domingo, 20 de fevereiro de 2011

O estado da nação



Há dias, num jantar de trabalho, um advogado dizia-me que cerca de setenta por cento dos processos que chegam a tribunal são ganhos por erros processuais. Dito por outras palavras, e exemplificando, o que este meu conhecido queria dizer é que ao tribunal importa primeiro saber se os telefonemas que ajudaram a incriminar A que corrompeu B ou C que violou D poderiam ou não ter sido gravados pela polícia. Só então a justiça se debruça sobre o crime em si o que, no mínimo, deturpa as razões e o espírito por que um dia os homens decidiram criar as leis.
Estranho estado de direito, este. E não me interpretem mal, já sou crescidinho o suficiente para perceber que este não é um mundo justo e nada disto é novidade. Mas desculpem lá a minha falta de entusiasmo perante o estado geral a que este país chegou, justiça incluída.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Indomável





Em nome do pai

Desde que se estrearam com «Sangue por Sangue» [1984] que, goste-se ou deteste-se, ninguém fica indiferente ao cinema de Joel e Ethan Coen. Ao longo de quase trinta anos, os dois irmãos construíram uma carreira na indústria cinematográfica onde está bem patente um estilo muito próprio normalmente associado a um sentido de humor que chega a ser desconcertante. Em «Indomável», remake de «Velha Raposa» [1969] filme que deu o Oscar de Melhor Actor a John Wayne e realizado por Henry Hathaway, o humor é um pouco mais subtil que o habitual mas os Coen continuam a fazer o mais literário cinema dos nossos dias. De facto, a qualidade do texto assente em diálogos vivos e inteligentes prova que mais do que nos deixar durante dias e dias a pensar nos seus filmes, estes servem sobretudo para que o espectador desfrute deles numa sala de cinema. E esse é o grande trunfo de «Indomável», numa realização que demonstra igualmente a grande valia técnica dos dois cineastas.

A partir do momento em que a jovem Mattie Ross [Hailee Steinfeld] resolve vingar a morte do pai às mãos de um seu empregado, percebemos que a narrativa de «True Grit», no seu título original, se vai debruçar muito sobre a fronteira entre o bem e o mal e a perda de inocência de uma adolescente que passará a partir dali a lidar permanentemente com a morte. O Marshal Rooster Cogburn [Jeff Bridges] é o homem contratado por Mattie para dar caça ao assassino. E quando este acaba por fazer um acordo com o Ranger LaBoeuf [Matt Damon] à revelia de Mattie, os três partem para as montanhas onde julgam estar escondido o infame Tom Chaney [Josh Brolin]. Nesse momento, o espectador entra definitivamente na melancolia poética dos Western, dos homens de corpos aquecidos pelo whisky, de pistola no coldre e tiro fácil e da luta pela sobrevivência em terras inóspitas povoadas por gente áspera.

E se a pequena Hailee Steinfeld se revela uma actriz de corpo inteiro completamente inserida no corpo e alma da sua personagem, Jeff Bridges assume de vez a sua importância no panorama cinematográfico norte-americano arrancando uma notável interpretação de um velho e decadente Marshall que recupera a dignidade no cumprimento da sua obrigação contratual e moral para com Mattie. Ela que se revelara desde sempre uma negociadora de verbo fácil, convincente e implacável. Entretanto, o espectador mergulha de cabeça numa história que acaba por se declarar triste e amarga ainda para mais dominada pelo desencanto com que termina. De destacar o esplendor da fotografia do filme, assim como a confirmação, através do manejo da câmara e do domínio das técnicas de som, do homem como ser minúsculo perante a terra que o rodeia.

 Em suma, este «Indomável» dos irmãos Coen é a tradução perfeita para cinema da grande literatura e aquece-nos a alma muito pela nostalgia que desperta e pelo executar assumido  de um certo revivalismo do clássico americano por excelência, o western.

«True Grit», de Joel e Ethan Coen, com Jeff Bridges, Hailee Steinfeld, Matt Damon e Josh Brolin

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Das minhas memórias

[Gerda, 1914, Ernst Ludwig Kirchner]






Herr Klaus


Durante a minha pré-adolescência vivi alguns anos longe de Portugal, embora não muito longe, na Alemanha pré queda do muro de Berlim, numa cidadezinha de serviços e perto de duzentos mil habitantes nas margens do Ruhr e a poucos quilómetros da grande Dusseldorf. Eu e a minha família habitávamos um apartamento, alugado, não muito longe da Rathaus (Câmara Municipal), da escola que eu frequentava e do centro da cidade. No prédio vivia também o proprietário, o grande de quase dois metros de altura, cento e cinquenta quilos de peso e já sexagenário Herr Klaus. Fui poucas vezes a sua casa. Mas das vezes que fui recordo a confusão de livros escritos em várias línguas espalhados no soalho e por todos os móveis existentes na sala e as latas de cerveja vazias e de comida em conserva nas embalagens meio cheias abandonadas numa cozinha imunda e malcheirosa. Para além de homem só, nunca percebi se viúvo, divorciado ou solteirão, Herr Klaus não era de muitas palavras. Recebia das mãos da minha mãe o cheque com o pagamento da renda e preenchia logo ali o recibo que comprovava o pagamento.
 
Por motivo da minha ingenuidade de criança a rondar os doze ou treze  anos, nunca percebera o corrupio de lindas e jovens mulheres ao ritmo de três, quatro por semana que lhe entravam pela casa dentro. Algumas vezes, quando as via entrar, deixava-me ficar sentado nas escadas de madeira (o edifício cinzentão de construção do pós guerra não tinha elevador) até que, na maioria das ocasiões para aí uma simples meia-hora depois, as via sair com uma expressão no rosto que estava longe de compreender mas que sabia não ser propriamente de felicidade. Mas que também não era de infelicidade. Circunstâncias houve em que me via obrigado a largar o meu posto de vigia, conduzido pela mão da minha mãe firme a agarrar-me a orelha até me colocar de castigo no quarto. Numa das tardes em que isso não aconteceu, recordo-me de uma das senhoras sair muito zangada perseguida por Herr Klaus e de, junto à soleira da porta do apartamento, lhe aplicar um valente pontapé nos testículos seguido de um sonoro schwein. Isto enquanto o senhorio do prédio se contorcia com dores. Já a mulher, linda como as demais, passou por mim e acariciando-me o queixo deu-me um beijo no rosto murmurando-me algo indizível que me deixou de faces acaloradas e mais vermelhas que um tomate maduro.
 
Julgo que foi a minha primeira e única paixão por uma mulher mais velha que eu. E a partir dali, juro-vos, a minha quase inexistente relação com Herr Klaus esfriou até ao ponto de deixarmos até de nos saudar sempre que nos cruzávamos nas escadas do prédio.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Almofada da justiça







Por razões profissionais, hoje tive de ir ao centro de Cascais. Depois de cumprir os afazeres que me levaram até perto da praça onde fica o restaurante Visconde da Luz, constatei que tinha um presente no pára-brisas: uma multa de estacionamento. Senti-me feliz, ó se senti. Caramba, afinal é sempre bom saber a competência com que a almofada da justiça actua em defesa do bem-estar da comunidade. Até porque não foi nada que me surpreendesse muito, dado que a autoridade já tinha tido para comigo gesto parecido na semana anterior. E por essa altura até tive direito a um curso intensivo sobre estacionamento irregular dado por uma senhora de farda azul escura vistosa franzida junto às nádegas e ar de quem sabia do que falava. No final da sessão, já despojado de uns quantos euros da coima, aguentei-me ao balanço e fiquei ali a rezar pela senhora polícia. A pedir por ela, a desejar-lhe coisas boas e estimulantes. É agradável desejar coisas boas e estimulantes aos outros, especialmente nestes casos. E lembrem-me, tenho que voltar rapidamente ao Centro de Cascais. É que às tantas a gente habitua-se às mordomias e já não consegue passar sem elas.


segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Profissional competente






A modelo fotográfico Iga A.
Gosto de a ver trabalhar.


O fim da aventura







«A detonação foi seca e curta. É assim que ladram os Colt de 38. A minha pobre gata francesa tremia de olhos muito abertos. Amava-a. Abracei-a contra mim amaldiçoando as malditas armadilhas da vida.»

In «Diário de Um Killer Sentimental» [1996], Luís Sepúlveda.



Um assassino a soldo, competente e muito cuidadoso, comete um erro imperdoável: apaixona-se por uma linda mulher francesa. A relação entra em colapso quando o profissional está a meio de um trabalho bastante complexo e importante, o que o vai levar a abandonar a profissão mais cedo que aquilo que planeara. Mas a sua última missão espelha o quão ingrata pode ser a vida de um homem. Ainda para mais quando esse homem é um assassino profissional que não mistura trabalho com sentimentos.



domingo, 13 de fevereiro de 2011

The Fighter - Último Round





A vida não é um sonho

Mickey Ward [Mark Wahlberg] teve no seu irmão o ídolo da adolescência e vive uma existência de superação pessoal como lutador de boxe. Por sua vez o irmão, Dicky Ecklund [Christian Bale], é uma estrela há muito apagada que vive uma lenda bem mais obscura que cintilante de um dia ter sido o orgulho de Lowell, Massachusetts. E enquanto um, o primeiro, vive condicionado pela fidelidade à família - incluindo a mãe ainda a seguir a luz apagada de Dicky - e a quantos o rodeiam por este ou por aquele motivo, o outro subsiste numa inacreditável dependência emocional e material pelo boxe tornando-se treinador de Mickey como se por decreto. Mas Mickey quer viver o sonho americano e Dicky representa o falhanço simbólico de uma sociedade, a americana, onde muitos dos seus derrotados se tornam marginais e dependentes de drogas. Neste entretanto, surge Charlene [Amy Adams], a namorada de Mickey, uma jovem mulher tão paradoxalmente doce como dura e determinada.
«The Fighter – Último Round» aborda um dos desportos mais visceralmente queridos dos americanos, o boxe. E poderia muito bem ter-se reduzido à categoria de mais uma metáfora de queda e redenção assente numa história que foi beber inspiração à vida real. No entanto, a realização de David O. Russell [ele que realizou «Três Reis» no já longínquo ano de 1999] agarra-se com unhas e dentes ao mito de dois irmãos, dois homens, dois lutadores de boxe, na tentativa de construir um filme sólido e muito realista que retrata o sonho americano a partir de um bairro problemático e de uma das suas famílias. Uma família que é um exemplo perfeito do que são as classes mais desfavorecidas da América. E neste seu retrato, o que sobressai é a capacidade de conseguir fugir ao ordenamento emocional de pessoas que de facto são incapazes de agirem de modo organizado já que vivem quase por instinto. E esse é um trunfo do seu cinema fugindo não só ao tradicional filme de boxe como ao exibicionismo pretensioso de quem aborda a complexidade da natureza humana.
Baseado numa história verídica, é exemplar a reconstrução dos combates de boxe entre um Mickey esforçado e circunspecto e os seus adversários tidos à partida como favoritos o que prova a existência de uma excelente direcção artística. E se Mark Wahlberg está em plano de evidência, que dizer de um Christian Bale que se esquece de si mesmo para mais uma vez se abandonar por inteiro à personagem que encarna? Bale, em «The Fighter – Último Round», é um homem moralmente perdido, fisicamente raquítico e dramaticamente agarrado ao crack e a uma imagem que tem de si e do boxe. E para quem esperar até aos créditos finais do filme e observe o homem real que encarnou, poderá verificar nas inacreditáveis semelhanças entre um e outro. Fantástica interpretação, sem dúvida, daquele que já foi maquinista, psicopata americano e Batman, entre outros. Quanto a Amy Adams, dizer apenas que a beleza quando existe se percebe até por detrás do balcão de um bar manhoso a servir bebidas a gente rude enquanto é apreciada por olhares lânguidos e esfomeados. Grandes interpretações, grande filme e o boxe como metáfora para a vida.

«The Fighter», de David O. Russell, com Mark Wahlberg, Christian Bale, Melissa Leo e Amy Adams

O Discurso do Rei




O rei e o plebeu

A Europa encontra-se numa encruzilhada bélica para onde é levada por um homenzinho vil, de bigodinho pateta mas de discurso arrebatador de nome Hitler. Entretanto, em Inglaterra Jorge V morrera e deixara um vazio no trono já que o seu sucessor natural, que viria a ser Eduardo VIII [Guy Pearce], apresentava uma frivolidade pouco de acordo com o estatuto e acabaria mesmo por abdicar em prol de um amor tido como inconveniente por uma cidadã americana já anteriormente casada por duas vezes. Sucede-lhe como rei o seu irmão mais novo, Bertie [Colin Firth] para a família e Jorge VI para a história, um homem de grande carácter mas afectado por uma arreliadora gaguez que o diminuía como líder. Bertie acaba por se socorrer de um atípico terapeuta da fala, Lionel [Geoffrey Rush], ele, plebeu e australiano que nem sequer possuía formação em medicina. No entanto, levado para a guerra por Hitler, em 1939 o Império Britânico ouvirá do seu rei gago um discurso histórico e mobilizador. E é sobre esse discurso e sobre a amizade que nasce entre o rei e o terapeuta plebeu que Tom Hooper edifica «O Discurso do Rei». Aparentemente, um filme talhado para ganhar prémios.
«The King’s Speech», no seu título original, é formalmente inatacável e em tempo algum dispensou a conhecida fleuma britânica e um glamour muito british. Apesar de ter sempre em pano de fundo o grave momento histórico que o mundo vivia na altura, isso nunca pareceu interessar por aí além à realização de Tom Hooper. E ainda bem, digo eu, já que o filme retrata a angústia de um homem que tendo vindo a tornar-se rei se sentia bem menos válido que o mais humilde dos seus súbditos. E nesse âmbito, sem histrionismos exagerados [e dispensáveis], com uma interpretação sólida e equilibrada, Colin Firth é peça fundamental para que se perceba aquilo que todos já sabemos: que os reis não passam de seres humanos como quaisquer outros. Mas a forma como o filme demonstra esta evidência, acaba por se revelar de uma elegância extrema. Até no desfilar de carências afectivas que a sua personagem principal possui e nas situações humilhantes por que passa.
Mas neste formalismo todo, a surpresa está na fina ironia com que se dão os encontros e desencontros entre o terapeuta e Jorge VI, dotando o filme de uma comicidade muito invulgar para um drama mas também de uma emotividade que pode fazer chegar às lágrimas o espectador mais sensível. E caso se esteja atento ao que de mais subliminar tem o texto do filme, não deixam igualmente de se tornar bem interessantes as diversas relações existentes. Entre a realeza e o povo, a relação sempre ambígua com a igreja com esta a colocar-se em bicos de pés ou na prova irrefutável de que o poder, as grandes decisões, já então pertenciam aos governos e não à monarquia. Mas, como disse anteriormente, o filme passa por aí mas não é nesses aspectos que se detém.
Em minha opinião longe da obra-prima que tantos prémios poderiam sugerir, «O Discurso do Rei» acaba ainda assim por se tornar num filme muito competente, por vezes comovente, que para além de um grande Colin Firth possui ainda um outro actor, Geoffrey Rush, cuja enorme presença como terapeuta do rei merece tanto destaque quanto aquele que é dado a Colin Firth. De realçar também a mordacidade altiva de Helena Bonham Carter como Rainha Isabel. E mesmo que não tenha sido pelo discurso do rei que os aliados ganharam a guerra, certamente que depois deste filme Jorge VI ficará ainda mais no coração dos britânicos. Pelas suas virtudes, claro, mormente pela sua coragem, mas, curiosamente, sendo um homem igual a tantos outros, muito mais pela sua debilidade: pela sua gaguez.

«The King’s Speech», de Tom Hooper, com Colin Firth, Geoffrey Rush e Helena Bonham Carter


quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Os que perdendo vencem


[Foto de José Boldt]




As roupas largas já muito gastas, rotas, um par de botas, uma castanha e outra preta, o fardo de caixas de papelão cuidadosamente desmanchadas mas de um peso incomportável para o seu corpo débil, para a força que lhe faltava. O olhar cabisbaixo quase em tom de súplica, o rosto de barba comprida e rala, as rugas em redor dos olhos já sem brilho, já sem sombra do sonho...
Há uma época, a da nossa juventude, em que todos temos um ou mais sonhos. Há uma outra época em que vivemos a busca desses sonhos. Desses tempos hão-de sobrar os vencedores e os vencidos mas também aqueles que se limitam a sobreviver. Mas também há aqueloutros que não fazendo parte da estirpe dos vencedores se recusam à simples sobrevivência e vivem à espera numa espécie de resignação desolada e de negação da sua existência por cá. Ou, dito por outras palavras, é como se quisessem dizer aos outros que deixem, que se deixem estar, por esta perderam, fica para a próxima, fica para uma outra vez.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Deus e o Diabo na terra do Sol

[Sandra Sue]




Todos os dias, chovesse ou fizesse Sol, via aquele homem fechar o enorme e pesado portão verde atrás de si e descer penosamente os degraus que davam para um passeio ladrilhado de hexágonos castanhos. Um passeio ainda um pouco longo que pisava indiferente desde a casa isolada que habitava até desaparecer no interior do pequeno café situado na rua principal da aldeia. Eu não teria mais de uns oito anos, mas, por vezes, acompanhado do meu avô que ali se deslocava para comprar tabaco e dar dois dedos de conversa ao gordo e farfalhudo dono do botequim, via-o chegar ao entardecer. Como sempre, num ritual grave e ao mesmo tempo ausente, não pronunciava mais que as palavras capazes de darem a entender o que pretendia – normalmente dois ou três cálices de aguardente ou outra bebida ainda mais forte esvaziados de um sorvo cada um deles. Depois, remexia as mãos nos bolsos das calças em busca de moedas para pagar o consumo e abalava em silêncio pelo mesmo caminho que o trouxera.

Aquele olhar magoado, o voluntário isolamento a que se votava do mundo que o rodeava, os gestos repetitivos, o invariável fato escuro limpo mas amarrotado, intrigavam-me. Não teria mais de trinta e cinco anos de idade, alto e magro, cabelo curto que se percebia não ter sido cortado por um profissional do ofício. Na aldeia corriam os mais díspares e disparatados rumores sobre aquele homem enigmático e distante. Vivia com a mãe, senhora austera, de posses, mas pouco quista entre os aldeões. Chegara um, dois anos atrás não se sabia ao certo de que proveniência. Dizia-se que enlouquecera por ter perdido uma fortuna ao jogo, que a loucura lhe viera de anos passados numa prisão de Lisboa a cumprir pena por ter assassinado alguém... Sobre aquele pobre homem recaíam as mais odiosas suspeitas. Embora na altura nunca tivesse conseguido perceber o que acontecera, apesar de garoto acreditava piamente que o seu crime se resumia apenas ao retraimento relativamente aos restantes, à sua inexplicada desolação.

Um dia, já de si enegrecido e chuvoso, foi quando a noite já estendia o seu manto negro sobre a povoação que vi um grupo de miúdos a fazer uso da perversidade inconsciente que lhes é própria. Caíam injúrias tremendas sobre aquele que para todos não passava de um estranho e bizarro homem. E para lá das infâmias gritadas, fora autenticamente fuzilado com lama e pedras que o deixaram ligeiramente ferido e enlameado. Depois, fugiram entre os canaviais até que a algazarra que faziam se tornou imperceptível e longínqua. Num estado deplorável, o homem continuou o seu caminho sem fazer um único gesto para retirar das roupas a terra molhada que fora lançada sobre si. Segui-o instintivamente. Quando abriu o pesado portão verde, uma luz tristonha acendeu-se e ao fundo do jardim da casa surgiu uma senhora já com alguma idade. Como a não conhecia não a pude identificar, mas era certamente a mãe. Desde o meu posto de observação, a terra debaixo dos meus pés parecia tremer, o coração pulava no meu peito. Não muito longe, um bando de corvos voava na direcção oposta à minha numa revoada silenciosa. A senhora, ao ver o filho naquele estado, abafou um  lamento triste tapando a boca com a mão. O filho ao ver a mãe aflita sorriu com ternura e abraçou-a. Depois refugiaram-se ambos no interior da casa.

Soube anos mais tarde que se mudaram para uma aldeia do norte, junto a Vila Real. Soube também que, naqueles anos em que a sua diferença suscitou ódios e incompreensão, recuperava psicologicamente de um abalo terrível: a sua mulher morrera de parto e levara consigo aquele que seria o primeiro filho de ambos. Foi também por esta altura que comecei a perceber que se pode sentir náusea pelas atitudes alheias, que tudo serve para o ajuste de contas das pequenas querelas de aldeia, que o cinismo e a irresponsabilidade humanos rapidamente se transformam em crueldade, que o maior inimigo do homem é e será sempre a sua própria ignorância.





Cisne Negro







A bela e os demónios

Nina [Natalie Portman] tem uma obsessão, a de se tornar prima ballerina da companhia de ballet que representa. Esta que se apresta para estrear na nova temporada o bailado «O Lago dos Cisnes», em mais uma versão das inúmeras existentes do original russo composto em 1875. E para Nina o sonho torna-se realidade quando o director da companhia - personagem interpretada com uma segurança impressionante pelo francês Vincent Cassel - a escolhe para encarnar o Cisne Negro. Mas entre lágrimas de alegria e uma incontida emoção que partilha de imediato com uma mãe, a sua, possessiva e super protectora, em Nina emergem os demónios que lhe infernizam a existência. Para piorar as coisas, a insegurança da bailarina aumenta com a chegada de Lilly [Milla Kunis], uma outra bailarina não tão perfeita em palco mas muito mais natural que Nina.
Tal como em «O Wrestler» [2008], o anterior filme do realizador Darren Aronofsky, «Cisne Negro» centra-se na sua personagem principal para exercitar uma inquietante viagem aos mais recônditos lugares do subconsciente. Mas, neste caso, com uma importante e decisiva diferença na personagem brilhantemente interpretada por Natalie Portman: enquanto Mickey Rourke pagava pelas suas escolhas erradas mas conscientes, Portman afunda-se na sua obsessão que de tão fulcral na sua vida acaba por se transformar numa grave doença psicológica. E é a partir desta premissa que o filme se agiganta nas alucinações de Nina, na confusão em que se tornam os seus dias e no seu sofrimento interior e, já agora, por que não dizê-lo, na empatia que a sua personagem cria com o espectador.
Mas se é verdade que a interpretação da belíssima Natalie Portman é magistral, também não é mentira se disser que o filme é muito mais que o trabalho da actriz. A sequência final do bailado, por exemplo, é um dos mais marcantes momentos de cinema dos últimos tempos; e a fuga aos clichés a que está associado o mundo das artes, muito bem representada através da personagem de Cassel, são trunfos de um cinema de abordagem clássica mas muito sedutora. Um cinema que se alimenta nos momentos intrigantes em que leva o espectador a mergulhar e na consequente espiral de tensão que se vai adensando até culminar instantes antes do momento final do filme. E num filme, num drama psicológico, onde o ciúme, a inveja, a vida e a morte, o mal e o bem trilham caminhos paralelos, para o espectador Nina jamais pertencerá a nenhuma destas facetas saídas todas elas da própria natureza humana. Isto porque na sua dor, no seu querer, na sua beleza arrebatadora, Nina é sobretudo uma jovem mulher em sofrimento por quem o espectador do filme torce dada a sua evidente fragilidade.
No final, o que fica de tudo isto é um tremendo fascínio por um filme extraordinário e uma sentida admiração pelo trabalho de uma actriz. E isto por mais obscura que seja a história que nos é contada e angustiante o perfil psicológico da sua personagem principal. Imperdível.   

«Black Swan», de Darren Aronofsky, com Natalie Portman, Vincente Cassel, Mila Kunis e Winona Ryder

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Rotina


[Woman Reading, 1916 -Max Weber]


No começo da semana que passou, segunda-feira chuvosa, fui ao médico. Não o meu médico habitual mas um outro, aconselhado por pessoa gentil e amiga. Era, afinal, uma médica. A rondar os sessenta anos de idade, muito atenciosa, profissional irrepreensível. Deitado sobre a marquesa, enquanto me auscultava ia falando. Fazia-me perguntas, queria saber coisas, buscava pistas. E no  decorrer do exame vários foram os momentos em que viajei até tempos remotos de mim mesmo. Alguma vez esteve hospitalizado? Perante o meu silêncio, insistia. Doenças na infância, na adolescência?...

E durante a consulta senti que a médica, nos seus cuidados e na forma doce como me falava, me trouxera a minha avó de volta. Ou a mim de volta a ela. Tive saudades, apeteceu-me deitar a minha cabeça no seu regaço e adormecer sobre as memórias que retenho do temperamento dócil da mãe da minha mãe. No final, um aperto de mão caloroso, uma troca amável de sorrisos e saí para a rua. Indiferente à tempestade, ergui as faces para o céu carregado e refresquei-me na água da chuva que, conjuntamente com o frio que faz, teima em fazer também deste um Inverno dos antigos.



domingo, 30 de janeiro de 2011

Biutiful






O elogio da dor

«Biutiful» é, antes de mais, a história de um homem que vive à beira do precipício. O mundo de Uxbal (Javier Bardem) é pesado, feio, doloroso e o novo filme de Alejandro González Iñarritu torna-se desse modo desaconselhável não pela sua incontestável qualidade cinematográfica mas porque a história que nos conta é de tal forma um hino à dor, à agonia, que facilmente leva o espectador ao desespero e ao cansaço pelo negativismo visceral ensaiado nas maleitas da natureza humana inseridas numa sociedade desigual que gera a mais repugnante miséria.
Uxbal, um Bardem inexcedível física e emocionalmente numa entrega fantástica ao perfil penoso da sua personagem, é um homem que perdeu a mãe quando criança e não chegou sequer a conhecer o pai. Tem ainda uma ex-mulher massagista, prostituta, alcoólica e bipolar incapaz de tomar conta dos dois pequenos filhos de ambos já que a ele, Uxbal, lhe resta muito pouco tempo de vida por sofrer de uma grave doença cancerosa. Uxbal, um estranho na sua própria terra, ganha a vida entre a máfia chinesa e os africanos ilegais que traficam todo o tipo de artigos nas ruas de Barcelona. Acrescente-se também que a Barcelona de Iñárritu é pobre e suja, dificilmente reconhecível e, inicialmente, pode até ser confundida com qualquer cidade oriental ou sul-americana no pior que estas grandes urbes com população em excesso podem apresentar.
E a verdade é que o filme vive da omnipresença de Javier Bardem, não apenas porque segue quase em exclusivo a sua personagem mas por razão da fantástica prestação do melhor actor espanhol da actualidade. Daqui se depreende que o realizador mexicano abandonou as histórias em mosaico e as montagens vertiginosas, seguindo uma linha temporal única e bem definida. Apesar disso, não se tornou mais fácil para o espectador seguir uma narrativa que, como se pode perceber, faz da dor uma única linha de raciocínio apresentando-a, à dor, em sentido literal e metafórico, ao centro, à esquerda e à direita, aqui, ali e acolá. E se numa pretensa busca de redenção para os seus pecados Uxbal demonstra uma humanidade admirável para quem busca o sustento na exploração do seu semelhante tendo ainda uma relação afectiva muito forte com os seus dois filhos, a verdade é que por seu lado o mundo de Alejandro González Iñárritu precisa rapidamente de mostrar alguma crença no ser humano. Sob pena dos seus espectadores se cansarem de constantemente serem vergastados emocionalmente pelo seu cinema.

«Biutiful», de Alejandro González Iñárritu, com Javier Bardem




quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O sonho



[Girl in Tree, Brook Slane]






Uma mulher ainda muito jovem caminha paulatinamente com uma pasta dependurada numa das mãos. É linda, reparo, mas reparo também que encerra em si uma expressão triste. O sonho tudo permite e leio-lhe a mente. O tempo recua para tempos felizes, até à universidade, aos sorrisos rasgados, a ideais profundos no horizonte próximo, para todo um mundo que não dispensa o mais diminuto contributo para se converter num lugar melhor para se viver. O tempo avança, acontece a difícil entrada no mundo do trabalho, a mulher jovem sofre o choque da inevitável cedência ao poder instalado, verga-se à impossibilidade de ser ela mesma. Quebrou-se o encanto, as vozes tornam-se intolerantes e ruidosas, o silêncio é amargo e, lá dentro, dentro de si, luta contra um ressentimento apaixonado que lhe arruína os dias, lhe perturba as noites. A alegria confunde-se na tristeza, a fadiga acumula-se.

Sonho, sei que estou a sonhar. Mas continuo a olhar para a mulher jovem, o dia é o de hoje. Fechada numa sala faz o que tanto desejou, trabalha no que gosta, ajuda uma menina a perceber o mundo que a rodeia, procura não deixar que os problemas próprios de uma sociedade imperfeita como a nossa condicionem a formação da sua personalidade. Uma família graciosa composta por três mulheres, um pai que aguarda a liberdade atrás das grades. A menina entoa um pequeno cântico, está de joelhos numa cadeira, os cotovelos pequeninos apoiados sobre o tampo da mesa, uma folha em branco. E desenha. No cimo do desenho escreve a dedicatória.

«É para ti, querida professora.»

E no final um bracinho estendido, pequeno, uma mão aberta, pequena, um gesto grande, enorme, uma bolachinha para a mulher jovem. Uma bolachinha sobre a palma da mão. A mulher morde os lábios para se conter e solta um sorriso trémulo, nervoso. No final do dia de trabalho a ironia subtil, o reconhecimento do talento vindo de onde menos se espera, vindo da doce menina, da sua inteligência pura, do lado mais instintivo do seu pequeno ser. Já na rua cede à imobilidade e ao silêncio numa rua frenética de carros a subirem a rua, de carros a descerem a rua, das gentes ansiosas por chegar às suas casas. Sente-se incapaz de um movimento. Mas sim, valeu a pena acreditar. Sim, vale sempre a pena sonhar.


Poliglota






Há uns anos fiz uma viagem a um país do oriente com pessoas oriundas de vários países da Europa. A visita durou sete dias e para além do tradicional inglês comuniquei em francês, alemão, espanhol e italiano. Já quase no final da viagem, quando em pleno aeroporto de Heathrow embarcava sozinho na ligação para Lisboa, recordei-me que não falava correctamente algumas das línguas que citei atrás. Foi então que me dei conta que passara sete dias a trucidar várias línguas europeias. Aconcheguei-me no lugar que o meu bilhete indicava numa janela a dar para a asa direita do avião e fechei os olhos a tentar adormecer a minha culpa.


segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Hereafter - Outra Vida


 


Ensaio sobre a vida

«Hereafter – Outra Vida» é a confirmação do octogenário Clint Eastwood como um dos maiores realizadores do nosso tempo. Paralelamente, ao espectador espera-o um filme que lhe promete falar da morte mas que opta por dissertar sobre a vida. Uma história, ou um mosaico de histórias que se cruzam na estranha capacidade sensorial de um homem, que se preocupa mais com o indivíduo e com os seus mais profundos dilemas que com a sociedade em que este possa estar inserido. E nesta espécie de conspiração do silêncio que une as personagens numa narrativa sóbria mas que nos oferece uma espantosa recriação do maremoto ocorrido no Índico há um par de anos atrás, emerge um actor extraordinário numa interpretação paradoxalmente humilde e cintilante pela sua extrema sensibilidade: Matt Damon. Imperdível.

«Hereafter – Outra Vida», de Clint Eastwood


Tron: O Legado




Império dos sentidos

Poder-se-á acusar «Tron – O Legado» de alguma pobreza argumental. E quem o fizer tem toda a razão. No entanto, teme-se que essa preocupação possa fazer com que se perca aquilo que as virtudes da tecnologia permitiram no filme em que Jeff Bridges desaparece durante vinte anos sugado para um programa de computador: a sua impressionante originalidade visual. Porque «Tron» não é um filme qualquer. «Tron» é pura alucinação digital, é uma grandessíssima bebedeira onde o gozo e a alegria descambam numa maravilhosa noite de sono e num dia seguinte sem o menor indício de ressaca. «Tron» é, em suma, um fascínio para os olhos, é delírio, ilusão, é desvario. E é sentir para crer.

«Tron: O Legado», de Joseph Kosinski

O Turista




Presunção e água benta…

Sim, «O Turista» tem Angelina Jolie e Johnny Depp nos principais papéis. E tem Veneza, essa cidade eternamente romântica de gôndolas e canais, palácios e pontes. No entanto, o filme de Florian Henckel von Donnersmarck (!) é um completo vazio de ideias numa catadupa de clichés narrativos e visuais. Para além de dispensável e fútil, «O Turista» mostra ainda uma actriz incapaz de cumprir os mínimos que justifiquem o seu invejável estatuto e um actor a perder-se cada vez mais na caricatura de si mesmo. Enfim, uma perda de tempo.




Stone – Ninguém é Inocente





A culpa

Um criminoso cumpre pena e procura alcançar a liberdade condicional. O agente encarregue da sua avaliação está igualmente na recta final de um percurso profissional incólume mas a terminar com a idade da reforma. Entre estes homens existem duas mulheres. Uma, a do marginal, usa-se de todos os meios para corromper o agente e com isso conseguir a liberdade do marido. A outra, a do agente da lei, vive uma existência oca e abafada pelo dever de acompanhar o homem com quem casou mas de quem desde há muito se sente afectivamente desligada.

«Stone – Ninguém é Inocente» é, deste modo, um filme que se movimenta na exploração da culpa de gente perdida algures entre a sua essência e aquilo que a sociedade lhe exige. E enquanto uns seguem religiosamente o que os bons costumes lhes ditam e cumprem a sua pena em silêncio, outros divergem e acabam igualmente condenados pelo extravio a que se atreveram. Mas, lamentavelmente, o filme perde-se nas suas excessivas exigências filosóficas já que coloca questões para as quais não encontra respostas. E Milla Jovovich, Edward Norton e Robert de Niro acabam também eles perdidos numa encruzilhada de vidas demasiadamente desinteressantes para que pudessem suscitar no espectador a procura por si mesmo das respostas que o filme não lhe oferece. Mas é pena.

«Stone – Ninguém é Inocente», de  John Curran




terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Homens bons





[Dalai Lama versus Mr. Chance]

 


O Dalai Lama lidera uma lista das personagens mais influentes do mundo. Sorrio e relembro a espantosa tranquilidade que me invadiu aquando de uma entrevista que o líder espiritual tibetano deu a um canal de televisão. Não sei porquê, mas o Dalai Lama faz-me lembrar uma personagem mítica do cinema, Mr. Chance. Este, um simples jardineiro cujo mundo se resumia à televisão e à mansão em que trabalhou durante anos e que repentinamente se vê enredado numa teia política em que é visto como o homem das novas e revolucionárias ideias que irão metamorfosear o mundo para bem melhor. Brilhantemente protagonizado por Peter Sellers  - o filme é «Bem-vindo, Mr. Chance» (1979) -  há na confusão criada e na peculiar personagem de Mr. Chance uma sabedoria inocente que o Dalai Lama parece muitas vezes encarnar dado o seu franco sentido de humor e a admirável humildade com que se dá aos outros. Como no visionamento do filme e sempre que ouço o Dalai Lama, há momentos em que quase sou obrigado a conter a emoção. E salvaguardadas as devidas distâncias, o mundo precisava de mais gente assim. De mais homens como o Dalai Lama e como Mr. Chance.
 
 
 

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Os políticos que se rejeitam como políticos




Por que será que alguns políticos teimam em dizer mal dos políticos como se ao afirmarem-no não estivessem a fazer política e eles mesmos não fossem parte integrante da classe? Por outro lado, que leva a que outros políticos cuja estratégia anterior levou ao seu próprio enterro público mas que renascem das cinzas a cada novo escrutínio insistam em se afirmar portadores de planos novos e fundamentais que irão fazer do nosso um mundo melhor como se já antes não o tivessem tornado bem pior? Se o primeiro caso me intriga, neste segundo caso recordo-me sempre da velha história do vivo que só o era porque alguém se esquecera de o avisar da sua morte.


sábado, 15 de janeiro de 2011

O ADVERSÁRIO




   A verdade escondida

   
      Sorria tristemente e o olhar, tímido, parecia perdido algures no horizonte. Mas para a mulher, para os filhos, para os pais, era o marido atencioso, o pai protector, o filho dedicado. Era também o médico brilhante com um cargo de investigador na OMS. Um dia, a tranquilidade daria lugar à tragédia. Afinal, podem revelar-se devastadores os contornos ligados às mais recônditas fraquezas do ser humano.
      

      Se existem situações limite em que a verdade ultrapassa claramente a ficção, uma dessas situações consubstancia-se, claramente, na história em que se baseou o livro, da autoria de Emmanuel Carrère, que a realizadora Nicole Garcia adaptou neste filme ao cinema. O filme relata de modo bastante equilibrado em função do acto repulsivo a que alude, a vivência secretamente errante de Jean-Marc Faure (Daniel Auteil), cuja família acreditava que fosse médico a trabalhar como investigador na OMS. Mas a vida de Jean-Marc estava muito longe dessa realidade por si criada mas completamente inexistente. Uma realidade que nunca passara da simples virtualidade. Depois de um erro cometido ainda enquanto estudante de medicina, Jean-Marc revela-se incapaz de lidar com a verdade e mente durante dezoito anos à sua família e amigos. Na extrema e pantanosa experiência humana em que se vai atolando, o falso médico passa os dias em áreas de serviço das auto-estradas, embrenha-se em estradas secundárias dos bosques da região onde vive e abandona-se em quartos de hotel. É uma errância viciosa mantida materialmente pela impostura e marcada psicologicamente pela solidão. Nicole Garcia deixou que a sua câmara captasse o lado mais humano do drama de um homem cobarde que temia as reacções previstas dos que o ladeavam se colocados em confronto com os seus actos falhados, e é atroz o impacto em nós da ambiência silenciosa do seu filme. Os movimentos lentos da câmara e o percurso grave do protagonista, funcionam como se em prelúdio para a anunciada tragédia.
     
      Jean-Marc Faure é o nome ficcionado de Jean-Claude Romand, o homem que entrou numa espiral de degradação psicológica que o levou a um acto tresloucado mas cometido com uma aterradora serenidade. Apesar da realização jamais pretender especular sobre motivações ou encenar explicações psicológicas que levem a um entendimento mais objectivo do espectador perante a insanidade da trama a que assiste, tornam-se ainda assim evidentes os diferentes estágios que levam à alienação final. Faure traçara para si uma exigência terrível com o prolongamento da sua mentira. Para aquele homem, não havia sonhos ou metas a atingir e daí a tristeza que é latente no seu rosto, o desencantamento que transparece no seu olhar. E aquelas pequenas felicidades do dia-a-dia tornaram-se para si irrelevantes, inconsequentes. Daniel Auteil, que ainda não há muito víramos como Marquês de Sade («Sade», 2000), é perfeito no papel de um homem oprimido pela sua própria acção, preso às teias da rede por si tecida. Auteil, como Faure, deambula pela tela cingido rigorosamente à fatalidade da sua personagem. São devastadoras as expressões físicas do actor corporizando um homem potencialmente luminoso mas que se apagava em defesa da sua mentira. No meio do ardil, na gravidade da tragédia, avulta do filme uma espécie de poesia do desespero. E se méritos podem ser atribuídos a Nicole Garcia em virtude da abordagem do seu cinema à história, é de inteira justiça realçar-se o fabuloso trabalho de interpretação de Daniel Auteil. O actor “deu-se” à personagem como se sofresse verdadeiramente com o seu calvário e retira de um sentimento tão negativo quanto a repulsa, com a sua interpretação, um tão estranho quanto inesperado fascínio.
     
      Uma das virtudes do filme reside na percepção que houve de que este se baseava numa história passada na realidade e em tempos muito recentes, em 1993. Esse facto, aliado ao livro de Carrère, ameaçava retirar qualquer tipo e hipótese de surpresa ao filme. Esse pormenor foi ultrapassado socorrendo-se Nicole Garcia em opções conceptuais algo arrojadas, dada a muito própria estrutura da narrativa no que à história se refere. O arrojo, dizia, consistiu no modo como o filme foi montado. Ao mesmo tempo que os contornos dramáticos da trama vão sendo apresentados ao espectador, Luc (François Cluzet), o principal amigo de Jean-Marc, e Marianne (Emmanuelle Devos), que foi sua amante, vão sendo interrogados na polícia sobre o amigo e antigo amante, o que indicia o que já se sabia: que algo de terrível viria a suceder no final. E esse final, ou parte dele, também seria desde logo facultado ao espectador mas apenas parcialmente, acção essa tendente a agir no filme como elemento criador de expectativas.
     
      Diga-se que
«L’Adversaire» não é o primeiro título inspirado nos trágicos acontecimentos protagonizados por Jean-Claude Romand em Janeiro de 1993 e que mais não seriam que o culminar de uma grande mentira quotidiana com dezoito longos anos de duração. «Emploi du Temps», realizado por Laurent Cantet, já tomara a ocorrência fatídica como inspiração de si mas com uma diferença substancial: a inspiração fora exercida de forma muito livre relativamente aos acontecimentos e de molde a praticar um acentuado exercício de reflexão. Este «L’Adversaire» evita a própria reflexão ao largo da história, mas, sendo fiel à obra literária em que se baseia que por sua vez é fiel aos actos ocorridos – o escritor acompanhou mesmo as sessões do tribunal que viria a condenar Romand à pena de prisão perpétua – permite que a sua visão leve à reflexão individual por parte de cada um dos seus espectadores. E esse é um pormenor também ele positivo.
     
      No entanto, na obsessão de evitar julgamentos valorativos sobre quem quer que fosse, a película não alcança um final satisfatório. Aliás, a forma abrupta e pouco clara que o filme encarna no seu final deixa mesmo um sabor amargo de frustração decorrente da ambiguidade alcançada. Esse pormenor, arrisca a que o espectador caia em si e se aperceba que a desolação emocional que o afecta decorre muito mais da consciência que tem de que o que vê teve origem em factos reais e não pelo modo como o filme foi estruturado. O que até nem será totalmente verdade, porque a impressionante espessura dramática que a realização alcança através de silêncios e actos reprimidos, foi preponderante para a atmosfera trágica que é partilhada entre espectador e personagens. E essa perdurará para lá do visionamento do filme. Assim como a incompreensão para com um homem capaz de matar para não olhar a desilusão que a crua e dura verdade provocaria naqueles que o amavam.




     
[Texto em reposição]

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Quotidiano comum

[«O Quotidiano Incomum», foto de Lucie & Simon]





Semana estranha, esta. No Brasil, centenas de pessoas morreram devido à intempérie, na Austrália também o dilúvio causou estragos e destruiu vidas. Por cá, um presidente candidato a presidente cede à pressão e mostra uma faceta irada e pouco condizente com a postura que um cargo de tão alto nível necessita. Entretanto, um poeta esforça-se na prosa com que pretende influenciar o eleitorado e um humanista, médico, luta contra a debilidade de um sistema que se sobrepõe a si mesmo e poucas ou nenhumas oportunidades dá a quem não tenha seguido bem sentado na carreira da política. A abalar o país, no entanto, segue ao leme deste navio mediático o cruel assassinato de um jornalista que se fez à custa de mexericos e de achincalhar a vida alheia e do seu alegado assassino, um jovem modelo que parece ter-se rendido ao desejo de fama e fortuna fáceis aparentemente embrulhado na sua própria confusão quanto às suas orientações sexuais. Felizmente que temos Mourinho a acumular troféus numa demonstração de competência tal que até lhe permite ser quem é ainda que por vezes as suas atitudes choquem os mais sensíveis. Mas, sobretudo, é bom saber que existe vida para além daquela que nos chega de fora ainda que as notícias sejam apenas de dentro. E motivação maior não existe para nos dedicarmos a nós e aos que nos estão próximos já que os outros, os tais, os de sempre, já o eram mas estão agora cada vez mais desinteressantes.


quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Juha [DVD]

       

      Balada Triste ao Infortúnio
   
      «Juha» foi primeiramente conto, história de gentes do povo gravada no papel. «Juha» foi imaginado, delineado, pela mente do escritor finlandês Juhani Aho no já distante ano de 1912. Em «Juha» narra-se o drama do campesino do mesmo nome, Juha, que tão feliz vivia na sua bucólica e bem tratada quinta com a companheira Marja. Desfia-se igualmente o encontro destes com Shemeikka, indivíduo cosmopolita dando ares aristocráticos, conhecedor da vida e a quem a vida também conhecia bem, e – falando já do filme realizado por Aki Kaurismäki – viajante de cabelos ao vento no seu ágil descapotável vermelho. Mas Juha (Sakari Kuosmanen) é tão delicado nos seus gestos rudes de aldeão agricultor e a sua voz grossa soa tão amável... E Marja (Kati Outinen) move-se com aquela graça que advém da singela genuinidade da mulher para quem o mundo não era muito mais que o marido, a quinta e a praça onde comerciavam a sua produção; mas isso chegava-lhe, o seu olhar brilhava, a sua voz parecia perder-se naqueles campos cultivados melodiosa como o cântico das aves na Primavera. Mas eis que surgiu Shemeikka (André Wilms). Aquela sedutora, maldita e altiva pose, o olhar vivido, a voz insinuante e bem colocada...! Shemeike representa um mundo novo, uma perturbação desconhecida, uma avalanche de novos sentimentos. E torna-se estranho, quase inacreditável mesmo, como um filme mudo e a preto e branco consegue definir dele tanta coisa em nós. Como consegue transmitir a percepção das emoções, a compreensão dos estados de alma mais simples e os mais complexos. E enquanto as personagens vivem o drama nós apreendemos com que sons e com que cores o fazem.
     
      «Juha» é um filme triste. Daquela tristeza que não humedece a vista mas que enregela a alma. Acontece que «Juha» é igualmente um filme muito belo. Em «Juha» pressente-se uma espécie de método cartesiano adaptado ao cinema. Ou seja, nele existe um assumido esquecimento e abalroamento de quanto o cinema evoluiu tecnicamente para que a partir de um novo e primário estado pudesse operar-se a reconstrução deste sem os vícios entretanto adquiridos e ressuscitando em nós um perdido encantamento das histórias contadas na tela grande. «Juha» é também um filme de referências. Referências que vão de Godard a Dovjenko, de Renoir a Buñuel. É o próprio Kaurismäki quem o revela. E porque essas referências são facilmente detectáveis perde importância a outra revelação de Kaurismäki quando confessa gostar muito de mentir. Mas nada disso importa, sequer a mentira a existir. Porque este filme tem um efeito psicologicamente libertador sobre o espectador. Mesmo que nele se trilhem caminhos ligados à mentira e à traição, é de verdade que ele nos fala. De uma verdade cuja restituição vale a morte de um homem. E o filme vale pela sua simplicidade humana extraída da complexidade da trama que lhe dá vida. E há que o referir: se o cinema é a 7ª arte é muito por motivo de filmes como este «Juha» que esse estatuto outrora foi alcançado. Pela sua intemporalidade, pela irrepreensível e absolutamente espantosa direcção de actores. Desde a expressão corporal mais simples até ao rigor com que a identidade social de cada uma das (três) personagens foi defendida. Acrescente-se que a utilização da banda sonora alcança nesta obra uma invulgar sintonia com a acção desenvolvida. Como se fosse a música a ditar os comportamentos e não os comportamentos a sugerirem a escolha dos temas e dos registos. Registos que vão desde a música popular à música clássica sem esquecer a música moderna.
     
      Em suma, «Juha» é um daqueles filmes que muitas vezes procuramos mas quase nunca acreditamos encontrar. É um filme onde ao vê-lo nos deixamos ir como se enlevados na surpresa e pela grandiosidade dos seus ímpetos. Ímpetos de dramatismo, esclareça-se. De tal forma assim é que a páginas tantas sentimo-nos viajar. Sentimos que partimos para um qualquer lugar sem dele pensarmos em voltar. E existe a convicção de que as opções conceptuais em termos visuais e sonoros nunca se configuram numa obsessiva formalidade ou, dito de outra forma, como se alguma vez fossem resultado de um qualquer assomo repentino de pretensiosismo autoral por parte do seu realizador. Antes se adivinha nessas opções uma lógica de amor pelo trabalho artesanal e, aí sim, reconheça-se, um certo desprezo pela industrialização de uma arte. Industrialização do cinema, claro. E «Juha» é uma fantástica experiência de cinema. Socorrendo-me de forma livre da letra de uma música que me diz muito, a quem o assistir “espera-o ondas que persistem, que nunca param de bater, esperam-no homens que resistem... antes de morrer”.*


         * «Capitão Romance», Ornatos Violeta



Semelhanças



 
Miguel Esteves Cardoso? Não, apenas um auto-retrato de Grant Wood, datado de 1932.




segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

O dia do juízo final





Na maior parte das religiões acredita-se no dia do juízo final. Talvez esse dia exista mesmo. Afinal vivemos a crédito e no fim alguém nos irá cobrar a dívida que contraímos por cada dia que por cá andámos. E neste aspecto certas religiões funcionam como vulgares seguradoras espalhando a fé no seu deus como quem vende apólices. Acho isto execrável. Mas, pelo sim pelo não, Domingo vou à missa das onze.




domingo, 9 de janeiro de 2011

O Preço da Traição


 



O dinheiro não paga o amor

Catherine [Julianne Moore], ginecologista, mãe, esposa, desconfia que o seu marido, David [Liam Neeson], professor de profissão, a engana com qualquer jovem que se atravessa no seu caminho. Para obter provas irrefutáveis da infidelidade de David, Catherinne contrata Chloe [Amanda Seyfried], uma jovem prostituta de luxo, a quem incube de seduzir o marido. «Chloe», título original do filme do egípcio Atom Egoyan, é o ‘remake’ do francês «Nathalie X» [2003], dirigido por Anne Fontaine.
Num filme com estas premissas, supõe-se desde logo que três elementos se tornem fundamentais e adensem uma narrativa que visa prender o espectador não apenas pela razão mas sobretudo pela emoção: a suspeita, os jogos de sedução e o engano. Nada mau, diria, mas o que, de facto, Egoyan acaba por não conseguir confirmar por inteiro transformando o que deveria ser um ‘thriller’ erótico num drama psicológico. E pese a génese desta história residir na insegurança de uma mulher ao ver aparecerem-lhe na pele as primeiras rugas, o que de melhor o filme oferece acaba por ser o duelo de sedução entre essa mesma mulher [Moore], belíssima, de cinquenta anos, que mantém intactos todos os seus atributos físicos e a beleza voluptuosa de uma outra mulher [Seyfried] no auge da sua juventude e na posse de todos aqueles predicados físicos que enlouquecem os homens. E algumas mulheres.
Assim, «O Preço da Traição» acaba por ser um filme agradável, que se vai apurando em lume brando e se saboreia com menos gosto que aquilo que os olhos prometem. Ainda assim, fica mais uma vez a certeza de que o mundo – e o ser humano – vive à beira de um ataque de nervos, ou, como o filme demonstra, vivemos numa época em que cada vez é mais difícil confiar na sanidade mental de muitos daqueles que nos rodeiam.

«O Preço da Traição», de Atom Egoyan, com Julliane Moore, Liam Neeson e Amanda Seyfried

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Gran Torino






A ausência dói



Em «Gran Torino», esse extraordinário filme de 2008 realizado por Clint Eastwood, a personagem central da trama, Walt Kowalski (protagonizado pelo próprio Eastwood), é um homem só que vê a sua mulher morrer enquanto os seus amigos ou morreram também ou se mudaram para outros locais da cidade. Entretanto, vê o seu bairro habitado na sua esmagadora maioria pelo povo Hmong, uma etnia oriunda do sudeste asiático.

Como grande realizador de cinema que é, em «Gran Torino» Eastwood consegue fazer ainda a ponte entre os conflitos interiores de um homem de alma atormentada e uma sociedade doente. E através de uma realização segura e de uma interpretação verdadeiramente antológica, Eastwood e o seu filme elevam-se a uma categoria superior onde coexistem o drama mais intenso e profundo com cenas de sentido humor.

A nostalgia de outros tempos e um certo impasse vivencial tornam-se elementos fundamentais de uma história onde a expectativa do fim de uma vida já sem grandes estímulos e o apelo da solidariedade se fundem num objectivo comum. E é na consolidação desse  objectivo que o filme de Eastwood se torna perfeito e absolutamente imperdível na história de um homem que encontra a redenção de um modo tão altruísta quanto dramático. E no final do filme talvez sejamos levados a concluir que a perfeição de «Gran Torino» só é possível em contraste com a eterna imperfeição do mundo em que vivemos e naquilo em que o transformámos.

Gran Torino, de e com Clint Eastwood