sexta-feira, 15 de julho de 2011

Crónica de uma morte anunciada




Por vezes olho para um nome – que pode ser de uma rua, de um filme, de um livro – e não só não entendo a ligação como até acho algo descabida a suposta associação. Por exemplo, cá por Lisboa temos um Palácio das Necessidades, um hospital no Rego e um Cemitério dos Prazeres, entre muitos outros exemplos possíveis. Mas em contraponto há aqueles nomes ou títulos que de tão apropriados, poéticos ou sugestivos nos fazem pensar, que nos dizem muito. E a este propósito lembro-me que no Porto há um cemitério a que admiravelmente baptizaram de Prado do Repouso e que na literatura há inúmeros exemplos a citar como o do livro do escritor açoriano João de Melo, «Gente Feliz com Lágrimas». Mas aquele que mais me ocupa a mente neste momento tem muito a ver com um olhar que suponho não seja apenas meu sobre um sistema social e político – o actual, aquele que temos - que decididamente parece já não servir o propósito para que foi criado, ou seja, ajudar as pessoas, servir-nos de suporte enquanto cidadãos. E de imediato me recordo do livro de Gabriel García Márquez, «Crónica de uma Morte Anunciada».

domingo, 26 de junho de 2011

A culpa


Ela, lindíssima e fascinante, semi-nua, apenas com os lençóis a cobrirem-lhe o corpo, ela ali, semi-nua, falando num ardor intenso, intelectual, empenhado e ele acariciando-lhe o corpo por debaixo dos lençóis, preso nas suas emoções e sentimentos muito mais que nas suas opiniões e pensamentos.

Retratos do artista quando jovem

[Eric Fischl, 1983]





Ainda eu rasgava o fundo dos calções por me empoleirar no ramo das árvores da quinta do meu avô quando tive a minha primeira paixão com final nada feliz. O pai dela era militar de carreira e a família andava sempre de malas às costas. Tinham chegado naquele ano à cidade e no início a minha timidez mais não permitia que falar-lhe dos assuntos que as razões escolares obrigavam. Ainda hoje recordo que quando ela se ria os seus olhos ficavam ainda mais brilhantes que o habitual e todo o seu rosto se abria numa luminosidade que me fascinava e eu ficava a olhá-la embasbacado e a sentir que era capaz de ficar horas a fio a contemplá-la. Apesar disso, fazia-o sempre muito discretamente para que não percebesse o meu interesse.
Como a casa dos meus avós não era muito longe da escola tendo apenas que serpentear através de um atalho de terra batida que ladeava um campo de oliveiras, fazia o caminho de regresso a pé. Até que um dia sucedeu o milagre e ela veio ter comigo. Linda como sempre, parou à minha frente e ignorando o rubor nas minhas faces perguntou-me se eu caminhava sempre sozinho depois de terminarem as aulas. Lembro-me de ter balbuciado um sim atrapalhado e quase inaudível. Mas a partir de então o mundo tornou-se melhor, mais alegre, mais feliz.
Apesar de frequentarmos apenas o sexto ano, ela parecia ter opinião sobre tudo. Tão depressa era discreta e terna como logo a seguir teórica e plena de vivacidade. E eu ali a tentar retorquir, a esbracejar parecendo dizer sim com uma mão e não com a outra. Para minha desgraça o ano escolar terminou, vieram as férias e no ano seguinte ela já não apareceu. Tentei saber o que acontecera e descobri que os pais se tinham separado e ela partira com a mãe para Viseu, terra onde viviam os seus avós maternos. Parece-me agora óbvio que apesar das suas ideias inflamadas sobre o mundo, fora o seu pequeno mundo familiar que desabara. E durante alguns meses, talvez tempo demais para uma criança de doze anos, tive de esperar que aquele amor desistisse de mim porque eu não me sentia capaz de desistir dele.





sábado, 25 de junho de 2011

Absolut Amy Winehouse




A notícia caiu entre os portugueses que nem uma garrafa de vodka a estatelar-se no alcatrão quente de uma estrada alentejana: a cantora Amy Winehouse cancelou a digressão europeia e já não vem ao Festival do Sudoeste. Segundo parece, a britânica gosta de álcool mesmo quando não é bom. E não é justo dizer-se que tenha desistido do concerto em Portugal pelo facto da Zambujeira do Mar ser no cu de Judas. A verdade é que Amy Winehouse tem aprendido muito com a sua própria experiência. Daí que se beber não canta. E, como se sabe, Winehouse bebe.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

A Minha Versão do Amor






Três casamentos e um funeral

Se dúvidas ainda existem por aí de que um bom livro pode ser completamente desconjuntado por uma má adaptação cinematográfica, por favor que esse alguém seja meu convidado e assista a «A Minha Versão do Amor». O filme em má hora estreia Richard J. Lewis na realização de longas-metragens, depois de uma vasta carreira na televisão tendo até assinado alguns episódios de «C.S.I.: Crime Sob Investigação».
Mas comecemos pelos factos: Paul Giamatti não sabe representar mal, é certo, no entanto a sua química com Rosamund Pike, Minnie Driver e Rachelle Lefevre, que foram todas suas mulheres no filme, roça o grau zero. Depois, percorrer através das memórias do produtor de televisão Barney Panofsky [Giamatti] toda uma vida que vem desde os vinte e poucos e segue até à data da sua morte aos sessenta e muitos, requereria uma arte de maquilhagem e recomposição de gerações que não existiu já que as personagens nunca foram credíveis e os cenários mostram-se demasiadamente folclóricos para um filme do género. E, por último, como se o referido não bastasse, quem é que estando bom da cabeça pode imaginar que alguém com as características físicas de Dustin Hoffman poderia ser pai de alguém com as características físicas de Paul Giamatti? Provavelmente quem conhecesse a mãe, admito, mas como não é o meu caso achei deveras ridícula a ligação familiar de pai e filho entre Hoffman e Giamatti.
Inatacável mesmo é o fascinante percurso de vida da personagem principal. Sem dúvida que ter casado com três mulheres lindíssimas, ser um reputado produtor de cinema, ter vivido a juventude em Itália para quem é originário do Canadá, ser durante trinta anos perseguido pela acusação da morte do melhor amigo e, finalmente, ter conhecido a mulher dos seus sonhos precisamente no dia em que se casava com outra mulher são pretextos mais que suficientes para um bom filme. Mas não, infelizmente «Barney’s Version» roça a mais pura chatice e nem o Globo de Ouro dado a Giamatti esconde o facto de estarmos na presença de um filme falhado.
Percebe-se na realização a boa intenção de querer celebrar um percurso de vida rico e pouco comum, sobretudo pela autenticidade com que este se desenvolveu. Mas não e até onde supomos haver alguma mordacidade por parte de Lewis o que existe não passa de mera comédia involuntária. Por tudo isto, deseja-se que Richard J. Lewis tenha a capacidade de perceber onde falhou, baralhe e dê de novo e quanto a Giamatti nada como rever «Sideways» [2004], este sim um grande filme e que, por sinal, é até um filme bem regado. Se é que me faço entender.  



«Barney’s Version», de Richard J. Lewis, com Paul Giamatti, Dustin Hoffman, Rosamund Pike, Minnie Driver, Rachelle Lefevre e Bruce Greenwood

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Pela blogosfera acima


[Communion, 1997 - Eric Fischl]



 Em cada canto da blogosfera parece haver alguém a perguntar desesperadamente que  coisa é essa do amor que tão depressa nos faz sentir os melhores homens e mulheres do mundo como de imediato nos reduz a um monte de cacos. E há também quem se queixe de si mesmo por haver pessoas a quem tratámos bem mas que não nos apreciam e outras a quem voluntariamente ignoramos  a existência e que  nunca deixaram de ser amáveis connosco. Acreditem, o mundo não é um lugar fácil para se viver.


Hoje vou citar-te



Passou já muito tempo, mas foi das coisas mais bonitas que alguma vez me disseram. Involuntariamente ela citou Carlos Drummond de Andrade. «És apenas uma foto no meu telemóvel, mas como brilhas, como dóis.»

terça-feira, 21 de junho de 2011

A filha da fortuna






Olhei para a rua iluminada pelos quentes raios de Sol do primeiro dia de Verão e surpreendeu-me o bairro humilde de Lisboa. A casa onde toquei a campainha do primeiro andar era num edifício de um bloco de apartamentos pouco condizente com a sua fama e condição económica, suponho. Era esperado e não estranhei que não perguntassem quem tocava quando ouvi o zunir da fechadura de abertura automática da porta da rua. Ao deparar com a mulher que escreveu em jornais e vendeu já milhares de livros, quase me esquecia de a cumprimentar. Durante mais de duas horas conversámos muito. Sobre nada mas sobretudo de livros. E de cinema, claro. Ainda me recordo do seu olhar a perscrutar-me do alto do seu metro e sessenta e muitos e da sabedoria de uma vida de mais de setenta anos certamente bem vividos. «Que idade tem?», perguntou-me. Disse-lhe a minha idade que ela repetiu parecendo questionar a veracidade da minha resposta. Joguei à defesa: «depreendo parecer mais velho aos seus olhos!?» «Não, nada disso…», sorriu. «…é que é pela sua idade quando a vida começa realmente». Foi a minha vez de sorrir, aquela mulher tinha de facto muitas histórias da vida dentro de si. Por mim ter-me-ia deixado ficar por lá a conversar sem tempo nem hora. Mas como não levara a escova de dentes e o pijama, voltei. E aqui estou eu a recomeçar este blogue exactamente no sítio onde o tinha deixado ficar em ponto morto.




sábado, 11 de junho de 2011

Por um mundo bem melhor






Confesso que não me apetece escrever muito e ainda menos me apetece escrever uma crítica com cabeça, tronco e membros sobre «Num Mundo Melhor» que, como sobejamente sabem, é o filme dinamarquês que arrancou o Oscar deste ano na gala de Hollywood relegando o feioso «Biutiful» para o merecido ocaso e fazendo da sua realizadora, a também dinamarquesa Susanne Bier, uma espécie de mulher gelatina na altura do discurso de agradecimento tão nervosa estava a senhora.
Mas acontece que mesmo em filmes sofríveis, como é este «Num Mundo Melhor», o cinema europeu tem o condão de fazer filmes para um público adulto [e este “adulto” nada tem a ver com a idade dos que vêem cinema] ao mesmo tempo que aproxima a ficção tão sensivelmente da realidade que pelo menos uma certa sensação de satisfação permanece em nós já depois do seu visionamento. E isto ainda que tenhamos consciência que faltou ali algo. Um porra, um foda-se, sei lá, qualquer merda que aproxime ainda mais o cinema do nosso vai e vem  [disse bem, vai e vem] por cá.
Vejam bem, eu nem sequer sou anti-cinema de sítio algum e muito menos dos americanos já que sou pobre mas não sou mal agradecido e da América vieram muitos dos filmes que me fizeram sonhar.  Mas talvez seja essa a grande diferença dos europeus versus americanos já que se estes últimos nos fazem sonhar, os primeiros rapidamente nos fazem acordar e, se necessário, borram-nos a cara de esterco envergonhados pelo mundo que mesmo que por omissão ajudámos a criar.  E a verdade é que os actores e actrizes europeus têm verrugas na cara, varizes nas pernas e nem todos frequentam o Health Club lá do sítio. Em suma, são pessoas como a maioria de nós e não como aqueles caralhos dos americanos que acordam de manhã já barbeados e bem penteados e não cheiram mal da boca. O diabo que os carregue.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Let the games begin




A modelo fotográfico Iga A. Gosto de a ver trabalhar.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Escrever bem ou a viagem





Eu gostava de saber escrever bem. De pegar num papel e numa caneta, ou no meu computador, e deixar que as letras dancem no papel ou no ecrã dando-se as mãos e fazendo palavras, construindo frases, provocando emoções e deixando falar a razão. Mas não, eu não escrevo bem. E se alguém gostar do que escrevo não é da minha escrita que gosta. Lobo Antunes tem um estilo de escrita, Saramago teve o dele, eu apenas junto letras em palavras, formo frases, descrevo emoções ou partilho razões. Como aquele filme que vi ou a invulgar história do João Ferro, como o teu rosto que há tanto tempo não beijo, como aquela menina que fez um desenho para dar à professora emocionada, como aquela mulher que correu a esconder-se em definitivo no seu mundo e abandonou o ginásio que ambos frequentávamos... Eu gostava de escrever bem mas não escrevo e daí a minha ausência deste blogue. Os filmes têm sido fracos, de ti já nada sei, a menina cresceu, a linda mulher que se exercitava lá no ginásio deixou de o fazer, do João Ferro já falei. Aos outros, a ti, a ela e a eles, a vocês, que me desculpem andar sempre em viagem e vir pouco cá a casa. Talvez se eu soubesse escrever e não apenas descrever emoções e razões tudo pudesse ser diferente.


segunda-feira, 25 de abril de 2011

A Última Noite




De olhos bem fechados

É certo e sabido, um amor aparentemente sólido e que levou anos a construir pode facilmente ser fragilizado pela desconfiança ou mesmo destruído por uma noite em que um membro do casal ceda à tentação. O tema tem sido explorado até à medula pelo cinema e «De Olhos Bem Fechados» [1999], de Stanley Kubrick, é um exemplo maior da importância que as relações amorosas adquiriram desde sempre para o mundo dos filmes. «A Última Noite», filme que estreia Massy Tadjedin na realização, é igualmente a prova da existência de temáticas que jamais se esgotarão por via de visões diferentes que podem acrescentar algo de novo ao cinema. Mas apesar de ser um filme agradável de seguir, «Last Night» nunca consegue deixar o estatuto de pequeno filme agarrado a alguns também pequenos clichés para conseguir sobreviver.
Michael [Sam Worthington] e Joanna Reed [Keira Knightley] são casados há poucos anos. Ele é uma espécie de promotor imobiliário e ela cronista e aspirante a escritora. Numa festa, Joanna conhece Laura [Eva Mendes], uma colega de trabalho de Michael, e rapidamente se apercebe da química existente entre ambos. Confrontado o marido à chegada a casa com as suas suspeitas, este nega o óbvio. Para maior azar, no dia seguinte Laura e Michael têm que viajar em trabalho para fora da cidade o que agudiza ainda mais o clima de dúvidas da bonita Joanna. Mas como nisto das tentações marido e mulher estão em pé de igualdade, no dia seguinte Alex [Guillaume Canet], um antigo amante de Joanna, está na cidade e convida-a para jantar. A partir daqui o filme joga com circunstâncias distintas para que aconteça a tentação e, talvez numa visão um pouco feminista da coisa, nas diferentes atitudes de Joanna e Michael perante a infidelidade iminente. Pelo meio, a realização vai jogando inteligentemente com datas para que o espectador perceba o histórico do casal Reed e apresenta ainda uma espécie de consciência dura mas honesta personalizada por Truman [Griffin Dunne], um amigo de Alex.
No deve e haver final temos um drama intimista muito bem escrito e realizado com rigor científico tal, que, ao invés, não permite riscos desnecessários. É no entanto de saudar o elogio da palavra e a inteligência dos diálogos e de realçar que num filme onde o desejo dos corpos está quase sempre presente jamais se veja o nu dos amantes. Por outro lado, existe sempre a convicção de que uma espécie de sentimento interior muito profundo comanda cada gesto, cada carícia, cada beijo no que me parece ser também uma característica muito feminina da realização da americana nascida em Teerão, que também escreveu o argumento e produziu o filme. Jogam contra si a completa falta de perfil de Sam Worthington [«Exterminador Implacável – A Salvação» e «Avatar»] para este género de filmes, um lado escusadamente elitista do mundo em que as personagens se movimentam e, já que se fala em coisas menores, não era assim tão importante que o amante de Joanna tivesse que ser francês, como é recorrente vir escrito nos livros. Ainda assim, através de uma fascinante atmosfera urbana e nocturna o filme pensa as relações amorosas e deixa o espectador a reflectir. E no único risco assumido acaba por nos dizer através do olhar de Michael para os sapatos de noite de Joanna esquecidos e espalhados pela sala, que as tentações ou mesmo as pequenas infidelidades devem ser tratadas como tal. Ou seja, ignoradas. Porque perante um amor que pode valer uma vida que importância tem uma relação que apenas sobreviveu a uma noite? Ainda que essa tenha sido a última noite.

A Última Noite, de Massy Tadjedin, com Keira Knightley, Sam Worthington, Eva Mendes e Guillaume Canet

sexta-feira, 22 de abril de 2011

O sobrinho de John Lennon





No filme «London Boulevard – Crime e Redenção», Danny, um bandido de 5ª escala dos subúrbios londrinos numa personagem corporizada pelo actor Stephen Graham, está num pub abraçado a uma prostituta e pergunta-lhe se esta se interessa por música e pelos Beatles em particular. Perante a resposta afirmativa da mulher, Danny faz o mais normal nestes ambientes, suponho, e mente-lhe afirmando ser sobrinho de John Lennon. O pormenor fez recordar-me há uns anos atrás na cerimónia de lançamento de um livro quando, apresentado a uma fervorosa adepta de tudo o que é movimento cívico, resolvi brincar no intuito de quebrar o gelo dizendo-me colaborador da AMI o que, de facto, não era nem nunca fui e de imediato esclareci. O que eu estava longe de imaginar na altura é que o próprio criador desta meritória associação anos mais tarde se iria usar do seu feito, sem qualquer pudor, para obter privilégios pessoais e políticos num acto que se não roça a imoralidade certamente destrói todo um prestígio que levou anos a criar.

   

terça-feira, 19 de abril de 2011

Memória







«A memória é o espelho onde observamos os ausentes.»


Joseph Joubert

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Cinema português na Cinemateca




A sensual Beatriz Batarda, em «Peixe Lua», de José Álvaro de Morais.


Sim...

[Imagem FB da Casa das Letras]





...ainda ando algures por aqui. Obrigado por perguntares.





Uma nova oportunidade

[Wayne Thiebauld - Heavy Girl Lying, 1976]




O filme ia a meio e tinham passado já três anos na trama desde que ela o conhecera e sentira aquele estremecer na espinha que indica o alvorecer de um sentimento forte. Até então não tinha tido a coragem suficiente, mas escolhera aquele dia e o momento de aproximação durante um café na tarde da cidade onde ela vivia e ele estava deslocado no trabalho que os unia propiciou a oportunidade há tanto esperada. De olhos brilhantes, lábios sorridentes, faces rosadas e um leve vibrar das pálpebras, disparou-lhe atabalhoadamente a palavra “amo-te”. Ele estancou tudo o que tinha para lhe dizer, fez um ar sério e depois de um compasso de espera que demorou breves segundos mas que a ela pareceram uma eternidade, respondeu-lhe à bomba: “somos colegas, damo-nos bem e gosto de ti mas não posso amar-te; já amo outra mulher”. Numa primeira impressão dir-se-ia que ele foi cruel com ela. Mas não, o resto do filme mostrou-nos que afinal aquele homem apenas deu à mulher que o amava sem ser correspondida a oportunidade de parar para poder recomeçar e ser feliz.


domingo, 27 de março de 2011

Anatomia de um filme




Ludivine Sagnier, aqui entre os lençóis foi um reluzente raio de sol sobre «Swimming Pool».

sexta-feira, 25 de março de 2011

A aventura dos livros

[Edward Hopper, 1963]





Chegava de mansinho, com um sorriso nos lábios que rapidamente dissimulava em tom severo. 'Menino, são horas de dormir; vamos, apaga a luz e fecha os olhos.' E eu, obedientemente, arrumava o livro que estava a ler na clandestinidade do meu quarto, desligava a luz fraca da lanterna e fechava os olhos. 'Não feches a porta, avó.' E ela não fechava. Voltava mais tarde para verificar se estava tudo bem, noite alongada até ao novo dia do ano a fazer-se anunciar no calendário ao bater das doze badaladas. Depois, andava suavemente corredor fora até se deitar na cama onde o meu avô há muito ressonava cansado do dia duro na quinta.

As noites de quarta-feira vivia-as eu em forte ansiedade. É que, às quintas-feiras, a Biblioteca Itinerante da Gulbenkian visitava a minha cidade lá bem no alto do sopapo de terra dominado pelo velho castelo resgatado aos mouros pelas tropas de D. Afonso Henriques. Assim que as aulas terminavam, corria esbaforido com receio de perder a hora. E invariavelmente escolhia os permitidos seis dos muitos livros criteriosamente arrumados em prateleiras numa carrinha cinzenta conduzida pelo afável Sr. Domingos. 'Despacha-te lá rapaz, que está na hora de ir; anda, anda, não és só tu a gostar de ler!' Num tumulto interior, sem soltar um pio, apressava-me a fazer o registo dos livros e corria de imediato para casa dos meus avós. Subia as escadas que davam para o sótão, abria uma janela envidraçada no lado do telhado a dar para uma enorme figueira, sentava-me numa velha poltrona que tinha pertencido ao pai do meu avô e ali ficava a devorar páginas e páginas de encantar até que a tarde arrefecia e as estrelas surgiam no céu já a escurecer.

Quando descia para jantar, caminhava vagarosamente por entre cheiros e cores de lugares longínquos e fascinantes. Deambulava por paisagens que me eram familiares mas onde jamais tinha posto os pés e errava perdido nas vidas apaixonantes de gentes de costumes estranhos, gente apaixonada ou a viver dramas irresolúveis, gente imaginada pelos escritores que eu invejava. Até que a voz melodiosa da minha avó terminava abruptamente com a minha vida de exilado noutros mundos. 'Come a sopa antes que arrefeça,' ordenava-me. 'Faz o que a avó diz, Joaquim!', acrescentava o meu avô com um timbre de voz ao qual era impossível não obedecer.

E os anos passaram na voracidade do tempo. Entretanto, cresci. As calças substituíram os calções, cresceram-me pêlos no rosto, conheci o sabor do amor, concluí os estudos, tornei-me homem. Antes, primeiro a minha avó e poucos anos mais tarde o meu avô, morreram. E o quarto das minhas leituras está agora vazio. Mas as recordações dos meus primeiros passos como leitor permanecem ainda bem vivas em mim. De tempos a tempos relembro a aventura que era a vida naquele tempo folheando no sótão das minhas memórias.





O sorriso

[Sienna Miller via E Deus Criou a Mulher]




Esta manhã desci a calçada junto ao hotel para aí uns cem metros até poder tomar um café numa pastelaria que raramente frequento. À entrada ajeitei a gravata olhando-me no vidro espelhado da porta. Vestira um fato azul-escuro, camisa de um azul bem claro e gravata bordeaux. Senti-me pouco confortável na roupa que escolhera e atribuí culpas à indiferença com que fizera a mala na véspera.  Pedi o café à empregada de balcão, que me pareceu nova no estabelecimento, e esta devolveu a minha saudação matinal com um sorriso mecânico. Tive consciência que terá sido para aí o sorriso número trinta e dois de um cardápio pessoal já muito desgastado. Ainda assim agradeci e devolvi-lhe o sorriso.

Era só isto.



quinta-feira, 24 de março de 2011

As regras do jogo



Comecei por acreditar nas causas dos outros. Mais tarde tornei-me um pouco rebelde motivado pela defesa dessas mesmas causas. Causas que foram perdendo força ao ritmo em que ia percebendo o seu lado menos interessante e pouco visível. Por essa altura, já eu era um rebelde sem causa. Depois inventei as minhas próprias causas e bati-me por elas que nem um perdido. Noutras alturas, em momentos de maior rebeldia, sentei-me um pouco e esperei que a turbulência passasse. Mas não há nada como a emoção de ir a jogo. Jogarei até ao meu último cêntimo.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Elizabeth Taylor




1932 - 2011

Casou oito vezes com sete homens, foi um ícone de Hollywood, protagonizou alguns dos grandes filmes da história do cinema, ganhou dois Óscares, personificava a beleza e o talento, defendeu causas, nunca se escondeu do amor, amou e foi amada, era uma mulher livre. Morreu aos 79 anos mas a sua memória permanecerá imortal, que descanse em paz.


domingo, 20 de março de 2011

Os Agentes do Destino





Por amor de uma mulher

Há uma vertente do cinema que visa quase exclusivamente o entretenimento do espectador, tornando os filmes em mera diversão. Infelizmente, os grandes estúdios têm inundado as salas com propostas perfeitamente ridículas que chegam a atentar a inteligência das pessoas. O cinema tornou-se uma indústria que na maioria das vezes faz tábua rasa da sua condição de arte, a 7ª. Ainda assim, por vezes chegam até nós filmes despretensiosos que para além de funcionarem como bom entretenimento conseguem ir muito para além disso. Ao visioná-los, o espectador diverte-se, emociona-se, sonha e pensa. E é isso mesmo aquilo que George Nolfi conseguiu ao adaptar para filme o conto «Adjustment Team», escrito por Philip K. Dick. «Os Agentes do Destino» é um thriller romântico de ficção científica que agrada bastante pese toda a carga de simbolismo religioso um tanto ou quanto desfasado dos nossos dias.
Antes de ir à trama, diga-se que Philip K. Dick escreveu, entre outras obras suas adaptadas ao cinema, esse memorável «Blade Runner» [Ridley Scott, 1982] e «Relatório Minoritário» [Steven Spielberg, 2002]. Quanto à história deste «Os Agentes do Destino», David [Matt Damon] é um jovem político de sucesso pese ter publicamente associada a si a imagem de um homem inconstante. Já Elise [fantástica e linda Emily Blunt] é uma bailarina simpática, de personalidade de uma leveza encantadora e mulher delicada que conhece David precisamente no dia em que este perde as eleições para o Senado. Para quem não acredita no amor à primeira vista, tem em «The Adjustment Bureau», no seu título original, a prova de que o clique imediato é bem possível. Ficamos também com a certeza, caso tivéssemos dúvidas a respeito, que o livre arbítrio não é uma benesse que cai dos céus mas sim um direito a ser exercido pelos homens e mulheres. Isto porque estava escrito que David e Elise não poderiam ficar juntos, mas o par amoroso não está pelos ajustes e vai lutar pelo seu amor.
Apesar da fragilidade do argumento - que ainda assim possui uma atmosfera de intemporalidade - e, provavelmente, de uma linguagem cinematográfica demasiadamente próxima dos códigos televisivos, o filme é aquilo que já se disse – emociona, faz sonhar e diverte – e possui como extras as interpretações de Matt Damon e Emily Blunt, ele bastante profissional num projecto não muito arrojado e ela numa actuação a dar para o celestial; eu, pelo menos, assim achei. Por outro lado, há toda uma equipa de secundários de luxo liderada por Anthony Mackie [«Estado de Guerra»], John Slattery [«Homem de Ferro 2»] e Terence Stamp [«Valquíria»]. E quando assim é, que mais se pode exigir de um filme que pelo seu lado apenas nos solicita simpatia e boa disposição?



[O bónus de «Os Agentes do Destino»: a lindíssima Emily Blunt como Elise]





«The Adjustment Bureau», de George Nolfi, com Matt Damon e Emily Blunt



sábado, 19 de março de 2011

A modelo fotográfico Iga A.

[Foto daqui.]



Gosto muito de a ver trabalhar.


sexta-feira, 18 de março de 2011

O génio do mestre

    
Eyes Wide Shut


      O Dr.Bill [Tom Cruise] segue incapaz de se deter na sua ânsia de transgressão. Acaba num enorme e sumptuoso palacete onde decorre uma cerimónia profana e os sacerdotes se mascaram procurando, talvez, esconder a sua vergonha. Tentam-se sensações limite quando tudo já não basta. Belas mulheres ostentando corpos causadores de desejo profundo  deambulam pelas salas num passo irrepreensivelmente elegante. Vem-nos à memória a "Vénus" de Botticelli. Nas cenas de orgia imaginamos um ritmado bailado clássico. A música divide-nos entre uma ópera clássica ou música de câmara de inspiração céltica. Tudo se assemelha a um grandioso espectáculo erudito e a senha que o Dr.Bill é obrigado a fornecer à segurança remete-nos para isso mesmo. Através de Fidelio, a única ópera composta por Beethoven. 

     Momentos de fulgor do mestre a que nos apetece simplesmente agradecer. Não apenas pelo desfilar de lindíssimas mulheres ou pelo rigor da encenação, mas sobretudo pelo excelente e inolvidável momento de cinema.


terça-feira, 15 de março de 2011

O Emprego do Tempo


[DVD]



Um homem refém de si mesmo 




      Era inevitável que o cinema se debruçasse sobre os contornos trágicos do tristemente célebre, em França, caso Romand. Curiosamente, estrearia primeiramente nas nossas salas uma abordagem cinematográfica do dramático acontecimento posterior a «O Emprego do Tempo». Nesse filme, com o título original de «L’Adversaire»(2002), Nicole Garcia seguiu com bastante fidelidade aquilo que o escritor Emmanuel Carrère descreveu em livro sobre o que realmente aconteceu. Lembre-se que depois de mentir durante quase vinte anos à sua família e amigos sobre um curso que nunca tirou e um emprego que nunca teve, um homem, justamente Jean-Claude Romand, esquivara-se à confissão da dolorosa verdade assassinando toda a sua família. Já neste filme, datado de 1999, o realizador Laurent Cantet interessa-se pelo ocorrido apenas como meio de inspiração para a reflexão. E se bem que a importância do núcleo familiar se mantém intacta no seu filme, Cantet estende essa influência à relação do seu protagonista com o mundo do trabalho. Ou não tivesse sido já essa a principal preocupação presente na sua anterior obra sugestivamente intitulada «Recursos Humanos». Como curiosidade, refira-se que sendo essa a sua primeira longa-metragem, Cantet ganharia com o filme o César do cinema francês destinado a premiar uma primeira obra.
     
     Realce-se desde logo a importância do factor psicológico como elemento catalisador da acção ao longo do filme. Porque quando existe uma consciência, a mentira torna-se um fardo demasiado pesado de suster e a perturbação pode tomar conta de quem reiteradamente vive sob os seus desígnios. Se não, repare-se: quando Vincent (Aurélien Recoing) perde o seu emprego, não tem coragem para revelar o facto à sua família. Instado a explicar-se sobre pequenos pormenores acerca de uma hipotética mudança de emprego, que representava um salto qualitativo na sua carreira profissional, Vincent vai-se atolando cada vez mais no equívoco que criara. Durante meses ele é o executivo que às semanas se ausenta para o seu trabalho numa repartição da ONU, em Genebra. Mas, na verdade, mais não faz que confundir-se com quem efectivamente lá trabalha, conduzir sem rumo definido durante longas horas, passar o tempo em áreas de serviço e parques de estacionamento, desaparecer por dentro de florestas e montanhas. Os esquemas a que se obriga para fazer face às obrigações financeiras de pai de família levam-no ainda a trair e a fazer parte de esquemas de corrupção e marginalidade, adensando-lhe a angústia em que cada vez mais se enterra.
     
      Há, desse modo, uma clara vertente psicológica a nortear o criterioso argumento do filme. E isso sucede desde o primeiro minuto, já que Vincent perde o seu emprego porque tem para com os seus deveres profissionais uma relação desencantada, de parcos estímulos, quase como se o constrangimento de ter de fazer o que o não realiza ou estimula se torne num calvário renovado a cada novo dia. E isso leva-o ao absentismo e à recusa, que por sua vez o conduz ao desemprego. Mas a cobardia de Vincent, que a câmara de Cantet não esconde mas também nunca faz questão de evidenciar – pelo menos de modo acusatório, leva-o a mentir. E é pelo repetido acumular dessa mentira que a sua vida se torna num insustentável fardo. E Vincent acaba refém de si mesmo preso na teia que a sua própria debilidade tece.
       E no filme a tensão adensa-se na conjugação de tempos e espaços que a realização manipula exemplarmente. Os dias passados na estrada conduzindo sem destino, o contínuo adormecer dentro da viatura e o amanhecer esperando apenas que a noite chegue novamente são elementos filmados com um domínio perfeito de métodos e técnicas. Por outro lado, a aposta em Aurélien Recoing, um actor normalmente distante deste universo dos filmes, revelou-se acertada. Porque o perfil do actor, ou do homem por detrás dessa capa, parece confundir-se com cada uma das facetas que a sua personagem vai adoptando ao longo da história na tentativa de se imiscuir discretamente num universo que não é o seu. E se em «L’Adversaire» Nicole Garcia não fugiu nunca da verdade dos factos e, mesmo sem acusar, expôs o lado hediondo dos actos praticados, em «L’Emploi du Temps» Laurent Cantet preferiu reflectir sobre as motivações psicológicas de um homem vítima das suas próprias características de personalidade. E para aqueles que se preocupam ou gostam de se confrontar com histórias da vida em que a alma humana sucumbe de forma trágica às obrigações sociais, este é um filme a não perder. Até porque o homem permanece como o ser mais enigmático e imprevisível à face da terra.


«L’Emploi du Temps» [DVD], de Laurent Cantet, com Aurélien Recoing

segunda-feira, 14 de março de 2011

Bancarrota

[Pedro Passos Coelho e José Sócrates - Foto Expresso online]



Estão simultaneamente longe e perto um do outro. Na força de um sonho, de um projecto político, sabem que não existe espaço para se darem as mãos, para se unirem na sua paixão pelo poder. Entretanto, no meio de todas as exigências dos círculos em que se movem e das cautelas conspirativas próprias do jogo político, guardam o espaço e o tempo necessários para viverem a chama que os une. E o país lá vai permanecendo suspenso pelos maus presságios que a realidade lhe transmite. Até à bancarrota?



A realidade a copiar a ficção?






«[…]No termo deste encontro esgotante, Kichizo deixar-se-á estrangular pela sua companheira que o castra num gesto último de mortificação.»

Excerto da sinopse de «O Império dos Sentidos», de Nagisa Oshima, Japão, 1976, in «Os Filmes Chave do Cinema», de Claude Beylie


Pensar em viver ou viver a pensar?

[Large Interior, 1983 - Lucian Freud]





Por vezes deparo-me com alguns pensamentos vindos de jovens com idades por volta dos vinte anos e menos que me assustam também pela profundidade mas sobretudo pela sua temática. Não que não ache capaz da filosofia mais intensa uma pessoa ainda tão jovem, pelo contrário. Mas sim porque entendo que há determinado tipo de constatações sobre o quotidiano, sobre a vida, que só deveriam merecer a nossa preocupação lá mais para a frente no nosso percurso por cá. E não se trata de pertencer a uma geração rasca, à rasca, ou, característica tão portuguesa, do desenrasca. Trata-se apenas de achar que a vida deveria ser permitida a cada ser humano segundo o estágio em que se encontra da mesma. Até porque há determinados assuntos políticos e até pessoais que vistos um dia mais tarde não chegarão a passar de meras minudências.

Sem palavras...

[Fonte: Público online]

segunda-feira, 7 de março de 2011

Um Funeral à Chuva





SS*

Este fim-de-semana resolvi descobrir igualmente «Um Funeral à Chuva», de Telmo Martins, fenómeno recente no panorama cinematográfico português. A sinopse conta-se facilmente e faz lembrar tão levemente quanto a queda aparatosa de um elefante esse filme mítico que dá pelo nome de «Os Amigos de Alex» [1983], de Lawrence Kasdan. Mas do pormenor não vem mal ao mundo assim como a trivialidade das conversas entre os sete antigos colegas de universidade que se reencontram para o funeral de um deles que morreu prematuramente e daí resolverem fazer um rescaldo das suas vidas e retomar a ligação e amizade entretanto perdidas assim como o ‘dèja vu’ das situações em que incorrem. Não, não viria mal ao mundo se Telmo Martins and friends conseguissem tornar o seu projecto recheado de nobres intenções, reconheça-se, num filme agradável. E já agora, que isto de pedir não custa, com uma narrativa fluida uma vez que a complexidade existencial se afoga rapidamente numas quantas cervejas acompanhadas de um charro aqui e outro acolá.
Mas se há filme em que seria de todo agradável tecer os mais rasgados elogios, seria este «Um Funeral à Chuva». Porque não teve subsídios e, a acreditar nos próprios, nem custos para a produção que conseguiu alavancar-se no apoio de diversas empresas e entidades. Mas também, ‘last but not least’, porque o filme tem as pernas da actriz Sandra Santos. Umas pernas lindas que a câmara de Telmo Martins capta avidamente desde o tornozelo até aos minúsculos calções que a sua personagem usa durante quase todo o filme. Um filme que tem duas horas e dez minutos de duração, diga-se. Por outro lado, há ainda a Covilhã e a Serra da Estrela, a nostalgia da universidade, das praxes académicas e das bebedeiras. Mas, confesso, as pernas da Sandra Santos filmadas por Telmo Martins ficaram-me na retina e são do mais memorável que o cinema português do género nos ofereceu até hoje. E agora que as temos esqueça-se as mamas da Rita Pereira nos Emmys ou as ditas da Cláudia Vieira em «O Contrato» [2009], de Nicolau Breyner. Mas, facto penoso neste caso, um filme não pode ser só pernas e as mulheres são muito mais que pernas e mamas. No cinema como na vida. Nós, os homens, como bem diz o Vitor Norte em «O Contrato», é que ‘somos uns gajos do caralho’.

*Sandra Santos

«Um Funeral à Chuva», de Telmo Martins, com Sandra Santos, outros


Amores maiores que a vida: Modigliani e Jeanne

[Female Nude, 1916]





 Amar-te-ei assim, perdidamente...

Errante, exagerado, apaixonado, Amedeo Modigliani nasceu em 1888 e viveria apenas 35 anos. Italiano de nascimento, natural da cidade de Livorno, a sua pintura levá-lo-ia até Paris onde conheceu Jeanne, uma jovem – de 18 anos – estudante de arte. Jeanne seria o grande amor da vida de Modigliani, mas este, insatisfeito por natureza, capaz apenas da felicidade circunstancial, saltaria de cama em cama e de mulher em mulher deixando Jeanne [e o filho que nasceria do amor de ambos] entregue à sua própria fragilidade e a uma depressão que a consumia. Já perto da morte, o pintor expressionista voltaria para os braços de Jeanne morrendo pouco depois de tuberculose imerso no frio Inverno parisiense. E a jovem amante, que antecipara em desenho o seu próprio fim enquanto o homem da sua vida se esvaía em suores febris, grávida de nove meses acabou por ser recuperada para casa da família de onde, da janela de um 5º andar e de costas para a rua, se precipitou para a morte. Modigliani foi enterrado no cemitério de Père-Lachaise. Jeanne foi-o num outro cemitério perdido algures na cidade das luzes e somente nove anos depois se juntariam na campa de Père-Lachaise.

Crazy Heart




Um homem singular

Tenho ouvido e lido muito boa gente desabafar que escreve bem melhor quando está triste. A confissão não me é estranha e a resposta é-nos dada por «Crazy Heart» [2009], o filme que permitiu a Jeff Bridges arrebatar o Óscar de melhor actor em 2010. De facto, tal como nos sussurram os sons da música country, pedra basilar da cultura popular norte-americana, não tenho dúvidas de que quanto mais amarga é a vida, mais doce é a canção.
Quer na sala grande do cinema ou no leitor de DVD cá de casa, vejo vários filmes por semana. Mas quis o destino que só agora, confrontado com a foto do rosto sofrido de Bridges [depositada num escaparate da secção de DVD’s de uma conhecida loja de livros e filmes] de queixo um pouco acima da viola que toca enquanto supostamente entoa  uma canção, resolvi que era chegado o momento de perceber por que razão Colin Firth lhe vira ser retirado o Óscar pela sua interpretação exímia em «Um Homem Singular». Firth,  também ele devastado por um grande amor perdido algures nas mais inesperadas casualidades da vida. E em boa hora o fiz, porque «Crazy Heart» é cinema sem artifícios, é a ficção a sobrepor-se à realidade, é autenticidade, é sensibilidade e intimismo.
«Crazy Heart» é ainda a história de um homem, de um músico, perdido na incapacidade de olhar para trás. E de ao olhar o homem glorioso que foi, seguir em frente sabendo que há sempre algo de valoroso para desfrutar e dar aos outros pese ter-se perdido algo num percurso de vida por vezes sinuoso. Mas, entre a areia dos quilómetros e quilómetros de deserto que atravessa diariamente para actuar em bares manhosos e submerso pelo torpor do álcool com que vai enganando a sua dor, a vida dá nova oportunidade a Bad Blake [Jeff Bridges]. Essa oportunidade surge através do amor correspondido por Jean [Maggie Gyllenhall], uma mãe solteira muito mais jovem que ele. Como seria de esperar, porque quando a ficção é boa resulta no espelho fiel da realidade, Bad Blake deixa escapar aquele que se percebe ser o grande amor da sua vida e quando faz aquilo que deveria ter feito desde logo é já demasiado tarde para ambos.
Pobres os espíritos de quem decidiu enviar directamente para DVD este filme tocante sobre a fragilidade do indivíduo. Uma debilidade que surge da insatisfação de que é feita a sua própria massa, da incapacidade para em determinado momento perceber qual é o caminho a seguir. E Jeff Bridges foi exemplar na corporização de um homem com estas características especiais, de alguém que caminha sempre em desequilíbrio tanto podendo a qualquer momento subir aos céus, às estrelas, como estatelar-se no solo, descer ao inferno. Dir-se-ia que «Crazy Heart» nasce de uma história já vista, pouco original. Eu diria que nasce de nós, do ser humano imperfeito que somos. E diria também que, em «Crazy Heart», Jeff Bridges é… um homem singular.

Crazy Heart», de Scott Cooper, com Jeff Bridges, Maggie Gyllenhaal, Robert Duvall e Colin Farrell

terça-feira, 1 de março de 2011

A Náusea







Descontente com a vida, solitário e desenraizado, homem fisicamente feio e perdido no que considera o absurdo da existência, desgastado pela dúvida e pela consciência de si, historiador e biógrafo, assim descreve Jean-Paul Sartre a personagem principal do seu livro «A Náusea» (1938). Embora experimente alguma relutância ao confessá-lo, admito ter dias em que me sinto precisamente como Antoine Roquentin, o menino de que aqui se fala.

Memória





Timothy Ryback deu uma entrevista ao jornal Público sobre o seu livro «A Biblioteca Privada de Hitler» e, entre outras coisas, diz que ‘a civilização ocidental está assente na noção de que a leitura, a educação, a literatura, nos dão mais conhecimento e fazem do mundo um sítio melhor. E com Adolf Hitler acontece exactamente o contrário. Este homem usou a literatura, usou a história, usou a filosofia para inspirar algumas das mais horríveis acções já cometidas por seres humanos’. Para concluir declara suspeitar que ‘Hitler não era a única pessoa má com uma biblioteca.’
Pois é, mas eu não suspeito, tenho a certeza. E alguns deles têm até um aspecto tão descontraído e sorridente que metem medo. Tal como é assustadora a frase promocional retirada do Washington Post e que a capa do livro exibe orgulhosamente dizendo que este é ‘Absolutamente cativante… fascinante e perturbador’. É que nada do que diga respeito ao energúmeno que foi Hitler pode assemelhar-se às emoções referidas como cativantes ou fascinantes. E falar deste homem serve apenas como pretexto para que não deixemos que a memória possa alguma vez ser apagada.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

SIC Homem

[A modelo fotográfico Iga A. - Gosto de a ver trabalhar]





Longevidade

Neste Domingo, enquanto aguardava pelo início da transmissão do jogo do Benfica com o Marítimo brinquei um pouco com o comando fazendo zapping de canal em canal. Sem perceber bem porquê, estanquei o passo na SIC Mulher a ouvir um tal de Dr. Oz. Dizia este médico que Oprah Winfrey, a diva da televisão americana, tornou famoso [entretanto fui tentar saber quem era o senhor], que a uma mulher que namore com um homem alguns anos mais novo que ela este não lhe acrescenta anos de vida. Pelo contrário, um homem que namore com uma mulher 17 anos mais nova [precisão científica], terá a sua longevidade acrescida em dez anos. Bom, passe a minha convicção de que a continuar a dar estas notícias a SIC Mulher em breve terá de passar a chamar-se SIC Homem já que a audiência feminina foge e é substituída pela masculina, por que será que ainda assim fiquei com a dúvida se esta era realmente uma boa notícia para os homens!? É que, convenhamos, será preciso suar as estopinhas e ter muito talento natural para arranjar uma namorada 17 anos mais jovem. Desenganemo-nos, homens, nem quando a ciência o determina nos é dado algo ou alguém de mão beijada. 



Noite dentro





Dormi muito, mesmo muito. Estava mais provocador que nunca, temerário como sempre, distribuía charme e classe como poucos, dividi-me na paixão pelas mulheres e no dever do combate ao crime à escala mundial. Por todo o lado as mulheres eram belas e sensuais, os criminosos feios e megalómanos mas eu era detentor da receita certa para as seduzir a elas e combater a eles algures entre um copo de Martini, um olhar apressado ao relógio Omega e uma ruidosa corrida ao volante do meu potente Aston Martin. Soube bem, muito bem, mas o despertador tocou e tive de me levantar para ir trabalhar.



Óscares 2011: O cair do pano




A festa
Baixou o pano sobre a cerimónia no Kodak Theatre e a sensação maior que paira na generalidade dos espectadores e cinéfilos de todo o mundo é a de que a montanha pariu um rato. Honestamente, espero que os chamados blogues cor-de-rosa tenham muito a escrever sobre os vestidos das convidadas porque no restante da festa o marasmo foi quase total. E este quase para não ser mesmo total tem somente a ver com as aparições de uma Scarlett Johansson sensual e sedutora, de Kirk Douglas a tentar fazer humor aos 94 anos, do sempre competente Billy Cristal que já apresentou a cerimónia dos Óscares por oito vezes e das vitórias de Natalie Portman, Colin Firth e Christian Bale nas categorias para que estavam nomeados.


Previsibilidade e conservadorismo
Não é novidade para quem quer que seja o conservadorismo da Academia de Hollywood e, pessoalmente, a prova disso mesmo está na aposta que fiz nos vencedores da noite. De facto, ter acertado sete em dez nomes e os falhados dizerem respeito ao Melhor Filme, Melhor Realizador e Melhor Filme Estrangeiro [aqui, ainda só tinha visto o desgostoso «Biutiful» e foi nesse que apostei] só pode mesmo significar previsibilidade dos senhores que votam para os prémios e não qualquer capacidade especial minha para a adivinhação.


Os premiados
Assim, com os Óscares de Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Actor e Melhor Argumento Original «O Discurso do Rei» foi o vencedor da noite. Também com quatro Óscares, todos eles técnicos, «A Origem» acabou por ver premiada uma pequena parte do excelente trabalho da sua equipa, enquanto «A Rede Social», de David Fincher, para além de Melhor Argumento adaptado levou mais duas estatuetas para casa, ambas também técnicas. De salientar apenas os dois Óscares de interpretação atribuídos a «The Fighter: Último Round», os de Melissa Leo, previsível mas questionável, e de Christian Bale, merecido pese a concorrência valorosa de Geoffrey Rush. No restante, dizer apenas que Tom Hooper [Melhor Realizador por «O Discurso do Rei»] ao olhar para os outros realizadores nomeados e para o trabalho que estes fizeram nos filmes que os levaram na noite de 27 ao Kodak Theatre, ainda hoje se deve estar a perguntar o que faz aquele troféu lá por casa e que, mesmo estando brilhante em «O Discurso do Rei», Colin Firth ainda o tinha estado mais na sua nomeação anterior por «Um Homem Singular». Já Natalie Portman teve o papel da sua vida, apesar da sua juventude, e Christian Bale voltou a provar que é um dos melhores da actual geração de actores norte-americanos encarnando visceralmente uma personagem que nem sequer é de ficção já que ainda vive algures em Lowell, Massachusetts.  


Dois baldes de água fria
E os Óscares de Lata vão para… James Franco e Anne Hathaway, os apresentadores. Sem carisma, sem chama e sem perfil para a função foram uma autêntica nulidade. Não é por acaso que apesar da sua presença na audiência, o fantasma de Hugh Jackman continua a pairar sobre o Kodak Theatre. Nos últimos anos, Wolverine, ou o australiano, foi o melhor entre os seus que a Academia nomeou para apresentar a sua própria festa. Mas que ninguém desanime, para o ano há mais.





[Natalie Portman em «Cisne Negro», o papel de uma vida]