sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Conhecer cinema



Se há uma coisa que sempre me fez espécie desde que me alistei como cinéfilo desta vida e comecei a discutir e escrever sobre filmes, é a de constatar que quando questionados sobre quais são os filmes da sua vida grande parte dos jovens cita obras já quase centenárias, passe o exagero. E desculpem o meu cepticismo mas parece-me que o fazem como se isso os legitimasse como experts na matéria. Estão no seu direito, claro, mas tem sido feito muito e bom cinema nos últimos anos e perceber isso é tão importante como conhecer os filmes que marcam a história da 7ª arte.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Conversa de café


[Homens no café, de José Lutzenberger]




Um grupo de homens já perto ou na idade da reforma conversava animadamente no café quando entrei para tomar o pequeno-almoço. Um deles defendia-se do que parecia ser uma acusação do resto do grupo afiançando que gostava muito de mulheres. «Então por que é que nunca te conhecemos nenhuma?», teimava alguém no grupo. E a resposta não tardou. «Porque nunca apareceu nenhuma de que gostasse.»


quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Geniais, livres e... trágicos


[Jackson Pollock, o próprio]




Demasiado humanos?

Hoje enquanto revia «Pollock» na Fox Movies não pude evitar a mesma sensação que me invadiu à data de estreia do filme. A de que muitos dos artistas que encontramos através da sua arte se perderam eles mesmos na vida. É assim como se ela, a sua vida, a vida deles, não passasse de um conjunto de circunstâncias infelizes que resultaram numa conjugação feliz. Feliz para nós que desfrutamos da ideia que tinham de um mundo que à sua época nunca os soube compreender. E quanto mais inquieta e trágica tenha sido a vida do artista, mais seduzidos ficamos pela sua obra. O que me leva a uma conclusão que de facto é óbvia: a de que todos nós somos em certa medida problemáticos numa característica inerente à condição humana. Eles, os artistas, apenas tiveram a coragem de procurar viver uma liberdade que muitos nem sonham existir.


domingo, 2 de outubro de 2011

A Casa dos Sonhos


 








Dream House, um filme que assusta mas não é de terror

Jim Sheridan não tem a desenvoltura criativa de um Christopher Nolan, é certo, nem Daniel Craig a espessura dramática de, por exemplo, Sean Penn. Mas o facto é que ambos contribuíram para um filme surpreendente, «A Casa dos Sonhos». Por outro lado, este filme não é de terror clássico como aparenta, é, quando muito, sobre o terror que invade a mente humana e a molda sob um escudo protector. E se há filmes cujo ‘trailer’ e promoção jogam contra si, é o caso deste «Dream House». Atrevam-se, não percam este filme. E não, as razões para que não o percam não se prendem apenas com as presenças da belíssima Rachel Weisz ou da sempre sedutora Naomi Watts.



Dream House, de Jim Sheridan, com Daniel Craig, Rachel Weisz e Naomi Watts





sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Sensibilidades

Hoje ela disse-me que eu estava mais sensível. Quase deitado na cadeira a olhar para a luz sobre mim, de boca aberta e relutante, concordei. Afinal ela é a minha dentista.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Meia-noite em Paris, de Woody Allen






Woody Allen, o poeta

Existe em mim uma nostalgia, a de na minha juventude desejar ser escritor, ser um idealista e sonhador. Deliciava-me com a música romântica e atrevida de Cole Porter, a vida de sonho de Ernest Hemingway, perdia-me na complexidade cognitiva da pintura de Salvador Dali, adormecia nos braços de mulheres belíssimas como Marion Cotillard. Paris era para mim a cidade dos mil e um encantos e encontrava nos invernosos dias de chuva a inspiração para os meus devaneios. De facto, sei-o agora, eu sempre quis ser um Owen Wilson. Ou melhor, a sua personagem de um filme de Woody Allen, um Gil Pender de «Meia-noite em Paris», vagueando pela anoitecer da cosmopolita cidade francesa, percorrendo as esquinas do tempo ao encontro de alguns dos maiores ícones da cultura ocidental que sempre me inspiraram. E, no final, dar um passeio à chuva de mão dada com uma mulher, aquela mulher, a tal mulher, a que todos os homens procuram mas apenas alguns têm a felicidade de encontrar.
«Midnight in Paris», no seu título original, marca o regresso em grande estilo do génio de Woody Allen num argumento brilhante, numa fotografia esplêndida recheada de personagens radiosas deste e de outros tempos, personagens da nossa história, vultos de sempre. No seu périplo nocturno, desencontrado de Inez [Rachel McAdams], a sua noiva fútil e tristemente presa à banalidade, Gil [Owen Wilson] irá deparar nos anos vinte com um Hemingway [Corey Stoll] excêntrico, aventureiro e brigão, com uma suicida Zelda Fitzgerald [Alison Pill] perante as aventuras de Scott Fitzgerald [Tom Hiddleston] e ao som de «Let’s  do It», interpretado ao piano por Cole Porter. Encontrar-se-á ainda com a extravagância de Dali [um excelente e cómico Adrien Brody] ou a inconstância de Picasso [Marcial Di Fonzo Bo]. E pela mão de Adriana [Marion Cotillard], viajará até à Belle Époque de Toulouse-Lautrec, Degas e Gauguin. Entretanto, será ouvinte atento de uma guia de museu interpretada por Carla Bruni.
De facto, há que não ter receio de dizê-lo, «Meia-noite em Paris» é apenas um pequeno filme. Mas um pequeno filme que se vai agigantando em nós porquanto cremos nas potencialidades do sonho, na validade de perseguirmos a nossa felicidade sem medo de cortar amarras e quebrar regras. E ao dizer isto quero reafirmar que o mais recente dos quase cinquenta filmes do genial realizador nova-iorquino é afinal um delicioso poema, uma homenagem à vida e àqueles seres humanos grandiosos que a enalteceram e deram novos mundos ao mundo com o seu talento, a sua arte, a sua visão. E tal como eles, Woody Allen tem-no conseguido fazer. Através da sua vocação artística, o cinema, é facto, mas também pela sua vida como o demonstra a fé que teve no amor sem pensar nos obstáculos que teria de ultrapassar. Quanto a Owen Wilson, esta é apenas e só a sua melhor interpretação de sempre no cinema. E sim, Wilson fez por merecer aquela deliciosa companhia final que teve num passeio à chuva pelas ruas de Paris. Paris a cidade das luzes, a urbe eterna e romântica, a capital dos sonhos e do amor cuja essência a câmara de Allen tão bem soube captar.


«Midnight in Paris», de Woody Allen, com Owen Wilson, Rachel McAdams, Marion Cotillard, Adrien Brody, Kathy Bates, outros



terça-feira, 30 de agosto de 2011

Imagens que valem mais que mil palavras


[«Cat People», 1942]




Cowboys e Aliens






O Cowboy, a bela e os ET garimpeiros

Que se erga radiante quem protestou contra o fim do western clássico, ele está de regresso. Estamos em 1873, um homem ergue-se no solo de areia tórrida do deserto do Arizona, os traços secos e bem vincados do indivíduo só rodeado de abutres fazem lembrar vagamente o rosto de James Bond. No braço ostenta uma poderosa pulseira provavelmente demasiado avant-garde para o seu tempo, no olhar firme percebe-se a determinação dos homens que não temem a violência, daqueles que fazem da coragem um estilo de vida e têm da honra uma definição muito peculiar.
Ele é Daniel Craig a quem se junta Harrison Ford ambos numa luta à partida desigual contra um gang de alienígenas garimpeiros, o primeiro em busca da memória perdida e o segundo do filho desaparecido. Entretanto, Jon Favreau [o homem que patenteou «Iron Man»] realiza com desenvoltura e alguma elegância um filme de cowboys, índios e seres de outro planeta respeitando escrupulosamente as regras do western. E como se a prová-lo, no final o herói verá fecharem-se atrás de si as portadas do velho saloon e  partirá solitário desafiando o desconhecido sob um Sol inclemente de tão abrasador. Na garganta ainda arde o Whisky duplo bebido de um só trago e no peito carrega o fogo aceso pelo sorriso celestial de Olivia Wilde.


«Cowboys e Aliens», de Jon Favreau, com Daniel Craig, Olivia Wilde e Harrison Ford


terça-feira, 26 de julho de 2011

Porque hoje é dia dos avós

[Home, Sweet Home (...) - 1916: Childe Hassam]




A aventura dos livros





Chegava de mansinho, com um sorriso nos lábios que rapidamente dissimulava em tom severo. 'Menino, são horas de dormir; vamos, apaga a luz e fecha os olhos.' E eu, obedientemente, arrumava o livro que estava a ler na clandestinidade do meu quarto, desligava a luz fraca da lanterna e fechava os olhos. 'Não feches a porta, avó.' E ela não fechava. Voltava mais tarde para verificar se estava tudo bem, noite alongada até ao novo dia do ano a fazer-se anunciar no calendário ao bater das doze badaladas. Depois, andava suavemente corredor fora até se deitar na cama onde o meu avô há muito ressonava cansado do dia duro na quinta.

As noites de quarta-feira vivia-as eu em forte ansiedade. É que, às quintas-feiras, a Biblioteca Itinerante da Gulbenkian visitava a minha cidade lá bem no alto do sopapo de terra dominado pelo velho castelo resgatado aos mouros pelas tropas de D. Afonso Henriques. Assim que as aulas terminavam, corria esbaforido com receio de perder a hora. E invariavelmente escolhia os permitidos seis dos muitos livros criteriosamente arrumados em prateleiras numa carrinha cinzenta conduzida pelo afável Sr. Domingos. 'Despacha-te lá rapaz, que está na hora de ir; anda, anda, não és só tu a gostar de ler!' Num tumulto interior, sem soltar um pio, apressava-me a fazer o registo dos livros e corria de imediato para casa dos meus avós. Subia as escadas que davam para o sótão, abria uma janela envidraçada no lado do telhado a dar para uma enorme figueira, sentava-me numa velha poltrona que tinha pertencido ao pai do meu avô e ali ficava a devorar páginas e páginas de encantar até que a tarde arrefecia e as estrelas surgiam no céu já a escurecer.

Quando descia para jantar, caminhava vagarosamente por entre cheiros e cores de lugares longínquos e fascinantes. Deambulava por paisagens que me eram familiares mas onde jamais tinha posto os pés e errava perdido nas vidas apaixonantes de gentes de costumes estranhos, gente apaixonada ou a viver dramas irresolúveis, gente imaginada pelos escritores que eu invejava. Até que a voz melodiosa da minha avó terminava abruptamente com a minha vida de exilado noutros mundos. 'Come a sopa antes que arrefeça,' ordenava-me. 'Faz o que a avó diz, Joaquim!', acrescentava o meu avô com um timbre de voz ao qual era impossível não obedecer.

E os anos passaram na voracidade do tempo. Entretanto, cresci. As calças substituíram os calções, cresceram-me pêlos no rosto, conheci o sabor do amor, concluí os estudos, tornei-me homem. Antes, primeiro a minha avó e poucos anos mais tarde o meu avô morreram. E o quarto das minhas leituras está agora vazio. Mas as recordações dos meus primeiros passos como leitor permanecem ainda bem vivas em mim. De tempos a tempos relembro a aventura que era a vida naquele tempo folheando no sótão das minhas memórias.


[Texto recuperado]



 

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Porto da nossa alma

[Estação de S. Bento, 1999, Porto - Armando Aguiar]




Do Porto gosto sobretudo do entardecer invernoso, poético, de deixar que os meus olhos se estendam sobre o casario e relembrar «Porto da Minha Infância», filme que Manoel de Oliveira, seu realizador, sempre considerou um mero documentário. Não sem emoção, é possível sentir no Porto como a vertigem do tempo, do tempo interminável, deixa a sua marca e se reflecte no moldar da cidade e das suas gentes. E constatar que um homem não pode viver amputado do seu passado. O passado, remoto ou recente, reflecte outro tempo, momentos vividos que devem permanecer apenas na intimidade das nossas memórias, mas pode e deve ser recordado com segurança e orgulho.


E «Porto da Minha Infância» reflecte isso mesmo, transformando-se num legado poético e intimista do velho cineasta à sua cidade. Foi realizado com o saber e serenidade próprios de quem detém um conhecimento da vida resultante de já muito ter palmilhado por ela. Como Oliveira, costumo reflectir sobre um Porto romântico em cor e luz mas também uma urbe que reclama para si uma alma própria, uma intimidade genuína e oculta onde um estranho dificilmente consegue entrar. E eu gosto de pensar que o Porto me permitiu essa entrada reservada, que fui premiado pela minha sentida cumplicidade com a velha, granítica e poética cidade do norte de Portugal. Nasci em Abrantes, sinto que pertenço a Lisboa mas repouso o meu espírito no Porto.

Ainda há coincidências?



De facto ainda parece haver coincidências. Felizes, quero dizer. No nefasto dia da morte da cantora Amy Winehouse, escrevi este pequeno texto. Hoje, através do Facebook, deparei-me com o texto com que a Fnac publicita a música da malograda Amy por motivo da sua morte. É sempre razão de grande felicidade saber-nos alvo de inspiração de outrem, ainda para mais essa grande instituição da cultura que é a Fnac. Ou então não, foi uma simples coincidência.


O texto aqui do blogue:
«Oscar Wilde escreveu um dia que ‘a música é a arte que mais perto nos deixa das lágrimas e das recordações’. Era conhecida a forma como Amy Winehouse testava os seus limites no álcool e nas drogas. Agora que morreu, aos 27 anos de idade, a cantora irá fazer verter algumas lágrimas naqueles que a idolatravam e de si, dos seus comportamentos, ficará apenas a recordação. Mas que sonhos iriam na cabeça desta mulher que viveu num clima de grande perturbação, para poder pôr na sua voz tão sublime paixão pelas palavras e pela música? Amy Winehouse morreu. Era previsível. Mas magoa, é triste, é trágico. É a vida como um jogo perdido.»


O texto no ‘site’ da Fnac:
«Era conhecida a forma como Amy Winehouse testava os seus limites e comportamentos excêntricos publicamente. Mas tudo isso era ultrapassado pelo dote recebido de uma voz tão sublime, polvilhada de paixão e de palavras trágicas, reflexo do amor à música. Amy Winehouse partiu, mas vamos relembrar para todo o sempre a sua curta, contudo, brilhante carreira. A vida é como um jogo perdido.»



Stanley Kubrick na Cinemateca





DE OLHOS BEM FECHADOS
[Cinemateca, 4ª feira, dia 27 pelas 21.30 horas]



A prova final da genialidade do mestre, da genialidade de Stanley Kubrick

   
Ao longo da sua carreira de realizador de cinema, Stanley Kubrick revelou ser um profundo conhecedor da natureza humana. E em «Eyes Wide Shut», cujo argumento foi co-autor, mais do que construir uma narrativa a partir da realidade buscada na sua forma mais marginal, ou de pesadelos como alternativa à impossibilidade prática de quebrar as regras, o seu conhecido perfeccionismo que o levava a repetir ‘takes’ até à exaustão de técnicos e actores, está patente sobretudo num conjunto de diálogos intensíssimos onde cada simples palavra é não só fundamental como imprescindível para que a ‘mensagem’ passasse para o lado de cá da tela. Mas este é apenas um dos destaques de um filme maior que deu outro relevo a um género cinematográfico já de si de uma riqueza considerável dada a vastidão de obras-primas nele contido, o drama psicológico.

Toda a trama gira em volta de situações pertencentes ao imaginário das personagens, ou na sua forma tentada, e o que se observa é que aquilo que na realidade nunca chega a acontecer provoca ainda assim a explosão e o abalo emocional que levam a que um casal necessite expulsar os seus fantasmas para poder seguir em frente. Como génio que foi, é importante que se tente perceber de que se rodeou o realizador para esta espécie de aproximação a Freud. Neste âmbito, atente-se como a banda sonora do filme é simplesmente fantástica na forma de acompanhar o desenlace psicológico das diversas cenas, estimulando por vezes a união dos corpos, sendo de alguma sacralidade noutros momentos e servindo-se do som enérgico das teclas de um piano martelando quase sempre as mentes perturbadas. Os ambientes escolhidos são faustosos e de indiscutível bom gosto e, noutra vertente,a construção do perfil psicológico de cada personagem foi levada ao extremo. Desde o anónimo pianista de serões pela madrugada dentro até ao simples recepcionista de hotel, passando pelas prostitutas que povoam a grande mansão onde tem lugar uma das cenas fulcrais do filme. 


Em termos do ‘cast’, para o par nuclear da trama Kubrick escolheu dois actores no auge do seu mediatismo que formavam então um casal na vida real. E Tom Cruise e Nicole Kidman mostraram-se à altura da tarefa que o mestre-de-cerimónias lhes destinou, brindando-o com duas representações memoráveis muito bem secundados pelo também já precocemente falecido Sidney Pollack. Ele que talvez tivesse embarcado aqui numa busca de aprendizagem para aquela que foi a sua mais conhecida faceta, a de realizador. Mas se tudo é extremamente perfeito no filme não nos admiremos por em momento algum, gostemos ou não daquilo a que assistimos, nos seja dada a oportunidade de pensarmos que este ou aquele pormenor poderia ter sido mudado para outra coisa qualquer.

Em suma, «Eyes Wide Shut» é uma obra-prima do cinema, a derradeira de Stanley Kubrick, o mestre, ele que já não pôde assistir à estreia do seu filme.



«Eyes Wide Shut», de Stanley Kubrick, com Tom Cruise e Nicole Kidman

Bola ao poste


[A modelo fotográfico Iga A.; já vos disse que gosto de a ver trabalhar?]





Quando somos adolescentes, ou ainda muito jovens, vamos acumulando vitórias atrás de vitórias já que não damos relevo às pequenas derrotas que se assemelham a simples obstáculos a ultrapassar. Ao chegarmos à idade adulta, sentimos que alguma coisa está a mudar. Traçamos objectivos que nem sempre conseguimos alcançar e percebemos que começa a doer-nos de forma diferente quando sentimos que à nossa volta a reciprocidade deixou de ser um dado assumido. E quando dantes fazíamos perguntas sabendo de antemão as respostas, passamos igualmente a perceber que devemos preparar-nos para ouvir coisas que nos fazem sentir bem, é certo, mas sobretudo para não sermos surpreendidos negativamente.

Sim, é inegável que a nossa personalidade vai ganhando uma firmeza protectora perante as adversidades. Mas também não deixa de ser verdade que cada vez mais a máquina que na nossa ingenuidade e mesmo arrogância juvenil julgávamos perfeita passa a ser estranhamente falível. Leva-se algum tempo a chegar aqui, mas chega-se. Podem acreditar porque eu já cá estive algumas vezes e posso afiançar. Uma merda! A sensação é tão agradável quanto o entusiasmo que se pode perceber neste texto.



sábado, 23 de julho de 2011

Amy Winehouse, a vida como um jogo perdido

[Amy Winehouse caiu atraída pelo abismo]



Oscar Wilde escreveu um dia que ‘a música é a arte que mais perto nos deixa das lágrimas e das recordações’. Era conhecida a forma como Amy Winehouse testava os seus limites no álcool e nas drogas. Agora que morreu, aos 27 anos de idade, a cantora irá fazer verter algumas lágrimas naqueles que a idolatravam e de si, dos seus comportamentos, ficará apenas a recordação. Mas que sonhos iriam na cabeça desta mulher que viveu num clima de grande perturbação, para poder pôr na sua voz tão sublime paixão pelas palavras e pela música? Amy Winehouse morreu. Era previsível. Mas magoa, é triste, é trágico. É a vida como um jogo perdido.


Rumo à Liberdade




À conquista da vida

Num campo de refugiados na Sibéria, 1941, vivem-se os horrores da guerra e o resultado da carnificina operada pelo jugo estalinista. Um grupo de homens liderado pelo polaco Janusz [Jim Sturgess] e pelo americano Smith [Ed Harris] com o russo Valka [Colin Farrell] pelo meio, decide fugir e encetar um penoso caminho rumo à liberdade. O objectivo é chegar a Índia mas para isso terão que enfrentar a fome, o frio e o calor tórrido do deserto. As tempestades de gelo na rigorosa Sibéria, o deserto de Gobi e as cordilheiras dos Himalaias são apenas parte dos obstáculos que terão que ultrapassar.
Diga-se que a credibilidade da história que este filme traz até nós só é possível por esta se ter baseado numa história verídica contida nas memórias do polaco Slavomir Rawicz, um livro que entre nós recebeu o título de «A Longa Caminhada». Realizado por Peter Weir, que volta a filmar a grandiosidade dos espaços abertos enquadrando o homem na sua pequenez perante a natureza implacável, o filme mostra isso mesmo: uma história quase inacreditável de sobrevivência onde a força do espírito e da coragem humanos desafia os seus próprios limites.
A realização de Weir apenas espaçadamente recorre à emoção com o objectivo de não colocar minimamente em causa a factualidade dos acontecimentos e raramente apela às transições como forma de prender o espectador à tela. Mas na dolorosa agonia destes homens que pelo caminho tentam socorrer a bonita e jovem Irena [Saoirse Ronan], há uma história de heróis e um enorme hino à vida. Para eles não há sequer estradas sem fim, apenas florestas perdidas e extensões ora geladas ora áridas. E para parte do grupo o que irá restar é somente uma viagem ao fim das suas vidas, uma passagem lancinante para o outro lado do espelho. Mas nesta unidade destruída de um grupo de heróis, felizmente que alguns sobreviveram possibilitando dar a conhecer ao mundo o seu inigualável feito. E o filme de Weir respeita essa grandeza pungente. E para quem tivesse dúvidas, fica exposto mais um claro exemplo de que Estaline não foi mais que um outro Hitler que de diferente do original apenas tinha a cobarde falsidade da sua propaganda política.

«The Way Back», de Peter Weir, com Jim Sturgess, Colin Farrell, Ed Harris e Saoirse Ronan

Pressão alta

[A modelo fotográfico Iga A.; gosto de a ver trabalhar]




‘Ninguém consegue ajuizar em que momentos das nossas vidas a inocência deu lugar à perversão, o mal substituiu o bem, a superficialidade começou a imperar, a mediocridade se generalizou e a ignorância continuou a ser o maior factor de criação de estupidez um pouco por todo o lado’, disse-lhe eu. Ela olhou-me durante uns momentos, sorriu e perguntou-me apenas. ‘Desculpa lá, estás a citar algum clássico ou somente a armar-te em tolinho? ‘ Pensei um pouco. Claro que não estava a citar nenhum clássico. De tal forma falhei na táctica que não só já não entrei em campo como nem cheguei a fazer o aquecimento.  



sexta-feira, 22 de julho de 2011

A Árvore da Vida





O Reluzente Planetário da Vida



Escrever um texto sobre «A Árvore da Vida», a mais recente obra-prima de Terrence Malick, é deixar que os caracteres formem em palavras, frases e ideias uma definição de nós mesmos. De nós como pessoas inseridas numa sociedade mais vasta que aquela que convive connosco mas sobretudo como seres humanos que pensam, sentem e se projectam para lá daquilo que nos rodeia. «The Tree of Life» vive muito dos seus extraordinários efeitos visuais, tem vulcões em actividade, chuva de lava e apenas chuva, tem nuvens nos céus e um Sol que os domina. Em suma, num processo narrativo inigualável, Terrence Malick mostra-nos a história do Universo que habitamos desde os bosques frondosos por onde correm rios e dinossauros a representarem a cadeia da vida, até às visões celestiais que indiciam caber apenas no domínio da fé, daqueles que acreditam. Mas a natureza, essa, é eternamente viva. E nós, os homens e mulheres, somos parte integrante dessa natureza. E se é certo que a influenciamos não menos certo é que somos irremediavelmente influenciados por ela. Desde o dia em que nascemos até àquele em que morremos.
Malick não é um realizador vulgar. Quase não aparece em público e realizou agora o seu quinto filme em quarenta anos. Todos eles imprescindíveis. E os seus temas mantêm-se coerentes e actuais na confrontação entre o sagrado e o profano, entre a fé e os factos, questionando-se sobre o mundo e a nossa própria existência nesse mundo. As vozes em ‘off’ – em «A Árvore da Vida» há somente uma voz ‘off’ – perguntam. Perguntam, é certo, mas não parecem querer obter uma resposta. Ao invés, pretendem obrigar o espectador a pensar sobre as respostas que afinal até existem no filme. E para isso, Malick filma a natureza como ninguém, imagem e som vagueiam de mãos dadas na tela e a sensibilidade e beleza tocam-nos de um modo que quase diria irreversível se tal fosse possível. E os momentos de lucidez de que o espectador é acometido são a espaços interrompidos por uma estranha  forma de loucura, pela alienação que nos é transmitida pela visão única de um mundo em ebulição.
Mas que ninguém saia da sala caso se sinta intimidado por esta quimera feita de segredos insondáveis de um universo que é de todos mas que a ninguém pertence. Isto porque «A Árvore da Vida» é também uma viagem à América dos anos cinquenta, no pós-guerra. Nas paisagens bucólicas do Texas, a família O’brien divide-se entre um pai disciplinador, uma mãe doce e terna e três pequenas crianças um pouco à deriva num mar de felicidade mas que a espaços é atormentado por ondas de desespero na incompreensão dos mais pequenos confrontados com os actos dos maiores. Entretanto, o filme acompanha até à idade adulta o filho mais velho do casal. Este que é uma espécie de alma perdida num mundo moderno. Acompanha igualmente a tentativa de reconciliação deste na relação conturbada com o pai e a sua busca de um sentido da vida rebuscando nas suas origens e admitindo no final a existência da fé. Brad Pitt é o pai, Sean Penn o filho e Jessica Chastain a mãe. E eu e tu, eles e nós também somos filhos, pais, seres humanos que habitam este mesmo universo numa espécie de trânsito para a morte. Mas, estou plenamente convicto, onde vale bem mais acreditar que há tanto para viver até ao dia final ao invés de crer noutra vida esquecendo esta.



«The Tree of Life», de Terrence Malick, com Brad Pitt, Sean Penn e Jessica Chastain





A morte do artista

[Man's Head, auto-retrato - 1963]




Lucian Freud, 1922 – 2011

Vastas vezes citado aqui no blogue, Lucian Freud começou por ser um dos maiores pintores contemporâneos da arte figurativa até mudar a sua técnica e materiais para incutir novos horizontes à sua pintura. Neto de Sigmund Freud, fundador da Psicanálise, em minha opinião Lucian acabaria por tentar demonstrar com a sua arte como o corpo não é mais do que o reflexo das compulsões do espírito e dos desígnios da mente de cada um. À sua maneira, o pintor nascido na Alemanha, em Berlim, e posteriormente naturalizado britânico para onde emigrou com a família, era um psicólogo que esculpia as tintas para traçar de modo visceral o corpo e a carne e teorizar sobre a alma humana. Morreu na madrugada de 4ª feira aos 88 anos de idade.


Sede de protagonismo




Há tempos ressuscitei da minha [curta] colecção de filmes em DVD um título do já distante ano de 1995, «Disposta a Tudo», de Gus Van Sant. Para os mais dedicados a estas coisas do cinema será redundante lembrar que este filme valeu na altura um Globo de Ouro à então quase desconhecida Nicole Kidman. O filme resume-se, e já não é pouco, a uma comédia negra tão cativante quanto especulativa do poder e do fascínio da televisão sobre o cidadão comum. A nossa bem conhecida Nicole Kidman é Suzanne Maretto, uma mulher perigosamente sedutora obcecada em tornar-se uma vedeta da TV e Gus Van Sant assentou a história numa encruzilhada de perspectivas importadas pela sua realização de cada uma das personagens.



A título de curiosidade, para além de Kidman o filme conta ainda com a presença dos jovens actores Matt Dillon, Joaquin Phoenix e Casey Afleck. E é curioso verificar a ascensão distinta de cada um deles 13 anos depois. Enquanto Nicole Kidman e Joaquin Phoenix seguem de vento em popa numa caminhada fulgurante para a eternidade, Casey Afleck parece ter recebido um novo fôlego com a sua participação em «
The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford» (2007) . Já a Matt Dillon parece faltar sempre um pequeno golpe de asa para se guindar a um patamar superior no firmamento estelar de Hollywood. Quanto ao tema do filme, o fascínio pelo mediatismo da televisão pese o passar dos anos parece manter-se tão actual agora como já o era então.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Móveis de Estilo

[Valeria Solarino]

Citações perigosas

 
 
'Não encontramos justiça no sistema judicial. Este limita-se a aplicar a lei.'


In «Reservation Road – Traídos Pelo Destino»

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Pequenas Mentiras Entre Amigos






Sexo, Mentiras e Vídeo

Eles são um grupo de amigos entre os trinta e os quarenta anos. Uns vivem relacionamentos que já conheceram melhores dias, outros são casados e até têm filhos. São gente realizada profissionalmente e há entre eles médicos, actores e um empresário hoteleiro muito bem sucedido. O filme começa por acompanhar um deles numa noite de diversão, copos e alguma droga. Mas Ludo [Jean Dujardin] abandona a discoteca onde se encontra, pega no seu motociclo e percorre as ruas desertas na madrugada de Paris até ter um acidente que o deixa desfigurado e em coma nas vésperas de ir de férias com os amigos para o sul de França. Sem visitas e sem que pudessem fazer algo pelo amigo, Marie [Marion Cotillard], Vincent [Benoît Magimel], Eric [Gilles Lelouche], Antoine [Laurent Lafitte] & companheiros decidem manter de pé o projecto de férias na casa do mais abastado do grupo, Max [François Cluzet], hoteleiro de profissão e talentoso exibicionista. E é então que entre ‘flirts’ vários, jogos de praia, visionamentos de vídeos de férias de anos passados, lautos almoços e ainda maiores jantaradas que o grupo se vai revelar.
Para quem viu o filme «A Última Noite» e se recorda do rapaz francês de bom trato que é apaixonado pela personagem de Keira Knightley, acaba de descobrir o argumentista e realizador deste «Pequenas Mentiras entre Amigos». Isso mesmo, Guillaume Canet, um dos mais prestigiados actores franceses da nova geração, assina este filme maravilhoso onde o espectador se deve preparar para o melhor e para o pior. Ou seja, para rir muito e chorar ainda mais. Aliás, nem é de estranhar: não é por acaso desta matéria que se faz afinal a vida? E apesar de se reconhecer no filme alguns excessos sentimentais e uns minutos que poderiam ser poupados na montagem, a verdade, meus caros, é que esta é a melhor proposta de cinema actualmente em exibição nas salas para quem gosta de celebrar a vida através da 7ª arte.
E «Les Petits Mouchoirs», no seu título original, é muito mais que um exercício de entretenimento puro já que exerce uma crítica bastante dura a uma certa burguesia que vive embrenhada num jogo de aparências tal que aquilo que importa unicamente é mostrar. Mostrar bens materiais, mostrar bons relacionamentos de amizade e de índole diversa e, ‘last but not least’, aparentar felicidade. O pior é quando à noite as luzes se apagam, o escuro convida à reflexão e o silêncio da noite leva a que se tenha sobre os actos praticados uma lucidez que torna tudo tão verdadeiro quanto atroz. Nesses momentos não há hipocrisia que valha e aqueles que durante o dia se entretêm no mentiroso jogo da felicidade caem então num naufrágio emocional que demonstra não apenas a sua fragilidade como a desorientação de que são vítimas. Apesar disso, o filme de Guillaume Canet, que tem um leve registo autobiográfico, mostra como pode ser tão falsa aquela frase que nos diz que os amigos são para as ocasiões. Pelo contrário, a acreditarmos no filme este prova que na amizade o sentimento que mais predomina é o egoísmo. Claro que é duro dizê-lo e muito mais reconhecê-lo, mas o facto é que as acções deste grupo de amigos a cultivarem a mais pura infantilidade emocional e racional parece estar tão perto de nós que quase nos faz querer afundar no sofá da sala de cinema como se também nos coubesse alguma culpa pelo que sucede na tela.
Para além da estrutura narrativa simples num filme com uma profundidade psicossocial que à partida estamos longe de imaginar, há ainda dois destaques a fazer: a extraordinária banda sonora, tão agradável quanto apropriada, e a excelência de um argumento onde cada personagem faz esquecer inteiramente o actor/actriz que a defende. Com uma excepção, claro: a que se refere aos olhos lindos e sorriso meigo e triste de Marie, directamente saídos da beleza de Marion Cotillard.
Finalizando, há que não esquecer: «Pequenas Mentiras entre Amigos» é o cinema como celebração da vida e um filme a não perder.


«Les Petits Mouchoirs», de Guillaume Canet, com Marion Cotillard, Benoît Magimel, Gilles Lelouche, Laurent Lafitte e François Cluzet


sábado, 16 de julho de 2011

Medo de amar

[A actriz Nastassja Kinski]




Da janela da minha sala vejo o dia lá fora, os ramos das árvores a movimentarem-se violentamente e o calor do Sol que parece indecifrável disfarçado pela ventania que traz em reboliço o pó da estrada, as folhas caídas no chão, um pedaço de lixo aqui e ali, neste passeio e naquele. Apesar do vento, do Sol, há neste dia uma espécie de lentidão voluntária do tempo. Ligo a televisão e desinteressado na programação mudo vertiginosamente de canal. Travo repentinamente num filme falado em francês
Pode ser um filme de Eric Rohmer, de François Oson, de Michael Haneke, não sei bem. Na cena que se desenrola no momento, um homem olha bem nos olhos doridos de uma mulher, doridos como os olhos dele parecem estar, e diz-lhe pausadamente o que ama nelas, aquilo que nas mulheres lhe faz despertar o amor.
Sim, ele gosta das mulheres bonitas, mas não daquela beleza que parece de imediato trazer estampado no rosto o sorriso do Sol. Não, sobre o rosto lindo de uma mulher, e linda é a mulher para quem aquele homem fala, tem de pairar uma sombra a que os olhos do homem se vão habituando, habituando à claridade, a ela, ao seu rosto lindo. Se assim for, ele, aquele homem, e é ele quem o diz, sabe desde logo que vai amar essa mulher. E se sentir que há algo que os seus lábios trémulos insistem em silenciar, que aquilo que pode ser um pequeno trauma a sossega e impede da alegria tola seduzida por uma melancolia tranquila, sedutora, tanto melhor. E então, como que por encantamento os olhos da mulher para quem fala já não se mostram doridos, há neles um vislumbre claro de luminosidade, de felicidade. Mas nos olhos dele surge agora um ligeiro mas estranho sentimento de temor. Talvez porque como muitos outros homens - e mulheres, ele sabe que receia ter aquilo que quer. E é óbvio que ele quer aquela mulher.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Crónica de uma morte anunciada




Por vezes olho para um nome – que pode ser de uma rua, de um filme, de um livro – e não só não entendo a ligação como até acho algo descabida a suposta associação. Por exemplo, cá por Lisboa temos um Palácio das Necessidades, um hospital no Rego e um Cemitério dos Prazeres, entre muitos outros exemplos possíveis. Mas em contraponto há aqueles nomes ou títulos que de tão apropriados, poéticos ou sugestivos nos fazem pensar, que nos dizem muito. E a este propósito lembro-me que no Porto há um cemitério a que admiravelmente baptizaram de Prado do Repouso e que na literatura há inúmeros exemplos a citar como o do livro do escritor açoriano João de Melo, «Gente Feliz com Lágrimas». Mas aquele que mais me ocupa a mente neste momento tem muito a ver com um olhar que suponho não seja apenas meu sobre um sistema social e político – o actual, aquele que temos - que decididamente parece já não servir o propósito para que foi criado, ou seja, ajudar as pessoas, servir-nos de suporte enquanto cidadãos. E de imediato me recordo do livro de Gabriel García Márquez, «Crónica de uma Morte Anunciada».

domingo, 26 de junho de 2011

A culpa


Ela, lindíssima e fascinante, semi-nua, apenas com os lençóis a cobrirem-lhe o corpo, ela ali, semi-nua, falando num ardor intenso, intelectual, empenhado e ele acariciando-lhe o corpo por debaixo dos lençóis, preso nas suas emoções e sentimentos muito mais que nas suas opiniões e pensamentos.

Retratos do artista quando jovem

[Eric Fischl, 1983]





Ainda eu rasgava o fundo dos calções por me empoleirar no ramo das árvores da quinta do meu avô quando tive a minha primeira paixão com final nada feliz. O pai dela era militar de carreira e a família andava sempre de malas às costas. Tinham chegado naquele ano à cidade e no início a minha timidez mais não permitia que falar-lhe dos assuntos que as razões escolares obrigavam. Ainda hoje recordo que quando ela se ria os seus olhos ficavam ainda mais brilhantes que o habitual e todo o seu rosto se abria numa luminosidade que me fascinava e eu ficava a olhá-la embasbacado e a sentir que era capaz de ficar horas a fio a contemplá-la. Apesar disso, fazia-o sempre muito discretamente para que não percebesse o meu interesse.
Como a casa dos meus avós não era muito longe da escola tendo apenas que serpentear através de um atalho de terra batida que ladeava um campo de oliveiras, fazia o caminho de regresso a pé. Até que um dia sucedeu o milagre e ela veio ter comigo. Linda como sempre, parou à minha frente e ignorando o rubor nas minhas faces perguntou-me se eu caminhava sempre sozinho depois de terminarem as aulas. Lembro-me de ter balbuciado um sim atrapalhado e quase inaudível. Mas a partir de então o mundo tornou-se melhor, mais alegre, mais feliz.
Apesar de frequentarmos apenas o sexto ano, ela parecia ter opinião sobre tudo. Tão depressa era discreta e terna como logo a seguir teórica e plena de vivacidade. E eu ali a tentar retorquir, a esbracejar parecendo dizer sim com uma mão e não com a outra. Para minha desgraça o ano escolar terminou, vieram as férias e no ano seguinte ela já não apareceu. Tentei saber o que acontecera e descobri que os pais se tinham separado e ela partira com a mãe para Viseu, terra onde viviam os seus avós maternos. Parece-me agora óbvio que apesar das suas ideias inflamadas sobre o mundo, fora o seu pequeno mundo familiar que desabara. E durante alguns meses, talvez tempo demais para uma criança de doze anos, tive de esperar que aquele amor desistisse de mim porque eu não me sentia capaz de desistir dele.





sábado, 25 de junho de 2011

Absolut Amy Winehouse




A notícia caiu entre os portugueses que nem uma garrafa de vodka a estatelar-se no alcatrão quente de uma estrada alentejana: a cantora Amy Winehouse cancelou a digressão europeia e já não vem ao Festival do Sudoeste. Segundo parece, a britânica gosta de álcool mesmo quando não é bom. E não é justo dizer-se que tenha desistido do concerto em Portugal pelo facto da Zambujeira do Mar ser no cu de Judas. A verdade é que Amy Winehouse tem aprendido muito com a sua própria experiência. Daí que se beber não canta. E, como se sabe, Winehouse bebe.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

A Minha Versão do Amor






Três casamentos e um funeral

Se dúvidas ainda existem por aí de que um bom livro pode ser completamente desconjuntado por uma má adaptação cinematográfica, por favor que esse alguém seja meu convidado e assista a «A Minha Versão do Amor». O filme em má hora estreia Richard J. Lewis na realização de longas-metragens, depois de uma vasta carreira na televisão tendo até assinado alguns episódios de «C.S.I.: Crime Sob Investigação».
Mas comecemos pelos factos: Paul Giamatti não sabe representar mal, é certo, no entanto a sua química com Rosamund Pike, Minnie Driver e Rachelle Lefevre, que foram todas suas mulheres no filme, roça o grau zero. Depois, percorrer através das memórias do produtor de televisão Barney Panofsky [Giamatti] toda uma vida que vem desde os vinte e poucos e segue até à data da sua morte aos sessenta e muitos, requereria uma arte de maquilhagem e recomposição de gerações que não existiu já que as personagens nunca foram credíveis e os cenários mostram-se demasiadamente folclóricos para um filme do género. E, por último, como se o referido não bastasse, quem é que estando bom da cabeça pode imaginar que alguém com as características físicas de Dustin Hoffman poderia ser pai de alguém com as características físicas de Paul Giamatti? Provavelmente quem conhecesse a mãe, admito, mas como não é o meu caso achei deveras ridícula a ligação familiar de pai e filho entre Hoffman e Giamatti.
Inatacável mesmo é o fascinante percurso de vida da personagem principal. Sem dúvida que ter casado com três mulheres lindíssimas, ser um reputado produtor de cinema, ter vivido a juventude em Itália para quem é originário do Canadá, ser durante trinta anos perseguido pela acusação da morte do melhor amigo e, finalmente, ter conhecido a mulher dos seus sonhos precisamente no dia em que se casava com outra mulher são pretextos mais que suficientes para um bom filme. Mas não, infelizmente «Barney’s Version» roça a mais pura chatice e nem o Globo de Ouro dado a Giamatti esconde o facto de estarmos na presença de um filme falhado.
Percebe-se na realização a boa intenção de querer celebrar um percurso de vida rico e pouco comum, sobretudo pela autenticidade com que este se desenvolveu. Mas não e até onde supomos haver alguma mordacidade por parte de Lewis o que existe não passa de mera comédia involuntária. Por tudo isto, deseja-se que Richard J. Lewis tenha a capacidade de perceber onde falhou, baralhe e dê de novo e quanto a Giamatti nada como rever «Sideways» [2004], este sim um grande filme e que, por sinal, é até um filme bem regado. Se é que me faço entender.  



«Barney’s Version», de Richard J. Lewis, com Paul Giamatti, Dustin Hoffman, Rosamund Pike, Minnie Driver, Rachelle Lefevre e Bruce Greenwood

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Pela blogosfera acima


[Communion, 1997 - Eric Fischl]



 Em cada canto da blogosfera parece haver alguém a perguntar desesperadamente que  coisa é essa do amor que tão depressa nos faz sentir os melhores homens e mulheres do mundo como de imediato nos reduz a um monte de cacos. E há também quem se queixe de si mesmo por haver pessoas a quem tratámos bem mas que não nos apreciam e outras a quem voluntariamente ignoramos  a existência e que  nunca deixaram de ser amáveis connosco. Acreditem, o mundo não é um lugar fácil para se viver.


Hoje vou citar-te



Passou já muito tempo, mas foi das coisas mais bonitas que alguma vez me disseram. Involuntariamente ela citou Carlos Drummond de Andrade. «És apenas uma foto no meu telemóvel, mas como brilhas, como dóis.»

terça-feira, 21 de junho de 2011

A filha da fortuna






Olhei para a rua iluminada pelos quentes raios de Sol do primeiro dia de Verão e surpreendeu-me o bairro humilde de Lisboa. A casa onde toquei a campainha do primeiro andar era num edifício de um bloco de apartamentos pouco condizente com a sua fama e condição económica, suponho. Era esperado e não estranhei que não perguntassem quem tocava quando ouvi o zunir da fechadura de abertura automática da porta da rua. Ao deparar com a mulher que escreveu em jornais e vendeu já milhares de livros, quase me esquecia de a cumprimentar. Durante mais de duas horas conversámos muito. Sobre nada mas sobretudo de livros. E de cinema, claro. Ainda me recordo do seu olhar a perscrutar-me do alto do seu metro e sessenta e muitos e da sabedoria de uma vida de mais de setenta anos certamente bem vividos. «Que idade tem?», perguntou-me. Disse-lhe a minha idade que ela repetiu parecendo questionar a veracidade da minha resposta. Joguei à defesa: «depreendo parecer mais velho aos seus olhos!?» «Não, nada disso…», sorriu. «…é que é pela sua idade quando a vida começa realmente». Foi a minha vez de sorrir, aquela mulher tinha de facto muitas histórias da vida dentro de si. Por mim ter-me-ia deixado ficar por lá a conversar sem tempo nem hora. Mas como não levara a escova de dentes e o pijama, voltei. E aqui estou eu a recomeçar este blogue exactamente no sítio onde o tinha deixado ficar em ponto morto.




sábado, 11 de junho de 2011

Por um mundo bem melhor






Confesso que não me apetece escrever muito e ainda menos me apetece escrever uma crítica com cabeça, tronco e membros sobre «Num Mundo Melhor» que, como sobejamente sabem, é o filme dinamarquês que arrancou o Oscar deste ano na gala de Hollywood relegando o feioso «Biutiful» para o merecido ocaso e fazendo da sua realizadora, a também dinamarquesa Susanne Bier, uma espécie de mulher gelatina na altura do discurso de agradecimento tão nervosa estava a senhora.
Mas acontece que mesmo em filmes sofríveis, como é este «Num Mundo Melhor», o cinema europeu tem o condão de fazer filmes para um público adulto [e este “adulto” nada tem a ver com a idade dos que vêem cinema] ao mesmo tempo que aproxima a ficção tão sensivelmente da realidade que pelo menos uma certa sensação de satisfação permanece em nós já depois do seu visionamento. E isto ainda que tenhamos consciência que faltou ali algo. Um porra, um foda-se, sei lá, qualquer merda que aproxime ainda mais o cinema do nosso vai e vem  [disse bem, vai e vem] por cá.
Vejam bem, eu nem sequer sou anti-cinema de sítio algum e muito menos dos americanos já que sou pobre mas não sou mal agradecido e da América vieram muitos dos filmes que me fizeram sonhar.  Mas talvez seja essa a grande diferença dos europeus versus americanos já que se estes últimos nos fazem sonhar, os primeiros rapidamente nos fazem acordar e, se necessário, borram-nos a cara de esterco envergonhados pelo mundo que mesmo que por omissão ajudámos a criar.  E a verdade é que os actores e actrizes europeus têm verrugas na cara, varizes nas pernas e nem todos frequentam o Health Club lá do sítio. Em suma, são pessoas como a maioria de nós e não como aqueles caralhos dos americanos que acordam de manhã já barbeados e bem penteados e não cheiram mal da boca. O diabo que os carregue.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Let the games begin




A modelo fotográfico Iga A. Gosto de a ver trabalhar.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Escrever bem ou a viagem





Eu gostava de saber escrever bem. De pegar num papel e numa caneta, ou no meu computador, e deixar que as letras dancem no papel ou no ecrã dando-se as mãos e fazendo palavras, construindo frases, provocando emoções e deixando falar a razão. Mas não, eu não escrevo bem. E se alguém gostar do que escrevo não é da minha escrita que gosta. Lobo Antunes tem um estilo de escrita, Saramago teve o dele, eu apenas junto letras em palavras, formo frases, descrevo emoções ou partilho razões. Como aquele filme que vi ou a invulgar história do João Ferro, como o teu rosto que há tanto tempo não beijo, como aquela menina que fez um desenho para dar à professora emocionada, como aquela mulher que correu a esconder-se em definitivo no seu mundo e abandonou o ginásio que ambos frequentávamos... Eu gostava de escrever bem mas não escrevo e daí a minha ausência deste blogue. Os filmes têm sido fracos, de ti já nada sei, a menina cresceu, a linda mulher que se exercitava lá no ginásio deixou de o fazer, do João Ferro já falei. Aos outros, a ti, a ela e a eles, a vocês, que me desculpem andar sempre em viagem e vir pouco cá a casa. Talvez se eu soubesse escrever e não apenas descrever emoções e razões tudo pudesse ser diferente.


segunda-feira, 25 de abril de 2011

A Última Noite




De olhos bem fechados

É certo e sabido, um amor aparentemente sólido e que levou anos a construir pode facilmente ser fragilizado pela desconfiança ou mesmo destruído por uma noite em que um membro do casal ceda à tentação. O tema tem sido explorado até à medula pelo cinema e «De Olhos Bem Fechados» [1999], de Stanley Kubrick, é um exemplo maior da importância que as relações amorosas adquiriram desde sempre para o mundo dos filmes. «A Última Noite», filme que estreia Massy Tadjedin na realização, é igualmente a prova da existência de temáticas que jamais se esgotarão por via de visões diferentes que podem acrescentar algo de novo ao cinema. Mas apesar de ser um filme agradável de seguir, «Last Night» nunca consegue deixar o estatuto de pequeno filme agarrado a alguns também pequenos clichés para conseguir sobreviver.
Michael [Sam Worthington] e Joanna Reed [Keira Knightley] são casados há poucos anos. Ele é uma espécie de promotor imobiliário e ela cronista e aspirante a escritora. Numa festa, Joanna conhece Laura [Eva Mendes], uma colega de trabalho de Michael, e rapidamente se apercebe da química existente entre ambos. Confrontado o marido à chegada a casa com as suas suspeitas, este nega o óbvio. Para maior azar, no dia seguinte Laura e Michael têm que viajar em trabalho para fora da cidade o que agudiza ainda mais o clima de dúvidas da bonita Joanna. Mas como nisto das tentações marido e mulher estão em pé de igualdade, no dia seguinte Alex [Guillaume Canet], um antigo amante de Joanna, está na cidade e convida-a para jantar. A partir daqui o filme joga com circunstâncias distintas para que aconteça a tentação e, talvez numa visão um pouco feminista da coisa, nas diferentes atitudes de Joanna e Michael perante a infidelidade iminente. Pelo meio, a realização vai jogando inteligentemente com datas para que o espectador perceba o histórico do casal Reed e apresenta ainda uma espécie de consciência dura mas honesta personalizada por Truman [Griffin Dunne], um amigo de Alex.
No deve e haver final temos um drama intimista muito bem escrito e realizado com rigor científico tal, que, ao invés, não permite riscos desnecessários. É no entanto de saudar o elogio da palavra e a inteligência dos diálogos e de realçar que num filme onde o desejo dos corpos está quase sempre presente jamais se veja o nu dos amantes. Por outro lado, existe sempre a convicção de que uma espécie de sentimento interior muito profundo comanda cada gesto, cada carícia, cada beijo no que me parece ser também uma característica muito feminina da realização da americana nascida em Teerão, que também escreveu o argumento e produziu o filme. Jogam contra si a completa falta de perfil de Sam Worthington [«Exterminador Implacável – A Salvação» e «Avatar»] para este género de filmes, um lado escusadamente elitista do mundo em que as personagens se movimentam e, já que se fala em coisas menores, não era assim tão importante que o amante de Joanna tivesse que ser francês, como é recorrente vir escrito nos livros. Ainda assim, através de uma fascinante atmosfera urbana e nocturna o filme pensa as relações amorosas e deixa o espectador a reflectir. E no único risco assumido acaba por nos dizer através do olhar de Michael para os sapatos de noite de Joanna esquecidos e espalhados pela sala, que as tentações ou mesmo as pequenas infidelidades devem ser tratadas como tal. Ou seja, ignoradas. Porque perante um amor que pode valer uma vida que importância tem uma relação que apenas sobreviveu a uma noite? Ainda que essa tenha sido a última noite.

A Última Noite, de Massy Tadjedin, com Keira Knightley, Sam Worthington, Eva Mendes e Guillaume Canet