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quinta-feira, 14 de outubro de 2010

X-MEN




DO PAPEL PARA A TELA
     
      Numa época fértil em adaptações cinematográficas de figuras que nos povoaram o imaginário infantil e juvenil vindas directamente dos livros de quadradinhos, X - MEN é mais um exemplo de que nem sempre a coisa resulta satisfatoriamente. Apesar dessa factualidade, é-o para mim mas admito que isso possa ser questionável por outros, a causa maior do naufrágio qualitativo deste filme não reside no facto de não ser fiel às suas origens de Banda Desenhada.
     
      Sou daqueles que acreditam que qualquer adaptação cinematográfica - seja ela de um livro de ficção, da BD ou de uma história real -, tem que possuir "nuances" muito próprias, tem que alterar diversos factores para tornar a história propícia para as imagens na tela.
     
      E, no caso deste filme, até se pretendeu respeitar o passado criativo e para não desvirtuar a história original acabou por calcorrear caminhos desadequados. Se não, vejamos:
     
      Esta história foi editada pela Marvel, nos famosos "comic-book", pela primeira vez em 1963, há 37 anos portanto, tendo Stan Lee sido o argumentista e e Jack Kirby o desenhador. Seria retirada do mercado em princípios dos anos 70 por fracos resultados comerciais, voltaria depois nos 80 mas não trilharia aí o melhor rumo, para só a partir dos 90 se guindar à sua máxima força. Mas, enfim, isso não vem agora ao caso e são simples pormenores históricos. O que realmente nos interessa saber para a explanação que se pretende é que Magneto, o mutante mau, passou ainda jovem pelos campos de concentração nazis, logo, a data dos acontecimentos do filme estaria muito próxima da nossa actual. Os criadores dos bonecos idealizaram um progresso científico - há 37 anos, repito -, da posse dos mutantes que não se viria a concretizar na prática, sabemo-lo hoje (sequer temos mutantes, os mais aparentados sofrem de outro tipo de mutações e designamo-los somente por políticos...). Mas, sabendo disso, os fazedores da película deixaram que houvesse uma diferença de tecnologia entre os mutantes (atenção que me refiro aos aspectos logísticos e não às capacidades físicas inatas) e a sociedade civil tão grande que se revela absurda e inverosímil. Havia que ter a capacidade para alterar isto, e não se tratava de retirar avanço tecnológico aos mutantes, porque ela está na génese da estória, mas sim dotar os outros de uma melhor tecnologia...
     
      No entanto esta é uma crítica localizada ao filme dado que, em termos gerais, a maior maleita de que padece é a estrutura narrativa pobre, claramente insipiente. Há uma preocupação excessiva com os aspectos mais estéticos, plásticos, de arquitectura de vanguarda cientificamente presumida. E no entanto, noutro aspecto da sua estruturação, numa sociedade não muito distante em termos temporais, povoada pelo medo e preconceito na relação dos ditos normais com os sobredotados (mutantes), com a inclusão de personagens que de tão ricas são capazes de telepatia suprema, olhares destruidores, garras saídas da própria carne, línguas compridas e salivas colantes, regeneração dos tecidos orgânicos do próprio corpo, etc., etc., é tudo descrito muito "en passant", diria mesmo de forma incompetente.
     
      Há no entanto uma explicação para estes pormenores de ligeireza, mas que apesar de a explicarem razoavelmente de forma nenhuma a desculpam. É que este é o caso típico de filme em que faz sentido falar numa saga, numa série próxima de filmes continuadores da história. E nós somos inclusivamente descaradamente enviados para o próximo filme, tal como Magneto jura voltar aos seus actos criminosos e o Professor Xavier se dispõe a lutar contra isso, e tal como Wolverine é instado a seguir para determinado local em busca de respostas para o seu tormento. X - MEN é pois o típico filme feito com o intuito devastador de realizar dinheiro sobre todo o resto, resolvido e fidelizar seguidores, e com o objectivo redutor de se tornar um simples "blockbuster". E este, que poderemos designar como o primeiro da saga, não passará de uma apresentação sumária do que estará ainda para vir.
     
      Em termos de avaliação do trabalho dos actores, o destaque maior e positivo vai para os veteranos Ian Mckellen e Patrick Stewart, a Hugh Jackman é distribuído um fato de número muito superior ao que tem capacidade para vestir, James Marsden (o Ciclope) mais parece um apalermado mutante, e os outros estão lá... Estão lá muito simplesmente para comporem o ramalhete visual de um filme recheado de efeitos especiais, bons porque não dizê-lo, mas tudo o resto não justifica muito alarido. Ou justificará?

X-MEN 2




SIMPLES ESPALHAFATO VISUAL
     
      Recapitulemos: a BD relatando as venturas e desventuras dos X – Men apareceu pela primeira vez nas bancas em 1963 pelas mãos de Stan Lee (argumentista) e de Jack Kirby (desenhador). Devido à fraca procura dos leitores seria mais tarde retirada do mercado (princípios dos anos 70), novamente recolocada (anos 80), mas só a partir dos anos 90 o seu sucesso se revelaria enorme e potenciador de alta rentabilidade para a Marvel. Em 2000, seguindo uma tendência do cinema dos últimos anos, a história seria adaptada à tela grande no filme «X – Men» . E sim, a rentabilidade do projecto era o factor subliminar que mais se pressentia da realização de Bryan Singer. Agora, em 2003, surge «X – Men 2» que no seu país de origem recebeu o singelo mas modernaço título de «X2». Repete-se o nome de Bryan Singer na realização e salvo algumas excepções menores recupera-se igualmente o elenco do primeiro filme da saga.
     
      Digamos que este «X – Men 2» vem na continuidade do seu antecessor. Não só em termos da história, já que são respeitadas as idiossincrasias constantes no primeiro filme e tudo parece começar onde o anterior acaba, como em questão dos objectivos da produção por via do ênfase nos efeitos especiais e na acção desmedida o que, meus amigos, pode muito simplesmente querer dizer que este é também um filme feito a pensar maioritariamente no sucesso de bilheteira. Mas é pena, já que a trama se bem desenvolvida possuía elementos de complexidade capazes de fazerem deste um grande filme dentro do género. A começar pela introdução de uma nova e bastante interessante personagem que alia o seu aspecto atemorizador à personalidade ponderada resultante de uma muito extremada fé religiosa. Ainda para mais, o bom do Nocturno (Alan Cumming), já que é dele que se fala, tem umas tiradas tão oportunas quanto curiosas a espaços pronunciadas num alemão deveras sedutor.
     
      Mas o referido é só um pormenor da trama onde se poderá igualmente inserir a muito humana preocupação referente à natureza de Wolverine (Hugh Jackman) ou o trio amoroso que se forma entre este, a Drª Jean Grey (Famke Janssen) e Cyclops (James Marsden). Na verdade, os argumentistas do filme procuraram dar a volta ao texto e ousaram colocar no epicentro da narrativa uma questão literalmente existencial relativa à ameaça que paira sobre os mutantes. Em paralelo, dá-se a curiosidade de observarmos o vilão Magneto (Ian McKellen) a unir forças com o Prof. Charles Xavier (Patrick Stewart) e duas gerações de X – Men. O mau da fita, esse, é o humano e cientista William Stryker (Brian Cox), um figadal inimigo dos mutantes. Razões para isso também as há, claro, mas essas são para descobrir no filme.
     
      Dito tudo isto, até parece que estamos na presença de um bom filme o que está muito longe de corresponder à verdade. Com efeito, Bryan Singer revela uma incrível capacidade em desperdiçar as mais valias do argumento, fazendo destas um simples trampolim para o grande investimento consumado em efeitos especiais e para as cenas de acção onde os actores mais parecem figuras saídas de um qualquer baile de máscaras. Por outro lado, alguma pertinente construção argumental tendente a simbolizar o preconceito que norteia as sociedades surge num registo de quase comédia o que lhe retira qualquer impacto dramático. Como exemplo disso, cite-se uma frase daquela mãe dirigindo-se ao filho mutante questionando-o de modo quase risível: “(…)e nunca pensaste em deixar de ser mutante?” Acreditem, esta questão merecia um outro enquadramento porque a sua importância enquanto demonstração daqueles valores que levam à intolerância pela diferença do outro é inquestionável.
     
      «X – Men 2» é assim um filme falhado. Não aproveitando as interessantes e complexas contradições de personagens e actos que se pressentem do seu argumento e privilegiando o espalhafato visual, Bryan Singer demonstrou uma clara incompreensão daquilo que, acredito, hoje se espera das adaptações do género. Mais do que isso, Singer teve ao seu dispor um lote de actores onde sobressaem os nomes de Ian Mckellen, Halle Berry, Patrick Stewart, Anna Paquin e Rebecca Romijn-Stamos, para só citar alguns, e esbanjou a oportunidade de os dirigir a preceito. Pior, levou-os a tornarem-se participantes num espectáculo de quase fantoches. Valeu-nos Alan Cumming e o seu peculiar e cativante Kurt Wagner (o mutante Nocturno).