quarta-feira, 23 de março de 2011

Elizabeth Taylor




1932 - 2011

Casou oito vezes com sete homens, foi um ícone de Hollywood, protagonizou alguns dos grandes filmes da história do cinema, ganhou dois Óscares, personificava a beleza e o talento, defendeu causas, nunca se escondeu do amor, amou e foi amada, era uma mulher livre. Morreu aos 79 anos mas a sua memória permanecerá imortal, que descanse em paz.


domingo, 20 de março de 2011

Os Agentes do Destino





Por amor de uma mulher

Há uma vertente do cinema que visa quase exclusivamente o entretenimento do espectador, tornando os filmes em mera diversão. Infelizmente, os grandes estúdios têm inundado as salas com propostas perfeitamente ridículas que chegam a atentar a inteligência das pessoas. O cinema tornou-se uma indústria que na maioria das vezes faz tábua rasa da sua condição de arte, a 7ª. Ainda assim, por vezes chegam até nós filmes despretensiosos que para além de funcionarem como bom entretenimento conseguem ir muito para além disso. Ao visioná-los, o espectador diverte-se, emociona-se, sonha e pensa. E é isso mesmo aquilo que George Nolfi conseguiu ao adaptar para filme o conto «Adjustment Team», escrito por Philip K. Dick. «Os Agentes do Destino» é um thriller romântico de ficção científica que agrada bastante pese toda a carga de simbolismo religioso um tanto ou quanto desfasado dos nossos dias.
Antes de ir à trama, diga-se que Philip K. Dick escreveu, entre outras obras suas adaptadas ao cinema, esse memorável «Blade Runner» [Ridley Scott, 1982] e «Relatório Minoritário» [Steven Spielberg, 2002]. Quanto à história deste «Os Agentes do Destino», David [Matt Damon] é um jovem político de sucesso pese ter publicamente associada a si a imagem de um homem inconstante. Já Elise [fantástica e linda Emily Blunt] é uma bailarina simpática, de personalidade de uma leveza encantadora e mulher delicada que conhece David precisamente no dia em que este perde as eleições para o Senado. Para quem não acredita no amor à primeira vista, tem em «The Adjustment Bureau», no seu título original, a prova de que o clique imediato é bem possível. Ficamos também com a certeza, caso tivéssemos dúvidas a respeito, que o livre arbítrio não é uma benesse que cai dos céus mas sim um direito a ser exercido pelos homens e mulheres. Isto porque estava escrito que David e Elise não poderiam ficar juntos, mas o par amoroso não está pelos ajustes e vai lutar pelo seu amor.
Apesar da fragilidade do argumento - que ainda assim possui uma atmosfera de intemporalidade - e, provavelmente, de uma linguagem cinematográfica demasiadamente próxima dos códigos televisivos, o filme é aquilo que já se disse – emociona, faz sonhar e diverte – e possui como extras as interpretações de Matt Damon e Emily Blunt, ele bastante profissional num projecto não muito arrojado e ela numa actuação a dar para o celestial; eu, pelo menos, assim achei. Por outro lado, há toda uma equipa de secundários de luxo liderada por Anthony Mackie [«Estado de Guerra»], John Slattery [«Homem de Ferro 2»] e Terence Stamp [«Valquíria»]. E quando assim é, que mais se pode exigir de um filme que pelo seu lado apenas nos solicita simpatia e boa disposição?



[O bónus de «Os Agentes do Destino»: a lindíssima Emily Blunt como Elise]





«The Adjustment Bureau», de George Nolfi, com Matt Damon e Emily Blunt



sábado, 19 de março de 2011

A modelo fotográfico Iga A.

[Foto daqui.]



Gosto muito de a ver trabalhar.


sexta-feira, 18 de março de 2011

O génio do mestre

    
Eyes Wide Shut


      O Dr.Bill [Tom Cruise] segue incapaz de se deter na sua ânsia de transgressão. Acaba num enorme e sumptuoso palacete onde decorre uma cerimónia profana e os sacerdotes se mascaram procurando, talvez, esconder a sua vergonha. Tentam-se sensações limite quando tudo já não basta. Belas mulheres ostentando corpos causadores de desejo profundo  deambulam pelas salas num passo irrepreensivelmente elegante. Vem-nos à memória a "Vénus" de Botticelli. Nas cenas de orgia imaginamos um ritmado bailado clássico. A música divide-nos entre uma ópera clássica ou música de câmara de inspiração céltica. Tudo se assemelha a um grandioso espectáculo erudito e a senha que o Dr.Bill é obrigado a fornecer à segurança remete-nos para isso mesmo. Através de Fidelio, a única ópera composta por Beethoven. 

     Momentos de fulgor do mestre a que nos apetece simplesmente agradecer. Não apenas pelo desfilar de lindíssimas mulheres ou pelo rigor da encenação, mas sobretudo pelo excelente e inolvidável momento de cinema.


terça-feira, 15 de março de 2011

O Emprego do Tempo


[DVD]



Um homem refém de si mesmo 




      Era inevitável que o cinema se debruçasse sobre os contornos trágicos do tristemente célebre, em França, caso Romand. Curiosamente, estrearia primeiramente nas nossas salas uma abordagem cinematográfica do dramático acontecimento posterior a «O Emprego do Tempo». Nesse filme, com o título original de «L’Adversaire»(2002), Nicole Garcia seguiu com bastante fidelidade aquilo que o escritor Emmanuel Carrère descreveu em livro sobre o que realmente aconteceu. Lembre-se que depois de mentir durante quase vinte anos à sua família e amigos sobre um curso que nunca tirou e um emprego que nunca teve, um homem, justamente Jean-Claude Romand, esquivara-se à confissão da dolorosa verdade assassinando toda a sua família. Já neste filme, datado de 1999, o realizador Laurent Cantet interessa-se pelo ocorrido apenas como meio de inspiração para a reflexão. E se bem que a importância do núcleo familiar se mantém intacta no seu filme, Cantet estende essa influência à relação do seu protagonista com o mundo do trabalho. Ou não tivesse sido já essa a principal preocupação presente na sua anterior obra sugestivamente intitulada «Recursos Humanos». Como curiosidade, refira-se que sendo essa a sua primeira longa-metragem, Cantet ganharia com o filme o César do cinema francês destinado a premiar uma primeira obra.
     
     Realce-se desde logo a importância do factor psicológico como elemento catalisador da acção ao longo do filme. Porque quando existe uma consciência, a mentira torna-se um fardo demasiado pesado de suster e a perturbação pode tomar conta de quem reiteradamente vive sob os seus desígnios. Se não, repare-se: quando Vincent (Aurélien Recoing) perde o seu emprego, não tem coragem para revelar o facto à sua família. Instado a explicar-se sobre pequenos pormenores acerca de uma hipotética mudança de emprego, que representava um salto qualitativo na sua carreira profissional, Vincent vai-se atolando cada vez mais no equívoco que criara. Durante meses ele é o executivo que às semanas se ausenta para o seu trabalho numa repartição da ONU, em Genebra. Mas, na verdade, mais não faz que confundir-se com quem efectivamente lá trabalha, conduzir sem rumo definido durante longas horas, passar o tempo em áreas de serviço e parques de estacionamento, desaparecer por dentro de florestas e montanhas. Os esquemas a que se obriga para fazer face às obrigações financeiras de pai de família levam-no ainda a trair e a fazer parte de esquemas de corrupção e marginalidade, adensando-lhe a angústia em que cada vez mais se enterra.
     
      Há, desse modo, uma clara vertente psicológica a nortear o criterioso argumento do filme. E isso sucede desde o primeiro minuto, já que Vincent perde o seu emprego porque tem para com os seus deveres profissionais uma relação desencantada, de parcos estímulos, quase como se o constrangimento de ter de fazer o que o não realiza ou estimula se torne num calvário renovado a cada novo dia. E isso leva-o ao absentismo e à recusa, que por sua vez o conduz ao desemprego. Mas a cobardia de Vincent, que a câmara de Cantet não esconde mas também nunca faz questão de evidenciar – pelo menos de modo acusatório, leva-o a mentir. E é pelo repetido acumular dessa mentira que a sua vida se torna num insustentável fardo. E Vincent acaba refém de si mesmo preso na teia que a sua própria debilidade tece.
       E no filme a tensão adensa-se na conjugação de tempos e espaços que a realização manipula exemplarmente. Os dias passados na estrada conduzindo sem destino, o contínuo adormecer dentro da viatura e o amanhecer esperando apenas que a noite chegue novamente são elementos filmados com um domínio perfeito de métodos e técnicas. Por outro lado, a aposta em Aurélien Recoing, um actor normalmente distante deste universo dos filmes, revelou-se acertada. Porque o perfil do actor, ou do homem por detrás dessa capa, parece confundir-se com cada uma das facetas que a sua personagem vai adoptando ao longo da história na tentativa de se imiscuir discretamente num universo que não é o seu. E se em «L’Adversaire» Nicole Garcia não fugiu nunca da verdade dos factos e, mesmo sem acusar, expôs o lado hediondo dos actos praticados, em «L’Emploi du Temps» Laurent Cantet preferiu reflectir sobre as motivações psicológicas de um homem vítima das suas próprias características de personalidade. E para aqueles que se preocupam ou gostam de se confrontar com histórias da vida em que a alma humana sucumbe de forma trágica às obrigações sociais, este é um filme a não perder. Até porque o homem permanece como o ser mais enigmático e imprevisível à face da terra.


«L’Emploi du Temps» [DVD], de Laurent Cantet, com Aurélien Recoing

segunda-feira, 14 de março de 2011

Bancarrota

[Pedro Passos Coelho e José Sócrates - Foto Expresso online]



Estão simultaneamente longe e perto um do outro. Na força de um sonho, de um projecto político, sabem que não existe espaço para se darem as mãos, para se unirem na sua paixão pelo poder. Entretanto, no meio de todas as exigências dos círculos em que se movem e das cautelas conspirativas próprias do jogo político, guardam o espaço e o tempo necessários para viverem a chama que os une. E o país lá vai permanecendo suspenso pelos maus presságios que a realidade lhe transmite. Até à bancarrota?



A realidade a copiar a ficção?






«[…]No termo deste encontro esgotante, Kichizo deixar-se-á estrangular pela sua companheira que o castra num gesto último de mortificação.»

Excerto da sinopse de «O Império dos Sentidos», de Nagisa Oshima, Japão, 1976, in «Os Filmes Chave do Cinema», de Claude Beylie


Pensar em viver ou viver a pensar?

[Large Interior, 1983 - Lucian Freud]





Por vezes deparo-me com alguns pensamentos vindos de jovens com idades por volta dos vinte anos e menos que me assustam também pela profundidade mas sobretudo pela sua temática. Não que não ache capaz da filosofia mais intensa uma pessoa ainda tão jovem, pelo contrário. Mas sim porque entendo que há determinado tipo de constatações sobre o quotidiano, sobre a vida, que só deveriam merecer a nossa preocupação lá mais para a frente no nosso percurso por cá. E não se trata de pertencer a uma geração rasca, à rasca, ou, característica tão portuguesa, do desenrasca. Trata-se apenas de achar que a vida deveria ser permitida a cada ser humano segundo o estágio em que se encontra da mesma. Até porque há determinados assuntos políticos e até pessoais que vistos um dia mais tarde não chegarão a passar de meras minudências.

Sem palavras...

[Fonte: Público online]

segunda-feira, 7 de março de 2011

Um Funeral à Chuva





SS*

Este fim-de-semana resolvi descobrir igualmente «Um Funeral à Chuva», de Telmo Martins, fenómeno recente no panorama cinematográfico português. A sinopse conta-se facilmente e faz lembrar tão levemente quanto a queda aparatosa de um elefante esse filme mítico que dá pelo nome de «Os Amigos de Alex» [1983], de Lawrence Kasdan. Mas do pormenor não vem mal ao mundo assim como a trivialidade das conversas entre os sete antigos colegas de universidade que se reencontram para o funeral de um deles que morreu prematuramente e daí resolverem fazer um rescaldo das suas vidas e retomar a ligação e amizade entretanto perdidas assim como o ‘dèja vu’ das situações em que incorrem. Não, não viria mal ao mundo se Telmo Martins and friends conseguissem tornar o seu projecto recheado de nobres intenções, reconheça-se, num filme agradável. E já agora, que isto de pedir não custa, com uma narrativa fluida uma vez que a complexidade existencial se afoga rapidamente numas quantas cervejas acompanhadas de um charro aqui e outro acolá.
Mas se há filme em que seria de todo agradável tecer os mais rasgados elogios, seria este «Um Funeral à Chuva». Porque não teve subsídios e, a acreditar nos próprios, nem custos para a produção que conseguiu alavancar-se no apoio de diversas empresas e entidades. Mas também, ‘last but not least’, porque o filme tem as pernas da actriz Sandra Santos. Umas pernas lindas que a câmara de Telmo Martins capta avidamente desde o tornozelo até aos minúsculos calções que a sua personagem usa durante quase todo o filme. Um filme que tem duas horas e dez minutos de duração, diga-se. Por outro lado, há ainda a Covilhã e a Serra da Estrela, a nostalgia da universidade, das praxes académicas e das bebedeiras. Mas, confesso, as pernas da Sandra Santos filmadas por Telmo Martins ficaram-me na retina e são do mais memorável que o cinema português do género nos ofereceu até hoje. E agora que as temos esqueça-se as mamas da Rita Pereira nos Emmys ou as ditas da Cláudia Vieira em «O Contrato» [2009], de Nicolau Breyner. Mas, facto penoso neste caso, um filme não pode ser só pernas e as mulheres são muito mais que pernas e mamas. No cinema como na vida. Nós, os homens, como bem diz o Vitor Norte em «O Contrato», é que ‘somos uns gajos do caralho’.

*Sandra Santos

«Um Funeral à Chuva», de Telmo Martins, com Sandra Santos, outros


Amores maiores que a vida: Modigliani e Jeanne

[Female Nude, 1916]





 Amar-te-ei assim, perdidamente...

Errante, exagerado, apaixonado, Amedeo Modigliani nasceu em 1888 e viveria apenas 35 anos. Italiano de nascimento, natural da cidade de Livorno, a sua pintura levá-lo-ia até Paris onde conheceu Jeanne, uma jovem – de 18 anos – estudante de arte. Jeanne seria o grande amor da vida de Modigliani, mas este, insatisfeito por natureza, capaz apenas da felicidade circunstancial, saltaria de cama em cama e de mulher em mulher deixando Jeanne [e o filho que nasceria do amor de ambos] entregue à sua própria fragilidade e a uma depressão que a consumia. Já perto da morte, o pintor expressionista voltaria para os braços de Jeanne morrendo pouco depois de tuberculose imerso no frio Inverno parisiense. E a jovem amante, que antecipara em desenho o seu próprio fim enquanto o homem da sua vida se esvaía em suores febris, grávida de nove meses acabou por ser recuperada para casa da família de onde, da janela de um 5º andar e de costas para a rua, se precipitou para a morte. Modigliani foi enterrado no cemitério de Père-Lachaise. Jeanne foi-o num outro cemitério perdido algures na cidade das luzes e somente nove anos depois se juntariam na campa de Père-Lachaise.

Crazy Heart




Um homem singular

Tenho ouvido e lido muito boa gente desabafar que escreve bem melhor quando está triste. A confissão não me é estranha e a resposta é-nos dada por «Crazy Heart» [2009], o filme que permitiu a Jeff Bridges arrebatar o Óscar de melhor actor em 2010. De facto, tal como nos sussurram os sons da música country, pedra basilar da cultura popular norte-americana, não tenho dúvidas de que quanto mais amarga é a vida, mais doce é a canção.
Quer na sala grande do cinema ou no leitor de DVD cá de casa, vejo vários filmes por semana. Mas quis o destino que só agora, confrontado com a foto do rosto sofrido de Bridges [depositada num escaparate da secção de DVD’s de uma conhecida loja de livros e filmes] de queixo um pouco acima da viola que toca enquanto supostamente entoa  uma canção, resolvi que era chegado o momento de perceber por que razão Colin Firth lhe vira ser retirado o Óscar pela sua interpretação exímia em «Um Homem Singular». Firth,  também ele devastado por um grande amor perdido algures nas mais inesperadas casualidades da vida. E em boa hora o fiz, porque «Crazy Heart» é cinema sem artifícios, é a ficção a sobrepor-se à realidade, é autenticidade, é sensibilidade e intimismo.
«Crazy Heart» é ainda a história de um homem, de um músico, perdido na incapacidade de olhar para trás. E de ao olhar o homem glorioso que foi, seguir em frente sabendo que há sempre algo de valoroso para desfrutar e dar aos outros pese ter-se perdido algo num percurso de vida por vezes sinuoso. Mas, entre a areia dos quilómetros e quilómetros de deserto que atravessa diariamente para actuar em bares manhosos e submerso pelo torpor do álcool com que vai enganando a sua dor, a vida dá nova oportunidade a Bad Blake [Jeff Bridges]. Essa oportunidade surge através do amor correspondido por Jean [Maggie Gyllenhall], uma mãe solteira muito mais jovem que ele. Como seria de esperar, porque quando a ficção é boa resulta no espelho fiel da realidade, Bad Blake deixa escapar aquele que se percebe ser o grande amor da sua vida e quando faz aquilo que deveria ter feito desde logo é já demasiado tarde para ambos.
Pobres os espíritos de quem decidiu enviar directamente para DVD este filme tocante sobre a fragilidade do indivíduo. Uma debilidade que surge da insatisfação de que é feita a sua própria massa, da incapacidade para em determinado momento perceber qual é o caminho a seguir. E Jeff Bridges foi exemplar na corporização de um homem com estas características especiais, de alguém que caminha sempre em desequilíbrio tanto podendo a qualquer momento subir aos céus, às estrelas, como estatelar-se no solo, descer ao inferno. Dir-se-ia que «Crazy Heart» nasce de uma história já vista, pouco original. Eu diria que nasce de nós, do ser humano imperfeito que somos. E diria também que, em «Crazy Heart», Jeff Bridges é… um homem singular.

Crazy Heart», de Scott Cooper, com Jeff Bridges, Maggie Gyllenhaal, Robert Duvall e Colin Farrell

terça-feira, 1 de março de 2011

A Náusea







Descontente com a vida, solitário e desenraizado, homem fisicamente feio e perdido no que considera o absurdo da existência, desgastado pela dúvida e pela consciência de si, historiador e biógrafo, assim descreve Jean-Paul Sartre a personagem principal do seu livro «A Náusea» (1938). Embora experimente alguma relutância ao confessá-lo, admito ter dias em que me sinto precisamente como Antoine Roquentin, o menino de que aqui se fala.

Memória





Timothy Ryback deu uma entrevista ao jornal Público sobre o seu livro «A Biblioteca Privada de Hitler» e, entre outras coisas, diz que ‘a civilização ocidental está assente na noção de que a leitura, a educação, a literatura, nos dão mais conhecimento e fazem do mundo um sítio melhor. E com Adolf Hitler acontece exactamente o contrário. Este homem usou a literatura, usou a história, usou a filosofia para inspirar algumas das mais horríveis acções já cometidas por seres humanos’. Para concluir declara suspeitar que ‘Hitler não era a única pessoa má com uma biblioteca.’
Pois é, mas eu não suspeito, tenho a certeza. E alguns deles têm até um aspecto tão descontraído e sorridente que metem medo. Tal como é assustadora a frase promocional retirada do Washington Post e que a capa do livro exibe orgulhosamente dizendo que este é ‘Absolutamente cativante… fascinante e perturbador’. É que nada do que diga respeito ao energúmeno que foi Hitler pode assemelhar-se às emoções referidas como cativantes ou fascinantes. E falar deste homem serve apenas como pretexto para que não deixemos que a memória possa alguma vez ser apagada.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

SIC Homem

[A modelo fotográfico Iga A. - Gosto de a ver trabalhar]





Longevidade

Neste Domingo, enquanto aguardava pelo início da transmissão do jogo do Benfica com o Marítimo brinquei um pouco com o comando fazendo zapping de canal em canal. Sem perceber bem porquê, estanquei o passo na SIC Mulher a ouvir um tal de Dr. Oz. Dizia este médico que Oprah Winfrey, a diva da televisão americana, tornou famoso [entretanto fui tentar saber quem era o senhor], que a uma mulher que namore com um homem alguns anos mais novo que ela este não lhe acrescenta anos de vida. Pelo contrário, um homem que namore com uma mulher 17 anos mais nova [precisão científica], terá a sua longevidade acrescida em dez anos. Bom, passe a minha convicção de que a continuar a dar estas notícias a SIC Mulher em breve terá de passar a chamar-se SIC Homem já que a audiência feminina foge e é substituída pela masculina, por que será que ainda assim fiquei com a dúvida se esta era realmente uma boa notícia para os homens!? É que, convenhamos, será preciso suar as estopinhas e ter muito talento natural para arranjar uma namorada 17 anos mais jovem. Desenganemo-nos, homens, nem quando a ciência o determina nos é dado algo ou alguém de mão beijada. 



Noite dentro





Dormi muito, mesmo muito. Estava mais provocador que nunca, temerário como sempre, distribuía charme e classe como poucos, dividi-me na paixão pelas mulheres e no dever do combate ao crime à escala mundial. Por todo o lado as mulheres eram belas e sensuais, os criminosos feios e megalómanos mas eu era detentor da receita certa para as seduzir a elas e combater a eles algures entre um copo de Martini, um olhar apressado ao relógio Omega e uma ruidosa corrida ao volante do meu potente Aston Martin. Soube bem, muito bem, mas o despertador tocou e tive de me levantar para ir trabalhar.



Óscares 2011: O cair do pano




A festa
Baixou o pano sobre a cerimónia no Kodak Theatre e a sensação maior que paira na generalidade dos espectadores e cinéfilos de todo o mundo é a de que a montanha pariu um rato. Honestamente, espero que os chamados blogues cor-de-rosa tenham muito a escrever sobre os vestidos das convidadas porque no restante da festa o marasmo foi quase total. E este quase para não ser mesmo total tem somente a ver com as aparições de uma Scarlett Johansson sensual e sedutora, de Kirk Douglas a tentar fazer humor aos 94 anos, do sempre competente Billy Cristal que já apresentou a cerimónia dos Óscares por oito vezes e das vitórias de Natalie Portman, Colin Firth e Christian Bale nas categorias para que estavam nomeados.


Previsibilidade e conservadorismo
Não é novidade para quem quer que seja o conservadorismo da Academia de Hollywood e, pessoalmente, a prova disso mesmo está na aposta que fiz nos vencedores da noite. De facto, ter acertado sete em dez nomes e os falhados dizerem respeito ao Melhor Filme, Melhor Realizador e Melhor Filme Estrangeiro [aqui, ainda só tinha visto o desgostoso «Biutiful» e foi nesse que apostei] só pode mesmo significar previsibilidade dos senhores que votam para os prémios e não qualquer capacidade especial minha para a adivinhação.


Os premiados
Assim, com os Óscares de Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Actor e Melhor Argumento Original «O Discurso do Rei» foi o vencedor da noite. Também com quatro Óscares, todos eles técnicos, «A Origem» acabou por ver premiada uma pequena parte do excelente trabalho da sua equipa, enquanto «A Rede Social», de David Fincher, para além de Melhor Argumento adaptado levou mais duas estatuetas para casa, ambas também técnicas. De salientar apenas os dois Óscares de interpretação atribuídos a «The Fighter: Último Round», os de Melissa Leo, previsível mas questionável, e de Christian Bale, merecido pese a concorrência valorosa de Geoffrey Rush. No restante, dizer apenas que Tom Hooper [Melhor Realizador por «O Discurso do Rei»] ao olhar para os outros realizadores nomeados e para o trabalho que estes fizeram nos filmes que os levaram na noite de 27 ao Kodak Theatre, ainda hoje se deve estar a perguntar o que faz aquele troféu lá por casa e que, mesmo estando brilhante em «O Discurso do Rei», Colin Firth ainda o tinha estado mais na sua nomeação anterior por «Um Homem Singular». Já Natalie Portman teve o papel da sua vida, apesar da sua juventude, e Christian Bale voltou a provar que é um dos melhores da actual geração de actores norte-americanos encarnando visceralmente uma personagem que nem sequer é de ficção já que ainda vive algures em Lowell, Massachusetts.  


Dois baldes de água fria
E os Óscares de Lata vão para… James Franco e Anne Hathaway, os apresentadores. Sem carisma, sem chama e sem perfil para a função foram uma autêntica nulidade. Não é por acaso que apesar da sua presença na audiência, o fantasma de Hugh Jackman continua a pairar sobre o Kodak Theatre. Nos últimos anos, Wolverine, ou o australiano, foi o melhor entre os seus que a Academia nomeou para apresentar a sua própria festa. Mas que ninguém desanime, para o ano há mais.





[Natalie Portman em «Cisne Negro», o papel de uma vida]







domingo, 27 de fevereiro de 2011

Óscares 2011: Preferências e Prognósticos



A poucas horas do início da cerimónia da entrega dos Óscares de 2011, deixo aqui a minha opinião e alguns vaticínios.




Melhor Filme
Sinceramente não me parece que «O Discurso do Rei» vença. Creio que está na altura de celebrizar os feitos da América num mundo actual e globalizado onde as redes sociais têm um impacto cada vez maior pelo que julgo que «A Rede Social» pode muito bem arrebatar o troféu. Se fosse eu a escolher sentir-me-ia dividido entre vários deles mas entregava a estatueta a «Cisne Negro».






Melhor Realizador
Aqui o meu preferido é, por via do que escrevi anteriormente, Darren Aronofsky [«Cisne Negro»]. No entanto aposto na vitória de David Fincher [«A Rede Social»].






Melhor Actor
Há dois homens claramente mais merecedores deste prémio, Colin Firth  [«O Discurso do Rei»] e Jeff Bridges [«Indomável»], mas o actor inglês desta vez vai vencer e eu acho muito bem.







Melhor Actriz
Nesta categoria, este ano temos uma mera formalidade para entregar o mais que merecido Óscar a Natalie Portman [«Cisne Negro»]. E eu aplaudo, claro.







Melhor Actor Secundário
Aqui, confesso, divido-me entre duas interpretações. As de Geoffrey Rush em «O Discurso do Rei» e de Christiane Bale em «The Fighter». Ficaria contente com qualquer um a vencer e creio mesmo que Bale desta vez vai subir ao palco do Teatro Kodak.







Melhor Actriz Secundária
Se houvesse justiça neste mundo, a pequena Hailee Steinfeld [«Indomável»] não teria que esperar mais para levar o prémio da Academia de Hollywood para casa. Como o mundo não é justo, aposto que os senhores da Academia o irão entregar a Melissa Leo [«The Fighter»].









Melhor Argumento Original

O argumento de «A Origem» é fenomenal e aquele que escolheria, mas parece-me que aqui o Óscar irá para «O Discurso do Rei», até como forma de compensação se o meu raciocínio de entrega dos prémios estiver correcto.








Argumento Adaptado
Nesta categoria, a entrega do prémio seria outra mera formalidade com o trabalho realizado pela equipa de «Indomável». Mas não deverá ser uma formalidade, deverá mesmo ser uma entrega muito renhida, e creio que «A Rede Social» vai somar aqui mais um amigo de nome Óscar.



 



Melhor Filme em Língua não Inglesa
Não tenho preferências nesta categoria nem simpatia pelo filme, mas creio que «Biutiful» sairá recompensado pelo claro descrédito que demonstra na espécie humana.



 




Melhor Filme de Animação
«O Mágico» é um filme de uma inacreditável magia. Apesar disso, «Toy Story 3» deverá ser feliz e arrecadar o troféu.



 


A melhor cerimónia a que assisti nos últimos anos foi apresentada por um australiano, Hugh Jackman. Esperemos que a nova-iorquina Anne Hathaway, para quem «O Amor é o Melhor Remédio»,  e o californiano James Franco, este já com a prótese depois de ter cortado o braço em «127 Horas»,  possam superar a brilhante performance de Jackman na maior festa de cinema do ano.





127 Horas





O homem e a montanha

O filme inicia-se com imagens frenéticas tiradas de câmaras de segurança sobre as ruas apinhadas de gente, estádios de futebol imersos de espectadores, cenas vindas directamente de televisões, cenas domésticas e, de entre todas elas, emerge o protagonista do filme, Aron Ralston [James Franco]. Baseado em factos reais, Ralston, engenheiro e amante da natureza, é um homem tão confiante de si mesmo e das suas capacidades de lidar com desertos e montanhas adversas que sai de fim-de-semana algures para o Utah sem deixar uma única nota de si, sem que alguém saiba para onde seguiu.

Mas esta inconsciência sairá cara a Aron quando um dos seus braços, comprimido entre uma rocha que se soltara e as paredes de uma ravina, o faz ficar preso nas entranhas da terra. E é a partir daqui que o realizador de «Trainspotting» [1996], «A Praia» [2000], «28 Dias Depois» [2002] e o multi-oscarizado «Slumdog Billionaire» [1998] faz um filme sobre o calvário de um homem agarrado ao seu próprio destino sem qualquer possibilidade de apoio externo que não venha de si mesmo. Apesar das possibilidades deste homem aterradoras de tão pessimistas, Boyle imprime ao filme um humor a roçar o sarcasmo que faz com que plateias nervosas se confundam entre o choro e o riso. É obra.

No entanto, é inegável que numa história com estas características o filme tenha as suas próprias limitações que nem a esquizofrenia visual de que é composto consegue disfarçar. Ainda assim, nesta hora e meia de puro cenário e tensão dramática há um actor que encarna na perfeição o aventureiro dos nossos dias a quem a natureza resolveu dar uma lição perante a sua insolência. E durante os cinco dias em que está preso por um braço, o filme condensa em hora e meia toda a fragilidade humana perante uma morte que se avizinha e a necessidade de força interior para manter intactos a mente e o ânimo. Em suma, «127 Horas» é uma proposta de cinema diferente e ousada que se desenvencilha capazmente das suas próprias restrições graças ao talento dos seus autores e actores, Danny Boyle e James Franco à cabeça. Que eu corte já um braço a mim mesmo se assim não é.

«127 Hours», de Danny Boyle, com James Franco


quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Word

[Rachel Weisz in «My Blueberry Nights - O Sabor do Amor»]




Suponho que tal como acontece com muitos homens, dias há em que sou surpreendido por um olhar meigo onde perco o meu, por um sorriso tímido que me aquece a alma. E à noite, normalmente à noite, sento-me ao computador e escrevo um texto condicionado pelas emoções do dia. E aquele olhar, aquele sorriso, aquela mulher, estão lá. São textos que ficam apenas para mim e que noutros tempos se perdiam como vulgares papeis espalhados algures no lugar a que chamo escritório ou entre os livros arrumados ou simplesmente empilhados nas estantes. Mas como não voltava a lê-los, como o passar do tempo aquele olhar, aquele sorriso, aquela mulher desvaneciam-se em mim. Agora tudo mudou com esses textos, aqueles que escrevia ao sabor do momento. Passei a encontrá-los de cada vez que abro o Word. E não, não  esqueci mais os olhares meigos, os sorrisos tímidos...


terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Poupanças



Julgo já o ter escrito por aqui, tenho uma péssima relação com o dinheiro. Confesso comportar-me, neste aspecto particular, muito de acordo com o tipo de raciocínio que a minha mãe adopta de cada vez que vou lá a casa. Acusa-me sempre de levar uma imensidão de tempo a chegar e de nem aquecer o lugar para partir de novo. O que nunca disse aqui, penso, é que  em matéria de lucidez a minha mãe dá-me autênticas abadas. Mas voltando ao que me trouxe, o meu sonho de poupança está mais na linha dos críticos de cinema do Público, excepção feita ao Jorge Mourinha. Poupar tanto no meu dinheiro como aquela repartição do jornal poupa nas estrelinhas com que avaliam os filmes em cartaz. Até porque não há novidade nenhuma em dizer que esta coisa dos filmes é um pouco como na vida. Cada um é como é e certamente que não come aquilo de que não gosta. Gosto de cinema.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Clube de combate





«Com todo o mundo dividido em propriedades, com os limites de velocidade e as divisões por zonas, com tudo regulado e tributado, com todas as pessoas analisadas e recenseadas e rotuladas e registadas o mundo tornou-se aborrecido. Ninguém deixou muito espaço para a aventura, exceptuando, talvez, a do género que se pode comprar. Numa montanha-russa. Num cinema. No entanto, isso seria sempre uma excitação falsa. Sabes que os dinossauros não vão comer os miúdos. Os referendos recusaram com os seus votos qualquer hipótese de um desastre falso ainda maior. E porque não existe a possibilidade de um desastre verdadeiro, ficamos sem nenhuma hipótese de termos uma salvação verdadeira. Entusiasmo verdadeiro. Excitação a sério. Alegria. Descoberta. Invenção.»

Quem o diz não sou eu, é Chuck Palahniuk na sua obra «Asfixia». Mas concordo em absoluto. Quem dera que o homem não tivesse criado determinadas amarras para si mesmo não percebendo que ao fazê-lo se enfraquecia ainda mais no intuito de se proteger, que a liberdade fosse algo que não nos é retirado no preciso momento em que decidimos viver sob os parâmetros de uma sociedade recheada de condicionalismos e preconceitos onde os papéis assinados têm mais força que os vínculos emocionais, que não vivêssemos permanentemente no medo de falhar como se o erro não fizesse parte do processo de crescimento de cada um como ser humano acabando por tornar este num mundo de oportunidades onde a obrigação de escolher é quase sempre um sinónimo de perda sem retorno porque deixámos algo ou alguém para trás. Cada vez mais penso que está na altura de baralhar e dar de novo porque neste jogo da vida as regras ou estão viciadas ou não permitem o seu desenvolvimento.

Chuck Palahniuk é um escritor americano e foi autor da obra «Fight Club», levada ao cinema por David Fincher em 1999, com Brad Pitt e Edward Norton nos principais papéis. Palahniuk cumpre hoje 50 anos de idade.




domingo, 20 de fevereiro de 2011

Despojos de Inverno





Irmã coragem

«Winter’s Bone» é mais uma pérola do cinema indie, um filme passado numa América mais tenebrosa que profunda, numa sociedade fechada sobre si e marginal, num mundo onde o gelo e o lixo tornam ainda mais hostil uma paisagem montanhosa já de si áspera como as gentes que a povoam. Correndo por fora, «Despojos de Inverno», da americana Debra Granik, promete no entanto dar que falar na noite dos Óscares. Não porque tenha grandes probabilidades de vencer alguma das quatro estatuetas para que foi nomeado, não sejamos ingénuos, mas porque cada uma das nomeações deste pequeno/grande filme são demasiadamente sólidas para não serem levadas a sério. Nomeadamente a de Jennifer Lawrence, uma irmã feita mãe coragem num mundo assente em silêncios e no medo.

Ree [Jennifer Lawrence] tem apenas dezassete anos mas a seu cargo vivem um irmão de doze e uma irmã de seis e ainda a mãe dada como louca perante o seu silêncio e inércia talvez na única forma que encontrou de enfrentar a miséria e a mesquinhez que a rodeiam. O pai, ausente, acabara de sair da prisão mas desapareceu deixando a família em risco de perder os terrenos e a casa onde vivem dados por ele como pagamento da fiança. Ree tem, assim, poucos dias para encontrar o pai e evitar o desmembramento total da sua família já de si disfuncional. Mas na tarefa árdua a que se propõe, Ree irá enfrentar as mais terríveis ameaças proferidas por personagens sinistras regidas por um estranho código de silêncio. Nessa busca, a jovem vai ainda contar com os avanços e recuos de Teardrop [John Hawkes], o tão violento como generoso irmão do seu pai.

Como facilmente se pode perceber, Debra Granik constrói em «Despojos de Inverno» um thriller de estética rugosa subindo aos montes Ozark para mostrar uma América má e feia regida por máfias familiares onde abundam os laboratórios artesanais de drogas e álcool. Mas no mundo de «Winter’s Bone», para gáudio do espectador de cinema sobrevive uma jovem que não teme enfrentar a violência de gente sórdida e dura em nome de uma responsabilidade maternal que não lhe deveria pertencer mas que ela não enjeita. E Ree tão depressa se mostra a mais terna das irmãs como a mais feroz lutadora numa interpretação superior de Jennifer Lawrence, ela que representa ainda a esperança num ambiente de adversidade e desolação. E no filme, a personagem de Jennifer rima apenas como os suaves acordes de um banjo ou nas velhas canções country entoadas por uma também velha cantora na reunião familiar que na sua desesperada busca ela interrompe. Interrompem-na Ree e o seu inesgotável amor pela vida. Pela sua, é claro, mas sobretudo pela vida dos seus dois pequenos irmãos. A não perder.

«Winter’s Bone», de Debra Granik, com Jennifer Lawrence e John Hawkes

O estado da nação



Há dias, num jantar de trabalho, um advogado dizia-me que cerca de setenta por cento dos processos que chegam a tribunal são ganhos por erros processuais. Dito por outras palavras, e exemplificando, o que este meu conhecido queria dizer é que ao tribunal importa primeiro saber se os telefonemas que ajudaram a incriminar A que corrompeu B ou C que violou D poderiam ou não ter sido gravados pela polícia. Só então a justiça se debruça sobre o crime em si o que, no mínimo, deturpa as razões e o espírito por que um dia os homens decidiram criar as leis.
Estranho estado de direito, este. E não me interpretem mal, já sou crescidinho o suficiente para perceber que este não é um mundo justo e nada disto é novidade. Mas desculpem lá a minha falta de entusiasmo perante o estado geral a que este país chegou, justiça incluída.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Indomável





Em nome do pai

Desde que se estrearam com «Sangue por Sangue» [1984] que, goste-se ou deteste-se, ninguém fica indiferente ao cinema de Joel e Ethan Coen. Ao longo de quase trinta anos, os dois irmãos construíram uma carreira na indústria cinematográfica onde está bem patente um estilo muito próprio normalmente associado a um sentido de humor que chega a ser desconcertante. Em «Indomável», remake de «Velha Raposa» [1969] filme que deu o Oscar de Melhor Actor a John Wayne e realizado por Henry Hathaway, o humor é um pouco mais subtil que o habitual mas os Coen continuam a fazer o mais literário cinema dos nossos dias. De facto, a qualidade do texto assente em diálogos vivos e inteligentes prova que mais do que nos deixar durante dias e dias a pensar nos seus filmes, estes servem sobretudo para que o espectador desfrute deles numa sala de cinema. E esse é o grande trunfo de «Indomável», numa realização que demonstra igualmente a grande valia técnica dos dois cineastas.

A partir do momento em que a jovem Mattie Ross [Hailee Steinfeld] resolve vingar a morte do pai às mãos de um seu empregado, percebemos que a narrativa de «True Grit», no seu título original, se vai debruçar muito sobre a fronteira entre o bem e o mal e a perda de inocência de uma adolescente que passará a partir dali a lidar permanentemente com a morte. O Marshal Rooster Cogburn [Jeff Bridges] é o homem contratado por Mattie para dar caça ao assassino. E quando este acaba por fazer um acordo com o Ranger LaBoeuf [Matt Damon] à revelia de Mattie, os três partem para as montanhas onde julgam estar escondido o infame Tom Chaney [Josh Brolin]. Nesse momento, o espectador entra definitivamente na melancolia poética dos Western, dos homens de corpos aquecidos pelo whisky, de pistola no coldre e tiro fácil e da luta pela sobrevivência em terras inóspitas povoadas por gente áspera.

E se a pequena Hailee Steinfeld se revela uma actriz de corpo inteiro completamente inserida no corpo e alma da sua personagem, Jeff Bridges assume de vez a sua importância no panorama cinematográfico norte-americano arrancando uma notável interpretação de um velho e decadente Marshall que recupera a dignidade no cumprimento da sua obrigação contratual e moral para com Mattie. Ela que se revelara desde sempre uma negociadora de verbo fácil, convincente e implacável. Entretanto, o espectador mergulha de cabeça numa história que acaba por se declarar triste e amarga ainda para mais dominada pelo desencanto com que termina. De destacar o esplendor da fotografia do filme, assim como a confirmação, através do manejo da câmara e do domínio das técnicas de som, do homem como ser minúsculo perante a terra que o rodeia.

 Em suma, este «Indomável» dos irmãos Coen é a tradução perfeita para cinema da grande literatura e aquece-nos a alma muito pela nostalgia que desperta e pelo executar assumido  de um certo revivalismo do clássico americano por excelência, o western.

«True Grit», de Joel e Ethan Coen, com Jeff Bridges, Hailee Steinfeld, Matt Damon e Josh Brolin

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Das minhas memórias

[Gerda, 1914, Ernst Ludwig Kirchner]






Herr Klaus


Durante a minha pré-adolescência vivi alguns anos longe de Portugal, embora não muito longe, na Alemanha pré queda do muro de Berlim, numa cidadezinha de serviços e perto de duzentos mil habitantes nas margens do Ruhr e a poucos quilómetros da grande Dusseldorf. Eu e a minha família habitávamos um apartamento, alugado, não muito longe da Rathaus (Câmara Municipal), da escola que eu frequentava e do centro da cidade. No prédio vivia também o proprietário, o grande de quase dois metros de altura, cento e cinquenta quilos de peso e já sexagenário Herr Klaus. Fui poucas vezes a sua casa. Mas das vezes que fui recordo a confusão de livros escritos em várias línguas espalhados no soalho e por todos os móveis existentes na sala e as latas de cerveja vazias e de comida em conserva nas embalagens meio cheias abandonadas numa cozinha imunda e malcheirosa. Para além de homem só, nunca percebi se viúvo, divorciado ou solteirão, Herr Klaus não era de muitas palavras. Recebia das mãos da minha mãe o cheque com o pagamento da renda e preenchia logo ali o recibo que comprovava o pagamento.
 
Por motivo da minha ingenuidade de criança a rondar os doze ou treze  anos, nunca percebera o corrupio de lindas e jovens mulheres ao ritmo de três, quatro por semana que lhe entravam pela casa dentro. Algumas vezes, quando as via entrar, deixava-me ficar sentado nas escadas de madeira (o edifício cinzentão de construção do pós guerra não tinha elevador) até que, na maioria das ocasiões para aí uma simples meia-hora depois, as via sair com uma expressão no rosto que estava longe de compreender mas que sabia não ser propriamente de felicidade. Mas que também não era de infelicidade. Circunstâncias houve em que me via obrigado a largar o meu posto de vigia, conduzido pela mão da minha mãe firme a agarrar-me a orelha até me colocar de castigo no quarto. Numa das tardes em que isso não aconteceu, recordo-me de uma das senhoras sair muito zangada perseguida por Herr Klaus e de, junto à soleira da porta do apartamento, lhe aplicar um valente pontapé nos testículos seguido de um sonoro schwein. Isto enquanto o senhorio do prédio se contorcia com dores. Já a mulher, linda como as demais, passou por mim e acariciando-me o queixo deu-me um beijo no rosto murmurando-me algo indizível que me deixou de faces acaloradas e mais vermelhas que um tomate maduro.
 
Julgo que foi a minha primeira e única paixão por uma mulher mais velha que eu. E a partir dali, juro-vos, a minha quase inexistente relação com Herr Klaus esfriou até ao ponto de deixarmos até de nos saudar sempre que nos cruzávamos nas escadas do prédio.