domingo, 13 de novembro de 2011

Marisa Monte


[Marisa Monte]






Numa das suas muitas canções de amor, a brasileira Marisa Monte murmura a certa altura que ‘seria bom, quatro paredes, eu, você e Deus.’ E eu a isto só tenho a dizer duas coisas. Primeira, perguntar por que carga de água clama a Marisa Monte por Deus numa situação como a que sugere, e, segunda, lembrar a mim mesmo que a Marisa Monte me foi um dia apresentada [a sua música, para que conste] por uma das mulheres mais fantásticas que tive a felicidade de conhecer. Para mim é mais que isso, para vocês este texto  fica apenas como um mero registo biográfico.


sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Reflexos

[a actriz Scarlett Johansson]




Pediram cafés e sentaram-se os três. Eles dois e ela, todos entre os trinta e os trinta e cinco anos. Aos impropérios que os dois homens trocavam, ela foi respondendo em silêncio. Quando pegou na chávena e a encostou nos lábios vermelhos, foi delicada sem parecer afectada. Parece-se com a Scarlett Johansson mas costuma atestar o Peugeout 307 azul marinho na Área de Serviço da A5 em Oeiras.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Pesadelo



Conheço outro tipo que tem um pesadelo recorrente, o de que se encontra no corredor da morte à espera de ser executada a pena a que foi condenado. De repente toca uma sineta e ele julga chegada a hora. Mas não, é apenas a campainha do despertador que o salva de ser morto. Há dias encontrei-o numa azáfama tremenda na baixa. Andava esbaforido de loja em loja porque o seu despertador avariara e precisava desesperadamente de adquirir outro.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Má sina


Conheço um tipo que tinha um sonho. E quando esse sonho se concretizou passou o tempo a destruí-lo. O pior mesmo é que foi preciso chegar a um elevado estado de desorientação para atingir a lucidez.

domingo, 6 de novembro de 2011

Um meio sorriso

[O resplandecente meio sorriso da modelo fotográfico Iga A. ]





Há perguntas que desarmam as pessoas com uma acidez tal que as evitamos fazer em sociedade a não ser por mera brincadeira. Por exemplo, experimentem ir tomar café com alguém e no meio do nada perguntar a essa pessoa se é feliz. Arriscaria dizer que a outra pessoa não iria achar muita piada à questão ou tentaria fintá-la da melhor maneira. E por que é que isto acontece? Porque a nossa sociedade nos impõe a felicidade não somente como prova de sucesso mas como se essa fosse a palavra passe para fazermos parte dela. Assim, quase que somos obrigados a demonstrar felicidade mesmo que a não sintamos neste ou naquele momento particulares.
 Falando por mim, admito que me sinto especialmente seduzido por um meio sorriso de mulher, por um olhar enigmático, por uma expressão melancólica. E continuo a achar que alguma timidez ou mesmo complexidade de personalidade são na maior parte das vezes sintomas de um estado de espírito, de uma forma de estar bem interessantes e que não resultam nada do facto dessas pessoas andarem de algum modo com a cabeça toda fodida, se é que o meu calão é suficientemente esclarecedor.
Com tudo isto, quero deixar claro que não tenho nada contra quem se sente em baixo e vai ao psiquiatra para que este lhe receite a medicação que lhe vai permitir comprar um pouco de felicidade para se sentir melhor. Pelo contrário, quero apenas dizer às pessoas de meios sorrisos e de olhar meio perdido que algures por aí está o outro meio sorriso que as completa, que tarde ou cedo o seu olhar vai encontrar-se na cumplicidade de outro olhar. E sim, puta que pariu [pardon my french], é essa a felicidade que realmente importa.


sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Conhecer cinema



Se há uma coisa que sempre me fez espécie desde que me alistei como cinéfilo desta vida e comecei a discutir e escrever sobre filmes, é a de constatar que quando questionados sobre quais são os filmes da sua vida grande parte dos jovens cita obras já quase centenárias, passe o exagero. E desculpem o meu cepticismo mas parece-me que o fazem como se isso os legitimasse como experts na matéria. Estão no seu direito, claro, mas tem sido feito muito e bom cinema nos últimos anos e perceber isso é tão importante como conhecer os filmes que marcam a história da 7ª arte.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Conversa de café


[Homens no café, de José Lutzenberger]




Um grupo de homens já perto ou na idade da reforma conversava animadamente no café quando entrei para tomar o pequeno-almoço. Um deles defendia-se do que parecia ser uma acusação do resto do grupo afiançando que gostava muito de mulheres. «Então por que é que nunca te conhecemos nenhuma?», teimava alguém no grupo. E a resposta não tardou. «Porque nunca apareceu nenhuma de que gostasse.»


quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Geniais, livres e... trágicos


[Jackson Pollock, o próprio]




Demasiado humanos?

Hoje enquanto revia «Pollock» na Fox Movies não pude evitar a mesma sensação que me invadiu à data de estreia do filme. A de que muitos dos artistas que encontramos através da sua arte se perderam eles mesmos na vida. É assim como se ela, a sua vida, a vida deles, não passasse de um conjunto de circunstâncias infelizes que resultaram numa conjugação feliz. Feliz para nós que desfrutamos da ideia que tinham de um mundo que à sua época nunca os soube compreender. E quanto mais inquieta e trágica tenha sido a vida do artista, mais seduzidos ficamos pela sua obra. O que me leva a uma conclusão que de facto é óbvia: a de que todos nós somos em certa medida problemáticos numa característica inerente à condição humana. Eles, os artistas, apenas tiveram a coragem de procurar viver uma liberdade que muitos nem sonham existir.


domingo, 2 de outubro de 2011

A Casa dos Sonhos


 








Dream House, um filme que assusta mas não é de terror

Jim Sheridan não tem a desenvoltura criativa de um Christopher Nolan, é certo, nem Daniel Craig a espessura dramática de, por exemplo, Sean Penn. Mas o facto é que ambos contribuíram para um filme surpreendente, «A Casa dos Sonhos». Por outro lado, este filme não é de terror clássico como aparenta, é, quando muito, sobre o terror que invade a mente humana e a molda sob um escudo protector. E se há filmes cujo ‘trailer’ e promoção jogam contra si, é o caso deste «Dream House». Atrevam-se, não percam este filme. E não, as razões para que não o percam não se prendem apenas com as presenças da belíssima Rachel Weisz ou da sempre sedutora Naomi Watts.



Dream House, de Jim Sheridan, com Daniel Craig, Rachel Weisz e Naomi Watts





sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Sensibilidades

Hoje ela disse-me que eu estava mais sensível. Quase deitado na cadeira a olhar para a luz sobre mim, de boca aberta e relutante, concordei. Afinal ela é a minha dentista.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Meia-noite em Paris, de Woody Allen






Woody Allen, o poeta

Existe em mim uma nostalgia, a de na minha juventude desejar ser escritor, ser um idealista e sonhador. Deliciava-me com a música romântica e atrevida de Cole Porter, a vida de sonho de Ernest Hemingway, perdia-me na complexidade cognitiva da pintura de Salvador Dali, adormecia nos braços de mulheres belíssimas como Marion Cotillard. Paris era para mim a cidade dos mil e um encantos e encontrava nos invernosos dias de chuva a inspiração para os meus devaneios. De facto, sei-o agora, eu sempre quis ser um Owen Wilson. Ou melhor, a sua personagem de um filme de Woody Allen, um Gil Pender de «Meia-noite em Paris», vagueando pela anoitecer da cosmopolita cidade francesa, percorrendo as esquinas do tempo ao encontro de alguns dos maiores ícones da cultura ocidental que sempre me inspiraram. E, no final, dar um passeio à chuva de mão dada com uma mulher, aquela mulher, a tal mulher, a que todos os homens procuram mas apenas alguns têm a felicidade de encontrar.
«Midnight in Paris», no seu título original, marca o regresso em grande estilo do génio de Woody Allen num argumento brilhante, numa fotografia esplêndida recheada de personagens radiosas deste e de outros tempos, personagens da nossa história, vultos de sempre. No seu périplo nocturno, desencontrado de Inez [Rachel McAdams], a sua noiva fútil e tristemente presa à banalidade, Gil [Owen Wilson] irá deparar nos anos vinte com um Hemingway [Corey Stoll] excêntrico, aventureiro e brigão, com uma suicida Zelda Fitzgerald [Alison Pill] perante as aventuras de Scott Fitzgerald [Tom Hiddleston] e ao som de «Let’s  do It», interpretado ao piano por Cole Porter. Encontrar-se-á ainda com a extravagância de Dali [um excelente e cómico Adrien Brody] ou a inconstância de Picasso [Marcial Di Fonzo Bo]. E pela mão de Adriana [Marion Cotillard], viajará até à Belle Époque de Toulouse-Lautrec, Degas e Gauguin. Entretanto, será ouvinte atento de uma guia de museu interpretada por Carla Bruni.
De facto, há que não ter receio de dizê-lo, «Meia-noite em Paris» é apenas um pequeno filme. Mas um pequeno filme que se vai agigantando em nós porquanto cremos nas potencialidades do sonho, na validade de perseguirmos a nossa felicidade sem medo de cortar amarras e quebrar regras. E ao dizer isto quero reafirmar que o mais recente dos quase cinquenta filmes do genial realizador nova-iorquino é afinal um delicioso poema, uma homenagem à vida e àqueles seres humanos grandiosos que a enalteceram e deram novos mundos ao mundo com o seu talento, a sua arte, a sua visão. E tal como eles, Woody Allen tem-no conseguido fazer. Através da sua vocação artística, o cinema, é facto, mas também pela sua vida como o demonstra a fé que teve no amor sem pensar nos obstáculos que teria de ultrapassar. Quanto a Owen Wilson, esta é apenas e só a sua melhor interpretação de sempre no cinema. E sim, Wilson fez por merecer aquela deliciosa companhia final que teve num passeio à chuva pelas ruas de Paris. Paris a cidade das luzes, a urbe eterna e romântica, a capital dos sonhos e do amor cuja essência a câmara de Allen tão bem soube captar.


«Midnight in Paris», de Woody Allen, com Owen Wilson, Rachel McAdams, Marion Cotillard, Adrien Brody, Kathy Bates, outros



terça-feira, 30 de agosto de 2011

Imagens que valem mais que mil palavras


[«Cat People», 1942]




Cowboys e Aliens






O Cowboy, a bela e os ET garimpeiros

Que se erga radiante quem protestou contra o fim do western clássico, ele está de regresso. Estamos em 1873, um homem ergue-se no solo de areia tórrida do deserto do Arizona, os traços secos e bem vincados do indivíduo só rodeado de abutres fazem lembrar vagamente o rosto de James Bond. No braço ostenta uma poderosa pulseira provavelmente demasiado avant-garde para o seu tempo, no olhar firme percebe-se a determinação dos homens que não temem a violência, daqueles que fazem da coragem um estilo de vida e têm da honra uma definição muito peculiar.
Ele é Daniel Craig a quem se junta Harrison Ford ambos numa luta à partida desigual contra um gang de alienígenas garimpeiros, o primeiro em busca da memória perdida e o segundo do filho desaparecido. Entretanto, Jon Favreau [o homem que patenteou «Iron Man»] realiza com desenvoltura e alguma elegância um filme de cowboys, índios e seres de outro planeta respeitando escrupulosamente as regras do western. E como se a prová-lo, no final o herói verá fecharem-se atrás de si as portadas do velho saloon e  partirá solitário desafiando o desconhecido sob um Sol inclemente de tão abrasador. Na garganta ainda arde o Whisky duplo bebido de um só trago e no peito carrega o fogo aceso pelo sorriso celestial de Olivia Wilde.


«Cowboys e Aliens», de Jon Favreau, com Daniel Craig, Olivia Wilde e Harrison Ford


terça-feira, 26 de julho de 2011

Porque hoje é dia dos avós

[Home, Sweet Home (...) - 1916: Childe Hassam]




A aventura dos livros





Chegava de mansinho, com um sorriso nos lábios que rapidamente dissimulava em tom severo. 'Menino, são horas de dormir; vamos, apaga a luz e fecha os olhos.' E eu, obedientemente, arrumava o livro que estava a ler na clandestinidade do meu quarto, desligava a luz fraca da lanterna e fechava os olhos. 'Não feches a porta, avó.' E ela não fechava. Voltava mais tarde para verificar se estava tudo bem, noite alongada até ao novo dia do ano a fazer-se anunciar no calendário ao bater das doze badaladas. Depois, andava suavemente corredor fora até se deitar na cama onde o meu avô há muito ressonava cansado do dia duro na quinta.

As noites de quarta-feira vivia-as eu em forte ansiedade. É que, às quintas-feiras, a Biblioteca Itinerante da Gulbenkian visitava a minha cidade lá bem no alto do sopapo de terra dominado pelo velho castelo resgatado aos mouros pelas tropas de D. Afonso Henriques. Assim que as aulas terminavam, corria esbaforido com receio de perder a hora. E invariavelmente escolhia os permitidos seis dos muitos livros criteriosamente arrumados em prateleiras numa carrinha cinzenta conduzida pelo afável Sr. Domingos. 'Despacha-te lá rapaz, que está na hora de ir; anda, anda, não és só tu a gostar de ler!' Num tumulto interior, sem soltar um pio, apressava-me a fazer o registo dos livros e corria de imediato para casa dos meus avós. Subia as escadas que davam para o sótão, abria uma janela envidraçada no lado do telhado a dar para uma enorme figueira, sentava-me numa velha poltrona que tinha pertencido ao pai do meu avô e ali ficava a devorar páginas e páginas de encantar até que a tarde arrefecia e as estrelas surgiam no céu já a escurecer.

Quando descia para jantar, caminhava vagarosamente por entre cheiros e cores de lugares longínquos e fascinantes. Deambulava por paisagens que me eram familiares mas onde jamais tinha posto os pés e errava perdido nas vidas apaixonantes de gentes de costumes estranhos, gente apaixonada ou a viver dramas irresolúveis, gente imaginada pelos escritores que eu invejava. Até que a voz melodiosa da minha avó terminava abruptamente com a minha vida de exilado noutros mundos. 'Come a sopa antes que arrefeça,' ordenava-me. 'Faz o que a avó diz, Joaquim!', acrescentava o meu avô com um timbre de voz ao qual era impossível não obedecer.

E os anos passaram na voracidade do tempo. Entretanto, cresci. As calças substituíram os calções, cresceram-me pêlos no rosto, conheci o sabor do amor, concluí os estudos, tornei-me homem. Antes, primeiro a minha avó e poucos anos mais tarde o meu avô morreram. E o quarto das minhas leituras está agora vazio. Mas as recordações dos meus primeiros passos como leitor permanecem ainda bem vivas em mim. De tempos a tempos relembro a aventura que era a vida naquele tempo folheando no sótão das minhas memórias.


[Texto recuperado]



 

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Porto da nossa alma

[Estação de S. Bento, 1999, Porto - Armando Aguiar]




Do Porto gosto sobretudo do entardecer invernoso, poético, de deixar que os meus olhos se estendam sobre o casario e relembrar «Porto da Minha Infância», filme que Manoel de Oliveira, seu realizador, sempre considerou um mero documentário. Não sem emoção, é possível sentir no Porto como a vertigem do tempo, do tempo interminável, deixa a sua marca e se reflecte no moldar da cidade e das suas gentes. E constatar que um homem não pode viver amputado do seu passado. O passado, remoto ou recente, reflecte outro tempo, momentos vividos que devem permanecer apenas na intimidade das nossas memórias, mas pode e deve ser recordado com segurança e orgulho.


E «Porto da Minha Infância» reflecte isso mesmo, transformando-se num legado poético e intimista do velho cineasta à sua cidade. Foi realizado com o saber e serenidade próprios de quem detém um conhecimento da vida resultante de já muito ter palmilhado por ela. Como Oliveira, costumo reflectir sobre um Porto romântico em cor e luz mas também uma urbe que reclama para si uma alma própria, uma intimidade genuína e oculta onde um estranho dificilmente consegue entrar. E eu gosto de pensar que o Porto me permitiu essa entrada reservada, que fui premiado pela minha sentida cumplicidade com a velha, granítica e poética cidade do norte de Portugal. Nasci em Abrantes, sinto que pertenço a Lisboa mas repouso o meu espírito no Porto.

Ainda há coincidências?



De facto ainda parece haver coincidências. Felizes, quero dizer. No nefasto dia da morte da cantora Amy Winehouse, escrevi este pequeno texto. Hoje, através do Facebook, deparei-me com o texto com que a Fnac publicita a música da malograda Amy por motivo da sua morte. É sempre razão de grande felicidade saber-nos alvo de inspiração de outrem, ainda para mais essa grande instituição da cultura que é a Fnac. Ou então não, foi uma simples coincidência.


O texto aqui do blogue:
«Oscar Wilde escreveu um dia que ‘a música é a arte que mais perto nos deixa das lágrimas e das recordações’. Era conhecida a forma como Amy Winehouse testava os seus limites no álcool e nas drogas. Agora que morreu, aos 27 anos de idade, a cantora irá fazer verter algumas lágrimas naqueles que a idolatravam e de si, dos seus comportamentos, ficará apenas a recordação. Mas que sonhos iriam na cabeça desta mulher que viveu num clima de grande perturbação, para poder pôr na sua voz tão sublime paixão pelas palavras e pela música? Amy Winehouse morreu. Era previsível. Mas magoa, é triste, é trágico. É a vida como um jogo perdido.»


O texto no ‘site’ da Fnac:
«Era conhecida a forma como Amy Winehouse testava os seus limites e comportamentos excêntricos publicamente. Mas tudo isso era ultrapassado pelo dote recebido de uma voz tão sublime, polvilhada de paixão e de palavras trágicas, reflexo do amor à música. Amy Winehouse partiu, mas vamos relembrar para todo o sempre a sua curta, contudo, brilhante carreira. A vida é como um jogo perdido.»



Stanley Kubrick na Cinemateca





DE OLHOS BEM FECHADOS
[Cinemateca, 4ª feira, dia 27 pelas 21.30 horas]



A prova final da genialidade do mestre, da genialidade de Stanley Kubrick

   
Ao longo da sua carreira de realizador de cinema, Stanley Kubrick revelou ser um profundo conhecedor da natureza humana. E em «Eyes Wide Shut», cujo argumento foi co-autor, mais do que construir uma narrativa a partir da realidade buscada na sua forma mais marginal, ou de pesadelos como alternativa à impossibilidade prática de quebrar as regras, o seu conhecido perfeccionismo que o levava a repetir ‘takes’ até à exaustão de técnicos e actores, está patente sobretudo num conjunto de diálogos intensíssimos onde cada simples palavra é não só fundamental como imprescindível para que a ‘mensagem’ passasse para o lado de cá da tela. Mas este é apenas um dos destaques de um filme maior que deu outro relevo a um género cinematográfico já de si de uma riqueza considerável dada a vastidão de obras-primas nele contido, o drama psicológico.

Toda a trama gira em volta de situações pertencentes ao imaginário das personagens, ou na sua forma tentada, e o que se observa é que aquilo que na realidade nunca chega a acontecer provoca ainda assim a explosão e o abalo emocional que levam a que um casal necessite expulsar os seus fantasmas para poder seguir em frente. Como génio que foi, é importante que se tente perceber de que se rodeou o realizador para esta espécie de aproximação a Freud. Neste âmbito, atente-se como a banda sonora do filme é simplesmente fantástica na forma de acompanhar o desenlace psicológico das diversas cenas, estimulando por vezes a união dos corpos, sendo de alguma sacralidade noutros momentos e servindo-se do som enérgico das teclas de um piano martelando quase sempre as mentes perturbadas. Os ambientes escolhidos são faustosos e de indiscutível bom gosto e, noutra vertente,a construção do perfil psicológico de cada personagem foi levada ao extremo. Desde o anónimo pianista de serões pela madrugada dentro até ao simples recepcionista de hotel, passando pelas prostitutas que povoam a grande mansão onde tem lugar uma das cenas fulcrais do filme. 


Em termos do ‘cast’, para o par nuclear da trama Kubrick escolheu dois actores no auge do seu mediatismo que formavam então um casal na vida real. E Tom Cruise e Nicole Kidman mostraram-se à altura da tarefa que o mestre-de-cerimónias lhes destinou, brindando-o com duas representações memoráveis muito bem secundados pelo também já precocemente falecido Sidney Pollack. Ele que talvez tivesse embarcado aqui numa busca de aprendizagem para aquela que foi a sua mais conhecida faceta, a de realizador. Mas se tudo é extremamente perfeito no filme não nos admiremos por em momento algum, gostemos ou não daquilo a que assistimos, nos seja dada a oportunidade de pensarmos que este ou aquele pormenor poderia ter sido mudado para outra coisa qualquer.

Em suma, «Eyes Wide Shut» é uma obra-prima do cinema, a derradeira de Stanley Kubrick, o mestre, ele que já não pôde assistir à estreia do seu filme.



«Eyes Wide Shut», de Stanley Kubrick, com Tom Cruise e Nicole Kidman

Bola ao poste


[A modelo fotográfico Iga A.; já vos disse que gosto de a ver trabalhar?]





Quando somos adolescentes, ou ainda muito jovens, vamos acumulando vitórias atrás de vitórias já que não damos relevo às pequenas derrotas que se assemelham a simples obstáculos a ultrapassar. Ao chegarmos à idade adulta, sentimos que alguma coisa está a mudar. Traçamos objectivos que nem sempre conseguimos alcançar e percebemos que começa a doer-nos de forma diferente quando sentimos que à nossa volta a reciprocidade deixou de ser um dado assumido. E quando dantes fazíamos perguntas sabendo de antemão as respostas, passamos igualmente a perceber que devemos preparar-nos para ouvir coisas que nos fazem sentir bem, é certo, mas sobretudo para não sermos surpreendidos negativamente.

Sim, é inegável que a nossa personalidade vai ganhando uma firmeza protectora perante as adversidades. Mas também não deixa de ser verdade que cada vez mais a máquina que na nossa ingenuidade e mesmo arrogância juvenil julgávamos perfeita passa a ser estranhamente falível. Leva-se algum tempo a chegar aqui, mas chega-se. Podem acreditar porque eu já cá estive algumas vezes e posso afiançar. Uma merda! A sensação é tão agradável quanto o entusiasmo que se pode perceber neste texto.



sábado, 23 de julho de 2011

Amy Winehouse, a vida como um jogo perdido

[Amy Winehouse caiu atraída pelo abismo]



Oscar Wilde escreveu um dia que ‘a música é a arte que mais perto nos deixa das lágrimas e das recordações’. Era conhecida a forma como Amy Winehouse testava os seus limites no álcool e nas drogas. Agora que morreu, aos 27 anos de idade, a cantora irá fazer verter algumas lágrimas naqueles que a idolatravam e de si, dos seus comportamentos, ficará apenas a recordação. Mas que sonhos iriam na cabeça desta mulher que viveu num clima de grande perturbação, para poder pôr na sua voz tão sublime paixão pelas palavras e pela música? Amy Winehouse morreu. Era previsível. Mas magoa, é triste, é trágico. É a vida como um jogo perdido.


Rumo à Liberdade




À conquista da vida

Num campo de refugiados na Sibéria, 1941, vivem-se os horrores da guerra e o resultado da carnificina operada pelo jugo estalinista. Um grupo de homens liderado pelo polaco Janusz [Jim Sturgess] e pelo americano Smith [Ed Harris] com o russo Valka [Colin Farrell] pelo meio, decide fugir e encetar um penoso caminho rumo à liberdade. O objectivo é chegar a Índia mas para isso terão que enfrentar a fome, o frio e o calor tórrido do deserto. As tempestades de gelo na rigorosa Sibéria, o deserto de Gobi e as cordilheiras dos Himalaias são apenas parte dos obstáculos que terão que ultrapassar.
Diga-se que a credibilidade da história que este filme traz até nós só é possível por esta se ter baseado numa história verídica contida nas memórias do polaco Slavomir Rawicz, um livro que entre nós recebeu o título de «A Longa Caminhada». Realizado por Peter Weir, que volta a filmar a grandiosidade dos espaços abertos enquadrando o homem na sua pequenez perante a natureza implacável, o filme mostra isso mesmo: uma história quase inacreditável de sobrevivência onde a força do espírito e da coragem humanos desafia os seus próprios limites.
A realização de Weir apenas espaçadamente recorre à emoção com o objectivo de não colocar minimamente em causa a factualidade dos acontecimentos e raramente apela às transições como forma de prender o espectador à tela. Mas na dolorosa agonia destes homens que pelo caminho tentam socorrer a bonita e jovem Irena [Saoirse Ronan], há uma história de heróis e um enorme hino à vida. Para eles não há sequer estradas sem fim, apenas florestas perdidas e extensões ora geladas ora áridas. E para parte do grupo o que irá restar é somente uma viagem ao fim das suas vidas, uma passagem lancinante para o outro lado do espelho. Mas nesta unidade destruída de um grupo de heróis, felizmente que alguns sobreviveram possibilitando dar a conhecer ao mundo o seu inigualável feito. E o filme de Weir respeita essa grandeza pungente. E para quem tivesse dúvidas, fica exposto mais um claro exemplo de que Estaline não foi mais que um outro Hitler que de diferente do original apenas tinha a cobarde falsidade da sua propaganda política.

«The Way Back», de Peter Weir, com Jim Sturgess, Colin Farrell, Ed Harris e Saoirse Ronan