terça-feira, 29 de novembro de 2011

A dança dos corpos




O Sol ainda brilha por entre os estores gastos pelo ir e devir de uma vida de altos e baixos. Mas na sala há uma luz forte acesa sobre ambos. Ele está uma pilha de nervos como se fosse a sua primeira vez. Deitado de barriga para cima espera impacientemente por ela e quando ela chega junto dele toca-lhe ao de leve nos lábios. O homem entreabre a boca, não contém o impulso que leva a que as suas pernas rocem as dela, Junto à cintura, já perto da barriga. A mulher move-se um pouco, procura uma posição melhor, mais confortável. Mantém-se nas mesmas posições por momentos com leves oscilações dos corpos. De repente ela quase grita, ouve-se um bramido de júbilo e ele olha-a aliviado. Nas mãos da dentista pode então observar-se já muito cariado o segundo pré-molar superior que ela acabara de extrair ao homem.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Tão profundo como o mar






Tenho para comigo que apesar de ser uma hipótese remota, Agostinho da Silva chegou a ler algo do que escrevo. É que apesar de falar na primeira pessoa do singular, o pensador só poderia estar a referir-se a mim quando suspeitou que muito do que escrevia podia parecer profundo mas por ser tão atrapalhado.

domingo, 27 de novembro de 2011

Nos Idos de Março






A oeste nada de novo

«Nos Idos de Março» podia ser um filme sobre políticos corruptos. Ou sobre como se joga sujo nos bastidores da política a alto nível e de como é tão fácil para gente que se propõe representar o povo cair em tentação ou mesmo trair sem pestanejar. Mas não, o novo filme do multifacetado George Clooney, aqui no papel de realizador, é, como o próprio afirma, um testamento sobre a moralidade em sentido mais generalista. E é fácil concordar com Clooney neste aspecto particular, porque o que acontece na campanha das primárias do Partido Democrata para encontrar um candidato do partido às eleições para Presidente dos Estados Unidos da América, não é diferente daquilo que acontece no nosso dia-a-dia, nas empresas, nas escolas, ou seja, na vida das pessoas. A diferença é que de um político com evidentes responsabilidades, e também daqueles que o rodeiam, se espera que os seus comportamentos sejam pautados por uma moral que deveria ser inquestionável. Mas isso, não sejamos ingénuos, é coisa em que muito poucos já acreditam. E sendo assim, o que de facto fica em risco? Algo que foi tão difícil de conquistar e temo se esteja a esgotar: a própria democracia, o que é trágico.
Ryan Gosling, um dos actores do momento, interpreta o papel de um idealista director de comunicação da campanha do Governador da Pensylvania [Clooney]. Mas isso, o idealismo do rapaz, é só até que perceba que vale tudo menos tirar olhos no mundo em que se move. E perante isto faz a opção que ninguém desejaria mas que sabemos ser a mais fácil, isto é, vai lutar sem clemência com as mesmas armas dos seus adversários. Ou supostos companheiros. A partir daqui o filme foge à solenidade com que vinha a reger-se, a intriga adensa-se e aquilo que julgávamos até então ser um filme sobre a alta política descamba para o ‘thriller’ comum. O problema deste «The Ides of March», título que alude ao assassinato de Júlio César a 15 de Março de 44 A.C., é que o cinismo é tão bem assumido e a traição tão impiedosamente arquitectada que, tal como na rábula do pobre que desconfia de esmola em demasia, o espectador começa a ficar descrente. E a perceber que afinal está numa sala de cinema, despertando assim do torpor relativo à realidade que é suposto o cinema transmitir. E neste ponto reafirmo uma suspeita minha de quase sempre: a de que mais uma vez funcionam contra os filmes as adaptações de peças de teatro. Digo isto porque há no teatro uma pompa interpretativa ligada ao texto e um certo tipo de rigor de cenários dos quais o cinema dificilmente consegue libertar-se.
O que não é de modo algum negociável, é a riqueza do elenco onde pontificam para além de Gosling e de Clooney nomes como Paul Giamatti, Philip Seymour Hoffman e Marisa Tomei. Apesar disso, e das excelentes interpretações com que nos brindam, mesmo que personalizado por gente tão grande já não é novidade para ninguém a amoralidade com que se fabricam governos. E ao mesmo tempo, a indiferença com que os cidadãos olham para os políticos resignando-se ao que julgam ser uma inevitabilidade. De facto, seja num comício em Cincinnati, Ohio, ou em Vale de Estacas, Santarém, o princípio é o mesmo: criar uma imagem de honra e sentido de dever que todos sabem que mesmo que depois de eleitos o tentassem jamais o conseguiriam pôr em prática. E o porquê disto é simples mas dramático, repito. Porque a democracia soçobrou perante a ditadura do poder económico e financeiro. E é apenas isso que «Nos Idos de Março» nos repete até à exaustão acrescentando muito pouco ao que já sabemos. Mas sendo cinema, acredito que acrescenta alguma espectacularidade, uma maior fotogenia e elegância em contraponto à boçalidade que diariamente nos entra casa dentro através dos políticos que temos.

«In The Ides of March», de George Clooney, com Ryan Gosling, George Clooney, Paul Giamatti, Philip Seymour Hoffman, Evan Rachel Wood e Marisa Tomei


sábado, 26 de novembro de 2011

Um Método Perigoso






Apenas diferentes entre iguais

Evitemos ir ao engano, «Um Método Perigoso», o mais recente filme de David Cronenberg, não é um filme para todos. E não o é sobretudo devido à sua fonte de inspiração, o teatro. Mas já lá vamos porque antes há que esclarecer que dizer isto não é dizer mal da realização de um dos maiores cineastas da actualidade, pelo contrário. De facto, «A Dangerous Method», no seu título original, é formalmente irrepreensível e vive de uma dialéctica incessante mas é de uma complexidade intelectual que pode desarmar os menos interessados pelo seu tema de fundo. E qual é a temática do filme que aborda vagamente a relação entre Sigmund Freud e Carl Jung, pais da psicanálise, para se centrar na paixão deste último pela sua belíssima paciente Sabina Spielrein? Indubitavelmente é o labirinto que constitui a mente humana. Em primeira análise a importância da componente psicológica no comportamento social de cada um de nós, homens e mulheres, mas principalmente o peso da questão sexual nas perturbações da mente.
É sabido que a filmografia de David Cronenberg sempre teve uma carga sexual e visceral intensa e o mesmo sucede com este «Um Método Perigoso». Embora, neste filme, seja de realçar a aproximação a um cinema mais convencional que o habitual nos trabalhos anteriores do canadiano. Ainda assim, confirma-se que paixão e morte, sexo, família, alienação e desvios comportamentais estão lá. Principalmente através da doente autodestrutiva e objecto de desejo que é a personagem de Keira Knightley [Spielrein], do impagável e dramático de uma forma assaz cativante Vincent Cassel [na personagem de Otto Gross] e do homem bom e médico brilhante Carl Jung [interpretado por Michael Fassbender] já que Sigmund Freud [por Viggo Mortensen] vive num patamar acima. Ele é o médico defensor da sua tese como tendo uma base científica, é o homem seguro de si, o pensador erroneamente dogmático, o intelectual convencido e convincente.
Sendo um filme sobre a criação da psicanálise no tratamento de doentes mentais, «Um Método Perigoso» é igualmente a história de um amor intenso, de duas almas gémeas que têm a felicidade de se encontrar, mas, desafortunadamente, de se perderem uma para a outra e, a partir deste dado, da forma como cada um dos amantes vai tentar sobreviver ao fracasso desse amor sem nunca desistir da sua paixão. Paixão arrebatadora que os acompanhará para sempre. E aqui mais uma vez a ética se impõe ao desejo dos corpos e um discutível sentido de dever à avassaladora vontade das almas em desespero. Mas se alguma coisa Cronenberg acrescenta àquilo que foram as vidas de homens tão fundamentais para o progresso da humanidade, é a de evidenciar que mais sedutor que perceber quais as complicações que levaram à doença psicológica só mesmo a sagacidade mental de quem não pretende curar obrigando o doente a comportar-se através daquilo que o mundo espera dele, mas antes dar-lhe a perceber que apesar da sua aparente imperfeição há um lugar para si no mundo. E isso nunca através de um rótulo de anormalidade mas sim de aceitação da diferença.
Excelentes as interpretações de Mortensen e de Fassbender, um tudo-nada burlesca a de Keira Knightley. Já Vincent Cassel volta a roçar a perfeição nos poucos minutos em que se passeia pela tela.
A não perder. Sabendo ao que se vai.


«A Dangerous Method», de David Cronenberg, com Michael Fassbender, Keira Knightley, Viggo Mortensen e Vincent Cassel

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Heróis do povo

[John Dillinger por Johnny Depp no filme «Public Enemies»]




É tido como factual que um dos maiores ‘gangsters’ de sempre da América, John Dillinger, defendia que ‘importante não é saber de onde vimos mas sim para onde vamos’. Dillinger morreria numa cilada que lhe foi montada numa ida ao cinema. E já que morreu com um tiro nas costas, o ladrão que o povo amava nunca terá chegado a saber onde terminou a sua caminhada final. É por estas e por outras que se deveria reescrever a história. Um homem assim merecia enfrentar a morte de frente.



quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Castelos de cartas






Dizer que o cinema é o retrato fiel da vida, no caso desta crise económica mundial não passa de um lugar-comum mais gasto que o saldo dos cartões de crédito da generalidade dos portugueses. E quando o especulador Gordon Gekko, no filme «Wall Street», apresentava cada novo negócio como mais vantajoso que o anterior, se deslocava de limusina para as salas de reuniões de escritórios onde reinava a opulência, se usava de truques baixos e, de ego inchado, se ria das suas conquistas e se declarava a si mesmo um vencedor, ninguém deu importância à suspeita de que a maioria se regia pela mesma bitola no topo do mundo. E nós, meros peões neste jogo de artimanhas e enganos, cá em baixo. Provincianos, somos uns provincianos.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

O recordista





Há quem tenha por hábito fechar-se dentro de casa. Pois ao décimo quinto dia deste mês de Novembro é a terceira vez que eu faço o contrário e me fecho fora de casa com as chaves por dentro. Não é certamente um ‘record’ de que me possa orgulhar, mas como bom português estou a ponderar candidatar-me ao Guinness World Records.


domingo, 13 de novembro de 2011

Marisa Monte


[Marisa Monte]






Numa das suas muitas canções de amor, a brasileira Marisa Monte murmura a certa altura que ‘seria bom, quatro paredes, eu, você e Deus.’ E eu a isto só tenho a dizer duas coisas. Primeira, perguntar por que carga de água clama a Marisa Monte por Deus numa situação como a que sugere, e, segunda, lembrar a mim mesmo que a Marisa Monte me foi um dia apresentada [a sua música, para que conste] por uma das mulheres mais fantásticas que tive a felicidade de conhecer. Para mim é mais que isso, para vocês este texto  fica apenas como um mero registo biográfico.


sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Reflexos

[a actriz Scarlett Johansson]




Pediram cafés e sentaram-se os três. Eles dois e ela, todos entre os trinta e os trinta e cinco anos. Aos impropérios que os dois homens trocavam, ela foi respondendo em silêncio. Quando pegou na chávena e a encostou nos lábios vermelhos, foi delicada sem parecer afectada. Parece-se com a Scarlett Johansson mas costuma atestar o Peugeout 307 azul marinho na Área de Serviço da A5 em Oeiras.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Pesadelo



Conheço outro tipo que tem um pesadelo recorrente, o de que se encontra no corredor da morte à espera de ser executada a pena a que foi condenado. De repente toca uma sineta e ele julga chegada a hora. Mas não, é apenas a campainha do despertador que o salva de ser morto. Há dias encontrei-o numa azáfama tremenda na baixa. Andava esbaforido de loja em loja porque o seu despertador avariara e precisava desesperadamente de adquirir outro.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Má sina


Conheço um tipo que tinha um sonho. E quando esse sonho se concretizou passou o tempo a destruí-lo. O pior mesmo é que foi preciso chegar a um elevado estado de desorientação para atingir a lucidez.

domingo, 6 de novembro de 2011

Um meio sorriso

[O resplandecente meio sorriso da modelo fotográfico Iga A. ]





Há perguntas que desarmam as pessoas com uma acidez tal que as evitamos fazer em sociedade a não ser por mera brincadeira. Por exemplo, experimentem ir tomar café com alguém e no meio do nada perguntar a essa pessoa se é feliz. Arriscaria dizer que a outra pessoa não iria achar muita piada à questão ou tentaria fintá-la da melhor maneira. E por que é que isto acontece? Porque a nossa sociedade nos impõe a felicidade não somente como prova de sucesso mas como se essa fosse a palavra passe para fazermos parte dela. Assim, quase que somos obrigados a demonstrar felicidade mesmo que a não sintamos neste ou naquele momento particulares.
 Falando por mim, admito que me sinto especialmente seduzido por um meio sorriso de mulher, por um olhar enigmático, por uma expressão melancólica. E continuo a achar que alguma timidez ou mesmo complexidade de personalidade são na maior parte das vezes sintomas de um estado de espírito, de uma forma de estar bem interessantes e que não resultam nada do facto dessas pessoas andarem de algum modo com a cabeça toda fodida, se é que o meu calão é suficientemente esclarecedor.
Com tudo isto, quero deixar claro que não tenho nada contra quem se sente em baixo e vai ao psiquiatra para que este lhe receite a medicação que lhe vai permitir comprar um pouco de felicidade para se sentir melhor. Pelo contrário, quero apenas dizer às pessoas de meios sorrisos e de olhar meio perdido que algures por aí está o outro meio sorriso que as completa, que tarde ou cedo o seu olhar vai encontrar-se na cumplicidade de outro olhar. E sim, puta que pariu [pardon my french], é essa a felicidade que realmente importa.


sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Conhecer cinema



Se há uma coisa que sempre me fez espécie desde que me alistei como cinéfilo desta vida e comecei a discutir e escrever sobre filmes, é a de constatar que quando questionados sobre quais são os filmes da sua vida grande parte dos jovens cita obras já quase centenárias, passe o exagero. E desculpem o meu cepticismo mas parece-me que o fazem como se isso os legitimasse como experts na matéria. Estão no seu direito, claro, mas tem sido feito muito e bom cinema nos últimos anos e perceber isso é tão importante como conhecer os filmes que marcam a história da 7ª arte.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Conversa de café


[Homens no café, de José Lutzenberger]




Um grupo de homens já perto ou na idade da reforma conversava animadamente no café quando entrei para tomar o pequeno-almoço. Um deles defendia-se do que parecia ser uma acusação do resto do grupo afiançando que gostava muito de mulheres. «Então por que é que nunca te conhecemos nenhuma?», teimava alguém no grupo. E a resposta não tardou. «Porque nunca apareceu nenhuma de que gostasse.»


quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Geniais, livres e... trágicos


[Jackson Pollock, o próprio]




Demasiado humanos?

Hoje enquanto revia «Pollock» na Fox Movies não pude evitar a mesma sensação que me invadiu à data de estreia do filme. A de que muitos dos artistas que encontramos através da sua arte se perderam eles mesmos na vida. É assim como se ela, a sua vida, a vida deles, não passasse de um conjunto de circunstâncias infelizes que resultaram numa conjugação feliz. Feliz para nós que desfrutamos da ideia que tinham de um mundo que à sua época nunca os soube compreender. E quanto mais inquieta e trágica tenha sido a vida do artista, mais seduzidos ficamos pela sua obra. O que me leva a uma conclusão que de facto é óbvia: a de que todos nós somos em certa medida problemáticos numa característica inerente à condição humana. Eles, os artistas, apenas tiveram a coragem de procurar viver uma liberdade que muitos nem sonham existir.


domingo, 2 de outubro de 2011

A Casa dos Sonhos


 








Dream House, um filme que assusta mas não é de terror

Jim Sheridan não tem a desenvoltura criativa de um Christopher Nolan, é certo, nem Daniel Craig a espessura dramática de, por exemplo, Sean Penn. Mas o facto é que ambos contribuíram para um filme surpreendente, «A Casa dos Sonhos». Por outro lado, este filme não é de terror clássico como aparenta, é, quando muito, sobre o terror que invade a mente humana e a molda sob um escudo protector. E se há filmes cujo ‘trailer’ e promoção jogam contra si, é o caso deste «Dream House». Atrevam-se, não percam este filme. E não, as razões para que não o percam não se prendem apenas com as presenças da belíssima Rachel Weisz ou da sempre sedutora Naomi Watts.



Dream House, de Jim Sheridan, com Daniel Craig, Rachel Weisz e Naomi Watts





sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Sensibilidades

Hoje ela disse-me que eu estava mais sensível. Quase deitado na cadeira a olhar para a luz sobre mim, de boca aberta e relutante, concordei. Afinal ela é a minha dentista.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Meia-noite em Paris, de Woody Allen






Woody Allen, o poeta

Existe em mim uma nostalgia, a de na minha juventude desejar ser escritor, ser um idealista e sonhador. Deliciava-me com a música romântica e atrevida de Cole Porter, a vida de sonho de Ernest Hemingway, perdia-me na complexidade cognitiva da pintura de Salvador Dali, adormecia nos braços de mulheres belíssimas como Marion Cotillard. Paris era para mim a cidade dos mil e um encantos e encontrava nos invernosos dias de chuva a inspiração para os meus devaneios. De facto, sei-o agora, eu sempre quis ser um Owen Wilson. Ou melhor, a sua personagem de um filme de Woody Allen, um Gil Pender de «Meia-noite em Paris», vagueando pela anoitecer da cosmopolita cidade francesa, percorrendo as esquinas do tempo ao encontro de alguns dos maiores ícones da cultura ocidental que sempre me inspiraram. E, no final, dar um passeio à chuva de mão dada com uma mulher, aquela mulher, a tal mulher, a que todos os homens procuram mas apenas alguns têm a felicidade de encontrar.
«Midnight in Paris», no seu título original, marca o regresso em grande estilo do génio de Woody Allen num argumento brilhante, numa fotografia esplêndida recheada de personagens radiosas deste e de outros tempos, personagens da nossa história, vultos de sempre. No seu périplo nocturno, desencontrado de Inez [Rachel McAdams], a sua noiva fútil e tristemente presa à banalidade, Gil [Owen Wilson] irá deparar nos anos vinte com um Hemingway [Corey Stoll] excêntrico, aventureiro e brigão, com uma suicida Zelda Fitzgerald [Alison Pill] perante as aventuras de Scott Fitzgerald [Tom Hiddleston] e ao som de «Let’s  do It», interpretado ao piano por Cole Porter. Encontrar-se-á ainda com a extravagância de Dali [um excelente e cómico Adrien Brody] ou a inconstância de Picasso [Marcial Di Fonzo Bo]. E pela mão de Adriana [Marion Cotillard], viajará até à Belle Époque de Toulouse-Lautrec, Degas e Gauguin. Entretanto, será ouvinte atento de uma guia de museu interpretada por Carla Bruni.
De facto, há que não ter receio de dizê-lo, «Meia-noite em Paris» é apenas um pequeno filme. Mas um pequeno filme que se vai agigantando em nós porquanto cremos nas potencialidades do sonho, na validade de perseguirmos a nossa felicidade sem medo de cortar amarras e quebrar regras. E ao dizer isto quero reafirmar que o mais recente dos quase cinquenta filmes do genial realizador nova-iorquino é afinal um delicioso poema, uma homenagem à vida e àqueles seres humanos grandiosos que a enalteceram e deram novos mundos ao mundo com o seu talento, a sua arte, a sua visão. E tal como eles, Woody Allen tem-no conseguido fazer. Através da sua vocação artística, o cinema, é facto, mas também pela sua vida como o demonstra a fé que teve no amor sem pensar nos obstáculos que teria de ultrapassar. Quanto a Owen Wilson, esta é apenas e só a sua melhor interpretação de sempre no cinema. E sim, Wilson fez por merecer aquela deliciosa companhia final que teve num passeio à chuva pelas ruas de Paris. Paris a cidade das luzes, a urbe eterna e romântica, a capital dos sonhos e do amor cuja essência a câmara de Allen tão bem soube captar.


«Midnight in Paris», de Woody Allen, com Owen Wilson, Rachel McAdams, Marion Cotillard, Adrien Brody, Kathy Bates, outros



terça-feira, 30 de agosto de 2011

Imagens que valem mais que mil palavras


[«Cat People», 1942]




Cowboys e Aliens






O Cowboy, a bela e os ET garimpeiros

Que se erga radiante quem protestou contra o fim do western clássico, ele está de regresso. Estamos em 1873, um homem ergue-se no solo de areia tórrida do deserto do Arizona, os traços secos e bem vincados do indivíduo só rodeado de abutres fazem lembrar vagamente o rosto de James Bond. No braço ostenta uma poderosa pulseira provavelmente demasiado avant-garde para o seu tempo, no olhar firme percebe-se a determinação dos homens que não temem a violência, daqueles que fazem da coragem um estilo de vida e têm da honra uma definição muito peculiar.
Ele é Daniel Craig a quem se junta Harrison Ford ambos numa luta à partida desigual contra um gang de alienígenas garimpeiros, o primeiro em busca da memória perdida e o segundo do filho desaparecido. Entretanto, Jon Favreau [o homem que patenteou «Iron Man»] realiza com desenvoltura e alguma elegância um filme de cowboys, índios e seres de outro planeta respeitando escrupulosamente as regras do western. E como se a prová-lo, no final o herói verá fecharem-se atrás de si as portadas do velho saloon e  partirá solitário desafiando o desconhecido sob um Sol inclemente de tão abrasador. Na garganta ainda arde o Whisky duplo bebido de um só trago e no peito carrega o fogo aceso pelo sorriso celestial de Olivia Wilde.


«Cowboys e Aliens», de Jon Favreau, com Daniel Craig, Olivia Wilde e Harrison Ford


terça-feira, 26 de julho de 2011

Porque hoje é dia dos avós

[Home, Sweet Home (...) - 1916: Childe Hassam]




A aventura dos livros





Chegava de mansinho, com um sorriso nos lábios que rapidamente dissimulava em tom severo. 'Menino, são horas de dormir; vamos, apaga a luz e fecha os olhos.' E eu, obedientemente, arrumava o livro que estava a ler na clandestinidade do meu quarto, desligava a luz fraca da lanterna e fechava os olhos. 'Não feches a porta, avó.' E ela não fechava. Voltava mais tarde para verificar se estava tudo bem, noite alongada até ao novo dia do ano a fazer-se anunciar no calendário ao bater das doze badaladas. Depois, andava suavemente corredor fora até se deitar na cama onde o meu avô há muito ressonava cansado do dia duro na quinta.

As noites de quarta-feira vivia-as eu em forte ansiedade. É que, às quintas-feiras, a Biblioteca Itinerante da Gulbenkian visitava a minha cidade lá bem no alto do sopapo de terra dominado pelo velho castelo resgatado aos mouros pelas tropas de D. Afonso Henriques. Assim que as aulas terminavam, corria esbaforido com receio de perder a hora. E invariavelmente escolhia os permitidos seis dos muitos livros criteriosamente arrumados em prateleiras numa carrinha cinzenta conduzida pelo afável Sr. Domingos. 'Despacha-te lá rapaz, que está na hora de ir; anda, anda, não és só tu a gostar de ler!' Num tumulto interior, sem soltar um pio, apressava-me a fazer o registo dos livros e corria de imediato para casa dos meus avós. Subia as escadas que davam para o sótão, abria uma janela envidraçada no lado do telhado a dar para uma enorme figueira, sentava-me numa velha poltrona que tinha pertencido ao pai do meu avô e ali ficava a devorar páginas e páginas de encantar até que a tarde arrefecia e as estrelas surgiam no céu já a escurecer.

Quando descia para jantar, caminhava vagarosamente por entre cheiros e cores de lugares longínquos e fascinantes. Deambulava por paisagens que me eram familiares mas onde jamais tinha posto os pés e errava perdido nas vidas apaixonantes de gentes de costumes estranhos, gente apaixonada ou a viver dramas irresolúveis, gente imaginada pelos escritores que eu invejava. Até que a voz melodiosa da minha avó terminava abruptamente com a minha vida de exilado noutros mundos. 'Come a sopa antes que arrefeça,' ordenava-me. 'Faz o que a avó diz, Joaquim!', acrescentava o meu avô com um timbre de voz ao qual era impossível não obedecer.

E os anos passaram na voracidade do tempo. Entretanto, cresci. As calças substituíram os calções, cresceram-me pêlos no rosto, conheci o sabor do amor, concluí os estudos, tornei-me homem. Antes, primeiro a minha avó e poucos anos mais tarde o meu avô morreram. E o quarto das minhas leituras está agora vazio. Mas as recordações dos meus primeiros passos como leitor permanecem ainda bem vivas em mim. De tempos a tempos relembro a aventura que era a vida naquele tempo folheando no sótão das minhas memórias.


[Texto recuperado]



 

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Porto da nossa alma

[Estação de S. Bento, 1999, Porto - Armando Aguiar]




Do Porto gosto sobretudo do entardecer invernoso, poético, de deixar que os meus olhos se estendam sobre o casario e relembrar «Porto da Minha Infância», filme que Manoel de Oliveira, seu realizador, sempre considerou um mero documentário. Não sem emoção, é possível sentir no Porto como a vertigem do tempo, do tempo interminável, deixa a sua marca e se reflecte no moldar da cidade e das suas gentes. E constatar que um homem não pode viver amputado do seu passado. O passado, remoto ou recente, reflecte outro tempo, momentos vividos que devem permanecer apenas na intimidade das nossas memórias, mas pode e deve ser recordado com segurança e orgulho.


E «Porto da Minha Infância» reflecte isso mesmo, transformando-se num legado poético e intimista do velho cineasta à sua cidade. Foi realizado com o saber e serenidade próprios de quem detém um conhecimento da vida resultante de já muito ter palmilhado por ela. Como Oliveira, costumo reflectir sobre um Porto romântico em cor e luz mas também uma urbe que reclama para si uma alma própria, uma intimidade genuína e oculta onde um estranho dificilmente consegue entrar. E eu gosto de pensar que o Porto me permitiu essa entrada reservada, que fui premiado pela minha sentida cumplicidade com a velha, granítica e poética cidade do norte de Portugal. Nasci em Abrantes, sinto que pertenço a Lisboa mas repouso o meu espírito no Porto.

Ainda há coincidências?



De facto ainda parece haver coincidências. Felizes, quero dizer. No nefasto dia da morte da cantora Amy Winehouse, escrevi este pequeno texto. Hoje, através do Facebook, deparei-me com o texto com que a Fnac publicita a música da malograda Amy por motivo da sua morte. É sempre razão de grande felicidade saber-nos alvo de inspiração de outrem, ainda para mais essa grande instituição da cultura que é a Fnac. Ou então não, foi uma simples coincidência.


O texto aqui do blogue:
«Oscar Wilde escreveu um dia que ‘a música é a arte que mais perto nos deixa das lágrimas e das recordações’. Era conhecida a forma como Amy Winehouse testava os seus limites no álcool e nas drogas. Agora que morreu, aos 27 anos de idade, a cantora irá fazer verter algumas lágrimas naqueles que a idolatravam e de si, dos seus comportamentos, ficará apenas a recordação. Mas que sonhos iriam na cabeça desta mulher que viveu num clima de grande perturbação, para poder pôr na sua voz tão sublime paixão pelas palavras e pela música? Amy Winehouse morreu. Era previsível. Mas magoa, é triste, é trágico. É a vida como um jogo perdido.»


O texto no ‘site’ da Fnac:
«Era conhecida a forma como Amy Winehouse testava os seus limites e comportamentos excêntricos publicamente. Mas tudo isso era ultrapassado pelo dote recebido de uma voz tão sublime, polvilhada de paixão e de palavras trágicas, reflexo do amor à música. Amy Winehouse partiu, mas vamos relembrar para todo o sempre a sua curta, contudo, brilhante carreira. A vida é como um jogo perdido.»



Stanley Kubrick na Cinemateca





DE OLHOS BEM FECHADOS
[Cinemateca, 4ª feira, dia 27 pelas 21.30 horas]



A prova final da genialidade do mestre, da genialidade de Stanley Kubrick

   
Ao longo da sua carreira de realizador de cinema, Stanley Kubrick revelou ser um profundo conhecedor da natureza humana. E em «Eyes Wide Shut», cujo argumento foi co-autor, mais do que construir uma narrativa a partir da realidade buscada na sua forma mais marginal, ou de pesadelos como alternativa à impossibilidade prática de quebrar as regras, o seu conhecido perfeccionismo que o levava a repetir ‘takes’ até à exaustão de técnicos e actores, está patente sobretudo num conjunto de diálogos intensíssimos onde cada simples palavra é não só fundamental como imprescindível para que a ‘mensagem’ passasse para o lado de cá da tela. Mas este é apenas um dos destaques de um filme maior que deu outro relevo a um género cinematográfico já de si de uma riqueza considerável dada a vastidão de obras-primas nele contido, o drama psicológico.

Toda a trama gira em volta de situações pertencentes ao imaginário das personagens, ou na sua forma tentada, e o que se observa é que aquilo que na realidade nunca chega a acontecer provoca ainda assim a explosão e o abalo emocional que levam a que um casal necessite expulsar os seus fantasmas para poder seguir em frente. Como génio que foi, é importante que se tente perceber de que se rodeou o realizador para esta espécie de aproximação a Freud. Neste âmbito, atente-se como a banda sonora do filme é simplesmente fantástica na forma de acompanhar o desenlace psicológico das diversas cenas, estimulando por vezes a união dos corpos, sendo de alguma sacralidade noutros momentos e servindo-se do som enérgico das teclas de um piano martelando quase sempre as mentes perturbadas. Os ambientes escolhidos são faustosos e de indiscutível bom gosto e, noutra vertente,a construção do perfil psicológico de cada personagem foi levada ao extremo. Desde o anónimo pianista de serões pela madrugada dentro até ao simples recepcionista de hotel, passando pelas prostitutas que povoam a grande mansão onde tem lugar uma das cenas fulcrais do filme. 


Em termos do ‘cast’, para o par nuclear da trama Kubrick escolheu dois actores no auge do seu mediatismo que formavam então um casal na vida real. E Tom Cruise e Nicole Kidman mostraram-se à altura da tarefa que o mestre-de-cerimónias lhes destinou, brindando-o com duas representações memoráveis muito bem secundados pelo também já precocemente falecido Sidney Pollack. Ele que talvez tivesse embarcado aqui numa busca de aprendizagem para aquela que foi a sua mais conhecida faceta, a de realizador. Mas se tudo é extremamente perfeito no filme não nos admiremos por em momento algum, gostemos ou não daquilo a que assistimos, nos seja dada a oportunidade de pensarmos que este ou aquele pormenor poderia ter sido mudado para outra coisa qualquer.

Em suma, «Eyes Wide Shut» é uma obra-prima do cinema, a derradeira de Stanley Kubrick, o mestre, ele que já não pôde assistir à estreia do seu filme.



«Eyes Wide Shut», de Stanley Kubrick, com Tom Cruise e Nicole Kidman

Bola ao poste


[A modelo fotográfico Iga A.; já vos disse que gosto de a ver trabalhar?]





Quando somos adolescentes, ou ainda muito jovens, vamos acumulando vitórias atrás de vitórias já que não damos relevo às pequenas derrotas que se assemelham a simples obstáculos a ultrapassar. Ao chegarmos à idade adulta, sentimos que alguma coisa está a mudar. Traçamos objectivos que nem sempre conseguimos alcançar e percebemos que começa a doer-nos de forma diferente quando sentimos que à nossa volta a reciprocidade deixou de ser um dado assumido. E quando dantes fazíamos perguntas sabendo de antemão as respostas, passamos igualmente a perceber que devemos preparar-nos para ouvir coisas que nos fazem sentir bem, é certo, mas sobretudo para não sermos surpreendidos negativamente.

Sim, é inegável que a nossa personalidade vai ganhando uma firmeza protectora perante as adversidades. Mas também não deixa de ser verdade que cada vez mais a máquina que na nossa ingenuidade e mesmo arrogância juvenil julgávamos perfeita passa a ser estranhamente falível. Leva-se algum tempo a chegar aqui, mas chega-se. Podem acreditar porque eu já cá estive algumas vezes e posso afiançar. Uma merda! A sensação é tão agradável quanto o entusiasmo que se pode perceber neste texto.



sábado, 23 de julho de 2011

Amy Winehouse, a vida como um jogo perdido

[Amy Winehouse caiu atraída pelo abismo]



Oscar Wilde escreveu um dia que ‘a música é a arte que mais perto nos deixa das lágrimas e das recordações’. Era conhecida a forma como Amy Winehouse testava os seus limites no álcool e nas drogas. Agora que morreu, aos 27 anos de idade, a cantora irá fazer verter algumas lágrimas naqueles que a idolatravam e de si, dos seus comportamentos, ficará apenas a recordação. Mas que sonhos iriam na cabeça desta mulher que viveu num clima de grande perturbação, para poder pôr na sua voz tão sublime paixão pelas palavras e pela música? Amy Winehouse morreu. Era previsível. Mas magoa, é triste, é trágico. É a vida como um jogo perdido.


Rumo à Liberdade




À conquista da vida

Num campo de refugiados na Sibéria, 1941, vivem-se os horrores da guerra e o resultado da carnificina operada pelo jugo estalinista. Um grupo de homens liderado pelo polaco Janusz [Jim Sturgess] e pelo americano Smith [Ed Harris] com o russo Valka [Colin Farrell] pelo meio, decide fugir e encetar um penoso caminho rumo à liberdade. O objectivo é chegar a Índia mas para isso terão que enfrentar a fome, o frio e o calor tórrido do deserto. As tempestades de gelo na rigorosa Sibéria, o deserto de Gobi e as cordilheiras dos Himalaias são apenas parte dos obstáculos que terão que ultrapassar.
Diga-se que a credibilidade da história que este filme traz até nós só é possível por esta se ter baseado numa história verídica contida nas memórias do polaco Slavomir Rawicz, um livro que entre nós recebeu o título de «A Longa Caminhada». Realizado por Peter Weir, que volta a filmar a grandiosidade dos espaços abertos enquadrando o homem na sua pequenez perante a natureza implacável, o filme mostra isso mesmo: uma história quase inacreditável de sobrevivência onde a força do espírito e da coragem humanos desafia os seus próprios limites.
A realização de Weir apenas espaçadamente recorre à emoção com o objectivo de não colocar minimamente em causa a factualidade dos acontecimentos e raramente apela às transições como forma de prender o espectador à tela. Mas na dolorosa agonia destes homens que pelo caminho tentam socorrer a bonita e jovem Irena [Saoirse Ronan], há uma história de heróis e um enorme hino à vida. Para eles não há sequer estradas sem fim, apenas florestas perdidas e extensões ora geladas ora áridas. E para parte do grupo o que irá restar é somente uma viagem ao fim das suas vidas, uma passagem lancinante para o outro lado do espelho. Mas nesta unidade destruída de um grupo de heróis, felizmente que alguns sobreviveram possibilitando dar a conhecer ao mundo o seu inigualável feito. E o filme de Weir respeita essa grandeza pungente. E para quem tivesse dúvidas, fica exposto mais um claro exemplo de que Estaline não foi mais que um outro Hitler que de diferente do original apenas tinha a cobarde falsidade da sua propaganda política.

«The Way Back», de Peter Weir, com Jim Sturgess, Colin Farrell, Ed Harris e Saoirse Ronan

Pressão alta

[A modelo fotográfico Iga A.; gosto de a ver trabalhar]




‘Ninguém consegue ajuizar em que momentos das nossas vidas a inocência deu lugar à perversão, o mal substituiu o bem, a superficialidade começou a imperar, a mediocridade se generalizou e a ignorância continuou a ser o maior factor de criação de estupidez um pouco por todo o lado’, disse-lhe eu. Ela olhou-me durante uns momentos, sorriu e perguntou-me apenas. ‘Desculpa lá, estás a citar algum clássico ou somente a armar-te em tolinho? ‘ Pensei um pouco. Claro que não estava a citar nenhum clássico. De tal forma falhei na táctica que não só já não entrei em campo como nem cheguei a fazer o aquecimento.  



sexta-feira, 22 de julho de 2011

A Árvore da Vida





O Reluzente Planetário da Vida



Escrever um texto sobre «A Árvore da Vida», a mais recente obra-prima de Terrence Malick, é deixar que os caracteres formem em palavras, frases e ideias uma definição de nós mesmos. De nós como pessoas inseridas numa sociedade mais vasta que aquela que convive connosco mas sobretudo como seres humanos que pensam, sentem e se projectam para lá daquilo que nos rodeia. «The Tree of Life» vive muito dos seus extraordinários efeitos visuais, tem vulcões em actividade, chuva de lava e apenas chuva, tem nuvens nos céus e um Sol que os domina. Em suma, num processo narrativo inigualável, Terrence Malick mostra-nos a história do Universo que habitamos desde os bosques frondosos por onde correm rios e dinossauros a representarem a cadeia da vida, até às visões celestiais que indiciam caber apenas no domínio da fé, daqueles que acreditam. Mas a natureza, essa, é eternamente viva. E nós, os homens e mulheres, somos parte integrante dessa natureza. E se é certo que a influenciamos não menos certo é que somos irremediavelmente influenciados por ela. Desde o dia em que nascemos até àquele em que morremos.
Malick não é um realizador vulgar. Quase não aparece em público e realizou agora o seu quinto filme em quarenta anos. Todos eles imprescindíveis. E os seus temas mantêm-se coerentes e actuais na confrontação entre o sagrado e o profano, entre a fé e os factos, questionando-se sobre o mundo e a nossa própria existência nesse mundo. As vozes em ‘off’ – em «A Árvore da Vida» há somente uma voz ‘off’ – perguntam. Perguntam, é certo, mas não parecem querer obter uma resposta. Ao invés, pretendem obrigar o espectador a pensar sobre as respostas que afinal até existem no filme. E para isso, Malick filma a natureza como ninguém, imagem e som vagueiam de mãos dadas na tela e a sensibilidade e beleza tocam-nos de um modo que quase diria irreversível se tal fosse possível. E os momentos de lucidez de que o espectador é acometido são a espaços interrompidos por uma estranha  forma de loucura, pela alienação que nos é transmitida pela visão única de um mundo em ebulição.
Mas que ninguém saia da sala caso se sinta intimidado por esta quimera feita de segredos insondáveis de um universo que é de todos mas que a ninguém pertence. Isto porque «A Árvore da Vida» é também uma viagem à América dos anos cinquenta, no pós-guerra. Nas paisagens bucólicas do Texas, a família O’brien divide-se entre um pai disciplinador, uma mãe doce e terna e três pequenas crianças um pouco à deriva num mar de felicidade mas que a espaços é atormentado por ondas de desespero na incompreensão dos mais pequenos confrontados com os actos dos maiores. Entretanto, o filme acompanha até à idade adulta o filho mais velho do casal. Este que é uma espécie de alma perdida num mundo moderno. Acompanha igualmente a tentativa de reconciliação deste na relação conturbada com o pai e a sua busca de um sentido da vida rebuscando nas suas origens e admitindo no final a existência da fé. Brad Pitt é o pai, Sean Penn o filho e Jessica Chastain a mãe. E eu e tu, eles e nós também somos filhos, pais, seres humanos que habitam este mesmo universo numa espécie de trânsito para a morte. Mas, estou plenamente convicto, onde vale bem mais acreditar que há tanto para viver até ao dia final ao invés de crer noutra vida esquecendo esta.



«The Tree of Life», de Terrence Malick, com Brad Pitt, Sean Penn e Jessica Chastain





A morte do artista

[Man's Head, auto-retrato - 1963]




Lucian Freud, 1922 – 2011

Vastas vezes citado aqui no blogue, Lucian Freud começou por ser um dos maiores pintores contemporâneos da arte figurativa até mudar a sua técnica e materiais para incutir novos horizontes à sua pintura. Neto de Sigmund Freud, fundador da Psicanálise, em minha opinião Lucian acabaria por tentar demonstrar com a sua arte como o corpo não é mais do que o reflexo das compulsões do espírito e dos desígnios da mente de cada um. À sua maneira, o pintor nascido na Alemanha, em Berlim, e posteriormente naturalizado britânico para onde emigrou com a família, era um psicólogo que esculpia as tintas para traçar de modo visceral o corpo e a carne e teorizar sobre a alma humana. Morreu na madrugada de 4ª feira aos 88 anos de idade.


Sede de protagonismo




Há tempos ressuscitei da minha [curta] colecção de filmes em DVD um título do já distante ano de 1995, «Disposta a Tudo», de Gus Van Sant. Para os mais dedicados a estas coisas do cinema será redundante lembrar que este filme valeu na altura um Globo de Ouro à então quase desconhecida Nicole Kidman. O filme resume-se, e já não é pouco, a uma comédia negra tão cativante quanto especulativa do poder e do fascínio da televisão sobre o cidadão comum. A nossa bem conhecida Nicole Kidman é Suzanne Maretto, uma mulher perigosamente sedutora obcecada em tornar-se uma vedeta da TV e Gus Van Sant assentou a história numa encruzilhada de perspectivas importadas pela sua realização de cada uma das personagens.



A título de curiosidade, para além de Kidman o filme conta ainda com a presença dos jovens actores Matt Dillon, Joaquin Phoenix e Casey Afleck. E é curioso verificar a ascensão distinta de cada um deles 13 anos depois. Enquanto Nicole Kidman e Joaquin Phoenix seguem de vento em popa numa caminhada fulgurante para a eternidade, Casey Afleck parece ter recebido um novo fôlego com a sua participação em «
The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford» (2007) . Já a Matt Dillon parece faltar sempre um pequeno golpe de asa para se guindar a um patamar superior no firmamento estelar de Hollywood. Quanto ao tema do filme, o fascínio pelo mediatismo da televisão pese o passar dos anos parece manter-se tão actual agora como já o era então.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Móveis de Estilo

[Valeria Solarino]

Citações perigosas

 
 
'Não encontramos justiça no sistema judicial. Este limita-se a aplicar a lei.'


In «Reservation Road – Traídos Pelo Destino»

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Pequenas Mentiras Entre Amigos






Sexo, Mentiras e Vídeo

Eles são um grupo de amigos entre os trinta e os quarenta anos. Uns vivem relacionamentos que já conheceram melhores dias, outros são casados e até têm filhos. São gente realizada profissionalmente e há entre eles médicos, actores e um empresário hoteleiro muito bem sucedido. O filme começa por acompanhar um deles numa noite de diversão, copos e alguma droga. Mas Ludo [Jean Dujardin] abandona a discoteca onde se encontra, pega no seu motociclo e percorre as ruas desertas na madrugada de Paris até ter um acidente que o deixa desfigurado e em coma nas vésperas de ir de férias com os amigos para o sul de França. Sem visitas e sem que pudessem fazer algo pelo amigo, Marie [Marion Cotillard], Vincent [Benoît Magimel], Eric [Gilles Lelouche], Antoine [Laurent Lafitte] & companheiros decidem manter de pé o projecto de férias na casa do mais abastado do grupo, Max [François Cluzet], hoteleiro de profissão e talentoso exibicionista. E é então que entre ‘flirts’ vários, jogos de praia, visionamentos de vídeos de férias de anos passados, lautos almoços e ainda maiores jantaradas que o grupo se vai revelar.
Para quem viu o filme «A Última Noite» e se recorda do rapaz francês de bom trato que é apaixonado pela personagem de Keira Knightley, acaba de descobrir o argumentista e realizador deste «Pequenas Mentiras entre Amigos». Isso mesmo, Guillaume Canet, um dos mais prestigiados actores franceses da nova geração, assina este filme maravilhoso onde o espectador se deve preparar para o melhor e para o pior. Ou seja, para rir muito e chorar ainda mais. Aliás, nem é de estranhar: não é por acaso desta matéria que se faz afinal a vida? E apesar de se reconhecer no filme alguns excessos sentimentais e uns minutos que poderiam ser poupados na montagem, a verdade, meus caros, é que esta é a melhor proposta de cinema actualmente em exibição nas salas para quem gosta de celebrar a vida através da 7ª arte.
E «Les Petits Mouchoirs», no seu título original, é muito mais que um exercício de entretenimento puro já que exerce uma crítica bastante dura a uma certa burguesia que vive embrenhada num jogo de aparências tal que aquilo que importa unicamente é mostrar. Mostrar bens materiais, mostrar bons relacionamentos de amizade e de índole diversa e, ‘last but not least’, aparentar felicidade. O pior é quando à noite as luzes se apagam, o escuro convida à reflexão e o silêncio da noite leva a que se tenha sobre os actos praticados uma lucidez que torna tudo tão verdadeiro quanto atroz. Nesses momentos não há hipocrisia que valha e aqueles que durante o dia se entretêm no mentiroso jogo da felicidade caem então num naufrágio emocional que demonstra não apenas a sua fragilidade como a desorientação de que são vítimas. Apesar disso, o filme de Guillaume Canet, que tem um leve registo autobiográfico, mostra como pode ser tão falsa aquela frase que nos diz que os amigos são para as ocasiões. Pelo contrário, a acreditarmos no filme este prova que na amizade o sentimento que mais predomina é o egoísmo. Claro que é duro dizê-lo e muito mais reconhecê-lo, mas o facto é que as acções deste grupo de amigos a cultivarem a mais pura infantilidade emocional e racional parece estar tão perto de nós que quase nos faz querer afundar no sofá da sala de cinema como se também nos coubesse alguma culpa pelo que sucede na tela.
Para além da estrutura narrativa simples num filme com uma profundidade psicossocial que à partida estamos longe de imaginar, há ainda dois destaques a fazer: a extraordinária banda sonora, tão agradável quanto apropriada, e a excelência de um argumento onde cada personagem faz esquecer inteiramente o actor/actriz que a defende. Com uma excepção, claro: a que se refere aos olhos lindos e sorriso meigo e triste de Marie, directamente saídos da beleza de Marion Cotillard.
Finalizando, há que não esquecer: «Pequenas Mentiras entre Amigos» é o cinema como celebração da vida e um filme a não perder.


«Les Petits Mouchoirs», de Guillaume Canet, com Marion Cotillard, Benoît Magimel, Gilles Lelouche, Laurent Lafitte e François Cluzet


sábado, 16 de julho de 2011

Medo de amar

[A actriz Nastassja Kinski]




Da janela da minha sala vejo o dia lá fora, os ramos das árvores a movimentarem-se violentamente e o calor do Sol que parece indecifrável disfarçado pela ventania que traz em reboliço o pó da estrada, as folhas caídas no chão, um pedaço de lixo aqui e ali, neste passeio e naquele. Apesar do vento, do Sol, há neste dia uma espécie de lentidão voluntária do tempo. Ligo a televisão e desinteressado na programação mudo vertiginosamente de canal. Travo repentinamente num filme falado em francês
Pode ser um filme de Eric Rohmer, de François Oson, de Michael Haneke, não sei bem. Na cena que se desenrola no momento, um homem olha bem nos olhos doridos de uma mulher, doridos como os olhos dele parecem estar, e diz-lhe pausadamente o que ama nelas, aquilo que nas mulheres lhe faz despertar o amor.
Sim, ele gosta das mulheres bonitas, mas não daquela beleza que parece de imediato trazer estampado no rosto o sorriso do Sol. Não, sobre o rosto lindo de uma mulher, e linda é a mulher para quem aquele homem fala, tem de pairar uma sombra a que os olhos do homem se vão habituando, habituando à claridade, a ela, ao seu rosto lindo. Se assim for, ele, aquele homem, e é ele quem o diz, sabe desde logo que vai amar essa mulher. E se sentir que há algo que os seus lábios trémulos insistem em silenciar, que aquilo que pode ser um pequeno trauma a sossega e impede da alegria tola seduzida por uma melancolia tranquila, sedutora, tanto melhor. E então, como que por encantamento os olhos da mulher para quem fala já não se mostram doridos, há neles um vislumbre claro de luminosidade, de felicidade. Mas nos olhos dele surge agora um ligeiro mas estranho sentimento de temor. Talvez porque como muitos outros homens - e mulheres, ele sabe que receia ter aquilo que quer. E é óbvio que ele quer aquela mulher.