terça-feira, 26 de julho de 2011

Porque hoje é dia dos avós

[Home, Sweet Home (...) - 1916: Childe Hassam]




A aventura dos livros





Chegava de mansinho, com um sorriso nos lábios que rapidamente dissimulava em tom severo. 'Menino, são horas de dormir; vamos, apaga a luz e fecha os olhos.' E eu, obedientemente, arrumava o livro que estava a ler na clandestinidade do meu quarto, desligava a luz fraca da lanterna e fechava os olhos. 'Não feches a porta, avó.' E ela não fechava. Voltava mais tarde para verificar se estava tudo bem, noite alongada até ao novo dia do ano a fazer-se anunciar no calendário ao bater das doze badaladas. Depois, andava suavemente corredor fora até se deitar na cama onde o meu avô há muito ressonava cansado do dia duro na quinta.

As noites de quarta-feira vivia-as eu em forte ansiedade. É que, às quintas-feiras, a Biblioteca Itinerante da Gulbenkian visitava a minha cidade lá bem no alto do sopapo de terra dominado pelo velho castelo resgatado aos mouros pelas tropas de D. Afonso Henriques. Assim que as aulas terminavam, corria esbaforido com receio de perder a hora. E invariavelmente escolhia os permitidos seis dos muitos livros criteriosamente arrumados em prateleiras numa carrinha cinzenta conduzida pelo afável Sr. Domingos. 'Despacha-te lá rapaz, que está na hora de ir; anda, anda, não és só tu a gostar de ler!' Num tumulto interior, sem soltar um pio, apressava-me a fazer o registo dos livros e corria de imediato para casa dos meus avós. Subia as escadas que davam para o sótão, abria uma janela envidraçada no lado do telhado a dar para uma enorme figueira, sentava-me numa velha poltrona que tinha pertencido ao pai do meu avô e ali ficava a devorar páginas e páginas de encantar até que a tarde arrefecia e as estrelas surgiam no céu já a escurecer.

Quando descia para jantar, caminhava vagarosamente por entre cheiros e cores de lugares longínquos e fascinantes. Deambulava por paisagens que me eram familiares mas onde jamais tinha posto os pés e errava perdido nas vidas apaixonantes de gentes de costumes estranhos, gente apaixonada ou a viver dramas irresolúveis, gente imaginada pelos escritores que eu invejava. Até que a voz melodiosa da minha avó terminava abruptamente com a minha vida de exilado noutros mundos. 'Come a sopa antes que arrefeça,' ordenava-me. 'Faz o que a avó diz, Joaquim!', acrescentava o meu avô com um timbre de voz ao qual era impossível não obedecer.

E os anos passaram na voracidade do tempo. Entretanto, cresci. As calças substituíram os calções, cresceram-me pêlos no rosto, conheci o sabor do amor, concluí os estudos, tornei-me homem. Antes, primeiro a minha avó e poucos anos mais tarde o meu avô morreram. E o quarto das minhas leituras está agora vazio. Mas as recordações dos meus primeiros passos como leitor permanecem ainda bem vivas em mim. De tempos a tempos relembro a aventura que era a vida naquele tempo folheando no sótão das minhas memórias.


[Texto recuperado]



 

3 comentários:

Anfitrite disse...

Já tinha lido este texto, que também me trouxe muitas coisas à memória.
Também na terra onde eu estudava, e era uma cidade, capital de província, às quartas-feiras, aparecia no Jardim Manuel Bívar, a carrinha da da biblioteca itenerante da Gulbenkian. Se não me falha a memória, era daquelas carrinhas de chapa ondulada, da Citroën. Depois de quase esgotar os livros da biblioteca, do meu local de ensino, passei a ir requisitar livros, todas as semanas. Lembro-me que uma vez perguntei ao senhor se ele tinha determinado livro de Pitigrilli. O senhor ía desmaiando. Perguntou-me espavorido, se eu já tinha lido algum livro dele. Eu, aflita tive de dizer que não! Que tinha sido uma amiga da minha rua que me tinha pedido. Não sei porquê, mas ao aperceber-me do tom, muitas vezes sarcástico do dito escritor, fez com que eu pusesse uma frase dele no meu MSN e na página do FB.

Sandra disse...

Que texto bonito!
Que saudades da minha avó materna, cuja voz melodiosa pareço ainda hoje ouvir.
Também aqui no meu alentejo vinha a carrinha itinerante da Gulbenkian e para mim era dia de celebração.
"Cresci no meio de livros, fazendo amigos invisíveis em páginas que se desfaziam em pó cujo cheiro ainda conservo nas mãos."
Carlos Ruiz Záfon

Carlota Pires Dacosta disse...

Um belo post, belíssimo.
Recordações que chegaram tão depressa ao meu pensamento.
Será o mesmo castelo que estou a pensar, que ficava bem perto da minha casa?!?

Obrigado por estas recordações.

Beijo