sábado, 25 de agosto de 2012

360: A Vida é Um Círculo Perfeito





A vida não é um círculo perfeito



Há filmes que nasceram para levar porrada da crítica especializada. É o caso de «360», o mais recente filme do brasileiro Fernando Meirelles. A pergunta que se coloca é se podemos estar de acordo que um filme onde se notam claramente algumas deficiências narrativas causadas sobretudo por um argumento pobre e que não cumpre no atrevimento a que se propunha pode ainda assim agradar-nos particularmente. E a resposta é claramente afirmativa. E se me perguntarem porquê eu poderia deixar aqui ene motivos a começar pela presença discreta mas sempre sedutora de Rachel Weisz. A linda, elegante e competente Rachel Weisz.
Mas sim, Meirelles faz o seu filme através do mosaico de histórias que foi celebrizado por esse brilhante e inesquecível «Magnólia» [1999]. E falha. Mas mais falha quem escolheu o título português para o filme. Que raios, a vida não é um círculo perfeito por mais voltas que demos e no final venhamos invariavelmente ter ao ponto de partida. Pelo contrário, a vida é feita de cabeçadas e trambolhões, acasos felizes e infelizes, amores e desamores. E de escolhas. Aquelas que fazemos por nós e as que outros fazem e nos atingem como uma bala certeira. E ou morremos da ferida ou a saramos e recuperamos. É disto que fala «360». Penso eu. E já agora permitam-me a confissão de gostar muito que os filmes me obriguem a pensar os labirintos em que o quotidiano de cada um de nós se embrenha na tentativa de [sobre]viver. De viver e ser feliz. E não, insisto: a vida não é um círculo perfeito, meus caros.

Meirelles, o brasileiro que filmou a beleza dramática de Rachel Weisz em «O Fiel Jardineiro» [muito obrigado por isso, sô Meirelles] parte neste seu filme de vários microcosmos das relações humanas para concluir que aqui e ali há sempre um ponto onde as vidas distantes se aproximam, cruzam e condicionam. Para protagonizar a sua história escolheu atores e atrizes conhecidos – a já referida Rachel, Jude Law e Anthony Hopkins que no mínimo nunca conduzem as suas personagens em piloto automático – mas também perfeitos desconhecidos como a interessante Danica Jurcová [a prostituta de olhar doce na procura ‘fácil’ do seu paraíso na terra]. Andou algures por Viena, Bratislava, Paris, Londres e Colorado, citando apenas estes locais para não fazer deste texto um livro geográfico, e falou-nos de adultério, chantagem, do drama de pessoas desaparecidas, de abuso sexual, de prostituição, de vida e de morte, de paixão, de amor, de ódios. E de escolhas. E com isso construiu um filme bastante equilibrado.

Voltando à frase com que iniciei este texto, «360» tem ainda o mérito de substituir o ginásio para muitos que queiram libertar tensões. Mas reparem, que ninguém fique incomodado com esta acusação [de facto, é de uma acusação que se trata, as minhas desculpas] já que não vejo mal nenhum nisso. Até porque, e aqui o declaro, por vezes também o faço e queima mais calorias que duas aulas seguidas de cycling. Mas não, em «360» não o vou fazer, recuso-me. Porque a vida não é um círculo perfeito e o filme me deu a oportunidade de o relembrar. E porque me agrada [quase todo] o cinema que se propõe retratar a complexidade humana. E esta minha tendência pode até ser um defeito mas convenci-me que é do meu feitio.



«360: A Vida é Um Círculo Perfeito», de Fernando Meirelles, com Rachel Weisz, Jude Law, Anthony Hopkins, Danica Jurcová, outros


Prometheus




Promessa por cumprir

«Prometheus», no regresso de Ridley Scott ao universo Alien, é um filme desinteressante com uma história difusa onde a conceção visual substitui a atmosfera densa que fez dos anteriores filmes uma das sagas de maior sucesso do cinema de ficção científica. Resta-nos a performance sem mácula de Michael Fassbender, um dos atores do momento a acentuar ainda mais a futilidade do restante elenco. Tiro na água e nada a acrescentar quanto à tão procurada origem da espécie humana. Aguardemos pelo próximo capítulo se não com respostas concretas que ajudem a desvendar o mistério pelo menos com melhor cinema que a produção de 2012.

«Prometheus», de Ridley Scott, com Michael Fassbender, Charlize Theron, outros



sexta-feira, 27 de julho de 2012

Vergonha





O homem preso no seu mundo

«Vergonha», de Steve McQueen, é, depois de em 2008 ter prometido muito com «Fome» [«Hunger» no seu título original], um filme cuja descida aos abismos da complexidade humana se vê subalternizada por uma perfeição plástica retirada da contenção visual com que a câmara do realizador filma um homem preso ao seu próprio corpo e às incapacidades afectivas que lhe estão subjacentes. Mas é pena esta inversão de valores no próprio filme dado que o espectador corre o risco de passar ao lado do que nele realmente importa.
Ainda assim, Michael Fassbender é perfeito no papel de Brandon, este que aparentemente leva uma vida de invejar. Profissional admirado pelos seus pares, sempre impecavelmente vestido e elegante até nos gestos, aos trinta e poucos anos Brandon é um vencedor na cosmopolita Nova Iorque. Mas como quase sempre acontece, existem muitas diferenças entre o que é público e o que é privado e Brandon está amargamente dependente das sensações por não ser capaz das emoções. No seu computador abundam as visitas a ‘sites’ pornográficos, nos armários do apartamento onde vive sozinho amontoam-se as revistas da mesma temática e o homem que facilmente poderia ter o amor das mulheres paga para ter sexo. E a razão para isto reside precisamente no facto de Brandon ser incapaz de corresponder ao amor de uma mulher, física e emocionalmente.
Steve McQueen expõe então a nudez de Fassbender para mostrar um Brandon sem capacidade para terminar com o seu tormento a não ser atingindo orgasmos a solo ou cavalgando prostitutas sem sequer sentir as mulheres a quem paga para possuir. E no entanto o mundo de Brandon decorre de forma pacífica e mantém-se controlado até que surge Sissy [Carey Mulligan], a sua irmã emocionalmente frágil e dependente. Ou seja, precisamente o oposto de si. É então que o mundo de Brandon se desnuda como um corpo a precisar de agasalhos e a vergonha do homem perante as suas insuficiências afectivas o faz perder aquilo que era a sua maior protecção: a privacidade da sua existência.
Em resumo, «Vergonha» é um filme de rara preciosidade estética. No entanto, a mais recente obra de Steve McQueen está tão próxima da tristeza das personagens de «Magnolia» [1999], de Paul Thomas Anderson, quanto do drama do protagonista de «American Psycho»[2000], de Mary Harron. E a dor de Brandon torna-se tanto mais palpável quanto maior é o seu desequilíbrio entre o que deseja e aquilo que o faria feliz. Aqui se prova que mesmo rodeado de um sucesso aparente o homem pode permanecer só. E terminar refém da sua própria angústia.

«Shame», de Steve McQueen, com Michael Fassbender e Carey Mulligan



sexta-feira, 4 de maio de 2012

O Delfim

 [Rogério Samora e Alexandra Lencastre protagonizaram «O Delfim» [2001], de Fernando Lopes]



Amor de perdição 

     
      [Durante 48 longos anos Portugal fechou-se ao mundo, definhou. Num canto esquecido da Europa arrastava-se um país afundado na sua orgulhosa pequenez advinda da conceção totalitária de um governo que atropelava direitos e esquecia deveres para com o seu povo. Duas únicas portas para o exterior funcionavam ininterruptamente: aquela que nos levava até África onde decorria uma guerra fratricida que nem sequer soubemos como terminar e uma outra cuja soleira era normalmente transposta galgando campos com a dor estampada no rosto, alma sofrida pelo avizinhar da saudade e uma sacola cheia de nada carregada sobre os ombros atravessando rios e fugindo às autoridades em busca de uma nova esperança numa terra estranha e que era a porta da emigração. Mas por cá ficavam outros, ficava um povo que exibia no olhar uma estranha dignidade. Um povo acostumado à submissão, a vergar-se ao poder dos grandes senhores. Os senhores donos das terras, os senhores que tudo podiam.]


     
Senhores como Tomás Palma Bravo, o dono da Lagoa, da própria Gafeira. Ele, Palma Bravo, homem sem limites seduzido pelo perigo e igualmente senhor da noite lisboeta, não a de agora mas aquela que se fazia com uma garrafa de Whisky ao largo e em que duvidosas eram outras senhoras porque as da noite nos bares eram decididamente putas. Ele que é também o senhor de «O Delfim», romance escrito pelo saudoso José Cardoso Pires. E é ao mesmo tempo a centro de sedução de uma história que reflete muita da alma ainda recente da nação portuguesa e a causa maior da trágica derrocada humana que esta encarna.
Fernando Lopes, com a prestimosa colaboração de Vasco Pulido Valente que adaptou o romance para o cinema, conseguiu um feito de monta neste seu trabalho. Não só fabricou um excelente filme como deu uma nova dimensão a uma das mais relevantes obras da nossa literatura. O filme é espantoso na recriação atmosférica de um passado fresco na nossa história. É mágica e rigorosa a perfeição de identidade do filme enquanto retrato sociológico da época. Uma época em que Salazar expirava, uma época de fantasmas onde havia até uma brigada oficial de exorcistas, a PIDE. E os fantasmas pairavam sobre a lagoa da Gafeira em poética metáfora. Vagueavam sobre as águas paradas envoltas no nevoeiro e nas sombras do arvoredo circundante, captadas em cortante tristeza pela câmara de Lopes. «O Delfim»[2001] não é um filme de atmosferas sonoras ou visuais, é um filme de latente atmosfera humana que estando individualizada se percebe enraizada no pulsar próprio de uma nação. É, como alguém disse um dia mas em referência ao romance de Cardoso Pires, a história de um crime cuja arma assassina é o amor.
 
Fantástico o trabalho de composição das personagens. O observador passivo, a mulher alvo do desejo dos homens da terra mas que não pronuncia palavra, o criado maneta de tão errónea apreciação por parte do seu patrão, do seu dono, e o cauteleiro que simboliza a voz revoltada de um povo amarrado na sua própria impotência.
     
 Mas é em Palma Bravo e em Maria das Mercês que reside o âmago de tudo aquilo que despoleta a euforia do espectador rendido ao filme. Ele é um homem que julga ter nascido para os prazeres da vida, mas, crença maior, acredita sobretudo que é a vida que lhe deve fornecer todos esses prazeres sem qualquer partilha. De fina educação e natureza delicada, dá-se ao luxo de praticar a rudeza. Ela é uma mulher como o eram na altura as mulheres de família. Criadas para serem esposas e mães. Uma mulher atordoada pelo drama do abandono. Uma mulher de extrema sensualidade, uma mulher reprimida. E estas são duas figuras que fazem parte da nossa história. Uma que se passeava garbosa, a outra recolhida entre quatro paredes.
     
Acredito que Fernando Lopes não poderia ter escolhido melhores atores para protagonizarem as referidas personagens. Enquanto Alexandra Lencastre é a personificação física da criação literária que é Maria das Mercês, Rogério Samora deve ter conseguido com a interpretação do marialva Tomás Palma Bravo o papel da sua vida.
Por tudo isto, «O Delfim» de Fernando Lopes é um objeto fílmico revelador da ironia que a vida encerra em si mesma e que posteriormente se despoleta em forma de tragédia humana. Uma excelente transcrição de uma época específica da nossa portugalidade. É ainda um filme absolutamente meticuloso na forma como captou as subtilezas e conjugou os acessórios fundamentais e capazes de nos transportar até essa mesma época. Em suma, «O Delfim» é um claro exemplo de uma vertente a explorar pelo cinema português. E se isso for conseguido com acutilância creio que é possível a tão desejável harmonia desse tal cinema português com o espectador. Porque este cinema trabalha as memórias mais recônditas de nós, portugueses, como povo. E ainda que sejam memórias feitas de muita imperfeição, um povo de identidade muito própria. Quanto a Tomás Palma Bravo, “Silêncio que está em causa a honra de um homem; e a honra de um homem é para ser respeitada!”

O Delfim [2001], de Fernando Lopes, com Rogério Samora e Alexandra Lencastre


A morte de um homem do cinema






Fernando Lopes, 1935 - 2012

Morreu Fernando Lopes. Ficam os seus filmes e as nossas três ou quatro conversas sobre cinema, sobre Portugal, sobre tudo e sobre nada no restaurante de Alcochete.



segunda-feira, 23 de abril de 2012

assim assim





Do tudo e do nada

Onde começa e onde acaba «assim assim»? No ser-humano e nas relações, dir-se-ia. Mas não. De facto, num filme que começou por ser uma curta-metragem parece-me que para sua própria elevação por lá devia ter ficado. Sem um fio condutor que ligue o mosaico de histórias [?] que por lá se cruzam, sem sabermos de onde vêm e para onde se dirigem as personagens e o que as motiva, com conversas longas e maçadoras que destilam uma ideia estereotipada e simplista das ligações amorosas e das pessoas, «assim assim» é ainda um filme confuso que quer chegar a todo o lado mas acaba por não chegar a lado algum. Ficam a boa prestação de alguns membros do elenco [a curta aparição de Rita Blanco, por exemplo, mesmo que também eles andem meio perdidos entre bilhetes postais na noite lisboeta] e a falhada boa intenção do realizador Sérgio Graciano de fazer um filme de pessoas para as pessoas, ou seja, para o público em geral. Mas soube a pouco, muito pouco, quase nada.

«assim assim», de Sérgio Graciano



sexta-feira, 20 de abril de 2012

O contador de histórias


[Turkey Pond, 1944 - Andrew Wyeth]




Não conheci até hoje melhor contador de histórias que o meu avô. Sentava-se no cadeirão de vime do varandim da velha casa disfarçada algures no interior das árvores da quinta e sentava-nos a cada um de nós, a mim e ao meu irmão, em pequenas cadeiras ao seu redor. Depois dava uma baforada no seu cachimbo e perguntava se nos lembrávamos do palácio em frente ao Tejo bem junto aos paredões da ponte ferroviária. Claro que nós não recordávamos o dito palácio pela simples razão de nunca ter havido algum por lá. E perante o nosso protesto, ele dizia-nos: ‘pois imaginem que existiam dois palácios, um em cada margem.’ E, muito calmamente, lá nos ia ajudando a edificar os pilares de como se conta uma boa história.




quinta-feira, 19 de abril de 2012

Paixão 1


[Man with a Newspaper (Chevalier X), 1911 - 1914 : André Derain]






Esta manhã um jornal desportivo espanhol titula que ‘o futebol atraiçoou o Barcelona’. Eu não vi o Chelsea – Barcelona mas constou-me que a superioridade dos catalães foi arrasadora. No entanto, estou em total desacordo com o jornalista responsável pela frase que transcrevo. Porque se houve coisa que ontem aconteceu em Londres foi futebol. Até porque o futebol é uma das maiores paixões do homem. E por muito apaixonado que o homem esteja, por melhor que seja o momento dessa paixão, se a espaços existir no jogo um travo de amargura nada saberá melhor que o regresso às vitórias.  


Paixão 2


[Summer Interior, 1909 - Edward Hopper]


Ainda assim, o adepto de futebol dificilmente se conforma com a derrota do seu clube sobretudo se este tiver merecido a vitória. Provavelmente terá a mesma sensação que aquele homem que acabou de perder a mulher amada. Que lhe importa a ele se nos apressarmos a tentar animá-lo dizendo-lhe que o amor tem destas coisas, que há mais mulheres no mundo, blá, blá?... Nada, rigorosamente nada, aquela derrota já ninguém lha tira.



domingo, 15 de abril de 2012

Três






Filosofia alternativa do amor

 

«Três» poderia ser um drama intimista tão interessante quanto estimulante narrando de forma pouco convencional as venturas e desventuras de um triângulo amoroso não tão clássico assim. Desde logo porque se trata da história de um casal que no ano de festejar vinte anos sobre a sua união se apaixona, ele e ela, pelo mesmo homem. E dito isto está também contada a sinopse de um filme realizado por Tom Tykwer, o mesmo de «Corre, Lola,   Corre» [1998] e de «O Perfume- História de Um Assassino» [2006] entre outros. E poderia mesmo.  Até porque há no filme aquele realismo mágico das personagens que tantas vezes é característica exclusiva de algum cinema europeu. Poderia, disse bem, porque, na minha opinião, não é.
E não o é porque a realização de Tykwer, ele que é igualmente responsável pelo argumento, quis explicar em 119 minutos todas as questões ligadas à doença, à velhice e ao amor. E isto para não ser demasiado exaustivo. Assim, passa pelo filme uma panóplia infindável de referências filosóficas, incursões à poesia existencialista, às ciências biomédicas, à medicina e grande diversidade de manifestações culturais. Se juntarmos a isto a informação de que os protagonistas do triângulo amoroso são uma jornalista de televisão especializada em matéria científica [Hanna, a mulher], um cientista genético perito em inseminação artificial [Adam, o amante do casal] e um engenheiro de arte [Simon, o companheiro de Hanna], seja lá o que isso da engenharia de arte for, está tudo dito quanto às pretensões de eruditismo do filme. Mas o que resulta daqui é unicamente uma exposição de ornamentos inúteis numa história de vidas que se bastaria a ela mesma para redundar num grande momento de cinema.
Ainda assim, o filme tem algumas vertentes bem positivas sobretudo no tratamento que faz das personagens. Nomeadamente na subtileza com que faz o enquadramento de cada uma nas questões ligadas à sua sexualidade. A par disso, a realização de Tykwer faz com que essas mesmas personagens se passeiem pelos restaurantes, bares e ruas de Berlim atribuindo um estatuto cinematográfico à capital alemã como tantas vezes vimos fazer com Nova Iorque [através de Woody Allen, por exemplo] ou Paris, por diversos cineastas. E nesta 2ª adolescência que Tykwer permite aos quarentões Hanna, Simon e Adam é de salientar a insistência nos ângulos anatómicos de cada um, nomeadamente na coragem de Sophie Rois [ela que interpreta Hanna]. A amenizar os ouvidos um pouco arranhados pela difícil língua alemã há a meio do filme o soar de «Space Odity», de David Bowie, e, no final, um desenlace pouco surpreendente e algo insípido já que parece ter sido feito a pedido de várias famílias. A ver sem grandes expectativas.


«Drei», de Tom Tykwer, com Sophie Rois [Hanna], Sebastian Schipper [Simon] e Devid Striesow [Adam]



sábado, 7 de abril de 2012

Florbela





Existência inquieta


Não estará completamente distante da realidade quem acredite que a melhor poesia, aquela que nos impulsiona e rasga a alma, vem também ela de uma outra alma inquieta, de alguém em constante desassossego, de uma mulher ou de um homem em permanente conflito com a sua existência e aquilo que a rodeia. «Florbela», de Vicente Alves do Ó, esqueceu-se deliberadamente da literatura, da poesia, para se centrar nessa mulher assombrada e desencantada que ainda assim buscou avidamente a vida até que não obteve a morte. Não se poderá dizer que a ideia tenha resultado totalmente porque se não fosse a sua poesia emancipada e tão próxima do abismo como o foi a mulher, Florbela Espanca teria morrido na obscuridade de uma época onde os convencionalismos de uma sociedade castradora e controladora não permitiam veleidades de maior às mulheres, quanto mais a uma poetisa muito à frente do seu tempo.

Mas Florbela, tentando driblar a sua desdita, ainda procurou a inserção. Já casada com um médico de Matosinhos [protagonizado por Albano Jerónimo] terá então dito que o mundo já tinha dela aquilo que pretendia: era então uma mulher casada, honrada e, acima de tudo, discreta. Pobre mundo que a tanto obrigas, pobre Florbela Espanca que tinha de se negar a si própria para ser aceite pelos outros. Mas, inevitavelmente, esse seria o princípio do fim para a mulher que já denotava através da pulsão da sua poesia uma irresistível atracção pela morte. Porque como cantou outra desditosa mulher precocemente falecida cerca de um século depois da sua própria morte, para Florbela o amor foi sempre um jogo perdido. Como a vida perdida do irmão Apeles [corporizado por Ivo Canelas] afogando-se, ele e o avião com que procurava tirar os pés da terra e abraçar o sonho, nas águas frias do Tejo. O Tejo que não terá lavado as mágoas da poetisa que foi acometida de uma tristeza que não mais soube ultrapassar. Era então uma Florbela dividida entre o amor sereno e de pés bem no chão do marido de Matosinhos e a loucura apaixonada e apaixonante do irmão. Este que não pertencia a lugar algum em particular mas a todos os lugares onde pudesse assentar a fúria de viver com que procurava driblar o fogo da paixão que lhe consumia as entranhas.

Com nota positiva para o guarda-roupa, os cuidados na reconstituição da época e para o restante elenco, é no entanto imperioso realçar que Dalila Carmo está soberba no papel de Florbela. Aliás, é tanto e tão aflitivo o desespero no seu rosto e, noutra vertente da sua personalidade instável, a ânsia pelo infinito que o seu olhar denuncia que se por um qualquer sortilégio encontrasse a actriz algures numa rua de Vila Viçosa ou de Lisboa teria direito eu mesmo à minha própria assombração da poetisa. E aí talvez não resistisse a dizer-lhe como nós, os homens, fazemos a vida difícil aos vivos mas tratamos tão bem dos mortos. Se não, vejamos: a sua obra foi quase totalmente editada a título póstumo, depois da sua morte a poetisa virou quase mito e os seus poemas são cantados por vozes importantes e até já se converteram em sucesso de vendas [«Ser Poeta», pelos Trovante]. Para culminar, surge agora «Florbela», o filme. Quanto a Vicente Alves do Ó, o dedicado realizador de Florbela, terá cumprido o seu maior e mais importante objectivo. Melhor do seu trabalho não haverá para dizer já que a realização de Vicente do Ó demonstrou que ‘ser poeta é ter cá dentro um astro que flameja (…) é amar-te assim perdidamente, é seres alma e sangue e vida em mim’. E porque foi precisamente assim que viveu e morreu Flor Bela de Alma da Conceição Espanca, a poetisa Florbela Espanca, vale a pena ver «Florbela».



«Florbela» de Vicente Alves do Ó, com Dalila Carmo, Albano Jerónimo e Ivo Canelas


domingo, 29 de janeiro de 2012

Os Descendentes

 





A Viagem de Clooney

Alexander Payne filma a faceta mais genuína da América através das personagens dos seus filmes em busca do auto-conhecimento que as levará a um ponto sem retorno. Foi assim em «About Schmidt» [2002] e em «Sideways» [2004] e é assim em «Os Descendentes» [2011] com o advogado Matt King [um George Clooney humilde e fantástico] na recuperação do que lhe resta da família e na raiva que o amor também proporciona sem o negar. Com este filme, Payne demonstra ainda que a vida não é uma comédia mas o riso é um escape do ser humano para os dramas que esta lhe proporciona. E na raiva que sente, emocionado Clooney despede-se da mulher com um «meu amor, minha vida, minha dor» que descreve na perfeição o quanto sofre e ama. Filme a não perder, história de vida a reter.

«The Descendants», de Alexander Payne, com George Clooney



 

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Moratória


[Auto-retrato, Lucian Freud]



 

Um conhecido vosso com o qual eu próprio vou mantendo uma amizade umas vezes próxima outras nem tanto, faz hoje anos. Resignado com a dívida que tem com o tempo voraz e implacável, vai pedindo moratórias.



quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

A pergunta


M., dez anos de idade, um sorriso feliz desenhado num rosto de menina. Olhara-me atentamente, fixara o seu olhar em mim, investigou para lá do que via e fez a pergunta incómoda: ‘já alguma vez mentiste?’ Lembro-me de ficar sem pinga de sangue, de hesitar. Mas não, se já alguma vez mentira não era aquela a altura para repetir o meu constrangedor delito. Respondi-lhe com o meu melhor sorriso em tão difíceis circunstâncias. ‘Já, já menti.’ Ela não acreditou em mim e riu-se com vontade tendo voltado para o seu mundo povoado de inocência. Percebi então que lhe dissera a verdade parecendo que mentia. Ainda hoje me sinto mal por isso.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

É tudo política, pá!




Foda-se, diriam vocês, e eu reservo-me ao direito de concordar convosco. Cinema é vida, é emoção, é sentimento. E escrever sobre cinema é colocar no Word, numa folha de papel ou em meras palavras faladas toda a nossa individualidade, a infância terrível que tivemos, a adolescência insana ou outra merda qualquer que fez de nós aquilo que somos e como pensamos e sentimos. Agora, escrever sobre cinema contando erros, descontando um pontinho aqui e outro ali porque de facto o livro não diz nada do que o realizador projectou, porque o copo era azul e passou a branco, fazendo crítica aplicando uma mal amanhada fórmula ou método científico, ou objectividade matemática ou outra porra qualquer, isso não. Se não tiverem mais nada para fazer façam como eu e vão ver o Tom Cruise a combater numa Guerra Fria requentada algures no Dubai, em «Missão Impossível: Operação Fantasma». E se tiverem sorte, como eu tive, recuperarão forças num sono retemperador enquanto Tom Cruise aos cinquenta anos escala arranha-céus como se tivesse acabado de fazer vinte num planeta qualquer onde os humanos têm poderes especiais.






[Cartaz do filme «Missão Impossível: Operação Fantasma»]





Votos para 2012



Em 2011 pouco ou nada do que eu esperava viesse a acontecer aconteceu de facto. E esses são os meus votos para 2012: que pouco ou nada do que eu perspectivo aconteça realmente.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Os filmes de 2011

 
 
Os Dez Mais do Ano

Houve muitos e bons filmes em 2011. Para além destes houve outros e entre todos há sempre os que nos tocam particularmente. Daí que no ano que agora acaba, os que abaixo se destaca foram os filmes que mais e melhor me fizeram sentir que o cinema é de facto uma das mais fantásticas formas de arte que o homem criou. Em minha defesa, fica a convicção pessoal de que hoje penso assim mas amanhã poderei pensar de forma diferente. Não por incoerência, mas porque o passar do tempo, a vida, nos vai esculpindo na forma de sentirmos, pensarmos, de sermos.
Em 2011 houve igualmente lugar para as decepções. À cabeça, pela sua irritante descrença no ser humano e porque fazer cinema não é a única forma de psicanálise que existe, «Melancolia», de Lars Von Trier. E por insistir na podridão e no choque sem que se vislumbre intervenção construtiva nos seus filmes, bem de perto, a morder-lhe os calcanhares, «Biutiful», de Alejandro González Iñárritu.
 


1.


«Cisne Negro»


De «Cisne Negro» ficou-nos o fascínio por um filme extraordinário e uma sentida admiração pelo trabalho de uma actriz. E isto por mais obscura que seja a história que nos é contada e angustiante o perfil psicológico da sua personagem principal.

«Black Swan», de Darren Aronofsky, com Natalie Portman, Vincente Cassel, Mila Kunis e Winona Ryder







2.


«Pequenas Mentiras Entre Amigos»


Eles são um grupo de amigos entre os trinta e os quarenta anos. Uns vivem relacionamentos que já conheceram melhores dias, outros são casados e até têm filhos. Aparentemente felizes, quando à noite as luzes se apagam vêm ao de cima a fragilidade e desorientação de que são afinal vítimas. Para rir muito e chorar ainda mais e o cinema como celebração da vida. Indiscutivelmente, um dos grandes filmes de 2011.
 
 
«Les Petits Mouchoirs», de Guillaume Canet, com Marion Cotillard, Benoît Magimel, Gilles Lelouche, Laurent Lafitte e François Cluzet






3.



«Drive – Risco Duplo»


Porque a vida nem sempre é como a queremos viver e é possível o sacrifício por amor, porque o rosto sereno e aparentemente tranquilo de um homem pode esconder o âmago mais inquieto e as aparências iludem, porque a vida tem que ser vivida ainda que estranhemos os labirintos para que ela nos empurra e perante esse fatalismo a redenção pode significar perda e sofrimento, «Drive – Risco Duplo» é para mim a mais reconfortante surpresa nas estreias de cinema em 2011.

«Drive», de Nicolas Winding Refn, com Ryan Gosling e Carey Mulligan










4.

  
«A Árvore da Vida»


Numa viagem à América do pós-guerra e num Texas bucólico, os O’brien dividem-se entre um pai disciplinador, uma mãe doce e três crianças meio à deriva. Mas eles e nós também somos filhos, pais, seres que habitam este universo numa espécie de trânsito para a morte. Um universo onde vale bem mais acreditar que há tanto para viver até ao dia final ao invés de crer noutra vida esquecendo esta.
«The Tree of Life», de Terrence Malick, com Brad Pitt, Sean Penn e Jessica Chastain








5.



«Hereafter – Outra Vida»


«Hereafter – Outra Vida» é um filme que promete falar da morte mas que opta por dissertar sobre a vida. Uma história, ou um mosaico de histórias que se cruzam na estranha capacidade sensorial de um homem que se preocupa mais com o indivíduo e com os seus mais profundos dilemas que com a sociedade em que este possa estar inserido. E nesta espécie de conspiração do silêncio que une as personagens numa narrativa sóbria mas que nos oferece uma espantosa recriação do maremoto ocorrido no Índico há um par de anos atrás, emerge um actor extraordinário numa interpretação paradoxalmente humilde e cintilante pela sua extrema sensibilidade: Matt Damon.

«Hereafter – Outra Vida», de Clint Eastwood, com Matt Damon












6.


«Indomável»


Goste-se ou deteste-se, ninguém fica indiferente ao cinema de Joel e Ethan Coen. E o sentido de humor aliado à qualidade do texto assente em diálogos vivos e inteligentes prova que mais do que nos deixar durante dias e dias a pensar nos seus filmes, estes servem sobretudo para que o espectador desfrute deles. E apesar do filme estar mais próximo do poema nostálgico que da comédia insana, «Indomável» também é assim. E, com inteiro merecimento, é também um dos ‘meus’ Dez Mais de 2011.

«True Grit», de Joel e Ethan Coen, com Jeff Bridges, Hailee Steinfeld, Matt Damon e Josh Brolin







7.


«Um Método Perigoso»


A grande virtude do filme «Um Método Perigoso» é a de evidenciar que mais sedutor que perceber quais as complicações que levaram à doença psicológica, só mesmo a sagacidade mental de quem não pretende curar obrigando o doente a comportar-se através daquilo que o mundo espera dele, mas antes dar-lhe a perceber que apesar da sua aparente imperfeição há um lugar para si no mundo. E isso nunca através de um rótulo de anormalidade mas sim de aceitação da diferença. 

«A Dangerous Method», de David Cronenberg, com Michael Fassbender, Keira Knightley, Viggo Mortensen e Vincent Cassel






8.


«Meia Noite em Paris»



«Midnight in Paris», no seu título original, marcou o regresso em grande estilo do génio de Woody Allen num argumento brilhante, numa fotografia esplêndida recheada de personagens radiosas deste e de outros tempos, personagens da nossa história, vultos de sempre. E embora «Meia-noite em Paris» seja apenas um pequeno filme deixa de o ser porquanto se vai agigantando em nós fazendo-nos crer nas potencialidades do sonho e na validade de perseguirmos a nossa felicidade sem medo de cortar amarras e quebrar regras. Entrada directa para a lista dos Dez Mais.



«Midnight in Paris», de Woody Allen, com Owen Wilson, Rachel McAdams, Marion Cotillard, Adrien Brody, Kathy Bates, outros







9.


«Num Mundo Melhor»


Porque Susanne Bier e o seu filme merecem e porque é mesmo verdade que os actores e actrizes europeus têm verrugas na cara, varizes nas pernas e nem todos frequentam o Health Club lá do sítio, ou seja, são pessoas como a maioria de nós e não como aqueles caralhos dos americanos que acordam já barbeados e bem penteados e não cheiram mal da boca.

«In a Better World», de Susanne Bier, com Mikael Persbrandt e Trine Dyrholm





10.


«A Casa dos Sonhos»


Jim Sheridan e Daniel Craig contribuíram de forma decisiva para o sucesso de um filme surpreendente e mal amado, «A Casa dos Sonhos». Até porque este não é um filme de terror clássico como aparenta, é, quando muito, sobre o terror que invade a mente humana e a molda sob um escudo protector. Um dos dez mais, na minha opinião.
 
«Dream House», de Jim Sheridan, com Daniel Craig, Rachel Weisz e Naomi Watts