existe em Madrid um museu que também faz parte dos roteiros obrigatórios da cidade embora me pareça passar um pouco despercebido. É um espaço cultural que merece uma visita bem atenta às suas enormes galerias e dá pelo nome de Thyssen Bornemisza. Voltei lá nesta curta visita e pude observar expostas algumas das maiores expressões de criatividade da pintura mundial desde Degas a Miró, de Picasso a Monet, de Velásquez a Van Gogh e muitos outros grandes nomes da pintura mundial e suas várias tendências artísticas.
Apesar disso, há quadros que sabemos existirem no Thyssen Bornemisza mas cuja presença por lá continua a surpreender-nos quando nos deparamos com eles. Um é famosíssimo, pertence ao americano Edward Hopper, pintor por excelência da solidão urbana, e retrata uma mulher só num quarto de hotel, com as malas – supõe-se – ainda meio por desfazer (Hotel Room, 1931). Mas, ao mesmo tempo que me surpreendo com a visão do original da pintura por ali, fica a pairar em mim a forte sensação de que não haverá melhor quadro para descrever a impressão que me invade de cada vez que visito Madrid.

É que ao contrário de Paris, Roma ou Londres, exemplos não ao acaso de outras três grandes cidades europeias, em Madrid parece sentirmos sempre que estamos lá de passagem. E se em Paris, Londres ou Roma nos apetece desfazer as malas, ficar por ali, envolver-nos na multidão, tornarmo-nos um deles, em Madrid já não. A mala fica por desfazer e vamos usando o estritamente necessário da bagagem que nos acompanha por não conseguirmos esquecer que vamos – e queremos - partir. E mesmo de visita a um outro famoso museu, o Centro de Arte Rainha Dª Sofia, perante uma outra obra incontornável da cultura global, a Guernica, de Picasso, não conseguimos desenvencilhar-nos da sensação de solidão que nos transmite Madrid e que o quadro de Hopper tão bem expressa.

Afinal, talvez «Hotel Room» de Edward Hopper esteja no local certo: a imensa cidade de Madrid que nos envolve e impressiona na sua grandeza mas não nos conquista afectivamente. Falo por mim, claro.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Da justiça e do sistema judicial

 
 
'Não encontramos justiça no sistema judicial. Este limita-se a aplicar a lei.'


In «Reservation Road – Traídos Pelo Destino»

A homilia

[Folles Amours, montagem fotográfica de Lucien Clergue, o 'poeta da fotografia']






Em «A Dúvida» [filme de 2008], numa das suas fantásticas homilias o padre Flynn [Philip Seymour Hoffman] conta a história de uma mulher que tendo lançado um boato desprezível sobre alguém acaba por se arrepender e busca o perdão junto do padre seu confessor. O padre não lhe concede de imediato o perdão e instiga-a a subir ao telhado da casa onde habita com uma almofada de penas numa mão e uma faca na outra com o objectivo de rasgar o travesseiro ao vento. Quando a mulher regressa ao confessionário e lhe dá conta da missão cumprida, o padre não a perdoa desde logo optando por perguntar o que lhe restou do gesto. Uma imensidão de penas, responde-lhe pesarosamente a pecadora. E perante a nova missão de que o padre a encarrega, a de voltar ao local e apanhar todas as penas, a desconsolada mulher responde-lhe que isso é impraticável já que estas se espalharam de tal modo que não é de todo possível reverter o mal feito.
Hoje lembrei-me do padre Flynn e da sua homilia. Porque os fins não justificam os meios e a intolerância, a incapacidade de perdoar e, por que não dizê-lo, a maldade não podem nunca sobreviver a coberto da sensação de impunidade reinante numa sociedade que há muito perdeu a noção do bom senso.






O que ficou por dizer

[A actriz Rachel Weisz]




Foram muitas, tantas as noites em que um homem e uma mulher fizeram amor numa cama de quarto de hotel. Ela, silenciosa, deixava que as suas mãos lhe vincassem a pele com toda a força do prazer que experimentava no seu corpo encaixado no dele. O homem apercebia-se invariavelmente do momento em que o corpo dela estremecia de êxtase colado ao seu. Com desejo mas ainda mais ternura levava algum tempo até que fizesse resvalar o seu corpo trémulo imobilizando-se arfante ao lado do dela na cama de lençóis brancos e transpirados. Beijavam-se uma e outra vez sem que pronunciassem uma única palavra. Naqueles momentos as palavras eram-lhes dispensáveis, traiçoeiras. Talvez por isso lhes tenha ficado tanto por dizer.



terça-feira, 30 de novembro de 2010

A Azinhaga de José Saramago





Estava uma tarde clara e fria como o são muitas tardes de Outono quando o meu carro contornou a rotunda que dá início à Azinhaga para quem vem do lado de Lisboa. Noto que dois rapazes guiam três ou quatro cabeças de gado pisando a erva e torneando arbustos até ladearem as estacas de uma vedação para animais. Sou natural do Ribatejo, mas, curiosamente, não me recordava de alguma vez ter estado na terra onde nasceu José Saramago. Deixo o carro seguir o percurso de alcatrão até ao que julgo ser o largo principal da povoação.
Sentado num banco de jardim, qual Pessoa no Largo do Chiado, vislumbro uma estátua de Saramago em plena leitura. Algumas pessoas ladeiam o monumento e pergunto onde é a Rua José Saramago. Silêncio total, trocam-se olhos inquisidores, ninguém me sabe responder. Agradeço e sigo o meu caminho, hesitante. Um jovem de pouco mais de vinte anos, livros debaixo de um dos braços, atravessa a rua um pouco mais à frente. Repito-lhe a pergunta anterior. Olha o vazio, parece puxar pela cabeça, pede-me desculpa, também não sabe. E a de Pilar del Rio, insisto. Pilar del Rio?, devolve-me a pergunta. Sim, confirmo eu, Pilar del Rio. Não, não sei. Ao fundo, uma mulher de meia idade fita-me tranquilamente com um sorriso a baloiçar-lhe nos lábios. Tente a zona nova, trezentos metros à esquerda, quase me gritou. Foi o que fiz.
E lá estavam.
Lá estavam a pequena biblioteca com o nome de José Saramago, a Rua Pilar del Rio de esquina com a Rua José Saramago. Tiro algumas fotos, entro um pouco no interior do edifício da biblioteca e, alguns minutos depois, percebo o alcance das palavras de José Saramago ao referir-se à passagem dos homens e mulheres por esta vida: num momento «está-se ali» e no outro «já não se está». E na Azinhaga, terra natal do único Nobel português da literatura, José Saramago já não está sem que provavelmente alguma vez tivesse estado. Isto, ainda que por lá se perpetue o seu nome em duas ou três homenagens simbólicas.
Já é quase noite quando regresso à estrada consciente da insignificância que o homem se atribui a si mesmo. Acabou-se para José Saramago, subiu à montanha mágica mas já não faz mais livros. Já não está ali. Mas tenho pena, eu que nunca fui seu fiel devoto.



segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O Americano











A bela e o matador

Por mais que o neguemos, todos temos um estilo. Próprio ou emprestado de outros. E rapidamente se descobre o de Anton Corbijn, o holandês realizador de «O Americano»: as personagens enigmáticas  e distantes são o seu estilo. Foi assim com «Control», filme sobre Ian Curtis o misterioso músico da banda Joy Division, e repete-o agora com o indecifrável Jack [George Clooney], um assassino a soldo refugiado numa zona montanhosa de Itália. O filme adapta o livro «A Very Private Gentleman», de Martin Booth, e fica a meio caminho entre o ‘Thriller’ clássico e o ‘western’.
Longe de atingir a perfeição, «The American» usa e abusa do carisma de George Clooney para criar uma personagem elegante e sombria que jamais permite que se lhe chegue à alma e desconfiada até da sua própria sombra. Perseguido por uma espécie de máfia sueca, Jack percorre as montanhas do interior italiano num velho Fiat Tempra e divide o seu tempo entre a violência e o sexo. No final, através de Clara [Violante Placido], uma prostituta belíssima, Jack acabará por descobrir o amor e revelar uma humanidade que até então se lhe desconhecia. Como se de um ‘cowboy’ solitário se tratasse, Jack vagueará então entre o amor e a morte sem consciência da debilidade que acarreta a sua condição de homem a abater.
Pese toda a simpatia pelo George Clooney de «O Americano», a verdade é que o filme se perde em imagens formosas mas estáticas e nas personagens da trama que nada acrescentam à história não permitindo a reflexão sem que jamais causem qualquer emoção [o Padre Benedetto é disso flagrante exemplo]. E a prometida tensão  inicial vai-se a pouco e pouco desvanecendo numa obra de narrativa inexplicavelmente lenta e até um pouco pretensiosa. E mesmo o final  a sugerir algum vazio melancólico deixa um sabor a uma certa frustração por se ver esfumar ali mesmo defronte dos nossos olhos a salvação de um homem e o sonho de uma mulher. Mas, de facto, o que acontece é o triunfo do simbolismo sobre os devaneios quiméricos do homem tão presentes nas chamadas obras de autor. Mas nem Corbijn será um autor no sentido que aqui se quer dar ao termo nem a bela e sensual Clara merecia tamanha traição da vida. Uma lástima.

«O Americano», de Anton Corbijn, com George Clooney e Violante Placido