domingo, 15 de abril de 2012

Três






Filosofia alternativa do amor

 

«Três» poderia ser um drama intimista tão interessante quanto estimulante narrando de forma pouco convencional as venturas e desventuras de um triângulo amoroso não tão clássico assim. Desde logo porque se trata da história de um casal que no ano de festejar vinte anos sobre a sua união se apaixona, ele e ela, pelo mesmo homem. E dito isto está também contada a sinopse de um filme realizado por Tom Tykwer, o mesmo de «Corre, Lola,   Corre» [1998] e de «O Perfume- História de Um Assassino» [2006] entre outros. E poderia mesmo.  Até porque há no filme aquele realismo mágico das personagens que tantas vezes é característica exclusiva de algum cinema europeu. Poderia, disse bem, porque, na minha opinião, não é.
E não o é porque a realização de Tykwer, ele que é igualmente responsável pelo argumento, quis explicar em 119 minutos todas as questões ligadas à doença, à velhice e ao amor. E isto para não ser demasiado exaustivo. Assim, passa pelo filme uma panóplia infindável de referências filosóficas, incursões à poesia existencialista, às ciências biomédicas, à medicina e grande diversidade de manifestações culturais. Se juntarmos a isto a informação de que os protagonistas do triângulo amoroso são uma jornalista de televisão especializada em matéria científica [Hanna, a mulher], um cientista genético perito em inseminação artificial [Adam, o amante do casal] e um engenheiro de arte [Simon, o companheiro de Hanna], seja lá o que isso da engenharia de arte for, está tudo dito quanto às pretensões de eruditismo do filme. Mas o que resulta daqui é unicamente uma exposição de ornamentos inúteis numa história de vidas que se bastaria a ela mesma para redundar num grande momento de cinema.
Ainda assim, o filme tem algumas vertentes bem positivas sobretudo no tratamento que faz das personagens. Nomeadamente na subtileza com que faz o enquadramento de cada uma nas questões ligadas à sua sexualidade. A par disso, a realização de Tykwer faz com que essas mesmas personagens se passeiem pelos restaurantes, bares e ruas de Berlim atribuindo um estatuto cinematográfico à capital alemã como tantas vezes vimos fazer com Nova Iorque [através de Woody Allen, por exemplo] ou Paris, por diversos cineastas. E nesta 2ª adolescência que Tykwer permite aos quarentões Hanna, Simon e Adam é de salientar a insistência nos ângulos anatómicos de cada um, nomeadamente na coragem de Sophie Rois [ela que interpreta Hanna]. A amenizar os ouvidos um pouco arranhados pela difícil língua alemã há a meio do filme o soar de «Space Odity», de David Bowie, e, no final, um desenlace pouco surpreendente e algo insípido já que parece ter sido feito a pedido de várias famílias. A ver sem grandes expectativas.


«Drei», de Tom Tykwer, com Sophie Rois [Hanna], Sebastian Schipper [Simon] e Devid Striesow [Adam]



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