domingo, 31 de outubro de 2010

Os Irmãos Bloom









O admirável sonho dos Bloom





Neste mundo admirável mas por vezes tão esquivo e difícil, o maior privilégio a que alguém poderá aceder será o de viver a sua vida consoante a sonhou. E é precisamente desse sonho que nos fala o realizador Rian Johnson no filme que conta a história dos Bloom, dois irmãos órfãos que desde cedo tiveram que fazer pela vida. Johnson que em 2005 surpreendeu no Festival de Cinema de Sundance com «Brick». Bloom (Adrien Brody) é o mais sensível dos dois irmãos e aquele que verdadeiramente protagoniza as histórias escritas por Stephen (Mark Ruffalo), um escritor romântico feito argumentista de contos do vigário para os quais se socorre da inspiração de clássicos como Fiodor Dostoievski.



Apesar disso, a linha ténue entre realidade e ficção não é tão delicada assim e exerce sobre quem a segue uma pressão que pode tornar-se psicologicamente insustentável. É o que acontece a Bloom (Brody) que ensaia várias tentativas para fugir do mundo de fantasia e vigarice criado pelo irmão. Os dois decidem então executar um último golpe e para o fazer escolhem como vítima Penelope (a belíssima Rachel Weisz), uma herdeira solitária e tímida cujo maior hobby consiste em espatifar carros de alta cilindrada. Penelope é uma mulher excêntrica mas incrivelmente sedutora. Vem-se com o som das trovoadas, afoga-se em milhões mas sonha tornar-se contrabandista para ganhar tostões, e, claro, deste modo corre o grande risco de estragar os planos de Stephen (Ruffalo). Isto porque o sensível Bloom (Brody) não deixará de se apaixonar não resistindo ao poder de sedução de um exemplar perfeito e soberbo da bela casta feminina. Pelo meio dos três, os dois vigaristas e a potencial vítima, passeia-se a assistente japonesa dos irmãos Bloom. Ela que dá pelo nome de Bang Bang (Rinko Kikuchi), fala pouco (embora cante nos tradicionais bares de Karaoke de Tóquio) e é especialista em explosões.



O filme é divertido e as falas são de um modo geral inteligentes e de cariz profundamente psicológico. No entanto, o que mais se destaca deste projecto de Rian Johnson é a sua elevada ambição. Se não, vejamos: imaginemos que a todos nos é dada a capacidade de escrevermos o nosso próprio decurso de vida. Que pode haver de mais satisfatório? E se a dada altura esse sonho se desvanece por se tornar de impossível concretização nos for dada a possibilidade – triste mas extraordinariamente romântica – de tudo acabar, isto é, tal como o soldado no campo de batalha morrermos numa das nossas histórias? Ainda para mais sabendo que deixamos um importante legado: o de escrever para alguém que muito amamos um percurso final de vida pleno de felicidade. Poderá haver maior ambição? Creio que não.



Em resumo, apesar de algum desequilíbrio que se percebe, já que o filme não se aguenta por inteiro na dimensão enorme dos objectivos do seu realizador, o saldo final é claramente positivo. Sobretudo quando a história vem acondicionada num embrulho que transluz cinefilia por cada bocadinho da matéria com que foi composto. E se outra razão não houvesse para gostarmos deste filme, a sua capacidade de nos provar que as nossas vidas podem resultar muito mais daquilo que pensarmos para elas que o que na realidade acontece acaba por se tornar num motivo mais que suficiente para conquistar a nossa simpatia. Para além disso, em «The Brothers Bloom», no seu título original, Mark Ruffalo volta a ser o actor que tanto nos prometeu em «Podes Contar Comigo»(2000) e se Adrien Brody está uns furos abaixo daquilo que já nos ofereceu no passado, Rachel Weisz não sabe representar mal. E o seu sorriso, a sua beleza dócil, transporta-nos invariavelmente para a saudade daquele sorriso que nos faz, fez ou ainda fará sonhar. A caneta e o papel estão aí, a história a escrever está no âmago de cada um de nós.





«Os Irmãos Bloom», de Rian Johnson, com Mark Ruffalo, Adrien Brody, Rachel Weisz e Rinko Kikuchi






O Delator






Banhas, mentiras e cassetes manhosas







Depois de um início de carreira auspicioso com «Sexo, Mentiras e Vídeo», e, pelo meio, com outros sucessos na algibeira como «Traffic», «Erin Brockovich» e a saga «Oceans Eleven, Twelve e Thirteen» o realizador Steven Soderbergh continua a sua caminhada por atalhos e outros caminhos difíceis, locais esses onde podemos encontrar «The Informant», título actualmente em cartaz. E agora que está avisado, segure-se o espectador mais incauto ao banco onde acompanha o realizador nessa viagem atribulada já que compra um bilhete que supostamente o levará até aos anos 90, mas, valha a verdade, mais parece aportar nos anos 70. Ou seja, e já ao jeito de resumo prévio, a comédia dramática acaba mesmo por se transformar numa paródia que só não cai num gigantesco bocejo porque Matt Damon, o gordo e balofo Matt Damon, imagine-se, não deixa que o filme vá por aí.



A história tem base verídica e relata as aventuras e desventuras de um esquizofrénico ambicioso de nome Mark Whitacre (Damon) que não satisfeito com o seu lugar relevante de executivo numa empresa a auferir um vencimento de 350 000 dólares ano antes de impostos, resolve primeiro acusar os seus patrões de práticas ilícitas tendo-se tornado bufo do FBI para a obtenção de provas do crime, e, depois, acaba por culpar o próprio FBI de sevícias sobre a sua pessoa impoluta. Enquanto isto, a realidade dos factos que serve de inspiração ao filme é retratada por Soderbergh de um modo tão cáustico que é o próprio espectador que no final se sente tão mais estranho quanto a esquisitice daquilo a que assiste.



Posto isto, não será difícil perceber que vemos desfilar no ecrã espiões de trazer por casa, agentes da lei com formatura obtida por correspondência e empresários corruptos que, entre nós, nem para dar ainda mais colorido ao apito dourado nos serviam. Temos por cá bem melhor nesta matéria, suspeito. O filme salva-se unicamente pela prestação enérgica de um Matt Damon que engordou duas ou três arrobas para fazer este filme não perdendo com isso energia na língua, já que fala pelos cotovelos e debita mentiras ao ritmo do caudal de saída de água das condutas de Castelo Bode, uma barragem situada algures no Zêzere a poucos quilómetros de Constância.



Dir-se-á que Steven Soderbergh é um génio e que este filme o comprova. Sendo assim, eu assumo não ter estado à altura da sua genialidade já que vi o filme com bastante interesse inicial, mas entretanto este desvaneceu-se em mim e, por esta altura, já o esqueci completamente. Uma só nota final para Matt Damon que levou dois meses a recuperar a sua forma natural. Não tarda nada estamos a ouvir na rádio o anúncio tipo de uma dessas revistas do social a exortar o bom do cidadão a que «saiba como Matt Damon perdeu duas ou três séries de quilos em apenas dois meses; saiba tudo na Caras.» Ou será na VIP?







«O Delator», de Steven Soderbergh, com Matt Damon, outros

O Estranho Caso de Benjamin Button







Quando assisti ao filme «O Estranho Caso de Benjamin Button», confesso que ainda não tinha lido o livro de Francis Scott Fitzgerald, adaptado por David Fincher ao cinema. E arrisco dizer que ainda bem, pois a minha reacção ao trabalho de Fincher teria sido bem menos entusiástica. Na verdade, há em «O Estranho Caso de Benjamin Button» uma diferença clara e fundamental entre a literatura e o cinema. Isto porque a escrita se socorre da história insólita de um homem que nasce velho até desaparecer como bebé para ilustrar a fragilidade do amor e das paixões, que, por maiores que possam um dia ter sido, chegam a desaparecer de forma trágica se não apenas para um de modo igual para os dois elementos do par amoroso. Já o filme fica preso à disparidade temporal entre os dois amantes como se o desencontro amoroso passasse apenas por aí. E esta não é uma diferença pouco importante. Trata-se de uma questão de verosimilhança com a realidade já que acreditamos piamente naquilo que Fitzgerald nos quer transmitir, enquanto a ideia negativa de ficção está irremediavelmente presente na realização de David Fincher. Isto pese toda a carga emocional que o filme possa despejar em nós

O homem que não sabia viver sem o amor de uma mulher





João Ferro


O João Ferro morreu vai fazer ainda este Novembro 3 anos. Ainda não era velho, pouco mais de cinquenta anos cumpridos, quando se foi deste mundo. Conheci-o por acaso, noite longa de Inverno, noite fria cá fora, lá dentro eu e alguns amigos mais duas ou três bebidas para aquecer a alma e o corpo. Lá dentro do bar nas docas de Lisboa. O João Ferro era o João Ferro. Isto é, como o João Ferro só mesmo o João Ferro, não dava para existirem dois iguais. Falava noites a fio e nós – eu e os outros –, mais jovens que ele, ouvíamo-lo com redobrada atenção.



Calcorreara o mundo.



Fixara-se durante alguns anos no calor abafado de África, na humidade quente das mulheres africanas, dizia sem se cansar de o repetir. Tivera seis mulheres, todas lindas, afiançava com severidade a evitar as dúvidas. E oito filhos. De cinco das seis mulheres. Todas elas muito mais jovens que ele, 13 anos de diferença a última. Ele, João Ferro, filho de um duro Tenente da Força Aérea, jurava nunca ter vivido sem amar. Que amar lhe era tão precioso como o ar que respirava. E não, nunca fizera amor com uma mulher sem sentir uma cumplicidade especial, sem haver forte envolvimento emocional entre ambos. Respeitava as prostitutas mas nunca recorrera a nenhuma.



Por que não, João?, tu que és doido por mulheres, perguntavamos-lhe.



Porque as amava, explicava muito simplesmente. Às mulheres. Franzia o sobrolho, batia com o punho a fazer saltar os copos meio bebidos no balcão do bar e apregoava zangado que o amor não se paga. É uma partilha, defendia.



Partilha de quê, João?



Partilha de afectos, de cumplicidades, de desejos, de paixão. Olha lá, João, essa frase leste-a por aí, brincavam os outros. Mas o João Ferro não era homem de responder a provocações. Quando se deitava a descrever a beleza de uma qualquer mulher que amara, quase que lhe rebentavam de emoção as lágrimas pelo rosto abaixo. Aquela pele macia, suave, as pernas lindas, bem torneadas, os seios rijos, sedutores, a barriga lisa – oh, a barriga! -, os lábios ardentes, aquele mundo de devaneio a abrir-se para um homem! E partíamos.



Partiam ele e ela.



Partiam numa viagem louca, ofegante, transpirada, de chegada em gemida euforia. No fim, o gesto sereno de carinho, as mãos entrelaçadas na união dos corpos ainda soluçantes. Era um poeta, o João Ferro. Depois, meio bebido, meio cansado mas feliz, cabelo bem puxado para trás em gel fornecido pelo seu barbeiro de sempre em Cascais, ar aristocrático, lá seguia no seu Jaguar com 22 anos, matrícula espanhola. De Madrid. Até que um dia, atraiçoado pelo coração que tanta felicidade lhe dera, seguiu viagem num caixão castanho brilhante para o cemitério dos Prazeres. Sim, que o João Ferro não admitia outro cemitério que não aquele para o descanso final.



Dos Prazeres.

O Casamento de Rachel





Casamento Debaixo de Chuva



Do cineasta oscarizado por «O Silêncio dos Inocentes» (1991) chegou até nós «O Casamento de Rachel», cujo argumento se poderá resumir a um fim-de-semana que deveria ser apenas de festa mas se torna num carrossel de emoções quase todas elas bem amargas. Isto porque o regresso a casa de Kym vinda directamente de uma clínica de desintoxicação para assistir ao casamento da irmã – papel que valeu a nomeação ao Oscar de Anne Hathaway –, tem o condão de fazer desenterrar as memórias mais dolorosas da família, com especial incidência na morte do pequeno Ethan, irmão de ambas as jovens. Para além disso, tal como se sugere, Kym carrega consigo um longo historial de consumo de drogas e é, emocionalmente, uma bomba relógio prestes a explodir por toda a casa que se encontra recheada de convidados para a boda. Basta-lhe, para isso, abrir a boca ou mexer um simples músculo do seu corpo. Paul (Bill Irwin), o pai, continua a desculpar e proteger Kym, condescendência que aborrece tremendamente Rachel (Rosemarie DeWitt) perante a apatia de Abby (Debra Winger), a mãe, que aparenta fazer apenas o favor de testemunhar o casamento da filha. Abby que, tal como Paul, entretanto se divorciara e casara de novo.



A referência neste texto a «O Silêncio dos Inocentes» não é fruto do acaso. Na verdade, em «Rachel Getting Married», título original deste filme, o experiente Jonathan Demme resolve baralhar e dar de novo em termos formais o que na minha perspectiva não ajuda em nada o filme, a história que este conta e mesmo o espectador que fica meio atarantado com tanto solavanco de câmara que segue pelas diversas divisões da casa e jardins carregada aos ombros ao jeito de Dogma95. A intenção é boa e percebe-se o seu porquê, mas, como diz o ditado, de boas intenções está o inferno cheio e o propósito de convidar o espectador a entrar na festa(?) como se este participasse activamente nos acontecimentos não é feliz. Primeiro, e socorramo-nos de novo da voz do povo, a casamentos e baptizados só devem ir os convidados; depois, porque a trama é de tal modo dramática e psicologicamente perturbadora que convida à reflexão sobre aquilo a que se assiste e de tanto se sacudir a câmara prejudica-se a acção da mente; finalmente, porque os acontecimentos, os que se dão e aqueles que se evoca, já são por si só tão inquietantes que não era necessária esta mãozinha nervosa do realizador para nos abalar ainda mais.



Ainda assim, «O Casamento de Rachel» é uma interessante proposta de cinema que traz ao de cima os fantasmas de uma família disfuncional e desarticulada num momento que deveria ser de união e alegria. E como comédia dramática que é a gestão dos diálogos e dos silêncios que estes provocam, o movimento desordenado das personagens e a libertação das tensões acumuladas convergem todos para um denominador comum: o amor e a compreensão personalizados pelo pai de Rachel e Kym mas sobretudo por Rachel, ela que é uma mulher ainda bastante jovem mas que não abdica de si para se entregar aos outros. E esta é uma mensagem fundamental num mundo dominado pelo egoísmo e pela letargia tão bem simbolizado pela mãe das duas jovens, uma Debra Winger invariavelmente distante mesmo na hora de dar um beijo ou um abraço. Quanto a Anne Hathaway, é verdade que arranca mesmo uma interpretação fantástica personalizando uma jovem perturbada e desajeitada. Ela que confunde o riso com o choro e se perde nas suas emoções, mas, ao contrário daquilo que se poderia pensar, nunca perde a razão. A razão como consciência, entenda-se. E é por isso que Kym sofre.





Rachel Getting Married, de Jonathan Demme, com Anne Hathaway, Rosemarie DeWitt, Bill Irwin e Debra Winger


Dúvida





Calúnia





Numa das suas fantásticas homilias, o padre Flynn (Philip Seymour Hoffman) conta a história de uma mulher que tendo lançado um boato desprezível sobre alguém acaba por se arrepender e busca o perdão junto do padre seu confessor. O padre não lhe concede de imediato o perdão e instiga-a a subir ao telhado da casa onde habita com uma almofada de penas numa mão e uma faca na outra com o objectivo de rasgar o travesseiro ao vento. Quando a mulher regressa ao confessionário e lhe dá conta da missão cumprida, o padre não a perdoa desde logo optando por perguntar o que lhe restou do gesto. Uma imensidão de penas, responde-lhe a pecadora. E perante a nova missão de que o padre a encarrega, a de voltar ao local e apanhar todas as penas, a pesarosa mulher responde-lhe que isso é impossível já que estas se espalharam de tal modo que não é de todo possível reverter o mal feito. E é precisamente em volta destas questões, sobre as dúvidas de cada um – as que nos afectam no dia-a-dia e as lançadas sobre outrem – que nos fala «Dúvida», a adaptação de uma peça teatral escrita e encenada pelo próprio realizador, John Patrick Shanley.



Nunca esquecendo as suas origens teatrais, «Doubt», no seu título original, acaba por se tornar num filme de grande qualidade e inteligência alicerçado nas espantosas interpretações de Philip Seymour Hofmann e Meryl Streep, estes dois gigantes do cinema norte-americano, mas também de Amy Adams e Viola Davis todos eles nomeados para a cerimónia de entrega dos Oscar. Passada num colégio católico do Bronx nos anos 60 num período logo a seguir ao assassinato do Presidente Kennedy, a história coloca frente a frente a freira Aloysius (Streep), uma muito conservadora reitora que gere a instituição com mão de ferro, e o padre Flynn (o já citado Hoffman), um sacerdote progressista e emocional que defende alterações não apenas na gestão do colégio como nos métodos da própria igreja. Num período da história norte-americana de grandes mudanças eclesiásticas e reivindicações de direitos na sociedade civil, o filme aborda ao de leve questões como o racismo e a pedofilia, esta última hoje tão em voga, mas detém-se sobretudo na intolerância, na incapacidade de perdoar e naqueles que acreditam que os fins justificam os meios. Isto para, no final, tal como na homilia que se descreve acima, se chegar à conclusão que a dúvida atinge até os mais implacáveis. Mesmo que o mal feito não tenha já reparação possível.



Diria que sendo um filme que nunca perde o interesse para o espectador, «Dúvida» assenta numa realização recatada onde a câmara é usada sobretudo para filmar as prestações irrepreensíveis dos actores. Tal facto faz desta uma obra muito verbalizada o que neste caso soa a elogio. Ainda assim, algumas tomadas exteriores de cena que captam a força dos ventos e mostram as ruas desertas de um dos mais problemáticos bairros da cidade de Nova Iorque levam a que o intelecto e a comoção se cruzem nos altos e baixos de seres humanos presos à sua própria essência. «Dúvida» lança ainda um silencioso repto para que não se confunda emoções com factos evitando apontar os maus e os bons exibindo apenas almas à deriva vítimas tanto das suas convicções como das incertezas. Esta característica alicerçada em actores de primeira água que souberam aproveitar um texto extraordinário para dar o seu máximo, fazem deste um filme estimulante e a não perder.





Dúvida, de John Patrick Shanley, com Philip Seymour Hoffman, Meryl Streep, Amy Adams 

O Leitor







A Inquietante Hanna Schmitz



Um nome surge indissociável desta obra formalmente irrepreensível que desenha um retrato sensível e singular de uma mulher que se vem a descobrir como representante das SS, a que foi a abjecta polícia nazi: Kate Winslet. Absolutamente assombrosa no papel de uma personagem de extrema complexidade psicológica, a actriz britânica é perfeita e estonteante quando na sua fase inicial a componente erótica toma conta da história e mostra-se ainda mais admirável no devir inquietante de alguém que esconde um segredo terrível que se torna ainda mais horrível ao olhar alheio por teimar em esconder deste um outro segredo. Este, absolutamente compreensível e próprio da sua formação social e humana mas que o orgulho e a vergonha a obrigam a preservar dos outros.



Stephen Daldry, realizador anterior de dois filmes que reputo de brilhantes - «As Horas» (2002) e «Billy Elliot» (2000) – filma nesta sua obra uma visão que poucos ousariam divulgar dos protagonistas de uma das páginas mais negras da história da humanidade já que arrisca a incompreensão daqueles que não percebam que aquilo que se pretende não é perdoar e, claro, muito menos passar uma esponja sobre o holocausto e carrascos ao seu serviço. E fugir de forma tão sensível e inteligente ao habitual maniqueísmo em que forçosa e (arrisco mesmo dizer) muito justamente se cai quando se relata episódios da tragédia que as tropas de Hitler causaram no seio da humanidade é de um irrecusável mérito. Tal deve ser reconhecido sobretudo quando o filme nos é apresentado num embrulho cinematográfico de indiscutível qualidade e interesse até porque a originalidade da citada visão decorre do livro «Der Vorleser», de Bernard Schlinker, aqui adaptado.



Tudo se inicia quando um adoentado jovem, Michael Berg (David Kross), é ajudado por Hanna Schmitz (Kate Winslet) uma linda mulher que o leva até casa. Depois de alguns meses acamado com escarlatina, Michael regressa para agradecer a Hanna e depara com um cenário de inevitável sedução da mulher semi-nua a cuidar da sua higiene pessoal. o jovem rapaz e a mulher acabam por iniciar uma relação composta por muito sexo e sessões de leitura – dele para ela – de obras fundamentais da literatura universal. Poucos meses depois, Hanna acaba por desaparecer de Michael e somente anos mais tarde enquanto estudante de Direito este a vai reencontrar agora sentada no banco dos réus acusada do homicídio de centenas de judeus como guarda das SS no campo de concentração de Auschwitz. No decorrer do julgamento, Michael percebe algo que pode ajudar a antiga amante mas é incapaz de chegar ao gesto final mesmo que incentivado pelo seu professor de Direito, um fabuloso Bruno Ganz.



Anos depois, Michael (agora já protagonizado por um estigmatizado Ralph Fiennes) grava cassetes para que na sua cela Hanna continue a desfrutar das obras literárias que tanto amava. E se no olhar sofrido de Ralph Fiennes como Michael Berg se percebe a força que um grande amor pode exercer ao longo da vida dos homens e das mulheres, marcando inexoravelmente o seu percurso, é também através dos seus actos – ou ausência deles em defesa de Hanna - que Daldry prova que se pode compreender evitando acusar mas, contudo, não perdoar o que é imperdoável. Isto mesmo que se possa efectuar as mais dolorosas contextualizações do que levou à prática dos actos criminosos. «O Leitor» é, deste modo, e em minha opinião, humana e intelectualmente um dos mais interessantes filmes que o cinema norte-americano produziu nos últimos anos contando com um trunfo suplementar personalizado na prestação fabulosa de Kate Winslet que acaba por ajudar a solidificar o meritório conceito que a dá como a actriz do momento.





O Leitor, de Stephen Daldry, com Kate Winslet, Ralph Fiennes, David Kross e Bruno Ganz

Revolutionary Road





«Revolutionary Road»



Sam Mendes adaptou para o cinema o livro de Richard Yates e assume a tarefa da desconstrução do american dream e desagregação de um casamento que se consome à medida que a ambição de um, o marido, se desvia do sonho que foi de ambos mas que apenas a esposa mantém intacto. Até ao fim. Literalmente.



Kate Winslet e Leonardo DiCaprio carregam o filme às costas com interpretações relevantes, bem coadjuvados por um secundário – Michael Shannon – que ilustra o desencanto de uma realização na linha do grande sucesso do cineasta britânico, o aclamado «Beleza Americana». Intelectualmente estimulante e psicologicamente perturbador, o amor, o ódio e a indiferença vão-se acumulando numa palete de sentimentos contraditórios que conduzem as personagens por um caminho de ida sem volta.



No fim, Revolutionary Road, a rua, continuará imponente nas suas mansões unifamiliares e nos jardins bem cuidados onde a vida prossegue imperturbável. Umas vezes eufórica outras resignada mas invariavelmente indiferente aos dramas dos vencidos. «Revolutionary Road», o filme, vê-se com uma calma que causa estranheza já que é de uma serenidade enganadora que se trata porquanto somos invadidos pela perturbação e melancolia de histórias de vida já vistas e revistas. E não necessariamente apenas na tela grande da sala do cinema.




Vicky Cristina Barcelona






Fim de Semana Alucinante





Woody Allen foi, até há poucos anos, o cineasta da cidade de Nova Iorque, cidade onde nasceu, vive e filmava fazendo da grande metrópole americana mais uma personagem dos seus filmes. Depois de «Match Point» (2005), «Scoop» (2006) e «O Sonho de Cassandra» (2007), o realizador regressou à Europa, desta vez a Barcelona, para filmar «Vicky Cristina Barcelona». E a primeira reacção que o filme despoletou em mim é que Allen promete nele muito mais do que aquilo que chega a cumprir. Sendo a sua carreira pautada por diversas incursões analíticas ao universo das relações amorosas, não deixando de exercer uma crítica feroz às psicoses que afectam os seus intervenientes, desta vez Allen procurou ir mais longe tentando edificar uma outra visão do amor em contraponto com a prática reinante, prática essa que é imposta aos seus membros pela sociedade dita civilizada.



De férias na capital da Catalunha, Vicky (Rebecca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson) são duas amigas tão diferentes uma da outra quanto o podem ser a água e o vinho. Uma, Vicky, é moderada, tradicionalista e aposta nas relações amorosas sérias estando de casamento marcado com alguém que partilha da sua linha de pensamento. Outra, Cristina, salta de relação em relação não temendo o amor mesmo sabendo que as rupturas implicam sempre uma carga de sofrimento, assumindo-a. Enquanto uma tirou um curso sem qualquer saída profissional preparando-se para ser esposa e mãe, a outra procura incessantemente descobrir o rumo certo para a arte que lhe corre nas veias e que ainda não identificou correctamente. Em Barcelona conhecem o pintor Juan Antonio (Javier Bardem), um homem que acredita no amor livre e no sexo sem fronteiras mas que vive na ambiguidade de continuar a procurar em cada mulher aquilo que ainda ama em Maria Elena (Penélope Cruz), a sua ex. Juan Antonio vai abalar as convicções de Vicky, dar involuntariamente a entender a Cristina que aquilo que lhe falta é encontrar o homem certo e, através do relacionamento tempestuoso mas apaixonado com Maria Elena, provar que os grandes amores permanecem para a vida inteira independentemente dos seus protagonistas ficarem ou não juntos.



Mas onde falhou então Woody Allen? Primeiramente, no facto de não ter percebido a rica cultura espanhola e, consequentemente, não ter tirado dela partido. Secundariamente, e não menos importante, porque se referiu vastas vezes no filme à Barcelona de Gaudí e Miró mas fê-lo sempre como se desse provimento a uma encomenda que lhe fora colocada e não usando a mais-valia romântica que a capital da Catalunha lhe poderia proporcionar. Apesar disso, noutro campo, o analítico, Allen andou muito próximo de defender com sucesso a teoria da grandeza do amor. Este que tem, necessariamente, de se tornar imune a regras sociais ou aos rótulos que as excepções a essas regras facilmente adquirem. Allen teve igualmente nas suas mãos a oportunidade de provar que o erotismo é apenas a expressão mais inflamada do amor. Mas ficou-se somente por algumas ameaças meio envergonhadas da sua exposição. Quanto às interpretações, o destaque vai inteirinho para a sensualidade de Scarlett Johansson, a passear-se na tela com uma irresistível languidez, e para Rebecca Hall, que arranca a melhor interpretação de todo o filme. Quanto a Javier Bardem e Penélope Cruz, se ele é vítima do gigantesco estereótipo que é a sua personagem, ela pura e simplesmente prova que esganiçar-se até ao encarniçamento não é suficiente para fazer uma boa composição de uma personagem problemática. Nem pouco mais ou menos. Em suma, em «Vicky Cristina Barcelona», Allen volta a não conseguir pôr uma pedra sobre a monotonia de decomposição em que por vezes cai o seu cinema. E desta vez é com muita pena que o concluo, dada a simpatia que me merecerão sempre os grandes amores e o idealismo dos seus figurantes.







«Vicky Cristina Barcelona», de Woody Allen, com Scarlett Johansson, Rebecca Hall, Javier Bardem e Penélope Cruz


O Estranho Caso de Benjamin Button





Meet Benjamin Button?







Enrugado e a sofrer de artrites como se fosse um velho de 80 anos, é desta forma assustadora que nasce um menino que mais tarde receberá o nome de Benjamin. «O Estranho Caso de Benjamin Button» é a história de um homem que percorre a vida em sentido oposto já que nasce velho para morrer bebé. É também o mais recente filme de David Fincher, cineasta de «Se7en», «O Jogo», «Clube de Combate», «Sala de Pânico» e «Zodiac» o que significa que esta incursão no melodrama está nas antípodas dos seus (excelentes) filmes anteriores. Isto não sem que se percebam desde logo dois pormenores tão dramáticos quanto maquiavélicos do argumento: primeiro porque na sua estranha doença (que não existe na realidade) Benjamin Button tem marcado à partida o dia da sua morte uma vez que esta ocorrerá obrigatoriamente quando chegar a bebé; e ao longo da odisseia em que irá constituir-se a sua existência, nunca ele se poderá socorrer dos conhecimentos empíricos normais em qualquer outro ser humano que o ajudariam a uma melhor qualidade de vida. Porquê? Porque o seu caminho é percorrido de trás para a frente sem que tenha vivido as experiências normais do crescimento.



Benjamin Button (Brad Pitt a fazer lembrar a sua personagem em «Conhece Joe Black?») é, por todas as razões enumeradas, um ser humano frágil. E quanto a mim esse é o maior trunfo do filme, o que leva a que este atinja um plano muito elevado em questão de sensibilidade dramática. Benjamin conhece Daisy (Cate Blanchett) enquanto miúdos e as suas vidas confluem no que se poderá designar como evolução física por volta dos 40 anos de idade. E se para ele a verdade do coração é a única que importa, isso não significa que perca a consciência da necessidade que irá ter de abdicar do amor da mulher que o faz verdadeiramente feliz. E essa renúncia ocorre sem que o filme perca qualidades naquilo que mais procurou alcançar: humanismo e sobriedade dramática.



A vida não é, não pode ser, apenas uma viagem cruel e desprovida de sentido para a morte. A vida é feita de sonhos, de partilha, de cumplicidade. E a não ser por um breve período de tempo num percurso que vai desde os 80 anos até se extinguir no início, na idade de bebé, tudo isso será negado à personagem de Benjamin Button. E apesar do reconhecimento desta componente humanística forte que o marca, o filme perde por falta de ritmo na acção inicial. Nesta fase mais pachorrenta, o interesse reside apenas na admiração que é devida ao fabuloso trabalho de maquilhagem conseguido com Cate Blanchett mas sobretudo com Brad Pitt. E o que resulta de tudo o que neste texto se afirma, encontra-se na conclusão de mais uma vez estarmos na presença de um filme a ver quase exclusivamente com os olhos do coração. Isto sobe pena de perdermos toda a emotividade de uma história de vida tão atípica quanto tocante.








The Curious Case of Benjamin Button, de David Fincher, com Brad Pitt, Cate Blanchett, Julia Ormond e Elias Koteas

A Troca





Era uma vez na América



De facto, é um cliché inevitável: Clint Eastwood é um dos maiores realizadores da actualidade e herdeiro do cinema clássico de homens como Ford, Walsh e mesmo Sérgio Leone. Sem grandes concessões estilísticas mas com uma fotografia esplêndida que prende o espectador à tela desde o primeiro segundo, Eastwood (que faz 79 anos de idade em Maio) construiu em «A Troca» um filme tocante que conta uma história baseada em factos reais tão dura quanto revoltante de uma mãe em luta contra o despotismo de uma polícia que alia a arbitrariedade à incompetência.



Estamos em 1928 quando Christine Collins (Angelina Jolie), uma mãe que vive só com o pequeno filho Walter depois do pai do miúdo os ter abandonado a ambos quando este nasceu, chega um pouco mais tarde a casa após novo dia de trabalho na companhia de telefones onde é operadora e dá pela falta do rapaz. Feita a queixa à polícia, esta só passadas 24 horas a aceita para ao fim de uns meses aparecer com um outro miúdo que Christine desde logo percebe desesperadamente não ser aquele o verdadeiro Walter. Incapaz de reconhecer o erro, a corrupta polícia de Los Angeles força a pobre mãe a aceitar o filho de outra mulher como seu. Como Christine reage e luta para que a polícia aceite a falha e com isso volte a procurar Walter, a reacção das autoridades é inacreditável até à náusea chegando a internar compulsivamente a mulher num hospital psiquiátrico. Entretanto, quase por acaso, o Detective Lester Ybarra (um impressionante Michael Kelly) depara com um Serial Killer monstruoso que à sua conta assassinara de forma bárbara pelo menos vinte miúdos. Com estes novos acontecimentos e a ajuda de um padre (John Malkovich) que luta contra a repressão policial, o caso sofre uma reviravolta.



Se algo nos fica deste filme para além da força do amor de uma mãe que nunca desiste do seu filho apesar de seviciada por quem a deveria ajudar e apoiar, é a confirmação de uma certeza tão antiga quanto a civilização: que o poder exercido por quem não tem estrutura para o deter pode revelar-se de uma atrocidade insustentável. Depois, e no que concerne ao cinema, a convicção e força de uma narrativa que é simples somente na aparência. Como defendeu um dia Otto Preminger, o bom filme é aquele onde não se nota o dedo do realizador, embora tudo o que este faz o faça de modo deliberado. E esta capacidade Clint Eastwood teve-a mais uma vez, agora em «A Troca». Ainda para mais sendo obrigado à (brilhante) reconstituição de uma época, a dos anos 20/30 do século XX. Para terminar, quer-me parecer que o cinema que nos surge da mais recente filmografia de Eastwood se revela cada vez mais como um símbolo eloquente e cruel de uma América de contrastes, uma América que vagueia entre a magia do sonho e o mais terrorífico pesadelo. E esse drama está bem patente na tristeza do olhar de Angelina Jolie, pese o optimismo quase obsessivo da sua personagem indiferente ao pessimismo dos sinais que lhe vão chegando do exterior. Excelente proposta de cinema, este «Changeling», no seu título original.







«A Troca», de Clint Eastwood, com Angelina Jolie, John Malkovich e Michael

Duas Irmãs, Um Rei



[Maria Bolena (Scarlett Johansson) e Ana Bolena (Natalie Portman)]









As meninas boas vão para o céu, as más para todo o lado





Para quem aprecia filmes que procuram retratar um período da história universal, «Duas Irmãs, Um Rei» do inglês Justin Chadwick, pode não ser uma boa aposta. Mas se se perceber que o objectivo da realização pretende apenas servir-se dos dados da história para exercer uma reflexão bem mais psicológica sobre os protagonistas desse período da civilização do que narrar factos, então o caso muda de figura. E tanto Natalie Portman (como Ana Bolena) como Scarlett Johansson (como Maria Bolena), dão um recital de boa representação e ofuscam Eric Bana (o carismático – para o bem e para o mal – Henrique VIII de Inglaterra), prendendo sobre si e as personagens que corporizam, toda a atenção de um público já de si rendido à sua beleza ímpar.



O trabalho da realização é bastante competente sobretudo na evidência que consegue ao retratar personagens (pessoas) aliando essa reprodução à moral de uma época onde tudo vale na busca de poder. Chadwick, o já citado realizador, foi ainda suficientemente hábil concentrando-se na vertente psicológica de seres humanos invulgarmente interessantes sem nunca perder ritmo na acção nem o fio à meada. Adaptado do livro homónimo de Philippa Gregory, o filme resulta assim num muito interessante momento de cinema, não apenas pelo trabalho dos actores (acrescente-se a boa prestação de Kristin Scott Thomas - ela é Lady Elizabeth, a mãe das irmãs Bolena) mas também pela cuidada reconstituição da época. Embora, valha a verdade, a acção revolucionária de Henrique VIII, que chegou a ser excomungado pelo Papa da época, passasse de modo muito breve pela película e de forma escandalosamente secundária. Mas essa foi uma opção claramente tomada para a narrativa e ou se gosta ou se põe na borda do prato, não há nada a fazer.



O filme é ainda um hino às crónicas de paixão, traição e morte e tem em Ana Bolena a personificação da mais rebuscada inteligência, da astúcia e singularidade, uma víbora a que Natalie Portman deu um ar de vivacidade e formosura, qual modelo de tentação enviado pelo Diabo à terra. Já o peso de Scarlett Johansson neste filme é medido em ternura, nobreza de sentimentos, graciosidade da mais pura desprovida do disfarce e hipocrisia que o papel de Natalie Portman obrigava. Mas, como alguém disse, as mulheres boas vão para o céu e as más vão para todo o lado. Neste caso, isso significa que Maria Bolena não passou de amante do rei, a quem deu um filho bastardo, e que Ana Bolena chegou a rainha. E a filha de ambos (de Ana e de Henrique), Isabel I, governaria a Inglaterra durante 45 anos. Ana Bolena, essa, como se sabe, acabaria morta por decapitação à la francesa. Isto é, de pé, sem nunca se vergar ao carrasco, ao povo, ou quem quer que fosse, e o seu pescocinho delicado apenas foi decepado por uma elegante espada de metal muito brilhante.



Como nota de rodapé, sou obrigado a salientar a náusea que me causou observar como naquela época uma família, um pai, obrigou as suas filhas às mais vis sevícias no único intuito de granjear poder para si. É, de facto, aviltante e chega a ser quase reconfortante saber que também aquela gente, que existiu realmente, acabaria premiada com um corte de machada bem junto à nuca e que a sua cabeça rolou ignominiosamente (ignominiosamente? Ufa!) num estrado bem imundo ao som dos gritos triunfantes e odiosos de um povo que berrava sabe-se lá por que razões distintas.



The Other Boleyn Girl, de Justin Chadwick, com Natalie Portman, Scarlett Johansson e Eric Bana


A Rapariga Cortada em Dois





Claude Chabrol dá e tira*






Fugindo um pouco ao formalismo próprio de uma crítica de cinema séria, que este blogue também publica críticas mas nem tudo o que nele se escreve é a sério, sempre vos digo que Claude Chabrol, cineasta francês de «Les Biches», entre muitas outras obras de destaque do cinema francês, realizou em 2007 um filme com o peculiar título de «A Rapariga Cortada em Dois» e eu, graças a um DVD que fizeram o favor de me emprestar, só agora o vi.



A atirar a Woody Allen ou mesmo a Hitchcock, o argumento desenvolve-se por conta de uma jovem meteorologista, Gabrielle (Ludivine Sagnier), que se apaixona por um escritor já perto dos 60 anos de idade, Charles Saint-Denis (François Berléand) e acaba por casar com um jovem herdeiro, Paul Gaudens (Benoît Magimel), tão desequilibrado quanto o peso – que é muito elevado - do dinheiro da família.



Apesar de nos acenar com a bandeira da grandeza de um amor que quebra barreiras de idade (a paixão da bonita Gabrielle pelo escritor) e sociais (o magnata da indústria farmacêutica que se apaixona pela filha de uma modesta empregada de livraria), a realização de Chabrol revela-se maquiavélica já que acaba por não nos conceder nem um nem outro cenário: o escritor não deixa a mulher pela jovem apesar de apaixonado e a família abastada nunca chega a aceitar a plebeia no seu seio. O filme progride e há ainda umas quantas histórias por contar mas que para este texto deixaram de ter importância.



Ou seja, por que razão é que os realizadores da velha escola do cinema europeu se mantêm tão pessimistas que se limitam a filmar a realidade tal qual a pressentem, adicionando-lhes – neste caso particular - uma pitada de mistério policial e outra de conflito psicossocial? Meus caros, está na hora de apostar em força no amor derrubando barreiras e conquistando novos terrenos. Caramba, se a vida já é tão aborrecida para tantos para quê confrontá-los com essa mesma pasmaceira? No fim, Chabrol não resiste à consumação prática do simbolismo do título que deu ao seu filme e corta a pobre rapariga em dois num número de ilusionismo ao jeito de nem tudo o que parece é. Não havia necessidade.







[*Quem dá e depois tira, sempre o ouvi dizer, ganha um lugar bem quentinho no inferno; caramba, Chabrol, onde estavas com a cabeça?...]





La Fille Coupée en Deux
, de Claude Chabrol, com Ludivine Sagnier, Benoît Magimel e François Berléand

Quantum of Solace

[…e fiquei frustrado. Há uns anos escrevi isto sobre um dos filmes de Bond, sobre «Die Another Day»:]





Para Fieis Devotos de Bond


Religião: Insista-se na vertente religiosa de algumas personagens míticas do cinema porque James Bond regressou à Terra, que é, como quem diz, povoa novamente as salas de cinema mundiais numa nova aventura. Bond não promete muito. Melhor, não promete mais que aquilo que já ofereceu noutras aventuras, noutros filmes: dar luta sem tréguas aos maiores e mais megalómanos marginais do planeta, desafiar a traição com temerária sagacidade e sair ileso, manipular armamento de última geração em defesa da humanidade, passear a sua classe, distribuir charme, seduzir, amar e ser amado. E não se iludam, passear num veloz e elegante Aston Martin, ver as horas num sofisticado relógio Omega, beber Martinis ao início da noite num requintado bar de Hong Kong e acordar num luxuoso quarto de hotel de uma praia cubana ao lado de uma morena estonteante não é para todos, é somente para Bond, James Bond. Onde poderemos encontrá-lo de novo? Em «Morre Noutro Dia», com realização do neozelandês Lee Tamahori.



Expiação: Bond (Pierce Brosnan) é capturado após mais uma missão na zona desmilitarizada que une as duas Coreias. O espião sofre as mais cruéis sevícias, é torturado, atormentado. Acaba libertado numa troca por outro prisioneiro, mas é alvo da desconfiança dos seus pares. A sua folha de serviços não fora respeitada.



Libertação: Bond logra evadir-se e parte pelo mundo que nem um cavaleiro solitário em consolidação da honra em perigo porque questionada. Errando de Hong Kong a Cuba – onde se depara com a bela e enigmática espiã Jinx (Halle Berry) – e a Londres, 007 intenta localizar um criminoso inescrupuloso, que o atraiçoou, e evitar o rebentar de uma guerra calamitosa. O herói desafia as leis da física, prova que não envelheceu à passagem do seu 40º aniversário. E tudo isto com um sorriso trocista nos lábios. Entretanto vira as horas, deitara um último e ardente olhar à bela e tragara um derradeiro golo de Martini.



Cura e Salvação: Islândia, frio e muito gelo fora do cálice de Martini, um Aston Martin como viatura de serviço. Outra mulher a seus braços, quase loira, de seu nome Miranda (Rosamund Pike). Há uma missão por cumprir, um criminoso a travar. Gustav Graves (Toby Stephens), o bandido de serviço, terá pois que se haver com Bond. Uma missão impossível para si, dizemos nós.



O culto: Nesta oração, neste novo filme, digo, James Bond prova a pertinência da sua doutrina. Os seus actos temerários requerem a fé dos que crêem em si mas é de elevada sedução e encanto o mundo que promete a quem o adorar. A seu lado, anjos e demónios obtêm uma prestação adequada com destaque para Halle Berry, uma Bondgirl muito bem conseguida. Brosnan prova ser igualmente um dos mais fiéis intérpretes da missão que o pai de Bond, Ian Fleming, lhe confiou. Positiva também, acompanhando a evolução dos tempos, é a música de Madona que acompanha o ordinário da missa.]


[Hoje, repito, depois de ter visto o último filme de 007 sei que não era nada daquilo o que o seu pai, Ian Fleming, projectou para si, para ele, para o seu filho, para James Bond.]




Paris



[A beleza genuína, o sorriso franco, Juliette Binoche]







As Gentes, a Vida e a Morte, o Amor, Paris



Resumindo: em Pierre, irmão de Élise, é descoberta uma doença cardíaca que o levará à morte ou a um transplante salvador. Dançarino de profissão, Pierre vê a sua vida dramaticamente alterada do dia para a noite. E do alto do seu apartamento, Pierre passa a observador passivo das vidas frenéticas dos outros sem que, na perspectiva do dançarino, estes tenham a consciência de um bem que possuem e não dão o devido relevo. Um bem que ele agora entende de um modo diferente, sofrido, nostálgico: a vida.



Cedric Klapisch ficou famoso como cineasta fundamentalmente pelos filmes «A Residência Espanhola» e «As Bonecas Russas». Dessas muito interessantes experiências de cinema recuperou para «Paris» o seu actor fétiche (Romain Duris é Pierre) mas fez igualmente uma aquisição que eu reputaria de essencial para o seu elenco: Juliette Binoche (ela é Élise). Isto, porque a figura de Binoche transmite quase por si só todo o leitmotiv da obra: um mundo de pessoas aparentemente vulgares mas cujas vidas, embora anónimas, possuem atributos capazes de lhes transmitir a felicidade que estão longe de sentir. E em muitos desses casos porque elas, as pessoas (nós, as pessoas), preferem (preferimos) valorizar o que lhes falta atingir daquilo que projectaram (projectámos) para as suas vidas ao invés de celebrarem (celebrarmos) as pequenas/grandes conquistas do quotidiano. E para Pierre, a simples conquista da vida que agora lhe surge como cenário remoto enviara para segundo plano as banalidades que nos são sugeridas pelo facto de vivermos em sociedade. Pela sociedade, em suma.



Deste modo, através dos dramas e ilusões dos ilustres anónimos de uma grande cidade como Paris se vai construindo um cinema inteligente e sensível que tem a dupla capacidade de nos emocionar e fazer pensar. Como Pierre questiona a morte, o espectador é tranquilamente levado a questionar a vida. E, atrevo-me a referi-lo, é convidado a não esbanjar aquilo que esta lhe oferece iludido com o que dela pretende.



Como trunfo que desequilibra o jogo a seu favor (o jogo do cinema, neste caso), o filme apresenta ainda uma actriz que alia a beleza ao talento, uma actriz que surge invariavelmente na tela como uma mulher intensa e estimulante, uma mulher, uma actriz, de seu nome Juliette, Juliette Binoche. A não perder.





Paris, de Cedric Klapisch, com Romain Duris e Juliette Binoche

Os Sonhadores







[Eva Green, de virgem abundante a Bond Girl]













A Arte de Expor a Paixão

A filmar a grandeza dramática, inebriante e de um erotismo quase obsessivo mas nunca gratuito do amor, o nome do cineasta italiano Bernardo Bertolucci dispensa apresentações. «O Último Tango em Paris», «Beleza Roubada», entre outros, são exemplos de filmes onde o gosto pelo amor e suas cambiantes de desvario, exaltação dos corpos e das almas que exultam através da união da carne ganha um relevo especial. Este «Os Sonhadores» é apenas (cuidado com este «apenas») mais um radiante exemplo do carácter afectivo – designemo-lo assim – do cinema de Bertolucci.



Paris é a cidade do amor, do sonho, da cultura, das elites intelectuais, da agitação e da revolta. E também do Maio de 68 e da Cinemateca Francesa, para nos situarmos definitivamente em «The Dreamers», no seu título original. É também a cidade de Theo e Isabelle, dois irmãos tão loucos no dia-a-dia quanto o são pela 7ª arte, e de Matthew, um jovem estudante americano a estudar na cidade das luzes e também ele um cinéfilo compulsivo.



Entre os três jovens nasce uma ligação que chega a assumir contornos de absoluto delírio não apenas na relação quase siamesa dos dois gémeos como pelo amor que nasce entre o elemento feminino do par e Matthew. Neste ambiente de cultura, de enfurecimento intelectual e desregramento ganha protagonismo o ardor da paixão entre o jovem americano e a sedutora francesa cujos contornos Bertolluci não se coíbe de expor no ecrã. Para aqueles que se sintam constrangidos pela visão de um pénis momentos antes da penetração inaugural numa vagina que sangra e palpita, este talvez seja um filme desaconselhável. Para quem entenda estes como factores naturais da vida, que não devem ser escondidos mas também não servem para um redutor papel de simplesmente provocar ou estimular, «Os Sonhadores» acaba por ser uma revisitação da Paris onde se deu «O Último Tango(...)» mas sem que exista ligação palpável entre ambos.



De salientar o ano de produção do filme (2003) e a aparição da virgem Eva Green que anos mais tarde conheceríamos como Bond Girl (a contracenar com Daniel Craig). No restante elenco Michael Pitt, um estudante americano em Paris, e Louis Garrel, o irmão siamês, estão à altura de um filme onde o Maio de 68 serve apenas como pano de fundo para as fantasias eróticas de Bernardo Bertolucci. O truque reside na capacidade que este tem em transformá-las em bom cinema. Mas atenção, há por aí muito boa e intelectualmente bem cotada gente a achar o filme insuportável. Eu cá não, gostei. Deveras.





«The Dreamers», de Bernardo Bertolucci, com Michael Pitt, Eva Green e Louis Garrel

Nós Controlamos a Noite

[Eva Mendes, estrela cintilante de «We Own the Night»]




Drama, Paixão, Morte, Vida – Nova Iorque, NIPD

«Nós Controlamos a Noite» inicia-se de modo cativante com uma cena de desejo e paixão entre um homem e uma mulher. Ela, Eva Mendes, bela, sedutora, disponível, encontra-se estendida num sofá, ele, Joaquin Phoenix, olha-a rendido aos seus encantos, debruça-se sobre o seu corpo fascinante, beija-a na boca, no seio, acaricia-a nas pernas, entre as pernas.



O filme, realizado por James Gray (que também escreveu o argumento) recupera para a tela grande do cinema a velha história da família que se perpetua ao serviço da polícia. Os seus fantasmas, os sonhos, desentendimentos e apelos naturais. O cosmopolita cenário nova-iorquino das épicas discotecas e dos homens e mulheres em busca de adrenalina e chama de vida dá lugar à luta entre o braço da lei e os reis do tráfico de droga nos dias que correm oriundos do leste europeu.



Agora que Joaquin Phoenix anunciou a sua retirada do mundo do cinema para se dedicar à música (o desempenho fabuloso que conseguiu ao interpretar Johnny Cash deve ter-lhe dado ideias) deve realçar-se as suas capacidades dramáticas que pese as diferenças físicas e de época mas que pelas expressões de dor interior e revoltada resignação chegam a lembrar o desencantamento existencial de James Dean. E neste filme, a química entre o actor e a sensual Eva Mendes funciona na perfeição. No restante, Mark Wahlberg não compromete mas também não se evidencia e Robert Duvall que é agora e sempre... Robert Duvall, grande entre grandes, contribuem para um muito agradável filme sobre os dramas da família, a guerra contra o tráfico de droga que continua longe de ser ganha e os conflitos que perturbam um grande amor entre um homem e uma mulher.


We Own the Night, de James Gray, com Joaquin Phoenix, Eva Mendes, Robert Duvall e Mark Wahlberg

Mamma Mia





Quando, em tempos, fiz crítica de cinema com alguma regularidade, uma das primeiras lições que aprendi relativamente à dicotomia público – crítico (sim, porque ela existe) é que há filmes em que é completamente inútil procurar estruturar um texto fiável ao filme e àquilo que o hipotético especialista sente a partir do seu gosto e, fundamentalmente, da sua concepção de cinema desde que vá em sentido inverso ao da maioria. Porque as exigências de um crítico, que vê e analisa ao pormenor centenas de filmes em cada ano, são certamente diferentes e em grande parte das situações maiores (maiores? ok, batam lá no ceguinho que diz tamanha barbaridade) que para um espectador eventual de cinema. Muitas vezes, para este só a ida ao cinema já por si é um acontecimento de monta. E pode-se lutar contra isto? Não, não pode nem deve. Mas pode-se continuar a ser honesto na análise mesmo sabendo que a maioria gostou, se sentiu agradada (muito mesmo) e vai cair em cima de quem ousar dizer mal do seu objecto de estima.



Vem tudo isto a propósito de «Mamma Mia», um musical com realização desastrada de Phyllida Lloyd. Sim, sim, o filme tem uma Meryl Streep empenhadíssima em fazer boa figura, tem um Pierce Brosnan a debitar charme mas sem pingo de talento para as canções e tem ainda, entre outros, Colin Firth como peixe fora de água, Peter Skarsgard a fazer de si mesmo, Jullie Walters sem saber muito bem o que anda por ali a fazer e, essa sim, Christine Baranski a safar-se muito bem nesta tragédia grega. Tragédia cinematográfica, diga-se, que o filme é todo ele energia positiva e alegria a rodos mesmo na hora de três homens dividirem entre si a paternidade biológica da filha única de Donna (Meryl Streep).



Pese tudo isto, a fita tem as melodias dos Abba e o Sol de uma paradisíaca ilha grega. E por muito que se diga que a narrativa é indigente e que reina a mediocridade em quase toda a matéria concepcional do filme uma vez que o cinema foi substituído por uma espécie de Prozac servido em película ao invés das tradicionais pílulas, o povo não quer saber. E se o crítico resolver dar a sua opinião e esta for negativa, então é porque não percebe nada de cinema, é pseudo-intelectual ou, também se vê muito por aí nestes casos, é um chato sem bom gosto algum. Daí que, meus caros, viva «Mamma Mia», vivam os Abba e Meryl Streep também, viva o cinema que não é para aqui chamado e vivam as melodias que qualquer um pode cantar. Já agora, viva a democracia e viva a república.





Mamma Mia, de Phyllida Loyd, com Meryl Streep, Pierce Brosnan, outros;

Ficheiros Secretos: Quero Acreditar




Melodrama Sensaborão



Lembram-se? A série televisiva «X Files» entrou de rompante em nossas casas tornando-se um sucesso imediato. Daí até à sua chegada ao cinema em 1998 com «Ficheiros Secretos: O Filme» foi o evoluir de todo um processo natural que, à partida, tenderia a funcionar como uma espécie de aperfeiçoamento narrativo de um universo do agrado de espectadores de todo o mundo. No entanto, com a chegada de «Ficheiros Secretos: Quero Acreditar» à tela grande do cinema, creio que se matou de vez o que afinal já há muito agonizava. Terá o universo de Fox Mulder e Scully deixado de se tornar interessante relativamente à sua actividade como agentes especiais do FBI? Se assim for, faça-se, a partir de agora, um filme sobre a paixão entre as duas personagens principais, os seus encontros e desencontros afectivos, os seus novos desafios profissionais ou outra qualquer temática ligada ao par mas perceba-se de uma vez que o funeral de «X Files» já foi realizado. Quando? Em 2008, por Chris Carter neste «The X Files: I Want to Believe» (no seu título original).



Se o filme é decepcionante para os amantes da série televisiva, em que me incluo, imagino que se torne um pouco intrigante para aqueles que por ventura nunca acompanharam os episódios televisivos. É que, em boa verdade, esta fita não é mais que um banal e convencional episódio televisivo – embora mais alargado - e levanta a questão sobre saber onde reside afinal o segredo de um projecto televisivo de sucesso como o foi «X Files». Na verdade, comparada a este insípido drama de trama de complexidade muito duvidosa e completamente fora de moda no thriller psicológico que ensaia, ainda para mais sem capacidade de prender os espectadores à tela, «X Files», a série, está anos-luz à frente do filme. A todos os níveis.



Passe-se um pouquinho a vista pelo enredo e tente perceber-se do que se fala: toda a vertente psicológica e mais enigmática do filme – o grande trunfo da série – se prende com as visões de um padre que, valha-nos Deus, é um antigo pedófilo em expiação. Por outro lado, enquanto Mulder está retirado em penitência das lides, Scully é médica num hospital e deposita toda a fé na cura de um doente que, atente-se, a igreja quer pura e simplesmente deixar morrer já que não acredita na cura para a sua doença – valha-nos novamente Deus. Mas não é só já que andam a desaparecer misteriosamente mulheres e vem a perceber-se (atenção a quem ainda não viu o filme) que os confusos e estranhos maus da fita não vieram de Marte, Plutão ou outra Galáxia distante mas sim da Rússia. Ou de lá perto. Que Deus lhes perdoe ou castigue. A argumentistas, realizador e produtores que os actores são meros operacionais das fitas.



Note-se ainda o carácter irónico da coisa: num filme que tem muito de religioso no sentido de devoção à série, eis que a religião assume aqui um carácter fulcral no sentido mais negativista. Curiosamente, o melhor do filme, num argumento pobre e simplista, é a interpretação de Billy Connoly como o tal padre pedófilo e visionário que até chora lágrimas de sangue. Em suma, também um tanto ou quanto ironicamente, não só não se extraiu o melhor do espírito da série como o filme acaba por não ter qualquer significado dramático se a esquecer. Caricato. Resta-nos vibrar com a possibilidade inventariada de Mulder e Scully finalmente poderem vir a materializar o seu sonho de amor. Mas, desgraçadamente, isso não invalida que com este filme não corramos o risco de cair do alto do fervor místico relativamente à série «X Files» para a condição de meros gentios sem fé nem confiança. Uma lástima.



«Ficheiros Secretos: Quero Acreditar», de Chris Carter, com David Duchovny, Gillian Anderson, Billy Connoly e Amanda Peet

O Cavaleiro das Trevas













Humanos, Demasiado Humanos

Heath Ledger morreu alguns meses atrás, já o sabíamos. Mas que o actor australiano, cujo mediatismo subiu em flecha depois de ter protagonizado um dos componentes do par amoroso formado por dois homens em «O Segredo de «Brokeback Mountain», deixara para a posteridade uma portentosa interpretação de Joker em «O Cavaleiro das Trevas», de Christopher Nolan, sabemo-lo agora. Na verdade, o Joker de Heath Ledger revela-se uma figura psicótica, é certo, mas mostra-se sobretudo um ser humano tremendamente inteligente e, por via da inquietude que o atormenta, alguém profundamente assustador na dimensão trágica, caótica e massiva dos crimes que perpetra. Este é um Joker que ri desalmadamente, mas, note-se, um Joker que ri com a força da tristeza que o condiciona, que faz da anarquia o seu mundo, que não quer recompensas, não se sabe para onde vai e que procura fazer humor fabricando uma espécie de ironia trágica no destino alheio. O Joker do falecido Heath Ledger é mau. Mas mau não apenas por estar na sua natureza sê-lo; é mau por estar no seu objectivo lúgubre pretender fazer crer que a maldade está na natureza humana, faz parte da sua essência.



Mas há mais neste suposto «blockbuster» de Verão para além do inquietante Joker de cara esfacelada por duas cicatrizes enormes e uma língua viperina que tão depressa está dentro como fora da boca. Em «O Cavaleiro das Trevas» observamos um filme impressionante pela forma como contorna a vulgar fita de super-heróis vindos da BD, vemos desenrolar-se perante nós uma trama reconfortante no modelo que encarnou para si de filme sério e pensante sobre – lá está – a natureza humana. E neste contexto, o Batman - excelentemente representado por Christian Bale - é apenas mais um ser humano entre tantos. Um (super) herói cujo poder reside nas potencialidades que a riqueza herdada dos pais lhe possibilitam, na educação e formação recebidas e no uso que faz da tecnologia de ponta na luta contra o crime. Nolan, o realizador, foi igualmente buscar para a sua história uma das figuras da história original: Harvey Dent (um Aaron Eckhart competente e imbuído do espírito dramático da realização do inglês). E com a ajuda do Tenente Jim Gordon (Gary Oldman contido como poucas vezes temos oportunidade de assistir nas interpretações do actor), e do próprio Batman, subverte no final do filme o verdadeiro decurso das coisas para evitar evidenciar a defendida – pelo Joker –
inata perversidade da alma humana.



«O Cavaleiro das Trevas» é um filme maior, é a prova da superior capacidade de Christopher Nolan («Memento», «Inmsonia»...) para a realização de filmes, mas é sobretudo uma tese que atesta a força dos autores da BD no seu processo criativo. Eles que não se limitam, como pejorativamente alguns defendem, a fazer uns desenhos engraçados em quadrinhos e a fantasiá-los com argumentos ligeiros a não requererem um muito apurado esforço mental. Com este filme, Nolan tratou brilhantemente uma outra arte que não a sua, a BD. Mas, fazendo aquilo que melhor sabe, foi o cinema quem mais lucrou com o seu excelente trabalho. E se Gotham era até aqui uma cidade amargurada, perseguida por criminosos indizíveis e pouco ou nada condizentes com a condição humana, tudo isso mudou. A partir de «O Cavaleiro das Trevas», Gotham City passa a ser uma qualquer cidade do mundo moderno atolada nos seus próprios pesadelos e nos criminosos que os provocam e fazem deste um mundo por vezes cruel de se viver.



«O Cavaleiro das Trevas», de Christopher Nolan, com Christian Bale, Heath Ledger, Aaron Eckhart, Maggie Gyllenhall, Gary Oldman, Morgan Freeman e Michael Caine

A Paixão do Cinema



Os beijos do cinema em «Cinema Paradiso», de Giuseppe Tornatore.
Aqui. E Também aqui.

CINEMA PARAÍSO



Realizada em 1988 por Giuseppe Tornatore, esta obra foi merecedora do Prémio da Crítica em Cannes no ano de 1989 e do Óscar para Melhor Filme Estrangeiro, em 1990; verdadeira homenagem ao cinema e a todos quantos vivem de modo especial a sua magia, o filme é ainda um hino à vida e à amizade.



Quando o realizador Salvatore (Jaques Perrin) recebe em Roma a notícia da morte de Alfredo (Philippe Noiret), o velho projeccionista que o ensinou a amar o cinema, vai recordar a sua infância numa pequena cidade da Sicília. Vivida numa época do pós-guerra marcada pela fome e pela pobreza, era o cinema quem transmitia a ilusão da vida aos locais. Poético e nostálgico porque segue as memórias mais profundas de alguém, pelo filme e através da tela do velho e depois renovado Cinema Paraíso passam vultos do cinema de sempre como Renoir, John Wayne, Chaplin e, entre muitas outras, obras como “O Médico e o Monstro” (1941), de Victor Fleming, e “A Terra Treme”(1948), de Luchino Visconti. Também as questões políticas, sociais e o impacto da guerra no povo italiano não são esquecidos pela afectuosa realização de Tornatore.



Uma cena absolutamente inolvidável depara-se ao espectador já próximo do final da fita. É quando Salvatore, numa sala de projecção em Roma e chegado recentemente do funeral do seu grande amigo de infância, observa emocionado o que Alfredo lhe prometera dar muitos anos antes: as cenas que cortara da película original dos filmes obrigado pela censura de então. Nessa sequência forte emocionalmente, arrasadora, brilhante, encontram-se alguns dos mais famosos beijos do cinema. E se “Cinema Paraíso” não é o melhor filme do mundo é certamente um dos mais belos e tocantes de sempre. Obrigatório, indispensável, fundamental.





[nota: este texto escrevi-o em tempos para a extinta revista Primeiras Imagens]

Reservation Road - Traídos Pelo Destino





Fragilidades do ser humano



Que acontece quando descobrimos que alguém que, aos nossos olhos, cometeu o mais horrendo dos crimes é afinal um ser humano tal como nós, devastado pelo sofrimento, psicologicamente arrasado pela culpa? Continuaremos a querer consumar a nossa vingança desacreditando na justiça das instituições ou deixaremos simplesmente que o sistema funcione por si e actue de acordo com as regras? Estas são perguntas que ficam no ar após o visionamento de «Reservation Road – Traídos Pelo Destino» e que poderiam muito bem servir de premissa para o thriller realizado por Terry George («Hotel Rwanda», 2004) a partir do livro de John Burnham Schwartz, de 1998, considerado pelo New York Times como um dos mais notáveis romances publicados naquele ano.



Um pai orgulhoso do pequeno filho não só vê este ser atropelado mortalmente como observa impotente a fuga do condutor assassino. Outro pai, o alegado assassino, vive os resquícios de um divórcio difícil e procura reconquistar o amor do filho. Enquanto um, o primeiro, tem até ao dia fatídico uma vivência descontraída e quase idílica num casamento perfeito com dois filhos fantásticos, o outro, o segundo, é um homem em conflito consigo mesmo, vítima das más decisões tomadas na sua vida até então. A partir do horroroso acidente, Ethan (Joaquin Phoenix) não conseguirá ultrapassar a dor da perda passando os dias obcecado com a busca de vingança e Dwight (Mark Ruffalo) afunda-se nos remorsos e procura encontrar em si a coragem para finalmente encarar de frente e assumir as responsabilidades pelos seus actos. A espiral de tensão aumenta até à inevitável colisão entre os dois homens.



Por vezes a linha que separa o cinema do telefilme é bastante ténue. E quando deparamos na sala escura do cinema com um filme de semelhantes características, ou somos emocionalmente tocados por ele ou torna-se muito fácil fazer com que este se torne num objecto fílmico de algum desdém. No entanto, nesta obra que trabalha o desmoronamento familiar, a relação filial de pai e filho sob duas perspectivas diferentes, a (des)confiança no sistema judicial e, por último, a transformação de um aparente demónio em mero e frágil ser humano, a sobriedade da narrativa acaba por colocar sobre os ombros dos actores todo o ónus de sucesso ou falência de um projecto à partida muito mais ambicioso. E quer Joaquin Phoenix, já hoje um dos grandes do cinema norte-americano, quer Mark Ruffalo, sobretudo este sendo que é um dos actores da actualidade que melhor expressa as debilidades psicológicas e de carácter do ser humano, atribuem ao filme uma expressão cinematográfica que só por si a realização não atingiria. Destaque ainda para o efeito de catarse que o final do filme proporciona depois de momentos em que o difícil é conseguirmos não nos emocionar com a aterradora visão de algo que queremos bem longe de nós mas sabemos poder estar tão perto. E nessa identificação, nessa dimensão de pânico para onde nos transporta o thriller assinado por Terry George, reside o cinema numa das suas facetas mais importantes: pese o lugar-comum, confrontar-nos com a vida tal como ela é.



«Reservation Road – Traídos Pelo Destino», de Terry George, com Joaquin Phoenix, Mark Ruffalo, Jenniffer Connely e Mira Sorvino

Bem-vindo ao Turno da Noite




Um artista à solta no Supermercado



«Bem-vindo ao Turno da Noite» (2006) deriva da curta-metragem de sucesso «Cashback». O título original do filme manteve-se, a realização e o argumento continuam a pertencer a Sean Ellis e os dois intérpretes principais foram preservados, Sean Biggerstaff e Emília Fox. A curta-metragem, datada de 2004, foi nomeada para o Oscar, embora não tenha vencido o prémio, e, aí sim, entre outros galardões em festivais mais ou menos mediáticos venceu o Prémio do Público do… FIKE – Festival Internacional de Curtas-metragens de Évora.



Antes de mais, ensaiemos uma ligeira introspecção. Há diferentes tipos de realizadores e realizações mas quedemo-nos apenas em dois: os realizadores que esquecidos de si visam unicamente erigir uma obra com base na história e na melhor forma de a fazerem chegar ao público, que eu designo de altruístas, e aqueles que buscam alguma atenção para si mesmos através da forma como constroem o seu filme. Sean Ellis está claramente neste segundo segmento de cineastas. Pelo menos a avaliar por este «Bem-vindo ao Turno da Noite», o que até se poderá justificar em determinada perspectiva dado ser um novato na realização. Posto isto, cabe a cada um de nós, através da individualidade que nos caracteriza, perceber se somos mais ou menos tocados por esta concepção cinematográfica tão legítima quanto a outra.



Ben Willis é um jovem estudante de Belas Artes a viver uma ruptura amorosa. A sofrer de insónia a partir de então, resolve inscrever-se para um emprego no turno da noite de um supermercado. A ideia é aproveitar melhor as oito horas que deveriam ser de sono e, ao mesmo tempo, melhorar a sua decrépita situação financeira. Envolvido desde o momento em que passa a trabalhar no estabelecimento num mundo de personagens bizarras, Ben vive o seu tempo imaginando-se com a capacidade suprema de… o fazer parar. Ao tempo, esclareça-se. Através deste primeiro paradoxo da realização, o espectador confronta-se então com um mundo de beleza que é idealizado por Ben e materializado quase unicamente na formosura feminina. Ao mesmo tempo, cresce no nosso herói um interesse superlativo por Sharon, a serena miúda da caixa registadora.



O que se observa no trabalho da realização reside quase exclusivamente na consistência gráfica que o filme claramente consegue, refira-se em abono da verdade. Isto, através de jogos artísticos de imagens em slow motion que dão lugar a perguntas quase metafísicas, feitas em off, mas a que o argumento responde de modo displicente e banal. Por outro lado, a sensibilidade e introspecção de Ben Willis dificilmente se conjugariam com o humor extravagante de um jogo de futebol a fazer lembrar o génio fílmico de Guy Ritchie. Outra das lacunas do filme prende-se, na minha perspectiva, com a incapacidade deste em transmitir emoção porque vive demasiado preso ao grafismo de esquemas concepcionais muito cerebrais.



Perante o exposto, felizes os contemplados com a graça deste «Cashback» versão longa. Como a fascinante visão dos corpos desnudados de lindas mulheres não chega para fazer bom cinema, não foi o meu caso. Para mal dos meus pecados, é claro.




Bem-vindo ao Turno da Noite (2006), de Sean Ellis, com Sean Biggerstaff, Emília Fox e Michelle Ryan

Anthony Perkins, 1932 - 1992



 [Anthony Perkins]



Anthony Perkins corporizou inúmeras personagens no cinema, mas o seu nome confundir-se-á para sempre com o do atormentado Norman Bates, no filme “Psycho”, de Alfred Hitchcock.
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Nascido em NY, a sua infância ficaria marcada pela morte do pai, o também actor Osgood Perkins, quando tinha somente 5 anos de idade. Antes de rumar a Hollywood e se iniciar no cinema, em 1953, pela mão de George Cukor no filme “The Actress”, Perkins estudou no Rollins College. Voltaria depois à sua cidade natal onde se afirmaria como um talentoso actor da Broadway para, em 1956, de regresso a Hollywood, filmar sob as ordens de William Wyler o ‘western’ “Friendly Persuasion” que lhe valeria a sua única nomeação para um Oscar. Depois de contracenar com actrizes e actores como Ava Gardner, Audrey Hepburn e Gregory Peck, e trabalhar com realizadores da nomeada de Stanley Kramer e Anthony Mann, a sua hora chegaria em 1960, quando Hitchcock o achou perfeito para o papel de Norman Bates, em “Psycho”, o clássico do cinema de terror psicológico. Seria o papel da sua vida e, pese embora o seu meritório esforço em futuros trabalhos, Perkins jamais lograria libertar-se do estigma de Norman Bates.



Na verdade, ao longo da sua vasta carreira também repartida pela TV e pelo teatro, o actor teria o ensejo de trabalhar com os melhores realizadores de então. Para além dos já citados, refira-se os nomes de John Huston, Minnelli, Chabrol, Elia Kazan, Welles e Lumet. Destaque, aliás, para a sua excelente interpretação de Joseph K., na obra “O Processo”, dirigida por Orson Welles e baseada no clássico literário da autoria de Franz Kafka. Em 1983, dirigido por Richard Franklin, voltaria a vestir a pele de Bates numa sequela de “Psycho”. Repetiria a experiência em 1986, em “Psycho III”, fita em que se sentaria igualmente na cadeira da realização. Realizaria ainda uma outra obra menor, “Lucky Stiff” (1988), quando anos antes, como que a provar a sua polivalência, co-escrevera o argumento do interessante “The Last of Sheila” (1973).



Parecendo ter vivido sempre numa inquietação paralela à da personagem que o catapultaria para a fama, o actor casaria em 1973 com a fotógrafa de moda Berry Berenson, de quem teve dois filhos – Oz e Elvis, mas nunca se livraria de rumores sobre uma alegada homossexualidade. Morreu em 1992, soçobrando a problemas respiratórios derivados de uma pneumonia. Curiosamente, a sua viúva faleceria um dia antes de se completarem 9 anos sobre a sua morte, vítima dos atentados ao WTC de Nova Iorque.

A Estranha em Mim


 
[DVD]


Jodie Foster é «A Estranha em Mim», um filme absolutamente fora de tempo na sua temática – ou talvez não – do irlandês Neil Jordan, homem que já nos agraciou com o seu cinema em «O Fim da Aventura» (1999) e «Michael Collins (1996), isto só para citar dois (bons) exemplos. Desadequado do seu tempo porque simplista numa dramatização que o cinema abandonou há muito, a do justiceiro urbano.



A história conta-se em breves traços: Erica Bain (Foster) é uma locutora que busca transmitir aos nova-iorquinos os sons da sua cidade, é alguém que lhes sussurra a coabitação presente nas ruas, nos parques, nos bares, nas casas de cada um. Resumindo, é uma figura da rádio que lhes aquece a alma através da sublimação da intimidade da grande cidade de Nova Iorque. Erica está noiva, prestes a casar, quando um bando de marginais a deixa em estado quase vegetativo e lhe assassina o namorado. A partir da sua recuperação física, a jovem locutora, mulher moderna e bem formada, vai procurar sobreviver psicologicamente através das execuções que perpetra em assassinos, violadores e outros que tais. Pelo meio, há um detective de nome Mercer (Terrence Howard) de coração mole a viver um momento menos bom na sua vida profissional e afectiva que reúne todas as condições para compreender os actos criminosos da atípica justiceira.



Não sendo um filme menor em todos as suas características, «The Brave One», no seu título original, comete a indesejada proeza de chegar apenas a quem não quer (os amantes da acção pura e dura) e não atingir o seu propósito (criar polémica através da ambiguidade da sua mensagem). Não ajuda igualmente à realização o rosto de forçado sofrimento a que invariavelmente obriga a sua personagem principal e a metódica escolha de raças e credos na concretização dos alvos de Erica Bain. Por outro lado, a complexidade que se busca ao recorrer aos momentos de idílio amoroso presentes na amargurada memória da mulher em contraste com a violência que vai percorrendo no caminho para impor uma justiça acima da lei, está muito mais adequada à BD que propriamente a um cinema actual e de sofisticada intelectualidade. Que, em pézinhos de lã, procurou alcançar. Contas feitas, constatamos estar na presença de pouco mais que um mediano objecto de entretenimento para ver e arrumar num dos cantos de mais difícil acesso no nosso baú do esquecimento.







«The Brave One», de Neil Jordan, com Jodie Foster e Terrence Howard

Promessas Perigosas





[DVD]



David Cronenberg já nos fizera prova de toda a sua genialidade numa cinematografia até então fora dos circuitos normais de cinema, longe do chamado cinema ‘mainstream’. Ainda assim, filmes todos eles fabulosos e a ver e rever como «A Mosca» (1986), «M. Butterfly» (1993), «Crash» (1996), «eXistenZ» (1999), «Spider» (2002) e o seu anterior «Uma História de Violência» (2005) tinham tido uma reacção muito positiva por parte do público em geral e não apenas dos conhecedores da sua obra inspiradora, embriagante. Em «Promessas Perigosas» (2007) o cineasta canadense atinge o auge das suas capacidades como realizador… regular. O filme é de uma perfeição absoluta e as personagens extraordinariamente bem defendidas por um lote de actores impressionante acabam por se revelar a génese de um mundo que (sobre)vive ao nosso lado mas do qual raramente nos damos conta. E ainda bem que assim é.



O argumento detém-se numa Londres estranha, nada perceptível a olho nu, num mundo subterrâneo orquestrado pela Máfia originária dos países de Leste. Nikolai Luzhin (Viggo Mortensen) é o motorista de Semyon (o alemão Armin Mueller-Stahl) líder da seita e dono do faustoso restaurante Trans-Siberian que lhe serve de capa para as suas actividades perversas. Kiril (o francês Vincent Cassel) é filho de Seymon e amigo inseparável de Nikolai. Para baralhar as contas e trazer uma dimensão nova de busca e perturbação ao filme surge Anna (esplêndida e bela Naomi Watts), uma enfermeira de maternidade em busca da paternidade de um bebé cuja mãe, obrigada a prostituir-se pelos mafiosos, morre durante o parto.



Viggo Mortensen é soberbo na sua personagem esfíngica, atormentada, dividida entre o dever e a moral, atacada por demónios que lhe tornam o olhar turvo, mortiço, sem sombra de felicidade. Se o actor ganhou uma áurea de encantamento com a personagem Aragorn (saga de «O Senhor dos Anéis»), de competência em «Uma História de Violência», neste filme coloca-se ao nível dos grandes actores de que Hollywood se serve para continuar a senda do sonho que desde o velho continente os irmãos Lumière lhe proporcionaram e o seu cinema tão bem soube encarnar. Excelentemente secundado por um Vincent Cassel louco, enérgico e imprevisível e pela cândida doçura de uma Naomi Watts determinada e sem ponta de receio no desafio que se impôs a si própria, Viggo Mortensen é apenas porção fundamental de uma poesia aflitiva mas pungente de um poeta – Cronenberg – cujo talento reside na capacidade de perceber a alma humana como poucos e de a transportar para universos percorridos no fio da navalha mas universos encantatórios na sua obscuridade e plenos de irresistível sedução. Extraordinário filme a não perder e a reservar algures num canto especial das obras cinematográficas sem mácula, verdadeiramente estimulantes.





«Eastern Promises», de David Cronenberg, com Viggo Mortensen, Naomi Watts, Vincent Cassel e Armin Mueller-Stahl