quarta-feira, 13 de outubro de 2010

HERÓI


    




  O CINEMA COMO ARTE
     
      Yimou Zhang é um dos mais valorosos cineastas chineses como o comprova a sua irrepreensível filmografia. Em «Herói», Zhang atinge uma espantosa perfeição cinematográfica assente numa estética admirável que a espaços nos parece transportar para defronte de uma pintura. Para uma obra de arte cujas delicadas pinceladas nos conduzem para universos de imponência visual, nos fazem partir para mundos imaginados, nos provocam o sonho e despoletam a emoção. E não era fácil o pressuposto de Zhang para este seu filme. Desde logo porque esta é uma das mais caras produções de sempre de todo o continente asiático. Mas também porque à sua disposição se encontravam alguns dos mais prestigiados nomes do cinema chinês: quem não se lembra ainda do pulsar da sua emoção ao ritmo do bailado dos corpos mutuamente seduzidos em «Disponível Para Amar», de Wong Kar-Wai? Pois esse casal que se recusou a ceder fisicamente à paixão mas nos seduziu a todos, volta a dar as cartas quando o trunfo é o romance neste filme. Mas Tony Leung e Maggie Cheung têm ainda a companhia dessa figura incontornável do cinema de acção que é Jet Li. E é bom que não nos esqueçamos de Daoming Chen, o sereno e compreensivo Rei de Qin que ainda assim não vacila no momento de prosseguir com o seu desiderato.
     
      Apelando ao inegável misticismo que invariavelmente nos provocam todas as estórias que envolvem a China ancestral, o argumento trabalha uma dessas fascinantes lendas. Há muitos, muitos anos, a China estava ainda dividida por sete grandes reinos. Travaram-se lutas fratricidas entre os anos de 481 e 221 a. c., tendo como figura de proa precisamente o Rei de Qin (Daoming Chen) que sonhava unir todos esses reinos num só. Mas o monarca tinha na sua peugada três valorosos inimigos e a quem conseguisse abatê-los prometeu doar riquezas sem fim e enormes poderes. Até que um dia chega à sua corte um guerreiro destemido conhecido por Nameless (Li) que fazia prova de ter conseguido matar Sky (Donnie Yen), Broken Sword (Tony Leung) e Flying Snow (Maggie Cheung) mostrando as armas dos três opositores alegadamente mortos. A partir deste momento, dá-se o confronto verbal entre Nameless e o Rei de Qin e a narrativa embrenha-se nos “flashback” da memória do guerreiro chinês. É desse modo que faz a exposição ao Rei de como havia travado e vencido tão temerários combates. Essa explanação acaba por se materializar num final a todos os títulos assombroso já que a sua dimensão é a da própria filosofia oriental. É por esta altura, que a sala grande onde o filme se projecta torna-se pequena demais para a nobreza de sentimentos que nos é exposta, para o alvoroço íntimo que nos provoca a percepção de estarmos defronte àquele que é, efectivamente, o verdadeiro conceito do herói. Paralelamente, é das fundações da própria China enquanto país grandioso que ainda hoje reconhecemos como tal, que se fala no filme.
     
      Dois filmes e o nome de um realizador são indissociáveis desta colossal obra de Yimou Zhang: os filmes são «O Tigre e o Dragão» (de Ang Lee, 2000) e «Rashômon» (1950); o nome do realizador é exactamente o daquele que dirigiu «Rashômon», o do grande mestre japonês, desaparecido em 1998, Akira Kurosawa. E se as comparações entre o filme de Ang Lee e este «Hero» se consubstanciam sobretudo nas coreografias das cenas de luta, já as que se percebem existir entre «Rashômon» e esta obra de Zhang estã muito mais entranhadas na sua concepção íntima. Sendo Yimou Zhang um confesso admirador do trabalho de Kurosawa, não deixou de lhe prestar uma homenagem em «Herói». Assim, é através dos “flashback” da memória de Nameless que essa intenção de homenagem é conseguida. Isto porque tal como em «Rashômon» são neste filme mostradas diferentes perspectivas de um acontecimento.
     
      No entanto, aquilo que nos fica é a sensibilidade artística de um realizador que construiu um filme monumental, um épico de proporções estéticas inenarráveis a exigirem a presença do espectador numa sala de cinema muito bem apetrechada em termos tecnológicos. O festival de cores que se perdem na dimensão cultural de um país vasto geograficamente para apenas se encontrarem no âmago de quem as assiste é da responsabilidade de Christopher Doyle, que, por mera coincidência ou talvez não, é o mesmo que assinou a fotografia do belíssimo e já citado anteriormente «Disponível Para Amar». Deslumbrante na sua dimensão filosófica, irresistível na capacidade de nos provar como o bem individual deve ser muitas vezes sacrificado em nome do bem comum, doloroso na vertente passional em que a morte não significa o fim para o amor, «Herói» é ternura mas também crueldade, é guerra mas porque busca incessantemente a paz. Em paixões antigas como é o cinema, é de filmes como «Herói» que estas se refazem e redimensionam. Abençoado seja o cinema que nos permite sentir assim.

Sem comentários: